Capítulo II – Harpias versus Falcões

Capítulo II – Harpias versus Falcões

- Potter! – Sua chefe, Rita Skeeter, sempre a chamava de Potter, nunca pelo primeiro nome. E sempre com um tom de desprezo. Sabe-se lá Deus por quê. De volta à sua escrivaninha, apenas levantou a cabeça para mostrar que estava escutando. Skeeter apoiou-se em sua mesa e inclinou o corpo, seus óculos faiscando na luz artificial da sala. – Potter, quero que vá cobrir o jogo de amanhã: Harpias versus Falcões. Quero, junto da cobertura, um estudo mais aprofundado da história dos dois times. E – Skeeter levantou o indicador, tentando parecer ameaçadora. – Quero que com isso, as cartas das fãs dos Harpias venham com elogios apenas. – Pronto, lá vinha ela me lembrar do fatídico artigo. Tratava Gina como se ela ainda fosse uma adolescente que precisa ser relembrada dos próprios erros. Passados vinte anos, Skeeter mudara muito pouco, tanto na aparência como na personalidade. Ao passo que Gina mudara muito, mesmo não parecendo ter quase quarenta anos.

- Rita, eu não vou ser parcial. Posso fazer o estudo, mesmo ele sendo dispensável, e não vou florear nada. Trabalho com isso há muitos anos, posso escrever a história dos dois times perfeitamente. – Gina estava com vontade de esganar sua chefe, mas falou num tom parecendo apenas levemente contrariada. Fazer um estudo? Ela não era uma estagiária ou principiante! Há muitos anos já trabalhava com Quadribol, oras! Tinha jogado no Harpias de Holyhead por anos! Mas Skeeter ainda era sua chefe. Faria o que ela estava pedindo apenas para amenizar o problema com os fãs do Harpias. E seria imparcial, totalmente profissional como sempre.

- A Sra. Potter está insinuando que, além de eu estar tentando influenciá-la, não sei o que é dispensável e o que não é? – Ela apontou para seu crachá. – Aqui está escrito editora-chefe, vê? Eu é que digo o que é dispensável. Quero este estudo amanhã de manhã na minha mesa para aprovação. Boa tarde, Potter.

Skeeter virou-se e saiu batendo os saltos no assoalho de madeira. "Vaca", pensou Gina. A única vantagem deste trabalho é que ele ocuparia sua cabeça e forneceria a ela alguém a quem dirigir sua raiva. Pôs-se, então, a trabalhar.

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Quando terminou o maldito estudo viu que já era muito tarde, restavam poucas pessoas no prédio. Levantou-se para deixar seu trabalho na mesa da chefe, como pedido, e encaminhou-se para o elevador. Seus olhos pesavam de exaustão; há muito lhe fora receitado o uso de óculos, mas sua teimosia não a deixava admitir que realmente necessitava deles. Além do mais, ela achava que os óculos deixavam-na mais velha.

Caminhou pelo pavilhão de entrada pensando se deveria comprar alguma comida no caminho para casa. Provavelmente Harry também chegaria tarde e ela não estava com nenhuma vontade de cozinhar. Ao descer os dois últimos degraus da escada da frente do prédio, ouviu passos vindo da sua direita, passos que a retiraram de seu devaneio. A rua estava quase deserta, quase. Um vulto alto, loiro e coberto por uma pesada capa preta caminhava decidido em sua direção. Gina estagnou, como se estivesse com o feitiço da perna presa sobre si. Draco Malfoy parou à sua frente, levantando os olhos e sorrindo de leve.

- Boa noite, Sra. Potter. – Ele falou, sem desfazer o sorriso, como se soubesse o quão nervosa ela estava. Demorou alguns segundos até que Gina saísse de seu estado de total imobilidade e conseguisse fazer com que seu cérebro formulasse uma resposta coerente e inteligível:

- Ba- Boa n- noite, Malfoy. – Seu cérebro tinha falhado miseravelmente. "Sra. Potter?". Ele falava como já tivesse a conhecido casada. Bem, todos a tratavam assim, e com ele não seria diferente, mas nem em mil anos ela conseguiria chamá-lo de Sr. Malfoy. Os segundos arrastaram-se. Ele continuava parado ali, sem falar nada, apenas a fita-la e sorrir. Passaram doze mil tópicos na cabeça de Gina para começar uma conversa, mas nenhum pareceu natural. Quando ela enfim tomou fôlego e abriu a boca para perguntar o que o havia levado até ali, ele cutucou de leve o braço dela e perguntou:

- Toma um café comigo? – Ele falou de uma forma tão natural, tão confiante, que Gina nem cogitou a possibilidade de não aceitar. Simplesmente balançou a cabeça em sinal afirmativo e desceu os degraus restantes em silêncio. Malfoy simplesmente caminhou ao lado dela, em silêncio também, rumo a um café do outro lado da rua.

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O café era aconchegante e quentinho, o que fez com que as bochechas de Gina, já vermelhas pela estranheza da situação, quase pegassem fogo. Malfoy pedira dois cafés e sentara na cadeira a frente. Enquanto não vinha o pedido, ela tirou o casaco e começou a olhar em volta, na esperança de adiar qualquer tipo de conversa. Contudo, ele parecia ter notado a estratégia e apenas continuava a olhá-la calmamente. Estavam sentados em uma mesa bem ao fundo, com uma visão desimpedida da porta, mas com privacidade suficiente. "Privacidade para quê?", Gina perguntava-se. Não sabia. O garçom chegou com os cafés, o que pareceu a ela o sinal para começar a falar.

- Gostaria de saber se há algum propósito nisto. – E, gesticulando em direção às xícaras de café e depois para eles próprios, continuou. – Foi um acaso você estar passando na hora exata em que eu saía do meu trabalho?

- Sim e não. – Malfoy respondeu. É, pelo jeito ele não facilitaria nada.

- Oh, ótimo. Isso explica muito. – Gina bufou contrariada e bebericou seu café.

- Sim, há um propósito. – E agora ele já não tinha nenhum sorriso no rosto. – Não, não foi por acaso. – Ele pausou, como se as palavras fossem maiores do que sua boca. – Eu notei, hoje na hora do almoço, que a esposa do herói do mundo mágico olhava-me insistentemente. – A ênfase no herói teve uma nota sarcástica, levíssima, mas teve. - E fiquei martelando na minha mente, tentando descobrir o motivo, porque aquela não fora a primeira vez em que eu tinha a sensação de ser o alvo, mais vezes do que o normal, desse mesmo olhar insistente. E não posso negar que me passaram vários motivos pela cabeça. – Ele gesticulava teatralmente, mesmo que sua voz estivesse num tom baixo. Gina ouvia tudo com a boca levemente aberta e os olhos grandemente alargados, estarrecida. Malfoy, sem parecer notar nada, continuou. – Desde os mais vaidosos até os mais paranóicos de minha parte. Pensei tanto que, confesso, meu dia foi como um borrão confuso.

O silêncio que se seguiu após esse "desabafo" de Malfoy foi um dos mais estranhos que Gina já vira. Os sons ambientes e das pessoas ao redor tornaram-se zumbidos. Ambos pareciam não respirar. Ela tinha certeza absoluta de que fora totalmente discreta todas as vezes em que ficara olhando (e tentando não olhar) para o loiro a sua frente. Malfoy, que sempre parecera um vampiro de tão pálido, encontrava-se, naquele momento, levemente corado nas bochechas. Seus olhos brilhavam, mas Gina não soube distinguir se era malícia, diversão ou curiosidade. Ele esperava uma resposta, mesmo não tendo perguntado nada diretamente.

- Eu sei que pode parecer estranho... – Gina começou, mas sentiu-se engasgar. Não sabia realmente o que responder, então resolveu negar. – Mas tenho certeza que foi pura imaginação sua...

- Então por que aceitou meu convite, totalmente inesperado, mas prontamente aceito? – Claro, Gina fora estúpida e não havia pensado. Aquele convite fora um teste. Obviamente, ninguém aceitaria um convite de um homem com um passado não muito imaculado, um homem que conhecia só de vista, que sempre a desprezou e que sempre recebera esse mesmo desprezo como resposta. Bom, nem sempre. Ela não passara no teste. Ou será que sim?

- Qual é o motivo que lhe passa pela cabeça agora? – Se aquilo era um jogo, ela jogaria para ganhar.