Arranquei a calça sem tirar os sapatos e lhe coloquei nela:

- Você não vai passar frio, meu amigo. – disse eu, enquanto eu apertava o sobretudo sobre o corpo. A fome voltou, a garganta voltou a arranhar, mas nada estava sendo mais difícil de suportar que o meu coração acelerado, com o meu calor repentino, minha excitação escandalosa percorrendo minha pele e a arrepiando sem dó, nem piedade.

O abracei, era a única coisa que eu podia fazer. Ele me olhou por um instante, esperando que algo acontecesse. Tinha um pouco de receio em seus olhos, mas não tinha medo de que eu o machucasse, coisa que eu faria a mim antes de fazer a ele. Mas finalmente ele fechou os olhos, derrubando lentamente e sutilmente a cabeça no meu ombro. Quis beijar-lhe a testa em forma de carinho, mas preferi não me mover. Não queria assusta-lo.

Passou-se algum tempo, não achei que fosse muito, mas também eu não podia contar com meu psicológico naquela hora. Eu estava abalado, meu emocional tinha se sobreposto ao meu racional, deixou-me cego, cego para o que eu mais privilegiava na vida, que era a minha objetividade.

Ouvi alguns sons, alguns passos atrás das paredes de madeira. Será que Sebastian voltara? Será que ele nos daria uma chance de sobrevivência? Será que queria acusar-me de rouba-lhe Moriarty? Sebastian sempre me odiara, sempre deixara claro que morria de inveja da atenção que Jim me dava, aquela obsessão doentia que ele tinha por mim. Ciúmes: era o sentimento que ele sentia por mim. Ciúmes de Jim, de que ele se preocupava mais comigo do que com ele mesmo, ou com Sebastian. Mas eu nunca gostei de Jim, ele era inteligente, observador, mas era toscamente infeliz. Um ser sem graça, aparentava muito e demonstrava pouco, ainda mais quando estávamos cara a cara, era pouco no final de tudo, pois acabou se matando...

- Sher, você acha que é ele? – John me perguntou, levantando um pouco a cabeça.

Franzi o cenho: "Desde quando ele me chama assim?"

- Possivelmente.

Apertei minhas mãos sobre o blusão de John. Tinham roubado minhas luvas, antes de me desacordarem completamente, e aquele quarto subterrâneo estava ficando cada vez mais gelado, não que ele já não fosse, mas o frio do inverno invadia nossos corpos, ainda mais por estarmos sem comer a horas.

Ele levantara seu rosto e observava a sala, ele mantinha os olhos longe de mim. Parecia receoso de olhar-me, talvez estivesse com vergonha, mas talvez estivesse com medo de me encarar. Não sei, nunca lidei bem com essas coisas, pelo menos não quando era dirigido para mim, como Molly fazia, como John me ensinou a ver isso...

Ele me ensinara muito, não sobre conhecimento, sobre ciência, sobre aspectos psicológicos ou psiquiátricos que as pessoas tinham. Mas ele me ensinara a entender, ou pelo menos saber como as pessoas realmente se sentiam, quando elas ficavam tristes, como elas podiam ser sensíveis ao meu objetivismo.

Mas, àquela hora, eu só queria ele salvo. Só queria ele bem, e também, de certa forma, eu queria ele de bem comigo. O olhei, e sem piscar, o fiz me encarar. O olhar dele não era forte, nem consistente, era sério:

- O que iremos fazer?

- Barganhar... – falei baixinho, suspirando por fim.

- Como assim?

- Precisamos conhecer as nossas armas para poder lutar.

Ele balançou a cabeça afirmativamente com um olhar vago e distante. O olhei por mais um momento, ele estava desconfortável; então eu não iria forçar nada, voltaríamos ao plano original das coisas.

Sussurrei um 'shh' para John, ele levantou os olhos pra mim novamente, e assim, levantei meus braços dele. Virei lhe as costas, e me puis na posição em que eu estava - de frente pra ele -:

- Fique firme, John. – falei baixinho, direcionando o meu olhar para porta, que começou a ser aberta.

Sebastian entrou na sala arrastando um taco de baseball, nenhum de seus comparsas estava consigo. Era apenas ele e seu brinquedinho, sua expressão de desgosto e desprezo se arrastava junto dele; enquanto ele erguia a cabeça devagar, me encarando com a boca torta e um cigarro mole ondulante sob a boca:

- Você acha que seria assim? – disse ele, passeando o olhar vago pela sala. Tirando seu cigarro, e o observando, soltando fumaça por suas narinas e lábios. – Acha que poderia simplesmente matar Jim, e ficar ai? De boa? – disse ele fazendo uma careta de desprezo pra mim, jogando o cigarro fora.

- Ele quis me matar. – disse eu, serenamente. – Eu não podia simplesmente ficar observando a minha morte chegar.

- Você está vivo... Você o matou. – brando ele, com cara de enojado. – E você ainda se acha o herói? – cuspiu ele.

- Foi le-gí-ti-ma defesa. – disse eu, não conseguindo conter meu gênio arrogante.

- Bom. – disse ele, se acalmando temporariamente. – Se eu destruir seu bonequinho, também vai ser. – e ele começou a andar em direção a John. – O que vai ser, princesa? Morte por asfixia, ou por traumatismo craniano? – disse ele segurando o bastão com as duas mãos.

Nunca me senti com tanta raiva e medo em minha vida. Nunca. Ele não ia fazer nada com John, não com ele:

- Ok, ok...- levantei-me do lugar onde estava. – O que você quer?

Ele riu sarcástico, derrubando a ponta do bastão no chão:

- Eu quero a sua cabeça entalhada na parede do meu banheiro. – John arregalou os olhos, tanto quanto eu me senti enjoado com aquela citação.

Coçei a testa e lhe encarei novamente, enquanto ele me analisava:

- Ótimo, perfeito. Venha me pegar.

Ele riu, eu também ri. Foi meio ridículo, mas também foi uma ofensa:

- Eu não sou seu cão, sua cadela.

- Não, magina, não quis dizer isso; longe de mim. Você é a cadela de Moriarty, né, não? – disse eu, o ridicularizando.

A partir daí, não houve mais dialogo, não houve mais conversa. Ele avançou sobre mim, e eu pegado de surpresa, me defendi do jeito que pudi. Os ataques dele eram ótimos, perfeitos, mas ainda sim, eu tinha cartas na manga. O poder do meu cérebro ainda contava mais que o seu treinamento militar, ou qualquer coisa que ele tinha de excepcional. Sua mão atingia meu estomago, mas a minha atingia seu tímpanos. Estávamos numa briga de igual por igual, até que ele começou a querer envolver o bastão, deslealmente, em nossa luta:

- Ah, se é assim, eu também vou usar desses métodos...

Passei a mão sobre seu cinto e comecei a tirar sua calça:

- O que você está fazendo? – disse ele indignado, talvez quase horrorizado. Amolecendo o punho sobre o taco que mantinha entre os dedos.

- O que você acha que estou fazendo? – ironizei-o, virando um pouco o rosto e dando um sorriso malicioso.

Ele segurou mais firmemente o taco e lhe direcionou a mim, só que nesse momento eu corria com o cinto dele para fora da calça, que desmoronou em seus joelhos, enquanto eu corria para trás dele e me baixava para puxar-lhe as calças, o fazendo cair de costas. Sentei-me sobre sua barriga, arrancando o taco de sua mão, e alisando o taco em seu rosto, falei:

- Eu... que-ro..as chaves. – falei pausadamente, dando a certeza das silabas todas. Depois disso, enfiei-lhe a corrente da algema entre seus dentes. Mordi os lábios e continue a falar no mesmo tom. – Não tente fazer nada, senão eu tiro a possibilidade de você ter uma boca novamente. – falei passando a língua nos lábios e alisando o taco em sua orelha.

Ele me encarou, cerrando os dentes, levantando os joelhos sobre as minhas costas:

- Vai ter que me matar pra conseguir seu final feliz. – disse ele cuspindo palavras, sorrindo com escárnio.

Eu sorri amargamente, com um único lado do meu sorriso torto:

- Eu não vou te matar...- disse eu dando lhe alguns toques na cabeça com o bastão, mordendo os lábios, calmo, respirando lentamente como se estivesse bem comigo mesmo. – Eu vou acabar com você...aos poucos, se você não deixar-me salvar John.

Foi rápido, foi como se a loucura se apoderasse dele; ele avançou os punhos sobre meu pescoço, mesmo que as correntes estivessem sendo pressionadas sobre a sua boca, fazendo feridas, abrindo-lhe a boca como uma serra:

- Você vai morrer antes de me matar. – disse, perdendo o fôlego.

Meus olhos subiam e voltavam, minha falta de energia estava se expressando; os toques do meu bastão em sua cabeça começaram a ficar mais frequentes, e quanto mais ele apertava, mais eu lhe batia com mais força e frequência.

Estávamos os dois nos matando, a boca dele já começara a se alargar, o meu rosto já perdia a cor, o ar ficava difícil de se obter; eu respirava o pouco que conseguia com a boca, mas a boca não conseguia se abrir muito. Eu estava começando a ficar inconsciente, meus olhos subiam sem parar, não conseguia mais enxergar nada com exatidão. Achei que fosse o meu fim. Olhei John e ele me olhava apavorado, ele gritava algo e eu não sabia o que era. Eu não atingia a cabeça de Sebastian, eu não conseguia. Eu precisava fazer isso, mas não conseguia. Até que eu ouvi um som muito agourento de John, ele estava tão fraco, mas mesmo assim berrara daquele jeito... Eu não podia deixar ele, não podia deixa-lo morrer, eu não podia...

- Filho da puta. – berrei com minhas ultimas forças e taquei-lhe o bastão no meio do seu rosto, e desabei sobre ele. Suas mãos caíram com seus braços ao lado de seu corpo, e eu, bem, eu não consegui me manter acordado e adormeci.