CAPÍTULO I
O desespero não era uma boa companhia no caminho. Rin Okawa observava o horizonte, sentindo o medo corroê-la. O céu era uma massa plúmbea de nuvens aci¬ma da linha da água e o oceano atingia a praia com uma força que prenunciava a tempestade. Aspirando a penetrante maresia, cerrou os punhos. As bordas das delicadas conchas rosadas enfiaram-se nas palmas de suas mãos, enquanto lutava para superar a profunda tristeza.
O fardo às vezes se tornava difícil de carregar. Fora ingênua ao acreditar que os cruéis gracejos do destino tinham acabado anos atrás. Meneou a cabeça. Não. Não podia culpar o destino. O verdadeiro responsável era seu pai, que havia destinado am¬bos à incerteza e ao desespero.
Quanto dinheiro?
Quinhentas libras.
Ainda assim, o destino estava presente, espreitando, rindo, jogando com ela. Não seria sua presença ali, naquela manhã, um acaso maléfico?
Havia menos de meia hora deixara a hospedaria de seu pai, precisando de alguns momentos a sós para entender, para acei¬tar as terríveis escolhas que ele tinha feito, e as nefastas conse¬qüências que enfrentariam. Caminhava pela praia, sem destino, procurando apenas acalmar suas preocupações e medos.
Estremeceu, observando dois homens agitados, na arreben¬tação. Eles esperavam que as ondas os empurrassem para a frente, como oferendas, simples manchas escuras que toma¬vam forma conforme se aproximavam.
Na realidade, o desespero era uma péssima companhia, mas a morte era pior.
Cruzando os braços sobre o peito, observou um contorno escuro que chegava cada vez mais perto. Conseguiu, por fim, discernir a figura humana que flutuava, o rosto mergulhado na água, os braços estendidos e as longas mechas de cabelos ema¬ranhados boiando como um halo de cobre. Era uma mulher. E estava morta.
Com o coração acelerado, deu um passo à frente enquanto os homens buscavam tirar o fardo horrível do abraço gelado do oceano. Não fora uma mórbida curiosidade, mas uma espécie de empatia que a congelara no lugar. Na maioria das vezes, via o oceano como algo de grande beleza. Na maioria dos dias. Mas não naquele dia.
Naquele em especial, havia nuvens inquietas, arrebentação forte e o beijo gelado da névoa que soprava da superfície da água para tocar a terra. Também, no fundo do seu coração, havia o ter¬rível conhecimento dos atos de seu pai e uma sensação de mau presságio, de mudança, que não seria bem-vinda nem desejada.
Era semelhante demais a um dia do passado, um dia enter¬rado em um canto empoeirado de sua mente. O mar. A tempes¬tade. E ali, além de onde a rocha emergia, a sombra da Mansão Trevisham, assomando, silenciosa e assustadora, tendo, ao fundo, a água e o céu acinzentado.
Separada da curva da praia pelas ondas agitadas, a casa maciça era uma concha solitária e vazia, equilibrada sobre um rochedo íngreme que parecia levantar-se do oceano como o chi¬fre de uma besta mítica, uma pilha espantosa de pedra e argamassa que não oferecia acolhimento ou calor. Trevisham era ligada ao continente por uma estreita passagem, que podia ser atravessada tanto na maré baixa como na alta, exceto no caso de uma tempestade.
Um calafrio percorreu sua espinha, e ela olhou ao redor, sentindo uma preocupação inexplicável. Não era dada a idéias fantásticas nem à imaginação, mas naquele momento parecia estar sujeita a ambas. O coração batia rápido demais e os ner¬vos estavam à flor da pele enquanto procurava a fonte da in-quietação. Podia jurar que alguém a observava.
Não era a primeira vez que se sentia observada. No dia anterior, virara-se de repente por duas vezes, perscrutando os cantos escuros e os nichos sombreados, mas nada encontrara a não ser o próprio desassossego. Suspirou. Talvez tivesse sido apenas um presságio, uma antecipação das notícias que seu pai partilharia com ela mais tarde, e não uma ameaça humana e concreta.
— Acho que ela está no mar há menos de uma semana — Jem Basset declarou, chamando a atenção de Rin.
Ele tinha a água na altura das coxas, e o corpo da mulher flutuava perto dele.
— De onde será que ela é? — Robert Dawe perguntou. — De um navio, talvez?
— O tempo tem estado bom faz mais de três semanas. Nenhum navio afundado. Se ela for de um navio, então ele se chocou com as rochas mais ao norte.
Os dois homens se entreolharam. Jem resmungou e se des¬locou o máximo que pôde, mas as ondas carregavam o. corpo para longe de suas mãos. Ele ergueu o olhar e meneou a ca¬beça.
— Vá embora, Rin. Não há necessidade de ver isso.
Ele estava certo. Não havia necessidade de que ela os visse retirar aquela infeliz mulher da água, mas não conseguia se mover. A conversa a respeito de naufrágios e rochas a tinha assustado.
Havia rumores de que a costa ao norte não era segura e que, na escuridão da noite, destruidores de navios acen¬diam luzes falsas, simulando faróis. Eram assassinos vis que atraíam as embarcações para que fossem destruídas de encontro às rochas.
Destruídas, como a estrutura de sua vida.
Mas ao menos eu estou viva, Rin pensou ao observar o corpo da mulher afogada. Ajeitando o xale ao redor dos ombros, suspirou, tentando acalmar os nervos, lutando contra o medo do futuro e as feias memórias do passado. Terríveis lembranças de tempestade e mar, e da Mansão Trevisham.
Jem conseguiu, por fim, agarrar os braços da mulher morta. Ele e Robert seguraram o corpo e a arrastaram, ainda dentro da água.
Meneando a cabeça de novo, Jem fitou-a.
— Geralmente os corpos afundam. Não aconteceu com esse.
— Eles afundam até incharem e, então, flutuam novamen¬te como cortiça, não é? — Sem esperar pela resposta, Robert continuou: — A saia dela. Vê o modo como se enroscou ao redor dos tornozelos? Deve ter se enchido de ar quando ela entrou na água e isso a fez flutuar. Por isso não afundou.
Atraída, mesmo contra a vontade, Rin deu um passo na direção da água, e mais outro, até ver a pobre mulher e imagi¬nar a luta que ela tinha travado pela vida, os membros pesados enquanto se debatia, ofegando, orando... morrendo. Era uma imagem terrível.
Era uma horrível lembrança. Podia sentir o próprio peito apertado, e a respiração que trazia apenas água gelada para o nariz, a garganta e os pulmões. Com o coração acelerado, lu¬tou contra as recordações, determinada a se esquecer de tudo aquilo.
Jem colocou a mulher sobre um carrinho de madeira. Sentindo muita pena, Rin viu-a inchada e seca ao mesmo tempo, o rosto branco em contraste com os cabelos cor de cobre, e seus olhos... Com um grito, deu um passo para trás, cobrindo a boca com a mão, horrorizada. Não havia olhos, apenas órbitas vazias.
Desviando o olhar, engoliu convulsivamente, fixando-se nas conchas sobre a areia da praia. Tinha ido caminhar para desa¬nuviar a alma e pegar algumas conchas. Apenas um punhado para sua mãe. Agora, em vez de conchas e tranqüilidade, car¬regaria aquela imagem. Um novo pesadelo para atormentá-la, pensou. Imaginar o sofrimento de outra mulher não seria boa companhia nas horas escuras da noite.
De repente, ela gelou e ergueu a cabeça, sentindo um arre¬pio na nuca. Esfregou os braços, apreensiva. Sabia que estava sendo observada.
Virou-se para fitar o grande muro formado por rochedos que se erguia ao longo da costa e mediu com interesse o precipício inflexível. O som das ondas se quebrando na praia era pon¬tuado pelo grito de uma gaivota solitária voando acima dela. De repente, sentiu um movimento, a ondulação de um tecido escuro, talvez a capa de um homem.
Girou o corpo com tanta rapidez que quase perdeu o equi¬líbrio. Apoiou a mão sobre a coxa esquerda, tentando forçar os músculos a se endireitarem e a manterem em pé. Conseguiria, caso tivesse sorte. Ou então, a perna fraquejaria, como era fre¬qüente, e acabaria caindo na areia em um movimento nada gracioso. Depois de um momento, conseguiu erguer o corpo e voltou a atenção para o lugar onde tinha vislumbrado a estra¬nha sombra. Porém, não havia ninguém à beira do precipício, nenhuma silhueta contra o céu cinzento. O homem, se é que ela o havia visto, fora embora.
Mas a sinistra inquietação dentro dela permaneceu.
Saindo da praia, Rin avançou lentamente pelo caminho estreito de terra que abraçava o precipício. Os pensamentos giravam ao redor dos seus próprios tumultos e do horror da¬quele trágico afogamento. Chegando ao topo, parou, a atenção atraída pela prima de seu pai, Dolly Gwyn. A delicada mulher parada à beira do precipício tinha os braços erguidos, o cabelo grisalho solto agitado pelo vento e as formas envoltas por ca¬madas de roupa preta. De frente para o redemoinho do mar violento, sob o céu plúmbeo e opressor, ela convocava a tempes¬tade, precariamente equilibrada.
Rin suspirou.
— Prima Dolly — gritou, com as mãos em concha ao redor da boca para se fazer ouvir melhor. — Saia de perto do precipício.
O vento e o barulho do mar engoliram seu grito, ou talvez Dolly a tivesse ignorado. Não teria sido a primeira vez. Quando Rin a alcançou, ela esticou o braço, fazendo um movimento que abrangia a praia e os rochedos.
— Vi uma luz cerca de uma semana atrás — Dolly disse, entrando no assunto sem preâmbulo. Sua voz era forte, embora o corpo começasse a fraquejar com o peso da idade. — Era ao norte. Uma luz diabólica e falsa. — Olhou para Rin, antes de acrescentar: — Uma luz dos destruidores de navios.
— Não diga isso — Rin sussurrou, com uma sensação ruim crescendo dentro dela.
— Eu digo porque vi. Ouviremos a história de um navio afundado e destruído dentro de pouco tempo, minha garota. Preste atenção ao que estou dizendo. O que mais pode ser, além dos destruidores? O quê?
Aquela luz, tão perto de Pentreath... Quando Jem e Robert haviam tirado a mulher do oceano, tinham achado que ela estava na água por alguns dias e comentado que ela deveria ter vindo de algum navio afundado na costa norte. E, se fosse aquilo mesmo... Bastava. Ela não queria mais se preocupar. A tristeza daquele dia já tinha sido demasiada.
— Oro para que esteja errada — murmurou.
— Eu também. Mas vou dizer a você... A mulher que foi tirada da água esta manhã... Ela veio daquele navio. E morreu por causa da ganância dos homens. — Envolveu-se nos pró¬prios braços, o corpo oscilando para a frente e para trás. — E é ele, a vinda dele, que trouxe o mal até nós — prosseguiu, apon¬tando um dedo na direção da Mansão Trevisham.
Com as horríveis notícias que seu pai lhe havia dado e a imagem da pobre mulher afogada ainda frescas em sua mente, Rin preferia não pensar em Trevisham, para não se recordar de mais nada.
— Ele está ligado ao demônio. Posso sentir isso nos meus ossos. — Dolly torceu os lábios, mostrando desgosto e revelan¬do os três dentes que ainda possuía na boca.
— O novo proprietário? — Rin perguntou, odiando um ho¬mem que nem conhecia. — Não sabemos nada sobre ele.
Dando de ombros, Dolly arrastou os pés pelo caminho, ajei¬tando a capa sobre os ombros.
— O que sabemos sobre ele? — Lançou à prima um olhar astuto. — Podemos adivinhar que tem uma fortuna muito grande, pois pagou caro por Trevisham. Mas de que forma ga¬nhou tanto dinheiro... — A voz fraquejou, dando um tom ainda mais sinistro à observação.
— Sei que isso não é da minha conta — Rin disse, com gen¬tileza. Sabia onde aquela conversa iria chegar. Dolly adorava se imiscuir nos segredos dos vizinhos e, se encontrasse alguém interessado, providenciaria detalhes oriundos de sua própria imaginação.
— O dinheiro dele deve ter sido conseguido desonestamen¬te. Contrabando, destruição, talvez assassinato — Dolly conti¬nuou, olhando para o céu.
Destruição. Assassinato. Rin lembrou-se de novo do terrível rosto da mulher retirada do mar e aquela imagem despertou-lhe a mesma sensação que tivera naquela manhã: a de estar sendo observada. Céus... haveria apenas escuridão naquele dia e nos subseqüentes, apenas tristeza, perda e medo?
— Há um vento malévolo soprando — disse a prima, como se respondesse à pergunta muda de Rin. — Acho que sopra de Trevisham e do homem que será o dono.
— O homem que será o dono... — Rin repetiu.
Não se lembrava da mansão habitada. O proprietário ante¬rior havia partido duas décadas atrás, antes de ela ter vindo para Pentreath, e a casa estivera vazia desde então. Sentiu curiosidade e interesse em saber quem era o homem que tinha comprado aquele amontoado de rochas e argamassa. Devia ser alguém misterioso e sombrio. E de grande fortuna, se Dolly tivesse razão. Um pirata, um contrabandista, um destruidor de navios.
Estremecendo, virou-se e se pôs ao lado da prima, que cir¬cundou seu pulso com dedos envelhecidos.
— Você viu o novo proprietário, Dolly? — perguntou, embo¬ra já soubesse a resposta. Se ela o tivesse visto, todo o vilarejo de Pentreath já saberia.
— Não o vi — Dolly respondeu, entrelaçando seu braço ao do Rin. — Ele chegou no meio da noite e não parou para beber ou conversar. Gostaria de saber que tipo de homem não aprecia a companhia dos vizinhos.
— Um homem que prefere sua privacidade. — Rin tirou as luvas pretas de lã do pequeno bolso que costurara no interior de sua capa e as calçou, ainda de braço dado com Dolly.
— Sim, mas por que ele prefere a privacidade? É uma boa pergunta. — Estreitando os olhos, Dolly apoiou a ponta do dedo na pele enrugada do rosto. — E por que escolheu esse lugar? Há casas menos isoladas e em melhores condições na região.
Rin achou que compreendia tal escolha. Apreciava a mag¬nificência inflexível e solitária do lugar, que era seu lar havia mais de uma década. Conhecia o esplendor dos pântanos, o duro apelo do vento salgado e úmido, a beleza das ondas ba¬tendo nos rochedos. E sabia que a Mansão Trevisham chamava aqueles que a ouviam.
— Talvez ele queira isolamento e privacidade. Dolly resmungou.
— Isolamento é bom para certas atividades... realizadas em uma costa rochosa sem nenhuma testemunha.
Rin sentiu um peso no peito, que dificultou sua respiração. Meneando a cabeça, disse com firmeza:
— Talvez ele tenha escolhido Cornwall por sua beleza.
— É, pode ser. Um lugar inóspito, solitário e lindo. Mas não foram esses os motivos que o trouxeram para cá. Anote minhas palavras. Esse homem é a morte disfarçada. Sinto na profun¬deza de minha alma.
— A morte não é estranha em Pentreath e tampouco em Trevisham — Rin observou, pensando na pobre mulher reco¬lhida do mar.
Dolly apertou seu braço com gentileza.
— Agora vou deixá-la. Tenho algumas costuras para fazer. E é melhor que você vá para casa antes da tempestade.
Sim, Rin faria bem em voltar para casa antes da tempesta¬de. Aquela tinha sido uma lição bem aprendida. Os dedos frios do passado tocaram sua pele, fazendo-a estremecer. Deveria ter voltado depressa para casa antes da tempestade, naquele dia distante. As lembranças a atormentavam.
Despediu-se de Dolly, que se afastou na direção de sua pe¬quena casa na extremidade da aldeia. Observando-a, Rin ten¬tou afugentar sua inquietação e a sensação de que um grande infortúnio logo chegaria a Pentreath. Na verdade, uma calami¬dade já a atingira, provocada pelas excentricidades e escolhas erradas de seu pai. Contudo, sentia que haveria algo maior e ainda pior do que o momento infeliz que estava vivendo. O pen¬samento era realmente terrível.
Dolly havia visto uma luz ao norte, onde não devia haver nenhuma. Uma mulher morta fora lançada na praia, resultado de algum acontecimento horrível.
Destruidores de navios.
Apenas uma vez Rin tinha experimentado uma sensação tão forte. Naquele dia, seu mundo balançara e tudo que ela considerava seguro e bom tinha se despedaçado em um ins¬tante. Lembrou-se da tempestade, da voz de sua mãe, que a chamava, do som agudo e da dor. Sim, lembrava-se bem da dor, assim como da mãe morta, que não mais dizia seu nome, que¬brada como uma boneca de louça sobre as rochas impiedosas. Tudo por culpa dela.
— Não — sussurrou, afastando os pensamentos tristes e o sentimento de culpa, pois, se permitisse, seria dominada e destruída por eles. Aprendera a controlá-los ao longo dos anos. Agora, o pesar era antigo, pontuado por recordações agridoces, memórias nebulosas de alegria e calor temperando o horror da perda.
Virando-se, caminhou com passos incertos em direção à tor¬re alta e quadrada que se via a distância. O caminho lhe era familiar. Pelo menos uma vez por semana, ia até o cemitério, que ficava à sombra da igreja.
Parou ao lado do muro alto que circundava o prédio e apoiou uma das mãos enluvadas na superfície fria, sentindo a dor Sempre presente no joelho esquerdo. A umidade do inverno se infiltrava em sua articulação. Mal se lembrava de uma época em que a dor não fosse companhia constante.
Um barulho chamou sua atenção. Franzindo a testa, virou-se e olhou por sobre os ombros. Sentiu um calafrio, apesar de não ver ninguém. Permaneceu ali mais um pouco, olhando para a trilha vazia, com a forte sensação de que não estava sozinha.
Abrindo o velho portão de ferro, ouviu o estridente ranger das dobradiças. As folhas do outono, marrons e avermelhadas, farfalhavam, agitadas pelo vento, conforme ela se dirigia ao ce¬mitério. De repente, o vento morreu e o silêncio dominou tudo. Inquieta, olhou ao redor, pousando os olhos sobre um olmo, cujos galhos sem folhas tocavam as pedras do muro. Sobre um dos galhos, um corvo solitário.
Percorreu os túmulos com o olhar. Havia algo estranho naquela manhã: o silêncio que preparava a chegada da tem¬pestade; o presságio da visão do corvo; as palavras de Dolly; o sussurro fraco do canto mais escuro de sua mente que a assom¬brava desde os primeiros raios da manhã. Havia um vento de mudança sobre Pentreath, carregado de ameaça e de perigo.
Gelada até a medula, fechou mais alguns botões da capa e ajeitou o xale nos ombros, enquanto se dirigia até o túmulo de granito de sua mãe. Ao chegar, tirou do bolso a concha rosada que havia pegado na praia. Com um suspiro, passou os dedos sobre as palavras gravadas na pedra:
Em memória de Margaret Alice Okawa, esposa de Gideon Okawa, desta paróquia, que partiu desta vida a dezoito de julho do ano do Senhor de 1802, com a idade de vinte e nove anos. Esposa e mãe terna e amorosa.
Lendo as palavras em silêncio, fechou os olhos diante da insidiosa onda de tristeza que inundou seu coração. Ainda havia dias em que acordava esperando ouvir a voz da mãe.
— Bom dia, mamãe, querida — sussurrou, colocando a con¬cha sobre a lápide.
Tocou a pintura em miniatura, coberta por um vidro, que o pai mandara engastar na pedra. Apesar de ter sido uma despe¬sa exorbitante, ele fizera questão. Notou que o vento frio havia rachado o vidro. Sentiu o coração apertado e uma lágrima correr por seu rosto, pois sabia que não teriam dinheiro para conser¬tá-lo. Passou os dedos pelas videiras entrelaçadas que tinham sido entalhadas para emoldurar o retrato da mãe. O artista fi¬zera um trabalho maravilhoso, pois a pintura se assemelhava a Margaret Okawa em todos os detalhes.
Rin era incrivelmente parecida com a mãe. Ambas tinham a mesma altura, a compleição esguia, o cabelo castanho, o sor¬riso fácil e os olhos escuros e brilhantes. Havia algumas dife¬renças sutis. O nariz de Rin era menor, os lábios mais carnudos e o queixo um pouco mais quadrado.
— Oh, mamãe. Sinto tanta saudade.
A única resposta foi o gemido do vento, que soprava com redobrado vigor. Com um grito e um forte bater de asas, o corvo voou de onde estava para percorrer, livre, o cemitério.
Oh, ser aquele corvo. Estar livre da situação em que seu pai a colocara. Livre de seu membro defeituoso. Livre para vagar pelo mundo e ver todo tipo de coisas maravilhosas.
Continuou observando a ave no céu até que desaparecesse de vista. E, então, estremeceu, tomada novamente pela sensa¬ção de não estar sozinha. Devagar, baixou a cabeça. Sua respi¬ração ficou presa na garganta e seu sangue pulsou rápido nas veias. Dando um passo para trás, sentiu a solidez do granito e recostou-se nele, tocando-o, ao mesmo tempo fascinada e aflita.
Não estava mesmo sozinha.
Ofegante, Rin olhou para o muro que cercava o cemitério. Parado, do outro lado, havia um homem forte e alto. O muro de pedra, que chegava à cintura de Rin, não ultrapassava a altura das coxas dele. Devia ser o novo proprietário da Mansão Trevisham. Não podia ser outra pessoa. Sua postura altiva e orgulhosa, a elegância do corte de seu casaco, a autoconfiança que emanava dele, tudo exalava riqueza e poder.
O vento agitava o comprido casaco preto. Os cabelos castanho-escuros chegavam à altura do pescoço e a cor da sua pele demonstrava que costumava se expor ao sol. Apesar de extre¬mamente sério, seu rosto era muito bonito.
Ele era uma visão de conto de fadas, Rin pensou, um cava¬leiro endurecido pelas batalhas. Um homem de névoa e sonhos.
Um herói. Engoliu em seco, lembrando-se de que tais fanta¬sias não eram para ela. Sua história não incluía um príncipe. Mesmo para os homens de Pentreath, que a conheciam bem, que riam de seus contos, que valorizavam suas palavras gen¬tis, ela era a filha aleijada do estalajadeiro. Certamente, nunca seria notada por um homem como aquele.
Imóvel, observou-o contornar o muro, abrir o portão e entrar, confiante. Movia-se com elegância, demonstrando masculinidade e força. Cada passo fazia com que seu coração acelerasse. Ela apenas esperou, como se estivesse grudada no chão.
— Boa tarde — ela cumprimentou, sorrindo. Anos de tra¬balho no bar de seu pai a tinham ensinado a saudar amigavel¬mente as pessoas, o que se tornara um hábito.
Parando a cerca de um metro dela, ele inclinou a cabeça com educação, mas não retribuiu o sorriso.
— Não era minha intenção perturbá-la — disse.
O sotaque peculiar indicava que ele não era da região, mas Rin não conseguiu identificar sua origem. A voz baixa e grave atingiu-a profundamente, fazendo-a desejar se aproximar mais e tocar aqueles lábios macios para sentir as palavras sendo pro¬feridas. Franzindo a testa, apoiou a mão sobre o frio granito às suas costas, tentando afastar os estranhos pensamentos.
— O senhor não me perturba. — Apontou para a lápide. — Vim ficar um pouco com minha mãe. — Não tinha idéia do motivo de ter-lhe contado aquilo.
Tentou pensar em algo para interromper o silêncio que ti¬nha se abatido sobre eles.
— O senhor veio visitar alguém em particular? — pergun¬tou, sem saber por que estava nervosa.
— Sim. — Ele a observava intensamente, mas não disse mais nada, nem se dirigiu a um dos túmulos.
Rin olhou para as nuvens distantes, evitando encarar aquele homem glorioso, cuja presença a deixava terrivelmente confusa.
— Temo que logo haverá uma tempestade. O senhor deve voltar para a Mansão Trevisham antes que o caminho fique intransitável. — Mal tinha pronunciado as palavras, deu-se conta de que havia se entregado, revelando que presumira a identidade dele. Ao fitá-lo, deparou-se com uma expressão di-vertida, que quase não combinava com ele. Os traços do rosto lindamente esculpido revelavam um homem que quase nunca sorria.
— Eu poderia procurar abrigo na hospedaria de seu pai — ele disse, em um tom que beirava o sarcasmo.
A sugestão lembrou-a da medonha incerteza de sua situa¬ção. Sim, por aquela noite e talvez nas próximas, a Hospedaria Crown pertencia a seu pai, mas um dia o débito seria cobrado. O que aconteceria, então?
— Conhece meu pai?
— Sim — ele confirmou, bruscamente.
— Ele não me disse.
Era estranho que seu pai não tivesse mencionado que co¬nhecera o novo proprietário da Mansão Trevisham, pois aquilo atrairia muitos fregueses curiosos.
— Foi há muito tempo. — Ele esboçou um sorriso. — Duvido que ele se lembre.
Rin ergueu a cabeça e seus olhares se encontraram no¬vamente. Os olhos dele eram uma atordoante mescla de azul e cinza, mutáveis e deslumbrantes, emoldurados por cílios espessos, sob sobrancelhas castanho-escuras. Lindos, porém sombrios. Olhos que tinham visto muito; Rinlas para uma alma sofredora.
Ela estremeceu, inexplicavelmente inquieta.
— Sinto muito. Acho que o senhor não se apresentou. — Franziu a testa, percebendo que ele sabia quem ela era e quem era seu pai, embora ela não lhe tivesse dito seu nome.
— Não, eu não me apresentei — concordou, muito sério.
— Bem, creio que preciso ir embora. — Após dar um pas¬so, deteve-se, incapaz de conter a curiosidade. — Como o se¬nhor sabe quem eu sou? E que meu pai é o proprietário da Hospedaria Crown?
Ele fez um gesto para um ponto atrás dela. Virando-se, Rin deu-se conta do sobrenome da família gravado na lápide da mãe.
— Oh, é claro. — O que tinha pensado? Que ele era vidente?
Ou que fora ele quem a observara do penhasco aquela manhã? A idéia era ridícula. Ele apenas lera o nome na lápide. Todos sabiam que seu pai era o dono da hospedaria.
— Já esteve na Mansão Trevisham, srta. Okawa?
Rin virou-se para encará-lo de novo, e sentiu um estranho formigamento no corpo ao percebê-lo ainda mais próximo.
— O senhor quer dizer, dentro da casa? — perguntou, as¬sustada com a idéia.
Ele ergueu as sobrancelhas, mas nada respondeu.
— Não, nunca estive em Trevisham. — Realmente, nunca estivera na casa. E nunca mais fora até lá desde aquele dia fatídico, em que as ondas a tinham lançado contra as rochas, e a dor... Meneou a cabeça. — Eu era criança quando minha fa¬mília se mudou para Cornwall. O antigo proprietário já havia desocupado a mansão quando chegamos. E nunca regressou. Trevisham esteve vazia até que o senhor, sr...
— Taisho — ele completou. — Sesshoumaru Taisho.
Rin achou que o nome combinava com ele. Sesshoumaru Taisho. Definitivamente, um nome forte e elegante, perfeito para ele.
— Bem, sr. Taisho, devo confessar que apenas vi a Mansão Trevisham pelo lado de fora.
— Isso irá mudar.
— Como, senhor?
Sentiu-se desorientada. Estaria ele convidando-a a visitar sua casa? A idéia era extraordinária, inapropriada e assusta¬dora. Enquanto os pensamentos se sucediam, desordenados, percebeu como eram tolos. O mais provável seria que a cha¬masse para assumir uma posição na cozinha ou na copa.
Percebeu que ele olhava para o céu e fez o mesmo. Nuvens escuras indicavam que a tempestade estava cada vez mais próxima.
— Devemos ir embora — ele disse, pegando seu cotovelo com uma das mãos.
Rin ofegou. Ele a estava tocando. E era um toque diferente de tudo o que já havia experimentado. Apesar da luva de couro que ele usava e das camadas de roupa que a cobriam, sentiu uma conexão profunda, como se, de algum modo, ela tivesse esperado por aquilo durante toda a sua vida. Um toque para aquecê-la, para incendiar suas veias.
Sentiu a respiração entrecortada diante da intensidade com que ele a fitava. Percebeu que seus olhos escureciam de repente e, por um breve instante, detectou um brilho quase ameaçador, selvagem e estranhamente sedutor. Quando ele piscou, o lampejo desvaneceu, deixando-a, contudo, com uma sensação desconhecida, um desejo de que ele a olhasse daquela forma de novo.
— Devemos ir embora — ele repetiu, afastando a mão e inter¬rompendo o contato. — Eu a acompanharei até a hospedaria.
— Não é necessário. Já percorri esse caminho muitas ve¬zes. Não tem perigo. — O protesto não passou de um sussurro. Estava atormentada com a idéia de aquele homem se desviar de seu caminho por causa dela, a filha manca do estalajadeiro.
Fazendo um gesto para que ela o precedesse, Taisho meneou a cabeça.
— Eu insisto. Nunca se sabe o que pode acontecer a uma garota inocente em um lugar como este.
Rin deu um passo para trás, e seu salto esquerdo entrou na terra com um ruído leve.
— Eu piso com firmeza — ela insistiu, sentindo-se total¬mente desajeitada, pois a afirmação contradizia sua evidente falta de estabilidade.
— Não me refiro a isso. Há perigos maiores por aqui do que um caminho irregular ou uma pedra solta.
As palavras dele a lembraram da mulher afogada. Estremecendo, cruzou os braços sobre o peito.
— Por favor — disse ele, fazendo, mais uma vez, um gesto para que ela o precedesse em direção à saída.
Decidindo que não valia a pena discutir, Rin obedeceu. Apesar de não compreender o motivo daquilo, não podia culpar um homem por agir com cavalheirismo. Ao passar por ele, sen¬tiu uma suave fragrância cítrica e algo mais... Um aroma que não conseguiu identificar. Confusa diante do desejo súbito de apoiar-se no peito dele e aspirar seu perfume, abaixou a cabeça e continuou a caminhar.
Percorreram o trajeto lado a lado. Rin lançou-lhe olhares furtivos, ainda curiosa sobre a insistência para acompanhá-la; o coração mais acelerado que o normal, vendo-o adaptar o rit¬mo da caminhada aos seus passos desiguais. Queria encontrar algo sobre o que pudessem conversar, mas não conseguiu.
Mina...
Minha vida voltou a ser corrida e por isso nao vou poder colocar capitulos todos os dias sinto muito..
Porem vou tentar colocar assim mesmo esta bem..
No dia que eu nao colocar ja peço perdao..
Espero que curtem mais um a historia de Sesshy e Rin..
Esse casal que nós adoramos..
Kissus
