Saint Seiya é de autoria de Masami Kurumada.
Presente de amigo secreto do Panbox para Medéia! Ela gostou e eu espero que vocês também.
Boa leitura!
2.
Uma viagem na Transiberiana é uma das experiências mais interessantes que uma pessoa pode ter; é incrível pensar que o governantes da época puderam ser tão cruéis ao ponto de sacrificar 10 da população Russa para a construção daquela estrada de ferro. Não era tão diferente do que Athena fez com a tropa de elite do santuário: os cavaleiros de ouro. Um a um caíram por terra por ela.
Mas, isso não importa mais, mesmo que o meu rancor tente me derrubar eu vou conseguir seguir em frente.
Vamos repensar na realidade concreta: Estou em um vagão indo para o inferno gelado com um homem que eu nunca troquei mais do que duas palavras e tem a fama de ser uma pessoa cabisbaixa e econômica em suas palavras e em demonstrar emoções.
Por algum motivo que não compreendo ele me desperta muita tranqüilidade e irritação...
O enorme trem vermelho e marrom corria pelos trilhos que se misturavam com a neve que corria pelo lado de fora do vagão. Estava muito frio apesar do lugar ser confortável e contar com sistema de aquecimento interno. Shina olhava pelo lado de fora da janela enquanto seu acompanhante de cabine apenas detinha-se com um bom livro diante dos olhos.
- E porque hein? - ela perguntou tentando obter respostas.
- Sim? - ele retrucou calmo sem tirar os olhos das páginas amareladas de seu velho livro de cabeceira.
- Porque sugeriu que eu viesse com você.
- Pela companhia.
- Hum... então porque está tão quieto quanto um cadáver se queria alguém para conversar?
- Companhia não é, necessariamente, alguém com quem você quer falar.
- Não? Desculpe, minha concepção esteve errada nos últimos dezessete anos - seu sarcasmo estava insuportável hoje.
- Para mim, pelo contrário, companhia agradável é alguém com a qual não me sinto na obrigação de estar falando todo o tempo.
- Acho que errou na escolha.
- Hum... não. Até o final da viagem tenho a impressão de que nossas opiniões a respeito um do outro estarão completamente mudadas - ele lançou um olhar curioso por cima do seu livro e uma fusão de cores dentro da íris dos olhos azuis misturou-se com os verdes dos dela. Mas, esse momento não durou e ele voltou novamente para dentro da história.
Ela não insistiu e apenas deixou-se adormecer sobre o estofado macio, escorregando devagar para acabar por fim se esticando completamente no banco. Teve um sonho estranho com Seiya e Saori em que ela era empurrada de um abismo e que ninguém podia fazer nada para ajudá-la e então sentiu que o momento que seu corpo caia e batia contra as pedras em queda-livre era mais real do que pensava. Tinha sido lançada para fora do banco e caído no chão graças... graças a que?
- O que está acontecendo aqui? - ela perguntou tentando se desvencilhar de uma manta grossa que a cobria - E que porcaria é essa?
Estava escuro então ela só conseguiu ver um vulto na porta que acabara de chegar.
- Shina, você está bem?
- Sim. Estou e não preciso de ajuda - ela se ergueu afastando a mão de Hyoga para longe - O que houve?
- O trem brecou por causa da neve. Vamos ficar parados por mais algumas horas, fui perguntar ao maquinista. E como a atendente do carrinho de doces vai evitar transitar pelos corredores esse horário da noite... - estendeu para ela uma lata de Coca-Cola que aceitou prontamente e depois que abriu-a esvaziou até a metade.
- De nada! Cobri você, pois estava toda encolhida - retrucou - E então? Já acabei meu livro. Acho que vou ter que conversar contigo.
- Oh, estou lisonjeada por ser a primeira opção - sorriu sarcástica.
- E então? Do que estava fugindo na Grécia?
- Fugir? Eu? Ah! Faz-me rir!
- É do Seiya e da Saori não é?
- Calado!
- Ora, Shina, não esqueça que eu também presenciei aquela sua comovente demonstração de amor no templo de Poseidon há alguns meses.
- Isso não é da sua conta.
- Não é! - retrucou rápido demais - O que não diminui a minha curiosidade.
- Não se meta nisso.
- Porque gosta tanto dele?
- Porque... como é teimoso! Sua mãe não te deu educação?
- Minha mãe morreu antes que eu pudesse solidificar isso em minha mente!
- Novidade: eu não conheci a minha.
- Lamento!
- Lamenta nada!
- Certo, não fuja! Foi porque ele viu seu rosto? O que faz uma mulher amar tanto um homem ao ponto de se colocar entre ele e um deus sedento de ódio?
- ME DEIXE EM PAZ! - ela se levantou amassando a lata de Coca em sua mão e deixou o vagão solitária.
Hyoga e Shina não se viram mais até o trem chegar a plataforma e foi quando ele foi ajudá-la a descarregar as malas que ele disse:
- Perdão. Por ter coagido você.
Ela não respondeu orgulhosa e ainda bastante emburrada, mas apenas tentava coordenar sua porção de preocupação com a bagagem e com os dizeres do homem que seria sua companhia pelas próximas duas semanas.
- Hyoga! É você mesmo? - um menino novo e baixinho correu ao ver a figura do rapaz adentrando a pequena aldeia de cabeça baixa e lento graças ao frio cortante.
- Jacó! - ele afagou sobre o capuz do garoto que agarrou sua cintura e estava abraçando-o saudoso e satisfeito - Quanto tempo meu pequeno amigo.
- Pequeno não! Cresci cinco centímetros desde a última vez que nos vimos.
- Nossa, então acho que você é praticamente um homem.
- Sim!
- Jacó, quero que conheça uma pessoa, essa é Shina de Cobra.
- Oi - ele sorriu estendendo a pequena mão encapotada de luvas para ela.
- Olá! - ela retribuiu o gesto com um sorriso - Uau, que aperto de mão forte! Tem jeito de cavaleiro.
- Eu também acho! - ele disse - Sempre quis ser um cavaleiro desde que conheci o Hyoga, mas ele diz que esse negócio não é para mim!
- E não é mesmo. Os campos de batalha nunca deveriam ter crianças.
- Mas...
- Como está seu avô? - ele mudou de assunto drasticamente - Trabalhando na mercearia ainda?
- Sim. Deve estar entre as latas de sardinha agora arrumando o estoque. Ai! Inclusive eu já deveria ter voltado para cuidar do caixa. Tchau, Hyoga! Vou contar para a aldeia inteira que você voltou acompanhado dessa moça aí.
- NÃO! Jacó, espere um pouco... JACÓ!
- O que há de errado?
- Nada. Só que... esqueça. Não quero preocupá-la!
- Fala logo!
- Vamos. Minha casa fica um pouco distante daqui.
- Hyoga! - ela chamou e ele parou por um momento saboreando a forma com que ela lhe chamou a atenção - Estou congelando aqui. Meus pés estão dormentes.
- O que quer que eu faça? Leve-a no colo?
- Não é isso que eu quis dizer! - ela corou um pouco pelo mau entendido - Espero que aquela choupana tenha um aquecedor ou lareira! Caso contrário retornarei para a Grécia.
- Mais alguma coisa, senhora?
- Por hora está bom para mim. - tomou a liderança da caminhada e seguiu diante do cavaleiro.
Shina não se surpreendeu com a casa de madeira feita de paredes grossas e que já estava quase encoberta pelo gelo. Ao entrarem Hyoga acendeu a lareira e desculpo-se pela bagunça enquanto ela mirava discretamente os armários e a mobilia simplória, provavelmente ainda dos tempos de Camus de Aquário.
- Camus não devia gostar muito de decoração.
- Não. Ele dizia que uma casa deve ser prática e não necessariamente bonita.
Um tapete, sofá, lareira, cadeiras, janelas bem vedadas, almofadas vermelhas e grandes castiçais compunham o ambiente.
- Seu quarto é lá em cima no fim do corredor. Bate menos vento lá nessa época do ano, mas está mais suscetível ao barulho da aldeia.
- Não se preocupe com isso - ela levantou suas malas e foi até seus aposentos - Quer ajuda com alguma coisa? - perguntou na escada.
- Talvez mais tarde, mas por hora pode ir descansar.
Shina andou pelo corredor estreito tendo que andar de lado para poder passar com suas malas até chegar ao ambiente do fundo e admirou-se com a beleza do aposento. Era bem claro apesar de tudo e com uma imensa cama de casal e lençóis bonitos. Um elegante guarda-roupa de madeira assim como um espelho comprido e de corpo inteiro; era sem dúvida um belo recinto.
- Meu mestre tinha algum bom gosto não é? - Hyoga apareceu atrás dela quase sussurrando em sua orelha.
- É. Tinha sim!
Ele adiantou-se e fez questão de abrir ainda mais as cortinas que estavam nas laterais das janelas.
- Porque não fica você com o quarto dele?
- Hum... tenho o meu. E esse é mais confortável! Acho que vai gostar daqui...
- Obrigada! - ela balbuciou constrangida - Por tudo!
- Não foi nada. Bom, vou deixar você descansar e acho que os lençóis que estão na parte superior do guarda-roupa estão em bom uso ainda. Vou sair comprar alguma coisa e qualquer problema é só chamar tá?
- Tá.
E ele saiu deixando Shina completamente pensativa.
- Porque tenho a impressão que você tem razão sobre minhas opiniões, Hyoga?
Os dias transcorreram tranquilamente após aquele pequeno desentendimento no trem nenhum dos dois tocou mais em assuntos amorosos e ambos se davam consideravelmente bem para cuidar da casa e sentiam-se cada vez mais á vontade com a companhia um do outro.
Abriam-se e falavam de suas vidas, antes e depois do santuário, de amigos e costumes, de planos possíveis, impossíveis, improváveis e iam bem até o momento em que Shina foi comprar comida na aldeia e teve que ouvir o comentários dos outros aldeões. Chegou na cabana irritada e Hyoga percebeu que algo não ia bem no universo da cobra para ela bater a porta tão violentamente, fazendo com que um punhado de neve caísse do lado de fora. Mas, não disse nada. Não queria ter que perguntar: "O que aconteceu?", pois sabia que viria chumbo grosso a caminho então depois de vê-la bufar e ir furiosa até ouviu-a gritar:
- Você não vai perguntar o que aconteceu?
- O que aconteceu? - perguntou dobrando o jornal.
- Estão... estão... estão dizendo por aí que eu sou... que nós somos... que eu e você...
- Sim? - estava se divertindo com a expressão no rosto dela.
- Que nós somos casados!
- Ufa! Que bom, poderiam estar dizendo que você é minha amante - e fingiu ignorá-la enquanto ria por dentro.
- Você não vai fazer nada?
- O que quer que eu faça?
- Isso é uma calúnia.
- E daí? Você acha que o povo se importa com isso? Shina, não sabia que tinha esse lado ingênuo.
- Você está me gozando?
- Não! - retribuiu tentando parecer sério - Mas, as vezes, é muito engraçado ver você se desesperar.
- Eu imagino - disse mordaz - Agora seja sensato e pense que isso não é nem um pouco bom pra nós.
- Não me importo que a aldeia pense que estou de caso com uma mulher tão bonita quanto você - ele desviou o olhar ao dizer isso - Quando vi Jacó correndo dizendo que iria contar a todos sobre nossa chegada eu até me preocupei, mas agora...
- Espera um pouco! Quer dizer que era isso que estava... eu não acredito que deixou aquele fedelho! Ai, que raiva!
- Calma, Shina! Pense, nós não temos nada certo? - ele a segurou pelos ombros fazendo com que ela o visse.
- Sim.
- Nunca teremos?
- Não! - definiu claramente olhando aquele par de jóias azuis apesar da proximidade de seu corpo quente naquele frio arrebatador.
- Então, para mim, não há mais motivo para se preocupar.
- Certo.
- Então, está bem.
Hyoga deixou a casa um pouco cabisbaixo e foi até seu esconderijo secreto em que não gostava de ser acompanhado por ninguém.
- Ele foi ver a mãe - disse Jacó após ser interrogado por Shina depois de mais de seis horas sem Hyoga que tinha saído um pouco antes de uma nevasca começar - Não se preocupe, Hyoga é o meu herói. Ele vai voltar logo.
- Mas, pode me dizer onde ele está?
Ela foi só, caminhando com neve até os tornozelos, em meio a uma tempestade de neve para encontrá-lo e o viu quase soterrado próximo a um lago congelado. Estava inerte, mas lúcido, apenas vendo a neve cobri-lo.
Chamou e tentou gritar, mas ele não estava escutando graças ao vento cortante que levava sua voz embora e machucava suas maçãs do rosto. Com a visão meio turva e quando já estava suficientemente próxima ela apenas tocou o capuz de seu casaco e antes que conseguisse fazer qualquer coisa tombou sobre a neve fofa ouvindo a voz dele ao longe e sua visão sumir aos pouquinhos. Sabia que não devia ter deixado a febre chegar aquele ponto...
- Seiya?
- Não! Não sou o Seiya! - disse uma voz rouca e bonita, mas quem não era quem ela realmente queria encontrar e quando finalmente abriu os olhos estava deitada em uma cama tocando o rosto de Hyoga com as mãos espalmadas e esse não fazia nada para impedi-la.
Ficaram mudos por um tempo.
- Sabe, eu nunca tinha ouvido o coração de alguém se quebrar assim! - ele afirmou vendo uma lágrima de dor se formar nos olhos dela.
- Então, por favor, cole-o! - ela pediu fechando os olhos e abrindo-os a tempo de vê-lo se debruçar sobre si e beijá-la com ardor.
O bafo quente dele acalentava seu corpo gelado e a trazia conforto e certo desejo, não o impediu de prosseguir mesmo não entendendo muito bem porque ele fazia aquilo. Seria por ele? Seria por ela?
- Posso dormir aqui com você? - ele perguntou enquanto via que com um aceno de cabeça ela assentia.
E eles se amaram com o corpo. Por toda a noite.
- Hahaha... você viu aquilo? Quem poderia esperar que aquele velho pudesse beber tanto? - perguntava Shina enquanto andava contra o vento e com os braços enlaçados ao dele.
- Não viu nada ainda! Ele está quase caindo de bêbado desde que sou pequeno e já enterrou duas esposas que cuidaram da bebedeira dele a vida toda. Estou dizendo, eu vou acabar morrendo antes daquele cara... hahaha.
- E aquela senhora loira, sabe? Aquela que tem três filhos pequenos e que tem um penteado estranho.
- Sei! Nossa, era a mais namoradeira da aldeia, simplesmente muito bonita. Mas, agora deve ter o dobro da nossa idade. Foi bom parar para beber uma cerveja não é?
- Sim, com certeza. Hahaha... ri muito lá! Principalmente Jacó fazendo caretas das pessoas por suas costas, é um rapaz encapetado.
- Não vamos para casa não. Não te mostrei o por do sol na neve ainda.
- Será um desperdício vir para a Sibéria e não ver algo do tipo. Você é meio romântico, sei lá.
- Eu? Não me acha frio?
- Nem tanto - foram andando lado a lado até chegarem a ponta de um declive de gelo - Eu imaginava que você fosse mais.
- Posso dizer o mesmo? Achei que você fosse...
- Como um soldado!
- Tirou as palavras da minha boca - ele deu um meio sorriso parecendo um pouco constrangido por estar assumindo aquilo - Gosta da vista?
- Lindo - ela titubeou sem querer vislumbrando seus cabelos esvoaçarem com o vento congelante.
O cosmo dele é tão frio, mas seus olhos me fazem queimar. Porque isso? Porque ele?
- Também acho! Uma bela visão - ele puxou-a para se sentar e seus olhos encontraram com os dela.
Acabou não se contendo e a puxando para um beijo delicioso e quente apesar de sentir o corpo dela tremer contra o seu peito frio.
- Lamento não conseguir esquentá-la como merece.
- Você está sendo bem mais do que eu mereço - ela abaixou os olhos - Hyoga, você planejou isso tudo desde o início não foi?
- Está tão óbvio?
- Porque?
- Porque estava encantado com sua beleza e... Desde que a vi se atirar diante do Seiya eu pensei que também queria uma mulher que gostasse de mim como você gosta dele. Então, resolvi que vou roubá-la dele.
Ela se soltou.
- Não gosto de ser tratada como uma coisa.
- Não está ofendida está?
- Estou.
- É tonta então, pois ele não te tratou de outro modo. Ele não ama você.
- E quem perguntou? E outra, quem disse que eu te amo?
Calou-se vendo que ele abria a boca para retrucar, mas não conseguia.
- Seu corpo.
- Isso não é amor. E você não sabe do que estou falando - deu meia volta e retornou a cabana.
Continua...
