Eu sabia que Carlisle estava desapontado comigo. Desde que ele me transformara, eu procurei me manter o mais perto possível da humanidade, mas para mim não era fácil. Muitas vezes eu esquecia o que era ser humano. Ultimamente meus instintos estavam tomando conta de mim, e eu só pensava em pular no primeiro humano que aparecesse na minha frente. Bem, não no primeiro, mas havia algumas pessoas que eu adoraria matar somente para nunca mais ter que escutar seus pensamentos odiosos. Carlisle sabia o quão perto eu estava de perder o controle, e também sabia que eu não estava mais me esforçando para tentar impedir isso. Eu estava cansado. Eu queria tanto poder dormir. Poder esquecer do mundo, poder esquecer de mim, poder fechar os olhos e não encontrar nada mais que o vazio, apenas um branco que me trouxesse paz.
Eu andava pelas ruas, e as poucas pessoas que passavam de carro estranhavam ver um garoto da minha idade andando sozinho a essa hora da madrugada, totalmente alheio ao perigo. Se eles soubessem que eu era a coisa mais perigosa ali... Ri ao lembrar-me de um policial que me escoltou até em casa e ainda deu uma bela bronca em Carlisle pela 'irresponsabilidade'. Na ocasião eu quis matá-lo somente para fazê-lo calar a boca, agora, se eu encontrasse um policial eu continuaria sugando-lhe o sangue até muito depois do sujeito ter calado a boca.
Oh Deus, ele irá me pegar! Não há lugar em que eu possa me esconder!
Você não tem escapatória, vagabunda! Não pense que pode fugir de mim!
Uma mulher entrou em um beco em frente à rua na qual eu estava, e cerca de dois minutos depois, um homem parou, olhando para os lados até decidir entrar no beco também. Ele estava muito irritado com a possibilidade de perdê-la, e ao mesmo tempo excitado, pensando no que fazer quando a encontrasse. Seus pensamentos me enojaram. Eu sabia quem a moça era, já que em outro dos meus passeios noturnos ela me oferecera seus 'serviços'. Eu pensei em ir embora, e dessa vez meus próprios pensamentos me enojaram. Como eu podia pensar em deixá-la nas mãos daquele ordinário somente pelo fato dela ser uma prostituta? Que direito eu tinha de julgá-la? Eu era muito pior que ela... Eu era um monstro com sede de sangue, e naquele momento era sangue que eu teria. Corri até o beco, e vi o desgraçado desferindo violentos chutes nela, que chorava e gemia de dor. O cheiro de sangue me atingiu de tal modo que eu fiquei zonzo por um momento. Nunca ninguém havia sangrado perto de mim, e eu não estava preparado para aquilo. Apesar de eu saber que era o homem que merecia morrer, minha atenção estava fixa na mulher, e minha garganta ardia, pedindo pelo sangue dela. O sabor, oh, o sabor devia ser divino, ao menos uma vez eu saberia como era estar no céu. O sujeitinho olhou para trás e me viu, parando de chutar a mulher por um momento.
- O que você quer, pivete? Ela? – ele apontou para a moça e riu – Essa vadia vai ficar fora do mercado por um tempo, eu estou ensinando-lhe uma lição, sabe como é... Vagabundas como essa aqui merecem...
Eu rangi os dentes e olhei-o com tanto ódio que ele deu um passo para trás. No momento ele não entendia o porquê de estar hesitante quanto a um 'frangote' como eu, mas logo eu iria lhe mostrar o que era sentir medo.
- Vá embora daqui antes que eu quebre seus dentes, moleque... – ele disse tentando parecer confiante, e agarrou os cabelos fartos da mulher – Ou quer acabar como ela?
Eu estava fora de mim. Eu estava me sentindo como o homem estava se sentindo agora há pouco. Eu estava irritado pelo fato de estar perdendo o controle, e excitado com a perspectiva de... Matar. Eu queria ver todo o sangue daquele desgraçado escorrer, direto para a minha boca. Eu queria que ele sentisse dor, que ele gritasse, que ele chorasse implorando por misericórdia. Eu queria que ele sentisse o mesmo que aquela moça estava sentindo, e que todas as outras sentiram. Eu queria tanto dar uma lição nele que o cheiro do sangue da mulher já não me afetava.
- Você é quem vai acabar como ela... Muito pior, eu diria...
O meu tom de voz congelou-o. Eu fazia questão de escancarar meus dentes, e ele tremia em puro terror. Apesar de eu não achar certo aqueles joguinhos de crueldade, eu estava sentindo prazer. Ele merecia.
- Se... Se afaste... – ele murmurou com voz fraca, paralisado pelo medo.
- Senão... O quê? – eu ri de maneira sádica, e em um segundo estava ao lado dele, quebrando-lhe os dedos.
O grito de sofrimento do canalha fez-me sorrir em puro deleite. Eu derrubei-o no chão, e quebrei-lhe a perna, torcendo-a como um açougueiro fazia com o pescoço de um frango. Os gritos dele naquele momento lembravam-me os meus quando eu estava sendo transformado.
- O que diabos você é?!
- Eu sou um monstro pior que você. – eu disse com um largo sorriso no rosto.
Ele tentou arrastar-se para longe de mim, e a minha gargalhada foi tão alta que ele tapou os ouvidos com as mãos. Eu ria, mas estava irritado. Puxei-o e o empurrei com força contra a parede, fazendo-o cair ao lado da mulher, que apenas assistia a tudo de olhos arregalados e boca aberta. Voltei a sentir o cheiro de sangue, que dessa vez, vinha dele. Minha garganta voltou a arder, e eu decidi não esperar mais. Trouxe-o até mim, e usei tanta força que um braço dele acabou quebrando. Mais uma enxurrada de gritos, e aquilo já estava começando a me entediar. Mostrei meus dentes para ele, dessa vez com o rosto bem próximo do dele.
- Diga adeus. – sorri, e virei o pescoço dele para mim, cravando minhas presas na pele macia, estremecendo de prazer quando o sangue desceu até meus lábios. Eu sugava com avidez, e meu veneno fazia o sujeito se debater com força, e seus gritos eram dez vezes mais altos que antes. Eu me sentia no céu. O sabor era fabuloso, e enquanto eu sugava, só pensava em mais, mais, mais.
Eu lutara todo aquele tempo para não ser um monstro, um demônio que se alimentava de humanos. Eu não queria ser odiado por Carlisle. Mas eu não agüentava mais. E eu sabia que havia humanos tão desprezíveis quanto nós, vampiros. Que não tinham necessidade de matar, que não precisavam ficar dia e noite lutando contra a sede de morte e destruição. E mesmo assim o faziam. Muitos humanos mereciam um castigo como esse. E eu podia muito bem eliminar pessoas como esse homem do mundo, sem ter que matar inocentes. Quem sentiria falta de uma criatura como essa?
Suguei até a última gota de sangue do infeliz, e chutei sua carcaça para o lado. A mulher havia desmaiado de tanto medo.
Eu estava dividido entre a alegria e o desdém. O meu corpo se sentia satisfeito, e parte daquela agonia que me assolava desde que eu me transformara se fora. Mas o desdém, o nojo por mim mesmo ainda estava ali. Mas eu não pararia. Não abdicaria de sangue humano. Algumas pessoas não mereciam viver. Eu só me alimentaria de pessoas que se divertiam ás custas do sofrimento dos outros, assim como eu... Assim como eu estava me divertindo agora há pouco. Talvez os vampiros tivessem sido feitos para acabarem com pessoas desse tipo. Minha mãe costumava dizer que o diabo era o primeiro a apontar os pecados alheios e a julgar. Talvez ela estivesse certa, afinal de contas, eu não era esse monstro, e que mesmo assim vivia julgando e desdenhando dos outros? Eu iria julgar apenas aqueles que mereciam, e talvez eu pudesse fazer o mundo, de alguma forma, melhor.
Corri para o mais longe que pude, ainda inebriado pelo cheiro de sangue que manchara minha camisa. Corri para longe dali, para longe de Carlisle, para longe de mim.
A partir daquele dia, eu não viveria. Eu não vivia há muito tempo. Eu apenas tiraria a vida daqueles que não mereciam viver.
Gente, segunda parte da série. Eu reparei que a fic não está aparecendo nas buscas, se depois da adesão desse capitulo, a fic continuar não aparecendo, eu vou excluí-la e repostá-la. ;)
Reviews, ok?
