Capítulo Dois: É tudo culpa dos irmãos mais novos.

A notícia ultra importante que Mary queria me contar ontem era que Scorpius Malfoy estava solteiro de novo, o que era óbvio uma vez que a, agora ex, namorada dele era a Dominique e que ela, por mais... "Dada" que fosse não trai. Para ter ido ao 'mirante' com o James, só podia dizer que ela e o Scorpius voltaram a ser 'amigos'.

Se bem que entre aquele povo, todos são amigos com benefícios, então não mudou muita coisa em minha vida.

Agora mesmo estou no meu quarto conversando com a Mary e a Jessica pelo nosso grupo secreto do Facebook. Jéssica achou um vídeo muito engraçado e postou e agora estamos discutindo o que achamos do vídeo como três drogadas insanas.

Mas fazer o que? É a vida. De que mais servem os amigos do que te acompanharem em sua loucura?O mundo já está cheio de pessoas te julgando, é sempre bom ter alguém do seu lado para ser julgado junto com você.

Mas meu momento de paz, alegria e insanidade tinha de ser interrompido pelo ser ignóbil e irritante que eu gosto de chamar de meu irmão mais novo.

Pessoas normais batem na porta, mas Hugo não, ele gira a maçaneta para deixar a porta entreaberta e a chuta com toda a força. Dessa forma quando ela bate na parede faz um estrondo dos infernos que quase me mata do coração e me faz pensar no quanto ele tem sorte de homicídio ser um crime.

-Irmã queria – ele queria alguma coisa – eu já disse que eu te amo hoje? – e é uma coisa que ele tem certeza que eu vou recusar – porque se não disse, digo agora: Eu te amo tanto irmã linda – eu tenho até medo de saber o que ele quer.

-Já que você me ama, tente da próxima vez bater a porta e não tentar destruí-la ou me matar do coração – respondi sem o encarar.

-Pode deixar, tudo por você, irmã querida – ele deve querer MUITO o que ele está prestes a pedir.

-Pode pedir – rolei os olhos e fechei meu laptop, virando-me para que pudesse o encarar.

Hugo era pelo menos duas cabeças mais alto que eu e, como se já não fosse humilhante o suficiente ter seu irmão mais novo mais alto que você, ele tinha o cabelo ruivo perfeito e brilhante do papai, enquanto eu herdei a juba armada e horrível da minha mãe. A única coisa que herdei do meu pai, era um tom acaju de meus cabelos. E eu nem vou falar dos olhos azuis perfeitos que evidenciam mais ainda o quanto os castanhos dos meus são sem graça. Malditos irmãos mais novos.

Ele abriu um sorriso de orelha a orelha que o fazia parecer ter dez anos ao invés de quinze – o Albus me convidou para ir num churrasco na casa do Scorpius – ele começou mal se agüentando de ansiedade.

-Parabéns para você – fiz um joinha animado. Que ótimo até meu irmão do primeiro ano era mais popular que eu – mas o que eu tenho a ver com isso?

-Mamãe disse que eu só posso ir se você for comigo – ele explicou como se não fosse nada de mais – e, como eu nunca te peço nada... Vim pedir para você vir comigo.

Nunca me pede nada? Ele esqueceu das 500 libras que eu dei para ele poder comprar os vídeo games dele quando a mamãe cortou sua mesada. Ele com certeza se esqueceu de quando ele estava quase viciado em jogos de carta e devendo até o pescoço que fui eu que paguei todas as dívidas e o ajudei a superar essa faze sem que os nossos pais soubessem. E essas são só as coisas mais extrapoladas. De coisas pequenas eu já fiz tanta coisa para esse pirralho que já perdi a conta. Eu que devia falar que nunca peço nada e não ele.

-Olha querido, eu não gosto desses lugares – comecei calmamente – você sabe que eu sempre te ajudo quando dá, mas dessa vez...

-Qual é! É só um churrasquinho! – ele pediu fazendo aquela carinha de filhotinho que o fazia parecer um bebê e tornava impossível recusar algo para ele – por favor... Eu limpo o seu quarto, eu te deixo jogar no meu kinect sempre que você quiser, eu te dou metade da minha mesada por cinco meses... Eu faço qualquer coisa que você quiser. Eu nunca mais te peço nada. Por favor... Vai nessa festa comigo – e para terminar ele encerrou com uma voz chorosa e olhinhos brilhantes de lágrimas prestes a cair.

Eu sei que ele não ia cumprir nada daquilo, mas ver aquela carinha me dava um aperto no coração... Não dá para evitar – Certo, eu vou – concordei em meio a um suspiro derrotado.

Ele deu um pulo e me abraçou – Muito obrigado, você é a melhor irmã do mundo! – disse em genuína gratidão e me largou quando eu estava quase ficando sem ar – saímos as sete – anunciou e saiu do meu quarto fechando a porta com cuidado atrás de si.

Foi só então que eu olhei no relógio e vi que eram seis e meia.

xXx

Depois de um banho tomado em tempo recorde, colocar uma camiseta branca, uma camisa xadrez vermelha, preto e branco de manga três quartos desabotoada, uma calça jeans simples, um all star branco básico e passar um lápis de olho acompanhado de um gloss incolor. Peguei minha bolsa, as chaves do meu carro e desci para a sala.

Hugo já estava esperando na porta e mamãe me encarava com uma leve pontada de decepção, murmurei um "Hugo fez A carinha e não consegui resistir" para ela quando me despedi e fui para porta.

Menos de cinco minutos depois já estávamos no meu carro saindo do condomínio.

Hugo ficava mudando de estação do rádio a cada minuto sempre que se enjoava de uma música. Quer dizer, que ele era meio hiperativo eu já sabia, mas eu realmente não sabia que era TANTO assim. De qualquer forma, conseguimos chegar à casa de Scorpius ás sete e quinze.

Era uma mansão linda que ficava numa rua paralela à rua onde havia os maiores e melhores bares e boates da cidade. E também onde ficavam o motel e o cassino mais antigos e famosos daqui.

Enfim, a casa sozinha parecia uma mini chácara cercada de muros e da mais alta proteção, talvez fosse por isso que o senhor Malfoy deixava seu querido filho sozinho em casa quando ia viajar. Mal ele sabe que se ficava 10 dias fora de casa, tinha festa os dez dias.

Pelo que eu sabia a mãe dele havia morrido há alguns anos de câncer, ou algo parecido e o senhor Malfoy estava sempre sobrecarregado de trabalho e viajando. Calculo que esta seja uma das razões dele não saber nem da metade sobre seu filho.

xXx

Tirando a surpresa momentânea de todos na festa pela minha presença, tudo correu muito bem. Dominique me arrastou para a rodinha de amigos dela e agora eu estava sentada numa mesa cheia de pessoas bêbadas conversando comigo. Pessoas que passaram os dois últimos anos sem olhar na minha cara.

Fred e Molly estavam empurrando as garotas e garotos que estavam conversando de modo que eles acidentalmente se beijassem. Depois eles saiam rindo e contando para todo mundo sobre os novos 'casais'.

Hugo estava com Albus e James e parecia muito contente consigo mesmo. Meu primo mais velho estava com o braço nos ombros do meu irmão e provavelmente estava dando as melhores dicas de como chegar a uma garota. E Albus estava discordando e tentando dar dicas completamente diferentes. Pobre irmãozinho, mal sabe na furada que se meteu.

O problema foi que logo James o empurrou e o pobrezinho foi falar com uma garota do segundo ano. Para minha surpresa as dicas dos meus primos devem ter surtido algum efeito, pois em menos de cinco minutos Hugo e a garota estavam se beijando.

Ótimo até mesmo na vida amorosa o Hugo se dava melhor que eu.

Minha garganta estava seca, mas só havia cerveja, batidas, margueritas e rum na mesa e aparentemente nada de água ou refrigerante ou coisas sem álcool de modo geral.

-Nique – chamei minha prima que estava sentada ao meu lado contando como foi seu encontro com James, mas pulando as partes mais sórdidas e calientes – Nique.

-Que foi? – ela virou-se irritada por eu tê-la interrompido.

-Onde tem água? – perguntei timidamente e minha querida prima deu uma risada debochada.

-Aqui só tem água que passarinho não bebe, querida – ela continuou a rir como se achasse isso verdadeiramente engraçado – toma uma cerveja que é mais fraco.

-Certo – dei de ombros e me levantei. Eu realmente precisava beber alguma coisa, mesmo que essa coisa tenha de ser cerveja...

Peguei uma lata de cerveja e a abri. O cheiro de bebida fermentada já não me caiu bem, mas eu estava com muita sede. Mesmo. Levei a lata até a boca e tomei um grande gole, o mais rápido que consegui na tentativa de não sentir gosto nenhum, mas falhei miseravelmente. No momento em que a bebida entrou senti o gosto horrível e amargo que tinha. Tomei tudo o mais rápido possível só para que minha sede passasse e eu pudesse me livrar daquele gosto horrível o mais rápido possível.

Eu não faço idéia como eles conseguem tomar isso como se fosse a melhor coisa do mundo, minha boca estava com um gosto horrível e agora eu queria achar alguma coisa para tirar este gosto, mas como não tinha nada para comer nesse churrasco percebi que teria de ficar com o gosto de fermento mais tempo.

Sentei no meu lugar novamente e Nique estendeu a sua batida de cereja com vodka – toma um gole para tirar o gosto de cerveja – ela falou sorrindo. O que foi muito estranho, porque Nique não era legal comigo, alias ela passava a maior parte do tempo fingindo que eu não existia, para falar a verdade e só falava comigo quando tinha reuniões familiares.

-Eu não quero ficar bêbada – retruquei devolvendo a bebida e ela riu.

-Eu também odeio cerveja, toma um gole, não vai fazer mal nenhum – ela insistiu e as amigas dela concordaram com acenos animados.

Quer saber? Dane-se. O gosto de cerveja estava me irritando. Tomei um gole grande o suficiente para tirar o gosto de cerveja, mas pequeno o suficiente para não mudar muita coisa na quantidade de álcool no copo. Dessa vez beber alguma coisa alcoólica não pareceu tão ruim. O gosto doce de cereja invadiu minha boca e o álcool da vodka fez cócegas na minha língua. Era um gosto diferente e único, mas agradável. Devolvi a bebida antes que eu considerasse a possibilidade de ficar com ela para mim.

-Obrigada, Prima – agradeci.

-Que isso, agora você é do povo – ela riu e começou a falar sobre alguma das meninas do segundo ano que estavam se achando as rainhas da cocada preta e de como elas eram idiotas por pensar algo assim.

-Eu não vejo problema nenhum nelas, é as do primeiro ano que tem de aprender seu lugar – uma outra garota comentou.

-Ah! Nem me fale das do primeiro ano, essas daí... – Dominique serrou os olhos como se estivesse se preparando para matar alguém com o olhar – elas nem merecem estar por aqui, se querem a minha opinião.

-Mas vocês não precisam delas? – me vi perguntando e recebi um olhar confuso e indignado de Nique e das outras – quero dizer, vocês precisam das novatas, de alguém para ficar puxando seu saco e para fazerem aquilo que vocês não querem fazer são que nem irmãos mais novos. Vocês também precisam de alguém para assumir a culpa pelo que você fez – eu dei de ombros. Sabia que era exatamente isso que todas elas faziam com as novatas, as faziam pensar que pertenciam ao grupo e as usavam para fazer o trabalho sujo.

-É verdade – Nique pareceu se acalmar e tomou um longo gole de sua batida – você está certa priminha – e ao dizer isso todas as 'amigas' dela concordaram.

-Vou dar uma andada por aí – disse e me levantei. Ficar naquela mesa estava começando a me influenciar e eu prefiro morrer a virar uma das amigas papagaio da Dominique.

Perto da mesa estava tudo muito lindo, as pessoas dançavam, conversavam e pareciam estar muito felizes com elas mesmas, sem mencionar bêbadas, porém quanto mais eu me afastava menos pessoas conversando eu via e mais pegação me aparecia pela frente.

Recuso-me a descrever as coisas que eu vi, só posso dizer que foi algo traumatizante para o resto da vida e que eu realmente não achava que algumas pessoas podiam ser tão... Depravadas até aquele ponto.

A única pessoa que eu não vi na festa era Scorpius, quer dizer até uma hora atrás ele estava nessa festa, mas em algum momento ele desapareceu e agora não havia nenhum sinal do anfitrião. Não que eu ligasse para isso.

Cheguei ao portão de entrada e saí da casa, talvez dar uma andada para espairecer me fizesse lembrar que aquele não era o meu lugar.

xXx

A rua principal era muito mais movimentada, os letreiros luminosos, as pessoas caminhando pela calçada bêbadas e com roupas lindas. Tudo tinha um movimento frenético, mas divertido. Era incrível como as pessoas se revelavam depois de alguns drinques, eu só tinha de me lembrar que mesmo assim eu ainda era uma adolescente que estava andando sozinha pelas ruas de Londres e isso não era seguro.

Mas eu era cuidadosa, por isso apressava o passo sempre que passava na frente de becos, ou atravessava as ruas, não confiava em nada que vinha daqueles becos sem saída cobertos pela escuridão, mas ao passar na frente de um deles me vi impelida a parar. Havia algo acontecendo naquele beco e a minha maldita curiosidade queria saber o que era.