II
Apesar de ter reflectido sobre o que lhe aconteceria a seguir no pouco tempo que esteve preso pelos agentes da SHIELD em Midgard, Loki não poderia estar menos preparado para as consequências dos seus actos. Muito menos queria olhar nos olhos de Odin, a quem chamara de pai por tantos anos. E Frigga, a sua mãe. De todos, era por ela que ele ainda sentia uma ligação, ela que era sempre tão amável, e sempre fora quem lhe dera maior reconhecimento em tudo o que fazia. Não iria suportar estar na sua presença, ver o seu olhar desapontado.
Tudo o que fizera, por tudo o que passara… Loki não poderia estar mais perdido.
Quando os seus pés pousaram no bordo estilhaçado da Ponte Arco-Íris, tudo caiu sobre ele. Fora dali que caíra para o abismo. Fora ali que o pai lhe disse que não era digno de ser seu filho. As lembranças da sua vida passada em Asgard assaltaram-no. As brincadeiras, as lutas, a sua relação com Thor, a sua magia… Sabia que os seus actos em Midgard provavelmente lhe custariam uma terrível punição, e por isso a sua vida ali nunca mais seria a mesma. Nem ele queria ficar ali. Preferia que o mandassem para um local distante e que nunca mais voltasse.
Por um momento sentiu-se vazio, mas depois de olhar para o horizonte, dourado e brilhante, de Asgard, os seus olhos encheram-se de lágrimas. Lutou para que elas não caíssem, não se iria deixar vencer pelo sentimento naquele momento.
Thor tentou alcançar o seu braço mais uma vez para o fazer mover para a frente. E mais uma vez ele o desviou, e começou a andar. Mas Thor interceptou-o e colocou-se à sua frente. Olhou-o nos olhos. Loki fez os máximos para não desviar o olhar. Thor abriu a boca para falar, mas não conseguiu reproduzir nenhuma palavra. Desviou-se em fim da sua frente e os dois seguiram caminho. Já em Midgard, Thor não lhe dirigira uma palavra, e ali, naquele momento, Loki compreendera que não fora por medo ou por ressentimento, mas sim porque não sabia o que lhe dizer.
Ao longo do percurso até à entrada do palácio dourado, o coração de Loki começou a bater com mais força e mais irregularmente. Passaram pelo túnel rodeado pelas estátuas dos antigos reis, e finalmente chegaram às grandes portas de ouro que estavam abertas para o hall que dava para as outras partes do palácio. Subiram as escadas que levavam para o grande salão principal, onde se encontrava o trono.
Mal entraram avistaram Odin sentado no trono, com Heimdall a falar a seu lado. Ambos se viraram para eles quando entraram no salão. Heimdall parou de falar e Odin levantou-se do trono. Não pareciam surpresos de eles estarem ali, pois Heimdall devia tê-los visto chegar e ter avisado Odin. O ar parece ter abandonado Loki, e o seu coração parou por um segundo.
Odin deu um passo na sua direcção. Ao vê-los ali parecia estar mais envelhecido, e os seus olhos deixavam notar uma sombra de tristeza. Quando falou, fê-lo na sua voz grave e autoritária, contudo um pouco enfraquecida.
- Thor, por fim chegaram.
- Pai! – bradou Thor. Dirigiu-se para Odin e deu-lhe um forte abraço.
- Thor, Heimdall contou-me tudo o que se passou em Midgard. Estou feliz que estejas bem.
- Já devia saber que não tem de se preocupar comigo. – disse Thor com um sorriso.
Loki ficou para trás à entrada do salão a observar o pai e o irmão. Depois de cumprimentar Heimdall, Thor voltou para o lado de Loki, que mantinha os olhos baixos.
- Pai, trouxe-lhe o Loki, para que ele possa ser julgado pelos seus actos. Afinal é aqui que ele pertence.
- Sim… - Odin virou-se para Loki e observou-o dos pés à cabeça, sem nunca este cruzar o seu olhar. – Estou muito desapontado contigo, Loki. Mas ainda és meu filho… Também cometi erros contigo, reconheço isso. No entanto, aquilo a que sujeitaste milhões de pessoas inocentes não tem desculpa. Terás de ser sujeito a uma punição, seja ela qual for. É isso que dita a lei de Asgard.
Loki pensou na dimensão daquilo que trouxera para Midgard. Sim, centenas de pessoas tinham morrido, mas Thor e os seus novos companheiros de armas tinham agido e salvado o dia. Tinha sido educado toda a sua vida a lutar e a defender os seus amigos e familiares de possíveis perigos. E agora, era ele quem representava uma ameaça à paz, e Odin não poderia tolerar isso.
- Loki, a tua mãe e eu, nos passados dias deliberámos sobre qual seria o castigo mais apropriado para ti. Não chegámos a uma decisão, pois queríamos ouvir a tua versão da história.
Pela primeira vez, Loki olhou directamente nos olhos de Odin, olhos de um profundo azul que apesar de severos, ainda demonstravam um vestígio de complacência. Isso fez Loki retrair-se e esconder de novo o rosto.
- Guardas! – chamou Odin – Retirem a mordaça e as algemas do meu filho.
Dois guardas aparecerem por trás de Loki, que não se moveu enquanto eles o libertaram. Mesmo tendo agora a boca livre para falar, Loki não fazia intenções de contar nada a Odin. De que adiantaria? Preferia que lhe dissessem de vez qual seria a sua pena. Não havia nada que pudesse fazer ou dizer para mudar o que estava feito.
Thor permanecia em silêncio. Observava o pai e o irmão com relutância e medo do que poderia acontecer de seguida.
Ouviram-se passos ao fundo do salão. Era Frigga. Parecia surpreendida com a cena que os seus olhos viam. Aproximou-se com passos lentos mas precisos. Observou Odin, e depois Thor, e por fim Loki. Uma lágrima cintilante caiu pela sua face. Primeiro hesitou, mas depois com passos mais rápidos foi ao encontro de Loki e abraçou-o. Ao princípio não reagiu, mas o toque gentil e familiar da sua mãe fez com que Loki colocasse os braços à volta dos seus ombros. Frigg afastou-se por fim, colocou as mãos no seu pescoço e beijou-o na testa.
- Quero que saibas que ainda és meu filho e que te amo muito. Eu ainda acredito em ti.
Loki sentia o peito apertado, não sabia o que havia de dizer. Não estava à espera daquilo. A única coisa que conseguiu fazer foi um pequeno aceno, enquanto lutava para as lágrimas não caírem.
Ficaram todos em silêncio durante um instante, até que Odin o quebrou.
- Muito bem. Agora Loki, queremos ouvir a tua versão dos factos. O que aconteceu depois de caíres da ponte Arco-Íris?
Loki não sentia forças para responder. De tudo o que lhe acontecera, essa era a parte mais dolorosa. Todos os olhos estavam postos nele, á espera de uma resposta. Loki olhou para baixo, para os seus próprios pés. Sentia a boca seca e um nó na garganta – há dias que não falava, desde que tinha sido preso em Midgard.
- O que quer mesmo saber? – foi tudo o que Loki conseguiu dizer numa voz rouca.
- Tudo, meu filho…
- Meu filho…? – sussurrou Loki. Olhou para Odin e abanou a cabeça. – Não... Eu caí no nada… Podia muito bem ter morrido que nenhum de vocês se importaria. Eu tentei de tudo para o deixar orgulhoso, mesmo não sendo seu filho verdadeiro. E para quê? Para cair no abismo, sei lá onde…
- Nós pensamos-te morto… - começou Odin a dizer.
- Sim, eu sei. Lamentaram a minha morte, o Thor fez o favor de me informar. Enquanto vocês estavam aqui seguros em Asgard, eu caí pelo vazio do universo. Pensava que estava tudo perdido, mas com o auxílio da minha magia consegui por fim alcançar um reino exíguo.
Loki baixou o olhar. Não aguentava mais aquilo. As lembranças daquele local perdido no tempo ainda lhe davam arrepios. Já passara mais de um ano que caíra da Ponte Arco-Íris, há muito que Asgard não era a sua casa. Todas as memórias do seu passado lhe pareciam dolorosas. Loki julgara que colocar os sentimentos de fora iria solucionar tudo, e que assim poderia focar-se nos seus objectivos. No entanto isso não resultara.
- O reino dos Chitauri. Uma raça alienígena, quase tão antiga como o universo. – esclareceu Odin – Lembro-me de batalhas que o nosso reino defrontou contra eles, há centenas de anos atrás, muito antes de vocês nascerem. Depois de tantas derrotas, por fim os Chitauri desistiram das suas conquitas e retomaram o seu antigo reino. O seu desejo era ter nas mãos o Tesseract, que lhes proporcionaria um poder que nem eles poderiam acarretar. Por muitos anos, mantiveram-se em silêncio e no sossego do seu reino. Diz-me, Loki, o que aconteceu para isso mudar?
Loki sabia bem o que fizera os Chitauri despertar para propósitos maiores. Thanos. O inquestionável novo líder dos Chitauri. Aquele que prometera vingança a Loki se ele falhasse.
- Eles têm um novo líder, Thanos. Ele prometeu-lhes a conquista de galáxias, planetas e outros reinos. O orgulho dos Chitauri cresceu e tornaram-se mais fortes. Thanos é um tirano, ele subjugou-os, mas eles veneram-no pois foi ele quem os ajudou e os tirou da miséria de mundo em que viviam. No entanto, faltavam-lhes a arma indispensável para a concretização do seu plano. O Tesseract.
Loki calou-se. Thor observava-o com um ar de consternação. Frigga parecia seriamente angustiada. A seguir foi Odin quem falou.
- O Tesseract é uma arma poderosa demais para qualquer entidade existente. Energia ilimitada. Por muito tempo o Tesseract esteve protegido em Asgard. Contudo, no meio de batalhas, no meio da guerra, acabou por desaparecer. Nunca lhe encontrámos o rastro. Pensei que talvez tivesse caído num reino longínquo e que ninguém o descobriria. Foi isso que aconteceu. O Tesseract caiu em Midgard, e por centenas de anos ficou lá, escondido e inactivo. Até que mortais mais ambiciosos se deparam com o seu real poder. – Odin parou de falar e virou os seus olhos aguçados para Loki – O que aconteceu depois de descobrires os Chitauri?
Loki andara dias à deriva, até que os Chitauri o encontraram. Fizeram-no seu prisioneiro, mesmo sem saberem quem ele era e de onde vinha. Fora Thanos quem insistira para que eles investigassem o estranho visitante. Ao princípio Loki recusara-se a responder a quaisquer perguntas. Por isso, tinham decidido então recorrer a métodos mais drásticos. Torturam Loki durante dias. Como ele estava fraco e já tinha há muito perdido a noção do que realmente se passava, acabou por ceder e contou-lhes tudo. Isso não mudara quase nada. Thanos decidira usar Loki para os seus planos. Mantinham-no preso, e sempre que Loki se recusava a responder ou a executar algum encargo, recorriam à tortura. Parecia a Loki que apreciavam particularmente torturá-lo. Passar de príncipe a servo. Foram dias longos, que Loki não lembrava com saudade. Nunca na sua vida sofrera assim, sem ninguém para o ajudar. Num dia de desespero, quando falhara numa missão destinada a recolher dados sobre o Tesseract, quando pela primeira vez Thanos o contactou directamente, Loki decidira oferecer todo o seu poder e conhecimento que pudessem ser valiosos para a causa. Arriscaria a sua própria vida para sair daquele local condenado. Por isso, Thanos delegou-lhe a missão de investigar Midgard.
A voz de Frigga fê-lo voltar ao presente.
- Eles torturaram-te, não foi? Lamento imenso, meu filho. Heimdall procurou pelos céus, por todo o lado, mas não encontrámos vestígios do teu paradeiro. Eu perdi uma parte de mim quando desapareceste.
Frigga aparentava ser a única a realmente sentir a perda de Loki.
- Não importa. – murmurou Loki – Nós entendemo-nos e fizemos um acordo: eu dava-lhes o Tesseract em troca de um exército para tomar Midgard.
- Mas porquê? – questionou Odin – Quais eram os teus planos para Midgard?
- Porquê? Porque eu fui feito prisioneiro, torturado e ameaçado de morte. Que mais podia eu fazer. Era o meu plano de fuga. E talvez conquistando Midgard conseguisse provar a minha força, e trazer concórdia aos mortais. Dominá-los, levá-los a abrir os olhos para novos mundos.
- O que fizeste não está certo, Loki. – Odin parecia cansado - Centenas de pessoas morreram por tua causa. Aqui em Asgard, nós sempre protegemos Midgard. Subjugar a raça humana não seria a melhor solução para escapares do controlo dos Chitauri.
- Não tive outra hipótese.
Odin parecia estar a medir a situação. Os seus olhos semicerrados escrutinavam Loki.
- Qual vai ser então a minha punição? – Loki sentia-se fatigado e só queria saber de uma vez o que lhe iria acontecer.
- Loki, o que fizeste está para lá da razão. Posto isto, não tenho outra solução senão arranjar uma forma de te penitenciar que seja adequada aos teus crimes. Contudo, sendo meu filho, eu ainda tenho esperança de te ter de volta. Espero que o rapaz amável e bondoso ainda esteja aí dentro. – Odin voltou-se para um dos guardas – Leva-o para os seus antigos aposentos, onde permanecerá preso esta noite. – voltou-se de novo para Loki – Eu, a tua mãe e o teu irmão iremos conversar e determinar o teu castigo. Amanhã ser-te-á transmitida a nossa decisão.
Loki ficou surpreendido com as palavras de Odin. No entanto, ficou aliviado por ter sido dispensado, e poder finalmente ficar sozinho.
O guarda aproximou-se de Loki e colocou-lhe de novo as algemas. Quando lhe ia colocar de novo a mordaça, Loki fez por se desviar, não aguentava mais aquela tortura. O guarda olhou para Odin, que acenou e deu ordem para Loki não ser de novo amordaçado.
Loki avançou em frente ao guarda, que o agarrou pelo braço. Antes de sair da sala do trono, Loki olhou para Frigga que lhe sorriu, mas Loki não conseguiu retribuir o sorriso, e seguiu em frente. Atravessaram o palácio até ao quarto de Loki. Quando chegaram à porta, sentiu uma estranha sensação familiar. Há meses que não entrava ali, o único local em Asgard que era só seu. O guarda abriu a porta, retirou-lhe as algemas, fez um gesto para ele entrar e fechou então a porta nas suas costas.
Tudo lhe parecia igual, estava tudo mesmo lugar e nada parecia mexido. Provavelmente ninguém entrara ali desde que ele estivera fora. Por um lado, estar naquele lugar conhecido dava-lhe a impressão de estar em casa. Por outro, sentia que já não pertencia ali. A sua família estaria agora a julgar os seus actos. Loki não dissera muito em sua defesa, mas isso também não importava, não havia nada mais que pudesse dizer ou explicar, eles não entenderiam.
Loki começou a andar de um lado para o outro. Estava exausto e fraco. Sabia que não valia a pena pensar numa forma de escapar, também já não tinha força para isso. Parou em frente ao espelho de parede, e observou o seu aspecto. Os seus brilhantes olhos azuis estavam encovados e rodeados de persistentes olheiras. O seu cabelo preto-corvo estava longo, já passava dos seus ombros. A sua pele branca estava mais pálida que nunca, quase translúcida. Por momentos assustou-se, não reconhecia a imagem que o espelho lhe devolvia. Desviou o olhar e afastou-se, indo embater contra a sua secretária. Lá em cima estavam os seus apontamentos, todos organizados consoante o tema e a data. Na outra ponta, Loki viu outro dos seus objectos pessoais, um que lhe fez o coração parar de bater. O seu antigo elmo. Alguém o colocara ali depois de o ter perdido enquanto lutava com Thor. A sua cor dourada não parecia estar tão reluzente quanto se lembrava, pois há muito que não era polido. Também aparentava ter alguns arranhões resultantes do número de vezes que caíra. Loki aproximou-se dele e esticou uma mão para lhe tocar. Sentiu o metal fresco nos seus dedos. Memórias vieram-lhe à cabeça, e os seus olhos encheram-se de lágrimas. Deixou-as cair, já não estava ali ninguém para as ver. Virou as costas ao elmo dourado e foi até às portas que davam para a sua varanda. Sentia-se sufocado ali no calor do quarto e precisava de apanhar o ar puro do exterior. No entanto, a porta recusou-se a abrir. Claro, Odin tinha de o manter confinado. Secou as lágrimas e sentou-se no bordo da cama.
Lá fora, o céu começava a escurecer, e apenas as estrelas mais longínquas brilhavam. Loki estava exausto, mas não queria fechar os olhos e dormir. Perguntava-se se já teriam decidido o que lhe iriam fazer. A espera matava-o. Passado algum tempo acabou por adormecer.
(continua)
