- Tudo bem – Hermione respondeu. Não seria a primeira vez que passaria por aquilo. Quando a curandeira começou a aplicar a poção, fechou os olhos. Era realmente muito dolorido. Tentava solucionar um enigma: o que um lobo gigante siberiano fazia em Hogwarts?

Draco e Hermione tinham aquela tarde de sexta-feira "livre". Não acompanhariam a aula de Snape, pois ficaram encarregados de elaborar algumas questões para os NOMs e NIEMs. Como tudo o que faziam aquela era mais uma etapa da competição e Hermione sabia que precisava se superar. Tinha perdido pontos importantes ao não entregar o veritasserum. A culpa por não ter conferido mais uma vez se os frascos estavam com o feitiço inquebrável a assolava.

Estava estudando em seu quarto, por que a presença de Draco a irritava. Os olhares e as poucas palavras. A presença dele era uma constante lembrança de como se perdia, como se entregara tão facilmente ao toque dele, ao cheiro, ao sabor de Draco Malfoy.

Balançou a cabeça, forçando-se a voltar sua atenção ao trabalho.

Do lado de fora, Draco passava pelo mesmo dilema. Sabia que deveria manter-se longe dela. Que tudo aquilo era uma insanidade e, mesmo assim, queria estar com ela. Sentir o corpo de Hermione Granger novamente. Queria terminar o que havia começado.

Aquele era o momento perfeito. Olhou a decoração do ambiente e os quadros que o encaravam. Sim, era o momento perfeito. Lançou um feitiço e todos foram cobertos. Ignorou os xingamentos. Que corressem para avisar Snape. Não havia quadros na sala de poções e era lá que seu padrinho estava.

Levantou-se, lançou um olhar para fora, observando o pálido sol que não conseguia derreter a neve que se acumulava na paisagem. Ajeitou a gravata e caminhou até a porta do quarto de Hermione. Bateu com força e esperou.

- O que você quer, Malfoy? – claro que ela abriria.

A vontade dele era dizer você. E beijá-la ali mesmo, sob o batente da porta, contra a porta,... Em tantos lugares... Fazê-la descruzar os braços que elevavam levemente seus seios e sentir as mãos dela percorrendo seu corpo. Tocar a pele macia dela e senti-la sob si.

Sua vontade era beijar cada pedaço do corpo proibido. Fazê-la dele e apenas dele.

- Vamos, Malfoy, eu não tenho o dia todo. Ao contrário de você, não recebo privil- Só que ela não terminou a frase e Draco também não respondeu a pergunta dela. Fez o que queria. Draco Malfoy sempre fazia o que queria. Não foi um beijo delicado e nem romântico. Não. Aqueles adjetivos não combinavam com ele.

Por isso não esperou para colocar sua língua dentro da boca dela, exigindo que a dela fizesse parte daquele jogo. E ela correspondeu com o mesmo fogo. Com a mesma intensidade. Por que Hermione sabia que necessitava daquilo. Dos beijos, dos toques e do corpo de Draco Malfoy.

Empurrou-a para dentro e fechou a porta com um pontapé, sem soltá-la. Era assim que se sentia: não podia soltá-la. Sua mão foi diretamente para o seio dela, apertando-o sobre a blusa. Encostou-a contra a porta com firmeza. E ela gemeu. Aquilo o excitou ainda mais e ele já estava excitado. Mostrava isso se esfregando contra Hermione.

- Malfoy...

- Não, não. Meu nome, Hermione, diga meu nome – e ele precisava daquilo: que ela gemesse o nome dele. Malfoy era seu pai, seu avô... E ele queria sentir-se único. O pedido veio na típica voz arrastada, rouca e sensual. Como ela podia negar qualquer coisa naquele momento?

- Draco...

Ele beijava seu maxilar, pescoço e boca. Incessantemente. Sentia a mão dela por baixo da sua camisa. Queria sentir a pele dela. Queria ver conhecer o corpo dela. Tatilmente. Visualmente. Suas mãos foram até os ombros de Hermione, pressionando-a ainda mais contra a porta.

- Ai... – ele reconheceu um gemido de dor. Olhou-a e viu a expressão.

- O que houve?

- Um pequeno acidente na Floresta Proibida... Não que você realmente se importe, Malfoy, mas cuidado com meu ombro.

Draco desabotoou a blusa rapidamente. Preocupação?

Viu as marcas na pele dela e deu um passo para trás. Sua mão indo inconscientemente até sua cicatriz.

- O... O que é isso, Granger? O que aconteceu?

- Fui atacada por um lobo gigante siberiano.

- Como? Granger, isso é impossível... Não há lobos gigantes por aqui! – Draco exclamou, passando a mão pelos cabelos. Sua excitação havia desaparecido.

- Ah não? O certo seria dizer "não deveria ter lobos gigantes por aqui" – ela fechou sua blusa – Pomfrey já receitou uma poção, passei uma noite em observação e em alguns dias cicatriza. – Hermione encarava Draco que tinha as mãos nos cabelos e os olhos fixos no chão.

- Malfoy, você está bem?

- Não, Granger... – Hermione afastou-se da porta e caminhou até ele. Seu seio colou ao corpo de Draco, que fechou os olhos, sentindo todas as sensações invadirem seu corpo novamente. – Granger, é melhor...

- É melhor o que? – ela perguntou, a boca já colada ao pescoço alvo. Os fios loiros roçavam sua pele. – Acha que isso é algum tipo de brincadeira, Malfoy? Que você pode me beijar e me largar quando bem entender?

- Você sabe que da última vez não tive muita escolha, Granger...

- Agora você tem.

Só que ele não tinha escolha.

Puxou o cabelo de Hermione pela base da nuca e beijou-a com violência, suprimindo o gemido dela com seus lábios. Afrouxou o nó de sua gravata e rasgou a camisa dela. Seus lábios ainda colados aos da morena. Caminhava até a cama aos tropeços. Tirou a camisa que Hermione vestia, largando-a em qualquer lugar do chão. Empurrou-a sobre a cama e tirou os próprios sapatos. Seu corpo todo clamava por ela. Quando se sentira assim? Não havia nada que pudesse fazer para se conter, apenas render-se...

Puxou a gravata pela cabeça, bagunçando ainda mais seus cabelos e tirou sua camisa. Trancou a porta do quarto e murmurou um feitiço. Snape poderia aparecer com uma horda de erumpentes: nada o interromperia naquele momento.

Enquanto observava Draco se despir, Hermione tirou seu tênis e puxou as meias. Observou cada detalhe do peito que a hipnotizara desde que vira pela primeira vez. Logo o corpo do loiro estava sobre o seu e sentiu os lábios dele sobre as feridas no ombro.

Ele a explorava com a língua. Com os lábios. Hermione fechou os olhos e entregou-se a esse prazer. Já havia perdido a virgindade com Rony uns anos antes e depois tivera um romance passageiro com um colega do curso de curandeirismo, só que nada era comparável com o que sentia naquele momento.

- Meu nome, Hermione, lembre-se de gemer o meu nome.

Ela não esqueceria. Claro que não.

Elevou as costas e permitiu que ele desfizesse o fecho que prendia seu sutiã. Tinha as pernas ao redor da cintura dele. Tecido contra tecido e mesmo assim sentia o membro dele roçando contra sua intimidade.

Sentia-se úmida.

Sentia-se dele.

Aquela sensação não era normal, mas ela não se importava.

Era como uma droga e precisava de mais. Precisava de Draco Malfoy.

Ele já estava sem camisa e as mãos trêmulas dela desfizeram o fecho do cinto. Depois, abriu o botão e desceu o zíper.

Draco sustentava seu corpo com um braço enquanto a outra mão percorria toda a pele dela.

- Vou passar a tarde toda dentro de você, Hermione. – as palavras dele foram sussurradas contra o pescoço dela.

- Draco... Isso... Isso é loucura...

- Uma loucura que você concordou entrar e agora, Hermione, é tarde demais para sair.

- Você faria algo que eu não quisesse? – ela perguntou, alternando palavras e beijos.

- Duvido que você não me queira dentro de você. Agora use meu corpo para calar a sua boca, Granger. Não gosto quando começa a ficar muito racional. Não precisamos disso agora.

Dedos, mão, dente e a língua de Draco se alternavam para sugar seu seio. Ela gemia... Ora agarrava o lençol, ora agarrava o cabelo dele impedindo que ele se afastasse e ora suas unhas entravam na pele das costas do loiro.

A cintura de ambos se mexia em sincronia em uma brincadeira sensual e envolvente.

Draco voltou a beijar os lábios dela e sua mão livre desceu até a calça, abrindo-a e inserindo dois dedos intimidade de Hermione. Afastou-se de repente, olhando-a. Hermione abriu os olhos sem saber quando os tinha fechado. Encarou os cinzas escurecidos do rapaz em cima de si. E Hermione pensou que ele era sem dúvidas, muito, muito bonito. E sexy.

- Aposto que nenhum homem soube realmente apreciar seu sabor, Hermione – ela mordeu o lábio inferior – Não, não... Nada de se conter comigo. Já disse que quero você gemendo meu nome. Mais do que isso – e ele a tocava com precisão – quero você gritando o meu nome.

E Hermione sentia um arrepio percorrer todo seu corpo. E gemia o nome daquele que aprendeu a odiar. Dos seus lábios apenas saía um nome: Draco.

Porém, antes que alcançasse o prazer completo ele retirou os dedos e ela não conteve uma expressão decepcionada. Draco riu.

- Ainda temos algumas horas pela frente... – ele sugou seus dedos e fechou os olhos – Deliciosa. Como te disse, Hermione, nenhum homem soube realmente apreciar seu sabor.

- Você não tem como saber disso.

- Tenho sim... Um dia te explico. – o sorriso de lado. Irônico e zombeteiro. Hermione apoiou a mão no peito dele e fez com que ele se virasse. Sentou-se sobre ele.

- Minha vez, Draco...

Ele cruzou os braços sob a cabeça e disse, ainda sorrindo ironicamente:

- Sou todo seu. Pelo menos por hoje. Aproveite...

Hermione saiu da cama e retirou a própria calça, ficando apenas com a delicada calcinha preta.

- Você é sexy, Hermione. Muito sexy... Como te disse... O pobretão não tem noção do que perdeu.

- Então... Melhor você não perder...

- Nunca – ele disse e observou enquanto Hermione subia em seu colo, sentando-se sobre seu membro. Depois a morena inclinou-se e percorreu o peitoral dele com sua língua. Passou pela cicatriz. Subiu os beijos e depois desceu. Abriu o zíper de calça. Draco levantou o quadril e Hermione retirou a calça, deixando-o apenas com a boxer.

Viu o volume e voltou a esfregar-se sobre ele. Menos tecido entre os dois. Agora era Draco quem gemia o nome dela. Os dedos de Draco estavam entrelaçados nos cachos castanhos. Os lábios de ambos se encontraram, para depois Hermione novamente beijar seu peito, barriga, virilha e descer lentamente sua boxer. Ele não ofereceu nenhuma resistência.

- Hermione...

Draco gemia o nome dela, sabendo que estava se entregando a algo proibido. Sabendo que a estava levando para algo perigoso, arriscado, mas não se importava. Importava apenas tê-la ali. Estar ali... Sentindo-a. E Hermione era muito melhor do que ele poderia sequer imaginar. aquilo só aumentava o perigo... E sua excitação.

Sentiu a boca quente e úmida dela envolver seu membro e soltou um palavrão. Hermione sabia o que fazer e ele estava cansado daquele jogo.

- Pare, Hermione – ela não obedeceu. Fazia tanto tempo – Pare... – ele segurou com força o cabelo dela. A morena parou o que estava fazendo e olhou para Draco. Sorriu de lado, sentando-se sobre ele novamente.

- Você que começou esse jogo, Malfoy.

Mais rápido do que ela pensava, Draco mudou as posições.

- E eu vou terminá-lo – tirou a calcinha dela, com pressa. Beijou-a com desejo e enquanto a língua dele invadia a boca de Hermione, seu pênis a penetrou com força. A morena gemeu contra a boca dele.

As mãos dela foram até as nádegas de Draco, apertando-as. Ele movimentava-se de forma rítmica. Os olhos de ambos não se desprendiam.

Sons de corpo, palavras. Hermione e Draco.

Gozo.

Quando terminou, ele caiu deitado ao lado dela. Respirações ofegantes. Os últimos raios de sol entravam pela janela. Não tinha percebido como o tempo passara rápido. Hermione tinha os olhos fechados. Quando sentiu Draco sair de dentro de si, foi como se a realidade a atingisse como um rio. Ela tinha acabado de transar com Draco Malfoy.

E, de alguma forma estranha, aquilo não a incomodava.

Levantou-se e vestiu sua camisa. Sua calcinha estava rasgada.

- Já vai me expulsar da sua cama, Granger?

- Não estou te expulsando... Apenas me vestindo. Deveria fazer o mesmo – jogou a roupa de Draco para ele. O loiro permaneceu deitado por alguns instantes, apenas escutando os passos dela pelo quarto.

Hermione andava de um lado para outro se sentindo angustiada... Não por estar arrependida... Mas por que não sentia um pingo de arrependimento e só pensava em uma coisa: repetir o que havia acabado de acontecer.

Draco sentou-se na cama, vestiu sua camisa, depois se levantou e colocou a boxer. Andou até Hermione e segurou-apelos braços, cessando o andar dela.

- Sei que não está arrependida. Há muito tempo não somos crianças, Granger.

Ela o encarou e notou que os olhos dele tinham voltado ao habitual cinza. Não estavam mais escuros como... – O que aconteceu? – Draco notou a mudança nela, mas sem entender o motivo – Granger, eu preciso ir – ele olhou pela janela, mas ela encarou algo sobre sua escrivaninha – O que aconteceu hoje... – o loiro colocou suas mãos ao redor do rosto dela, fazendo com que se olhassem novamente – Eu também não me arrependo e quero que aconteça de novo, mas eu preciso mesmo ir...

Silêncio.

O coração dela batia de forma descompassada. Era como se tudo fizesse sentido.

Draco, por outro lado, não compreendia o que estava acontecendo. Só que ele não podia esperar. Deu um rápido beijo nos lábios dela e saiu. A porta batendo atrás de si.

O cérebro de Hermione funcionava rapidamente. Pegou uma roupa, foi até o banheiro e tomou uma ducha. A porta do quarto dele estava fechada, mas Hermione sabia que ele não estava lá.

Saiu do aposento e foi até a Biblioteca. Madame Pince olhou-a com censura por entrar correndo, porém nada falou. Hermione tinha agora acesso à Seção Restrita. Foi até lá e procurou um livro avançado de poções. Pegou-o e foi até uma mesa. Abriu no índice, indo até a letra M. Seus olhos percorriam as páginas, lendo tudo rapidamente. Sua cabeça começou a doer violentamente.

- Malfoy. – ela falou consigo mesma – seu egoísta filho da puta.

Era inútil tentar se acalmar. Pegou o livro e saiu da Biblioteca. Os alunos iam ao Salão Principal, para o jantar, mas ela seguia uma única direção: Floresta Proibida. Olhou para seu relógio e depois para o céu. Sabia que o melhor seria confrontá-lo no dia seguinte. Só que, apesar de todas as evidências, ela não queria acreditar. Por isso, precisava ver.

Embrenhou-se na floresta Proibida. Em uma mão o pesado livro; na outra, sua varinha. Tinha certeza que ele a acharia antes. Ouviu o farfalhar das folhas secas e o grande lobo cinzento apareceu e dessa vez não a atacou.

- COMO VOCÊ PÔDE? - o lobo permaneceu parado – Seu hipócrita filho da puta! Fingindo que não sabia... Foi VOCÊ que me atacou há dois dias e... E... O que fizemos hoje e nos outros dias... – o grande lobo abaixou a cabeça – Não me dirija uma única palavra ou um olhar... Nada... Nunca mais, Malfoy! NUNCA! – ela correu de volta para o castelo. O lobo deu alguns passos na direção que a garota havia tomado, depois parou e entrou na Floresta novamente.

- Seu moleque mimado e estúpido!

- Não sou nenhum moleque, Severus... E, por favor, estou cansado... – Draco disse – E com fome. Os animais desaparecem dessa maldita floresta por causa do frio.

- É um moleque se age de forma irresponsável! Eu sei o que houve ontem.

- Não sabia que apreciava voyeurismo, padrinho – a ironia irritou o professor de poções que se levantou, deu a volta na mesa e puxou o loiro pela gola da camisa – Ei!

- Eu sou seu padrinho e também sou seu responsável, Draco, e me deve respeito. Você atacou a Granger! Consegui impedir que a Pomfey comunicasse a diretora sobre a notícia de um lobo gigante siberiano.

- Não posso fazer nada se a sabe-tudo resolveu...

- Cale-se! Até quando vai responsabilizar os outros por suas cagadas?

Draco fitou com raiva os olhos negros do professor.

- A culpa do que aconteceu comigo é de Bellatrix e de Fenrir.

- Só que o que você faz com isso é responsabilidade sua. Ninguém sabe sobre sua condição. Minerva jamais teria aceitado sua inscrição... – Draco soltou uma risada desdenhosa.

- Claro... Mas ninguém se incomodou com Lupin ensinando, não é mesmo?

- Já passou da época de se fazer de vítima. Você sabe por que com você é diferente. Já conversamos sobre isso.

- Vou para meu quarto. Preciso de um banho e um bom café-da-manhã – Draco colocou a mão na maçaneta para abrir a porta, mas parou quando ouviu a voz grave de Snape.

- Quero apenas te proteger.

Sem resposta, Draco saiu da sala e percorreu as masmorras que estavam imersas no silêncio.

- Acha mesmo que pode fugir de mim? – o loiro bloqueou a passagem de Hermione.

- Fiz isso muito bem nos últimos quatro dias – ela deu um passo para a esquerda; ele, para direita.

- Fez por que eu deixei você fugir. Para se acalmar.

- Acalmar? Acalmar? Quatro dias não são suficientes!

Mas, os poucos dias foram suficientes para deixar Draco ansioso. Ele precisava dela. E não foi por acaso que resolveu encurralar a garota naquele corredor. Lá não havia quadros para espionar por Snape.

- Eu posso explicar.

- Explicar? Eu não preciso de explicações. Sei muito bem o que você é. Sei muito bem que é...

Draco a puxou e calou-a com um beijo. Ela tentou se separar, mas ele ignorava seus protestos. Draco era maior e mais forte. Conteve facilmente ambos os braços dela atrás das costas e caminhou com Hermione até uma sala. Prendeu-a com seu corpo contra a porta. Beijava-a com ferocidade. Em algum momento, ela parou de resistir e retribuiu aos beijos. Hermione sentiu seus punhos seres soltos e conseguiu empurrá-lo. Limpou seus lábios com as costas das mãos. Aquilo feriu Draco.

- Você vai me ouvir – ele pegou sua varinha e a desarmou rapidamente, depois trancou a porta. Ela cruzou os braços, visivelmente enfurecida. A roupa estava desalinhada e os lábios vermelhos, decorrente do beijo forçado. Uma visão tentadora para o loiro.

- Ouvir o que eu já sei? Que você é um lobisomem, toma a poção Mata Cão e me atacou semana passada? E depois ainda se fez de desentendido quando viu as marcas que você me causou!

- Chega de acusações e me ouça! – ele disse com raiva – Eu não me lembro do ataque! A poção Mata Cão evita que eu...

-... Sofra a transformação completa. Eu sei disso. Você tem a mente humana, o que significa que você sabia o que fazia quando me atacou!

- Se não se calar, vou te enfeitiçar, Granger! – ela ficou quieta, mas manteve a expressão emburrada – Snape aprimorou a poção, mas não totalmente. A poção tradicional faz com que seu corpo se transforme em lobisomem, só que Snape fez com que eu virasse um lobo. A aparência de um lobisomem é grotesca.

- Só você mesmo para se preocupar com aparências numa hora dessas...

- Sou Draco Malfoy – ele deu de ombros e continuou – Só que na primeira hora de transformação minha mente é totalmente lupina.

Os dois se olhavam. Hermione andou até uma cadeira, sentando-se. Draco fez o mesmo, ficando de frente para ela.

- Você poderia ter me matado.

- Poderia.

- E por que não matou?

- Não sei – ele mentiu – Acho que o meio gigante bobalhão impediu que o pior acontecesse. – eles ficaram novamente em silêncio – Como descobriu?

A pergunta direta fez com que Hermione corasse. Draco notou, no entanto não comentou nada.

- Seus olhos... E alguns fatos.

- Meus olhos?

- Sim. Eles mudaram de cor quando nós... Bem,... eram os mesmos olhos do lobo. Depois liguei com o fato que você sempre some nas noites de lua cheia e sua cicatriz... É semelhante ao meu ferimento – o silêncio novamente – Greyback?

- Sim. Castigo encomendado por Bellatrix – Draco tocou o peito sobre a camisa – Eu fiz isso comigo mesmo na minha primeira transformação – os dois se encaravam sem nada dizer. O loiro olhou para o ombro dela – Vai ficar... marcado?

- Não. Já está melhor – Hermione respondeu. Agora ela sabia por que era tão difícil ficar longe dele.

- Faça sua pergunta, Granger.

- O que acontece agora? O que acontece agora que... – coragem, ela pensou – Agora que transamos?

- Agora você quer que eu fale o que já sabe? Você não foi forçada a nada! – Hermione notou o tom acusatório na fala dele e abriu a boca, indignada.

- Não, não fui forçada, mas também não sabia que você era um lobisomem adolescente!

- Sou adulto, Granger! – os dois elevaram a altura da voz e se puseram em pé.

- Na idade lupina você não é, Malfoy! E também nem na humana, pelo jeito! Você foi infantil e egoísta! Como você pôde? – ela perguntou, o indicador batendo no peito dele.

- Eu não consegui resistir a você, sua maldita sangue-ruim!

Draco segurou o punho dela e a puxou para si. Hermione só teve tempo de soltar uma exclamação de surpresa antes de sentir os lábios dele sobre os seus.

E Draco a fez dele mais uma vez. Semi-vestidos e contra a porta de uma sala qualquer.

- Anda desconcentrado, Draco?

Hermione sentiu o rosto corar e encarou o chão. Suas mãos cruzadas atrás das costas. O loiro nada respondeu, olhando de forma superiora para Severus.

- Bom... vou entender seu silêncio como um "sim". As questões da Granger estão melhores que a sua... Sendo assim... Dessa vez ela que venceu o desafio.

Hermione mordeu os lábios para não sorrir. Draco olhou para o padrinho e apenas levantou a cabeça, entendendo que ele fizera aquilo de propósito. Mas não se importou. Sabia que aquela vaga seria sua. Tinha que ser sua.

Saíram da sala e Hermione olhou para o lado. Ele tinha a expressão séria. Não estava nos planos dele ser ultrapassado por ela e a morena sabia muito bem disso. Todos os dias, em todas as tarefas Snape dera um jeito de privilegiar Malfoy. Exceto no preparo do veritasserum, onde um inesperado infortúnio fizera com que ela perdesse o trabalho de semanas.

Caminharam em silêncio. Hermione sem saber o que dizer e Draco não dizendo nada para não começar mais uma das incontáveis brigas que tinha com a garota. O culpado era Snape. Ou não. Era ele mesmo. Sem dúvida as perguntas de Hermione estariam melhor, mas seu padrinho deveria ajudá-lo. Só que duvidava que teria tanta ajuda assim fazendo o que estava fazendo. E Severus sabia o que ele estava fazendo apesar de não ter tocado mais no assunto.

Draco Malfoy estava fodido.

Seria deserdado se seu pai descobrisse sobre ela.

Traiu os ideais da família, foi transformado em um lobisomem e estava preso a uma sangue-ruim provavelmente pelo resto de sua vida.

Entre eles havia isso: brigas, sexo, competição.

Ambos podiam resumir o relacionamento conturbado que viviam com aquelas três palavras. Incrivelmente clichê dizer que eles seguiram para o sétimo andar, mas não entraram no aposento que dividiam. Seguiram para a Sala Precisa.

Material no chão e corpo contra sofá, porta, cama, parede.

Havia desejo e necessidade.

E, às vezes, muito às vezes, calmaria...

- Quando fez essa tatuagem? – ela perguntou olhando cada detalhe da figura que ocupava grande parte das costas do rapaz.

Draco estava deitado nu, de barriga para baixo e a cabeça sobre um travesseiro. O desenho bem feito terminava no final das costas e o bumbum arredondado dele era uma visão que ela não se cansava de observar. Hermione, deitada de lado. A cabeça apoiada em sua mão.

O loiro via a beleza discreta dela. E era cada vez mais difícil resistir. Os traços delicados, os cachos. O cheiro de baunilha que se misturava ao cheiro do sexo. Ao cheiro do uísque que compartilhavam ocasionalmente.

Tudo acontecia muito rápido.

Só que era incontrolável e ele sabia. Os dois sabiam.

Essa foi uma das razões de ter se candidato a vaga de aprendiz de Severus Snape. No castelo estaria afastado de mulheres. Obviamente não se envolveria com estudantes... Mas agora... tudo estava perdido. Tanto ele como Hermione se entregavam àquele prazer, optando, propositalmente, em não pensar nas consequências. Optando em não pensar como seria quando um dos dois fosse eliminado.

- Dois anos atrás... – Hermione desviou os olhos para o rosto dele, fios loiros cobriam parcialmente o rosto de Draco. Ele tinha os olhos fechados, mas Hermione sabia que ele não estava dormindo.

- Combinou com você...

Ela voltou a olhar a tatuagem. Seus dedos percorrendo levemente a pele dele. O desenho era feito em escalas de cinza com algumas nuances em verde. Alguns tons acinzentados combinavam assustadoramente com os olhos dele. Um grande dragão envolvia uma lua cheia. Não se sabia se o dragão dominava ou estava subjugado àquela lua. Era extremamente lindo e sensual.

- Você vai mesmo ficar no Weasley durante o Natal? – Draco perguntou quebrando o silêncio que se fez depois do comentário dela.

- De novo essa pergunta? – ela deitou-se, encarando o teto. Já o loiro assumiu a mesma posição que ela, deitado de lado. Observava-a com atenção. Não era isso que fazia desde seus dedos envolveram o pescoço dela? Que sentira o cheiro dela e o pulsar acelerado da veia da jugular?

Observava Hermione Granger. Como sua presa. Como sua.

E o lobo pedia por mais dela. E Draco já não sabia a quem respondia... Se a ele mesmo ou se ao lobo.

- Sim, de novo essa pergunta. Quem sabe você não muda sua resposta? – ela bufou e sentou-se. Draco fez o mesmo. Não tinha vergonha de ficar nua na frente dele. A lareira estava acessava, iluminando e aquecendo o pequeno ambiente.

- Não vou mudar de resposta. Irei para Toca amanhã cedo e volto um dia antes das aulas recomeçarem – a garota notou a raiva nos olhos dele.

- São 18 dias, Granger.

- Sim, eu sei fazer contas – respondeu, sem ligar para a irritação dele.

- A lua cheia é no começo de janeiro... Você sabe o que isso significa? – Draco perguntou, seus dedos roçando a perna dela, subindo tentadoramente e vagarosamente: joelhos, coxa,...

- Que você vai precisar, literalmente, se virar sozinho.

O loiro parou seu movimento, segurando a coxa dela com força. Ela reprimiu um gemido de dor.

- Não gosto de respostas engraçadinhas...

Hermione simplesmente deu de ombros. Draco sentiu o peito formigar. O lobo antecipando a separação dela. Da sua presa. Da sua... companheira.

Levantou-se e jogou a roupa dela que estava espalhada pelo chão sobre a cama.

- Vá embora. Saia daqui, Granger.

- Vai agir dessa forma? Como um namoradinho enciumado? – ela perguntou irritada, colocando a camisa de qualquer jeito e depois saindo da cama para terminar de se vestir.

- Você sabe muito bem que não é isso! – Draco colocou sua boxer. Andava nervoso de um lado para outro, parecendo um animal acuado.

Ela sabia que não era só isso, mas também não compreendia totalmente aquela situação. Como poderia compreender? E Draco, racionalmente sabia disso, mas sua mente não usava apenas o racional. Não. Afinal, desde quando tinha ciúmes de Hermione Granger com o pobretão Weasley?

Desde que o loiro a tomara como sua.

- Você não vai voltar para o quarto, Malfoy?

- Não – ele disse sem olhar para a morena. As mãos dele foram para os fios loiros, tentando controlar-se.

- Como você preferir... Tenha um bom Natal...

Hermione caminhou até a porta. Um lado seu, um grande lado queria ficar. Inventar qualquer desculpa para não partir da Sala. Draco finalmente tinha parado de andar e encarava a lareira. As chamas refletiam no corpo alvo, dando uma tonalidade avermelhada na pele clara. Ele ainda tinha as mãos no cabelo e respirava rapidamente. Ela podia notar o perfil tenso. O corpo bem esculpido.

Ela realmente pensou em ficar... Mas partiu.

Draco saiu do seu estado e jogou a garrafa vazia contra a parede.

Ele queria pedir para que ela ficasse... Mas calou-se.

- O que está acontecendo com você, Mione?

Ela estava olhando pela janela a neve que caía sobre o jardim da Toca. A voz de Harry a tirou de seus pensamentos. Rony estava com ele, um pouco atrás e as mãos nos bolsos. Ela sabia muito bem o que aquilo significava.

- Não tem nada acontecendo – ela mentiu – Acham que é fácil conviver com Snape e Malfoy?

- Parecia bem fácil da última vez que vi... – Rony falou em voz baixa, mas Hermione ouviu.

- O que você quer dizer com isso, Ronald? – ela virou-se completamente para os amigos e cruzou os braços.

- Ron, por favor... – Harry falou no costumeiro tom apaziguador.

- Quero dizer que não somos idiotas e está claro que algo está acontecendo - Hermione olhou de um para outro. É óbvio que eles sabiam.

As luzes natalinas piscavam na pequena sala dos Weasley. Todos tinham saído estrategicamente do pequeno cômodo, deixando apenas o trio. Hermione abaixou os olhos. Vergonha.

- Vocês vão me odiar... – Harry deu um passo para se aproximar, mas Rony o impediu. Ele andou até ela, sua mão repousando delicadamente no queixo da amiga, fazendo com que se olhassem.

- Nunca...

Ela respirou lenta e profundamente... Depois começou sua narrativa e, quando terminou, esperava que Draco não encontrasse de forma alguma com Harry e Rony.

Draco passaria o Natal com Snape. Aquela vinha sendo sua rotina desde o fim da guerra. Apenas os dois. Eles partiriam de Hogwarts na véspera do Natal e estariam de volta no dia 26. Quanto ao Ano Novo... Snape não era homem de comemorações. E essas também andavam escassas na vida de Draco.

Assim que acordou viu um pequeno pacote sobre sua escravinha. O formato era menor que um livro. Estava acostumado a ganhar livros do seu padrinho, mas ele sempre os entregava antes do jantar. Não poderia ser da...

Como uma criança, ele correu até a mesa e rasgou o bonito embrulho. Viu o que mais parecia um diário gasto. Virou de um lado para o outro sem entender. Depois notou o envelope e retirou de lá um pergaminho.

Quando Remus morreu herdei todos os livros dele. Inclusive seu diário. Sei que seu caso (nosso, melhor dizendo) não é similar... Mas acredito que de qualquer forma pode te ajudar...

Feliz Natal,

H. Granger

Draco folheou o diário do ex-professor.

Aquele presente mexeu de alguma forma com ele. Mexeu com seu lado humano. Um lado que ele havia esquecido muitos anos atrás.

Aquela sensação de esperar sabendo que a espera é inútil. Era o que acontecia com Hermione naquela noite de Natal. Ela cumprimentava seus amigos e sorria a cada presente dado ou recebido. E tudo era falso.

Esperava apenas por algo de Draco. Algo que sabia que nunca receberia.

Não dele.

E assim o Natal passou e Hermione notou que seus amigos resolveram fingir que a conversa entre eles não acontecera. Era mais fácil culpar exclusivamente Draco. Ela também o culpava, mas nada disso teria acontecido se ela não o tivesse beijado. Mas como resistir a Draco Malfoy?

E ela não pôde resistir a ele e pior... Ela sentia falta dele. Muita.

Observava os fogos coloridos e animados produzidos pelos gêmeos. Sorria. Aquela tristeza feliz.

- Você não vai entrar, querida?

- Daqui a pouco, senhora Weasley... – a matriarca não insistiu. Deu um abraço na garota e entrou com os outros.

O vento batia gelado, bagunçando e enchendo os cachos de flocos de neve.

- Pensando em mim?

Hermione levou a mão ao peito, mas relaxou ao reconhecer a voz dele. Não tinha ouvido a aproximação.

- Malfoy! Que susto! – ela o encarou. A pele clara, a roupa negra. Ele sempre andava bem vestido. Parecia ainda mais alvo por causa do ar frio. Tinha olheiras e uma névoa rodeava o rosto dele, conforme o ar saía pelas narinas e pela boca. - O que faz aqui? – ela olhou para os lados, apreensiva.

- Preocupada com seus amigos?

- Na verdade preocupada com o que eles podem fazer com você!

- Comigo? – ele deu um pequeno sorriso irônico.

- Eu contei para Harry e Rony sobre nós – o loiro continuou olhando como se ela não tivesse falado nada demais.

- E daí, Granger? – Draco aproximou-se olhando fixamente para ela – Antes eu não tinha medo deles, acha que agora seria diferente? Meus instintos estão mais aguçados e estou mais rápido. Nenhum deles teria a menor chance... E o melhor é ficarem bem longe de mim quando for época da Lua cheia. Principalmente o Weasley.

- O que você está fazendo aqui? – ela repetiu sua pergunta já que não sabia o que dizer. Ele aproximou-se ainda mais.

- Vim desejar feliz ano novo para a família do pobretão – ele lançou um olhar desdenhoso para a casa.

- Pelo menos ele tem uma família – o olhar frio e cinzento dele voltou-se com ferocidade para Hermione, que se arrependeu imediatamente de suas palavras – Desc-

- Você está certa. Ele tem uma família... E eu? O que tenho?

Ela já podia sentir o calor que emanava do corpo dele. E Draco podia sentir o cheiro que tanto ansiava. Queria calar o lobo dentro de si, mas sabia que era impossível. Principalmente ali, diante dela.

- Você sabe que tem a mim... – ela disse sem pensar, apenas sentindo. O loiro puxou-a para si. Sua língua percorreu os lábios dela. Um roçar leve e sedutor. Ela ofegou e fechou os olhos.

- Tenho, não é mesmo?

E sem esperar por resposta aparatou com ela dali.

- Sabe que Harry e Ron são capazes de matar o Malfoy se souberem que não passou a noite aqui – Hermione não falou nada diante da afirmação da sua amiga. Ela tentou entrar da maneira mais silenciosa possível e conseguiu. Só que a Gina já a esperava sentada na cama.

- Sim, eu sei disso... Mas...

- Você acha que com Tonks foi a mesma coisa? – Gina perguntou, realmente curiosa.

- Não... – Hermione começou a trocar de roupa, não tinha dormido quase nada. Só que não seria nada bom se seus amigos a vissem com a mesma roupa do dia anterior – Quando ela e Remus se envolveram ele não era um lobisomem adolescente...

- E qual o grande problema? – Gina perguntou, curiosa.

- O problema é que... – porém uma batida na porta interrompeu o que ela estava dizendo.

- ENTREM! – Gina gritou.

Harry e Rony entraram no quarto e Hermione preferiu não encarar os amigos. E

- O que está fazendo? – os dois perguntaram ao mesmo tempo.

- Resolvi voltar para Hogwarts antes – Hermione puxava seu malão debaixo da cama. Estava de costas para os três e começou arrumá-lo.

- É por causa dele, não é? – Rony perguntou, imediatamente. Ela não respondeu – Responda, Hermione! – ela permaneceu em silêncio. O ruivo foi até ela e a virou com força.

- RON! – Gina exclamou. O ruivo tinha a mão em torno do braço dela e a olhava com frieza.

- Você quer mesmo ouvir a resposta da sua pergunta, Rony?

- Parem com isso... Os dois – Harry interveio.

- Você passou a noite com ele... – a voz de Ron era um murmúrio. Os olhos fixos no pescoço dela. Hermione, então, lembrou-se da mordida que levara do loiro – Vá embora, Hermione – ele a soltou.

- Esperem! – Harry aproximou-se dos amigos – Hermione, você não pode ir... Amanhã é noite de lua cheia.

- É por isso que preciso ir! Vocês não entenderam ainda? – ela olhava de um para outro. Gina ainda em sua cama, sem entender o diálogo dos três.

- Sim, nós entendemos muito bem, Mione! – era Ron falando – Por isso estamos preocupados!

- Ele não vai me atacar! Ele não se transforma totalmente! É como Lupin!

- Não compare Malfoy ao Lupin! – Harry rebateu, irritado. Sua calma evaporando-se imediatamente – Lupin morreu para combater os ideais que o Malfoy defende!

Hermione abaixou a cabeça, depois olhou os olhos verdes do amigo.

- Desculpe, não foi isso que eu quis dizer... – ela falou, virando-se e pegando seu malão – Acontece que Tonks aceitou como Lupin era e ele nunca a feriu. Ele jamais machucaria a Tonks.

Os dois deram passagem para ela sair do quarto e Harry tornou a falar.

- Você está se esquecendo de um detalhe, Hermione – ela voltou a encarar o amigo – Tonks e Remus se amavam.

- Não, Harry, eu não me esqueci desse detalhe – ela segurou a maçaneta – Só que minha situação não depende de amar ou não amar. Eu pertenço a ele agora e nada poderá mudar isso. Nada...

Hermione fechou a porta do quarto e seguiu para lareira sumindo entre as chamas verdes.

Draco andava de um lado para o outro. Primeiro dia de lua cheia. Ainda tinha o gosto dela em seus lábios. Em seu corpo. O cheiro dela em sua narina. A poção sobre sua escrivaninha.

Ainda ouvia o coração dela batendo, a veia da jugular pulsando contra seus lábios. E quase, quase a mordera com força suficiente para tirar sangue dela. Mas não mordê-la com força, não sentir o sabor do sangue dela era um desafio. Ele ainda não era adulto, mas era um jogo perigoso.

Ambos já estavam perdidos e Draco sabia que agiu de forma egoísta ao tomá-la para si sem contar que era um lobisomem. Só que não seria egoísta ao ponto de mordê-la realmente. Não poderia fazer aquilo.

O cheiro dela invadiu novamente seu quarto e ele atirou-se sobre a cama. Seu membro já pulsando por antecipação. Ajeitou a calça.

- Que merda você fez, Draco? Que merda você fez?

Levantou-se rapidamente... Sem acreditar. Abriu a porta e encontrou com Hermione parada, prestes a bater.

- Você voltou...

Draco sabia que eram poucos os seus momentos de verdadeira felicidade só que ele sentiu a sensação invadir seu corpo e alegrá-lo e acalmar o lobo que uivava dentro de si.

Ela voltara para ele. Por ele.

- Eu quero estar ao seu lado. Na sua transformação.

Ele ainda estava parado tentando acalmar as batidas aceleradas. Segurava a maçaneta com firmeza. O lobo pulsando dentro de si. Ainda era cedo, mas o lobo sentia que estava chegando a hora de sair.

- Sabe que não pode ficar perto de mim na primeira hora.

- Você não me matou... Por quê? – ela repetiu a pergunta. E Draco pensou em mentir, mas como? O impulso lupino pulsava em seu corpo. Não só um impulso sexual.

- Porque mesmo como lobo, reconheci seu cheiro. Só que eu era animal, Granger, e você humana. Não te matei, mas não podemos arriscar novamente. Não posso arriscar sua vida novamente.

- Eu espero terminar a primeira hora e vou ao teu encontro.

Ela estaria com ele. Draco fechou os olhos. Nunca tivera ninguém. Apenas Snape. Até sua mãe afastara-se quando soubera no que ele se transformara. E ela estava ali. Sua sangue-ruim. Ela estaria ao lado dele no momento mais difícil de sua vida.

Hermione, instintivamente, deu um passo para trás quando Draco abriu os olhos. Eram de um cinza enegrecido.

Draco soltou um urro baixo e puxou-a para si, com força.

- Não se afaste de mim...

Era uma ordem. Logo sentiu os lábios dele em sua pele.

- Snape... – ela disse. Se encontravam em salas escondidas, pois sabiam que o professor de poções era contra esse envolvimento.

- Ele não está no castelo. Agora se cale e nunca mais fale o nome de outro homem quando estiver comigo, Hermione.

Ela achou aquilo sinistramente engraçado. Draco Malfoy com ciúmes do Snape?

- Fala sério, Draco, - ela disse de forma entrecortada sentindo a boca e as mãos dele percorrerem seu corpo- ciúmes do Snape?

- De qualquer um, Granger... De qualquer um – e beijou-a, sua língua invadindo a boca dela. Fechou a porta do quarto pressionando o corpo dela contra a porta. Ela gemeu de dor e prazer contra a boca dele.

Ela começou a beijar o pescoço dele e ambos tiravam as roupas rapidamente. Ávidos.

- Draco... – ela mordeu o ombro do loiro quando sentiu os dedos dele em sua intimidade.

- Hermione... Apenas minha... Minha mulher, minha companheira... minha ...

É uma luta constante manter-me longe dela.

Dora é meu destino... Mas será que eu sou o destino dela?

Hermione e Draco tornaram-se ainda mais íntimos e mais unidos depois que ela o acompanhou durante a transformação. Ela esperava no castelo terminar a primeira hora e depois encontrava com Draco na Floresta. Ele a acompanhava até a Casa dos Gritos depois de caçar. Às vezes Hermione levava comida, ignorando os olhares questionadores dos elfos quando ela pedia por pedaços de carne crua.

Ela sentava no chão e Draco, transformado em lobo, apoiava sua cabeça no colo dela. Ficavam em silêncio durante toda a noite. E, assim, se entregavam um ao outro. No silêncio e na cumplicidade. Hermione por estar ao lado dele, por guardar o segredo de sua transformação. E ele por aceitá-la naquele momento, no momento que mais odiava de sua vida.

Este era um fato que ninguém poderia contestar: ambos estavam presos a isso. Eternamente.

A morena andava pelos corredores pensando nisso. Já estavam chegando ao fim de janeiro e passara todas suas noites com Draco. A competição continuava acirrada entre os dois durante os dias, mas à noite, na cama, eram apenas um.

E ela soube por que para ele era tão importante a vaga. Soube mas não contou para o loiro. Ela descobriu que...

Hermione parou ao ouvir vozes vindas de uma sala vazia. Já tinha passado do toque de recolher e tinha autoridade para tirar pontos das casas.

Aproximou-se silenciosamente para pegar os estudantes no flagra, mas, de repente a conversa pareceu interessante...

- Foi fácil, fácil de ganhar esses cem galeões, não é mesmo? – um rapaz disse e Hermione os observou pela fresta.

- Sim! E logo vamos ganhar mais!

- Poxa, vocês poderiam me colocar nessa também? Afinal, como conseguiram? Nunca me contaram!

- Ele pediu para não contar, no entanto, precisaremos de uma terceira pessoa.

- E ele dará cem galeões para cada um de nós? Cem galeões?

- Sim, isso mesmo. Olhe aqui – um dos rapazes mostrou um pergaminho.

- Você deveria queimar isso – o outro pediu. Hermione sentiu o mundo rodar, não poderia ser... Mas era... Ela reconhecia muito bem dois dos três rapazes.

- Eu vou queimar, mas antes precisamos repassar o plano...

- Da outra vez deu tudo certo e ela nem desconfiou! Acha que agora será diferente?

- O que vocês fizeram? E o que tenho que fazer?

- Simples: roubar uns pergaminhos da Granger.

- Enlouqueceram?

- Não, não! – um deles falou. Hermione olhava para dentro da sala, com raiva e decepção. Era o rapaz que a derrubara e fizera com que suas poções quebrassem.

- Ele nos ajudará. Como disse: cem galeões! Da outra vez precisamos apenas trombar com a Granger, Malfoy fez o mais difícil que foi entrar no quarto dela e desfazer o feitiço que protegia os frascos.

Ela sentiu o mundo rodar. Ele tinha a prejudicado propositalmente e, mesmo com tudo o que estavam passando, ele faria de novo.

- E como vamos roubar esses pergaminhos?

- Serão as provas dos estudantes do quarto ano. Ele deu a senha do aposento que eles dividem, nós vamos...

E ela parou de ouvir. Afastou-se sentindo vontade de chorar. De gritar. De matar Draco Malfoy.

- Granger? – ouviu a voz dele chamando, mas o ignorou. Entrou em seu quarto batendo a porta com força, tentando controlar sua respiração.

- Agora não... Por favor, agora não – ela disse quando ouviu o loiro abrindo a porta do seu quarto. Não conseguia olhar para ele. Quando sentira tanta raiva?

- O que aconteceu? – Draco perguntou notando o estado dela. Preocupação. Era o que ele sentia. Estava preocupado com ela.

- Quero ficar sozinha, Malfoy... Saia.

- Não até que me explique – insistiu. Então Hermione o olhou e Draco sentiu seu coração falhar algumas batidas. Ela tinha os olhos vermelhos e o rosto marcado por lágrimas.

- Agora não. Saia do meu quarto. SAIA! – ela exclamou, nervosa. Hermione apontou para a porta e seu corpo todo tremia. Draco relutou entre sair e ficar. Às vezes Hermione parecia se esquecer que ele jamais poderia deixá-la – Saia... Eu não quero te ver e nem quero estar perto de você agora... Saia... Por favor.

Nem quero estar perto de você.

Aquilo feriu o orgulho de Draco. Ele empertigou-se e levantou o queixo escondendo sua humilhação. Escondendo sua preocupação.

- Como quiser, Granger. Não ligo a mínima para você.

- Eu sei disso – a frase dela não passou de um suspiro baixo, só que ele ouviu. Ouviu e preferiu ignorar.

Eu estou me importando cada vez mais com Tonks. Eu noto os olhares dela, mas finjo não ver.

Ninfadora Tonks é pura e eu sou um lobo.

- Já corrigiram as provas? Saibam que quero as correções com as devidas anotações - Draco abriu sua mochila e entregou os pergaminhos para Snape, que olhou para Hermione – Estou esperando, senhorita Granger.

Ela olhou para Draco que rapidamente desviou o olhar de si. Hermione abriu a mochila e entregou as provas para Snape. Mas a atenção da morena estava em Draco. E ela notou a surpresa nos olhos dele.

- Professor – ela começou – se alguém trapacear... O que acontece?

- Está acusando o senhor Malfoy de algo? – Snape perguntou, sem esconder sua desconfiança – Deveria saber que...

- Eu não citei o nome do Malfoy – ela interrompeu a fala do professor – Apenas uma pergunta.

- Se a trapaça for comprovada, o participante envolvido será expulso.

- Apenas isso que eu queria saber, professor – Hermione levantou-se, jogando a mochila sobre o ombro – Até segunda-feira – e saiu da sala. Quando se viu sozinho com seu afilhado Snape perguntou:

- Você anda trapaceando?

- Claro que não, Severus – Draco mentiu, sentindo-se desconfortável.

- E acha mesmo que Granger se esqueceria de lançar o feitiço para proteger os frascos? Eu sei que você aprontou algo, Draco.

- Sabe, é? – o loiro levantou-se, mas Snape continuou sentado – Como professor não deveria averiguar essa suspeita?

- Como se você não soubesse que estou te ajudando, Draco. Como se você não soubesse que estou te favorecendo... Mas sou discreto e, além do mais, não sou eu que estou comendo a Granger... – Draco sentiu o desprezo nas palavras do seu padrinho e aquilo o enfureceu. Ergueu sua varinha, mas Snape, muito rápido, desarmou o loiro facilmente.

- Não use esse linguajar para falar dela.

- Você está transando com ela... E ainda trapaceando... Como acha que isso vai terminar? Seja lá o que aprontou, Granger descobriu.

Sim, ela tinha descoberto. E tudo fez sentido para Draco. Não sabia como, mas ela tinha descoberto: as lágrimas, o afastamento, a tristeza...

- Devolva minha varinha – Snape entregou a varinha para o afilhado.

- Espero que suas trapaças funcionem melhor. Ela está com mais chance de conseguir a vaga que você.

Draco puxou a varinha que Snape tinha estendido, pegou sua mochila que estava no chão e saiu da sala. Andava de forma rápida e com passos duros. Seu corpo dividido: homem x lobo. Indiferença x culpa. Passado x presente. Vida x morte. Ele x Hermione.

- Você sabe – foram as duas únicas palavras que disse, ao entrar no quarto dela sem ser convidado. Aceitou calado o tapa que levou. Ele merecia. Sabia que merecia.

- Como pôde? – a voz dela estava trêmula.

- É uma competição e eu quero essa vaga. Mais do que tudo.

- Mais do que tudo? – Draco viu a fúria nos olhos dela. E ele refez a si mesmo a pergunta. Ele realmente queria a vaga mais do que tudo? Queria a vaga mais do que queria ela?

Orgulho x Hermione.

- Você não entende...

- Sim, eu entendo, Draco. Quem não entende é você – ela virou de costas. Draco passou a mão pelos cabelos. Seis dias sem tocá-la. Aquilo era uma eternidade para ele.

- Então me faça entender – ele pediu. A voz baixa. Precisava dela mais do que precisava da vaga, mas não seria capaz de admitir.

- Eu farei – ela virou-se novamente, encarando os olhos cinzas – mas do meu jeito... Do meu jeito, Draco... E chega de trapaças... Jogue limpo.

Ele assentiu. Como olhos castanhos poderiam ser tão bonitos? Como uma sangue-ruim poderia ser tão boa?

Tradição x Hermione.

Ele estava fodido e nem se importava mais. Importava apenas ela. Concordou, calado. E a beijou sem se importar que Snape pudesse aparecer. Nada, nem ninguém poderiam separar os dois. Eles estavam presos um ao outro e precisavam encontrar uma maneira de viver daquele jeito. Odiando-se enquanto se desejavam.

Estamos escondidos na casa de Muriel e a observo calado, enquanto ela dorme.

Dora é perfeita... Todas as possíveis Doras...

FEVEREIRO

Eles faziam aquilo como se fizessem há anos. Como se não fosse estranho Hermione dormir ao lado de um lobo e acordar com Draco, na forma humana. Nu. A cabeça dele repousada no corpo dela. Essa se tornou a estranha rotina deles nos dias de lua cheia.

O castelo estava enfeitado para o dia dos namorados. Casais andavam de mãos dadas e garotas cochichavam entre si. Rapazes evitavam comidas oferecidas, querendo fugir de alguma poção do amor. Pretendentes entregavam cartões românticos.

E Draco e Hermione viviam em um mundo paralelo onde havia apenas os dois, uísque e sexo.

- Vamos sair hoje à noite – a frase imperativa a tirou dos seus devaneios, fazendo com que quase se engasgasse com o uísque.

- Sair?

- Sim, sair, Granger. Afinal... Não é como se as pessoas não soubessem o que fazemos aqui – os dois estavam sentados na cama, dividindo uma garrafa de uísque. Ela corou levemente e Draco achou aquela uma cena... encantadora.

- Tudo bem – ela deu de ombros.

- Então vá se arrumar que eu tenho o lugar perfeito em mente...

- Malfoy, é dia dos namorados... Não tem medo do que as pessoas vão pensar?

- Tenho medo do que elas vão pensar se descobrirem que sou um lobisomem. Se acharem que somos namorados e daí? Elas estão erradas e sabemos disso, não sabemos?

- Sim, sabemos – a voz dela não expressava nenhum sentimento, apenas conformidade.

Ser lobisomem é conviver diariamente com essa maldição, não apenas na lua Cheia.

Ela ria ainda mais ao ver a expressão séria e incrédula do loiro à sua frente.

- Potter e Weasley no Salão Comunal da Sonserina? Filhos da puta... Nunca desconfiei... Acharam mesmo que era eu a abrir a Câmara Secreta.

- O que mais podíamos pensar? Estávamos no segundo ano e seu comportamento era... Comprometedor, você há de concordar...

- Não estou discordando... – ele deu um breve sorriso. Um sorriso discreto e sincero. Um sorriso encantador na opinião de Hermione. – Minha vez... – Draco falou. Haviam concordado em contar algo "secreto" que viveram em Hogwarts quando eram estudantes. O loiro notou como Hermione pensou antes de falar, buscando em sua memória diversas lembranças agradáveis. Ele não tinha muitas... Passara os anos provando aos outros que era melhor. Quer dizer, provando aos outros apenas para provar ao seu pai... Sorriu mais uma vez e Hermione imitou o gesto dele. - Tem uma coisa... Algo que nunca contei para ninguém... – Draco falou, olhando-a com firmeza. O gelo tilintando no copo.

- Nem para a Parkinson?

- Claro que não, Granger! – ele soltou um riso pelo nariz, como se aquela opção fosse uma insanidade.

- Diga! – ela pediu, quando o loiro permaneceu em silêncio.

- Estávamos no quarto ano... No Baile... Você me deixou sem palavras. A garota mais linda da festa.

- Mentira... – Hermione disse, visivelmente envergonhada.

- Verdade. – ele olhou para fora e depois para seu relógio. Uma chuva fina caía do lado de fora. As ruas estavam vazias. Os estudantes de Hogwarts já tinham voltado para o colégio.

- Ainda temos tempo... – o loiro assentiu – Eu nunca fiz isso... – Draco olhou de forma interrogativa – Ficar bebendo tão cedo... Estou bebendo desde o meio dia, Draco...

- Fazer sexo embriagado é uma delícia, Granger – ele passou a língua pelos próprios lábios, ela sentiu o corpo arrepiar – Mas eu vou encerrar por aqui. Hoje não é um bom dia para eu exagerar na bebida... – ele terminou seu uísque – Fique à vontade para continuar.

Conversaram por mais um tempo e depois Draco pagou a conta. Ela tentou dividir, mas o olhar dele fez com que se calasse.

Não era tarde, mas a chuva havia espantado a maioria dos transeuntes. Draco andava com a mão sobre os ombros de Hermione. Sentia o lobo pulsando e pedindo por ela. Mas não agora. Antes de saírem do pub, ele havia tomado sua poção. Dentro de pouco tempo seria um lobo e Hermione precisava estar em segurança.

Draco sentiu o corpo retesar e resolveu apertar os passos, puxando Hermione consigo.

- O que houve?

- Não sei... Algo não está certo – ele disse olhando para os lados – Sua varinha?

- Ao alcance, mas... – ela olhou para os lados sem saber o que ele poderia temer. O pub em que estavam era um pouco mais afastado, só que as ruas de Hogsmead estavam relativamente seguras desde o fim da guerra. Claro que não estava tudo perfeito, mas nada comparado ao terror que havia na época em que os Comensais andavam livremente.

- Vamos aparatar para perto de Hogwarts, ok? – ela notou o tom autoritário e concordou em silêncio – Merda!

- Por que não estamos conseguindo...

- Ora, ora... Que belo casal passeando pelas desertas ruas de Hogsmead...

Draco continuou andando, fingindo ignorar a voz e puxando Hermione com ele. Mas parou. À sua frente surgiram três bruxos, mas quem falara vinha de trás.

- Merda...

- Melhor saírem da frente – Draco falou com arrogância.

- Acho que não, loirinho.

Hermione olhou para trás e viu outros três bruxos se aproximando. Ela era uma ótima bruxa, assim como Draco, só que estavam em desvantagem.

- Joguem as varinhas no chão.

- Acha que somos idiotas? – Hermione falou erguendo sua varinha. Draco retirou a mão do ombro dela e fez o mesmo.

Eles riram.

- Gosto de bruxinhas corajosas... – o grupo fazia um círculo em torno deles. Um dos bruxos lançou um feitiço, que foi repelido agilmente por Hermione. Draco soltou um baixo grunhido. O lobo pulsando dentro de si, antecipando o perigo. O lobo querendo sair.

- Entregamos os galeões que quiserem e vocês saem do nosso caminho?

- Não está em posição de negociar, vadia.

- Cuidado com sua língua, filho da puta! – Draco exclamou nervoso.

- Draco!

- Imobilizem o loiro. Ele vai assistir o que faremos com a namoradinha dele – um feitiço foi lançado sobre Draco, que se defendeu e logo desarmou e lançou seu agressor longe.

- Vocês estão cometendo um erro... Um grande erro... – Draco falou, em tom de aviso – Aparatem daqui e sumam pelas ruas da Travessa do Tranco.

- Vai sonhando!

- Acalmem-se... Nós entregamos os galeões e nos afastamos sem confusões... – Hermione enfiou a mão no bolso e jogou um punhado de moedas de ouro no chão.

- Precisamos de mais... Vocês devem ter mais – foi outro bruxo que falou dessa vez – Passem relógio e joias! Vamos, vamos!

Hermione tirou os brincos, mas manteve a varinha erguida. Draco não se mexia, fitando os atacantes à sua frente.

- Você também, loirinho...

- Malfoy. Sou Draco Malfoy. – ele disse. Os bruxos se entreolharam – Vocês resolveram atacar o filho de um famoso Comensal e a melhor de amiga de Harry Potter... Acho que não estão num bom dia... – Hermione notou os olhos enegrecidos do loiro...

- Vão embora... É melhor irem embora! – ela exclamou, nervosa.

- Só depois que pegarmos tudo que quisermos, vadia.

Um raio saiu da varinha de Draco e derrubou o bruxo, que se chocou contra a parede.

- Eu não repito meus avisos! – ele disse, tentando se controlar, mas sentindo que estava perto da transformação.

- Oh Merlin... – Hermione olhou nervosa ao seu redor. Um dos assaltantes aproveitou a desatenção dela e consegui desarmá-la.

Draco segurou a varinha com mais firmeza.

- Você precisa sair daqui – ele disse, olhando para Hermione.

- Ninguém vai sair!

- Isso está demorando muito...

- Peguem logo os galeões que estão no chão e vamos embora.

- E a garota? Eu quero a garota – Draco soltou um som baixo. Um uivo... Hermione deu um passo para o lado.

- Ele é um lobisomem... Melhor sairmos daqui... – Hermione falou, seus olhos em Draco.

- Isso é alguma brincadeira? – Hermione nunca tinha visto a transformação dele. Sabia que precisava ficar longe na primeira hora. Encarou os olhos negros e ouviu-o dizendo:

- Fuja...

Draco caiu de joelhos no chão e sua varinha escapou dos seus dedos. O loiro apoiou as mãos no chão. Todos estavam petrificados e Hermione aproveitou para pegar tanto a sua varinha quanto a dele.

O corpo dele aumentou de tamanho, fazendo com que suas roupas rasgassem. Os pelos foram crescendo, assim como os dentes. Os cabelos loiros tornando-se pelos acinzentados.

Hermione sabia que ele tinha instintos lupinos, apenas lupinos naquele momento... Ele a manteve viva uma vez, mas ela não poderia contar isso. Por isso... Correu.

Os outros se assustaram com a reação dela.

- Peguem-na! – um deles gritou. Um dos bruxos foi atrás de Hermione, mas não pôde continuar. Draco, na sua forma de lobo, pulou sobre ele. Diretamente na jugular. O sangue espalhou-se sobre a rua.

- MATEM ESSE MALDITO ANIMAL!

Assim que ela ouviu o grito, parou de correr. Draco precisava dela. Um feitiço foi lançado contra ele, mas Draco desviou. Hermione acertou um dos bruxos. Alguém saiu de uma das lojas e ficou aterrorizado com o que via.

- Chame os aurores! – ela gritou, pedindo ajuda. O bruxo voltou para dentro. Hermione não sabia se teria ajuda ou não. Sabia apenas que não poderia abandonar Draco.

O lobo era bom, mas não conseguiu desviar de todos feitiços. Mais um bruxo caiu morto. Hermione afastou outro. E assim foi até que restaram apenas ela... e Draco.

O lobo caminhou mancando, ele rosnava. Hermione começou a caminhar para trás.

- Draco... Sou eu... Draco... Por favor... – o lobo caiu para o lado, sangrando. Hermione correu até ele e ajoelhou-se. Abraçou o lobo como pôde e aparatou dali. Sem dúvida o feitiço anti-aparatação desapareceu assim que os assaltantes foram subjugados.

Ela chegou até os portões da Casa dos Gritos, não conseguiria entrar lá pelo Salgueiro Lutador levitando o lobo. Sua roupa estava machada de sangue.

Hermione precisava de Snape... Percorreu os corredores até chegar ao outro lado, a passagem secreta para Hogwarts. Imobilizou o Salgueiro e correu em direção ao castelo. Passou pelos corredores, ignorando o olhar de todos. Entrou na sala de Snape sem bater, ofegante.

- Senhorita Granger, o que significa... O que aconteceu? – o tom dele mudou assim que observou as roupas dela.

- Draco... Por favor... Draco...

- Vamos – ele falou, passando por ela. Hermione sentia o coração falhando diversas batidas – Casa dos Gritos?

- S-sim... Ele... ele está ferido.

Os dois entraram na Casa dos Gritos.

Snape estava novamente sem a máscara da frieza que sempre usava. Ele estava verdadeiramente preocupado. O lobo pressentiu a chegada de pessoas e voltou a rosnar, mas não conseguia levantar-se para atacar.

- Burro... – ele começou a lançar feitiços, estancando o sangue. O lobo estava fraco. Draco estava fraco e permaneceu deitado.

- Ele vai ficar bem? – ela perguntou, nervosa. Snape levantou-se, sua capa girando atrás de si e Hermione encolheu-se.

- Garota estúpida! O que você tem na cabeça? Precisa afastar-se dele! Você ainda vai causar a morte de Draco!

- Eu... Eu não tive culpa! Tentaram nos assaltar e...

- Afaste-se dele – Hermione deu mais um passo para trás ao ver a varinha de Snape apontada para si. E sabia uma coisa: ele faria qualquer coisa por Draco... Assim como ela.

- Ele precisa de mim. Você sabe. – Hermione falou em tom desafiador.

- Eu já matei antes, Granger...

- Você não está falando sério! – ouviram um ganido baixo. Draco, ainda em forma de lobo, estava tentando ficar em pé. Rosnava para Snape, mas não tinha força apara avançar.

- Eu vou-me embora... Parece que você está aí, não é, Draco? Sempre fazendo merda... – ele lançou um olhar de desprezo para Hermione e saiu.

A morena caminhou até o lobo e ele aninhou-se no colo dela. Hermione chorou.

Hermione leu o pergaminho que recebeu dos amigos. Os aurores tinham chegado e prendido os assaltantes. Dois foram mortos pelo lobo. Harry e Rony conseguiram abafar o caso. Não queriam fazer isso, mas nenhum dos dois conseguiu recusar o pedido dela: Draco Malfoy tinha a ajudado.

A porta da sala de Snape foi aberta com violência.

- Vejo que está recuperando-se bem...

Draco caminhou até o seu padrinho que apenas encarava o loiro, sem se importar que ele tinha a varinha erguida.

- Nunca mais ameace a Granger. Entendeu, Severus?

- Acha que tenho medo de você?

- Não me importa se tem medo ou não. Nunca mais ameace a Granger. A culpa disso não é dela.

- Ora, ora – Snape cruzou as mãos sobre o colo, sorrindo ironicamente – Acho que tem mais do que desejo lupino nessa sua ameaça.

- Não importa o que tem na minha ameaça – Draco abaixou a varinha e jogou os cabelos para trás.

- Você... Você realmente se importa com ela, não é? - Draco não respondeu e Snape não insistiu – Apenas... Apenas não perca o foco, você precisa conseguir essa vaga e ser meu aprendiz...

- Eu sei, Severus... Eu sei...

E agora que eu provei dela... Como será?

Desejo-a mais a cada dia. Eu a amo e ela me ama apesar do que eu sou. Ou me ama pelo o que sou? Já não sei. Sei apenas que ela está comigo e não posso deixá-la partir.

MARÇO

- Eles são meus amigos e já faz um tempo que não saio com eles. Eles te ajudaram no caso de Hogsmead – Hermione disse, enquanto se trocava. Draco deitado em sua cama, apenas observava a morena.

- Isso não muda um fato: você perdeu a virgindade com o pobretão, não é mesmo? - a morena olhou para ele de forma chocada – Só estou dizendo uma verdade – ele também se levantou. Hermione novamente admirou as costas de Draco. A tatuagem bem desenhada, a curvatura perfeita do bumbum. Seus olhos passaram para os músculos dos braços dele. O loiro virou-se e sorriu quando viu que ele a olhava com admiração e desejo. A cicatriz apenas completava o visual de Draco. Humano x animal.

- Fique comigo... – ele pediu, já perto dela.

- Eu tenho ficado com você todos os dias, Draco... É apenas um jantar com meus amigos – ela inclinou a cabeça para o alto, para poder olhar os olhos cinzas.

- Dois casais... – o loiro falou, segurando o queixo dela.

- Eu e Rony não somos um casal.

Ela deu um passo para trás, rompendo o contato. Draco puxou-a para si.

- Você é minha. É bom que se lembre disso. E o ruivo também tem que ter isso em mente – ele deu um beijo possessivo nos lábios dela, Hermione gemeu baixo ao sentir o corpo e a língua dele. Chegaria atrasada ao encontro.

Mesmo sem saber ela me ajudou a superar a morte de Sirius. Peter era um traidor. Não havia mais marotos.

Havia apenas dor. E Dora... E eu não podia amá-la, podia?

Não é fácil controlar o lobo quando ela está perto de mim. Não é fácil controlar a mim mesmo. E eu tentei por tanto tempo. Pelo menos posso agradecer por ter sido mordido quando criança. A pior sina de um homem é ser mordido na adolescência.

Mas, mesmo assim, ainda tenho um lobo dentro de mim que precisa ser alimentado. Não só com carne crua. Também com ela. Com Dora. Ela entende o perigo que corre, só que não liga.

Eu sou um homem velho. Um homem amaldiçoado. Um lobisomem. Não mereço os carinhos de Dora. Não mereço uma mulher como ela...

- Você demorou.

Ela ignorou o comentário de Draco e deitou-se ao lado dele. Ele fechou o diário e colocou sobre o criado-mudo.

- O que pretende fazer se não for aceito como aprendiz de Snape?

- Eu serei aceito – ele falou, beijando o ombro dela – Não gosto quando sai com seus amigos. Seu cheiro muda.

Ela riu daquilo e Draco sorriu do sorriso da morena.

- Meu cheiro muda?

- Sim... Fica misturado com o cheiro deles. – Draco colocou sua mão sobre o seio dela, por cima da roupa.

- Há um jeito de resolver isso – ela lançou um sorriso maroto, o loiro sorriu de lado e subiu sobre ela.

- Mesmo? E que jeito é esse? – Draco perguntou, a voz baixa na orelha dela. Hermione sentiu o corpo arrepiar-se.

- Poderíamos tomar um banho juntos... – Draco levantou-se, levando Hermione no seu colo. Os dois riam. Entrega e cumplicidade. E os dois não percebiam.

Uma guerra acontece lá fora e eu observo o corpo nu de Dora na minha cama. O corpo perfeito da jovem auror. O meu é velho e marcado. É meio homem. Meio lobo.

Mas a paixão que sinto é incontestável. Nenhuma mulher me faz rir das coisas bobas da vida. Apenas ela, apenas Dora.

ABRIL

O seu destino era uma vida sombria e sabia que estava arrastando Hermione para isso e ela não tivera ao menos uma escolha. Não depois que ele a beijou, não depois que ele a possuiu.

Ela poderia partir, seria menos difícil para ela. Claro. Só que ela conseguiria?

Draco esperava que não. Que ela não conseguisse, que ela não se afastasse. A vaga seria dele, sabia disso. E mesmo que, por alguma razão, ela fosse aprendiz... Não era isso que o preocupava. O que o preocupava é que um deles estaria no castelo e o outro não.

Como seria a vida dele sem tê-la ali todos os dias?

Abandono.

Essa é a primeira palavra que um homem mordido por lobisomem coloca em seu dicionário. Você é abandonado: por seus pais, por seus amigos... Por mulheres... Pela esperança de viver uma vida normal, por que mais nada é normal...

- Turma dispensada. – o grupo começou a sair ruidosamente da sala – Exceto você, Draco... Precisamos conversar – o loiro lançou um rápido olhar para Hermione. Ela terminou de arrumar suas coisas e saiu da sala.

- O que você quer, Severus? – ele ajeitou as vestes.

- Sua mãe quer se encontrar com você – o loiro deu de ombros, fingindo indiferença.

- Estou ocupado.

- Ela chegará dentro de alguns minutos e você vai esperar aqui e falar com ela, Draco.

- Acontece que é ela que quer se encontrar comigo. Não tenho nada para conversar com minha mãe – o loiro falava de forma fria.

- Por Merlin, como você é teimoso! Sente a bunda na cadeira e espere por sua mãe. Ela não teve uma vida fácil, Draco, e sacrificou muito por você. – o loiro soltou um riso desdenhoso.

- Esse lado de orientador sentimental não combina com você, padrinho. Ela teve uma vida difícil? Convivemos na mesma casa, a minha vida também não foi nada fácil e quando eu mais precisei dela...

A fala foi interrompida pela entrada de Narcisa. A comunicação por flu tinha sido temporariamente reaberta. Draco bufou, sem esconder seu descontentamento.

- Deixarei vocês à sós. – o professor de poções saiu da sala, dando um leve aceno para cumprimentar Narcisa.

Narcisa olhou para o filho. Draco já tinha sentado de forma desleixada sobre uma cadeira e mexia na ponta de sua gravata.

- Poderia olhar para mim, Draco?

- Você que vem evitando olhar para mim... – ele disse, encarando a mãe de forma fria. Narcisa olhou para as próprias mãos, depois, com um floreio de varinha, fez com que uma confortável cadeira aparecesse na frente da onde o loiro estava sentado.

- Sobre isso que queria conversar com você, meu filho.

- Seu filho? – ele perguntou de forma irônica e desdenhosa. – Você mal fala comigo e praticamente me expulsou da mansão.

- Eu soube sobre seu envolvimento com... com a nascida trouxa amiga do Potter.

Draco sentou de forma ereta sobre a cadeira. Narcisa achava que o olhar dele às vezes se assemelhava por demais com os do pai. E ela não gostava daquilo.

- Você soube? Nunca imaginei Severus como uma velha fofoqueira – Draco soltou, irritado.

- Ele se preocupa com você! Não fale dessa forma – ela o repreendeu.

- Bom, - Draco falou – você veio falar sobre meu envolvimento com a Granger? Sou maior de idade, um lobisomem... Não preciso dos conselhos de uma mãe que nunca cuidou de mim.

Narcisa respirou fundo.

- Isso não é verdade, Draco. Não fui a melhor mãe... Eu errei muito, mas cuidei de você da melhor forma que pude. Mas... Eu errei... Errei ao me afastar quando Bellatrix... Quando Bellatrix te entregou ao Greyback.

- E veio aqui fazer o velho discurso Black-Malfoy sobre a pureza de sangue e que apesar de parecer impossível eu estou decepcionando ainda mais os nossos antepassados? – ele levantou-se, nervoso. Porém Narcisa permaneceu sentada. Seus longos cabelos loiros caindo ao redor do rosto. Ainda era uma mulher bela apesar de toda tristeza que carregava.

- Na verdade, não.

- Não?

- Sente-se, por favor – ele relutou, mas obedeceu – Eu vim me desculpar pelo modo como venho agindo e... E queria saber se é feliz com essa garota.

Draco não conseguiu disfarçar sua incredulidade. E começou a rir. Narcisa permaneceu séria e realmente ofendida.

- Pare com isso, Draco! Estou aqui pedindo desculpas. Sei que Severus, na melhor das intenções, vem perturbando você e a nascida trouxa...

- Ela tem nome... – Draco falou em voz baixa.

- Ele vem perturbando você e a senhorita Granger. Eu pedirei para que ele pare de interferir no relacionamento de vocês.

- O que tenho com ela não é um relacionamento...

- Ah não...? Eu também estudei sobre lobisomens adolescentes, Draco... Falta apenas você se convencer disso. Não tente enganar a mim... Nem a você mesmo – ela esticou a mão, tocando a mão do filho. Ele puxou de volta.

- Você não pode mudar anos de ausência com uma aparição aqui.

- Eu sei disso... Vim pedir desculpas, mesmo que não possa me perdoar agora. Conheço bem seu gênio. Apenas uma trégua... Quero participar mais da sua vida. E queria que fosse jantar em casa alguns fins de semana. Leve sua garota.

- Ela não é minha garota – Narcisa viu o leve tremor na voz dele. Detectou a mentira, porém segurou o sorriso.

- Seja o que ela for sua, estão juntos e eu sei e você também sabe que ficará preso a ela por um longo tempo.

Narcisa se levantou e Draco fez o mesmo sem saber muito bem para onde olhar. Narcisa colocou a mão sobre o ombro do filho. Ele agora era mais alto que ela vários centímetros. Lembrou-se da época que aninhava o pequeno bebê em seus braços. Sorriu.

O rapaz sentiu a mão da mãe em seu ombro e sentiu uma estranha sensação de paz, tranquilidade e proteção. Não se afastou.

- Espero por vocês neste sábado para um almoço. Eu... Eu te amo, meu filho – ela deu um beijo no rosto de Draco e saiu da sala.

E, quando achei que não tinha mais ninguém e que sempre teria a solidão como companheira, conheci os amigos mais fieis que poderia ter: Sirius e James.

- Acho melhor você ir sozinho, Draco... Quero dizer...

- Eu sei o que quer dizer... Você pode frequentar a casa dos Weasley, mas não a casa da minha mãe?

- Eu não posso frequentar o lugar em que fui torturada, Draco.

O loiro viu que Hermione olhava para o teto. Então, olhou para o braço dela. Para as palavras marcadas no antebraço. Beijou a cicatriz. Um beijo para cada letra. Hermione sentiu os olhos encherem de lágrima.

- Também não é fácil para mim – ele disse, os lábios colados à pele dela – Será mais fácil com você... de uma forma louca as coisas ficam mais fáceis com você...

Foi fácil aceitar que eu a amava. Ela pulsava juventude e alegria. Nunca conheci e nem conheceria ninguém mais alegre que Dora. Mais extrovertida.

O difícil foi aceitar que ela me amava.

Ela era luz.

Eu, escuridão.

MAIO

- Almoçando na casa dos Malfoy? – a pergunta não tinha um tom acusatório, pelo contrário. Tinha um tom divertido que só Gina sabia usar em uma situação como aquela.

- Uma vez...

- E como foi para você conhecer a sogrinha? – a ruiva riu e Hermione fez o mesmo.

- A senhora Malfoy não é minha sogrinha. Ela está mudada... A mansão está passando por reformas... – Hermione bebeu seu suco antes de continuar – E Harry e Rony?

- Harry está mais conformado. Tenho maneiras de acalmá-lo – as duas riram e depois Gina ficou séria – Com Rony é mais complicado... Ele não está aceitando essa ideia de você e Malfoy... Ainda mais quando você interferiu no caso de Hogsmead... - – Gina mexeu a comida com o garfo, calando-se de repente.

- O que você tem para falar, Gi?

- Você já parou para pensar sobre isso? Quero dizer... Você está sempre pensando, eu sei... Mas, pensou realmente no que isso significa?

- Eu penso nisso sempre e, ao mesmo tempo, não penso... – Hermione fez uma pausa breve -Draco – ela não se intimidou por usar o primeiro nome dele – não é mais aquele garoto da época de Hogwarts. Ele continua prepotente e metido. Mas ao mesmo tempo... Ele se importa comigo, Gina.

- Mas esse "importar" não é apenas...

- Não! – Hermione respondeu enfaticamente – Não é apenas sexo, não é apenas... – Hermione não tinha coragem de dizer - Eu não sei o que é, mas não é apenas isso.

Lembro-me do olhar de Dora quando ela me viu transformado. A poção me fazia manter a mente humana, apesar da minha imagem grotesca.

Ela não escondeu o susto e eu a amei mais por isso.

Dora ficou ao meu lado. Eu comia carne crua e ela não se importava com o sangue.

Dora estava sempre lá. Eu soltava um riso lupino quando a via fazer caretas e mudar a cor do cabelo.

Era isso: ela sempre estava lá.

- O diário tem te ajudado?

- Como? – a pergunta inesperada o pegou de surpresa.

- O diário... De Remus... Tem te ajudado?

- Sim... Acho que sim... – ele levantou-se e serviu uma taça de vinho para os dois. Ambos tinham resolvido comer o jantar no pequeno salão que dividiam.

- Draco... – ela falou com calma, observando o loiro que olhava pela janela. Depois de um tempo ele voltou a se sentar. – O que faremos? O que faremos quando sair o resultado da vaga? Como ficaremos afastados?

- Não sei, Hermione... Eu te pergunto: como ficaremos juntos?

Ela não tinha resposta para aquilo.

Minha salvação foi amá-la.

Só que esse sentimento também trazia medo e insegurança.

E se eu a ferisse? E se eu a transformasse?

Eu não podia levar as trevas para quem me salvou.

Draco olhou para a imagem de Hermione que estava deitada sobre a cama. Mais uma vez ela passou a semana de transformação ao seu lado. O loiro estava próximo à janela. Às vezes ele ficava assim, parado, observando-a e decorando cada detalhe. Uma maneira de garantir que sempre teria algo dela.

Hermione tinha algumas marcas roxas pelo corpo. Mãos e dentes dele. Draco controlava-se para não mordê-la com muita força. As palavras de Lupin ajudavam. Seu ex-professor de DCAT amou sua prima, para depois desejá-la. Será que com ele estava acontecendo o contrário? Tê-la ali, sua, diariamente sua, fez com que nascesse, em si, uma paixão?

Draco não sabia. Só sabia que não podia tê-la longe de si.

Voltou para a cama e sentiu Hermione acomodar-se em seu peito, sem acordar. Abraçou-a. Fechou os olhos e sorriu.

Não importava o que sentia... Estava verdadeiramente feliz.

Dora não fugia de mim. E fazia sacrifícios por mim.

Eu me acalmava e me sentia o homem mais feliz do mundo quando, depois da semana de lua cheia, ela se deitava ao meu lado... Entregue. Dora dormia tranquila nos braços de um lobisomem. Se isso não é amor, o que mais seria?

JUNHO

Contei para ela sobre meus medos.

Harry tinha razão.

Eu chorei. E se eu passasse minha maldição para nosso filho?

- Vocês farão uma última prova. A partir dela e com tudo que tenho observado nos últimas meses farei minha escolha.

- Quando será a prova? – Draco perguntou.

- Daqui duas semanas.

- Quero falar com você, Draco... – Snape disse, enquanto ambos se levantavam. O loiro parou o movimento e Hermione apenas revirou os olhos.

- Já vai passar as respostas para seu protegido?

Snape arregalou os olhos, mas Draco sorriu.

- O que disse, senhorita Granger?

- Você me ouviu... – ela cruzou os braços. Snape levantou-se, o olhar ameaçador. Hermione não se mexeu. Draco rapidamente colocou-se na frente da garota. Encarou seu professor e depois se virou para ela:

- Se ele fizer isso vou compartilhar mais que a cama com você, Granger – ele sorriu marotamente, ao passo que ela corava violentamente.

- Aqui não é lugar para gracinhas, senhor Malfoy.

- Fale o que tem para falar na frente dela, Severus. – o loiro disse, virando-se novamente para seu padrinho.

A mão do loiro já estava no punho dela, impedindo que ela saísse.

- Você pode partilhar cama e segredos com a senhorita Granger, mas o que tenho para falar é particular.

Draco encarou o professor, mas tinha conseguido o que queria: tirar o foco do comentário desnecessário que ela lançou.

- Estou de saída – Hermione falou, puxou delicadamente seu braço. Draco lançou-lhe um sorriso cúmplice e encarou Snape quando a porta fechou atrás dela.

- Eu falei sério quando disse que daria as respostas para ela...

- Eu não darei as respostas. Você será capaz de responder muito bem todas as perguntas.

- Então... Qual o assunto? – Draco levantou o queixo.

- O que fará quando um dos dois ficar e o outro sair?

- Não pensamos nisso – Draco respondeu, de forma sincera – Eu não quero pensar nisso. Preciso ir...

- Mais uma coisa – a voz grave de Snape fez com que o loiro parasse no lugar.

- McGonnagall tem acompanhado o progresso de vocês... Draco... é fundamental que você tire uma nota mais alta que ela.

- Eu vou tirar – ele falou – Agora... Eu preciso ir.

- Eu não estou pedindo que entendam – Hermione falou, olhando do ruivo para o moreno – Apenas que aceitem...

- Aceitar? Hermione, isso é uma loucura... Estamos falando de Draco Malfoy! Draco Malfoy é um lobisomem! – Rony disse, nervoso. Os três estavam na casa de Harry, no Largo Grimmauld – E ele... ele – bagunçou os cabelos nervosamente – Puta merda, nem consigo falar! Harry, por favor!

- Você tem certeza disso? – Harry perguntou, encarando a amiga. Sua mão sobre as dela.

- É como se essa fosse a minha única certeza... – Harry lançou um sorriso entristecido.

- Mione, - o ruivo tentava se controlar – mas essa sua escolha...

- Eu sei qual a consequência da minha escolha, Ron... E eu sei que estamos falando de Draco Malfoy, mas ele mudou!

- E você vai ficar presa a alguém que... – Rony interrompeu-se, a compreensão passando por seus olhos e pesando em seu coração – Você o ama... Você realmente se apaixonou pela doninha lupina...

Ela não precisou dizer mais nada. Ron sentou-se ao lado dela e a abraçou. Ele não entenderia, mas aceitou por que nunca teria amigos como os que estavam ali, ao seu lado.

Draco viu que Hermione entrou no seu quarto. Ele lia o diário de Lupin e estava sentado em frente à sua escrivaninha.

- Onde você foi? – ele perguntou, sem se virar.

- Eu te disse que iria à Floreios e Borrões.

Draco levantou-se e caminhou até ela. O beijo era forte, quente, passional.

- Você está com o cheiro deles – o loiro murmurou no ouvido de Hermione.

- Encontrei com os meninos por acaso no Beco Diagonal – Draco soltou um urro baixo, sentido. Era véspera de lua cheia – Você sabe o que fazer para resolver esse "problema".

- Sim, eu sei.

O loiro a puxou em direção ao banheiro. Os dois largaram sapatos e meia pelo caminho. Ele puxou a própria camisa. Hermione sentiu a água quente cair sobre seu corpo.

- Draco...

- Hermione, você é minha... – ela deslizou a boca pelo pescoço dele. O loiro apoiou uma das mãos na parede. Sentiu os beijos dela descerem. A mão dela percorria todo seu corpo. Hermione tocou seu membro. Ele nem se lembrava de ter tirado a calça.

Puxou-a pelos cabelos, uma mistura de dor e prazer. A roupa encharcada e já transparente revelava o corpo que causava tanto desejo.

Draco encostou o corpo dela contra os azulejos frios. Tocando-a. Sentiu a intimidade dela com seus dedos. Beijou a boca, sugou a língua. Desceu seus lábios para o maxilar. Depois para o pescoço. Sentia a pulsação dela. O sangue passando pela jugular. Seus dentes roçaram a pele dela.

- Draco... Draco...

Ela gemia o nome dele incessantemente. O nome. Dele. Draco. Draco. Draco...

O sangue corria com força. O pulso acelerado.

Novamente os dentes dele roçaram a pele de Hermione... com um pouco mais de força.

Seu corpo contra dela. Seus dedos dentro dela.

Ele ouviu um gemido. Os dedos dela pressionaram com força os seus ombros. Seu movimento era em câmera lenta, afastando-se vagarosamente. A água que corria sobre os dois caía no chão. Água e sangue. O sangue dela.

Draco assustou-se e encarou os olhos castanhos. Os olhos que um dia foram castanhos estavam rubros.

- Não...

A mão de Hermione foi até o pescoço.

- Não – Draco repetiu, sem voz.

- Por quê...? – ela perguntou.

- Não... Não... – ele continuou dizendo, olhou para o lado. O espelho embaçado refletia sua imagem de forma desfocada, mas ele podia ver o sangue de Hermione manchando seus lábios. Manchando sua vida... – Não...

- Draco! Draco!

- O que eu fiz?

- Draco! Acorde! – ele abriu os olhos e encarou Hermione. Seus olhos foram diretamente para o pescoço dela. Depois levou a mão aos lábios.

- Hermione?

- Você estava tendo algum pesadelo... O que aconteceu?

- Eu... não me lembro – ele mentiu. Estava no quarto dela.

- Sonhou com a noite em que foi transformado? – Hermione tentou mais uma vez.

- Algo do tipo... – Draco levantou-se – Eu preciso de um banho – Merda – Quer dizer... preciso ficar um pouco sozinho...

Ela abriu a boca para responder, mas o rapaz já havia saído.

Eu sonhei que me transformei em lobisomem e persegui Dora. Ataquei-a e provei seu sangue. Era o alimento mais delicioso que poderia provar.

Tive medo e fiquei longe dela por alguns dias.

Ela me acalmou dizendo que tudo daria certo, mas ela não tinha como ter certeza disso.

Nem eu.

Hermione respeitou o estranho afastamento de Draco.

Ela mesma não sabia como lidar com toda aquela situação. Dentro de dois dias sairia o resultado.

Eles teriam os meses das férias de verão... E depois?

Hermione tinha se acostumado com a presença de Draco não só em sua vida, mas em sua cama. Em acordar às manhãs com ele e tomarem café juntos. Em passar os sábados embaixo dos lençóis comendo, bebendo e fazendo amor.

Era seu hábito dormir antes dele, sozinha. Depois acordar aninhada ao corpo de Draco.

E ela sentia aquela urgência de estar ao lado dele todos os dias.

Os cabelos dela ficaram de um tom vermelho quase tão vermelho quanto aos do Weasley na hora do parto.

E vi meu filho nascendo.

Cabelos azuis. E lindo. Tão lindo quanto Dora.

Eu tinha esperanças, afinal.

Ele andava impacientemente de um lado para o outro. A cabeça abaixada e ambas as mãos no bolso da calça. Ele precisava de Hermione. Mas como seria sua vida se não conseguisse aquela vaga?

Ainda acordava suando. O mesmo sonho o atormentando.

Necessitava ficar perto dela, só que não podia. Não podia arriscar.

Para ele, não havia esperanças.

Seus passos pararam quando notou a chegada dela.

A porta da sala de Snape foi aberta antes que um deles pudesse falar alguma coisa.

- Entrem – os dois obedeceram e sentaram-se. O professor olhou de um para o outro. Abriu uma gaveta de sua mesa e retirou dois envelopes lacrados.

- Essa sem dúvida foi uma das provas mais difíceis que apliquei. Os dois mostraram-se à altura. Apesar da senhorita Granger não ter trazido as poções, em sala mostrou-se uma ótima orientadora. A prova que fizeram para NOM´s e NIEM´s se equipara ao nível exigido pelo Ministério. Posso dizer, seguramente, que usarão algumas de suas perguntas nos próximos anos. Principalmente, as perguntas elaboradas pela senhorita Granger. Dessa forma, a prova será o critério de desempate.

Draco manteve-se sério, mas Hermione sorriu orgulhosa de si mesma.

- Quanto às suas notas... Draco, você cometeu um erro – apesar do turbilhão que estava dentro de si, o loiro não expressava nada. Não tinha conseguido. Mais uma decepção em sua vida. Ele precisava da vaga. Hermione, sem dúvida, não havia errado nada.

Hermione olhou para o lado, encarando o perfil do loiro. Ele não piscava e tinha a atenção fixa em Snape.

- No entanto, - o professor continuou – a vaga é sua, afinal... A senhorita Granger cometeu dois erros...

Draco virou para o lado, sem acreditar. Depois tornou a olhar para seu professor. Olhou para baixo, respirando lentamente. Quando levantou a cabeça novamente tinha um sorriso irônico nos lábios. Um sorriso maldoso que Hermione não via há meses.

- Não poderia ser diferente, não é, Granger? Afinal, achou mesmo que poderia ser melhor do que eu? Draco Malfoy? Um sangue puro?

Ela olhou para ele estupefata, mas não conseguia dizer nada.

Draco levantou-se, ajeitou as vestes e deu alguns passos no pequeno aposento.

- E é assim, Granger, que um sonserino, alguém como eu mostra que possui inteligência superior.

Hermione levantou-se também, Snape apenas observava os dois em silêncio.

Draco cruzou os braços na frente do corpo ao vê-la se aproximar. Precisava conter a si mesmo. Precisava se controlar ou era capaz de agarrá-la ali mesmo e jogá-la sobre a mesa de seu padrinho.

- Você acha que engana a quem? Essa é sua escolha? – ela indagou.

- Você foi apenas um passatempo – as palavras frias dele machucavam-na, mesmo que Hermione soubesse que eram palavras mentirosas.

- Ainda vai se arrepender dessa mentira estúpida e infantil! – ela engoliu as lágrimas - Foi uma ótima competição, Malfoy. – dizendo isso, saiu da sala e bateu a porta estrondosamente.

- É alguma brincadeira, Severus? – ele avançou até a mesa, tentando pegar os envelopes que continham as provas, Snape foi mais rápido e pegou-os – Ela não pode ter errado!

- Mas errou – Snape disse, perdendo a paciência – A vaga é sua, Draco.

- Duvido... – o loiro rebateu, usando um tom que lembrava uma criança mimada.

- Que a vaga seja sua?

- Que ela tenha errado...

Snape rompeu o lacre do envelope e entregou a prova para Draco. Ele observou a correção. Ela realmente tinha errado dois ingredientes de uma poção.

Hoje tive a minha pior briga com a Dora.

Se não fossem os feitiços silenciadores teríamos acordado Teddy. E o resto da casa.

Ela deveria ficar. E eu a odeio por ela querer arriscar-se. E a odeio sabendo que esse é o motivo de eu amá-la.

Ela jamais fugiria de uma guerra. Dora era minha eterna companheira. Na vida e na guerra.

Dora.

O mês de julho tinha passado e agosto se iniciava com um ar quente e um sol que convidava as pessoas a ocuparem as ruas e praças. As ruas do Beco Diagonal estavam cheias de bruxinhos ansiosos por iniciarem seus estudos em Hogwarts; adolescentes, que aproveitavam as férias de verão para curtir sua "liberdade", andavam pelas ruas e lojas de Hogsmeade; chuvas mágicas irrigavam jardins; sons de risos eram ouvidos... Todos pareciam contagiados por essa alegria trazida pelo verão londrino.

Mas nem todos.

Draco estava em seu quarto, novamente na mansão Malfoy. Tinha ambas as mãos nos bolsos e um olhar sério. As feições causavam pequenas rugas em sua testa. Não ouviu quando sua mãe abriu a porta e tampouco quando ela o chamou por algumas vezes. Apenas deu pela presença dela quando Narcisa o tocou carinhosamente no ombro.

- Draco...

- Eu sei o que estou fazendo – ele disse, ainda contemplando o imenso jardim.

- Você pode até saber, mas está agindo errado – Narcisa parou, pensando nas palavras que diria a seguir – Eu vi como você agiu perto dela, Draco.

- Isso acontece... – ele retirou as mãos do bolso e escondeu seu rosto entre elas, depois bagunçou seus cabelos num gesto de frustração.

-... Por que você teve relações com ela sendo um lobo adolescente? Que, por isso, está preso a ela, por que, por instinto, suas vidas estão ligadas?

- Sim, mãe! – ele encarou Narcisa – Estou preso a isso. Por instinto! Ela tem a vida toda pela frente, ela tem escolhas! Eu me deixei levar por isso, eu não resisti. Agi como um...

-... um adolescente – Narcisa falou em voz tranquilizadora – Só que eu ia dizer outra coisa mais, Draco. Não vi apenas instinto no modo como agia perto dela... Draco... Tem certeza que é apenas instinto?

Draco não respondeu. Olhou o chão pensando consigo mesmo. A pergunta que ele se fazia todos os dias era essa: seria apenas instinto?

Quando alguém é mordido no início da vida adulta, como aconteceu com ele, os instintos humanos e lupinos se misturam e criam... uma bomba hormonal.

Quando beijou, quando fez amor com Hermione sabia que estaria ligado a ela por toda a vida. Ele sabia disso e não conseguiu refrear seus impulsos. Não quando o cheiro de baunilha o hipnotizava, não quando os olhos dela brilhavam de desejo, não quando provar o gosto dela o fez esquecer-se de toda a herança de sua criação preconceituosa.

Não resistiu à tentação de ter Hermione Granger em seus braços, em seus lábios, em sua cama. Em sua vida.

- Você se apaixonou – Narcisa afirmou. Draco olhou espantado para a mãe – Não ouse negar, Draco. Eu te conheço. Posso ter sido uma péssima mãe em muitos sentidos... Cometi falhas e nada será suficiente para que eu me perdoe bem pelos sofrimentos que te fiz passar... Só que eu te conheço. – ela reafirmou. Draco voltou a bagunçar os cabelos.

- Não. Isso não pode acontecer.

- Já aconteceu – Narcisa pegou a mão do filho.

- Mãe, você não entende... Eu não posso fazê-la passar por isso... Não posso deixar que ela fique presa a mim!

- E vai passar a vida seguindo-a escondido? Observando-a escondido quando se transforma em lobo? – ele desviou o olhar – Deixe que ela escolha o que quer fazer.

- Você não entende!

- Sim, Draco, eu entendo. Seu pai passou a vida toda ao meu lado, escolhendo meu destino. Dê, pelo menos, a chance para ela escolher...

Dizendo isso, Narcisa deixou novamente Draco sozinho com seus pensamentos.

Às vezes pensava se era correto trazer Dora para aquela loucura de conviver com um lobisomem. De ter um filho com um lobisomem.

Então eu lembrava que ela me amava. Que nós nos amávamos.

E não ligava para o que eu sabia que diriam. O que diziam.

Eu só era feliz e completo com ela.

Draco usava agora as vestes bruxas como se fosse professor. Tinha a austeridade de seu padrinho. O mesmo olhar frio. A pele clara e os cabelos loiros contrastavam não apenas com as roupas negras, mas também com o ambiente escuro das masmorras.

- Minerva quase me demitiu quando soube sua condição.

- Ainda bem que não o fez. Quero ser apenas aprendiz e não ser professor desse bando de inúteis.

- Você jamais seria professor aqui, Draco – Snape falou enquanto observava o jovem preparar a sala para a primeira turma.

- Até o gigante estúpido conseguiu um vaga... – o loiro respondeu, sem disfarçar o mau humor.

- Isso tudo é por que está sem a Granger?

- Não enche, Severus – Draco responder de forma mal educada, ainda mais irritado pelo riso irônico de seu professor.

- O que faz aqui, Narcisa? – Snape perguntou ao entrar na sala da diretora. Ele olhou interrogativo para Minerva que apenas saiu da sala sem falar nada.

- Quero conversar com você longe do meu filho – ela sentou-se elegantemente e permaneceu em silêncio – Sente-se.

Snape sentou-se. Imaginava o porquê daquela visita.

- Fale, Cissa.

- Eu sei que você favoreceu e fechou os olhos para algumas coisas, de forma a deixar que meu filho conseguisse a vaga – Snape abriu a boca, ela fez um discreto gesto com a mão. Ele entendeu e calou-se imediatamente – Eu sei que a senhorita Granger é uma excelente aluna. Você também.

- O critério de desempate foi a prova. Ela errou duas questões – Snape afirmou. Narcisa levantou-se.

- É mesmo? Muito me espanta você que fez o que fez pela mulher que amava, não ver o que está bem diante de seus olhos... E, pior, tentar afastá-los... Tenha uma boa noite, Sev.

O professor de poções olhou para o quadro de Dumbledore, que sorria discretamente. Sentiu o peso da ausência de Lilly novamente. Sempre.

- O que quer dizer isso, Severus? Eu já vi essa merda de prova! Eu já vi que a Hermione errou duas questões! Melhor assim. A vaga é minha e ficamos longe. Ela não precisa de alguém como eu.

- Eu já sei o que pensa sobre isso. Olhe novamente a questão que ela errou, Draco.

Contra-feito, o loiro pegou a prova. Releu a questão sem entender. Era um erro bobo, mas facilmente explicado por alguma distração ou nervoso. Nenhum dos dois estava no melhor dia quando fizeram a prova.

- Foi um erro besta... Ela errou os ingredientes da poção polissuco.

- A poção polissuco, Draco – ele repetiu e o loiro continuava o olhando, sem entender – Ela preparou perfeitamente essa poção...

- ...No segundo ano – o loiro completou, sentindo o mundo girar. Sentou-se pesadamente. Lembrou-se da conversa que tiveram meses antes, quando ela contou sobre a poção que preparara para ela, Weasley e Potter. Granger jamais erraria os ingredientes dessa poção. – Ela errou...

- De propósito – Snape afirmou, recolhendo os pergaminhos. Observou o afilhado que permanecia sentado com as feições congeladas entre terror a surpresa – Só não sei o que ainda está fazendo aqui...

- Nem eu... – dizendo isso, ele saiu correndo pelos corredores de Hogwarts.

Em breve partiremos para guerra e observo Dora dormindo. Tenho a sensação que é a última vez que eu a observo. Tenho Teddy em meus braços e ele me olha com seus olhinhos curiosos. Ele é tão pequeno e indefeso.

Eu ainda sinto minha barriga se contorcer de antecipação ao beijá-la. Toda vez é como se fosse a primeira vez. Por que a cada vez que vejo Dora me apaixono novamente e não precisamos de palavras para expressar isso. Ela sempre está ao meu lado.

Embalo meu filho e fico esperando que ele durma. Se eu morrer é essa imagem que quero ter: dele e de Dora nua na nossa cama.

Tenho medo de morrer, mas sei que partirei sem arrependimentos. Vivi esses últimos anos com Dora, tivemos um filho. Ela esteve comigo em cada transformação. Eu estive com ela em cada lua cheia. Lado a lado.

Essa foi a última nota que havia diário de Remus Lupin. As últimas palavras lidas por Draco.

Hermione chegou do seu curso e jogou-se sobre o sofá. Pensava em Draco. Não poderia dizer que pensava novamente nele, pois ela fazia isso constantemente.

Quantas e quantas noites deitara sentindo a ausência dele ao seu lado?

E quantas vezes acordara de madrugada buscando o corpo dele e encontrando o vazio?

E quantos dias acordara achando que ele ainda estava ali?

Longos setenta e três dias.

Continuou morando sozinha no pequeno apartamento numa área residencial próxima ao Beco Diagonal. O prédio onde morava fica mais afastado e a sacada diminuta tinha uma bela vista para uma área florestal.

Tirou uma pizza congelada do freezer e abriu um vinho, enquanto a pizza esquentava. Só pensava em Draco. Draco.

Foi puxada dos seus pensamentos ao ouvir um grande estrondo.

A taça quase caiu de suas mãos. Pegou a varinha e foi correndo até a sala. Seu coração acelerou de forma descompassada. Sua porta tinha ido ao chão e Draco Malfoy estava parado sob o batente. Os cabelos levemente desarrumados.

Ela estava sem fala.

Draco entrou no apartamento e, logo em seguida, alguns vizinhos apareceram.

- Senhorita Granger? Está tudo bem?

- Sim – Draco respondeu no lugar dela.

- Quer que chamemos os aurores?

- Só se você não der valor à sua vida – o loiro respondeu friamente. O homem que falava olhou para o outro vizinho, ambos espantados.

- Está tudo bem, senhor Dickson. Eu posso resolver isso – Hermione falou, sem conseguir disfarçar o nervosismo.

O homem não conseguiu responder mais nada, pois, com um feitiço, Draco recolocou a porta no lugar.

- Você é louco?

- Aparentemente sim – ele lançou um olhar superior pelo ambiente – Você merece um lugar melhor.

- É o melhor que posso pagar – as respostas rápidas e inteligentes. Ele tinha sentido falta disso.

Com três passos ele encerrou a distância que havia entre eles. Segurou no punho de Hermione, ela tentou puxar, em vão, o seu braço. No segundo seguinte, sentiu-se sendo aparatada.

- Estamos em Wales. Uma casa de campo da minha família – sem dúvida o apartamento inteiro de Hermione cabia naquele cômodo. Era uma ampla sala com enormes janelas envidraçadas que davam para um bosque. Ela olhou para as paredes e viu quadros, reparando (mas não comentando) que não havia nada com a imagem de Lucius Malfoy.

- Por que me trouxe aqui? – Draco soltou o punho dela e Hermione deu um passo incerto para trás.

- Sem dúvidas seus amiguinhos metidos a herói apareceriam no seu apartamento e temos muito para conversar.

- Não quero conversar com você, Malfoy.

- Confesso que preferia fazer outras coisas com você, Hermione . Setenta e três dias é muito tempo – ela tentou disfarçar a surpresa por ele ter contado os dias assim como ela, não conseguiu, arrancando um sorriso irônico dele.

- Sobre o que quer conversar?

Draco ignorou a pergunta e andou até o bar espelhado. Serviu dois copos de uísque e voltou, entregando um para ela. Hermione pegou o copo. Com um gesto de cabeça, Draco pediu que ela se sentasse. Ela escolheu uma poltrona. Ele sorriu de lado novamente.

- Acha mesmo que sentar-se em uma poltrona de um único lugar vai me manter afastado de você, Hermione? As coisas mudarão a partir de hoje...

- E você acha isso? Acha que pode aparecer na minha casa, me sequestrar e vou simplesmente esquecer as merdas que me falou e me entregar a você?

- Não vai esquecer as merdas que te falei, mas sim... você vai se entregar a mim – Draco pegou novamente a varinha e colocou a outra poltrona bem em frente a ela. Sentou-se.

- Você é impossível! – ela disse, bebendo o uísque e recostando-se, querendo manter-se afastada. Sabia que não adiantava se levantar. Draco sempre soube como deixá-la encurralada.

- Eu sei, mas não te "sequestrei" para falar das minhas qualidades... Quero saber uma coisa: por que você errou os ingredientes?

- Bem... – Hermione começou a responder ironicamente – Por que eu não sabia a resposta correta?

- Mentira. Hermione, não ofenda sua inteligência... Nem a minha.

- Não sei aonde você quer chegar, Malfoy. Afinal, eu fui seu "passsatempo", não é? – a morena bebeu seu uísque, fugindo do olhar cinza e penetrante. Olhos que estavam tornando-se cada vez mais escuros.

- Eu ainda me lembro do que você disse em seguida, você se lembra? – ele fez uma pausa, estudando as feições nervosas dela. Levou o corpo um pouco para frente – Você disse: "Ainda vai se arrepender dessa mentira estúpida e infantil" – um pouco mais para frente. Hermione não tinha coragem de encará-lo – Você estava certa, como sempre... Agora, me responda sinceramente: por que você errou os ingredientes?

- Você se afastou de mim sem explicações – ela começou a falar, após uma breve pausa – Eu entendi por que precisava da vaga. Entendi e aceitei a sua trapaça...

- Disse que me faria entender...

- Sim,... Do meu jeito... E meu jeito era estando ao seu lado, sendo sua... – ela bebeu mais um gole do uísque e voltou a encará-lo – Quando eu soube sobre a trapaça e sua transformação eu entendi por que a vaga era mais importante para você do que para mim. Por que, Draco, entendo sim o peso que carrega, apesar de não saber o que é ter esse fardo. Eu entendo porque estive ao seu lado tantas vezes...

Ela ficou em silêncio. Draco sentia vergonha. Seu coração estava mais acelerado que nunca. Proximidade dela... Proximidade da lua cheia.

- A vaga era mais importante porque você não poderia delegar para Snape o preparo de suas poções. Apenas poucos são capazes de preparar uma poção Mata Cão, ainda mais uma modificada. E você não quer que saibam sobre isso, não? Tão orgulhoso, tão egoísta e... tão estúpido, Draco Malfoy...

- Por eu não querer que saibam sobre minha condição? – ele falou, em tom de raiva.

- Não. Por achar que eu não deveria estar ao seu lado. Por me afastar. Por tomar decisões por mim.

- Eu sonhei que tinha te transformado... – ele falou, em voz baixa – Sonhei que te mordia... Era seu sangue em minha boca, Hermione. Precisava me afastar de você.

- Quando concordei em permanecer ao seu lado a cada lua cheia, concordei em correr esse risco. Quando decidi desistir da vaga, foi pensando em você...

- Eu posso te machucar,... – ele falou aproximando-se ainda mais da borda. Ela desencostou-se da cadeira.

- E eu posso conviver com isso... – Hermione disse, seus olhos fixos nos olhos dele – Você pode?

- Eu sei com o que não posso conviver, Hermione – ele repetia o nome dela. Queria ter certeza que ela estava ali, diante de si. Que o cheiro e a presença dela eram reais.

Hermione.

- Não será fácil... Seu nome associado ao de uma sangue-ruim...

- A mais inteligente de todas – ele disse, sorrindo. Ela sorriu com ele – Não sou romântico. O que espera que eu faça agora, Hermione? Que eu declare meu amor? – a última frase continha uma ironia carregada. Mas uma frase verdadeira, ela notou.

Ela sorriu ainda mais.

- Quero o que você sempre fez, Draco... E ouvir sua declaração de amor nunca foi algo que esperei...

Draco jogou seu copo longe e fez o mesmo com o dela. Levantou-se derrubando sua cadeira e puxando-a de forma possessiva para si. Cheirou a pele dela e sentiu seu corpo respondendo instantaneamente. Hermione fechou os olhos. Entregue. Um sorriso bobo nos lábios.

Draco beijou o pescoço, sentindo a pulsação acelerada. O sangue que queria, mas nunca provaria. Jamais. Era muito mais que instinto.

- Draco... Eu...

- Granger, você tem duas opções. – ela calou-se, sorrindo ainda mais - Ou cala essa boca e aceita meu beijo... Ou peça para me afastar e vou me afastar... Só que você realmente precisa querer que eu me afaste. Saberei se estiver mentindo, Granger. – encarou o loiro. Lembrava-se muito bem dessas palavras, foram as palavras que ele dissera quando se beijaram pela primeira vez.

- Sua presa... – ela disse.

- Sim... Presa para meu lobo... E presa em minha vida.

- Eternamente.

- Eternamente, Hermione... – eles beijaram-se e selaram uma aliança que valia muito mais que palavras. Uma aliança que tinha a lua como testemunha. Hermione Granger e Draco Malfoy não precisavam de palavras, pois já tinham um ao outro.

N.A.: ufa... acabei... poxa vida que fic trabalhosa. Mas aquela que eu termino muito feliz pelo resultado. Juro que qdo vi que tirei minha mainha, Her G, novamente... Nem acreditei! Fiquei feliz e apreensiva. Escrever para a mesma pessoa em tão pouco tempo é um desafio. Confesso que a ideia dessa fic estava nos meus projetos, guardadinha há um bom tempo.

O lance do Draco lobisomem surgiu e não pude perder. Se alguém for comparar com Crepúsculo... guarde o comentário para si! Eu detesto essa série e não me inspirei nela! Me inspirei em Bill, na minha fic "Uma nova chance" e na fic "aos poucos", da Flá..

Agradeço a Maris pela betagem, pelo apoio e incentivo. Ela queria uma saga... mas com esse final... quem sabe não surja uma continuação? (me xingando por dar ideia...)

Espero que minha querida amiga e mainha tenha adorado... amado tanto quanto a do ano passado! Foi de coração, te amo! Beijos enormes, Ártemis

N.B: Eu realmente queria uma saga. Disse à Ártemis que essa era sua melhor fic. Não porque envolve lobos e tals, mas pela escrita, pela descrição dos personagens, por nos fazer sentir o cheiro e o aroma que os personagens sentem. Obrigada pela confiança de deixar eu betar suas preciosidades. E parabéns pelo presente Her!