Enternecido Temporal
Capítulo I – Em Seus Braços
6:00hs. Toda manhã é normal ouvir o despertador apitando por cinco minutos consecutivos sem causar a mínima reação em Arthur. Estrategicamente, o relógio havia sido colocado sobre a escrivaninha, próxima à porta do quarto e um pouco distante da sua cama, para que ele não tivesse a chance de desativá-lo e voltar a dormir (o que já havia acontecido algumas vezes e se não fosse por sua mãe, ele certamente teria perdido a hora).
6:10hs. Será que o Arthur já acordou?
Sônia, terminando de tomar seu café e ajeitando o jornal sobre a pilha de revistas, começava a se direcionar ao quarto do filho.
Arthur. Desligue esse despertador! Você já acordou? - Batia suavemente na porta mas falava em tom alto e firme - Ande logo, antes que você se atrase!
Fazia tempo desde a última vez que Sônia precisou acordar Arthur, mas também não era anormal ter que fazê-lo. Sabendo que algo estava mexendo com a cabeça de seu filho, e como mãe procurando ajudá-lo com seus problemas, agia muitas vezes como uma grande amiga.
Bom dia! - Já de uniforme e sentando-se à mesa Arthur ainda bocejava.
Bom dia filho! Você não está atrasado?
Estou? O relógio despertou na hora de sempre mãe.
Mas eu pensei que hoje você fosse tomar café na escola, tanto que eu nem preparei nada. Não foi isso que o Leandro combinou com você? - Sônia pegava novamente o jornal.
Verdade! Tinha esquecido. - Arthur voltava a ficar em pé - Então vou indo, se eu correr ainda dá tempo. Tchau!
Dirigindo-se apressadamente à porta e pegando sua mochila que estava sobre o sofá, Arthur girava a fechadura enquanto sua mãe, ainda na cozinha e de forma tranquila, lhe falava:
O Leandro vai passar a tarde aqui em casa de novo?
Sim! - Um frio cortou-lhe a espinha, paralisando-o temporariamente - Ainda não terminamos o nosso trabalho. Por quê? - Continuava a responder, mas já fora de casa, com a cabeça entre a pequena abertura que restava antes de fechar totalmente a porta.
Vou deixar algo preparado então, pra quando vocês voltarem da aula.
Legal! E o que será? - Um sorriso malicioso surgia em seu rosto - Desse jeito vou começar a trazer ele todos os dias aqui em casa!
Como se isso não fosse comum. - Sônia falava de forma natural e com o jornal em mãos voltava a folheá-lo - Sempre que eu chego vocês estão na frente da TV com aquele video-game ligado ou então enfurnados no quarto com o som alto.
Nesse instante não havia mais sorriso em seu rosto e Arthur apresentava uma aparência embaraçada. Era verdade que Leandro quase sempre passava a tarde por lá, mas ele não se sentiu bem ao ouvir aquilo de sua própria mãe.
"'Enfurnados no quarto.' - Em pensamento Arthur se questionava - O que será que ela quis dizer com isso?"
Você não estava atrasado Arthur? - Sônia logo percebeu a mudança na expressão do filho.
Já... já estou indo! - Mais embaraçado, Arthur quase voltou a entrar na casa - Mas você também mãe, fala demais.
Boa aula! - Despediu-se sorrindo - Espero que hoje vocês consigam terminar o trabalho. - Completou, agora com a aparência séria e um certo tom de advertência em sua voz.
Pode deixar... - Voltando a se apressar Arthur fechava a porta - Tchau!
Novamente em seu pensamento ele tentava decifrar o que sua mãe estava querendo dizer com tudo aquilo.
"Será que ela está desconfiando de alguma coisa?"
Absorvido em suas ideias ele mal percebeu que, ao sair pelo portão, alguém lhe observava.
Sabia que você se atrasaria!
Aquela voz fez com que qualquer preocupação desaparecesse da mente de Arthur. Rapidamente seu olhar cruzou-se com os olhos de Leandro que, encostado em uma árvore e mantendo suas pernas e braços cruzados, sustentava um sorriso encantador, porém discreto.
O… o que você está fazendo aqui? - Em um misto de alegria e hesitação, Arthur se direcionava a Leandro, que também se deslocava ao seu encontro.
Tudo bem com você também? - De forma grave, mas com o mesmo sorriso, Leandro o questionava.
Tudo sim cara, e com você? - Arthur percebeu a brincadeira e, retribuindo o sorriso, estendeu-lhe a mão para cumprimentá-lo. Ele só não esperava que ao apertá-la Leandro o puxaria para um abraço.
Nem tanto assim. - Sua voz assumiu um tom ameno - Mas estando com você agora... - Silêncio - Conseguiu dormir bem?
Infelizmente, não! - Entregando-se à situação, Arthur tentava desfazer-se de toda melancolia. - Só dormirei tranquilamente quando os seus braços puderem me amparar por todas as noites.
