O começo dos anos 70 foi marcado pela melhor temporada dos Montrose Magpies na Liga Europeia do Quadribol. Meu pai se acostumou a me levar para assistir as partidas deles desde os meus três anos, mas como os jogos aconteciam durante o ano letivo em Hogwarts, a tradição teve que ser interrompida quando comecei a cursar meu primeiro ano.
Mas não fiquei chateado. Sirius torcia pelo mesmo time, por isso, em uma noite de quinta-feira, nos aproximamos de Frank Longbottom na Sala Comunal da Grifinória. Ele tinha um pequeno rádio e estava escutando a narração do jogo de estréia dos Magpies na temporada. Foi assim que comecei a gostar do Longbottom.
Em meia hora até mesmo alunos dos outros anos se aproximaram para ouvirem as jogadas monstruosas de Fabius Watkins, o melhor apanhador do time no último século, ídolo de quase todos os garotos da minha idade na época.
Ouvi Lily Evans perguntar a uma de suas amigas, Alice Prewett, quando passaram por perto e observaram nossa animação:
— O que é tão importante em Quadribol?
Foi uma pergunta genuína, sincera e até curiosa. Eu até parei de prestar atenção no rádio e não deixei Alice responder essa.
— O que... o que é importante? – Olhei para a garota e me aproximei dela. Mesmo não havendo nenhum pingo de deboche em seu tom de voz ao perguntar sobre meu esporte favorito, agi como se eu tivesse sido ofendido com a ignorância dela quanto a ele. – Você nunca viu um jogo de Quadribol, Evans?
Ela cruzou os braços.
— Não faz nem meio ano que eu descobri que sou bruxa. E fala como se eu precisasse assistir.
— E precisa! Aí vai entender o motivo de ser o esporte mais incrível que foi inventado no mundo bruxo. Espere até o próximo fim de semana, terá o primeiro jogo de Quadribol da Grifinória aqui em Hogwarts e você vai assistir de perto. Vai ver que é demais.
— Dizem que a Grifinória não vence a Taça de Quadribol há três décadas – contou Frank, preocupado. – A Sonserina anda em tempos de sorte.
Recusei-me a pensar na possibilidade de assistir ao time da Sonserina bater a Grifinória no meu esporte favorito. Seria humilhante!
— A Grifinória estava apenas esperando por um torcedor para mudar a sorte – eu disse com o peito estufado, apontando diretamente para mim mesmo.
— Ou torcedora! – exclamou Marlene McKinnon. – Uma mulher também pode gostar de Quadribol.
Sirius fez um muxoxo, esticando as pernas no sofá perto dela.
— Você torce pelas Harpias de Holyhead, fica quietinha.
As Harpias e os Magpies eram rivais. Então torcedores dos respectivos times eram rivais.
— Cala a boca! As Harpias vão bater no traseiro dos Magpies e eu estarei aqui para rir da sua cara quando esse dia chegar, Black.
— Ah é? E que dia será esse? O de São Nunca? Mal posso esperar, McKinnon.
Enquanto eles discutiam, virei para perguntar a Evans se ela gostaria de escutar o jogo com a gente, para conhecer um pouco sobre as regras e os tipos de jogadores, mas ela já tinha se afastado com Alice para o dormitório feminino. Abanei a cabeça. Algumas garotas nunca entenderiam mesmo a importância de Quadribol para nós.
Não era só um jogo. Era um estilo de vida, uma tradição, algo que faz as pessoas diferentes se unirem, até mesmo pai e filho. Claro que cria alguns rivais, como no caso de Sirius e Marlene, mas no final todos têm o mesmo objetivo: se divertir enquanto assiste ou escuta a incrível captura do pomo de ouro.
— Ele fez um Trezentos! – exclamou Frank durante as nossas exclamações de vitória quando o narrador do jogo anunciou que Watkins havia capturado o pomo. – Fabius Watkins fez um Trezentos! Queria ter visto isso!
Trezentos era uma manobra famosa por ser a de mais difícil aplicação na vassoura; quando o apanhador está se aproximando do pomo ele se inclina em trezentos graus, quase fica de ponta cabeça, para alcançá-lo. Eu nunca assisti ao vivo alguém realizá-la, mas já vi em fotos de revistas e era uma das coisas mais fantásticas.
Fiquei feliz que o time favorito de meu pai venceu sua estréia na Liga. Mandei uma carta para ele naquela mesma noite. Vai Montrose Megpies!— era o nosso grito de guerra. Queria que eu estivesse com ele naquele momento, mas não ia admitir que estava sentindo falta de casa tão fácil assim. Enchi o saco dele que queria ir para Hogwarts durante onze anos.
Uma semana antes do feriado do Natal, assisti ao primeiro jogo de Quadribol em Hogwarts. Grifinória contra a Corvinal. A Grifinória, para o meu desespero, começou o campeonato perdendo bem feio. O apanhador podia ter uma Nimbus 1500 invejável, mas as habilidades dele definitivamente não eram.
Eu, Sirius e Peter saímos das arquibancadas xingando Merlin e o mundo, com Remus tentando nos fazer entender que perder um jogo não era o fim do mundo e que ainda havia chances do time vencer a taça. No corredor vi Ranhoso tirando satisfação com Evans por terem assistido a Grifinória perder.
— Te disse que era a casa dos perdedores, Lily.
— Sai da frente, Ranhoso! – eu o empurrei para passar entre eles, mesmo que tivesse espaço suficiente para desviar.
Ranhoso tentou se aproximar de mim, eu realmente não entendi por que, achou que podia me bater, o otário, mas Sirius fez um feitiço para dar um nó nos dois cadarços dele. Então quando foi andar, caiu de barriga no chão.
— Ops, cuidado aí, Ranhoso – disse Sirius, em falsa preocupação, me alcançando enquanto Peter gargalhava. Remus estava na dúvida se achava engraçado ou não.
Lily foi ajudá-lo, mas Ranhoso não deixou, murmurando um "não precisa" bem seco. Então, a garota disse:
— Eu sei que odeia a Grifinória, Sev, mas agora eu também faço parte dela.
— Ooooo! – exclamei. – Isso aí, Evans!
— Vão cuidar da suas próprias vidas e deixem ele em paz! – se virou contra a gente, bem esquentadinha.
— Uhh, precisa da amiga pra te defender, Ranhoso? – provocou Peter.
— Ele está pedindo por isso – retrucou Sirius para Evans.
— Eu só disse a verdade – Snape falou, a voz baixa e desprezível. – Todos vocês.
E depois de desamarrar os nós do cadarço, deu as costas e saiu depressa em direção ao corredor das masmorras, sem esperar que Evans o seguisse.
E ela não foi atrás dele. Acabou me encarando com aqueles olhos verdes e fuziladores.
— Que amigo foi arranjar, hein, Evans? – comentei. – Se eu fosse você, tentaria uma companhia mais legal e agradável. E aí, achou Quadribol interessante?
Foi uma tentativa inocente de conversa.
Sem dizer nada, ela só me empurrou com o ombro e não olhou para trás em nenhum momento em que ia desaparecendo de vista, a passos rápidos e zangados.
— O que ela vê nele? – perguntei aos meus amigos.
— Talvez ela seja cega e não vê nada – Peter supôs seriamente e Sirius deu um empurrão de brincadeira na nuca dele, enquanto voltávamos a Torre da Grifinória, rindo e tirando sarro.
Não tínhamos preocupações muito urgentes naquela época, então perdíamos bastante tempo com coisas e conversas desnecessárias.
Mas, naquele mês, Remus ficou doente. Não saiu da cama para absolutamente nada, nem para zoarmos com Ranhoso, então fiquei um pouco preocupado. Ele não tinha conseguido terminar a redação para a professora McGonagall, e isso não era do feitio dele.
— Podemos faltar também se quiser ajuda com alguma coisa – eu disse a ele na manhã em que Sirius, Peter e eu nos arrumávamos para a aula, mas Remus não conseguia sair da cama de jeito nenhum.
Ele estava suando, muito trêmulo.
— É melhor saírem. Vou ficar bem. Às vezes sofro de uma doença crônica... é realmente perigosa se chegarem perto e...
— Viu essa, James, ele quer se livrar da gente.
— Pois é, Sirius, to começando achar que é encenação – provoquei.
— Não estou fingindo! – ele exclamou, zangado dessa vez. – Essa doença... não é legal de olhar. Quer saber, é contagiosa. Então, vão pra aula e me deixem em paz.
— Tudo bem, relaxa. Nós vamos. Não queremos ser um encosto.
— Melhoras aí, Remus – falei e, jogando a mochila no ombro, acompanhei Sirius até a porta.
Foi estranho vê-lo doente. É, alunos ficavam doentes ora ou outra e por isso passavam a maior parte do tempo nos cuidados de Madame Promfrey na ala hospitalar. Mas aparentemente a doença de Remus era diferente, porque quando resolvemos visitá-lo por lá, a mulher disse que não tinha nenhum aluno hospitalado, só alguns jogadores do time de quadribol que se machucavam durante os treinos.
Não vimos Remus naquela semana.
— Será que pegamos a doença? – preocupou-se Peter. – Não é a primeira vez que Remus precisa voltar para a casa dele desde o começo do ano... e dormimos no mesmo lugar que ele.
— Não é contagiosa – eu disse muito convicto. – Ele diz que é uma doença crônica. Doenças crônicas são genéticas, não contagiosas. Remus estava mentindo para que não víssemos a doença se desenvolver nele. E lembra uma vez que ele precisou voltar pra casa para ajudar a mãe, que também tava doente? Deve ser alguma doença de pele, que outra explicação teria para os machucados dele?
— É, tem razão – disse Sirius, pensativo.
— Será que ele é um camaleão? Um homem camaleão que troca de pele e...
— Por Merlin, Peter, tem como você vir com teorias mais idiotas da próxima vez? – eu comentei.
— Sim, Remus com certeza é um camaleão. Ele vai adorar ouvir isso – exclamou Sirius.
— Não é impossível!
— Claro, Peter, claro – não quisemos desiludi-lo.
No tempo que fomos almoçar, já tínhamos abandonado o assunto sobre a doença de Remus quando Sirius recebeu mais um berrador de sua adorável mãe.
Os berradores eram constantes no primeiro ano, tanto que virou um evento o dia em que Sirius recebia um.
A mesa da Grifinória olhou com expectativas quando vimos o envelope vermelho em sua mão.
Ele abriu, fazendo o maior suspense, e aí o show começou:
— SIRIUS BLACK TERCEIRO, MALOGRO ORDINÁRIO, EU ESTOU DESENCANTADA COM A SUA INUTILIDADE COMO FILHO.
— Novidade – Sirius bocejou.
— EU DISSE A SEU PAI QUE TIVE A IMPRESSÃO DE QUE VOCÊ NÃO PRESTAVA MESMO. NEM PARA SER UM SONSERINO, NEM PARA FAZER O ÚLTIMO DESEJO DE SEU AVÔ. UM PACÓVIO QUE NEM MERLIN VAI CONSEGUIR SALVAR. NÃO OUSE MANDAR CARTINHAS DE DESCULPAS, SEU MOLEQUE IMPRESTÁVEL...
— Já tivemos essa conversa, não?
— MUITO MENOS PERGUNTANDO SE PODE PASSAR UNS DIAS NA CASA DO SEU AMIGUINHO IGUALMENTE IMPRESTÁVEL, O POTTER.
— Estou lisonjeado! Ela nunca me citou em um berrador...
— NÃO ME INCOMODE COM SUAS BESTEIRAS, FAÇA O QUE QUISER E SE VIRE PARA LIMPAR SUAS CUECAS. ESSE É O ÚLTIMO BERRADOR E SE ME MANDAR SUA CORUJA IMUNDA MAIS UMA VEZ SÓ PARA FAZER PERGUNTAS IDIOTAS... É BOM QUE SEJA PARA FALAR QUE ESTÁ EM UM CASO DE VIDA OU MORTE!
O Salão Principal inteiro ficou estupefato com a última frase. Para a minha surpresa, Sirius continuou comendo tranquilamente, sem se afetar com o berrador se rasgando perto de seu ouvido. Mastigou devagar cada pedaço do frango. Apreciando.
Sirius disse:
— Então, James, minha mãe me deixou passar o Natal com sua família.
Os garotos riam e as garotas olhavam com aflição.
— Eu gostei do "malogro ordinário" dessa vez – comentei.
— "Pacóvio" realmente saiu do esperado – ele concordou.
— Black, por que sua mãe te odeia tanto? – perguntou Evans e acho que aquela foi a primeira vez que ouvi a voz dela em um tom normal, não alterado ou zangado, para Sirius. Ela tinha uma expressão como de alguém que não acreditasse na possibilidade de uma mãe dizer coisas como essa a um filho.
O cabelo dela estava preso em uma trança. Sei lá porque reparei nisso naquele momento.
Sirius deu um longo suspiro. Achamos que ele ia dar uma resposta completa e esclarecedora, mas... deu de ombros.
— Sei lá. Mães odeiam filhos, certo?
— Minha mãe me ama – eu contei. O pessoal fez um "huuuuuuuum" de deboche.
— Sabemos que você é perfeito, Potter – disse McKinnon com uma expressão cansada enquanto enfiava a espátula na sopa para jogar mais um pouco em seu prato. Ela, em comparação com Evans ao seu lado, era bem diferente. Enquanto Evans colocava um franguinho no prato com certa delicadeza, McKinnon parecia estar martelando o prato. Mas, pelo visto, essas diferenças não a impediam de darem risadinhas juntas. Evans rindo de mim. DE MIM. – Só não sabíamos que também era mimado! Aquela caixa de bombom que ganhou na Páscoa foi ela quem enviou a você?
Não fiquei irritado, achei engraçado terem mencionado o episódio.
— Na verdade, não sei quem me enviou aqueles bombons. Só sei que estava uma delícia.
— Você gostou? – uma voz ansiosa me pegou de surpresa.
De repente uma garota apareceu ao meu lado, não sei de onde, e usava a gravata da Lufa-Lufa. Era mais alta do que eu e não parava de sorrir estranhamente para mim. Estava no meu ano, mas eu não consegui lembrar seu nome.
— Eu mesma fiz os doces, fico feliz que tenha gostado.
— Obrigado – falei. – Eu acho. Por que me deu eles?
Ela sorriu, fez um tchauzinho e saiu, sem responder minha pergunta. Eu não conseguia lembrar o nome dela, e Sirius exclamou:
— Então ela é a admiradora secreta do cartão dos chocolates! – E apertou minha bochecha. – Não é uma graça?
Tirei a mão dele. Estiquei meu pescoço para ver a menina da Lufa-Lufa caminhando de volta para a mesa com as amigas. Joguei minha mão nos cabelos, involuntariamente, e fiz um muxoxo.
— Por que tenho que ser atraente?
Ficar se livrando de garotas estranhas era cansativo, mesmo para um garoto de 11, quase 12 anos, como eu. Claro. Vida difícil!
— Ela segue o James para todos os lugares desde que o viu no trem – contou Sirius. – Parece que não é só o Frank que tem uma namorada, mas o James também arrumou uma!
— Alice não é minha namorada! – teimou Frank e, zangado, se levantou. Alguns garotos, eu me incluía nisso, tiravam sarro de Frank que Alice Prewett era sua namorada. Irritado com a suposição, uma vez até deixou escapar que nem sequer gostava dela, mas todo mundo sabia que era mentira.
Vivíamos cantando.
Alice e Frank, embaixo de uma árvore.
B-E-I-J-A-N-D-O.
— Certo, como eu me livro dela? – perguntei a Sirius, preocupado, quando a minha primeira assustadora, quero dizer, admiradora secreta e agora nem tão secreta, porque eu lembrei que seu nome era Eleanor Rogers, me mandou um urso de pelúcia como presente de Natal. E um cartão: "Oi James. Gosto bastante dos seus óculos!"
— James, você não tem que se livrar dela. Tem que chamá-la para sair! – disse Sirius muito seriamente.
— Como se pede a uma garota para sair? – perguntou Peter bastante curioso.
— Aparentemente você tem que abrir a porta, mandar ela embora e falar que ela está atrapalhando – eu respondi. – É assim que se pede uma garota para sair.
— Vocês não sabem de nada.
— E o que você sabe? – cruzei os braços.
— O suficiente – Sirius foi misterioso na resposta. – Digamos que eu... já vi muitas coisas.
— Muitas coisas como? – Peter se ajeitou na cama, os olhos arregalados. – Você já viu alguma garota pelada?
— Melhor.
Dizendo isso, Sirius se levantou da cama e procurou por algo em seu malão. Tirou de lá uma revista.
— Meu caro James, já pensou se Eleanor Rogers um dia ficar assim?
Dizendo isso, Sirius Black nos mostrou a capa da revista Playboy. A mulher tinha sobrancelhas atraentes.
Entre outras coisas que chamaram mais atenção. Especialmente a posição em que ela estava.
— Uou! – Peter exclamou, animado demais. – Onde conseguiu isso?
— Roubei de um garoto do quinto ano, que estava na detenção com a gente mês passado. É uma revista trouxa então são mulheres trouxas. Fico imaginando a revista bruxa para isso, com as imagens se movendo. Deve ser bem melhor.
Como Sirius só tinha uma, dividiu um espaço comigo e com Peter para folhearmos a revista, demorando em algumas páginas. Ficamos vendo mulheres nuas como se não existissem lições de casa para entregar antes do feriado de Natal.
— Acham que as meninas da nossa classe ficam assim um dia mesmo? – Peter parecia incapaz de imaginar. A relação entre Peter e Sirius era como de um mestre e um aprendiz. Parecia que Peter sempre tinha algo a aprender com Sirius Black.
— Bem, tenho minhas dúvidas quanto a McKinnon – Sirius comentou quando fechou a revista. – Mas provavelmente, algumas delas ficarão assim. Bem, Peter, pode ficar com a revista para você. De Natal.
Peter olhou para ele como se tivesse visto o papai Noel.
— Valeu, Sirius, você é o melhor!
Ele ia abraçá-lo mas Sirius empurrou sua cabeça antes que isso chegasse a acontecer.
Nunca tive um irmão mais velho, ou mais novo. A resposta da minha mãe quanto a essa minha vontade nunca mudou:
"James, sou velha demais para lidar com duas versões de você!"
Mas quando conheceu Sirius, ela o acolheu em sua casa como um cachorrinho. Dizia que "qualquer bom amigo do meu James é um bom filho para nós!". Sirius era tipo o irmão que eles não puderam me dar e, talvez, ele fosse até melhor do que um irmão. Minha mãe nunca daria bronca em mim com Sirius por perto, por exemplo. Então quando nos reencontramos no feriado, ela se esqueceu de me dar os puxões de orelha que prometeu por causa das detenções que levei, e me abraçou bem forte. Abraçou Sirius também, que achou o gesto estranho, mas o recebeu com vontade.
Meus pais não eram exatamente o tipo de pais jovens, por isso, diferente de algumas famílias sangue-puro, nosso Natal era bastante tranquilo. Por alguns anos meu pai me levou para festas bem chatas de seus colegas do Ministério, mas nesse Natal ele pegou uma gripe muito forte e concordamos de fazer a ceia só nos quatro, contando com Sirius.
Eu teria ficado entediado, mas Sirius nunca deixaria isso acontecer. Ainda mostrou que tinha arrancado algumas páginas da revista trouxa antes de dá-la ao Peter, por isso a curiosidade foi muito grande e ficamos olhando mulheres nuas por um tempo, mesmo que minha mãe tivesse avisado que já era tarde e precisávamos dormir.
Quando meu pai entrou para me dar boa noite, ele acabou descobrindo o que estávamos olhando. Tentei até disfarçar, mas meu pai não era idiota.
— Eu entendo, garotos – ele disse. Sua postura era relaxada, papai raramente se incomodava com qualquer coisa. – Só nunca deixe sua mãe encontrar isso, ela mataria.
Ele ia sair, mas parou, virou-se para nós e se sentou na cadeira da minha escrivaninha.
— Saibam de uma coisa, meninos. Quando forem maduros para conhecer o mundo real de vocês, não vão mais precisar ficar vendo revistas e imagens. É interessante agora, claro, mas depois nem vão precisar. Vão se apaixonar por alguém, então precisam sempre respeitá-las.
Sirius e eu nos entreolhamos. Não entendemos nada do que ele quis dizer naquele momento. Só queríamos ver aquelas fotos. Ninguém estava falando de amar! Charlus Potter sempre frisou a importância de se respeitar mulheres, desde pequeno eu o via cumprimentando as pessoas, mas com uma cortesia mais exagerada às mulheres mais novas e mais velhas. Na manhã seguinte, perguntei se ele teve muitas namoradas e sua resposta foi uma risada.
— Todos nós sempre temos várias namoradas! Mas temos que ser gentis e nunca, nunca deixar de mostrar que você quer que elas queiram você. Confiança, filho, confiança.
— Tem essa garota na minha turma – eu comecei a contar. Sirius não estava acordado ainda, por isso fui até meu pai sozinho, interrompendo sua leitura matinal do Profeta Diário, para falar com ele sobre isso, sem que alguém debochasse de mim. – E ela diz que me ama. Fica me seguindo o tempo todo!
— Acredite, James, isso não é uma coisa ruim!
— Mas eu não gosto dela.
— Situação difícil – concordou, escondendo o riso. – James, James, James... só aproveite. A vida é curta e, se tentar conhecer mais um pouco essa garota, você pode começar a gostar dela também.
— Ela é da Lufa-Lufa.
— E você não conversa com lufa-lufas?
— Não é isso. É mais porque ela nem gosta de Quadribol. A maioria das garotas não gosta de Quadribol na minha turma. Nem sabem o que é um pomo de ouro.
Ouvi a porta do meu quarto se abrindo.
— Não diga ao Sirius que tivemos essa conversa – eu disse seriamente ao meu pai. Ele colocou um pano sobre a boca para abafar a tosse que tinha por causa da gripe, e concordou.
Havia coisas que só ficava entre mim e meu pai.
Mas nem por isso deixei de dividir algo familiar com Sirius. Na manhã de Natal, depois de abrirmos os inúmeros presentes de meus amigos e meus pais, mostrei a ele o objeto mágico mais incrível da minha família.
— Olha só isso!
Tirei da gaveta um pano de tecido escuro, facilmente confundido com um lençol qualquer. Mas quando a coloquei no corpo, Sirius soltou uma exclamação involuntária.
— Ooo, eu sou tipo um Nick-Quase-Sem-Cabeça – brinquei, fechando a capa na altura do meu pescoço. – Exceto com a cabeça. Só que sem o corpo. Agora – vendei meu rosto. – Sou o Nick-Completamente-Sem-Cabeça!
— Isso é demais! Posso experimentar também?
— Claro.
Entreguei a capa ao Sirius. Ele a passou pelos ombros e a vestiu. Seu corpo ficou completamente invisível.
— Imagina se tivéssemos uma dessas em Hogwarts! – só ouvi sua voz. – Poderíamos sair de noite sem nos preocuparmos em sermos vistos!
— É verdade! Bom, meu pai disse que só existe essa capa da invisibilidade, é a única do mundo todo e está na minha família há anos. Ele diz que é uma relíquia. Nunca me deixaria levar para Hogwarts.
A cabeça de Sirius flutuou a minha frente.
— E se não perguntássemos?
— Como assim?
— E se você apenas colocá-la na sua mala. Ele não precisa saber. Aí, quando o ano letivo acabar, você a devolve.
— Não minto para o meu pai.
— É uma pena – ele suspirou. – Imagina o susto que daríamos em Ranhoso! Poderíamos segui-lo para ver o que ele e aqueles sonserinos idiotas aprontam nas masmorras.
— Não estarei tecnicamente mentindo – eu mudei de idéia rapidamente. – Omissão não é mentir. E eu não estaria realmente roubando a capa, já que ela pertence aos Potter. E eu sou um Potter.
Sirius abriu um largo sorriso.
A capa era espaçosa o suficiente para nos cobrir. Caminhamos de volta para o meu quarto, mas decidi pegar alguns doces que mamãe me proibia de comer antes do almoço, então nos esgueiramos para a cozinha primeiro. Ela nem nos viu, o que foi genial.
Estávamos nos aproximando do quarto, quando meu pai passou por nós e disse:
— Respire mais baixo, Sirius.
Fomos pegos.
— Eu só estava mostrando ao Sirius... – expliquei-me quando derrubamos a capa.
— Senhor, prometo não contar a ninguém sobre ela.
— Está tudo bem – ele sorriu. – Mas se quiserem a capa, não a usem para coisas como roubar doces da cozinha de sua mãe. Seria um desperdício de magia sagrada.
— O que quer dizer com isso?
— Quero dizer que... Hogwarts tem muitos segredos. Usem a capa com sabedoria para conhecê-los.
— Está me dando a Capa da Invisibilidade? – não acreditei. – Pai, mas o senhor disse que só pode honrar a Capa para mim depois que o senhor morrer.
— Bem, eu prefiro quebrar tradições a ver meu filho tentar roubá-la de mim. – Mas ele não parecia bravo.
Mesmo assim, Sirius achou justo me defender.
— A idéia foi minha, senhor.
Charlus apoiou uma mão no ombro de Sirius.
— Só confiem a Capa da Invisibilidade aos amigos mais confiáveis. Não decepcione essa confiança, Sirius.
— Sim, senhor.
— E não me chame de senhor, por Merlin, não estou tão velho.
Voltando a tossir, girou os calcanhares e nos deixou sozinhos enquanto comemorávamos o melhor presente de Natal de todos. Na última noite que Sirius passou em casa, antes de cairmos no sono depois do dia inteiro dando trabalho para mamãe, Sirius murmurou:
— Sua família é legal.
Eu sorri, pensando em meu pai, e precisando concordar com ele.
— Pode passar quantos Natais quiser por aqui, Sirius. Eles gostaram de você.
— Valeu, James.
No colchão ao lado da minha cama, Sirius virou-se para dormir.
E, naquela noite, meu sonho envolveu garotas.
