Capítulo 2 – Amigo Abusado.

AMIGOS, AMIGOS, AMORES A PARTE

O dia estava excepcionalmente lindo e ensolarado, diferente dos dias frios e chuvosos que faziam em Coldwater. Os raios do sol batiam em meu rosto e faziam meus cabelos castanhos parecerem ruivos e brilhantes. Mas o que deixava aquela cena ainda mais radiante aos meus olhos, era o meu pai que estava a uns cinco metros longe de mim. Ele sorria, enquanto as covinhas apareciam em sua bochecha, e seus cabelos castanhos esvoaçavam diante da brisa gostosa e suave que passava.

Meu pai de alguma forma havia voltado. Ele estava vivo.

Não pude evitar que meus olhos lacrimejassem, enquanto uma onda de felicidade me consumia por dentro. Não entendia como ele estava ali, pois eu sabia que ele havia morrido. Eu havia chorado em seu túmulo, havia ficado quase um ano em luto por perdê-lo. Mas de alguma forma - que eu não sabia -, ele tinha voltado. Ele estava a minha frente, naquele campo florido e perfeito.

Tomei um impulso e corri até ele que abria os baços, me esperando que eu o abraçasse. Meu coração batia tão forte, eu estava estonteante de alegria. Tudo o que se passava em minha mente naquele momento era abraçá-lo e dizer para ele o quanto eu senti a sua falta, e que ele não era para me deixar nunca mais, pois de agora em diante nós iriamos ser uma família completa novamente.

Mas de repente, senti alguma coisa me fazendo parar abruptamente no meio do caminho. Olhei para o céu que se formava algumas nuvens brancas, e pude ver uma pena cair lentamente e suavemente. Estendi minhas duas mãos para frente e a aparei. Fiquei maravilhada com o tamanho que ela possuía, um pouco maior do que meu antebraço, e era tão preta que se tornava azul na claridade. E com isso me distraí. Segurei-a pelo cabinho cinza, percebendo algumas réstias de sangue na ponta. Passei meus dedos da minha outra mão por toda sua espessura, sentindo o quanto ela era macia e sedosa.

Sorri, erguendo meu olhar para frente, mas não encontrei meu pai. Meu sorriso morreu. Senti um aperto no peito, enquanto eu girava o meu corpo, olhando para os lados a sua procura, mas deparei-me com outro visual de cenário. O campo florido não existia mais, dando lugar a um cemitério com lápides empoeiradas e velhas. O chão estava sujo, cheio de folhas secas e galhos secos de árvores que haviam caído. O céu agora era enublado e cinzento, e o frio que fazia agora, deixava minha pele gelada.

Voltei meu olhar para frente, dando de cara com a lápide de mármore. Meu coração falhou uma batida quando vi o nome HARISON GREY - AMIGO, MARIDO FIEL, E BOM PAI entalhado na lápide.

Minhas pernas enfraqueceram. Caí de joelhos em frente à lápide de meu pai. Não pode ser. Eu não estava acreditando. Eu vi meu pai agora pouco. Como? Meus olhos começaram a lacrimejar, e desta vez era de decepção e angustia.

Senti uma presença ali, subi meu olhar do nome entalhado de meu pai no mármore para os pés que estavam em cima da lápide. Meu cenho franzia com tamanha grosseira dessa pessoa que ousava ficar em pé na lápide de meu pai. Meu olhar continuou subindo, fitando agora a calça preta de um tecido grosso, estava sem camisa, deixando todo aquele peitoral definido a mostra. Surpreendi-me quando meu olhar chegou ao rosto.

Era impossível não reconhecer aquele rosto quadrado, a boca com os lábios finos estava numa linha reta, os olhos mais negros quanto um mar de trevas, e os cabelos pretos e bagunçados deixava as mexas caírem por sua testa.

Patch estava em cima da lápide de meu pai, e o que mais me impressionou eram as asas negras que ele possuía nas costas. Ele estava parecendo uma pintura de um anjo demônio naquele cenário meio gótico.

Minha boca se entreabriu num espanto, enquanto minha garganta estava seca demais para que eu conseguisse pronunciar alguma palavra. Eu estava excepcionalmente chocada.

O vi descer da lápide com toda maestria, e se agachou a minha frente. Seu lábio esquerdo curvou-se lentamente num pequeno sorriso malicioso. Seus olhos desviaram para a minha mão, que segurava a pena negra. Ele a tomou de mim. E antes que eu dissesse alguma coisa em protesto, ele levou a pena até o meu nariz e começou a fazer cocegas.

Ri com aquele ato idiota, tentava afastá-la com a mão, mas Patch insista com a pena que passava pelo meu nariz.

Para. — dei um tapa em sua mão, tombando o meu corpo para trás desajeitadamente.

As risadas que Patch dava agora eram sonoras, fazendo-me franzi cenho, e ele continuou.

Para!

— Acorda dorminhoca. - senti um hálito em meu ouvido, enquanto meu nariz sentia alguma coisa macia o suficiente que me fez espirar.

Passei minha mão no nariz e espirrei mais uma vez antes de abrir meus olhos e dar de cara com ninguém mais e ninguém menos do que Patch a minha frente com um sorriso totalmente debochado nos lábios segurando uma pequena pena preta.

— Ahh! — meu grito saiu estrangulado, e sentei-me num rompante na cama, encostando as minhas costas na cabeceira e puxando automaticamente o cobertor até o meu pescoço.

Eu havia me assustado com aquele ser estupidamente lindo no meu quarto.

— Patch? O que faz aqui? - minha voz saía histérica, tentando entender o que aquele infeliz fazia ali.

Ele estava de pé ao meu lado, e seu sorriso só aumentou com meu estado incrédulo como eu olhava,

— Te acordado? - ele disse como se fosse a coisa mais óbvio do mundo.

Franzi o cenho.

Ele caminhou até a minha janela e abriu as cortinas de blackout, deixando a claridade entrar no meu quarto. Fechei meus olhos automaticamente, colocando o braço neles e os tirei lentamente, me acostumando com a claridade.

— Mas o que...

— Está na hora de acordar e ir para escola - ele me interrompeu, voltando sua atenção para mim. -, temos um trabalho para ser apresentado hoje, e eu preciso dessa nota para passar.

Eu o olhava totalmente incrédula, ignorando aquele pequeno e irritante detalhe de que ele conseguiria aquela nota nas minhas custas.

— Como você entrou aqui?

— Pela porta. - ele respondeu de uma forma como seu eu fosse débil.

Por um instante desviei meu olhar para seu perfil. Estava vestido todo de preto, e com aquela camisa do AC/DC que eu havia lhe dado no natal ano passado. Ele sempre dizia que ela era a sua favorita e eu sempre o via vestido com ela.

Franzi o cenho novamente, voltando ao foco.

— Patch, a porta estava trancada com três trancas. - minha voz saía cautelosa, procurando na minha mente que eu realmente havia trancado a porta. Eu sempre checava duas vezes antes de dormir, e tinha absoluta certeza de que eu tinha trancado a porta. Sempre fazia isso quando estava sozinha em casa, pois minha mãe viajava muito com o leilão.

— Suas trancas não são tão boas assim. - ele deu de ombros, abrindo o pequeno-porta joia que estava encima na minha cômoda.

Curioso.

Eu sabia que minhas expressões eram incrédulas. Patch às vezes tinha seu lado sinistro, e abrir portas trancadas, fazer ligações diretas em carros era uma dessas qualidades dele.

— Pare de mexer nas minhas coisas! - ralhei, deixando a coberta de lado e levantando da cama, mas logo me arrependi.

Ele me fitou de cima a baixo com aquele olhar avaliador enquanto aquele sorriso nojento se abria em seus lábios. Não pude deixar de ficar envergonhada com o meu pijama das meninas superpoderosas, totalmente ridículo, e sem contar que ele estava meio que furado nos lados.

— Que sexy. - seu olhar parou nos meus, e vi a zombaria que estavam neles. Minhas bochechas ficaram coradas, de vergonha e constrangimento, principalmente raiva.

— Sai do meu quarto! - o empurrei em direção a minha porta que estava aberta.

— A TPM chegou cedo hoje, foi? - ele questionava, olhando vez ou outra para trás, enquanto eu o rebocava porta fora do quarto.

— Não. Foi você que estraga o meu sonho maravilhoso aparecendo nele, e invade a minha casa. - parei na porta do meu quarto o fitando de cenho franzido.

Logo cedo e eu já estava me estressado com aquela criatura que estava mais bonito que o normal. Deus, por que o senhor me deu essa desgraça linda como amigo? Por quê?

Patch arqueou uma sobrancelha.

— Anda sonhando comigo, Nora? - lentamente o canto de sua boca erguia-se para cima, num sorriso estupidamente malicioso.

— Babaca. - fechei a porta na cara dele, sentindo os poros do meu corpo agitado.

— Anda logo que eu estou morrendo de fome. - sua voz saía abafada do outro lado da porta.

Bufei, irritada o suficiente para dizer alguma coisa e ser rebatada por aquele ser. Bom isso é o que ganho ser a melhor amiga de Jev Antony Cipriano. As garotas da escola morrem de inveja de mim por ser a melhor amiga dele, mas eu não via muita vantagem nisso. Patch me explorava e sempre me metia em encrencas, o que resulta por muitas vezes ficar de castigo e sem mesada.

Minha mãe Blythe, trabalha numa empresa de leilões Hugo Renaldi, coordenando leilões de bens e antiguidade em toda costa leste, e com isso ela viajava muito, ficando alguns dias fora da cidade a cada semana. E mesmo achando que ficar sozinha por muitas vezes fosse solitário, também tinha as suas vantagens. Eu podia sair à noite e voltar à hora que eu bem entendesse, mas eu tinha que sempre ficar em alertas nas ligações que mamãe dava para saber se tudo estava bem e se eu ainda estava viva.

Abri meu guarda-roupa e procurei o que vestir; um jeans skinny desbotado, uma camiseta cinza de manguinhas da Colcci que comprei no shopping mês passado, e meus tênis. Joguei a roupa em cima da minha cama bagunçada e abri o meu quarto dando uma olhada no corredor. E para o meu alívio, nem sinal de Patch, mas eu podia ouvir o barulho da televisão lá embaixo. Abusado.

Corri até o banheiro e o tranquei, fiz minha higiene e tomei um banho rapidinho, mas não molhei os cabelos, eu tinha feito uma chapinha neles ontem.

Voltei para o meu quarto e me arrumei, coloquei um pouco de brilho vermelho nos lábios, e um pouco de rímel nos cílios, deixei meus cabelos soltos, mas eu mantinha uma liga cor-de-rosa no pulso caso eu quisesse prendê-los.

Peguei minha mochila que estava num canto no chão, meu celular e saí do quarto. Desci as escadas e logo pude ver a figura de Patch totalmente largado no meu sofá, mexia no celular com a televisão ligada, sua mochila estava jogada ao lado do sofá.

— Você é muito folgado, sabia? - questionei, parando ao seu lado e joguei propositalmente minha mochila em sua barriga.

— Ei. - ele levantou seu olhar para mim, tirando a mochila de cima de si e a colocando ao lado da sua, no chão.

Ignorei-o e caminhei até a porta da frente, percebendo a porta fechada com as três trancas. Franzi o cenho e voltei até ele.

— Como você entrou aqui? - cruzei os braços. - A porta está trancada.

Pude vê-lo abaixar o celular mais uma vez e sentar no sofá, para depois ficar de frente para mim. E mesmo sentindo-me pouco incomodada com a invasão do meu espaço pessoal, eu não mudei minha postura e o encarei com a minha cara séria.

— Eu entrei pela porta de trás.

— Mentiroso.

Ele soltou um sorriso debochado.

— Ela está aberta.

Aberta?

Patch se postou atrás de mim, e levou suas mãos até meus ombros e começou a massageá-los.

— Você está tensa, Nora.

— Eu não estou tensa.

— Vai ficar com cabelos brancos logo cedo.

— Eu já falei que não estou tensa. - tentei virar para trás, mas ele não deixou. Me rebocou até a cozinha enquanto massageava meus ombros.

— Vamos fazer alguma coisa para a gente comer. - ele disse quando entramos na cozinha, me soltei de seu aperto, afastando-me dele.

Eu sabia muito bem que esse Vamos quer dizer: Vai fazer alguma coisa para eu comer.

— Por que você não come na sua casa? Você me explora. - comentei enquanto abria a geladeira procurando alguma coisa para poder preparar.

— A minha mãe saiu com o novo namorado ontem e até agora não voltou, esqueceu que tem um filho para alimentar.

Revirei os olhos. Peguei os ovos para uma omelete e uma caixinha de suco, fechando a geladeira com o pé, e o fitei sentado na cadeira com uma cara de indiferente.

A relação de Patch com a senhora Cipriano não era das melhores, e o fato dele nunca ter conhecido o pai não ajudava muito. Eu entendia a mãe dele em certos pontos, pois ser mãe solteira não deveria ser fácil, ainda mais quando não tinha o apoio da família e do pai do filho que havia sumido sem deixar rastros. Patch não a achava uma péssima mãe, mas ela era liberal demais e de alguma forma isso meio que estragava o relacionamento deles. Ele não teve a atenção e os puxões de orelha quando devia. Sabia que Patch sentia falta disso, falta de ser cuidado.

— Você tem que saber se cuidar sozinho. - murmurei.

— Mas não importa, tenho você para cuidar de mim.

Olhei para ele, e pude ver seu sorriso canalha. A sua indireta não havia me pegado de surpresa, pois aquilo era normal ele dizer para mim, entre outras indiretas que ele jogava e que eu fazia questão de ignorar. Sabia que ele fazia aquilo de brincadeira, mas para quem não sabia de nossa relação de amizade pensava outra coisa.

Terminamos de tomar o nosso café, e se eu disser que foi em paz eu estaria mentindo. Patch me perturbava, me zoava, e me deixava maluca.

O que eu fiz de errado para ter um amigo assim Deus?

Pegamos nossas mochilas e destranquei a porta da frente e saímos por ela, realmente a porta estava trancada e até esquecei de conferir a de trás. O Jeep Commander estava estacionado de frente para a minha casa, apenas sentei-me no banco do carona e ele foi para banco do motorista, e logo estávamos seguindo em direção ao colégio.

— Terminou de fazer o nosso trabalho? - ele perguntou fitando a rua à frente.

Meu trabalho você quer dizer, não é? Por que você não me ajudou em nada. - Uni as sobrancelhas. - Onde diabos você estava ontem?

— No fliperama do Boo.

Fliperama do Boo era um local onde pessoas que não tinham nada para fazer frequentavam. Eu só tinha ido aquele lugar uma vez para nunca mais. A música era barulhenta e fazia os ouvidos doerem, o cheiro de charuto impregnava o local, quase fiquei com câncer de pulmão com a quantidade de fumaça que inalei só por acompanhar Patch por alguns minutos.

— Jogando de novo?

Patch era meio que viciado em jogo de baralho, ele apostava muito e às vezes ficava tão focado no que fazia que passava dias socado lá naquele lugar, e faltava dias de aula, o que resultou nas sequências de notas vermelhas no boletim e estava a um passo de ser reprovado mais uma vez.

- Consegui dois mil dólares. - ele me olhou de solaio e sorriu, voltando sua atenção para frente novamente, virando à esquerda.

— Isso não é vida, e você sabe disso. - falei, olhando para o lado da minha janela. - Você tem que focar nos estudos e pensar em entrar numa faculdade.

Ele não respondeu, ele sabia que eu estava certa.

— Você não vai ter uma Nora sempre que precisar ou explorar.

— Desde quando eu te exploro?

O fitei, arqueando a sobrancelha. Ele não me olhava.

— Quer que eu mostre a lista? - meu tom era irônico.

E foi aí que o carro entrou na área reservada para carros e estacionou. Tirei o cinto e abri a porta do Jeep, mas fui impedida de sair quando patch segurou o meu braço, me fazendo olhá-lo. Sua expressão era séria, me olhava tão intensamente que senti alguma coisa no estômago.

— Eu vou mudar.

Sua mão no meu braço apertou mais. Desviei meu olhar do dele. Não conseguia manter meu olhar no seu olhar felino.

— Eu espero que sim. - mordi o lábio por um instante e o fitei, agora com determinação. - Mas espero que você mude por você mesmo e não por que eu estou pedindo.

E com isso, me soltei de seu aperto e saí do carro sem olhar para trás e fui procurar as minhas amigas que estavam perdidas por aí.