Capítulo II

As palavras incompreensíveis.

Eles não entendiam. Ninguém entendia. Não era algum tipo de complexo de incompreensão remanescente da infância ou adolescência – das quais fugiu consciente e compulsivamente. Não. Eles simplesmente não podiam entender.

Muitas vezes tentamos compreender a dor e o sofrimento dos outros. Mas apesar das melhores intenções, na maioria das vezes – na verdade todas as vezes – mesmo o maior dos esforços ou a mais pura empatia não é suficiente.

Quem poderia entender que, apesar de ter sobrevivido aos seus traumas da infância – e apesar de ter sobrevivido mais uma vez –, apesar dos anos que se passaram, apesar de Harvard, apesar do emprego num dos melhores laboratórios do país, apesar de finalmente estar com o homem que por tanto tempo amou, enfim, apesar da trajetória no mínimo bem sucedida e do futuro que já acenava brilhante a frente, Sara Sidle se sentia sufocada, em trevas e fugindo; num quarto escuro, tentando se libertar de um pesadelo outrora facilmente dominável, mas que ultimamente a dominava. E a deixava totalmente sem forças; diminuída.

Todos aqueles fantasmas, Sara simplesmente deixara para trás, em vez de tê-los sepultado. Não que não valessem o trabalho. Mas a dor era grande demais. Insuportável. Tinha respeito pelo passado e pelo sofrimento dos outros. Era o máximo que podia fazer – por sua mãe, por exemplo. Se não podia entendê-la, tentava ao menos não julga-la. E até então, até aquela noite no deserto, simplesmente pensava que o melhor a fazer era simplesmente deixar tudo aquilo para trás. E ajudar aos outros. Empenhar o melhor de si nisso deu por muito tempo um sentido a sua vida. Não sabia que seus fantasmas aprenderiam o caminho de sua casa – o lugar que finalmente estava disposta a chamar de lar – e viriam assombrá-la em sua nova vida. Precisava acabar com eles, antes que acabassem com tudo aquilo que construiu e com o que pretendia construir ao lado de Gil.

Sorriu ao pensar nisso, embora a vontade q tinha fosse de chorar. E o que neste momento provocava isso ia muito além da montanha russa emocional por que vinha passando. Era a lembrança das últimas semanas. Grissom lhe dava cada vez mais motivos para sorrir. Ele queria ser SEU Grissom – muito mais que o mestre, amigo e amante. E, ela percebeu, vinha dando o melhor de si para mostrar a ela essa nova faceta, principalmente agora, que não precisavam esconder nada de ninguém. Ele estava tão feliz desde o dia em que a pediu em casamento.

Naquela noite, quando chegaram em casa, ela tentou falar com ele. Mais uma vez. Na verdade, vinha tentando falar com ele desde que saíra do hospital. Mas o amor pode ter efeitos estranhos, como a vontade de sempre proteger o ser amado, mesmo quando é você quem precisa de proteção. Ela teria falado com ele. 'Quando ele sair do banho.' Pensou. Mas, quando Grissom abriu a porta do banheiro ainda estava vestido. Ela olhou para ele surpresa. Ele vinha em sua direção enquanto falava.

"Estive pensando em propor um regime de 'castidade' até nossa noite de núpcias. Mas esta é uma idéia realmente piegas. E eu definitivamente não consigo."

Sara sorriu. Ele estendeu a mão para ela e a levou consigo de volta ao banheiro. Quando deu por si estavam debaixo do chuveiro.

A água quente, o calor do corpo dele, o carinho com que tocava seu corpo e a paixão com que faziam amor só fazia crescer o peso em seu coração por ser capaz de dizer tudo a ele de uma vez.

Sara suspirava trêmulamente. Gil colocou o cabelo molhado dela para trás e procurou olhar em seus olhos.

"Tudo bem, querida?"

Ele percebeu que ela se esquivava de olhá-lo nos olhos.

"Está tudo bem? O que houve?"

Ela fez que sim, apertou os olhos e se agarrou a ele, sussurrando em seu ouvido:

"Nada. Só... Faz amor comigo, Gil. Não pergunta nada, só... Fica comigo."

Gil beijou a cabeça dela e traçou um caminho de beijos por seu rosto até reencontrar sua boca. E ela continuou de olhos fechados.

Não conseguiu falar com ele. Mais tarde, quando já estavam na cama, ela o abraçava, e ele chamou por ela baixinho. Talvez achasse que ela já estava dormindo. Ela o deixou pensar que sim.

"Queria que soubesse que... Você hoje me fez mais feliz do que jamais pensei ser. Você esperou por mim e me aceitou. O que você está me dando é algo de que eu já tinha desistido... Algo que cheguei a pensar que não merecia."

Ele suspirou. Falava cada vez mais baixo.

"Você é tão cheia de vida que conseguiu, Sara Sidle. Você conseguiu me injetar vida nova."

Sara ficou ali por algum tempo. Paralisada. Sentia o ritmo da respiração dele mudar. Ele estava dormindo.

Gil se abria cada vez mais para ela. Nos últimos dois anos ela viu, gradativamente, suas reservas, seus medos, caindo um a um. Ela ainda sentiu um certo receio no tom dele naquele dia, quando a pediu em casamento. Bem do jeitinho dele, meio que jogou a pergunta, sem olhar diretamente para ela. Ainda tinha medo de que ela o rejeitasse? Ela jamais faria isso. Aliás, casamento estava muito além do que ela ousava esperar desse relacionamento. Tudo o que queria era estar perto dele.

Na hora, depois de passado o susto da proposta, até achou bonitinho o modo meio envergonhado como ele propôs.

Não, Gil Grissom. Foi você quem me deu o dia mais feliz da minha vida.

Mas, ainda assim, aquela dor continuava lá. Por quê? Estava errado. Tinha de resolver isso. Sua vida dependia disso. Suas vidas dependiam disso.

Só conseguiu falar com ele um dia antes de sair.

Por isso escreveu a carta.

Esperava que ele entendesse. Sabia que ficaria chateado; que tinha planos para eles. Dois dias atrás ele disse que tinha uma surpresa para ela. E ela sequer soube o que era. Mas ela ficou realmente comovida com a reação dele antes de sua partida. Percebeu que ele ficou abalado, é claro. Mas ele não a impediu. Entendesse ele ou não aquilo pelo que passava, ele não a deteve de fazer o que tinha de fazer. Sim, Grissom a compreendia.

Era assim, através de cada atitude que ele a conquistava cada vez mais. 'Nossa! Se é que isso é possível.' Pensou.

Embora tivesse decidido não entrar em contato com ele com grande freqüência enquanto durasse sua jornada, neste momento, tinha de falar com ele. Além disso, disse que ligaria quando chegasse. Assim que desceu do avião, antes de alugar um carro, antes de qualquer coisa, ligou para ele.

O telefone não chegou a chamar duas vezes. Mas depois que atendeu, ele não disse nada. Sara não ouvia sequer sua respiração do outro lado da linha. Sabia que era ela. Deve ter visto no display do celular. Era de cortar o coração que ele não pudesse responder.

Sara engoliu seco, reuniu o melhor de suas forças e toda a saudade que já sentia para finalmente quebrar o silêncio.

"Gil?"

TBC

N.A.: Não teve jeito – fui afetada pelo que aconteceu. Até tentei escrever pro desafio de fanfic da Cassie. Sentei pra escrever e disse, 'Gil, vamos fazê-la ficar.' Não deu. Simplesmente pude fazê-la ficar. Não consegui mais nada depois de ver a angústia dela. Nossa! Enfim, fui afetada. E aí veio a continuação dessa fic. E tá bem angst esse capítulo, gente...