MEU INIMIGO

Capítulo 01 – Descobertas

Os olhos azuis se mantêm presos ao ruivo que dança sensualmente e...

"O-o que eu estou sentindo?!" – Omi se surpreende ao se notar excitado, sem entender como algo assim pode acontecer, confuso comos próprios sentimentos. – "Será que eu sou..."

No palco, o ruivo se aproxima mais uma vez do poste de metal, rebolando devagar, uma das mãos segurando nele, enquanto a outra desce mais uma vez pelo abdômen nu e chega ao cós da calça, brincando de forma ousada com o ato de entrar e sair dela. Seus olhos se fecham completamente e um sorriso maroto surge nos lábios rubros quando os dedos chegam ao botão, abrindo-o com habilidade... Levanta o puxador do zíper e mais uma vez se diverte, descendo e subindo o mesmo, revelando que não usa nada por baixo, fazendo todos os orbes se fixarem naquele ponto.

Apenas Mamoru mantém seus orbes sobre o rosto sensual, observando cada matiz, cada mudança de expressão, por mais sutil que seja, percebendo como aquela sedução faz o homem se sentir ainda mais poderoso. O perigo está nos detalhes... Nos dedos que deixam a calça aberta e sobem para os lábios, mordendo a ponta dele suavemente, penetrando a boca vagarosamente, para depois sair ainda mais langoroso... Espalha a umidade, descendo pelo pescoço e peito, enquanto a cabeça se inclina de leve para trás.

Hirofumi se levanta, ficando de pé ao lado do pai, atrapalhando a visão de seu irmão, que também se ergue, parando mais próximo do palco, logo a frente do alemão ruivo, sem nem notar. Esse volta por alguns instantes os olhos para ele, mas percebe que o stripper coloca uma das pernas no alto do varão e retorna depressa para a fantástica visão.

O homem sedutor envolve o poste com ambas as pernas, dando um giro completo, descendo até que se senta no chão, mantendo uma das pernas à frente esticada e a outra dobrada ao lado do quadril. Ergue a perna, abrindo-se totalmente aos olhos dos espectadores, que poderiam jurar que viram tudo, com a calça perigosamente aberta, mas sem se revelar de verdade. Logo ele está deitado de barriga para baixo no palco, levantando a cabeça e o tórax, seus movimentos vagarosos de vai e vem mais uma vez insinuando um ato sexual, os dentes mordendo os lábios, a expressão fazendo parecer que o exato momento do orgasmo havia chegado.

- Ai... O que é isso... – Hirofumi deixa escapar sem controle, mas não sendo ouvido por ninguém, pois todos os sentidos estão voltados para o palco.

Garotos foram feitos para dar febre aos garotos, seja Farenheit ou Centígrado

Eles te dão febre – quando você os beija, febre se você viver e aprender

Febre – até você chiar, que jeito adorável de queimar.

Ele volta a sentar, as pernas completamente abertas de frente para os convidados, notando então o rostinho grudado ao palco, bem diante dele. As pupilas cor de safira... A inocência transpassada pela fascinação... Algo naquele menino o desperta do transe em que se colocara para a apresentação. Seus lábios se abrem num sorriso sincero, não mais carregado de malícia, mas seduzido por aquela visão de um anjo.

Que jeito adorável de queimar

Que jeito adorável de queimar

Que jeito adorável de queimar

Mas a música vai terminando, a luz dos holofotes diminuindo e com isso, sua visão dos convidados a sua frente fica mais nítida e... Entre eles vislumbra a figura do poderoso Takatori, ainda com o pequeno Nagi sentado em seu colo. Algo dentro dele se acende, levantando de um salto, quebrando de imediato o laço de sedução que prendera todos a ele nesses minutos e sem perder um segundo, caminha resoluto para os bastidores.

- E aí? – Ranmaru pergunta, satisfeito com o efeito provocado por sua atração principal. – Gostaram?

- Bem... – O velho não sabe o que dizer sem parecer fascinado demais ou de menos. – Interessante...

Schuldich levanta e senta no palco, bem de frente para Crawford, que somente agora recolhe seus óculos do chão.

- Eu não me importaria de ter esse sujeito na minha cama! – O alemão fala baixo, sendo ouvido apenas por seus associados. – Ia devorar ele inteirinho!

- Cuidado! – Brad diz também entre eles, mesmo que duvide que Farfarello tenha reparado na apresentação, pois continua brincando com sua faca. – Não deixa o velho te ouvir falando isso.

- Ah vai! – O irônico ruivo dá um chutinho leve no joelho do americano. – Não venha me dizer que você não ficou tarado. Eu vi até as amídalas quando ele abriu aquela perna!

- Isso é fácil de resolver... – Farfie fala sem olhar para eles, fazendo mais um corte em seu braço. – Paguem e experimentem!

Ambos o observam surpresos, pois nunca sabem em que exatamente o irlandês presta atenção ou não.

- Hoje não... – Schul diz sorrindo malicioso. – Mas acho que vou voltar aqui num dia de folga.

Finalmente Takatori nota que conseguiu a confiança do homem obeso a sua frente, soltando Nagi, que passa irritado pelos companheiros e chuta Brad, sentando-se distante deles. O mafioso coloca então o contrato sobre a mesa.

- Muito bem, meu amigo. – Faz uma pausa dramática, todo satisfeito com sua habilidade para os negócios. – Posso contar com você na minha organização?

- Onde assino? – Antes de pegar na caneta o empresário puxa o jovem ainda sobre seu colo e o beija de forma gulosa, provocando uma última vez o homem que negocia com ele.

Hirofumi cutuca o pai, ainda de pé, ficando meio de lado.

- Pai... – Diz baixo, quase inaudível.

- Que foi? – Ele se volta irritado. – Não me atrapalhe nesse momento.

- Eu... – Teme irritá-lo, mas não pode evitar. – Vou ao banheiro.

O pai nem lhe dá atenção, da mesma forma que não vê que o filho caçula sumiu logo após o fim da apresentação...

ooOoo

- Solta o meu braço, Kudou! – Aya está nervoso, a mão sobre a bainha de uma katana que está oculta por trás das cortinas. – Eu tenho que fazer isso!

- E estragar tudo por causa de vingança? – O loiro bonito, mais alto que ele, e vestido com um terno preto, está sério, quase irritado. – Assim você arrisca nossa pele... Tanto quanto a sua!

Mamoru entra tímido nos bastidores e pára diante dessa cena inusitada. Teme estar atrapalhando, cogitando a possibilidade de recuar, mas suas pernas não obedecem. Os dois notam sua presença, entreolhando-se preocupados e voltam mais uma vez seus olhares para o adolescente de short e camiseta.

- Desculpe se interrompi... – A voz do loirinho sai baixa, quase inaudível.

- Não... – O loiro muda de expressão quase que instantaneamente, agarrando a espada e a empurrando para o local onde estava escondida. – Ele ia usar isso no número, mas... Eu acho perigoso demais.

O ruivo continua nervoso, afastando-se dos dois, sentando diante do espelho para limpar o rosto e o corpo, levemente suados do esforço físico e das luzes fortes. Evita olhar para o garoto, apenas o desejo de ver seu inimigo morto martelando em sua cabeça, esquecendo-se de qualquer sentimento, voltando a se fechar em sua segura frieza.

- Vim... Aqui... Você... – Mamoru puxa uma cadeira e senta ao lado dele, não tem idéia do que falar, pois nem imagina como veio parar no camarim. – Fiquei... Nunca vi uma apresentação como a sua!

Aya se volta para ele, mais intrigado do que qualquer coisa, o rostinho angelical e corado de timidez contendo seu reflexo de mandá-lo sair. Tenta sorrir para ele, mas como fazer isso quando Takatori está na platéia e nada pode fazer? O ódio sai até por seus poros, a respiração descompassada, mas Yohji está certo, um movimento desses e toda a Yakuza pode cair sobre os três assassinos, pois sua infiltração seria desmascarada. E Ranmaru é um homem extremamente perigoso...

- Qual o seu nome, garoto? – Diz, tentando ser simpático.

"E agora?" – Mamoru não quer ser identificado com seu pai e seus negócios escusos.

Enquanto olha o ruivo, pensa em um nome que não vá esquecer depois, algo que possa ser seu nome especial, um escolhido por ele mesmo e não por aquele homem que nunca gostou dele.

- Sou Omi... Omi Tsukyiono. – Seu nick da internet é o nome perfeito, unindo o apelido dado por sua mãe e o nome da propriedade milenar da família, pertencente a seu avô.

- Você parece um colegial... – O ruivo se volta para ele, procurando tirar a mente de seu objetivo, tentando esquecer o velho que destruiu sua vida. – O que está fazendo num lugar desses?

Outra pergunta difícil de responder, fazendo 'Omi' perceber que é preciso criar em sua mente uma história... Uma mentira convincente que não o deixe desconfiar de que foi obrigado a vir por um pai calhorda e com certeza capaz de matar para ser bem sucedido.

- Um amigo... Vim com ele. – Suas safiras não conseguem desgrudar do rosto sério, a expressão de conflito na testa que se enruga ocasionalmente quando param de conversar. – Eu... Não sei... Nunca...

- Você está tentando entender o que sente... Sua sexualidade? – Sente-se quase um conselheiro com esse papo.

- Não sei! – Somente então o garoto percebe que está aqui exatamente por ter sentido algo que jamais sentira antes. – Vim por curiosidade e... Senti umas coisas diferentes ao te ver dançar.

- Omi... Também já me senti assim. – Apóia os cotovelos sobre os joelhos, ficando perigosamente próximo do chibi. – Nós não temos que ter vergonha de sermos o que somos... Mentir pra nós mesmos só nos torna infelizes.

Sua irmã gostaria de tê-lo ouvido falar assim. Quantas vezes os dois sentaram sob a árvore no quintal de casa e Ran falou sobre as coisas diferentes que sentia? Os meninos na escola nunca notaram, sendo o campeão de kendô e esgrima, mas Aya o conhecia como ninguém. Os lindos olhos dela o desnudavam e a menina mais nova sempre parecia trazer à tona o melhor dele, as emoções mais verdadeiras.

- Eu gostaria tanto de poder viver... – O chibi percebe que vai revelar demais de si mesmo... Mais do que deseja. – Eu ainda não estou entendendo... O que...

- Me dá a sua mão. – Aya segura firme a mão dele e coloca sobre seu próprio peito. – O que o toque na minha pele te causa? Que tipo de reação física?

Omi sente um arrepio percorrer todo seu corpo. O toque, a voz suave e gentil, o cheiro de rosas que aquele corpo exala, a sensação do coração do dançarino batendo descompassado. Ele se levanta depressa, afastando-se do outro, saindo sem nada dizer, confuso demais para entender a si mesmo e aquilo que sente.

O ruivo abaixa a cabeça, pois já se sentiu assim... Perdido.

"Até parece que não me sinto assim todos os dias! Esse ódio... Esse rancor que parece me sufocar..." – Pensa, desanimado, apoiando os cotovelos na mesa cheia de maquiagem e escondendo o rosto entre as mãos. – "Ando tão cansado de viver sempre assim... Fechado e sozinho!"

Ouve um ruído, a imagem de Yohji se aproximando e sentando na cadeira em que estivera o chibi.

- Eu precisei te conter! Você sabe... – O loiro tem consciência que tirou de Aya algo que era importante demais, querendo explicar-se, apesar de nem sequer serem amigos, a Weiss sendo apenas um grupo de assassinos... Nada mais.

- Não preciso da sua piedade, Kudou. – Não deseja conversar nesse momento, mesmo que saiba como ter um amigo seria muito bom. – Mato o desgraçado em outra ocasião!

- Ok. – Yohji se irrita com a costumeira frieza do líder dos Weiss. – Vou voltar pro meu disfarce... Nem sei por que me importei.

O playboy caminha nervoso para o balcão do bar, sentando-se em um dos bancos. Tenta se acalmar, pois sempre acaba assim quando tenta se aproximar do ruivo.

"Ele e essa maldita vingança!" – Pede um copo de vodka para o barman. – "Qualquer dia vai matar todos nós!"

- Você sabe que não devia estar bebendo, Yohji. – Ken diz ao colocar a bandeja sobre o balcão. – Precisamos estar alertas!

- Ken... Não é um copinho ou dois de vodka que me deixam bêbado. – O loiro bebe de um gole. – Essa maldita missão! Prometo que quando sairmos daqui vou beber até cair... Ando cheio de tudo.

- Você faz o que quiser... Fora daqui. – O moreno se afasta, igualmente cansado dessa vida. – Tenho que manter o meu disfarce.

O papel de Yohji nesta missão é o mais confortável, pois tem apenas que dar uma de segurança e bater em quem sai dos limites, mas... É difícil alguém se atrever a fazer isso na boate de Ranmaru, pois é notório que o ex-lutador tem contatos na Yakuza, graças a sua esposa.

- Duvido que o folgado queira trocar de lugar comigo! – Ken diz já se afastando. Está cansado de servir mesas e... Ser apalpado. Sem falar da patroa, que o fica cercando por todos os lados, acostumada que está em levar quem quiser para a cama. – Aquela mulher abusada!

Aproxima-se da mesa do patrão, estrategicamente ficando distante dele, apresentando o vinho que será servido ao convidado, que o experimenta cheio de frescura, cheirando a rolha, para logo em seguida provar, passando o líquido de um lado a outro da boca antes de engolir, impressionando ainda mais seu anfitrião.

- Ótima safra! – Olha para o homem obeso e logo em seguida para o garçom. – Pode servir.

Ken volta para o balcão, deixando a bandeja sobre ele, encostando-se um pouco, sentindo as pernas doerem como nunca e as costas ainda mais.

- Nunca imaginei que esse tipo de trabalho fosse tão duro. – Olha para o loiro, ainda sentado, com uma expressão desconsolada. – Precisamos encontrar o garoto logo e dar um fim nesse maldito casal.

- Já conversei com todos os rapazes daqui... – Yohji olha para Ranmaru, sentindo certa revolta pelo modo grosseiro como ele bulina o 'host' no seu colo, que mantém um olhar distante, quase vazio. – Não gosto desse lugar... É diferente dos clubes em que já estive.

- Aqui é um lugar para homens ricos... – Os olhos do ex-jogador se perdem nos rostos dos garotos, nada de sorrisos, nada de alegria, apenas desilusão... – Todos são como escravos... Objetos para uso desses bastardos!

- Olha... Aquele garoto loirinho foi lá ver o Aya. – Sorri ao observar Mamoru voltando ao salão, provavelmente do banheiro. – Eu até vi o ruivo dar um sorrisinho... Quem sabe ele não... Não pode ser!

Ambos vêem quando ele se senta ao lado de Hirofumi, o velho Takatori encrencando com os dois filhos que não param sentados, enquanto ele tenta terminar a negociação.

- Ele é filho do... – Yohji balança a cabeça, pensando se deve ou não contar isso ao espadachim. – Que merda!

O garoto se acomoda, ficando em silêncio, ainda pensando no que sentiu e em como precisou jogar água fria no rosto, apenas por ter tocado na pele do ruivo. Sente os olhos do alemão dos Schwarz novamente sobre ele, ficando ainda mais incomodado.

- Você está bem? – Hirofumi pergunta num sussurro, evitando atrapalhar o pai. – Está muito pálido.

- Vai passar... – Procura evitar o olhar do irmão. – É esse ambiente cheio de fumaça de cigarro e charuto.

O pai olha com o canto dos olhos para os dois, pois tenta prestar atenção na conversa sem graça do dono da boate, que conta sobre seus tempos áureos de lutador. Tudo aquilo lhe dando sono, mas ainda assim podendo ser útil para os negócios. Assim que Takatori trabalha. E Ranmaru e suas ligações com a Yakuza são aquisições muito importantes para seus negócios.

- Então o que me diz, amigo? – O velho mafioso abre um de seus famosos sorrisos para fechar negociatas. – Vamos assinar o contrato?

- Bom... – Faz sinal para que o rapaz em seu colo saia.

Observa o delicioso moreno se movendo na direção do bar, passando a língua nos lábios... Mas voltando a atenção ao homem a sua frente.

– Sei que posso parecer meio grosseiro e... Idiota... – Sorri de forma irônica. - Mas sua negociação tem que ser mais... Como posso dizer... Apetitosa...

O milionário fica surpreso, pois nem pode imaginar como o rude ex-lutador o leu com tanta clareza, temendo o que significa essa condição que ele pretende impor.

- Eu não... – O que dizer se o homem parece ver seus pensamentos? – O que posso fazer para convencê-lo... Que seja apetitoso?

Ranmaru faz sinal para que Takatori sente ao seu lado, o que o homem faz um tanto temeroso, mas necessitado de conseguir o tal contrato assinado. O obeso empresário aproxima-se ainda mais dele, suas palavras não sendo mais do que um sussurro.

- Se você me emprestar um dos seus garotos por uma noite... – Olha para o rosto do homem, que parece surpreso com seu pedido.

- Como assim? – Takatori realmente não entende o pedido do obeso Ranmaru. – Um dos meus garotos...?

- Tudo bem que você não goste de admitir... – Olha malicioso para ele. – Mas alguém que gosta de garotinhos, como você demonstrou pra mim... Não teria se aproveitado do seu delicioso filho caçula?

- Bem... Eu... – Pego mais uma vez em uma de suas mentiras, o velho tenta não perder-se no rubor que lhe sobe até a face. – Ainda não... Mas já estava nos meus planos!

- Então... Me empreste o seu pequeno brinquedo ou o seu apetitoso filhinho e... – Suas palavras são ditas sem qualquer hesitação. – Assino esse contrato e... Ainda te apresento aos chefões da Yakuza.

A proposta não poderia ser mais tentadora, mas desperta pensamentos conflitantes em Takatori... Pensamentos que nunca imaginou que teria diante de um pedido desses. Não que se importe com Mamoru, pois tem a firme convicção de que ele nem sequer é seu filho de verdade, mas... Vender o próprio filho é algo que atenta contra a reputação, até de um bandido como ele. Esse seu mundo tem algumas regras básicas e a família é meio que sagrada... Tudo bem mandar matar um filho traidor, mas vender um filho adolescente para um pedófilo seria encarado como algo muito ruim. Mas a segunda opção não é fácil também, apesar de Nagi ser apenas um mercenário. Só que o poder daquele menino poderia acabar com Ranmaru com um único golpe. Somente Crawford conseguiria isso para ele, mas... E se o americano disser não?

- Vou deixar você pensar na minha proposta... – Ele faz sinal para Ken. – Rapaz... Sirva mais uma rodada daquele delicioso vinho branco para todos.

O moreno se aproxima, um olhar desanimado por perceber que o patrão agora encarnou nele e já está parecendo o único garçom da boate. Serve os Takatori e o patrão, mas quando serve a mesa dos guarda-costas, o ruivo derruba a taça de vinho em sua calça branca, o líquido tornando sua roupa transparente, praticamente ficando nu diante de todos.

- Ups... Desculpe, köstlich. – O alemão não se contém ao ver Ken assim exposto, sua artimanha causando-lhe um ataque de risos.

- Seu... – O jovem Weiss procura controlar sua fúria.

- Credo! – Schul olha para ele intrigado com a imagem mental presente na cabeça de um simples garçom. – Que pensamento violento!

Hidaka recua, ainda tentando imaginar como o ruivo soube exatamente o que estava pensando. Sai furioso, mas apreensivo, pois aquilo apenas revela que os guarda-costas dos Takatori não são homens comuns... Ainda lança um olhar para eles com uma desconfiança que somente aumenta ao perceber Nagi fazer um copo levitar, tentando esquecer a sacanagem feita com ele. Entra no camarim sob os risos e palavras maliciosas do alemão, que tece comentários no ouvido do americano, mas joga um olhar curioso para o jovem moreno.

- Aya... Você conhece aqueles seguranças do Takatori? – Pergunta assim que entra, o ruivo já vestido com um jeans velho e uma camisa branca, os cabelos ainda molhados do banho.

- Já os vi... Mas nunca tive contato com eles. – Pergunta com a expressão fechada, pois seu inimigo ainda está ali. – Por quê?

- Acho bom você estudar muito bem eles antes de tentar qualquer coisa contra aquele cara. – Diz abrindo seu armário e pegando outra calça branca. – Aquele ruivo leu o meu pensamento... E o garoto estava levitando coisas...

- Humm... – Aquela sensação de ódio latente somente fica mais forte com essa informação. – Isso é mau...

Olha para o companheiro de grupo tirando a calça, praguejando ao ver a cueca igualmente molhada, tirando-a e jogando dentro do armário. Isso o intriga, fazendo com que o observe com mais atenção.

- O que houve? – Não deseja mostrar qualquer preocupação ou interesse, mas o nervosismo de Ken é impossível de não ser notado.

- O maldito alemão jogou o vinho na minha calça... De propósito... – Veste a calça limpa sem cueca, desejando picotar inteirinho o maldito. – Depois ficou rindo as minhas custas... Fiquei praticamente pelado com essa calça molhada!

O líder dos Weiss esboça um leve sorriso, pois por mais que evite aproximar-se dos parceiros, o jeito indignado do ex-jogador o diverte. Ken é tão inocente... Qualquer um pode enganá-lo, apenas sendo bom com ele, mas não gostaria de estar entre seus inimigos.

- O Yohji me disse que você recebeu uma visita... – Tenta sentir se deve falar sobre quem ele é. – Contou que você até sorriu...

- Aquele loiro é um fofoqueiro! – Sorri levemente, pois não há como se irritar com essas coisas do Kudou. – Um garoto... Só isso...

- Mas você se interessou? – Essa é a pergunta chave. – Ele era bonitinho.

- Era sim... – Ele se encosta à parede, os olhos perdidos no vazio. – Mas na minha vida não há espaço pra ninguém...

Ken reconhece esse tipo de olhar... Não que já o tivesse visto em Aya, mas já viu em dezenas de corações solitários e resolve nada dizer ao ruivo. Para que acabar com essa ilusão, dando um nome e sobrenome ao loirinho que o fez sorrir, mesmo que por apenas alguns segundos?

- Vou voltar. – Abaixa a cabeça. – Aviso quando eles partirem.

- Não... Também vou. – O ruivo já caminha na direção da porta, voltando-se para encarar o moreno temeroso. – Não se preocupe. Prometo não fazer nada que prejudique nosso disfarce. Só quero ver aquele desgraçado de perto...

Os dois atravessam o salão, muitos olhos se voltando para o ruivo, deixando claro que ele não atrai a atenção apenas no palco. Aproximam-se do balcão, de onde podem ver claramente os convidados, mas então o ex-jogador sente-se aliviado, pois os dois filhos de Takatori não estão presentes. Param ao lado de Yohji, Ken fazendo sinal para ele na direção dos inimigos, querendo saber onde os herdeiros do mafioso estão.

- Ahm? Eu não... – O loiro tenta entender o que aqueles movimentos da cabeça do moreno querem dizer...

Depois de manter os olhos em Hidaka por alguns minutos, finalmente conclui que ele quer saber do loirinho, já que Aya está presente, percebendo que Ken também não deseja tirar essa ilusão da cabeça do espadachim.

- O pai se irritou... – Diz num sussurro. – Mandou os dois esperarem no carro. Pelo jeito a negociação não deu muito certo.

Ken sorri aliviado, sentindo certo prazer por ver Takatori não conseguindo algo que deseja. Provavelmente ele subestimou Ranmaru... O que as pessoas costumam fazer por sua aparência e rudeza, mas o dono da boate é um homem muito perigoso.

Yohji se afasta dos parceiros, sentando-se ao lado do host na ponta do balcão. Observa-o por algum tempo... Seu olhar triste, a mão passando pelo copo úmido, o gelo do whisky já meio derretido. Ficou, simplesmente, impressionado com ele assim que chegou para assumir seu papel nesse disfarce.

O rapaz, como propriedade pessoal do patrão, sempre ficava no balcão quando este não estava. Era impossível não notar o homem de cerca de 1,85 m, esguio, olhos e cabelos castanhos desalinhados, e a boca de lábios carnudos... Uma tentação para os observadores não atentos à aura triste e conformada, ao desânimo ao fingir que bebe, quando na verdade está sempre pensativo.

- Como vão as coisas, Saitoh? – Infelizmente não consegue pensar em algo melhor para iniciar a conversa.

- Indo... Yohji, não é? – Fala, se voltando para o loiro bonito em seu terno preto e óculos escuros no alto da cabeça. – Você se apresentou pra mim na semana passada... Desculpe a memória fraca.

- Não esquenta. – Pede mais um copo de vodka, ainda sem saber o que dizer, mas incapaz de recuar agora. – Como você...

- Agüento o gordo asqueroso? – Completa com a pergunta que geralmente ouve de quem tenta se aproximar.

- Não... Eu estaria te julgando se dissesse isso. – O loiro se envergonha por realmente já ter pensado tal coisa. – Queria saber... Como alguém bonito como você veio parar num lugar desses?

O rapaz esboça um sorriso, os dentes a mostra tornando sua boca ainda mais tentadora. Seus olhos parecem perder-se no passado, sua expressão mudando, a tristeza tomando conta e voltando-se para o segurança ao seu lado, encara os orbes verdes.

- Aqui não é tão ruim. – Respira fundo. – Tenho casa, conforto e... Não passo fome. Antes do patrão me encontrar... Eu trocava sexo por dinheiro nas ruas.

- E não tem família? – Kudou começa a se importar com o rapaz, sentir algo diferente por ele.

- Minha mãe morreu cedo... Meu pai... – Uma dor profunda pede... Exige que mude de assunto. Não pode falar disso jamais. – Ah... Deixa pra lá.

Uma nuvem espessa e escura passa entre eles, tudo que Yohji já pensou sobre rapazes que se prostituem tomando uma nova forma, desejando ardentemente ter uma maneira de tirar Saitoh dali e... Faria o que se o fizesse?

- E você... Yohji... O que faz num lugar desses? – Novamente seu sorriso se abre, passando a língua pela boca tentadora a fim de umedecer os lábios. – Você é um cara bonito demais para ficar batendo em bêbados abusados.

Um silêncio perturbador se instala entre eles, a vida secreta de Kudou tendo de permanecer assim, mesmo que deseje ardentemente se revelar, contar ao rapaz de lábios carnudos o que o fez viver uma vida cercada de morte.

- Saitoh... Eu... – Não sabe por que, mas gostaria de dizer algo que fosse capaz de afastar a escuridão desses olhos.

Mais nada pode ser dito, o patrão faz sinal para que seu host particular volte, pois já não tem mais nada a discutir com Takatori, que continua incapaz de decidir qual dos dois meninos pretende lhe entregar. O rapaz lança um último olhar desanimado para Kudou, que lhe passa um cartão com seu telefone antes que se levante, caminhando devagar na direção do empresário emburrado, que o agarra pelo braço de forma violenta, saindo sem se despedir dos convidados.

- Parece que o sujeito não ficou muito satisfeito com a negociação! – Schuldich comenta com Brad. – Na verdade... O velho está na maior enrascada.

- De que tipo? – Crawford sabe que precisa estar ciente de como tudo corre.

- Das grandes, mas... – O alemão levanta-se e se curva, falando no ouvido do companheiro. – Só posso saber mais se me permitir ler a mente dele.

- Não. – O americano o segura pela camisa. – Essa é a única condição que ele impôs.

- Há muito perigo neste lugar. – O ruivo o olha sério. – Não é nítido, mas... Ouço os ecos de pensamentos violentos com relação ao velho... Isso pode se tornar ruim para nós.

- Enquanto ele pagar bem... – Tenta encerrar esse assunto muito rápido, vendo a raiva estampada no rosto do patrão. – Faremos tudo que ele quiser. Espero que todos vocês tenham entendido.

Essa recomendação não é apenas para Schul, mas para todos eles, estendendo seu olhar para o sempre distraído Farfarello e para o emburrado Nagi. É o líder e criou este grupo, então precisa manter a ordem. Por dinheiro tudo é possível... E por ele é capaz de tudo.

Takatori se levanta, ainda aturdido pela conversa que teve com o objeto de sua negociação, incapaz de tomar a decisão que o homem esperava e raivoso consigo mesmo exatamente por isso. Vê que uma mulher se aproxima, bem vestida, jóias caríssimas expostas sobre seu peito voluptuoso como em um mostruário e pára.

- Meu marido pediu perdão por ter se retirado com tanta pressa, mas... Precisava relaxar um pouco. – Um sorriso malicioso está estampado no rosto bonito da mulher magra e loira, com cerca de quarenta anos. – Nada que um delicioso rapaz não possa acalmar.

- Sim... Eu compreendo... – Ele diz tomando a mão da mulher e a beijando, fazendo uma reverência.

- Quer um conselho senhor Takatori? – Aproxima-se dele e sussurra em seu ouvido. – Jamais subestime o meu marido... Dê o que ele quer... Ou ele o toma. E o que o senhor ganharia se isso acontecesse? Entendeu?

- Perfeitamente. – Engole em seco, pois percebe que desde o momento em que entrou nesse lugar já se comprometia a entregar ao homem obeso e rude o que bem quisesse.

Ele faz uma nova reverência para a mulher, que se senta, fazendo sinal para os Schwarz para que partam. Passa diante do belo ruivo parado no balcão e, por um instante, seus olhares se cruzam, havendo certo reconhecimento... Como se já o tivesse visto em algum lugar.

- Ken... Venha cá. – A mulher diz, acomodando-se na cadeira e sentindo-se muito poderosa por ter intimidado um homem tão poderoso. – Me traga uma cerveja... Gelada.

Aproveita para apalpá-lo mais uma vez, divertindo-se por ele se esquivar, pois é exatamente isso que lhe dá mais vontade de tê-lo em sua cama.

ooOoo

Mamoru, como todas as noites, está em seu quarto, sentado diante do PC, conversando com os amigos que fez na internet, pois na escola eles são poucos... Mais por causa do seu sobrenome do que por si mesmo. Apesar de sociável e gentil, os Takatoris não são das pessoas mais populares. Raramente encontra alguém da família dentro de casa, apenas Hirofumi às vezes foge dos afazeres que o pai lhe passa e vem jogar videogame com ele, pois até suas refeições já são trazidas no quarto por uma das criadas.

"Melhor assim." – Isolou-se dentro de uma casa em que nunca foi bem vindo... E o pai aceitou esse isolamento.

Volta seu olhar para a janela do MSN, resolvendo esquecer aquilo e se focar na conversa que tem com sua melhor amiga. Precisa desabafar um pouco...

"Omi: Ontem aconteceu algo estranho comigo."

"Evil: Fala... ME CONTA!"

"Omi: Não sei explicar... Fui numa boate gay com... Com meu irmão... E vimos

um show... Um dançarino fez uma apresentação sensual naqueles varões de

metal... Sabe qual é?."

"Evil: Sei... Mas é daí?! Por que você achou isso estranho?"

"Omi: O estranho é como eu me senti. Aconteceu algo comigo. Eu não

conseguia parar de olhar pra ele. Meu coração estava pulando acelerado. Me

senti excitado com aquilo."

"Evil: EXCITADO?! Será que você descobriu algo sobre si mesmo que não

sabia?! Isso é ótimo!"

"Omi: Ótimo?! Eu fiquei apavorado. Não pode ser isso..."

"Evil: E por que não? Tem medo do que seu papaizinho vai achar? Esse cara

nem liga pra você!"

"Omi: Não... Tive medo sim, mas de sentir algo tão intenso... De me machucar...

Mas o pior não foi isso."

"Evil: O que houve? Conte-me tudo... Não me esconde nada."

"Omi: Eu fui ao camarim conhecer o cara."

"Evil: O QUÊ????? *morre*"

"Omi: É sim... Acha que fui maluco demais?"

"Evil: Você foi ótimo, isso sim. E beijou ele?"

"Omi: Calma, calma... Não seja apressada! Fui conhecer o cara de perto, ver

como me sentia perto dele, longe do palco."

"Evil: E como foi? Como ele era? Estou quase enfartando aqui..."

"Omi: Ele foi gentil... Foi logo achando que eu tava descobrindo minha

sexualidade... Me leu como um livro aberto! Falou sobre como devemos ser

quem somos... Tudo como se ele já tivesse vivido esse dilema um dia."

"Evil: UAU. *babando* E como ele era de perto?"

"Omi: O homem mais lindo que eu já vi. Ruivo, sexy... De perto eu fiquei mais

excitado ainda. E quando ele pegou na minha mão..."

"Evil: OMG! Ele pegou na sua mão!?!"

"Omi: Pegou e colocou sobre o peito nu dele. Quase desmaiei. Tive que fugir,

senão passava vergonha. Corri no banheiro e joguei água gelada no rosto pra me

acalmar."

"Evil: HAHA... Tem alguém que ficou apaixonado... Devia ter aproveitado! Eu

aproveitaria."

"Omi: Pára com isso!"

Alguém bate na porta e a abre, interrompendo Mamoru, que vê o rosto da criada que praticamente o criou surgindo. Ela costuma trazer sua bandeja sempre com um sorriso, brincando com ele e recomendando que coma tudo, mas dessa vez parece tensa, quase nervosa, sem qualquer bandeja.

- Mamoru... – Ela soa contrariada. – Seu pai mandou que descesse pro jantar.

- Pra quê? – O garoto levanta da cadeira, surpreso.

- Não sei. – O nervosismo é nítido em sua voz. – Ele ordenou que descesse... Bem vestido.

Algo corroe em seu estômago, pois Mamoru não tem nenhuma lembrança boa de jantares em família. Ainda quando sua mãe estava viva, o garoto participava das refeições, mas por ela, porque sabia como sua situação era difícil na casa... A segunda esposa, jamais fôra a senhora da casa, pois Takatori governava tudo. Além disso, era do conhecimento de todos que este casamento fora um acordo entre ele e o pai de sua mãe, muito bem remunerado, pois ela estava noiva do irmão de Reiji, o jovem Shuichi. Então o casamento não tinha o componente do amor, ainda temperado com as dezenas de amantes que o marido nunca escondia dela. A doença a fez definhar aos poucos, mas Mamoru jamais deixou de pensar que a mãe não queria mais viver... Depois disso não havia mais porque continuar a suportar as refeições em família.

- Ok... – Sorri para tranqüilizá-la, pois sabe que teme por ele. – Já desço.

Quando a criada fecha a porta, ele se volta para o computador.

"Omi: Preciso sair. O meu pai quer um jantar em família."

"Evil: Ok, mas... Amanhã nos falamos."

Mamoru olha o guarda-roupa em busca de algo para vestir, mas acaba fechando as portas e decidindo ir assim mesmo como está... A camiseta e o short são sua roupa rotineira e para ele refeições são coisas comuns, não eventos sociais. Abre a porta e desce as escadas, um tanto temeroso com o que pode ter acontecido para levar o pai a pedir para participar. Ao chegar à porta da sala de estar, vê seu tio Shuichi sentado diante do irmão, um copo de conhaque na mão.

- Tio?! – Mamoru corre até ele e o abraça, pois sempre teve grande carinho pelo homem que sempre amou sua mãe. – Quanto tempo!

- Pois é... – Sorri para ele, sentindo os olhos de Reiji sobre os dois. – Tenho estado muito ocupado com meu novo cargo de Chefe de Polícia.

- Mamoru... – O pai se levanta nervoso. – Não pedi pra se vestir bem?

- Não era preciso... – Shuichi intervém, pois conhece muito bem como o irmão trata o filho caçula. – Que acha de irmos jantar?

O assunto morre, com todos se dirigindo à sala de jantar, Mamoru conversando um pouco com seu irmão Massafumi, que também raramente participa de qualquer coisa que ocorre na casa, sempre muito ocupado com seus negócios na indústria química. O garoto tem certa pena dele, pois o irmão sempre teve sérios problemas mentais, continuamente saindo e entrando de sanatórios, mas que nunca disfarçou o extremo carinho pelo irmãozinho, só sendo superado pelo protetor Hiro. Todos o protegiam mais do que o normal, menos do próprio pai, que sempre o agrediu verbalmente, em todas as oportunidades que teve.

Reiji senta-se na ponta da mesa, com o irmão ao seu lado esquerdo e Hiro ao direito. Mamoru fica ao lado do tio, bem de frente para Massa, que parece tão sem jeito quanto o irmão caçula. O empregado chega com a entrada, uma imensa salada colorida e serve todos, enquanto outro criado enche as taças de vinho tinto.

- Mas Reiji... – Shuichi sorri para o irmão, apesar dos sentimentos entre eles não serem nada amistosos. – A que devo seu convite tão inesperado.

- Eu... E meus filhos, é claro... – Aponta para os três, apesar de serem citados apenas para tornar a coisa mais oficial. – Gostaríamos que você intercedesse junto ao nosso pai para que eu possa usar novamente os títulos de família.

Takatori, depois de muito pensar, arquitetou uma forma de escapar da armadilha de Ranmaru. Seus títulos de nobreza seriam um grande trunfo para a Yakuza e assim não precisaria dos contatos do obeso homem. Não se sente a vontade na condição de refém de um sujeito vulgar daqueles e muito menos ser obrigado a seguir suas vontades, mesmo que pouco se importe com os dois garotos em questão. Era sua única chance de se livrar disso.

- Você sabe que ele não vai aceitar. – Shuichi diz sincero, pois conhece muito bem o próprio pai. – Quando você decidiu direcionar seus negócios para... Ele te deserdou e o proibiu de usar os títulos dados aos Takatori pelo imperador.

- Mas eu sou o filho primogênito dele! – Reiji se exalta, encarando o irmão com ressentimento. – Não tem sentido ele me privar de algo deixado para nós por nossos ancestrais.

- O nosso avô foi um dos últimos samurais... E seguia regras rígidas de conduta. – O mais jovem dos irmãos Takatori diz isso de forma seca e decidida. – Você não pode esperar receber esses títulos quando vive de negócios escusos e burlando a lei como faz.

- Saia! – Reiji levanta da cadeira, apontando para o irmão o caminho para a porta de saída. – Não o quero mais em minha casa. Não preciso do seu sermão.

Shuichi se levanta, pronto para sair, quando Mamoru também o faz, segurando o tio pelo braço.

- Pai... – Olha direto para o homem raivoso. – O senhor não pode expulsar o seu próprio irmão dessa forma... Precisam se entender.

- Cala a boca, você. – Seus olhos parecem bolas de fogo. – Por mim não teria pago o resgate por você... Devia tê-lo deixado morrer na mão dos seqüestradores.

- Não, pai! – Hirofumi se levanta, olhando para os olhos azuis que se enchem de lágrimas.

- Resgate... – A voz do garoto quase não sai. – Do que está falando?

Shuichi se vê solto, as mãos do sobrinho caindo ao longo do corpo, como se algo triste demais desabasse sobre ele.

- Isso mesmo. É bom esse porcaria ficar sabendo que só está na minha casa porque paguei pra ter ele de volta. – O homem se delicia ao ver as lágrimas escorrerem por seu rosto. – Mas eu me arrependo. Nem sei se você é meu filho mesmo...

- REIJI... Chega disso! – Shuichi sente vontade de socar o irmão nessa hora.

- Você... – O rosto envelhecido fica vermelho. - Como vou saber se não me traía? Se não é o pai desse coisinha sem valor?

- Pára com isso! – O homem mais jovem já está no seu limite. – Eu jamais traí você... Apesar de ter me traído quando roubou minha noiva... A mulher que eu amava... E você sabia muito bem disso. Usou seu dinheiro pra tirá-la de mim, quando poderia ter qualquer uma.

- Eu podia ter quem eu quisesse. – Fala exaltado. – E no fim não me valeu nada! Era uma chorona que só ficava mimando o filhinho... Quando devia me servir devidamente na cama.

- CALA A BOCA! – Mamoru grita, o ódio estampado em seu rosto, fazendo todos se calarem. – NUNCA MAIS FALA DA MINHA MÃE!

- Eu falo quando... – Reiji não pode aceitar esse confronto.

- Você a matou! Ela não queria mais viver ao lado de alguém como você. – O filho mais jovem quer falar mais, mas Hiro e Massa o puxam pelo braço.

Reiji permanece parado, nervoso, o irmão saindo sem nada dizer, magoado com tudo com que ouviu, principalmente por ver o sobrinho nesse estado... Tudo por causa dele. Tudo porque sempre continuou a amar a mulher que conquistou seu coração e sabia ser correspondido até o final. Mesmo que jamais tivesse traído o irmão, isso destruiu as chances do menino ser aceito pelo pai.

Os irmãos vão levando o irmão para fora da sala, antes que a situação possa piorar e coisas mais negras possam surgir, mas Mamoru se volta para o pai, em um último toque para magoá-lo de vez.

- Eu tenho vergonha de ser seu filho. – Respira fundo, quase sufocado pela dor. – Queria mesmo que você nunca tivesse pago aquele resgate. Seria melhor do que viver nessa casa com você.

ooOoo

- Yohji... – A voz do outro lado quase não é ouvida no celular do loiro.

- Quem está falando? – Kudou fica preocupado, ainda se arrumando para ir à boate por mais uma noite, ainda sem nenhuma pista do garotinho que Ranmaru mandou seqüestrar. – Quase não te ouço.

- Sou eu... Saitoh... – Ele parece ofegante e fraco. – Você pode me ajudar?

- O que houve? – A voz dele sai mais alta do que espera, um terror passando ao ouvi-lo falar assim.

- Ele me machucou... – Parece reprimir o choro, uma voz forte soando de fundo. – Estou com medo...

- Onde você está? – Tenta se manter calmo para não assustá-lo ainda mais.

- Num dos quartos da boate. – As lágrimas são incontroláveis.

- Consegue sair para a rua? – Fala baixo e pausado, mas seu coração está acelerado.

- Acho que sim... – O medo é claro na sua voz.

- Faça isso! – Diz já terminando de se vestir e pegando a chave do seu carro. – Te pego na esquina, ok?

- Vem rápido... – Seu tom se torna súplice, quase desesperado. – Por favor.

Assim que o rapaz desliga, Yohji sai decidido, passando por Ken, que o observa surpreso, também se trocando para sair para a missão, segurando o loiro pelo braço... E os dois se encaram.

- Aonde você vai? – Ken pergunta, lendo em seu olhar o perigo.

- Não te interessa! – Kudou puxa o braço, deixando claro que a situação é realmente muito séria.

- Você vai fazer alguma besteira... – Tenta ser amigo, muito preocupado com a expressão em seu rosto. – O Aya não vai gostar na...

- Diz pra ele que não vou ameaçar o disfarce. – Vai caminhando na direção da escada, mas então se volta. – Vou salvar alguém, Ken... Um daqueles rapazes de olhos tristes.

- Não faz isso, Yohji. – Sabe muito bem de quem ele está falando, pois seu olhar para o jovem host era indisfarçável. – O Ranmaru vai te matar.

- Eu preciso... Ken-ken. – Sorri e o deixa.

O ruído do carro saindo a toda faz o estômago do ex-jogador se contorcer, pois sabe do caminho perigoso que o 'amigo' está tomando e nada pode fazer para impedi-lo.

ooOoo

Aya se prepara para seu show dessa noite, ainda preocupado com o atraso de Yohji e Ken, mas não podendo entrar em contato com eles sem levantar as suspeitas dos demais bailarinos que também se aprontam no camarim. Ouve a porta abrir e olha, esperançoso que seja um dos dois, mas vê outro garçom entrando.

- Fujimiya... – O jovem garçom se aproxima dele, sentado diante do espelho. – Tem uma visita pra você essa noite.

- Visita?! – Olha para o rapaz loiro, intrigado. – Mas você sabe que eu não...

- Não é ninguém querendo um programa. Sei que você não faz isso. – O loiro fala malicioso. – O garoto da noite passada... Aquele loirinho... Pagou pra ter um tempo sozinho com você. Achei que sendo ele... Você aceitasse.

- Tudo bem, Toshiro. – Seus olhos violeta brilham ao pensar no garoto e em como a presença dele ali o afeta. – Fez bem...

O ruivo sai do camarim, andando entre as mesas, sempre atraindo a atenção, olhos se voltando quando passa, suspiros e leves gracejos sendo quase inaudíveis para o homem que tem um único objetivo. Ele pára diante da mesa onde está o loirinho, os olhos deles se encontrando... Uma excitação os envolvendo de uma forma que nenhum dos dois havia imaginado.

- Você me quer? – A voz do ruivo soa sensual. – Estou aqui pra você.

Continua...

ooOoo

Como disse anteriormente, essa fic é um presente especial para minha amiga e mestra Evil Kitsune. Surgiu da curiosidade de como seria a vida do Omi se o pai pagasse o resgate e como isso mudaria as vidas dos Takatori e dos Weiss. A relação na família seria diferente? Os irmãos poderiam escapar à sina de serem como o pai? Os Weiss se tornariam uma família? Qual o papel de Omi na vida de todos os demais? A presença ou ausência dele poderia mudar tudo?

A música que embala a dança do nosso Aya stripper continua sendo 'Fever', na versão cantada por Michael Bublé.

Köstlich = gostoso, delicioso.

O personagem Saitoh, o host que serve o vilão Ranmaru, foi inspirado no ator Saitoh Takumi, de 27 anos, que trabalhou no musical 'The Prince of Tennis', protagonista de alguns filmes BL/Yaoi mais conhecidos como 'Boys Love', 'Sukitomo' e 'Itsuka no Kimi e', mas também trabalhou em alguns filmes recentes indicados para o público em geral. Assistam e vejam porque o Yohji ficou babando nesse homem MARAVILHOSO.

Agradeço a minha amadíssima beta Yume Vy por todo o esforço que fez para me fazer feliz, se esforçando muito para betá-la, com a mesma qualidade excepcional de sempre. Mil beijos!!!!

Beijos especiais também às minhas cobaias fofas, Eri-chan e Scheilla Mendes, que leram e me deram suas opiniões, influindo e muito em algumas decisões que tomei ao longo da confecção do texto.

Espero que gostem e COMENTEM!!!!

03 de Novembro de 2009.

02:14 PM.

Lady Anúbis