Sozinho no meu quarto,
eu acordo sem você
Fico falando com as paredes
ate anoitecer.

Algumas frestas de luz invadiam o quarto através da janela. Deitado na cama, Milo relutava em abrir os olhos... não sairia daquele paraíso matinal tão cedo. Sorriu. A noite não fora mais do que merecedora de um sorriso. Girou o corpo para abraçar a parceira, porem... havia um indesejado espaço. Sobressaltado, abriu os olhos. Estranhou o fato de ela não estar ali. Virou a cabeça de um lado para o outro, na tentativa de achá-la, em vão. Onde ela estaria? Sua mente estava turva demais para identificar.

Esfregando os olhos, levantou-se em passos lentos. Ao olhar o espelho... ah aquele espelho! O corpo dela fora refletido ali... A alvura tão intensa daquela pele... aquelas esmeraldas brilhantes que formavam seus olhos... aqueles lábios rubros que o levaram ao feitiço do desejo... como aquela mulher conseguira exercer tanto domínio sobre ele? Ficara enfeitiçado com o veneno que ela espalhava.
Olhou-se no espelho. Ainda vestia a calca com a qual dormira. Porem, pela noite despiu-se e não se lembra de tê-la colocado outra vez.

"Por Zeus... o que aconteceu?"

Escorou um dos braços na parede, bufando, indignado. Passou a mão pelas têmporas e pelos cabelos azuis em um gesto nervoso.
Não havia mais dúvidas. Tudo não passara de um sonho. E que sonho... parecia ter sido tão real...
Desolado, caminhou de volta para a cama e sentou-se na ponta. O perfume da venenosa ainda estava ali, impregnado... podia sentir o cheiro emanando dos lençóis em que se enroscaram. Tomou um dos lençóis na mãos. Levou-o a face e com suavidade massageou a mesma. Como queria não acordar... podia ainda sentir as sensações que o prazer lhe proporcionou na fantasia.

- Aquela garota me impressionou demais... - Sussurrou para si mesmo, antes de jogar as costas sobre a cama.

De fato. Aquele encontro não fora um encontro qualquer. Percebeu isso quando seus olhos se cruzaram. Fora algo tão impressionante que ela tivera o poder de invadir seus sonhos!

- Pelo menos no meu sonho eu vi aquele rosto... - Sorriu por ter em sua mente essa vaga lembrança. Tentava lembrar detalhes desse momento tao perturbador e fascinante. Por um momento, flashes borbulharam em sua mente e a voz suave da mulher ecoou:

"Gostou do nosso encontro hoje... Me disseram que eu vou sofrer muito nesse lugar... me beija..."

Sacudiu a cabeça negativamente, tentando não pensar na possibilidade de estar enlouquecendo. Preferia acreditar que só ficara impressionado com a atração que sentira pela moça. Mais nada. Não daria vazão a seus devaneios. Mas que fora inesquecível... nao podia negar.

Arqueou a sobrancelha. Teria de voltar à realidade. Sua missão de protetor o chamava e não deveria submeter-se a ilusões.

Arrumou-se rapidamente, correndo com suas atividades matutinas e partiu para a Arena. Alguns amigos seus já haviam se adiantado no treinamento. Aproximou-se dos companheiros, cumprimentando-os como de costume, ate seu melhor amigo chamá-lo para um canto.

- Por que você demorou tanto? - Kamus perguntou um pouco preocupado.

- Demorei? Nem percebi...

- Aconteceu alguma coisa? Você esta com uma expressão tão abatida...

- Não, não aconteceu nada... - Milo deu um toque leve no ombro do amigo. Por mais que Kamus estivesse certo, o motivo daquele abatimento nem para o seu melhor amigo queria contar.

- Certo. Vamos treinar antes que o mestre nos tire as armaduras...

- Vamos.

Ambos dirigiram-se ao centro da Arena. Posicionaram-se em ataque e ali começou o treinamento. Cada um desferia suas aprimoradas técnicas enquanto o outro usava seu melhor artifício de defesa.

- Agulha escalarte!! - Gritou o escorpião, enquanto Kamus preparava-se para o desvio e para a defesa.

Um segmento vermelho cruzou na direção de Kamus. No entanto, Milo o viu ser interrompido quando acertou o corpo de alguém que não era o de Kamus. Pode ouvir um grito agudo de dor e a pessoa foi-se ao chão, desfalecendo. Um objeto metálico deslizou ate os pés de Milo, que o tomou nas mãos. Logo em seguida, dirigiu-se para a pessoa. O objeto era uma máscara e olhando o corpo, viu que era uma mulher. Ela caira de bruços, mas percebeu que o golpe a atingira bem no peito. Teria de agir rápido para que o veneno da agulhada não lhe causasse o dano maior.

Kamus, também preocupado, aproximava-se, mas Milo o deteve em um gesto.

- Deixa comigo, Kamus.

O aquariano acatou o pedido do amigo e afastou-se. Milo agachou-se ao lado do corpo e com cuidado virou-o de frente.

A imagem a sua frente o fez congelar. A menina que lhe havia perturbado no dia anterior... estava ali, em seus braços... e DESMASCARADA!

Seu coração martelava, sua respiração encontrava-se ofegante. Podia ver o rosto da garota pela primeira vez, ou melhor... pela segunda. Ela não era nada diferente de como ele sonhara.

Aos poucos ela foi abrindo os olhos, sua cabeça pesava e seu corpo não sentia o chão. Viu um rosto masculino a sua frente e um belo par de olhos azuis fitando-a.

- Vo...ce...? - Sua voz saiu muito abafada e, sem forças, voltou a desmaiar.

Milo sabia que o que acabara de fazer era desrespeito a uma mulher cavaleiro e que talvez aquilo lhe custasse a vida. Talvez não se ela agisse como nos seus sonhos. No entanto, o momento não pedia sensos de respeito. Pedia sim, com desespero, que a mulher fosse ajudada. Tanto o momento como seu coração...

Colocou a mascara sobre o rosto dela outra vez. Tomou-a nos braços por completo, direcionando-se para a enfermaria. Os outros rapazes que o viram se afastar aproximaram-se curiosos:

- Milo? O que aconteceu?? - Perguntou um rapaz de cabelos castanhos e olhos azuis parcialmente escuros.

- Nada, Aiolia. Eu a machuquei sem querer.

- Ela e a amazona de cobra...

- A..mazona de cobra? - Balbuciou Milo.

- Sim. Até ontem era uma aspirante, mas o mestre lhe consagrou com a armadura. O estranho e ela estar por aqui desprovida da armadura.

Milo ficou em silencio. Parecia refletir. Aiolia, analisando bem a jovem que Milo carregava nos bracos, constatou algo:

- Hum, se bem que ela não parece tão ferida assim.

- E que a minha agulha a atingiu sem querer. Eu estava treinando com o Kamus quando ela cruzou entre nós dois e foi acertada.

- Não creio que tenha doido tanto.

- Não sei. Por via das duvidas, vou levá-la para a enfermaria. Volto depois.

- Mas Milo... não e certo, alguém pode...

- Aiolia, eu a machuquei. Ela foi pega de surpresa e não pôde se defender. Tenho que agir imediatamente para reparar o que eu fiz - Miro disse determinado, já caminhando para a enfermaria.

Deixou sozinho um cavaleiro confuso, ou melhor, dois, já que Kamus aproximava-se dele.

- O que o escorpião foi fazer? – Indagou o aquariano

- Levar a Shina para a enfermaria. – Esclareceu o leonino.

- Shina? O nome daquela garota é Shina?

- Sim. Descobri ontem quando ela recebeu a armadura. Marin me falou dela. Só não entendo a razão de Milo carregá-la até lá.

- Parece que a atingiu com seu golpe enquanto treinávamos.

- Er... eu queria especular, mas Milo não deixou. Coisa estranha é esse cara fazer gentilezas. ... - O leao sorriu com ironia

- Nunca conhecemos as pessoas o suficiente para julgá-las, Aiolia. - Kamus parecia defender o amigo.

- Você que e tão amigo dele que deve saber...

Ambos regressaram às atividades, esperando que Milo voltasse.

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O imponente cavaleiro que caminhava rumo a um casebre hospitalar, carregava uma mulher nos braços. Em sua concepção, o gesto gentil que praticava no momento lhe tirava parte da imponência. Mas sua preocupação entrou em duelo com o seu orgulho. Não iria deixar a jovem desfalecida à toa sem fazer nada.

Pensava nas afirmações de Aiolia. Amazona de cobra... em seu sonho, lembrava que a chamou de Ophiuchus. De certo modo, as duas denominações estavam relacionadas. E aquele brilho da constelação... anteriormente havia reconhecido pelo desenho da urna que ela levava nas costas. Fora um dos poucos detalhes que ele conseguira reparar. Agora estava convicto de que a menina era a representante da constelação pela afirmação de Aiolia.

- Não se preocupe. - Com ternura nos olhos, olhou o rosto coberto - Já estamos chegando. - Disse, ainda que ela não o ouvisse.

"Amazona... uma mulher com um rosto tão delicado..."

Era algo que talvez ele nunca entendesse. Se já era difícil a admissão de mulheres no Santuário de Athena, imagina uma cuja a feminilidade ele ja desvendara...

Uma coisa não podia negar: Sentia-se ligado de corpo e alma aquela garota. Desde o primeiro olhar... por um milésimo de segundo parece que um conseguiu atravessar a alma do outro. E o encontro aconteceu em sonho.

Confuso, lembrava-se do que dizia a ela: "Estamos destinados um ao outro, esqueceu?"

Meneou a cabeça negativamente. Não, ele só podia estar enlouquecendo! Como poderia estar destinado a uma pessoa que mal conhece? Já chega! Levaria logo a amazona para a enfermaria e de lá regressaria para junto dos amigos. Lá e seu lugar. Tudo não passara de uma mera coincidência que ele deveria esquecer.

Seu pensamento ia nesse ritmo, ate mirar o rosto coberto mais uma vez. Seu coração hesitou. Preferia acreditar que era uma coincidência, mas bem naquele momento a carregava nos braços. Seria mesmo obra do acaso?

Caminhou a esmo, suas pernas não o levaram para a enfermaria. Estava carregando-a havia alguns minutos. Ela não acordava...

Ate que chegou a beira de um precipício. Era a primeira vez que visitava aquele lugar. Como chegara ali? A enfermaria ficava no lado oposto.

Estático, ficou a observar o cenário. Aquela vista lhe dava uma visão panorâmica do Santuário, sendo a maior vista a de uma estátua enorme acima de um passo de escadas.

Milo fechou os olhos. Esperava respostas para suas incertezas. Deixou que o vento brincasse com seu cabelo, jogando-o contra o rosto. Sentiu seus bracos fraquejarem, quase deixando o corpo imóvel que carregava cair. Segurou-o com mais força, afastando-se um pouco da beirada.

Menina Veneno
O mundo é pequeno
Demais prá nós dois...

Sentou-se no chão, com cuidado, não a soltou. A cabeça dela ficou apoiada em seu peito e ele não pode deixar de estremecer. Por que diabos não a levava de uma vez a enfermaria? Por que seu inconsciente tinha sempre que agir numa hora dessas?

Perguntas inúteis. Ele já estava lá, sentado com ela nos bracos, sob um límpido céu que testemunhava o que ele sentia. Não podia mais negar. Apaixonara-se pela desconhecida, a representante de sua constelação vizinha.

Tomou uma ultima decisão. A mão que a segurava sob as pernas foi ate seu rosto e num gesto determinado, arrancou sua máscara. Sua pele encontrava-se pálida, seu olhos fechados. A visão o encantou. Atreveu-se a tomar essa atitude insana pela ultima vez, pois não saberia quando veria aquele rosto novamente.

Com delicadeza, deslizou os dedos pela face dela. Temia que acordasse.

- Se estamos mesmo destinados... não quero que o destino se force...

Abaixou a cabeça lentamente ate que os lábios encostassem nos dela. A principio, um leve roçar em torno de sua boca. Logo em seguida, estalou um pequeno beijo. Seria a momentânea despedida.

Pôs a máscara sobre o rosto dela e com cuidado foi se levantando. Girou para fazer o caminho de volta, no entanto, foi interrompido por duas meninas serelepes que saltitavam com alegria.

- Ate que em fim tivemos folga! - Exclamou uma delas.

- Pois e! Eu não agüentava mais treinar!

- Mas teremos que voltar daqui a pouco!

- Ah, para! Ainda temos algumas horas de descanso! Não me lembra disso agora!

Continuaram dialogando ate que dois "psius" as interromperam:

- Oi meninas. Vocês são aspirantes, certo? - Perguntou Milo, após ouvir a conversa das duas.

- Somos sim... quem é você?? - Estranhou uma delas a presença de Milo.

- Isso não importa agora. Eu só lhes queria pedir um favor.

- Fa.. vor?

- Sim. Por favor, cuidem dela para mim. Levem-na de volta para a área das amazonas.

- Mas...

- Por favor. Ela se feriu, mas não e nada muito grave. Só quero pedir isso a vocês...

- Esta bem...

- Obrigada, meninas. - Colocou-a no chão, ao pé da garotas. Deu meia volta para ir, porem... - Ah, só mais uma coisa. Não contem para ninguém que me viram com ela nesse lugar, nem mesmo para ela quando acordar. E o ultima favor que eu lhes peco.

As duas meninas se entreolharam. Estavam achando aquele sujeito estranho demais. No entanto, ele parecia suplicar para manterem aquele sigilo. Resolveram atendê-lo.

Milo já fazia o retorno para a área de seu treinamento, mas antes não deixou de olhá-la. Poderia ser que daqui a um ou dois dias se reencontrassem... ou em algumas horas talvez. No final do dia estaria dormindo e pode ser que a alma dela quisesse dizer-lhe novamente palavras em seus sonhos.

O veneno dela já escorria por suas veias. Não poderia negar para si mesmo, estava enfeitiçado de corpo e alma. Ate quando duraria esse feitiço, nao sabia. Não parecia ser efêmero. Mas agora não queria se livrar assim. Conviveria pacificamente com esse novo sentimento, aceitando-a amá-la de longe, abdicando bem aos poucos do homem orgulhoso que era.

Você vem não sei de onde
Eu sei, vem me amar
Eu nem sei qual o seu nome
Mas nem preciso chamar...

Correspondido? Talvez não. Mas seus delírios não o trairiam assim. Não o deixariam acreditar que estava à beira da loucura.

Ela se entregara a ele, suas lembranças eram premiadas com essas imagens. Queria ir outra vez para o seu quarto e sonhar... mas a obrigação o chamava.

"Meu nome... um dia você vai descobrir..." - as palavras ecoavam.

Esse seria o próximo passo. Mas não se esforçaria para isso agora. Se tivesse que descobrir, descobriria por acaso.

Sorria ao caminhar. Tentaria levar sua vida normal, com as coisas que costumava fazer no seu dia a dia para que o destino com ela viesse a se cumprir. Ela acabara de ser nomeada a amazona de cobra e certamente não estaria a par de tal destino. Quanto a ele, saberia esperar. A espera o transformaria no apaixonado Cavaleiro de Escorpião.

Fim.

__S_and_M__

Antes que eu esqueça:

Música utilizada: Menina Veneno

Intérprete: Richie

Well... pra quem tinha medo de publicar um ai aqui, eu me superei. Insegurança trava tudo. Mas resolvi me desfazer disso. Não se pode agradar a gregos e troianos e fico feliz por saber que algumas meninas gostaram. Grata, meninas. De coração. E a quem não deixou rewiew, mas assim mesmo leu, estou grata também. ^^

Esclarecimentos sobre o encontro imprevisto e nada casual no quarto do Milo: Eu não acredito no acaso. Não sei se as pessoas acreditam, mas não escreveria tal cena tão íntima depois se um encontro tão aparentemente casual se eles se conhecessem ao acaso. Tem um quê de filosofia e espiritismo nessa fanfic. O encontro dos dois foi programado, ele ter sonhado com ela e tais diálogos serviram de sinais para um futuro não muito longínquo. Isso acontece muito quando tal pessoa nos causa sensações parecidas ao que Milo sentiu. O mistério dela o atraiu muito e vice-versa. Talvez a curiosidade ficasse no subconsciente dele, mas o provocou de tal maneira que tanta coincidência não poderia existir. E de fato, o diálogo esclarece. "Eu vou esperar por você."

Quando acorda, ele não se lembra de tudo. Muitas coisas se esquecem para não se viver em função disso. Imagina só... xD

Bom, vou parar por aqui antes que eu escreva uma resenha sobre. =P

Queria muito agradecer à Alana pelo apoio e pelo incentivo. Pelas dicas também, claro. Essa fic seria uma oneshot enorme se não fosse pelo toque dela. Valeu, amiga. Sempre conversando comigo sobre Milo e Shina, enriquecendo meus devaneios. ;)

Agradecimentos:

Coraline Mary: Muito obrigada pela leitura. Fiquei contente com o seu rewiew. Pelo que você pôde ler agora, sim, foi um sonho. Espero que minha explicação tenha te esclarecido. Eu também não acho que a Shina se entregaria assim, apenas por um amor extremo. No sonho foi o caso. ;)

Lillith 06: A você eu já agradeci. ;D mas ficam aqui meus mais sinceros agradecimentos pelo apoio de sempre.

Nicky: Hahahahaha... quente, é? =P... espero que não ache esse capítulo um banho de água fria. ^^

Obrigada pela rewiew, fiquei muito contente.

Amaterasu Sonne: Aí está o próximo. \o/

Espero que você escreva mais sobre eles também. Beijão. =*

3334556: Não seria nada. xD... sensualidade é a marca registrada deles. Sem medo de ficar batido ou clichê, eles exalam sensualidade. Que bom que gostou. Espero que esteja a seu gosto esse capítulo.

É isso aí, pessoal. Besitos, até a próxima. =**