Era uma festa estranha. Todos os convidados, sem exceção, pareciam nervosos e ansiosos, como se ao invés de serem chamados ali parta se divertirem, houvessem sido reunidos numa estranha terapia de medo em grupo. A decoração da festa e o cardápio tentavam criar um clima mais informal, mas as pessoas continuavam a se tratar como estranhos ameaçados.
Jensen achou que aquilo já era demais até na situação em que todos se encontravam. Já havia aceitado dirigir Otherside e a festa fora um meio de apresentá-lo ao restante da equipe do programa. Todos foram educados, mas não conseguiram, ou não quiseram, esconder o receio de ver um diretor novato, sem nome ou prestigio, dirigindo a oitava temporada de Otherside. Para piorar, a festa já durava três horas e Jared Padalecki ainda não dera as caras. Todos sabiam, inclusive Jensen, que quem realmente aprovaria ou não o novo diretor era o ator.
Jim Beaver, diretor de efeitos especiais, passara um bom tempo com Jensen discutindo os efeitos que usara na última cena do programa e dando algumas idéias sobre o restante da série. Jensen escutara a tudo atentamente e agradecido por haver ao menos uma pessoa que conversava com ele de verdade, não aquela conversa forçada quando se era apresentado a alguém. Estava comentando com Jim sobre um modo de deixar as cenas de travessia ainda mais reais quando ouviu um murmurinho se espalhar pelo salão. Olhou em volta e logo entendeu o motivo dos murmúrios. Genevieve Cortese acabava de chegar à festa e sozinha. Todos sabiam que ela e Jared Padalecki moravam juntos e até estavam pensando em casamento. Se ela viera sozinha, era sinal de que Jared não viria à festa.
– Me deixe apresentá-lo à Genevieve Cortese, nossa Madson. – Jim Beaver disse conduzindo Jensen até a mulher. – Gen, que bom que veio! – Ele a abraçou. – Esse é Jensen Ackles, nosso novo diretor e escritor.
– Muito prazer! – A mulher lhe estendeu a mão.
–O prazer é todo meu. – Jensen segurou a mão dela rapidamente. – Estava ansioso para conhecê-la.
– Eu também. Principalmente agora que não sei se continuo no programa ou não. – Ela confessou sorrindo.
– Quanto a isso, não tem que se preocupar. Logo mandarei os scripts para você.
– Ah, que alívio! – Ela levou a mão ao peito. – Já estava me perguntando se teria que sair a procura de trabalho.
– Não se preocupe. Você e Chad continuarão interpretando a Madson.
– O Chad também? Então, o Adam não vai voltar?
– Não. Iria ficar meio ilógico se ele voltasse, não é?
– Ah, pobre Mad. Ela vai querer matar o Nick por isso.
– É essa a intenção. – Jensen sorriu com um ar sagaz para a mulher que o olhou cheia de admiração.
– Acho que vou gostar da oitava temporada de Otherside. – Ela disse com sincera empolgação.
– Assim eu espero.
O restante da noite não passou de conversas vazias e suposições do que seria a oitava temporada do programa. Jensen voltou para casa tarde, cansado e um tanto apreensivo. Por que Jared não fora a festa? Será que de cara não o aprovara como diretor? Estaria desempregado no dia seguinte? Não ter certeza de seu futuro era quase uma dor física nele e aquilo o estava matando. Quando entrou em seu quarto, encontrou Danneel dormindo seminua enroscada no lençol. Olhou para ela com desejo, porém só isso. Há muito tempo a única coisa que mantinha aquele casamento era o sexo. Se seu corpo não fosse tão acostumado ao dela, já a teria deixado há muito tempo.
Pensou em despertá-la com um beijo, mas logo reconsiderou. Se a acordasse, ao invés de sexo, provavelmente teria uma discussão longa e estressante sobre seu novo trabalho. Jensen podia passar uma noite sem transar se isso significasse um pouco de paz para seus ouvidos. Tomou uma ducha rápida e deitou-se ao lado dela tentando não pensar no quanto seria relaxante ter a mulher nos braços. Ao invés disso, concentrou-se em pensar em estratégias que poderia vir a usar para convencer Jared a trabalhar com ele. Adormeceu com a imagem do rosto sorridente de Jared.
– Hey, baby! – Genevieve disse ao entrar no quarto e encontrar Jared na cama assistindo TV. – Devia ter ido. Todos sentiram sua falta.
– Sei... – Jared bufou. – Todos eles são um bando de hipócritas. Ficam me bajulando, mas é só eu virar as costas e começam a falar mal de mim. Aposto que ainda acham que seria melhor eu ter saído e não o Jeffrey.
– Não é verdade, amor. Tem muita gente que gosta de você de verdade. – Genevieve disse tirando o vestido de festa. – O Chad é seu amigo de verdade e o Jim te adora.
– Só eles.
– E tem o novo diretor. O tal Ackles parece ser um cara bem legal e tem umas idéias ótimas para a oitava temporada.
– Imaginei que ele fosse bom. – Jared disse desligando a TV e olhando para a namorada com os olhos brilhando de empolgação. – Assisti a última série que ele dirigiu, The Rule. Você não faz ideia do quanto o cara é incrível. A última cena da série... O modo como terminou... Coisa de gênio. Acho que ele vai transformar Otherside num sucesso maior do que já é.
– Uau! – A mulher assoviou. – Você já virou fã do cara? Quem diria...
– Não é bem assim. É só que...
– É só que você está tão ansioso para provar para todo mundo que a saída de Jeffrey de Otherside foi o melhor para o programa, que está apostando todas as suas fichas no novo diretor. – Genevieve concluiu. – Eu sei que te incomodam os cochichos nos corredores do estúdio e as fofocas nas revistas e na internet. Se Otherside afundar sem o Jeffrey, todos irão te culpar. Se continuar no topo, ninguém mais vai te criticar.
– Essa sua sagacidade é meio incomoda. – Jared disse meio emburrado.
– É a verdade. – Ela disse se dirigindo ao banheiro. – Mas não se preocupe com isso. O Ackles parece ser um ótimo diretor e a oitava temporada de Otherside promete ser um sucesso.
Jared ouviu o barulho da ducha sendo aberta. Se perguntou se seria uma boa ideia ir lá fazer companhia a mulher, mas havia algo o perturbando: Jensen Ackles. Desde que redescobrira Jensen Ackles, ficara quase obcecado por ele. Pesquisou na internet tudo o que pôde sobre ele. Tanto que sabia até mesmo sua comida favorita, seu time de hóquei, o bairro onde morava e seus passatempos. Depois de assistir The Rule, baixou todos os trabalhos que Ackles já fizera um dia. Achava tudo o que ele fazia interessante, até seu primeiro trabalho em uma novela. Algo no modo como o homem olhava para a câmera mexia com ele, o fazia lembrar a primeira vez que vira aqueles olhos. Ainda lembrava-se da emoção de vê-lo em cena pessoalmente, a poucos metros de distância. Adormeceu com a imagem do rosto provocante de Jensen.
Jensen acordou com o seu celular tocando. Havia deixado o aparelho na mesa de cabeceira, só alguns centímetros de sua mão, mas alcançá-lo parecia ser um esforço que ele não seria capaz de fazer. Abriu um olho com muito custo e espiou o relógio de ponteiro na cabeceira da cama: 8 da manhã. Quem seria o louco que ousava acordá-lo àquela hora da madrugada, ainda mais depois de uma festa? Fazendo o que julgou ser um esforço sobre humano, puxou o celular para junto de si e atendeu.
– Alô... – Bocejou alto.
– Te acordei? Desculpe. – Jensen ouviu uma voz divertida do outro lado da linha. – Já que te acordei mesmo, o que acha de tomar um café com o protagonista da série que vai começar a dirigir?
– Quem está falando? – Jensen sentou-se na cama de uma vez só, pondo-se imediatamente em alerta.
– É Jared Padalecki. A gente não teve a chance de se conhecer ontem à noite, então pensei que a gente podia se encontrar para um café... Bater um papo informal...
– Claro. Claro. – Jensen apressou-se a dizer. – Onde?
– Tem um café perto da sua casa... O Wallter's café. Eles servem crepe com recheio de morango. Se estiver tudo bem para você...
– Está ótimo! Te encontro em meia hora. – Jensen disse já saindo da cama e indo se arrumar.
– Não precisa correr. Te espero o tempo que for preciso.
– An...? – Jensen ficou meio sem palavras. Como assim ele o esperaria o tempo que fosse preciso?
– Até mais! – Jared encerrou a ligação deixando Jensen confuso e apreensivo.
Que coisa estranha! E mais, como Jared sabia onde ficava a casa dele para marcar um encontro naquele café? Estranho. Muito estranho...
Quando Jensen chegou ao café, Jared já estava comendo um enorme crepe com morangos e calda vermelhinhos escorrendo de dentro dele. Só de ver, Jensen sentiu o estômago embrulhar. Nada contra doces, mas estava nervoso e seu estômago sempre dava voltas quando estava nervoso. Ver, sentir o cheiro ou provar comida não ajudava muito. Tentando controlar o enjôo, Jensen se aproximou da mesa onde Jared comia distraidamente seu crepe enquanto lia um jornal. Ele estava usando roupa de corrida e o suor escorrendo pelo seu corpo indicava que ele realmente gostava de se exercitar de manhã.
– Hun... Hun... – Jensen pigarreou alto para chamar a atenção de Jared. Quando o moreno abandonou o jornal e olhou para ele, ainda com o garfo enfiado na boca, Jared sentiu seu estômago fazer algo estranho. Um tipo de solavanco. – Oi, eu sou Jensen Ackles!
Jensen estendeu a mão, mas surpreendeu-se ao ver Jared se levantar e puxá-lo para junto de si. De repente se viu preso entre os braços fortes do homem a sua frente, o nariz enfiado entre o pescoço e o ombro suado, as costas gentilmente afagadas por mãos enormes e firmes.
– Jared Padalecki. – Ouviu Jared dizer perto de seu ouvido. – Estava louco para te conhecer...
Jared o soltou lentamente, mas não se afastou muito dele. Seus olhos esverdeados estavam fixos nos seus, seus lábios finos se abriam num sorriso radiante que exibia lindas covinhas que Jensen já havia reparado em fotos, mas que pessoalmente eram bem mais atraentes. De tão perto que estavam, Jensen ainda podia sentir o cheiro da colônia que Jared usava misturada ao seu suor. E o resultado da mistura não era ruim. Não, não era.
Ficaram ainda um tempo parados, apenas olhando um para o outro, até que Jared se mancou e convidou Jensen para sentar.
– Quer comer alguma coisa? Beber?
– Só um café. – Jensen achava que seu estômago não suportaria algo além disso. Jared, então, sinalizou para um garçom e pediu um café para Jensen.
– Eu dei uma olhada nos seus últimos trabalhos. E, cara, fiquei impressionado! O final de The Rule foi coisa de gênio. Sério... – Jared disse com empolgação entre uma garfada e outra. – Sua atuação foi impecável, mas sua direção... Você parece que nasceu para isso!
– Obrigado, eu acho... – Jensen disse sem graça. Esperava chegar ali e enfrentar um cara arrogante, mimado e cheio de exigências. Mas estava ali com um cara estranho, para dizer o mínimo, que o tratara como um velho amigo, já cheio de intimidades, e que conversava com ele como se fosse uma fangirl. – Também andei espiando seu trabalho. Você é incrível! Um ótimo ator!
– Não precisa bajular. Mesmo por que, quando a gente começar a gravar e você vir o tanto de cenas que vai ter que repetir por minha causa, vai se arrepender dessas palavras... – Jared gargalhou jogando a cabeça para trás e sacudindo os ombros de um jeito meio hilário que fazia com que Jensen sentisse vontade de rir também.
– Isso quer dizer que você não vê problema em me ter como diretor? – Jensen perguntou cauteloso.
– Problema algum. – Jared disse assumindo uma postura séria. – Olha, eu sei que você já deve ter escutado muita coisa sobre mim, mas nem a metade é verdade. Eu não tenho a intenção de lhe causar o menor problema ou exigir sua substituição caso a gente tenha um desentendimento. O que aconteceu entre mim e Jeffrey foi... – De repente, Jared se calou e engoliu em seco. Parecia ter perdido a capacidade de falar. – Não vai acontecer com você.
– Ok. – Jensen concordou com a cabeça. Estava curioso sobre o acontecido, mas não iria forçar a barra. Mesmo por que, só o fato de Jared aceitá-lo e afirmar que não teriam problemas já era o bastante para ele. – Sentimos sua falta ontem... Por que não foi à festa?
– Ah, eu estava em casa assistindo A Bird Without Wings. – Jared riu e Jensen corou.
– Não acredito que você estava assistindo àquilo! – Jensen balançou a cabeça completamente envergonhado. – Pior! Não acredito que perdeu a festa para assistir àquilo!
– Qual é, Jensen...? Muita gente começa a carreira em novelas... – Jared disse rindo da cara vermelha de Jensen. – E você ganhou o prêmio de ator revelação quando entrou para a novela, não foi?
– Não me lembre disso... – Jensen implorou se curvando e escondendo o rosto entre as mãos.
O restante da conversa foi leve e divertida. Jared surpreendentemente era uma pessoa muito fácil de conversar e mesmo Jensen, que não era muito de se abrir, se viu totalmente envolvido pelo papo do homem e meio que conquistado. Quando, perto do horário do almoço, os dois se despediram, Jensen voltou para casa com uma pulga atrás da orelha.
Se Jared era um cara tão legal, por que Jeffrey e ele brigaram a ponto de um não conseguir mais trabalhar com o outro? Outra coisa também o incomodava: aquela atenção dispensada por Jared. O homem simplesmente havia assistido todos os seus trabalhos. Todos. Isso era estranho.
Jensen assistira todos os trabalhos de Jared, mas ele tinha um motivo para isso. Precisava conhecer melhor o protagonista da série que iria dirigir e ainda tinha que arrumar um jeito de se dar bem com ele. Mas por que Jared se dera a todo aquele trabalho? Parecia até que tinha assistido tudo por prazer. Estranho. Definitivamente, estranho.
Quando Jared voltou para casa, Genevieve não estava e ele agradeceu a Deus por isso, por que ele precisava de um tempo sozinho para acalmar seu coração. Havia reencontrado Jensen Ackles. Havia reencontrado Jensen e o abraçado e conversado com ele e... Uau! Jensen parecia não ter mudado muito. Parecia o mesmo rapaz meio tímido que autografara sua agenda um dia. Jared mal conseguia acreditar que conversara com Jensen pessoalmente e que Jensen havia sorrido daquele jeitinho só para ele.
Jared correu para seu escritório, apanhou a agenda com o autografo de Jensen e releu as palavras escritas ali. Conheci-as de cor, mas sempre lhe dava prazer relê-las. Só de pensar que passaria algumas horas por dia com Jensen, Jared já ficava meio nas nuvens. Se sentia como uma criança realizando um sonho. O estranho era que mal voltara a pensar em Jensen e suas emoções haviam voltado a florecer, como acontecera na primeira vez que o vira. Sentindo o coração bater mais forte, ele foi até o aparelho de som e colocou um cd antigo, mas que continha aquela música especial, aquela que Jensen cantara.
A voz de Cyndi Lauper preencheu o ambiente, mas era a voz rouca de Jensen que chegava aos ouvidos de Jared. Era Jensen quem cantava Hat full of stars no palco de um teatro mediano de Los Angeles para uma platéia de estudantes do colegial em excursão pela cidade. Era Jensen quem encantava a todos com uma atuação tão brilhante que até o garoto mais sem noção do colégio parou de jogar pipoca nos colegas para assisti-lo. Depois daquela peça, Hat full of stars, como a música tema, Jared decidiu o que queria ser da vida. Queria ser ator. Queria fazer com o público o que aquele ator fizera com ele. Queria imprimir emoção no peito dos outros.
Foi pensando assim que Jared fugiu dos professores e esperou na porta dos fundos do teatro até o jovem ator sair. Foi com mãos trêmulas e coração batendo descompassado que ele se aproximou e estendeu sua agenda de estudante pedindo um autografo. O rapaz se surpreendeu. Parecia nunca ter sido abordado por um fã antes. Ele corou e riu sem jeito perguntando se Jared não o estava confundindo com alguém, mas mesmo assim apanhou sua agenda e escreveu "Para Jared Padalecki, um abraço de Jensen Ackles" antes de correr para aproveitar a carona de outro ator que estava de carro.
Jared nunca esqueceu aquele momento. Jared nunca esqueceu aquele sorriso tímido e doce quando Jensen, de dentro do carro, acenou para ele e gritou: "A gente se vê qualquer dia!" Mas o "dia" demorou a chegar. Jared até tentou pesquisar sobre o jovem ator, mas logo descobriu que o protagonista da peça era outro e que Jensen provavelmente fora apenas um substituto. Não conseguiu saber mais nada sobre ele. Os anos se passaram e Jared se concentrou em sua carreira. Batalhou tanto para chegar aonde chegara que até se esquecera de continuar buscando pela pessoa que o inspirara, mas a pessoa de Jensen Ackles continuava como uma doce memória já quase esquecida em seu peito, como se esperasse apenas um vislumbre para voltar a brilhar forte em seu coração.
Incrível como estiveram trabalhando em estúdios bem próximos nos últimos anos e não haviam se encontrado. Jared não gostava de séries sobre presídios, violência física e psicológica, por isso nunca se interessara por The Rule. E como não tinham amigos em comum e os atores de Otherside e The Rule não tinham nenhum evento juntos, não tiveram contato, não se encontraram. O destino os fizera esperar muito tempo, mas em fim, os unira.
Jared e Jensen trabalhariam juntos. Isso deixava Jared feliz, emocionado, mas apreensivo. Jensen fora sua inspiração, seu ídolo. E agora, mas do que antes, Jared estava encantado com o trabalho do homem. Além de diretor, Jensen era um grande ator. Jared se perguntava se conseguiria atuar numa boa sob o olhar de Jensen. As gravações nem haviam começado e ele já estava nervoso, inseguro. E se Jensen o considerasse um ator medíocre? E se Jensen desistisse da série por causa dele?
Isso não. Jared tinha que se acalmar. Jared tinha que fazer com que Jensen considerasse trabalhar com ele a melhor coisa do mundo. Mas e se não conseguisse? Normalmente, Jared não era inseguro, mas algo em Jensen Ackles o deixava meio zonzo, fora de foco, como se tivesse tomado uma garrafa inteira de téquila e depois fosse andar sobre a corda bamba. Perto de Jensen Jared sentira a estranha sensação de estar bêbado de euforia, chapado de nostálgia. Como seria trabalhar com Jensen? Seria trabalhar completamente fora de si, no mínimo. Jared não via a hora de começarem as gravações.
