Capítulo 2
-
Depois de quebrarmos as cabeças - pensando em uma maneira de ir, sim, na festa, mas não acabar ficando nas mãos de Pandmurf - e não chegarmos a conclusão nenhuma, nós voltamos pra sala na hora que o sinal para a terceira aula bateu.
- Oh, Deus, ele é tão otário! - Lene disse pra nós, quando entramos.
- Que foi? - Eu perguntei, colocando minha carteira no lugar novamente.
- Ele deu presença pra vocês duas de volta. Tipo, vocês nem voltaram aqui depois, e ele deu presença... - Falou Marlene, incrédula.
- É, não deu pra voltar hoje. - Alice falou sombriamente. - Escuta Lene, temos festa pra banda no sábado, na casa da vaca-mor. Como podemos nos livrar? - Ela despejou a pergunta.
Levou uns dois segundos até Marlene entender a situação.
- Er, é só não irem. - Frank se manifestou.
- Isso é potencialmente problemático, Frank. - Eu disse pra ele. - Pandmurf organizou tudo pra que ficasse completamente irresistível de ir à festa, entende? Nós precisamos ir, porque é A chance pra banda, mas é completamente horrível ter que ficar na palma da mão dela.
- AH, não faça careta Lily, você estraga seu rosto angelical desse jeito. - Eu ouvi um idiota falando, do outro lado da sala. Devia ser um daqueles meninos que sentam lá no canto e ficam passando trote. NAMORAL, nós estamos no 2º ano do Ensino Médio e ainda tem meninos dessa idade que passam as horas passando trote? Qual é.
- Ah, por que você não vai se ferrar, Thomas? - Eu resmunguei.
- Ok, voltando à questão... - Marlene disse, revirando os olhos para a interrupção. - Acho que vocês deveriam ir.
- É, a gente resolveu ir, sim. Mas, - Eu estava sofrendo uma batalha interna - é tão ruim!
Ui, raiva, raiva, raiva.
- Lil, - Alice começou - tive uma idéia. Nós vamos, nos "apresentamos" e vamos embora, tipo, deixe que os meninos cuidem de tudo depois...
- De tudo...? - Frank quis saber.
- Dos benditos contatos que Pandmurf infelizmente têm. - Marlene respondeu. - É, eu acho uma boa idéia. Vocês fazem o que é melhor pra banda, mas não ficam lá tempo suficiente pra alguma coisa fazer mal a vocês.
- Nossa, falando desse jeito, parece que a Pandmurf conspira contra vocês a vida toda e-
Mas Frank se calou ao receber três olhares idênticos: fuziladores.
- Vamos entrando... - Nós ouvimos a professora falar lá da porta.
Ótimo, mais uma aula para discutir o assunto. As aulas de português são nulas, ou quase isso. A professora adora fofocas, então o macete é não se sentar perto dela, ou não chamá-la na sua carteira em hipótese alguma. A não ser que você queria que ela te prenda numa conversinha torturante até o fim da aula, sobre como os bebedouros do colégio são cheios de limo, ou como o carinha da cantina é unha de fome - porque ele coloca só pouco mais da metade de café no copo dos professores, quando podia enchê-los.
Então nós tínhamos mais 50 minutos antes do intervalo pra debatermos a respeito da resposta que daríamos aos meninos.
- Mas vocês sabem que eu estava agorinha ali na sala dos professores, e aquela... Como é que é o nome daquela outra professora de português, idosa já, pequenininha... - A professora começou sua sessão de fofocas, torturando uns alunos sentados nas primeiras carteiras.
- Pff, como se ela também já não estivesse mais pra lá do que pra cá. - Marlene observou.
- Maldade, Lene. - Eu brinquei, ironicamente.
- Ok, Lil. Então nós vamos à festa, e depois que terminar o show a gente vai embora. Vai poder ficar lá em casa? É mais perto.
- E não é melhor ser mais longe, então? - Lene perguntou, olhando de mim para Alice. - Aí vocês podem usar essa desculpa pra alguma coisa. Distância e tal...
- Bem pensado.
- Eu não acho que a gente devesse mentir, Alice. Tipo, arranjar desculpas nem nada.
- E falar o quê? Que nós não vamos colaborar?
- Mas nós vamos! Vamos fazer o essencial e pronto. - Eu disse, lançando um olhar para a professora, me fingindo de interessada pra ela.
- De qualquer maneira, - falou Lene, olhando para frente, enquanto a professora olhava pra ela - Acho que os meninos não iam deixar vocês 'cuidarem dos negócios' mesmo.
- Verdade. - Alice concordou, enquanto mexia num buraquinho na costura da minha bolsa. - Não quando temos Sirius no meio.
- Sem comentários. - Marlene murmurou.
Ela odiava Sirius. Ou pensava que odiava, sei lá. É que Sirius não é má pessoa, sabe, ele só é galinha e irresponsável, mas não faz por mal. E ele é meio machista também. E metido. Er, ok, ele tem todos esses defeitos, mas em contra partida é engraçado - quando não está sendo idiota -, é um amigo fiel (aos melhores amigos dele, pelo menos), é bonito, gostoso, excelente ex-artilheiro do time da escola... Enfim, algumas qualidades que conseguem compensar o fato de parecer que ele não pode viver um dia sem beijar uma garota, ou passar uma semana com a MESMA.
- Nada a ver, Lene. - Alice interpôs. – Ele é só um tanto machista, mas ele nem está sendo besta ultimamente, né, Lil?
- U-hum - eu murmurei, enquanto anotava as coisas que a professora tinha colocado aleatoriamente no quadro. - Ele começou a levar a parada da banda à sério agora.
- Só agora? - Lene perguntou, com um quê de vitória na voz. - Vocês batalham há um tempo já, e ele começou a ligar agora pra banda. Legal.
- É, tirando o fato de que ele parece viver pra banda agora, ele está sendo legal com a gente. Nada mais daquelas piadinhas sem graça, ou cantadas bestas. - Alice comentou, pegando o caderno da mochila.
Frank tossiu na carteira dele, na minha frente.
- É, as cantadas acabaram agora, graças a Deus. Acho que ele finalmente percebeu que nós não caímos na de caras como ele. Mas ele está nos saindo um bom amigo, Lene. Deixou de ser só o cara que anda com meu irmão e meus amigos, sabe.
- É, ótimo, vocês estão virando amigas de Sirius Black. - Frank disse se virando para trás, num arrombo de ciúmes.
- Nem vem, Frank. - Alice retrucou, como se nem soubesse da existência do amor dele. - Sirius é, sim, nosso amigo.
Eu olhei culpada para ele.
- Você sabe que isso não é possível. - Ele respondeu, olhando para Alice.
- E por que não? - Eu perguntei, tentando parecer casual, pra interromper a discussão dos dois. Mas acho que parecia mais uma afronta.
- Porque Sirius não tem amigas, Lily. Para ele, só existem dois tipos de mulher: As que ele já pegou, e as que ele está cercando. - Ele respondeu, se virando para frente de volta.
- O que não quer dizer qu- Eu comecei, mas Alice me interrompeu.
- Ah! E você tá querendo dizer que Sirius pega todas, então? Não é possível uma menina que está 'cercada' por ele escapar? Tenha dó, Frank. Você sabe que não somos assim. - Alice terminou, começando a escrever no próprio caderno.
Marlene fez um barulho estranho com a garganta e me passou um pedaço da folha do seu caderno, para eu passar para Alice. Como o objetivo de Lene era que eu visse o bilhete antes de entregá-lo, eu dei uma olhada rápida:
Não seja tão cruel, Lice. Você sabe o que ele tem. - MM
Eu deixei o papel em baixo do estojo de Alice, virei pra frente e terminei de copiar toda a matéria, quando o sinal tocou.
- Lils, vamos no banheiro? - Lene me perguntou, olhando significativamente pra mim. Eu podia ler dentro das íris dela: 'Deixe os dois se acertarem'.
- Estou apertadérrima. - Eu concordei e nós saímos da sala, antes que Alice pudesse terminar de guardar o material.
Quando nós voltamos, Alice estava na porta, nos esperando de braços cruzados. Ela esticou-os para nós, pegando cada uma por uma mão e nos abraçou.
Estranho? Não para Alice.
- Que foi, Alice? - Lene perguntou, a voz abafada pelo aperto.
- Estou triste, por Frank, só isso. - Ela respondeu, nos largando.
- Hum, então você deveria abraçar ele, não? - Lene perguntou, hesitante.
- Cale a boca, Lene. - Alice balançou uma das mãos para Marlene. - Se eu abraçar, ele vai ficar mais acabado ainda.
- O que você disse pra ele? - Eu perguntei, pensando no que teria feito Frank ficar acabado. Mas aí lembrei que Alice nunca faria isso com ninguém, nem com Frank. Então eu deduzi que ela estava o achando acabado porque ele deve ter se declarado novamente pra ela.
- Não consegui dizer nada, oras. - Ela respondeu, com cara de desolação. - O que eu poderia ter dito? - Ela perguntou, pedindo conselho.
- Vamos pensar nisso, Lice. Mas se você não diz nada toda vez, ele deve ficar sempre com mais esperança. - Marlene respondeu rapidamente. Mas depois de um segundo pensando, ela emendou: - Ou não.
Eu ri sarcasticamente.
- Claro que não, né. Ele não fica com mais esperanças, ele fica a ponto de se matar toda vez que ele vê que as declarações dele não dão resultado.
- E por que diabos ele continua tentando? - Alice reclamou, fazendo careta. - Eu não consigo ser realmente amiga de Frank se toda vez que ele me olha eu me lembro dele se declarando. Eu gosto dele, sabe, mas ele podia facilitar as coisas. Vocês duas - ela gesticulou para nós - podiam falar pra ele tentar pensar em outras garotas sabe, tentar me esquecer.
- Sim, desencanar. Já falamos, e você sabe disso, Alice. - Eu respondi, cansadamente. - Eu já disse que não rola. AH, a gente esqueçeu de te contar! - Eu lembrei, olhando para Marlene. - Ontem a Lene até deu umas indiretas pra ele, sobre o Steve.
- E...? O que ele disse?
- Nada! - Nós duas respondemos juntas.
- Hum, então deve ter sido esse o motivo dessa repentina declaração. - Ela falou tristemente.
Mas de repente o rosto dela se iluminou. Não que qualquer outra pessoa pudesse perceber, mas nós - eu e Lene - podíamos. Os olhos dela pareciam ficar até mais claros, sei lá. Eu sabia que eu também ficava assim perto de James. AINDA BEM QUE NINGUÉM SACAVA. Só nós três nos entendíamos tão bem.
- Ei gurias. - Steve chegou de frente para Lene, passando o braço por cima do meu ombro e do ombro de Alice. Eu passei o meu braço pelas costas dele, me sentindo confortável, mas no mesmo instante eu percebi uma certa rigidez vindo de Alice. Mas com certeza era imperceptível para os outros. Sério mesmo, quem olhava para nós, incluindo o grupo todo, até Lene e Frank, podia pensar em um grupo de primos, ou algo assim. Porque era tudo tão natural, que realmente eu não podia culpar os meninos por não desconfiarem disso. Não que eu quisesse que eles desconfiassem, né, mas quer dizer, nem Frank desconfiava de Steve e Alice! Ele tinha ciúmes de Sirius, mas de Steve não. Então acho que nós fingíamos muito bem.
- Oi Steve. - Marlene respondeu, se inclinando e beijando sua bochecha. Ela esperou até Sirius e James chegarem até nós para cumprimentá-los. Tendo sempre um pouco de relutância quando chegava a vez de Sirius. Ela não beijava sua bochecha como fazia com os outros, nem nada. Ela simplesmente encostava a sua bochecha na dele (com certa violência) e se afastava, sem emoção.
Mas a gente sabia que um dia eles se acertariam. Nós, eu digo, o grupo todo. Menos a própria Marlene. E a gente pode desconsiderar Sirius também, porque ele deve pensar em Lene como mais uma conquista, tipo, ele vai lutar até conseguir. Mas enfim, continuando.
Steve olhou para frente e de repente pareceu se lembrar de algo. Ele deu um sorrisinho para James e foi se afastando, desaparecendo pelo corredor lotado.
- O que foi que ele viu? – Marlene perguntou, rindo incrédula.
- Hum, digamos que ele está tendo um dia legal hoje. – James falou, e eu queria matar a vadia que estava dando em cima do meu irmão. Será que elas não se contentam com o ex-artilheiro gostosão do colégio? Sirius nem para isso serve, acalmar as veteranas idiotas. Por que é que elas têm que ficar dando em cima dos nossos caras? E de repente, eu tive uma brilhante idéia: A gente poderia tentar uma troca, sabe, de Steve por Frank. Ok, não que Frank seja super lindo&gostoso como meu irmão, mas ele é bonito também. E ele é do time da escola agora. Nós ajeitaríamos as coisas para Alice, que sempre faz tanto por nós. Frank desencanaria dela, e Steve seria salvo das garras de uma oxigenada. Hum, em tese, era um plano bom, mas totalmente inviável na prática. Porque, sem ofensas à Frank, ninguém em sã consciência trocaria meu irmão por ele, sabe. Não quando Steve é um dos marotos, que no caso, são o maior sucesso de Clinton Stewart.
- Tudo bem então, se Lily realmente estiver de acordo... – Eu fui trazida de volta à realidade por James verbalizando meu nome. Isso sempre me trazia à realidade. Ou me tirava dela.
- Hum, desculpe? Me perdi. – Eu disse, revirando os olhos. Namoral? Eu não sei como eu espero que James um dia me olhe de forma diferente se eu sou tão tapada. Tipo, eu vivo me perdendo nas conversas, eu devia ficar que nem uma mongol olhando pra ele e quando ele sorria, eu só conseguia pensar em como eu queria que ele fosse meu. E como é que eu poderia disputar com as veteranas? Elas eram lindas, loiras, gostosas e populares. E mais velhas.
- Eu acabei de dizer a Sirius e James que nós vamos à festa, no sábado. Mas que assim que o show acabar, eu e você vamos embora.
E James tinha aceitado SÓ se eu estivesse de acordo? Ai, que fofo. Pena que ele só se preocupava com isso porque era o bem-estar da irmãzinha em jogo. Ugh.
- Ah, sim. É. A gente vai lá pra casa depois, porque nós concluímos que, hum, vai ser em vão ficarmos lá nos torturando, já que vocês é que vão cuidar das coisas da banda.
James sorriu para nós e eu estava num habitual estado de torpor muito bem disfarçado quando Lene falou do treino:
- Oh, meu Deus, o treino! Frank vai nos matar. - Ela começou a me puxar pela mão, levando Alice junto.
- Vocês não vêm, meninos? – Alice perguntou enquanto nós éramos arrastadas pelo corredor, indo para o jardim, para assistir o treino de Frank. Os treinos acontecem durante a semana toda, quando tinha jogo no fim de semana. E acontecem no intervalo e na saída das aulas, ou seja, as arquibancadas tremiam sobre o peso de tantos estudantes juntos, e os jogadores enlouqueciam com tantos gritinhos afobados.
- Ah, me poupe... – Eu ouvi uma voz arrastada atrás de mim. - Lily, abaixe sua cabeça, por favor, eu não consigo ver esses idiotas jogando.
Alice e Marlene se entreolharam, divertidas, esperando minha reação nada gentil, que sempre vinha, quando o assunto era Dênis Henk, o idiota do colégio. Sabe aquele garoto que gosta de arranjar briga, só pra ficar ouvindo todos os seus seguidores gritando 'vai, acaba com ele!'? Sabe aquele cara que acha que é muito bom, só porque é do time da escola e tem um monte de animadoras de torcida grudadas nele? Que tira sarro de todo mundo que não tem uma mansão em um bairro rico da cidade, e que implica com pessoas que se vestem de um jeito exótico? Que ganha do pai um carro diferente por ano, e sempre desfila pela cidade, com a música no máximo e um monte das mesmas animadoras de torcida no banco? Aquele que acha que só porque tem um corpo legal, com músculos super definidos, ele pode qualquer coisa. Que acha que pode ficar com qualquer garota que ele queria, só porque ele se acha o cara mais popular da escola? Que não sabe perder? Que te enche o saco desde a sétima série pra ficar com ele, e que, como não aceita perder, fica te irritando na esperança de você ceder? DÊNIS É EXATAMENTE ESSE CARA.
- Escuta, Dênis, ainda tem vários lugares mais para frente, então por favor, PÁRE DE TORRAR A MINHA PACIÊNCIA, e saia daqui, se você está tão encomodado. Ou sei lá, simplesmente nos livre da sua odiosa presença, já que você está com tanta inveja dos jogadores. Por que mesmo? – Eu falei, estreitando meus olhos como se pensasse. – Oh, sim, porque você foi excluído do time esse ano. – Eu terminei, me virando para frente novamente.
- Hum, está mais bravinha esse ano, Lilyzinha? – Ele falou, curvando-se para frente e sussurrando no meu ouvido. – Estou começando a ficar arrependido de não ter falado com você antes.
- Antes como, Dênis, se a aula começou essa semana? – Eu revirei os olhos, sem virar para trás. – Hoje ainda é quarta-feira, tenha dó. EU adorei a escalação desse ano, então por favor, me deixe assistir esse treino em paz.
Ele deu aquela risada idiota dele que ele pensa ser sarcástica e parou de me encher a paciência.
- Ele está cada vez mais ridículo. – Lene falou pra mim, após uma tripla revirada de olhos.
