O primeiro capítulo, já que o prólogo só oferece um gostinho!
Agradeço novamente à Blanxe pelo review s2 Ela saaabe que eu adoro ela.
- Akari
o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o
CAPÍTULO 1
Era mais uma manhã em que Duo acordava preferindo ter ficado dormindo. A maioria dos dias era assim, com Quatre empurrando o seu braço de leve e Wufei fazendo-o levantar na força. Dessa vez, foi outro motivo que fez Duo saber que a inconsciência era melhor do que a realidade.
Foi acordado com um balde de água.
Era água fria - não, gelada - e Duo reagiu quase saltando da cadeira onde estava.
Não sabia se era sorte ou azar ter a cadeira grudada no chão por pregos do tamanho de um olho. Por um lado, ele não caiu quando acordou. Por outro, Duo tinha os braços atrás da cadeira e, apesar de não sentir mais nada do pescoço para baixo, ele tinha a certeza de estar algemado. Isso dava a ele a impressão de que não sairia de lá em muito tempo.
Devia ter ficado olhando o chão demais, porque logo um tapa no rosto chamou a sua atenção para a outra presença na sala.
Era o Kushrenada. Duo sabia, porque já havia visto milhões de fotos dele no trabalho. Fora obrigado a memorizar o rosto e tudo o que se sabia sobre a história dele. Nunca tinha visto ao vivo e a cores de tão perto - Duo preferia tê-lo visto morto, de verdade - e já não gostava nem um pouco. Outra coisa que Duo não gostava nem um pouco era a sala ao redor deles. Era escura, de pedra, e Duo não conseguia ver muito bem, mas ele achava que as manchas na parede eram sangue.
Foi um esforço descomunal, mas Duo tentou um sorriso.
- Oi.
O homem não pareceu muito contente. Talvez fosse o ar em seu rosto, talvez fosse o soco que ele desferiu no estômago de Duo. Duo quase agradeceu. O soco o fez acordar de vez e descobrir que ainda sentia algo em seu corpo. A sensação de dormência estava se espalhando pelo seu pescoço, e ele já estava começando a ficar preocupado.
- Simpático você, ein.
Saiu algo ininteligível, visto que Kushrenada não respondeu com mais um golpe. Era estranho, Duo não conseguia ouvir a própria voz. O barulho da explosão continuara a viver ininterruptamente em seus ouvidos, e Duo esperou que ele parasse algum dia. Tinha visto uma aula sobre isso. O problema das explosões, ele sabia, era que ele podia ficar surdo.
Era claro que explosões tinham outros problemas em geral, e Duo estava sob a ligeira impressão de que não sentir grande parte do seu corpo era um deles.
Kushrenada falou qualquer coisa e ficou irritado porque ele não entendeu. Ele enfiou o pé na cadeira com toda força e Duo agradeceu por ela estar atarraxada no chão. A bota chique, toda lustrada, com certeza teria mandado ele rolando para longe. Parada assim, entre as suas pernas, já fazia ele tremer bastante.
O homem continuou falando exaltado. Duo não conseguiu tirar os olhos da bota, preocupado, e logo levou um tapa no rosto que o fez cuspir sangue. A culpa não foi do golpe - sua boca estava rachada de tão seca, e não era preciso muito para fazê-lo sangrar.
Detestou a própria conclusão.
- Eu estava no centro da explosão, porra - gritou. Parecia surreal assim, não ouvindo as próprias palavras. Dava a ele coragem que não tinha. - Eu não consigo te ouvir! E mesmo que ouvisse, eu não tenho nada pra te falar!
Duo sorriu satisfeito ao ver o rosto de Kushrenada se contorcendo de ódio. O homem falou algo para si mesmo, algum clichê do tipo "vou fazer você falar" ou "se não tem uso vivo, será morto", algo dos filmes de ação. Imaginar a cena fez um sorriso aparecer no canto da sua boca. Kushrenada olhou pra ele, como se perguntasse o porquê de estar sorrindo. Duo resolveu que iria deixar ele viver com a dúvida.
A situação não deixou Kushrenada contente e Duo descobriu, subitamente, que era melhor não estar sentindo realmente nada no corpo inteiro. Ele gritou ao ter a coxa perfurada pelo salto da bota. O sangue subiu e empapou toda a sua calça, deixando uma enorme mancha no tecido preto.
O próximo golpe foi pior. A bota subiu e o atingiu debaixo do queixo, e se Duo não estivesse cerrando os dentes tão firme pela dor, tinha certeza de que seu maxilar teria deslocado para fora do lugar, ou que teria mordido a língua. A sua boca se encheu e, por um segundo, ele achou que iria vomitar. Era só sangue, que ele fez questão de cuspir em cima do outro. Ele não chegou a ver Kushrenada se desviar, porque a próxima ação dele foi lhe desferir um soco no rosto.
A dor se espalhou lentamente, derramando-se do olho para bochecha e a boca. Não era raiva incontida, e isso era o pior de tudo. Duo sabia lidar com raiva, mas não havia um treinamento para aquela espécie de tortura mecânica de crueldade inexistente. Não havia maldade ali, não havia rancor. Não havia nada além da necessidade de Kushrenada de mostrar pra ele que eles estavam em duas posições muito diferentes e que era melhor obedecê-lo, um 'se não…' contido na ameaça. Duo sabia reagir quando havia raiva, perda de controle. Mas ali não havia reação possível.
Duo não tinha muito a fazer, só fechar os olhos e esperar que ele parasse.
o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o
O primeiro instinto de Duo ao acordar foi gemer de dor, mas ele segurou a língua. O seu corpo parecia estar queimando - Kushrenada devia ter feito pior, mesmo depois de estar desacordado - e ele precisou de todo autocontrole para não mudar o passo de sua respiração.
Procurou se focar nos dedos dos pés. Tinha perdido os sapatos, mas conseguia senti-los bem, todas as unhas no lugar, os dedos também. As suas pernas estavam intactas, exceto pela dor lancinante na coxa esquerda, que se espalhava até a virilha e fazia ele querer chorar. Checou o torso. Céus, aquele cara era mesmo insano. Duo se perguntava como não estava morto. Os golpes deveriam ser o bastante para mantê-lo apagado de vez. Ele sabia que não era assim, e que Kushrenada evitou, com o cuidado de quem treinou o bastante para ser muito bom, todos os pontos vitais. Só que Kushrenada era profissional. Não tinha matado, mas tinha o deixado desejando quase isso.
Afinal, que destino restava pra ele?
Pensou em Yuy, Wufei. Eles eram do tipo que resistiriam bravamente. Lutariam para morrer de forma digna, ou alguma babaquice daquelas. Quatre não gritaria, apenas desapareceria, apagando-se lentamente como uma estrela a morrer. Duo não conseguiu pensar em Trowa.
Foco, ele disse para si mesmo em pensamento. Continua a droga do check up.
Okay, não conseguia nem pensar no estado de seu torso. Só de pensar em se mover, tinha a certeza de que iria descobrir uma costela quebrada ou mais. Seu estômago o incomodava, reclamando do vazio, mas era um dos problemas menores. Pensou positivo. Os braços estavam bem também, além do ardor da posição desconfortável e dos rasgos onde as algemas haviam mordido a pele. Tinha a certeza de que, caso conseguisse se soltar, seria capaz de voltar à manusear uma arma. O seu rosto, entretanto, devia estar inchado, parecendo uma bola de futebol.
Poisé, garoto, você não está nada bonito agora.
A sua felicidade fora descobrir que a audição voltara. O barulho estava fraco, quase apagado contra o fundo, de onde Duo pode ouvir duas vozes discutindo. Conteve a empolgação a tempo, respirando calma e lentamente, aguçando seus ouvidos para tentar entender algo.
- … mas ele é só uma criança!
- Aqui não é lugar para você, Relena.
Ah. Duo conhecia esse nome. Fazia sentido, quando ele se esforçava direito para conectar nomes à rostos. Não podia - não conseguia - abrir os olhos mas, lentamente, tudo foi se encaixando. Relena Peacecraft. E aquele falando com ela deveria ser…
- Não acredito que você ainda fale assim comigo, meu irmão.
- Quando é preciso. Você pode ter muitas idéias, mas ainda é ingênua demais. Ele pode ter a sua idade, mas ainda é de uma facção criminosa. Rebeldias como a dele custam vidas, e hoje, poderia ter sido a sua ou a minha.
- Se ele é contra nosso governo, é porque não estamos sendo bons o suficiente, não acha? A guerra deixou marcas, e a paz está sendo difícil para o povo. Me diga se ele não é exatamente o tipo de pessoa que lutamos para proteger.
- Olhe onde está colocando a culpa agora.
- Se um garoto desses existe, é porque não cuidamos demais. Existe alguém por trás dele, e quem sabe quantos outros dele existirão? Quantos mais teremos que matar?
- Exatamente. Faça um favor e fique fora disso. - A voz de Milliardo Peacecraft era calma, controlada. Duo sentiu o gosto horrível de bile na boca, sabendo que ele estava certo. Muito idealismo… Era que nem o vestido bonito no meio da areia. O contraste era absurdo. Duo esperou a confirmação dele. -Treize é de minha inteira confiança, e precisamos obter nomes.
Era um alívio ao mesmo tempo que era um fardo. Duo imaginou ter uma capsula de veneno, imaginou apertá-la com bastante força entre os dentes, e desejou firme pelo líquido sem gosto, sem dor. Mas aquela era só pra ser uma missão estúpida, sem riscos. Não era pra ele ter sido capturado.
Se perguntava o que acontecera quando a porta bateu com força.
- Nunca vou te perdoar!
Depois disso, as vozes se calaram. Duo pode jurar que ouviu um suspiro.
- Pode parar de fingir estar desacordado.
A voz o fez abrir os olhos em disparado.
Péssima idéia.
- Merda - grunhiu, levando a mão ao rosto, o que se provou também não ser adequado. Seu olho estava inchado, e Duo podia apostar que estava roxo também. Bastou toca-lo ligeiramente com a ponta dos dedos para sentir o ardor penetrar seu crânio.
Estava muito iluminado ali. Duo pensou primeiro que era a luz do dia, mas ela fria e asséptica. O lado esquerdo do seu rosto se recusava a mexer, mas o olho direito se acostumou a luz e Duo percebeu, primeiro, estar deitado, e segundo, estar no que parecia ser uma ala hospitalar.
Mexeu uma de suas mãos de leve, e notou que algemas o prendiam à estrutura de metal da cama. Teve a presença de espírito de tentar olhar para o resto do corpo. Um lençol o cobria, e tiras de couro atavam seu corpo firmemente ao colchão. Duo sabia que isso era menos para que tentasse fugir, e mais para sua própria segurança. Para onde iria? Uma fuga era impensável. Um suicídio, entretanto, era uma possibilidade indesejada.
Não podia ver o rosto do príncipe com clareza, mas tinha certeza de que ele o olhava com escárnio. Ele girou nos seus calcanhares e fez menção de ir embora.
- Espera.
O herdeiro dos Peacecraft parou. Ele se virou lentamente, mas Duo não falou nada. Pra ser sincero, nem sabia por que o havia chamado. Tinha curiosidade, é verdade, e também tinha medo. Mas não acreditava em Milliardo Peacecraft ali, falando com um rebelde em uma cama de hospital.
- Sei que ouviu minha irmã - ele começou, calmamente. - Mas não pense que divido opiniões com ela. Você vai ser útil ao seu propósito. E então, você sabe o que acontece depois.
Duo anuiu. A cena era ridícula. Treize Kushrenada devia ter exagerado, e deixá-lo numa cela poderia matá-lo cedo demais. Então, ele estava ali até poder ser torturado novamente, concordando com o homem que iria assassinar - um homem que não havia visto se não em recortes de jornais e vídeos, que nunca deveria ter visto se não morto.
- O que deu errado?
A pergunta surpreendeu o príncipe. Duo continuou.
- Quero dizer, eu vou morrer mesmo, você podia pelo menos me dizer o que deu errado.
o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o0o
