Capítulo 02 – Medo
Harry acordou e não abriu os olhos de imediato. Sentia-se extremamente confortável e plenamente descansado como não se sentia desde... não se lembrava. Sentia-se bem, quente e disposto. Suspirou, virando-se de costas na cama, e abriu os olhos, piscando um pouco por conta da luz intensa.
Era muita luz. Por um momento, tudo o que Harry via a sua volta era branco. Não um branco denso, infinito, mas sim a sensação de olhar para o sol ou para uma luz forte, e saber que logo além tem algo mais que a luz não deixa ver. E do meio do branco, um ponto azul surgiu. Pequeno e esvoaçante, aproximando-se de forma leve, até Harry discernir uma pequena borboleta branca e azul. Ela veio e pousou em seus lábios, um toque quase inexistente, e Harry inspirou o ar com força, de forma involuntária, e a luz pareceu diminuir com isso, até se reduzir à luz do sol que entrava tímida pela janela da torre de Gryffindor.
Quando tomou consciência de onde estava, Harry sentiu o desconforto de estar deitado atravessado na cama, e novamente nu. Cama, aliás, que, pela posição no quarto, não era sua. Sentou-se passando as mãos pelo cabelo distraidamente, e usou a outra para se apoiar na cama. Esta, porém, tocou algo quente, o que o fez se sobressaltar.
Deitado ao seu lado, totalmente nu e inconsciente, estava Seamus Finningan.
Harry se levantou de um impulso, andando para longe da cama até suas costas baterem contra as pilastras da cama ao lado. Seus olhos não conseguiam deixar o cenário a sua frente. Os lençóis bagunçados, em torno e em cima da cama, suas peças de roupa e as de Seamus se acumulavam de forma jogada. Jogado também parecia o próprio corpo do garoto, as pernas abertas em um ângulo estranho, os braços caídos, a cabeça solta quase para fora da cama, o peito e pescoço com pequenas manchas roxas de forma arredondada, como uma boca. E o mais perturbador: a pequena mancha de sangue e sêmen aparente sob seu quadril.
Harry deixou o corpo escorregar até o chão, sentindo o contato áspero do carpete contra o corpo nu, as mãos tremendo levemente e os olhos incapazes de deixar a imagem do outro garoto. Ele não podia ter feito isso, seja lá o que fosse que ele havia feito.
Sua própria respiração acelerada o fez notar com desespero que Seamus não respirava. E isso, mais do que tudo, o fez engatinhar de volta para a cama, debruçando-se sobre o garoto e percebendo, com alívio infinito, que ele respirava sim, mas muito fracamente. Seu pulso também estava fraco e agora Harry sentia algo amargo subir à sua boca, seu coração batendo tão rápido que chegava a doer.
- Seamus. – chamou baixo, engoliu em seco e tentou outra vez, um pouco mais alto e rouco – Seamus! Seamus, por favor, acorda! – ele chacoalhou o amigo com certa brusquidão, e o único resultado que conseguiu foi que sua cabeça se movesse levemente.
Sem pensar novamente, Harry vestiu sua calça com pressa, sacando a varinha do bolso e lançando um feitiço de leveza no amigo, envolveu o corpo de Seamus em um lençol e o tomou nos braços, correndo com ele para a ala hospitalar.
oOo
Harry viu a mão que segurava a pequena taça com a poção estremecer e a entornou de uma vez, fazendo uma careta com o gosto amargo do calmante, depositando a taça de volta na mesa de cabeceira da cama em que Madame Pomfrey mandara-o se deitar. Na cama ao lado, ela cuidava de Seamus. Harry os olhava com apreensão e preocupação. E culpa. Uma culpa muito mais amarga que a poção que acabara de tomar.
Seu olhar foi desviado quando a porta bateu e a professora McGonnagal entrou cautelosamente na enfermaria, se aproximando da cama onde Pomfrey trabalhava.
- Como ele está, Papoula?
- Ele foi estuprado. Nada muito grave fisicamente, é provável que os danos psicológicos neste caso sejam bem maiores. Aparentemente foi um ato sexual violento, mas sem resistência, não há sinal de espancamento ou qualquer tipo de ferimento além dos pequenos hematomas que parecem mordidas. Ele não vai ter conseqüências físicas, somente precisa de repouso e algum cicatrizante. O que me preocupa é que seus reflexos estão prejudicados, a pressão sanguínea está baixa e ele precisa de oxigenação constante. O sistema imunológico também está em baixa.
- Ele está em coma?
- Sim, e não há, aparentemente, motivo algum para esse quadro além de uma grande exaustão. Mas mesmo assim, o desgaste físico dele não corresponde ao quadro que ele apresenta. Não há nenhum feitiço ou maldição reconhecíveis. Seu sangue também está limpo de substâncias mágicas. Seja o que for que o atingiu, não está mais agindo, agora é só esperar que ele consiga se recuperar.
- Você fez os testes no sêmen colhido.
- Sim. Deu positivo.
Os olhos da diretora se voltaram para a cama ao lado, e Harry fechou os olhos com força, se encolhendo, só os abrindo novamente quando sentiu que ela estava parada ao seu lado.
- Senhor Potter? – a professora chamou baixinho, porém sua voz guardava a rigidez de sempre – O senhor quer me contar o que aconteceu?
- Eu não sei, professora. – ele respondeu, a voz falhando, a boca seca.
Ela o encarou firmemente por alguns segundos.
- Senhor Potter, eu estive no dormitório de vocês e presenciei um cenário nada agradável, mas que deixa poucas dúvidas de que o senhor e o senhor Finnigan dormiram na mesma cama esta noite, sem o testemunho de mais ninguém. Você acabou de ouvir que a enfermeira tem evidências que comprovam vocês tiveram relações sexuais, e, aparentemente, foi isso que causou o atual quadro do seu colega de quarto. Agora, devo lhe informar que havia uma pequena dose de Veritasserum na poção que você acabou de ingerir. Por isso, vou perguntar novamente, o que aconteceu na noite passada?
- Eu não me lembro, professora. – Harry respondeu, sua voz quase não saindo, ele encarava fixamente a professora, como se estivesse desesperado para provar que estava dizendo a verdade.
Ela suspirou longamente e voltou a olhá-lo.
- Potter, por favor. – sua voz tinha um tom de súplica – Menino, eu tive o privilégio de te acompanhar desde o momento que você colocou os pés neste castelo, sei que você tem alguma dificuldade para lidar com normas, mas eu o vi fazer coisas maravilhosas por isso, e, como tantos, sou grata a você. Vi também você se sacrificando e se arriscando mais de uma vez pelas pessoas que considera amigos, e realmente desejo que você não mereça ir para Azkaban agora, jogando tudo isso fora. Mas por enquanto é isso que tudo me diz que vai acontecer, a menos que você me prove o contrário.
Harry engoliu em seco, fechando os olhos, buscando em sua mente qualquer imagem do que poderia ter feito a Seamus. Devagar, ainda com os olhos fechados, começou a relatar sua chegada ao dormitório e o pequeno diálogo que tiveram enquanto se preparava para tomar banho. Depois que ele lhe informara, porém, que estariam sozinhos a noite toda, Harry não se lembrava de mais nada. Nem sons, nem imagens. Até acordar, e a luz, e a borboleta, e Seamus quase morto ao seu lado. Sentiu um toque morno em sua testa e abriu os olhos para ver McGonnagal o examinando atentamente.
- Descanse, Harry. Eu não vou prendê-lo ou castigá-lo. Acredito que você não se lembre, e tudo pode ter sido armado para incriminá-lo. Não quero que deixe o castelo, porém. E, se por acaso acontecer novamente, venha falar comigo antes de mais nada. Agora se acalme, e descanse.
Harry concordou com a cabeça e a viu sair, porém, não conseguiu dormir.
oOo
Harry não dormiu pela próxima semana inteira. Não sentiu sono, não sentiu necessidade de descanso. Não sabia se pela tensão em que se encontrava depois do ocorrido ou por qualquer outro fator, mas ficou feliz com isso, por dois motivos fundamentais.
O primeiro era que sabia que havia respondido o que McGonnagal perguntara, mas não contara tudo. Não contara que não era a primeira vez que tinha atividades sexuais de que não se lembrava. Não contara que sua capacidade de não lembrar se estendia além dessa área e dessa noite. E tudo aquilo rodava em sua mente de forma insistente, e ele agora tinha certeza de que eram peças de um grande quebra cabeça que ele teria que desvendar. Sozinho. Porque quem quer que fosse que estava provocando aquilo nele havia conseguido afastar todos que poderiam ajudá-lo.
Estava sozinho.
E sozinho começou a utilizar melhor as noites mal dormidas, levando ao segundo fator que tornava sua insônia proveitosa: precisava ir à biblioteca. Sob a capa da invisibilidade, escondido na penumbra confortável, quebrada somente pela luz fraca de uma lanterna que o permitia ler, noite após noite Harry rondou as estantes da biblioteca de Hogwarts, como fizera tantas vezes antes, se concentrando particularmente na seção restrita.
Borboletas, coma, sono, estupro, amnésia. Essas eram as palavras-chaves para ele naquele momento. Algum feitiço, alguma poção, certamente ilegal, o estavam levando àquela realidade que o perturbava e o fazia se sentir mal.
Ele não podia ser aquele monstro.
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NA: Gente, em primeiro lugar, desculpa pelo atraso na postagem. Eu deixei para ontem à noite, aí saí e esqueci .-.
Quanto às reviews, deixei acumular por conta da facul, vou responder agorinha mesmo, assim que postar este capítulo.
Espero que gostem. XD
Beijos
