Capítulo 2 – Breathe in the air.

All that you love
All that you hate
All you distrust
All you save.

(Tudo que você ama
Tudo que você odeia
Tudo em que não confia
Tudo que salva.)

- Eu juro que ainda vou desmascarar aquele sonserino abusado! – o som era conhecido e normalmente irritaria Remus além do normal, mas no momento o que causava era uma pontada aguda de inveja e saudade – Bomba de gás do riso? Que truque barato!

- Se eu ganhasse um galeão toda vez que ouvisse isso... – Remus murmurou, e Lily concordou com um muxoxo impaciente.

- James Potter, se eu ouvir as palavras 'sonserino', 'bomba de bosta' ou 'Sirius Black' de você no trem até Londres eu juro que não boto o pé na sua casa na semana que vem.

- Foi uma bomba de gás. – o garoto deixou escapar, e Remus e Peter riram da expressão de quase terror que ele adotou logo em seguida – quero dizer, não vou falar mais nada, querida.

Argus Filch apareceu na porta do Salão Principal, chamando os alunos para seguirem até as carruagens sem cavalos. O jantar já estava no fim, o sol começava a se pôr, e Remus sentiu a pontada de inveja se alastrar por seu peito até se transformar numa vontade muito forte de seguir os amigos em direção à saída.

Não era possível, no entanto, e ao invés do trem até Londres ele tomaria a companhia da enfermeira da escola até a casa previamente preparada para ele – para a criatura que viraria.

- Ei, Remus, você sabe que se mudar de idéia pode aparecer lá em casa, né? – James disse, apertando a mão do amigo. Peter logo se adiantou.

- É, na minha também. – ele piscou na direção de Lily e James – Esses dois vão estar juntos e você sabe como é...

- Nada disso. – Lily lhe deu um abraço de despedida e depois olhou feio para o namorado – Pode aparecer lá já que eu não vou, e o quarto de hóspedes vai estar desocupado.

James abriu uma expressão um pouco assustada, e ainda gritou para Remus de longe, enquanto corria atrás de Lily – a garota e Peter já haviam se unido aos alunos que deixavam o salão.

- Ela vai sim, mas ela nunca usa o quarto de hóspedes, então pode aparecer de qualquer jeito!

- Boas férias! – Remus gritou enquanto os amigos desapareciam pelos jardins, em meio a acenos e sorrisos consoladores.

O garoto suspirou e voltou a se acomodar na agora quase vazia mesa da Grifinória. Havia dito que seus pais estavam viajando, mas que ele não se importava em ficar mais tempo no castelo – poderia tirar o atraso de algumas matérias, e era bom para a escola ainda ter um monitor-chefe em atividade. A explicação convencera os amigos em pouco tempo.

De onde tirava a motivação para mentir tanto, era algo que debatia consigo mesmo até aquele dia. Só o que Remus sabia era que não conseguiria ver nos amigos o mesmo olhar de horror e nojo que as pessoas adotavam quando falavam sobre lobisomens. Não suportaria perder tudo o que conquistara até hoje – seus únicos amigos, sua posição de monitor-chefe. Não estava disposto a arriscar.

Além do mais, faltava apenas dois meses para o final das aulas e o fim de Hogwarts. A partir daí os desafios já seriam outros, maiores e mais sérios – como conseguir um emprego na sua condição, na atual situação do mundo mágico. Todos sabiam da movimentação de grupos de magia negra e a eminência de uma batalha – ser um lobisomem nesse momento poderia colocá-lo injustamente no lado errado. Mesmo sendo um fato conhecido que a maioria dos bruxos das trevas estivessem ocupando os confortáveis lugares da mesa da Sonserina.

Remus observou a mesa de longe, também já mais vazia que o habitual. Sirius Black não havia, afinal, voltado para casa, e entretinha um pequeno grupo de alguns garotos e várias garotas animadas do meio da mesa. Seu irmão um ano mais novo, Regulus Black, parecia apenas tentar acompanhar o primogênito, mas acabava com a expressão impaciente enquanto o resto do grupo passava a rir com fervor – provavelmente de sua cara, após um comentário certeiro de Sirius. No outro canto da mesa sentava-se, sozinho, Severus Snape – o qual mirou Remus de um jeito penetrante e um tanto assustador, no instante em que seus olhares se encontraram.

O lobisomem se levantou rapidamente em direção à enfermaria – já era hora de seguir até a Casa dos Gritos, e incrivelmente, o Salão Principal parecia ter uma atmosfera tão agradável quanto a que encontraria em breve.

xxx

Ninguém pode saber.

As nuvens negras mexiam-se vagarosamente – a noite estava calma e não mostrava sinais de mudança. Paradoxalmente ao clima ameno do céu exterior, o garoto de 17 anos sentia seu corpo suar e seu coração bater freneticamente. Era nervoso, ansiedade, aflição. Um medo aterrador e conhecido do que viria em alguns segundos.

Remus apertou as mãos no lençol rasgado e empoeirado da cama onde estava sentado. Fixou os olhos na luz clara que banhava o céu e mostrava os primeiros sinais de se fortalecer – como se pudesse mexer as nuvens com a mente, evitar que elas se movimentassem além do enorme orbe brilhante que iluminava a noite.

A lua mostrava os primeiros sinais de sua devastadora aparição, e Remus fechou os olhos. A dor continuaria a mesma, mas pelo menos assim ele não veria os pêlos crescendo em seus braços, os ossos da mão se modificando em garras. Preparava-se para o que jamais estaria completamente preparado a enfrentar, quando um barulho chamou sua atenção.

Passos.

Nunca conte a ninguém – será melhor assim.

Um pavor gelado subiu pelo seu peito, sua respiração se tornou ofegante e ansiosa. Ele abriu os olhos – um pedaço já maior da lua estava a mostra, em pouco tempo a transformação começaria. E ainda assim, ele podia ouvir claramente o barulho de alguém se movimentando no andar inferior.

Não fique perto de outras pessoas nos dias de lua cheia.

Precisava avisar quem quer que fosse – talvez algum aluno inconseqüente houvesse descoberto como passar pelo Salgueiro Lutador -, mandá-lo embora dali. E então trancar-se no quarto, isolar-se do resto deles...

É perigoso demais ir para uma escola! Ele estará cercado de outras crianças!

A porta do quarto não seguraria a besta perigosa que estava perto de se tornar. Quantas vezes não havia acordado na entrada da passagem de pedra, junto às raízes da enorme árvore lutadora? A lua ainda não se mostrava pela metade, haveria tempo de alertar a pessoa e voltar ao quarto – precisava ser feito.

O barulho de passos foi confundido pelos sons produzidos pelos próprios sapatos de Remus, correndo em direção à escada. Chegou lá sem forças – sentiu as primeiras costelas se partindo para darem lugar aos ossos do lobo. Gritou – a dor era tamanha. Ele imaginou se o berro não espantaria quem quer que estivesse ali.

Imagine se os outros alunos descobrirem! O que farão com ele!

Então Remus viu, através da névoa que começava a encobrir sua visão – ele sabia que suas pupilas estavam abandonando o tom castanho claro e se dilatando ao ponto de enxergar na escuridão -, no andar de baixo, perto da entrada da passagem de pedra. Dois olhos negros assustados, a varinha acesa, o uniforme verde e prata e o inconfundível nariz de gancho de Severus Snape.

Ele tem o direito de estudar - de se formar um bruxo!

Sua espinha se retorceu dolorosamente, e Remus soltou mais um berro. Olhou através da janela e viu que a exata metade da lua brilhante e alva aparecia no céu negro. Era tarde demais. Ele tentou gritar para que Snape saísse, mas suas cordas vocais só conseguiram produzir uma mistura assombrosa de um grito de dor e um rosnado canino.

Não. Não vale a pena.

A casa parcialmente destruída clareou progressivamente, sendo inundada pela luz da lua cheia. Remus sentiu suas roupas se rasgando, sua pele ficando pequena demais para seus ossos – rugia de dor a cada segundo que passava. E foi com um último resquício de sanidade que ele entendeu o que acontecia no andar de baixo.

Um outro bruxo entrou correndo na sala e gritou algo para Snape, empurrando-o pela passagem de pedra, fechando a porta atrás dele e olhando para cima com a respiração calma – calma demais para a situação, foi a última coisa que Remus conseguiu pensar. Então seus olhos negros miraram a lua cheia inteiramente à mostra com um uivo alto e afinado, suas garras arranharam a escada numa corrida ansiosa para alcançar o jovem e sua dentadura afiada ficou à mostra, num salivar faminto repleto de rosnados nervosos.

E o lobo foi recepcionado pelas garras firmes e a os dentes fortes de um enorme cachorro preto.

xxx

Não estava tão frio.

A claridade machucou os olhos de Remus até que ele se acostumasse à luz do sol atravessando o vidro da janela. E ele sentiu frio. Na noite anterior não estava tão frio assim – ou estava? Ele procurou o lençol, o cobertor marrom do dormitório da Grifinória, mas não achou nenhum tipo de coberta para proteger seu corpo.

Foi quando percebeu que estava nu. E deitado no chão empoeirado da Casa dos Gritos. Isso foi o suficiente para que sua consciência entendesse a situação e fizesse seu corpo sentar-se no assoalho de madeira com uma velocidade pouco aconselhada à dor que parecia habitar cada centímetro de seus ossos.

- Você já virou humano há algumas horas, mas eu não quis interromper um sono tão tranqüilo.

Remus se mexeu com rapidez – demais, até. Logo sua cabeça estava latejando de dor e seu corpo se arrastando até a parede mais próxima, enquanto suas mãos tentavam realizar a inútil função de cobrir suas partes mais íntimas.

A dor em sua testa diminuiu, e ele abriu os olhos com a respiração ofegante. Enfim pôde distinguir Sirius Black sentado na janela principal da sala, uma perna dobrada no batente e a outra se arrastando pela parede interna, e um cigarro aceso na mão direita. Seu uniforme da Sonserina parecia ter voltado de uma guerra – uma barra da sua calça estava em retalhos e alguns rasgos em sua camisa deixavam seu peito à mostra. Seus olhos cinzas não se viraram para encarar Remus, mas seus lábios formaram o conhecido sorriso enigmático.

- Espero que não se importe que eu fume. – sua voz parecia quase se divertir com a situação – Aliás, você faria bom uso de um.

Ele se virou, estendendo a mão que segurava um maço de cigarros na direção de Remus, e este pôde ver que havia um corte muito profundo em sua testa – uma parte dos cabelos negros estava encharcada de sangue.

Memórias recentes apareceram, vívidas como na noite anterior. O cachorro preto avançando em sua direção, o lobisomem atacando-o com todas as suas forças. Uma batalha canina tomando lugar na sala da Casa dos Gritos.

Remus passou as mãos pelas próprias costas e sentiu-as anormalmente lisas. Nenhum corte profundo feito pelo lobo - furioso por não encontrar alimentos por perto -, apenas arranhões mais leves, defensivos.

- Deve ter sido bom ter outra pessoa para machucar além de si mesmo. – Sirius murmurou, observando o outro e voltando a guardar o maço de cigarros no bolso da calça. O grifinório imaginou se aqueles conhecidos cortes estariam agora cobrindo as costas do sonserino.

- Você é um animago. – disse Remus, por fim. Sua voz pareceu um pouco mais rouca que o normal, e só então ele percebeu que ainda se sentava pelado no chão frio.

Sirius atirou uma capa preta para o outro – sua própria -, enquanto tragava longamente o cigarro.

- Acho que todos nós temos segredos, não é? – ele disse, entre uma baforada de fumaça cinza e um sorriso malicioso.

- Ilegal? – Remus murmurou, colocando as aquecidas vestes negras e sentindo já saber a resposta.

- E qual seria a utilidade de me transformar em um animal e todos saberem disso?

Remus olhou a sua volta, em silêncio. Jamais havia imaginado uma situação como aquela. Ia contra todas as regras que havia criado ao longo se sua vida – esconder a todo custo seu segredo, não compactuar com sonserinos, jamais acordar pelado na frente de um colega de classe. Ainda assim - por alguma razão -, ele não se sentia tão desconfortável como estaria se fosse James quem estivesse na sua frente.

- O que você está fazendo aqui? – Remus não conseguiu achar uma maneira melhor de tentar esclarecer os fatos.

Sirius voltou a estampar o sorriso misterioso. Ainda deu uma longa e calma tragada no cigarro até começar a falar com tranqüilidade.

- Você estava certo quanto a Severus. Ele parecia bastante interessado em te prejudicar e ainda mais ansioso para saber onde você estava indo ontem.

A imagem de um horrorizado Severus Snape voltou à sua mente, nítida como a claridade que adentrava pelas janelas quebradas. Ele havia entrado na casa durante a transformação de Remus, até que Sirius chegou.

- Eu o segui depois do jantar. Ele apertou um nó nas raízes do Salgueiro e entrou por esse caminho. Eu não achei que poderia ser coisa boa; não vindo dele, ao menos.

- Você veio até aqui… - Remus murmurou, relembrando a noite anterior.

- E dei de cara com sua pequena surpresa. Se eu não tivesse aparecido Severus teria molhado as calças ao invés de correr. – ele soltou um riso curto e seco.

Remus não foi capaz de dizer mais nada. O que seria o certo na atual ocasião - agradecer? Algo dentro de si dizia que proferir tais palavras a Sirius Black o fariam apenas alargar o sorriso sarcástico – o qual começava a irritar ligeiramente Remus.

Ele resolveu se levantar e procurar suas próprias roupas, mas logo as encontrou – estraçalhadas em vários pedaços espalhados pela escada. Sentou-se nos degraus e pôs-se a observar Sirius. Ele ainda fumava o mesmo cigarro, já no fim, os olhos mirando algo além da paisagem dos campos de Hogsmeade.

- Por quê? – Remus falou, um tempo depois do silêncio reinar entre os dois.

- O quê?

- Virar um animago?

Sirius riu por um momento. Atirou o final do cigarro pela janela e virou-se, se acomodando de costas para o lado de fora e encarando Remus num sorriso divertido.

- Porque eu posso.

- Mas é ilegal e pode dar incrivelmente errado. – Remus havia lido sobre tentativas mal-sucedidas de transformar-se em animago, e elas não eram exatamente maneiras agradáveis de se viver. Não conseguia entender como alguém poderia arriscar tanto por algumas risadas.

E rir foi exatamente o que Sirius fez, num tom alto que muito o lembrou uma latida.

- E essa é a principal resposta para a sua pergunta, Lupin. – ele o encarou por um momento e tirou o maço de cigarros do bolso, colocando outro na boca e puxando um isqueiro prateado – Além do mais, não somos todos nós que podemos dar uma voltinha no corpo de caninos uma vez ao mês.

Seu sorriso irônico irritou profundamente Remus – suas dores ainda estavam muito vivas em seus ossos para que ele pudesse rir delas. E a fumaça do cigarro estava começando a realmente incomodá-lo.

- Sabe, aos alunos da escola não é permitido fumar. – ele demandou, sem tentar esconder a irritação em sua voz.

- Nós não estamos na escola. – Sirius soltou uma quantidade ainda maior de fumaça, em desafio.

- Esse lugar é responsabilidade da enfermeira de Hogwarts. – Remus usou seu melhor tom digno de monitor-chefe, esperando que isso fosse o suficiente para deixar passar suas informações não muito claras – Então, tecnicamente, ainda estamos.

Mas Sirius não parecia se interessar na veracidade do que Remus lhe atirava, e mostrava-se muito mais ocupado em analisar seu rosto nervoso e formar um sorriso no canto dos lábios.

- Ok, monitor-chefe. Então me faça parar.

Remus piscou, incrédulo. Não era sempre que recebia esse tipo de desafio. Seu primeiro reflexo – pegar sua varinha - logo se mostrou inútil, já que por segurança a havia deixado há quilômetros de distância, em seu dormitório. A de Sirius também não parecia estar em qualquer lugar próximo.

O lobisomem fez o que parecia apropriado – e ele mal sabia o porquê disso – e se levantou com determinação.

- Vá embora.

O sorriso de Sirius se intensificou, e ele tragou o cigarro mais uma vez.

- Você não consegue me obrigar a apagar um cigarro, o que o faz pensar que vai conseguir me tirar daqui?

Remus sentiu seu pescoço se enrijecer e seus punhos se fecharem. Nunca havia se sentido assim – com raiva ao ponto de desejar ver alguém machucado. Ao ponto de querer machucar alguém.

- Já disse para ir embora. – sua voz soou estranha até mesmo para o próprio grifinório.

- Já disse para me obrigar a ir – Sirius enfim largou o cigarro, atirando-o para fora, e desceu da janela, aproximando-se a passos calmos de Remus – Não é tão valente quando não é um lobisomem, né?

O sangue subiu até a cabeça de Remus a níveis por ele nunca imaginados. Ele ainda tentou fechar os olhos e se acalmar, mas o som do início de uma risada vinda do jovem na sua frente fez com que ele não mais controlasse seu corpo.

- Cala a boca! – ele falou, antes de se jogar na direção de Sirius, empurrando-o com toda a força que conseguiu reunir.

Sua força – até então nunca utilizada desse jeito – se mostrou muito além do que o próprio Remus esperava. Sirius atravessou a sala em direção à janela onde estava sentado todo esse tempo, e acabou caindo em cima da própria, que se abria para dentro da casa.

O barulho violento de vidro partido se esparramando pelo chão fez Remus finalmente perceber o que havia feito. Sua primeira reação foi ignorar qualquer fúria previamente instalada em seu peito e andar até Sirius, que começava a se levantar vagarosamente.

- Você está bem? – o velho monitor-chefe voltou a imperar, e Remus segurou o braço do outro para que ele se levantasse.

- Sim. – ele passou a mão num longo e recente corte na bochecha esquerda. Para a surpresa do grifinório, seus lábios formaram um sorriso satisfeito – Agora sim.

Antes que Remus pudesse entender o que se passava na cabeça de Sirius, o punho do sonserino veio de encontro ao seu rosto, e ele sentiu ser atirado alguns metros para trás.

- Mas que mer-

Não houve muito tempo para pensar – o ato que por regra antecedia todas as ações de Remus -, o sonserino logo vinha na sua direção com o punho erguido. Foi sua vez de se jogar contra Sirius e acertar um soco em seu peito.

Um chute do sonserino – vindo não se sabe da onde - atingiu em cheio o estômago de Remus, mas ele ainda foi capaz de acertar um soco no rosto de Sirius antes que se afastasse, dobrado em dores.

Ruídos da madeira velha se misturavam aos gemidos de dor vindos de ambos os lados, e só o que Remus queria era o fôlego para demandar a Sirius que parassem imediatamente com aquela idiotice. O sonserino foi mais rápido, no entanto, e logo segurava os ombros de Remus, empurrando-o contra a parede.

Por um momento eles apenas se encararam, em meio a respirações ofegantes. Remus nunca havia brigado com ninguém dessa maneira – ou brigado com alguém de qualquer maneira -, mas algo lhe dizia que ter seus rostos tão perto um do outro não era um desdobramento normal em uma luta.

Os cabelos negros de Sirius estavam colados à testa com suor e um grosso filete de sangue escorria do corte em sua bochecha. Passaram-se apenas alguns segundos – mas pareceu o suficiente para Remus mergulhar novamente naqueles misteriosos olhos cinzentos.

E então o espaço que o separava daquele par de orbes sombrios desapareceu, e Sirius colou fortemente seus lábios nos de Remus.

Ele podia sentir sangue, suor e o gosto forte de nicotina. Além de um aperto incômodo em seu peito que aos poucos se reduziu a uma dor ínfima, perdida no espaço inexistente entre o peito forte de Sirius e o seu próprio.

Os dedos de Sirius seguravam firmemente a capa negra que Remus vestia e colavam-no na parede. Sua língua explorava cada canto da boca do grifinório, quase o sufocando. Remus retribuía como podia - já fazia muito tempo que sua mente havia deixado de pensar antes de agir. E naquele momento, só o que seus lábios desejavam era a movimentação dos do sonserino – só o que seu corpo ansiava era pelo de Sirius, grudado ao seu.

Tão bruscamente como tudo havia começado, no entanto, Sirius interrompeu o beijo, buscando forças nos ombros de Remus para se afastar. Com a respiração ofegante e o olhar enigmático, ele encarou o grifinório uma última vez. E então pôs-se a fazer, a passos largos, seu caminho através da porta em direção à passagem que levava ao Salgueiro Lutador.