Ryu abriu os olhos, assustado. Pensou que Gouki, o demônio, estava no recinto, espreitando para matá-lo. Entretanto, o quarto fedorento do motel em Tóquio estava completamente vazio, exceto, é claro, por Ryu e uma família de roedores. O local era precário, a tinta cor de mel descascava das paredes de madeira, a única luz no recinto vinha de uma vela em um candelabro posto em cima de uma mesa velha, cheia de cupins. O soalho estava empoeirado e a janela era desproporcional á sua persiana que estava torta e amassada. O único comodo estava praticamente vazio. Além da mesa, do candelabro e da cama, onde o homem de vinte e três anos estava sentado, havia uma mochila marrom cheia de furos, desfiando-se, e uma porta de madeira pintada ridiculamente de branco, rosa e azul. Ryu era um homem adulto, muitos anos se passaram desde aquela noite amaldiçoada. Seu cabelo avermelhou-se com o tempo, e ficou mais alto, tendo um metro e setenta e oito centímetros. Terminou seu treinamento e abandonou o dojo de seu mestre e pai, Gouken, á cinco meses. Desde então, Ryu tem vagado pelo mundo inteiro, enfrentando qualquer um que se dizia um lutador. Ganhou certa fama, que chamou a atenção dos organizadores de um torneio batizado de "O Lutador Mundial", onde lutadores de todo o mundo iriam juntar-se para lutar entre si. O torneio será realizado em todas as partes do mundo, cada lutador escolheria um local de batalha. Ryu começaria enfrentando um lutador americano com o nome de Mike, em um dia. Nenhuma informação adicional por parte dos organizadores apenas que deveria encontrar o homem no Monte Rushmore, em Dakota do Sul na terra do tio Sam. Ryu levantou-se e pegou a velha mochila. Retirou uma carteira surrada de couro e a colocou no bolso da calça jeans. Dobrou os cobertores e apagou a vela do candelabro. Iria partir.
Abandonou a instalação após pagar pela noite e pôs-se a ir para o Aeroporto Haneda, com o passaporte e a passagem em mãos. Em duas horas estava na aeronave, apesar de seu inglês terrível não seria difícil encontrar o monte e Mike. O voo foi agradável, sem nenhuma turbulência, mas demorou mais de quinze horas. O avião finalmente pousou no Aeroporto Internacional de Seattle. Ryu saiu com certa dificuldade, os americanos o empurravam com força: pareciam não gostar de turistas. Quando tocou a pista, notou um homem americano com roupa de piloto de jatos com uma placa escrita "RYU". O lutador se aproximou apreensivo.
- Eu ser Ryu. - arriscou ele em inglês.
O piloto assentiu sorrindo.
- Eu falo japonês fluentemente. Tenho um bilhete para o senhor. - respondeu o piloto em japonês com um sotaque alemão carregado, entregando um pedaço de papel á Ryu. Fora arrancado de um caderno e escrito com um marcador preto.
"Fala amigão, soube que vinha para o meu pedaço lutar contra aquele Mike. Tome cuidado, ele era um pugilista, mas parou por ter matado um inimigo. É um cara nojento e repulsivo. Bem xará, aceite meu presente e entre no jato, ele vai te levar para qualquer lugar que queira, beleza? Espero que não morra para eu mesmo te matar!
Seu mano,"
- Ken. - terminou Ryu. - Então você trabalha para o Sr. Masters?
- Na verdade, sou intermediário exclusivo de Mestre Ken. - respondeu o piloto, começando a mover-se. Ryu o seguiu. Ken Masters fora um companheiro de treino de Ryu. Filho de um magnata americano, o garoto loiro fora mandado para o Japão aprender sobre disciplina com o velho amigo de seu pai, Mestre Gouken. O alemão levou Ryu até um jatinho particular com o logotipo enorme das Empresas Masters. O piloto fez sinal para Ryu entrar e ele obedeceu.
- Para onde Mestre Ryu? - perguntou o piloto.
- Monte Rushmore. - respondeu o japonês. O jato era pequeno, mas aconchegante. Tinha uma caixa de cervejas e quatro assentos. Ken deveria fazer festinhas ali, pensou Ryu enquanto sentava-se em um dos assentos. O jato decolou, faltando algumas horas para a hora marcada. Uma mão com açúcar. Ryu entrou no banheiro e colocou sua roupa de luta: um gi branco com as mangas arrancadas á força, uma faixa preta com os ideogramas 風林火山 em sua extremidade em ouro, chinelos vermelhos e luvas igualmente vermelhas. Por último, amarrou uma faixa branca na testa. Em duas horas e meia, o jato pousou na cabeça de George Washington.
- Tem certeza de quê é permitido pousar aqui? - perguntou Ryu.
- Não, mas qualquer multa é paga assim que é cometida. - respondeu o piloto alemão.
Ryu agradeceu e desceu do jato. Assim que a aeronave desapareceu no horizonte, Ryu desceu o monte com cuidado para não cair e tomou a trilha dos turistas, vazia á esta hora. Uma placa com o logotipo do torneio "O Lutador Mundial" apontava para baixo. Mais e mais placas estavam distribuídas no local, e elas guiaram Ryu até uma planice. Era longe, o lutador andou por quase meia-hora. A planice estava deserta, exceto por um homem negro de um metro e noventa, o cabelo black power. Usava uma camiseta vermelha e uma calça jeans. Parecia um gangster dos anos oitenta. O homem virou-se ao ver a aproximação de Ryu e sorriu: tinha um dente de ouro e vários outros faltando.
- What's up hommie? You must be Ryu, right? - disse o homem com uma voz grossa e carregada, parecendo que havia sinuzite.
Ryu não entendeu nada.
- I'm Mike, let's battle, alright bitch?
Ryu entendeu o "bitch" e o "Let's battle". O lutador de gi branco assumiu sua base de luta, enquanto Mike ergueu os braços para cima do rosto: um boxeador. Ambos só andavam pelo lugar, observando um ao outro, esperando pelo momento certo de atacar.
Ryu não gostara do xingamento e muito menos do boxeador. Ele notou um dirigível voando por perto. Juízes, pensou. Mike aproveitou a chance de quê Ryu estava concentrado no dirigível: avançou correndo e desferiu um soco, mas Ryu estava preparado: desviou com o braço esquerdo e golpeou a barriga do boxeador com o punho direito. A força do golpe foi suficiente para empurrar Mike, mas não derrubá-lo. O boxeador se equilibrou novamente.
- Nice move bitch. Take this! - berrou ele avançando, imitando seu último golpe.
Ryu tentou fazer o mesmo, mas Mike abaixou-se e recolheu o punho, acertando o estômago de Ryu com um movimento rápido de "um dois". Mesmo sentindo muita dor, Ryu manteve-se em pé, e pulou assim que Mike começou a levantar-se. Quando ele percebeu o quê Ryu faria era tarde demais.
- Tatsumaki Senpuu Kiaku! - urrou Ryu, girando o próprio corpo em pleno ar, com a perna direita ereta, acertando diversas vezes o rosto de Mike, que caiu no chão, a boca sangrando e o nariz quebrado, dois de seus dentes de ouro haviam sido arrancados pela força do chute.
O boxeador levantou-se xingando Ryu de nomes que ele nem sequer sabia que existiam. Mike correu á toda velocidade, com o braço girando para ganhar mais força. Ryu colocou as palmas das mãos viradas uma para a outra, levou-ás até próximo ás suas costelas e começou a concentrar seu chi. Uma pequena esfera de energia azul começava a se formar como se fosse um pequeno tornado.
- Nice move bitch. Take this! - disse Ryu calmamente com o sotaque extremamente carregado.
Mike se aproximava cada vez mais e finalmente viu a esfera. Tarde demais.
- Hadouken!
Com um movimento rápido, Ryu lançou a esfera na direção do boxeador. Mike caiu ao chão, desacordado, a camiseta fumegando, o rosto roxo, o peito sangrava por uma queimadura. Não teve nenhuma chance. Ryu olhou para o dirigível: ele iria pousar para socorrer Mike e lhe informar o local da próxima luta do torneio.
CAPÍTULO 2
RYU WINS
