Olhou a volta. Estava em um enorme pátio, rodeado de edifícios majestosos. Reconhecia aquele local. Era onde tinha treinado na sua infância.
"Estou em Varanasi(1)" - Lembrou
Sabia exactamente onde estava. Se fosse para sua esquerda, encontraria uma enorme porta de madeira escura e pesada, que dava para uma enorme sala, com tatamis, onde os monges meditavam ou faziam suas orações. Predominante no fim da sala, estava a estátua de Buda, em ouro, sentado em posição de meditação.
A sua frente, pesadas portas de ferro estavam fechadas. Apenas os escolhidos podiam entrar ali.
Atrás dela sabia o que havia: uma enorme escadaria, sem nenhum obstáculo, que ia dar directamente no Ganges.
Tinha estado naquele mosteiro até seus 5 anos, mas se lembrava de tudo. Nenhum detalhe escapava a suas lembranças.
Ouviu um forte ruído vindo dos portões de ferro, que aos poucos se abriam.
Observou atentamente, para ver se identificava a figura que aparecia por de trás do pesado portão.
- Sim!!! É ela… - Disse em meio a um suspiro.
Era a mulher loira que salvara o bebe, das garras daqueles mercenários.
Depois de uma breve conversa entre a mulher loira e o monge que abrira o portão, na qual Shaka não conseguiu ouvir, viu o monge pegar na criança e fecha o portão antes da mulher virar de costas.
Viu o monge passar por si, em passos apressados, em direção a porta que se encontrava alguns metros a suas costas. Aquela porta ia dar em uma escada que levava a sala do supremo daquele mosteiro.
- Vire – Ordenou a voz
Shaka girou no próprio corpo, sentiu uma tontura e, fechou os olhos.
Quando voltou a abrir, estava em uma sala ampla. Apenas uma mesa e três cadeiras se encontravam no recinto. Uma cadeira estava de costas para uma janela e as outras do outro lado da mesa, uma do lado da outra. Um homem com uma túnica cinza e laranja se encontrava sentado de costas para a janela, vendo preocupado, alguns papeis que se encontrava em cima da mesa. A porta escura abriu de repente e, Shaka pode ver o monge que passou por ele minutos antes, entrar na sala com o bebe no colo.
O monge que estava vendo os papéis levantou os olhos na direção do homem afobado que carregava o bebe.
- O escolhido!!! – Disse ainda esbaforido.
De imediato o monge que, agora Shaka podia ver que era o supremo do mosteiro, pegou o bebe e saiu da sala com o outro.
Shaka, sem entender e, com a curiosidade estampada na expressão do rosto, foi em direção a porta. Abriu-a rapidamente e passou. De súbito levou um baque. Olhou para trás sem entender, e viu que a porta não estava mais lá.
Olhou a volta. Estava em um beco, na parte pobre da cidade, onde a casta mais baixa vivia.
Viu um vulto preto, seguido de mais cinco, passar correndo, por uma rua que cruzava o fim do beco. Correu também.
Era ela, a mulher que entregou o bebe para o monge e, os mercenários.
Aquela rua não tinha saída, e os homens a alcançaram.
Parou a alguns metros observando o que estava acontecendo.
- ONDE ELE ESTA? – Gritava o homem que parecia ser o chefe.
A mulher nada dizia. Com as costas, e as palmas das mãos encostadas no muro que marcava o fim da rua, tinha o temor estampado na cara.
- RESPONDA!!! – Gritou o outro.
"Porque não responde?" – Shaka se perguntava – "Não vê que lá eles não podem fazer nada"
- No mosteiro – A mulher respondeu finalmente.
- Não podemos entrar lá – Disse um dos homens virado para aquele que parecia ser o chefe.
- Não vamos receber nosso dinheiro, assim – Retrucou outro um tanto indignado.
- MALDITA – Gritou o chefe erguendo a espada e correndo em direção a ela.
- NÃO… - Gritou Shaka correndo na direção dos dois.
Sentiu como se estivesse caindo. Como se alguém tivesse lhe passado uma rasteira. Sentiu o impacto do corpo no chão, a dor no rosto.
Ficou deitado ali durante alguns minutos. Com alguma dificuldade, apoiou-se nos braços e conseguiu sentar.
Olhou de novo ao redor e percebeu que estava de volta ao pátio do mosteiro.
Escondeu o rosto com a mão.
- Porque? – Indagou – PORQUE?
- Porque ela fez a escolha dela – Respondeu a voz.
- Escolha? – Perguntou intrigado, olhando para o céu.
- Sim – Respondeu a voz – Shaka, todos nós fizemos uma escolha. Ela escolheu salvar a criança. Foi o caminho que ela decidiu para ela.
-Eu quero acordar – Disse Shaka, um tanto desesperado.
Ouviu uma gostosa gargalhada.
- Acordar? – A voz começou ainda no meio de um riso – Você não esta dormindo.
- Quem é você? – Perguntou um tanto confuso.
- Isso não importa agora – Disse aquela voz que apesar de tudo o acalmava – Olha…!
Ouviu o portão abrir de novo.
Ainda sentado no chão observou as duas figuras que entravam. Eram dois homens. Um era visivelmente bem mais velho que o outro. Este, que parecia ser bem velho, vestia uma túnica azul e vermelha, tinha o cabelo loiro e olhos violetas, o outro bem mais jovem, tinha os cabelos azuis e olhos verdes. Vestia uma armadura.
"Shion e Saga" – Admirou-se.
Shion falou um pouco com o monge que lhe abriu o portão, e minutos depois eram conduzidos para a sala onde os monges meditavam.
Shaka sem tirar os olhos dos dois recém-chegados, levantou e caminhou para a mesma direção que eles.
Ao abrir a porta, o monge apontou para a criança loira, sentada bem na frente da grande estátua de ouro. Shion agradeceu e caminhou até lá, deixando Saga do lado da porta.
Shaka se colocou do lado de Saga, observando Shion que se abaixava do lado do menino loiro.
- Olá Shaka – Disse Shion ao menino
- Olá – Disse o loiro com o rosto corado.
- Nós viemos te buscar – Shion disse apontando para Saga.
O menino voltou seus grandes olhos na direção do cavaleiro que estava do lado da porta. Saga apenas sorriu.
Shaka que estava do lado de Saga, lembrava daquele dia. Sabia exactamente o que se seguia.
- Vamos – Disse Shion estendendo a mão para o pequeno.
O menino segurou na mão de Shion e se levantou, acompanhando-o até a porta. Um monge apareceu com uma mala, na qual Saga pegou de imediato, agradecendo.
Os três saíram do recinto.
Shaka seguiu-os, mas ao passar pelo alpendre da grande porta teve outro baque.
"De novo. E agora onde estou?!" – pensou olhando a volta.
Continua...
(1) Vanarasi é uma cidade do Estado de Uttar Pradesh, uma das mais antigas cidades da Índia. Escolhida porque é uma das cidades banhada pelo rio Ganges.
