Disclaimer: Gundam Wing não me pertence, assim como seus personagens.
Casal: 1x2
Gênero: Yaoi, Angst, Drama, Romance.
Sinopse: Após conhecer o glamour e o lado negro da fama percebe que apesar de todo o dinheiro e luxo do qual vive cercado sua vida não passa de uma grande mentira inconformado com a figura patética na qual se transformou em meio a crises de identidade passa a se alto destruir vivendo ao estilo sexo, drogas e rock'n'rol. Será que Heero poderá salva-lo?
Agradecimentos: a Naru Hiwatari, a Larcan, a Blanxe e a RaposaVermelha pelas review. \o/
Muito obrigada a Blanxe pela revisão da fic \o/
Fatos, locais e alguns personagens são frutos do delírio da autora.
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Sempre Depois da Tempestade
Capitulo 01: Por um segundo.
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Ano 196 D.C. (Depois da Colonização)
Fim da Guerra contra as Tropas de Mariméia
A primeira conferência pela paz universal foi um sucesso. Foi firmado um acordo de mútua ajuda entre Terra e Colônias, além de vários contratos comerciais a então líder do extinto Reino Sank. Relena Peacecreft, agora ministra da paz e embaixadora da Terra, recebeu o título simbólico de rainha do mundo (ou da Esfera Terrestre Unida) por sua constante luta pelo pacifismo total, além de sua ajuda humanitária para com as vítimas da guerra.
Os membros da OZ, da Fundação Romeffeler e os lideres de outras facções terroristas, foram condenados por suas atrocidades de guerra e devidamente punidos.
Vários soldados que contribuíram para o pacifismo foram homenageados, dentre eles os principais atores da guerra: os ex-pilotos Gundam, que foram apenas representados simbolicamente como os "Anjos da Guerra" (título sugerido por Relena, que não agradou a todos os pilotos, mas foi aceito na ausência de algo melhor). Já que por decisão unânime os cinco ex-pilotos resolveram ficar apenas nos bastidores e optaram pelo anonimato, pois segundo seu porta-voz, Quatre, eles não se consideravam heróis. Além do mais, a privacidade e a possibilidade de levarem uma vida normal acabaria no instante em que suas identidades fossem reveladas ao mundo. Apesar de todos os protestos e reclamações contra a decisão vinda por parte de quem conhecia os pilotos gundam, esta foi irrevogável.
Os Preventers se fortaleceram como órgão especial de defesa, que tem como objetivo de manter a paz, investigar e acabar com qualquer ameaça terrorista que atente contra o pacifismo. Os Preventers atuam desde polícia local, até grandes centros de inteligência e investigação com agentes especializados e espiões. E ninguém mais indicado para trabalhar nos Preventers quanto os pilotos gundans, que eram os melhores especialistas? Assim ficou mais evidente uma razão para manter em sigilo suas identidade. Para trabalharem como espiões teriam que assumir identidades falsas e com os rostos estampados em todos os livros de historia, além de varias revistas de fofoca inventando absurdos sobre suas vidas pessoais, não daria para se infiltrarem em lugar algum.
O primeiro a se juntar aos Preventers foi Wufei Chang. O piloto 05 se uniu ao grupo logo após o final da batalha. Depois Trowa Barton deixou os picadeiros do circo para atuar como um brilhante agente secreto. Mais tarde o Soldado Perfeito se integrou ao seleto grupo de agentes e pouco depois foi à vez de Duo Maxwell, este último por pouco tempo, pois se envolveu com sua busca pelo seu passado e origem, vindo então um forte envolvimento com a música fazendo com que abandonasse o grupo para assumir a liderança de uma banda de rock e brilhar nos palcos como cantor, guitarrista e compositor. O único que nunca fez parte dos Preventers foi Quatre, que optou por assumir a frente das empresas de seu falecido pai.
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Duo POV-
Eu entro no banheiro de meu luxuoso apartamento no bairro mais nobre e rico que possa existir nesse país e tento não olhar o meu reflexo no espelho. Não consigo e me encaro. O que vejo é apenas um simples borrão, um fantasma sem forma defina, eu não me enxergo mais... Tudo o que me tornei não passa de uma mentira. Eu sou tão falso quanto a todos que me cercam...
Meus pesadelos me assombram e eu não posso continuar fingindo... Eu passo a toalha contra o espelho tentando melhorar a minha imagem embaçada, mas o que eu vejo é ainda mais aterrorizante... Estou tão pálido que não me enxergaria se estivesse encostado em uma parede branca. Meu corpo consumido pela dependência e descaso. Eu quase não me lembro de quando isso começou.
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Flashback-
Você toca muito bem! - Hilde estava parada a porta de meu apartamento há algum tempo me admirando tocar uma guitarra.
Não acho que seja tanto assim. Há quanto tempo você esta aí?
Não muito tempo… uns cinco minutos. Você deveria pensar em montar uma banda e tocar profissionalmente, tem talento pra isso. -A garota adentrou ao apartamento e se sentou ao meu lado no sofá.
Você exagera, eu só arranho um pouco nessa guitarra Stratocaster. Não chego nem aos pés de um guitarrista profissional. –Sorri retirando a guitarra de meu colo. Fazia muito tempo que não a tocava.
Meu irmão mais velho também tocava. Ele tinha um baixo, aquele instrumento era sua paixão. Sempre dizia que assim que terminasse a guerra, ele deixaria o exército e montaria uma banda. Infelizmente seu sonho jamais poderá ser concretizado, pois ele não sobreviveu à guerra. –Hilde abaixou a cabeça triste ante a lembrança do falecido irmão.
Ah, Hilde eu sinto muito! –Abracei minha amiga.
Não, tudo bem. Eu já aceitei essa perda há muito tempo, só me entristeço por não vê-lo realizar o sonho de toda uma vida… Mudando de assunto e aí? Como foi o encontro com a madre que conheceu sua mãe?
Foi estranho. No começo ela não quis me dizer muita coisa, ficava dando voltas e não chegava ao ponto, mas quando percebeu a minha aflição e eu lhe contei que fui um dos pilotos gundans, ela começou a contar toda a historia e...
E...
Hilde, ela me disse tantas coisas que eu preferia não saber... – Me curvei colocando os pés sobre o sofá e abraçando os próprios joelhos.
Hilde me abraçou tentando conforta-me e passar segurança.
Tudo bem, Duo. Se não quiser me contar, não tem problema, eu não vou te forçar. Estarei aqui quando você quiser falar.
Você me deu a maior força e eu te agradeço muito. Acho que tem o direito de saber… A madre disse que foi muito amiga de minha mãe quando foram noviças em um convento dirigido pela irmã Helen. A minha mãe não tinha muita vocação para ser freira e vivia aprontando das suas, o maior sonho dela era se tornar uma cantora, era sua verdadeira vocação, seu dom, sua paixão… Ela tinha a voz de um anjo. A madre me disse que eu pareço tanto com a minha mãe Ângela.
Eu concordo com a madre, por aquela foto que você me mostrou, você é tão belo, quanto ela. – Hilde tentava sempre me animar.
Desse jeito eu vou ficar convencido, Hilde.
É a verdade. Você é lindo. Ah! Por acaso foi esse o motivo de você desenterrar essa guitarra e tocar um pouco?
Foi. Eu queria ver se ainda consigo tocar e cantar.
E seu pai? A madre te falou sobre ele?
Ao ouvir a palavra 'pai' meu rosto tomou uma expressão enraivecida e minhas mãos se fecharam em sinal de ódio.
Eu nunca tive um pai. O que eu tive foi um monstro que destruiu todos os sonhos de minha mãe.
O que você quer dizer?
A madre não quis me contar sobre isso, mas eu a imprensei contra a parede e ela me falou por alto omitindo alguns fatos. O caso é que minha mãe deixou o convento para ir atrás do seu sonho de ser cantora e não pôde realizá-lo. Ela regressou ao convento comigo em seu ventre e foi acolhida pelo padre Maxwell. Disseram a ela que todos me amariam muito. Minha mãe foi violentada por um soldado bêbado. Você entende o que isso significa, Hilde? Eu nunca fui concedido com amor como me fizeram acreditar minha vida toda. Eu sou fruto de um estupro... – Me derramei em lágrimas em um choro carregado de dor e angustia.
Não, Duo. Não fala assim… Eu estou certa de que sua mãe te amou muito.
Eu não duvido disso Hilde, mas... Eu acreditei a minha vida inteira numa mentira. Tudo o que eu sempre fantasiei, as historias que eu ouvi não passavam de mentiras.
Não Duo, o fato de seu nascimento não ter sido planejado, não muda o que você é.
Mas muda os meus sonhos.
Escuta, Duo. Você tá muito abalado. Vamos mudar de assunto… vamos sei lá… sair...
Olhei para a guitarra ao meu lado e tentei me acalmar. Lembrou-me dos sonhos que minha mãe tinha de ser uma cantora.
Eu vou deixar os Preventers.
Por quê?
Já faz um tempo que eu quero fazer isso, além do mais, eu jurei a mim mesmo que quando a guerra acabasse, eu não lutaria mais não usaria armas nem mataria de novo. Eu quero ajudar as crianças que perderam seus pais na guerra, crianças órfãs como eu, e também ajudar famílias a se reerguerem e coisas do tipo. Pra isso só me falta dinheiro, porque afinal, eu sempre fui desafortunado e...
Mas eu ainda não entendi onde entra a parte em que você deixa os Preventers.
Eu estou pensando em... Em entrar para a música, seguir os sonhos de minha mãe, realizar isso por ela. O que você acha?
Eu acho ótimo. Serei a sua fã numero um!
Por que você não entra nessa comigo? Aprende a tocar baixo como o seu irmão e também realiza os sonhos dele.
Eu não sei... Você acha que eu consigo? Sabe, já pensei em aprender a tocar antes. Meu irmão até me ensinou algumas notas, mas eu nunca levei muito a sério. Talvez essa seja a hora de eu finalmente aprender a tocar.
Ótimo vamos formar uma banda, eu vou ser o guitarrista você a baixista só falta arrumar os outros integrantes da nossa banda!!! –Hilde e eu rimos muito de nossos loucos planos e a expressão enraivecida desaparecera do meu rosto dando, lugar a novos sonhos.
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Fim do Flashback-
Risos. É só nisso que consigo pensar quando me lembro do quão idiota e patético eu fui. Formar uma banda e seguir os sonhos de minha mãe... Que estupidez! Se ela me visse agora tudo que conseguiria sentir era desprezo, nojo e pena da figura irritantemente ridícula que eu me transformei. Eu quis provar para todos que poderia ser o que eu quisesse, mas tudo que eu provei para mim mesmo foi o quão fraco e inútil sou. Não achei que a Hilde fosse levar a serio a idéia de tocar, mas confesso que me senti muito feliz quando a vi se dedicando, fazendo aulas de baixo e de canto. Ela é a melhor baixista que eu poderia querer em minha banda Deathscythe Hell.
Não consigo mais olhar para aquela imagem distorcida no espelho. Me viro de costas para ele e penso em quebrá-lo, infelizmente isso não afastaria aquele fantasma, porque ele estava dentro de mim. Aquela figura aterrorizante era a minha própria imagem e eu não podia mais sustentar essa mentira, esse ser falso e desprezível em que me transformei. Eu podia não ser a melhor e mais ilustre das pessoas quando era um simples soldado, mas também não era tão ordinário e ridiculamente podre como agora. A minha alegria era um disfarce, não era constante, como agora. Naquele tempo eu tinha momentos de total alegria, momentos que eu passava com os meus companheiros e amigos.
Os meus amigos... Eu não os vejo a tanto tempo. Sinto falta deles. Jamais achei que Wufei fosse me dar tanta força, ele realmente me surpreendeu. Sempre esperei essa atitude de Quatre e, até mesmo, de Trowa, mas daquele chinês nunca. Eu me afastei deles aos poucos e nem me dei conta do quanto eles me fazem falta. Cheguei a pensar que não precisava deles... Como eu posso ser tão estúpido? Às vezes eu consigo me superar... Ainda me lembro das palavras deles... Tão reconfortantes... Tão certas... Como eu pude trocar tudo isso por ilusões?
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Flashback-
Eu me encontrava na divisão de investigação criminal dos Preventers, estava parado na porta da sala de Wufei, decidindo se entrava ou não, até que resolvi que bater era melhor do que entrar sem ser anunciado. A última coisa que queria era irritar o chinês.
Toc toc
- Pode entrar! –a voz de Wufei soou do outro lado da porta.
Abri timidamente a porta e coloquei a cabeça pra dentro para espiar a sala.
- Maxwell? O que você ta fazendo parado ai? Entra logo.
Entrei, mas não fechei a porta. Meio receoso me sentei na cadeira à frente da mesa do chinês, que analisava alguns papéis sem me olhar diretamente. Trowa a meu pedido também estava na sala sentado em outra cadeira de frente para o chinês.
- Então, Maxwell? Vai ficar parado aí ou vai nos dizer o porquê de ter nos reunido em minha sala?
- O que você está fazendo Wu-man?
Ao ouvir tão apelido o chinês ficou roxo de raiva e isso fez Trowa dar um pequeno sorriso.
- Calma, Wufei! –Trowa tentou acalmá-lo.
-Estou trabalhando, não esta vendo? Coisa que você não faz. Maxwell, se você veio aqui na minha sala para ficar repetindo esses apelidos ridículos, pode sair. –O chinês levantou os olhos e só então percebeu o meu estado meio estranho. Eu estava de cabeça baixa e sem o costumeiro sorriso no rosto. – Maxwell, o que aconteceu com você? Por que está assim?
- Não aconteceu nada… é que...
-Como não aconteceu nada? Você esta há dois dias tentando falar comigo e sempre que vem aqui fica dando voltas e não chega direto ao assunto. Está me assustando desse jeito. É algo grave?
-Eu vou deixar os Preventers.
-O quê? – ambos Trowa e Wufei disseram ao mesmo tempo.
-Mas por quê? –Trowa indagou.
-Eu resolvi cantar profissionalmente e...
-Você tem certeza de que quer deixar os Preventers? –o chinês insistiu.
Com o choque pela notícia, Wufei se levantou de onde estava sentado rodeou a mesa e ficou de pé ao meu lado me fitando.
-Na verdade não, mas eu quero me dedicar mais tempo a tocar e, além disso, eu recebi um convite irrecusável de uma gravadora após ouvirem a gravação de um single que eu e meus companheiros de banda fizemos. Eles resolveram bancar a gravação do CD completo, mas me falta tempo para compor. Eu só tenho poucas músicas completas e com melodia isso exige tempo, esforço e dedicação e trabalhando como agente não dá para ter tudo isso.
-Quatre já havia me alertado que você deixaria os Preventers e eu não posso te repreender por isso afinal são os seus sonhos.
-E você, Wufei? O que acha? –Encarei o chinês esperando o sermão que ele certamente passaria em mim.
-O que eu posso dizer? Estou um pouco surpreso, mas na verdade, eu já desconfiava que isso acabaria acontecendo. Só te desejo boa sorte e espero que sinceramente saiba o que está fazendo. Se for o seu sonho se tornar um cantor famoso e reconhecido, um sonho que eu sinceramente não compreendo, mas não posso fazer nada, só te dar apoio.
-O quê? O que fizeram com o Wufei? Quem é você seu impostor? O Wu-man iria brigar comigo e... –Eu gesticulava e apontava para Wufei não acreditando que ele tinha concordado assim tão facilmente, enquanto Trowa ria de nós dois.
-Maxwell, quantas vezes eu vou ter que te dizer para parar com esses apelidos ridículos? Eu aqui te dando o maior apoio e você com essas suas gracinhas!!
-Você fica tão bonitinho quando está bravo!! Eu só queria descontrair um pouco o clima Chang. Me desculpe. É ótimo saber que tenho o seu apoio para deixar os Preventers e...
A conversa foi interrompida pelo barulho de pastas e de várias folhas caindo no chão aos se espalharem na porta do escritório. Nós três olhamos na direção do som e visualizamos Heero boquiaberto parado a porta e com uma expressão de total surpresa no rosto.
-O... O que você disse?
-Heero? –Eu estava surpreso não era para o japonês estar ali. Eu havia checado na recepção e me garantiram que Heero estava em uma missão de investigação e demoraria a regressar. A última coisa que eu queria era encarar a frieza do japonês.
-Heero? O que você está fazendo aqui? Eu achei que você tinha ido investigar aquele caso de duplo assassinato político. –Trowa se levantou e foi até o japonês.
-Baka! Por que demorou tanto? –Heero ignorava as demais presenças na sala. Tudo que enxergava era a mim.
Abaixei a cabeça e sai correndo da sala passando por Heero.
-Duo, espere! –Trowa gritou.
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Fim do Flashback-
Heero...
Eu nunca pude esperar mais de você do que desprezo. Por que você me deixou? Eu te quis tanto, tanto que cheguei a me sufocar com os delírios de sua imagem me amando, me desejando... Ilusões, não mais do que ingênuas ilusões... No fundo, muito das coisas que eu fiz foi pensando em você Heero, só você! Eu queria ser interessante, importante e digno para você me querer. Eu tentei, juro que tentei ser uma pessoa melhor, sem uma alma suja como a de um assassino que antes eu possuía. Eu queria ajudar as pessoas com a influência que eu consegui como cantor, eu queria...
Os meus pensamentos foram interrompidos pelo toque insistente da campainha. Retirei-me do banheiro e me encaminhei até a porta, passando pelo enorme quarto em que dormia e pela luxuosa sala de estar. Abri a porta sem nem mesmo espiar pelo olho mágico ou perguntar quem era.
-Duo, você ainda esta desse jeito? Vamos, apresse-se! Os outros já estão lá em baixo te esperando. O vôo para a turnê sai em menos de uma hora!
Hilde entrou assim que a porta foi aberta e se espantou ao ver que eu ainda estava trajando apenas a calça do pijama. A única coisa que já havia feito era ter tomado banho, e meus cabelos se viam soltos e molhados.
-Não estou com a menor vontade de ir a lugar algum, Hilde.
-Agora não é hora para reclamações, Duo. Temos que embarcar para essa turnê, que já esta programada a mais de dez meses. Anime-se! Vamos passar por varias colônias inclusive L2, a sua colônia natal.
Hilde falava de forma empolgada até perceber que eu não demonstrava o menor entusiasmo em retornar para as colônias. Especialmente em L2 ou L1(colônia do soldado perfeito).
-O que foi, Duo? O que está acontecendo com você?
-Nada! Não me dê atenção, são apenas bobagens de minha mente insana.
Eu não iria aborrecê-la com as minhas indagações idiotas sobre minha pobre vida. O que eu iria dizer? Que estou cansado de ser o pobre garoto rico e super famoso? Que tem tudo o que quer e na hora em que quer? Ora, por favor, eu sei o que todos pensam de mim; que sou um estúpido que nunca se contenta com nada e que sempre se faz de coitado. Eles não sabem nada da minha vida nem o que se passa em minha mente para me julgar dessa maneira.
- Duo, às vezes você me assusta, sabia? Eu não te entendo. Você sabe que se quiser se abrir comigo, eu estarei aqui para te ouvir. Sabe que não somos apenas companheiros de banda, somos também amigos...
Hilde parou de falar ao notar que a deixei sozinha na sala. Eu sei que estava sendo grosso, mas não queria ouvir toda aquela conversa sobre sermos amigos de novo. Melhor ir ao closet trocar de roupa e encarar a viajem para mais uma "hilariante e super-divertida" turnê. OBA!! Ora por favor, a quem eu estava tentando enganar?
Dirigi-me ao armário e peguei a primeira roupa que vi pela frente e me enfiei dentro dela. Eu não dava a mínima para meu visual agora. Tanto faz se eu estava usando meias trocadas ou cores que não combinavam, isso não fazia diferença, já que qualquer coisa idiota que eu usasse, imediatamente virava moda. Bando de estúpidos! Copiavam as coisas patéticas que eu fazia.
Enfiei-me numa calça de couro preta e uma camisa de gola alta vermelha, afinal, eu não estava tão mal assim para quem tinha pegado à primeira roupa que encontrou.
Quando Hilde entrou em meu closet, eu estava calçando minhas botas.
- Sabia que é falta de educação deixar as pessoas falando sozinhas? Isso magoa.
- Desculpe, Hilde, mas eu não to a fim de ouvir todo esse papo sobre amizade agora.
- Tá, me desculpe, eu não vou mais insistir nisso. Vamos, ande logo. Todos estão com pressa, estamos esperando a um bom tempo você descer.
-Tá bom, tá bom. O senhor atrasadinho já esta descendo. Só falta um último toque. –abri meu armário de jaquetas e peguei a que eu mais gostava: uma de couro preta. – Prontinho!
-Vamos?
Eu passei por Hilde e agarrei sua mão a puxando para fora do apartamento, indicando que já estava pronto para embarcar. Bom, se era para recolocar minha mascara de felicidade então melhor colocá-la o quanto antes.
Descemos pelo elevador e no salão de entrada do prédio os demais integrantes da Deathscythe Hell nos aguardavam. Chester Bennington, o baterista da banda, estava sentado no enorme sofá da recepção usando seus costumeiros óculos escuros, eram a sua marca. Rivers Cuomo, o outro guitarrista, estava paquerando a recepcionista e, ao que tudo indicava, estava obtendo sucesso. Simon, nosso empresário estava de pé à frente de uma cascata construída após um vidro. Era um lindo desperdício de dinheiro. Simon berrava no telefone com algum infeliz e tive a certeza de que não queria estar na pele dele.
-Ora, ora… Veja quem finalmente resolveu aparecer depois de nós fazer esperar por quase duas horas! –Chester ironizou, ao me ver sair do elevador.
-Finalmente, Maxwell! Vão, andem logo que eu não tenho muito tempo. O carro que os levará até o aeroporto está estacionado lá na garagem para evitar que sejam massacrados pelas fãs histéricas. –meu empresário nem ao menos me cumprimentou.
Todos nos dirigimos para o elevador e descemos até a garagem. Dois carros nos esperavam nos dividimos para melhor nós acomodarmos no espaço do automóvel. Hilde, meu empresário e eu fomos em um dos carros; Chester e Rivers no outro.
Eu já podia ouvir os gritos de fãs enlouquecidas vindos da rua. Quando os portões da garagem foram abertos, parecia até que elas tinham adivinhado. Todos se dirigiram para lá, pulando na frente do carro como um bando de moscas famintas em volta de um bolo de chocolate ou um bando de urubus sobrevoando a carniça. Sorri com a minha comparação e sei que não deveria falar assim deles, afinal, todo o meu sucesso, a vendagem dos cd' s e os shows lotados que eu faço, são graças a eles; além de todo o dinheiro que eu ganho. Mas é que alguns fãs exageram nessa idéia de ter um ídolo. Logo as vozes desesperadas não podiam mais ser ouvidas e nos aproximávamos do aeroporto, graças a Deus ou a qualquer outro ser. O aeroporto estava vazio, nem sinal de algum fã histérico ou coisa do tipo.
O embarque foi tranqüilo e silencioso. Só eram ouvidos os gritos do nosso empresário, que reclamava de coisas fúteis como o ar condicionado do avião. Não sei por que ele se preocupava com isso, afinal, ele nem viajaria com a banda, só embarcaria no próximo dia.
O avião por dentro era luxuoso, o melhor que poderíamos querer, por isso não entendi por que tanta reclamação vinda de Simon. Nos iríamos direto para Luxemburgo onde faríamos um show e de lá embarcaríamos para as colônias. Logo que o avião decolou, pedi a comissária de bordo para que me trouxesse um conhaque ou qualquer outra bebida alcoólica. Era incrivelmente diferente o efeito da bebida tomada em altas altitudes. A aeromoça me trouxe vodka e eu aproveitei para encher o copo, já que ela havia trazido o corpo por meio.
-Eu não acredito, Duo. Mal levantamos vôo e você já quer se embebedar?! –Hilde me olhava com desaprovação.
-Ah Hilde, não enche o saco! Deixe-o beber. Você às vezes é muito chatinha. –Rivers devolveu.
-O Duo está bebendo demais e isso não é bom para a saúde dele. Me preocupo com ele, diferentemente de você, Rivers. E não pense que eu não vi que você anda oferecendo alucinógenos pra ele, tá? –Hilde gritava enraivecida.
- É só para descontrai-lo um pouco e ele aceita porque quer. Ele já é bem grandinho e sabe se cuidar sozinho, não precisa de uma babá como você, sua vaca! –Rivers gritava no mesmo tom.
- O que você tem contra mim para ficar tentando me irritar o tempo todo e fazer tudo ao contrario do que deveria ser? –Hilde apontou o dedo na cara de Rivers.
- Parem já com essa briga! –eu explodi e gritei jogando o copo com bebida no chão e me levantando de onde estava.
Os dois olharam pra mim espantado com minha reação até mesmo Chester, que só observava o bate-boca de longe, se surpreendeu.
- Eu não sou mais criança e não preciso de uma babá para me controlar Hilde e se eu tomo alucinógenos é porque eu quero e não porque alguém me obriga. –gritei com a garota, que abaixou a cabeça. - E enquanto a você Rivers, eu não o quero mais maltratando a Hilde ou a chamando de vaca. Se não está satisfeito com a presença de uma mulher na banda, então saia, porque ela está aqui desde o começo e você sabe disso!
Eu não fiquei para ouvir os protestos. Me dirigi ao banheiro do avião, precisava por para fora tudo que não havia comido. Entrei e tranquei a porta, vomitei o pouco que tinha tomado no café da manhã. Recostei-me na parede ao lado do vaso sanitário e chorei. Eu não sabia o motivo do choro, só tinha vontade de sumir… de abrir a porta daquele avião e pular.
Olhando para todas as coisas "honrosas" que eu fiz eu percebo que odeio a pessoa falsa que me tornei. Eu queria não usar mais essa máscara de alegria. Será que ninguém vê que estou me auto-destruindo? Eu preciso esquecer disso. Preciso de alguma coisa que me leve para um lugar onde eu possa ser apenas eu mesmo. A bebida não tinha efeito sobre o meu corpo, afinal, eu vomitei tudo. Eu precisava de alguma coisa... Eu quero sumir... Eu vou enlouquecer.
Lembrei-me de que na pequena cozinha do avião tem uma mini geladeira com varias bebidas. Eu precisava ir até lá e pegar álcool para beber, mas sem ser percebido. Abri um pouco a porta e espiei, vendo que nenhum dos meus amigos estava a minha espera. Provavelmente só encontraria a aeromoça na cozinha, então decidi arriscar.
Saí do banheiro e fui silenciosamente à cozinha, onde encontrei a aeromoça preparando alguns drinques. Não me importei com a presença dela e abri a geladeira, pegando uma garrafa de vodka.
- O senhor deseja alguma coisa? Eu já estou levando os drinques que me pediram. Pode deixar que levo a bebida.
A aeromoça sorriu e tentou retirar a garrafa de minha mão.
- Não precisa se preocupar. Eu quero tomar a bebida pura mesmo. –tentei puxar a garrafa de volta.
- Mas senhor não pode tomar uma garrafa inteira. Estamos em vôo.
- Não me importo, afinal, eu paguei por tudo isso, não é? Agora me faz o favor de sair da minha frente e me deixar passar, antes que eu reclame sobre você e a faça perder o emprego.
A moça me olhou com medo e inconformada com a minha arrogância. Com certeza deve ter pensado no que penso que sou para tratar as pessoas como insetos. Eu não estava nem um pouco a fim de pedir desculpas. Assim que ela me deu passagem, corri para o banheiro antes que fosse visto. Tranquei-me novamente. Agora eu poderia esquecer um pouco daquela minha vida miserável. Eu sei que beber não iria resolver nada, mas me ajudaria a esquecer que por um segundo que não tenho uma família, que não sou realmente amado, que eu não valho nada, que eu sou um inútil, que eu uso minha mascara de felicidade.
Eu sou um inútil como Heero mesmo me dizia!
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Flashback-
Eu estava terminando de encaixotar meus pertences na sala que eu ocupei nos Preventers, quando senti algo estranho em minhas costas. Um olhar pesado sobre mim e, mesmo sem me virar, eu sabia de quem era aquele olhar, só não saberia dizer a quanto tempo ele estava me observando, pois já tinha alguns minutos que eu sentia uma sensação desconfortável.
-Então... Você veio me ajudar? –tentei ser irônico, mas não me virei para encará-lo.
- Você vai mesmo deixar os Preventers? –ele perguntou, parecendo incerto.
- É o que parece. –respondi, me levantando para encará-lo.
- Você assinou os últimos relatórios que eu deixei sobre sua mesa anteontem? –ele perguntou com uma voz fria e uma expressão do costumeiro soldado perfeito nos olhos.
- É claro que eu revisei e assinei. Estão aqui. –peguei o relatório sobre a mesa e estendi o braço para entregá-los. - Eu não sou o incompetente e inútil que você pensa que sou!
Eu não sei o que me encorajou a dizer aquilo, mas eu estava farto das insinuações de Heero sobre a minha eficiência e personalidade. Tive que me segurar para não xingar aquele bastardo. Quem ele pensava que era para me tratar daquela forma? O senhor sabe-tudo, superior e perfeito? O pior era que ele era tudo isso, mas eu não era um inútil e miserável como ele queria insinuar com aquele olhar frio.
Quando ele decidiu pegar os relatórios que lhe eram oferecidos, nossas mãos se tocaram por uns segundos, mas que me fizeram estremecer profundamente. Eu gelei e, com certeza, devo ter corado.
Que estúpido!
Mas o que me surpreendeu foi que por um segundo eu vi a expressão de Heero mudar. Ele não parecia indiferente, pelo contrário, arregalou os olhos e abriu os lábios em surpresa. Não sei se imaginei essa reação vinda dele ou se realmente aconteceu, porque foi tão rápida que logo desapareceu. Ele puxou os relatórios e os examinou, talvez para ter certeza de que eu estava falando a verdade, e isso me irritou.
- Realmente você os revisou. Finalmente algum trabalho vindo de você. –ele continuava a examinar os relatórios de pé a minha porta e eu tremia de raiva. - Acho que você merece a vida de artista, já que ela é o que você sempre quis.
-O que você disse? –bufei enraivecido, antes que ele deixasse a minha sala. Eu não entendi o que ele quis dizer com "o que você sempre quis".
-Eu pensei que você estaria feliz. –ele continuou parecendo não se importar com minha indignação.
- Você está me ofendendo Heero. Peça desculpas pelo que disse. –eu tentei parecer calmo para não soltar os cachorros em cima dele.
- Desculpas? Pelo quê? Eu só estou dizendo o que eu acho. Cantar profissionalmente foi o que você sempre quis não? –Heero não olhava diretamente para mim.
-Sim, foi o que eu sempre quis, mas...
- Mas o quê? Eu só vim aqui para te desejar sorte em sua nova vida. – Heero continuava a não me olhar nos olhos.
Eu não resisti e voei no pescoço dele. Agarrei o colarinho de sua camisa e o imprensei contra a parede. Ele olhou pra mim com um meio sorriso nos lábios, como se esperasse aquela reação vinda de mim.
-Você está de brincadeira comigo, Heero? Dizer que me deseja sorte? Até parece. – eu olhava enraivecido para Heero, que apenas me encarava calmo. Eu não sabia descrever o que se passava dentro dele, mas podia jurar que via felicidade em seus olhos. - Você não muda, Heero. Não passa de uma máquina estúpida que só tem raciocínio baseado em cálculos e só obedece a ordens; não tem sentimentos, não é humano. Sua única utilidade fora da guerra é essa, trabalhando como um soldadinho que recebe ordens e pensa baseando-se em mais cálculos. Inútil é você que não pode sentir...
- Cale-se! Você não sabe as asneiras que está dizendo.
Heero gritou e me empurrou. Agora foi ele quem segurou o colarinho de minha camisa e se virou. Eu assumi a sua posição sendo imprensado contra parede e ele assumiu a minha de ameaçador. Heero olhava em meus olhos, mas os seus, não demonstravam raiva, apenas passividade. Estranhei e pensei estar ficando louco. Decidi julgá-lo pela sua atitude.
- Você não sabe o que está dizendo. –ele falou em tom baixo.
- Eu não sei o que estou dizendo? Agora eu tenho cara de idiota é? –devolvi em tom de raiva.
- Eu não estou te julgando por você querer deixar os Preventers. – as mãos de Heero me soltaram cuidadosamente. – Eu só estou tentando te apoiar. Por que você não pergunta a minha opinião sobre suas ações como perguntou aos outros?
- He... Heero... – sussurrei, não entendo sua atitude. Ele sem querer tinha imprensado meu ferimento de bala na lateral do tórax.
Ele me soltou e se virou de costas. Eu chequei meu ferimento para ver se este não sagrava já que doía bastante, infelizmente a faixa branca que o envolvia estava manchada de vermelho certamente o ferimento tinha aberto. Eu tentei disfarçar para que Heero não percebesse.
- Eu já sei qual a sua opinião, você me acha um completo idiota.
- Você sabe que não é assim que eu penso.
- Não Heero, é exatamente assim que você pensa. Eu sempre fui um inútil pra você, não é mesmo?
Heero se aproximou de mim ficando a poucos centímetros de meu corpo. Eu podia até sentir sua respiração calma e ritmada em minha face. Isso me deixava tonto. Eu tentava não demonstrar dor por causa do ferimento. Eu o tinha conseguido na última missão que realizei. Tentando salvar a vida do soldado perfeito, eu me coloquei em sua frente e levei um tiro. Não era nada tão grave que comprometesse minha vida. A bala pegou de raspão na lateral esquerda de meu tórax, mas infelizmente era uma dessas balas especiais que se parte em mil pedaços. Idéia estúpida que eu tive em usar meu próprio corpo como escudo para proteger Heero, mas eu fiquei tão desesperado ao vê-lo sem defesa, que não pensei em mais nada. Pelo menos ele reconheceu isso.
- Você não é idiota. Você é uma das pessoas mais interessantes e fascinantes que eu já conheci.
-Mentira! -gritei. –Eu não entendo você, Heero. Se eu era tão interessante assim, então porque você me deixou? –eu arfava tentando disfarçar a dor.
Heero abriu a boca para falar algo, mas o que quer que fosse morreu em seus lábios, pois ele parou ao ouvir seu celular tocar. Ele atendeu e eu tive uma vontade estúpida de perguntar quem era, mas não foi preciso, já que a resposta veio logo em seguida.
-Tudo bem, Relena. Eu não esqueci... Não se preocupe, pois eu estarei lá na hora marcada... Até as oito Relena... Tchau.
Eu tive ímpetos de entrar dentro daquele celular e esganar a Relena, mas me controlei e abracei meu próprio ventre tentando disfarçar o sangue que já manchava minha camisa. Logo o soldado perfeito perceberia, não era burro.
Nesse momento Quatre apareceu na porta de minha sala e se espantou ao ver o japonês lá dentro.
- Duo? Desculpe-me, eu não sabia que você estava ocupado. Eu vim buscá-lo. –o loirinho disse, meio sem graça ele sentiu a tensão que pairava no lugar.
- Quatre! Que bom te ver! Entra e me ajuda com as últimas caixas. –eu quase implorei com os olhos para o loiro entrasse. Não me movi do lugar para não demonstrar minha dor. Não sei como, mas consegui abri um enorme sorriso com a chegada do árabe.
Heero me olhou com outra expressão após atender o celular. Fitou-me com ternura por alguns segundos e depois seu olhar passou para raiva como se eu fosse sujo e ele tivesse nojo de mim. Eu não entendi o motivo. Quatre observava tudo meio sem graça e devia estar se sentindo um peixe fora d'água.
- Espero que goste de sua nova vida. Eu realmente te desejo toda a sorte do mundo.
Heero passou por mim e sumiu nos corredores dos Preventers. Quatre me olhou, não compreendendo o porquê das palavras do japonês.
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Fim do Flashback
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Durante o resto da viajem eu fiquei no banheiro. A primeira a bater na porta e tentar me convencer a sair foi Hilde, mas eu me recusei depois foi à vez de Chester, e por último Rivers. Eu preferi ficar lá dentro do banheiro mesmo para não ter que encarar meus companheiros. Eles certamente veriam meus olhos inchados de tanto chorar.
O avião pousou em Luxemburgo e eu já podia ouvir os gritos de fãs enlouquecidos. Esses sons vinham de minha mente perturbada, pois quando desembarcamos não havia fãs a nossa espera. Todo o percurso até o hotel foi tranqüilo e silencioso. Faríamos o show no dia seguinte e eu teria tempo para descansar e reorganizar meus pensamentos, até enfrentar uma nova tempestade.
Continua...
Cantinho da Autora:
Olá pessoal! O que acharam do primeiro capitulo da fic? Espero que tenham gostado. Acho que ficou meio confuso, pois foi todo construído em cima de flash-back do Duo, e só conhecemos a história até agora através dos olhos dele, mas essa é a minha idéia misturar tempo presente com passado para fazer melhor uma visão da mente confusa de Duo.
E não se preocupem que logo, logo virar a explicação para as atitudes de Heero, e as loucuras do Duo.
Espero comentários ok?
Beijinhos da Asu-chan.
