Ele olhou para a garrafa de vidro, iluminada contra a luz vinda da janela aberta, a claridade que feria os seus olhos. Mesmo assim, forçou-se a encarar a superfície transparente. Se um único centímetro de líquido âmbar ainda persistia lá dentro era um milagre. Lembrava-se perfeitamente bem de tê-la cheia no dia anterior, mas é claro que a notícia que recebeu não permitiria que permanecesse assim.

— Eu sinto muito, senhor Black, mas James e Lily Potter faleceram esta manhã.

Ele não quis acreditar. Ligou a TV no noticiário, onde dava as informações do acidente de carro. Então foi até o hospital junto com a responsável do Serviço Social, Amelia Bones. Reconheceu os corpos, o que foi a parte mais difícil de todo o processo, e provavelmente o pior momento de sua vida.

— Você é a única pessoa que essa criança tem. Se você não cuidar dela, ela irá para a adoção, e sabe-se lá em que família pode parar.

Nunca seria capaz de abandonar ao seu afilhado justo quando ele mais precisava, o problema era que não tinha a menor noção de como cuidar de uma criança, ainda mais em tão pouca idade.

Antes que ficasse ciente do que estava fazendo, ele jogou o seu braço para trás, pegando impulso, antes de atirar a garrafa na direção da parede. O vidro estilhaçou-se assim que entrou em contato, causando um enorme estrondo, os pedaços de tamanhos variados espalharam-se pelo chão da sala.

Não importou-se com isso, passando a mão pelo cabelo mediano e barba rala.

Amaldiçoou-se. Por que nunca teve mais interesse em ver as interações familiares? Por que nunca procurou saber como cuidar de Harry? Por que não deixou Remus ser o padrinho do garoto?

Alice Longbottom tinha se mudado com o marido e filho para a Califórnia. Exceto Sirius, ela era a única que poderia cuidar do menino, e duvidava que eles tivessem a capacidade de cuidá-lo quando já tinham um bebê em casa. Além do mais, era do outro lado do mundo, ele não poderia vê-lo sempre, como fazia antes.

Sentou-se no sofá, ignorando completamente o barulho que fazia quando pisava em cima de algum pedaço do que tinha sido a garrafa. Pegou o gancho do telefone fixo, pressionando as teclas com os dedos trêmulos, e colocou-o ao ouvido, esperando a ligação completar-se.

— Atenda, por favor — ele abaixou a cabeça, fechando os olhos com força.

A ressaca parecia piorar a cada minuto, e não conseguia lembrar-se de onde tinha deixado a cartela de remédios para esses casos.

— Alô?

Ele abriu os olhos, sabendo que corria o risco de cair no sono.

— Alô? Remus?

Esfregou os olhos, tentando manter-se acordado.

— Sirius? O que houve?

Escutar aquela voz tão familiar para ele fez com que precisasse conter-se para não desabar.

— Você... — Sirius engoliu em seco — Ficou sabendo?

O outro lado da linha também ficou silencioso.

— De James e Lily? Sim, eu vi na TV.

Era tão surreal aquela situação.

— Você reconheceu os corpos?

Sirius fechou os olhos mais uma vez com força, como se estivesse com esperanças de acordo daquele pesadelo.

— Sim, eram eles — disse com dificuldade.

— E agora?

O tom de voz de Remus mudou, e ele também sentiu-se perdido. A mesma pergunta feita rodeava a sua cabeça desde que recebeu a desagradável notícia.

— E agora, Remus? — ele repetiu a pergunta — Eu não posso deixar Harry com um bando de desconhecidos, mas... Caramba!

— E a irmã de Lily? — perguntou Remus.

Sirius não a consideraria nem por um segundo.

— É uma cachorra. Sempre teve ódio de Lily, cortou relações e só convidou-a para o casamento por obrigação dos pais — ele disse.

— Mas não era para lá onde estavam indo? — o outro voltou a perguntar, estranhando.

— Manter uma relação formal é diferente de cuidar de uma criança. Foi o último pedido dos pais delas, pelo que eu saiba.

— Ela não vai querer ficar com ele?

Aquela opção era completamente imperdoável. Mesmo se quisesse, não seria justo com a criança, Petúnia não era o tipo de irmã carinhosa, quem dirá tia.

"Mas ela sabe cuidar de uma criança" a sua mente provocou-o.

— Eu não vou permitir — ele disse, passando a mão pelo rosto mais uma vez — Vou precisar da sua ajuda.

— Minha? Você acha que eu sei muita coisa? — Remus deu uma risada leve do outro lado — Eu vou procurar uma babá para Harry. Pelo menos por enquanto, ela vai te ajudar.

— Obrigado — sabia que aquela palavra não poderia expressar a gratidão que sentia.

Remus e Harry eram as únicas pessoas que ainda restavam a ele, que ainda importavam para ele. Ele não podia se permitir falhar, não daquela vez.

Abriu os olhos, que ainda estavam fechados, e levantou a cabeça quando escutou batidas na porta. Olhou para a situação ao redor, sentindo-se ainda letárgico, antes de abrir a porta.

— Se você continuar quebrando as coisas por aqui, a sua vizinha vai ligar para a polícia — disse Amelia com um pouco de seriedade — E aí as coisas não vão ser fáceis para você.

Sirius olhou para a casa ao lado, escutando apenas o som do aspirador.

— Se eu tivesse denunciado todas as brigas que escutei dali... — ele disse, sem importar-se.

— Você precisa ficar na linha — ela disse, olhando por cima de seu ombro — Ou pode perder a guarda do Harry.

— Você disse que o testamento me nomeia...

Amelia levantou as sobrancelhas, como se pedindo para entrar, e ele afastou-se, dando o espaço.

— É claro que nomeia, mas é uma fase de adaptação — ela disse, descendo a alça da bolsa de seu ombro e colocando-a em cima do sofá, caminhando direto para onde o chão estava coberto de cacos de vidro, pisando em cima de alguns com o seu salto alto — Se continuar com esse comportamento de tacar garrafas pelas paredes...

— Eu estou surtando aqui! — Sirius quase gritou, antes de lembrar-se da vizinha fofoqueira e ir fechar a janela — Eu não tenho mais esse direito?

— Infelizmente você terá que pensar no seu afilhado em primeiro lugar. Eu posso indicar uma psicóloga, se for de seu interesse, mas precisa manter o controle. Provar que é capaz de cuidar desse garoto.

Era como se o mundo inteiro estivesse sobre os seus ombros, mas Sirius concordou com a cabeça, em silêncio.

— Se tiver quem possa ajudá-lo será bem melhor — ela disse.

— Eu tenho — ele disse.

— E esteja ciente de que outros assistentes sociais podem sentir-se livres para visitar a sua casa sem um aviso prévio. Um deslize e você perderá a guarda.

Amelia deu um aperto amigável em seu ombro, antes de pegar a bolsa e voltar a sair da casa, deixando-o sozinho e perdido para trás.

Ele começou a pegar os cacos um a um, jogando-os em uma sacola plástica, sentindo que eles representavam cada pedaço fragmentado do seu coração. Não podia evitar lembrar-se de todas as vezes em que magoou-se. Da primeira vez que descobriu que não podia confiar em seus pais, quando sua prima Andrômeda fugiu de casa e nunca mais soube dela, quando fugiu de casa deixando Regulus para trás, a traição de Pettigrew... E então a morte de seus melhores amigos.

Quantas vezes mais ele seria abandonado?

Não permitiria que Harry passasse por esse tipo de situação.