O Segundo Mês:
Ele demorou mais três semanas para decidir fazer isso e mais uma para se convencer que era a coisa certa. Então, ele endireitou seus ombros, marcou a consulta e se preparou para lidar com as conseqüências de seus atos.
Ele pediu a Chuck para ir com ele, porque ele precisava de apoio e não tinha certeza se poderia fazer isso sozinho. Ele precisava de alguém para dividir o fardo com ele. Ele precisava de um bom amigo e Chuck não era apenas o único a saber sobre o bebê, mas era ótimo em deixar as pessoas se apoiarem nele.
"Não." Chuck disse com a voz dura, tanto que David chegou a, visivelmente, recuar. "Eu não posso, David. Não me peça isso."
"Por quê?" David tinha perguntado, sentindo uma onda de pânico atingir seu corpo. "Eu preciso de você lá."
Passando a mão rapidamente por seu cabelo arrepiado, Chuck replicou. "Eu concordei em guardar seu segredo. Eu não posso concordar em ficar quieto, enquanto você mata o filho do meu melhor amigo. Eu não posso te parar, e eu não vou te trair contando para o Pierre, mas eu não posso te ajudar. Se você quer matar essa criança, você vai ter que fazer isso sozinho."
Então, ele tinha ido sozinho e, agora, sentado na sala de espera do consultório, ele tentava desesperadamente se convencer de que poderia fazer isso por si só. Uma mão pousou sobre sua barriga. O aborto era a única opção. Ele não podia ter um filho agora.
"David?"
Ele olhou para cima para encontrar uma mulher linda e alta parada na sua frente, uma prancheta em sua mão. "Querido, você está bem?"
David concordou entorpecidamente; ele não estava.
"Certo, se você está pronto, então pode vir comigo."
Ela o guiou para um cômodo no fundo do local e o sentou numa mesa num lugar decorado em tons pastéis e cores vivas. Não ajudou em nada a dominar a preocupação e dúvidas na mente de David.
O médico era um homem baixo, mas animado, que cumprimentou David cordialmente e puxou sua própria cadeira para conversar com ele. "Você tem falado com nossas enfermeiras há um tempo, não é?" o médico perguntou, verificando o procedimento padrão.
David engoliu em seco e balançou a cabeça. "Não... Não as que estão aqui, mas de outra seção. Eu estou em Paris há alguns dias apenas. Eu preciso que isso seja feito agora."
O médico lhe deu um olhar sério. "Você entende completamente que uma vez que eu iniciar esse tratamento, não há volta? Muitas pessoas jovens que eu vejo, percebem isso muito tarde. David, você não pode desfazer isso. Você precisa estar cem por cento certo."
"Eu... Eu estou." David disse, a voz vacilante. "Eu tenho pensado muito sobre isso. É a escolha certa."
"Certo." O médico disse, erguendo-se. Ele pegou um molho de chaves de seu bolso e destrancou um gabinete de remédios do outro lado da sala, retirando um pequeno pote. "Desde que você está no começo da gravidez, eu vou te receitar as pílulas RU-486, ao invés de algo mais invasivo." Ele ofereceu o frasco para David, cujos dedos o circularam. "Eu vou precisar que você o tome aqui, então eu posso monitorar os primeiros trinta minutos, depois do remédio atingir seu sistema, para problemas em potencial. Então, eu quero que você se deite e se monitore muito cuidadosamente pelas próximas quarenta e oito horas."
David ouviu as pílulas se moverem dentro do frasco. "O quão perigoso isso é?"
"Eu não vou mentir, todos os métodos de aborto têm seus próprios riscos. Com essas pílulas, é provável que você tenha dor abdominal e náusea. Isso é normal. Os outros efeitos colaterais incluem dores de cabeça, vômitos, diarréia, vertigem e fatiga. Nada que você precise se preocupar, entretanto, se você tiver qualquer um desses efeitos colaterais por muito tempo, ou se você sentir que algo está seriamente errado, eu quero que você vá para a emergência imediatamente. Isso é muito sério, jovem, já houveram mortes relacionadas a essas pílulas, por causa de reações alérgicas e choque séptico."
Deus, David percebeu, isso era real. Ele realmente estava fazendo um aborto e havia algo repugnante em ser capaz de afastar seus problemas com pílulas tão minúsculas.
Uma mão quente repousou sobre o ombro de David e o médico perguntou. "Você está absolutamente certo?"
David deu uma risada fria. "Você parece estar tentando me tirar dessa."
Com um balançar de cabeça, o médico disse. "Apenas tentando ter certeza de que você não esteja cometendo um erro. Meu dever é com meus pacientes e eu tenho que ter certeza de que eles não estão sendo coagidos à fazer um aborto por ninguém, nem eles mesmos."
"Eu não posso fazer isso agora." David insistiu. "Eu não posso criar um bebê no momento."
"E em sete meses?"
David ficou em silêncio por um momento, então, sem encontrar os olhos do médico, David devolveu o frasco. "E eu não sei se vou poder fazer isso no futuro."
"Sim?" o médico estimulou.
David suspirou. "Mas você está certo. Eu estou confuso e não tenho certeza. Eu... Eu preciso de mais tempo."
O médico concordou. "Ainda há tempo se você decidir voltar."
David fechou o zíper da sua blusa, escondendo suas mãos nos bolsos. "Certo." Ele disse, ainda que estivesse certo que não iria voltar. Ele apenas não podia fazer isso. Não era como se algo houvesse mudado. Ele não sentiu um senso de respeito à vida crescendo dentro de si ou que ele sequer tinha direito de controlar sua vida e pensar em si mesmo uma vez. Era apenas... Bem, ele não sabia o que era, mas ele não podia fazer o aborto. Ele não podia.
Ele pegou um taxi de volta para casa, escondendo os inchados olhos vermelhos atrás do óculos de sol. Ele não estava chorando, não ainda, mas seus olhos sempre contaram suas emoções. Pierre saberia que algo estava horrivelmente errado. Pierre iria induzi-lo a contar.
"David?" Chuck perguntou em surpresa, assim que David entrou no ônibus. O baterista não estava esperando ver David tão cedo.
David não respondeu, quase voando pelo longo corredor do ônibus para sua beliche e se jogando nela. Ele puxou seus joelhos para cima e virou suas costas para o mundo, apertado seus olhos fechados e tentando fingir que ele não podia ouvir os outros caras no fundo, falando sobre ele.
"David?" Chuck chamou, tendo o seguido. "David. Como… Como foi? Você está bem?"
David apertou ainda mais seus olhos. As mãos se erguendo para tampar seus ouvidos. Ele não conseguia falar com Chuck agora. Ele entendia porque o baterista tinha se recusado a ir com ele, David conhecia a lealdade de Chuck com Pierre, mas ainda assim machucou. David achava que ele teria sido capaz de fazer o aborto se Chuck estivesse lá. Sua vida podia não estar sendo mudada se Chuck houvesse estado ao seu lado.
Quando Chuck se esticou para tocá-lo, David se encolheu drasticamente, se pressionando contra a parede de sua beliche. Finalmente, ele sussurrou. "Vá embora. Por favor, vá."
"Você quer que eu chame Pierre?" Chuck perguntou. O vocalista estava fora, providenciando o almoço deles, mas Chuck sabia que Pierre podia estar de volta em quinze minutos se ele soubesse o estado em que David estava.
"Não. Vá embora."
Chuck tinha que perguntar. "Você está com dor? Você precisa que eu te traga alguma coisa?"
David se virou depressa, os olhos bravos e cheios de lágrimas. "Vá embora, porra!" ele disse rispidamente, se erguendo em um braço. "Apenas dê o fora e me deixe sozinho. Você é bom em fazer isso." Então, ele jogou um travesseiro na direção de sua cabeça.
Chuck congelou, começando a suar frio. "David..." ele sussurrou, se esticando na direção do baixista, mas não o tocando. "Eu sinto muito." Ele se virou para ir embora e soube naquele momento que ele nunca iria se perdoar por não ter ido com David. E ele não sabia se David iria perdoá-lo um dia.
