Capítulo 1: A porta

–Jack? Ei, Jack, acorda!

–Hum? Er, hum, que horas são?

–São oito da manhã. Olha, dormir em cima da mesa vai acabar te dando uma escoliose.

–Esco o quê?

–Vai fazer a sua coluna parecer um S. Agora levanta daí, que você está babando em cima desse livro e ele me custou quase quarenta galeões.

Jack, o rapaz que dormia, levantou a cabeça e, com a vista ainda meio embaçada, se deu conta que estava dormindo em cima da mesa, usando um livro muito grosso como travesseiro. Levantou-se, sonolento, e deu uma longa espreguiçada.

–Olha, Jack, eu fiz uma omelete para você – o outro rapaz, chamado Martin, disse, estendendo-lhe um prato – E tem café ali, naquela garrafa térmica.

–Valeu, cara – respondeu Jack, comendo vorazmente – Você é mesmo um amigão. E me desculpe pelo livro, eu vou dar um jeito nele. Reparo!

A marca escura e viscosa do livro sumiu com o feitiço. Depois de comer, Jack arrumou desleixadamente os livros sobre a mesa e passou os olhos por uma pilha de pergaminhos antigos, enquanto tomava uma xícara de café.

–Você não desliga nunca, é? – disse Martin, em tom divertido, enquanto juntava alguns papéis amassados no chão – Acabou de dormir em cima da mesa, agora mal acorda e já volta a trabalhar. Realmente, cara, você precisa de umas férias...

–Ah, nem pensar! – retrucou Jack – Não agora que estamos tão perto.

–Você está dizendo isso há meses – Martin riu, mas voltou rapidamente a ficar sério – Mas agora eu realmente estou acreditando em você. Esses manuscritos que a profª. McGonnagal deixou a gente pegar na biblioteca de Hogwarts adiantaram o nosso projeto em uns três ou quatro anos-luz.

Talvez os nossos amigos leitores não estejam entendendo muito bem o que está havendo, então, vamos dar uma explicação geral. O ano é 2005, e os nossos dois personagens, Jack Smith e seu irmão Martin, são gêmeos, mas são diferentes como água e óleo. O primeiro é um rapaz alto e magro, de cabelos castanho-escuros e perspicazes olhos verdes. O segundo tem os cabelos castanhos bem claros, de um tom quase alourado, olhos azuis, mais baixo e forte que Jack. Os dois são bruxos, e acabaram de terminar de cursar a Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, ambos com excelentes notas, e depois disso se dedicaram a pesquisar a alquimia em todas as suas formas. Naquele momento, estavam muito próximos de encontrar um meio de se usar a alquimia sem a magia. Ou pelo menos achavam que estavam...

–Me dá aquele desenho, Martin – pediu Jack – Se minha teoria estiver certa, vai ser através de círculos de transmutação iguais ao da figura que a alquimia será realizada.

–Sabe que alguma coisa está faltando, Jack – disse Martin, enquanto lhe entregava o papel – Nós temos toda a teoria, sabemos o que é um círculo de transmutação, conhecemos a Lei da Troca Equivalente, mas por que é que não funciona?

–Está faltando alguma coisa como uma chave de liga-e-desliga – respondeu Jack, sem tirar os olhos de seu trabalho – Eu disse que seria difícil, mas você não quis me ouvir... O que está faltando é um meio de produzir energia suficiente para que a alquimia funcione.

–Eu sei o que está faltando, seu idiota, na verdade eu quero saber o quanto de energia está faltando – retrucou Martin, lendo um dos livros – Tem que ser muita energia, muito mais do que podemos conseguir, com os recursos que temos. Mas como vamos conseguir o que falta?

Jack não respondeu, compenetrado em alguns cálculos que fazia. Os últimos meses haviam sido gastos mais ou menos daquele jeito: cálculos, anotações, pesquisas e mais pesquisas. A ambição secreta de Jack era descobrir um meio de realizar a alquimia sem que para isso precisasse de milhares de materiais raros e feitiços complexos. Na biblioteca de Hogwarts, encontrara antigos manuscritos, sem assinatura, que descreviam uma forma de alquimia que usava os chamados círculos de transmutação, figuras geométricas com símbolos e inscrições que, dependendo da forma, provocavam uma transformação no que estivesse dentro dele. Mas, de acordo com os manuscritos, era necessária uma fonte enorme de energia, não mencionada no texto.

Eles também falavam de um princípio que deveria reger a alquimia, chamado de Lei da Troca Equivalente. Era o primeiro parágrafo do texto, que dizia assim:

"Nada pode ser obtido sem alguma espécie de sacrifício. É preciso dar em troca alguma coisa de valor equivalente. Esse é o princípio básico da alquimia: a Lei da Troca Equivalente. Naquela época, eu acreditava que essa lei fosse absoluta, e valesse para tudo no mundo. Infelizmente, eu estava errado, e descobri que existem coisas que nem mesmo a mais pura das leis seria capaz de explicar. Passei a vida toda tentando combater aqueles que obtinham mais do que se sacrificaram para ter, mas acabei perdendo mais do que pudesse recuperar. Deixo esses manuscritos na esperança de que alguém seja capaz de encontrá-los e retomar o meu trabalho do ponto em que parei."

Depois de muito tempo estudando aquele texto, o rapaz já o sabia praticamente de cor. No entanto, não conseguia entender o que significava. A Lei da Troca Equivalente parecia algo bastante sensato, e era estranho imaginar alguma ocasião em que ela não fosse respeitada. Mas os manuscritos terminavam de forma brusca, como um livro rasgado pela metade, e isso era o que mais o intrigava. O mais perto que havia de uma assinatura era um símbolo estranho, que consistia em duas setas cruzadas, com uma coroa desenhada sobre a ponta mais alta, ladeada de duas asas. Em volta das duas setas, havia algo que lembrava vagamente uma serpente.

–Ainda pensando no escritor misterioso? – Martin o tirou de seus devaneios – Eu acho que eles devem ser de algum alquimista famoso, sei lá, tipo o Nicolau Flamel.

–Se fosse mesmo ele, porque não assinaria com seu nome verdadeiro? – retrucou Jack, erguendo a sobrancelha – Pelo jeito que escreve, não parece ter quatrocentos anos, e a letra é feia demais para ser de alguém tão velho. Só gostaria de entender o que esse escritor quis dizer com "existem coisas que nem mesmo a mais pura das leis pode explicar"...

Os dois ficaram em silêncio por um tempo, até que, de repente, Martin falou animado:

–Quer saber? Você ficou tempo demais trancado nessa sala. Vamos dar uma ida à piscina.

–O quê? – Jack fora pego de surpresa – Não! Você ficou doido? Eu ainda tenho um milhão de coisas a fazer, cálculos para terminar e...

–Cale a boca, seu tonto! – cortou Martin, rindo – Vamos lá, você precisa de sol e de uma namorada, e no clube você pode encontrar os dois.

Jack apenas sorriu, e foi vestir o seu calção. Em alguns minutos, os dois estavam caminhando entre uma multidão à beira de uma enorme piscina, com guarda-sóis e cadeiras por todos os lados. O sol brilhava forte, e a água estava numa temperatura muito agradável.

Jack, sem a camisa, estava hilário: ele era muito branco, e em pouco tempo ficou vermelho como um camarão. Como forma de disfarçar a pele queimada e diminuir a ardência, resolveu dar um bom mergulho, e como sempre fora um exímio nadador, acabou se empolgando e chegou até um lugar onde não lhe dava mais pé. Não havia nenhum outro banhista por perto, mas isso não o assustou, então resolveu continuar nadando.

De repente, sentiu uma tontura profunda, e a cabeça começou a latejar. A dor ia e voltava, mas quando vinha, era como se uma luz muito forte ofuscasse a sua vista. Quando fechava os olhos, tinha uma visão estranha... algo como um círculo, igual ao dos seus livros, que brilhava intensamente... cada vez mais intensamente... mais...

De repente, viu-se num lugar amplo, totalmente branco, do chão ao teto. Sem a menor idéia de onde estava, começou a andar, tateando, com medo de bater em alguma parede. Andou por muito tempo, até que viu uma porta imensa, com um olho entalhado, bem no meio do caminho, a qual ele tinha certeza de que não estava lá antes.

Caminhou até a porta, e ficou parado em frente a ela, as mãos posicionadas como se sua idéia fosse empurrar, mas hesitou em abri-la. Não tinha a menor idéia do que havia lá atrás, e nem dos riscos que poderia correr se a atravessasse. Uma de suas qualidades, ou de seus defeitos, dependendo da ocasião, era sempre ser muito cuidadoso e analisar todos os passos antes de dar o primeiro.

Por fim, então, decidiu abri-la, convencido de que apenas dar uma olhada no que havia do outro lado não iria fazer mal. Com um grande esforço, abriu uma fresta, pela qual o seu corpo magro pôde passar sem problemas. Assustou-se um pouco ao ouvir o ruído da porta fechando às suas costas, mas à sua frente não viu nada, só a mesma superfície branca infinita.

Olhou um pouco à sua volta, tentando encontrar alguma coisa interessante. Sem ver nada que se diferenciasse das paredes, do teto ou do chão, voltou-se para a porta decepcionado. "É a mesma coisa que estar dentro de um ovo gigante", pensou, já tentando abri-la novamente, mas por mais que tentasse não conseguiu.

De repente, ouviu alguma coisa que se movia em sua direção velozmente, e quando se virou para ver o que era, quase teve um ataque. Eram mãos totalmente negras, como se fossem borrões de tinta, que vinham em sua direção. Ele tentou abrir a porta, tentou se esquivar, mas não conseguiu, as mãos o pegaram e o arrastaram por um túnel sem fim.

Jack tentou gritar, pedir socorro, mas sua voz não saía. As mãos o prendiam cada vez mais, como serpentes constritoras, e o arrastaram numa velocidade absurda, num túnel bizarro. De repente, seu cérebro começou a receber uma torrente de informações tão intensa que sua cabeça quase explodia. Então, viu uma luz crescer à sua frente, como se fosse o fim do túnel, e ela crescia cada vez mais, e mais rápido, até que...

Abriu os olhos, sobressaltado. Estava num lugar muito claro, e havia um vaivém de pessoas perto dele. Ao seu lado, estava Martin, com o rosto preocupado, ainda usando o calção que usara no clube e com o rosto todo queimado de sol. Quando viu que Jack havia acordado, deu um sorriso de alívio e disse, num tom brincalhão:

–Se queria beber água suja poderíamos ter ficado em casa, e eu pegava a água do bebedouro dos pássaros!

–Também estou contente de te ver, Martin – disse Jack, meio fraco, sorrindo – O que aconteceu?

–Parece que você teve uma insolação, e desmaiou enquanto estava na água – respondeu Martin – Aí, você quase se afogou, mas apareceram uns caras e te resgataram. Cara, você me deu um susto!

–Tudo o que eu me lembro é que a minha cabeça começou a doer de um jeito muito estranho, aí eu acho que apaguei e comecei a ter um sonho estranho – Jack explicou – Muito estranho, por sinal. Mas, não sei por que, não consigo me lembrar dele. Engraçado, não?

–E como se sente? – o tom de Martin era preocupado, quase paternal – Alguma coisa doendo?

–Minhas costas estão ardendo. Me lembre de nunca mais deixar o protetor solar em casa, tá?

Os dois riram, com um profundo alívio. Depois, as enfermeiras mandaram Martin embora, dizendo que Jack precisava descansar. Depois daquilo, ele passou mais algum tempo no hospital, dormindo muito e tomando soro, e em poucos dias ele voltou para casa, sem conseguir se lembrar daquele sonho. Assim que voltou para casa, retomou a pesquisa, em ritmo acelerado.

Um dia, porém, algo muito estranho aconteceu...

Estava anoitecendo, e Martin havia ido fazer compras no mercado, deixando Jack sozinho em casa. Atrás da mesa onde ficavam os livros, ele havia feito um círculo de transmutação no chão atrás da cadeira, com fita crepe, dias antes do acidente. A princípio, tentou todas as formas imagináveis de usá-lo para realizar alquimia, mas como não conseguira deixou-o lá. Naquele momento, ele se tornara um alvo para as muitas bolinhas de papel que jogava pelo chão.

Jack tinha a mania de balançar-se na cadeira enquanto pensava. Nesse dia, ele estava se balançando enquanto fazia alguns cálculos. De repente, ele se desequilibrou, e a cadeira caiu para trás, derrubando-o em cima do círculo. Nesse momento, a coisa mais estranha aconteceu: algo parecido com uma corrente elétrica pareceu partir de seu corpo até o traçado do círculo, e então se irradiou por todas as linhas. A partir delas, uma luz branca subiu e envolveu tudo o que estava dentro do círculo, como uma capa.

Assustado, ele se levantou depressa, meio zonzo. Mas o que realmente o chocou foi ver que, ao invés das bolinhas de papel que havia antes, havia uma enorme dobradura de uma garça. Se já estava difícil manter-se em pé, depois daquela imagem ele desmontou mesmo.

–Eu fiz isso... e sem magia... – ele murmurou para si mesmo, rouco, sem tirar os olhos da dobradura – Eu... fiz... a alquimia... EU FIZ A ALQUIMIA!

De repente, a porta se abriu com estrondo, e apareceu Martin, preocupado, dizendo sem rodeios:

–Eu vi as luzes piscando... o que foi que houve? Algum curto cir... JACK, O QUE É ISSO? – O olhar dele era de profundo choque. Por uns momentos, começou a balbuciar sílabas sem sentido, até que voltou a articular as palavras – COMO FOI QUE VOCÊ FEZ ISSO?

–Eu... eu não sei... – respondeu Jack, ofegante – Eu caí em cima do círculo e aí... aconteceu...

–Quer dizer, aquele círculo onde nós atirávamos bolinhas de papel para ver quem acertava mais? – Martin parecia não acreditar – Ah, não seja idiota, é claro que você usou a sua varinha!

–De que jeito, hein? – retrucou Jack – Você está com a minha varinha, lembra? Você quebrou a sua, e agora leva a minha para cima e para baixo!

Os dois olharam para o círculo, e para a dobradura. Depois, se entreolharam, como se um buscasse no outro a explicação para o ocorrido. Por fim, Martin, ainda cético, disse:

–Está bem, sabichão, se foi você mesmo quero ver repetir o feito!

–Isso é um desafio? – uma chama passou pelos olhos de Jack. Se havia uma coisa da qual ele gostava, era um desafio feito pelo irmão – OK, cabeça de ovo, vou te mostrar!

Ele se ajoelhou em frente ao círculo. Pelo que se lembrava da teoria nos manuscritos, bastava ele tocar no círculo e, se a Troca Equivalente fosse respeitada, a transmutação seria concluída. "Isso foi um acidente, mas se eu pude fazer uma vez, por que não posso repetir?". Fechou, então os olhos e concentrou-se ao máximo.

"Quero que essa dobradura se transforme em várias folhas de papel". Repetindo esse pensamento, tocou o círculo. Por vários minutos, nada aconteceu. Pôde ouvir as risadas debochadas do irmão, que lhe dizia, com o máximo de escárnio na voz:

–Você é um péssimo mentiroso, hein, Jack? Achou que iria me fazer de otário?

Aquilo o deixou com uma profunda raiva. Se havia alguma coisa no mundo que despertava as suas reservas mais profundas de ódio, era que as pessoas duvidassem dele. Concentrou-se ainda mais, e então pôde sentir aquela descarga elétrica partir de seu corpo e, de lá, para toda a extensão do círculo. Quando abriu os olhos, completamente exausto, viu que a enorme dobradura havia se convertido numa pilha de folhas de sulfite perfeitamente iguais. Mesmo cansado, deu um sorriso de triunfo, e encarou o irmão, que o olhava embasbacado.

–Como... você... fez... isso? – gaguejou Martin, quase sem ar – Se até há alguns dias atrás dias atrás você não conseguia transmutar nem água em gelo, como fez isso?

–Eu não sei! – respondeu Jack, com um sorriso maravilhado – Eu voltei do hospital e, então, aconteceu isso que eu te contei! Mas, por favor, não me faça mais perguntas, nem eu mesmo sei o que aconteceu direito. Preciso descansar um pouco.

Depois daquilo, Jack dormiu por muito tempo, e acordou tarde no outro dia. Naquela noite, o sonho da porta se repetiu, e mais uma vez, no dia seguinte, ele não se lembrava do que havia acontecido, mas um grande peso começava a se formar em seu coração. Nos dias seguintes, a mesma coisa, o mesmo sonho, e não conseguia se lembrar de nada de manhã. Sua alquimia também melhorava a cada dia, mas ele ainda usava uma energia tremenda para realizá-la. Suas pesquisas também seguiam a todo vapor, e agora o importante era descobrir como havia conseguido a energia necessária para produzir a alquimia. Seu irmão o ajudava sempre, e estava mais empolgado do que nunca, e por várias vezes os dois viravam a noite pesquisando e procurando.

Uma noite, porém, Jack se sentiu mal, com uma dor de cabeça terrível, igual à que tivera na praia. Por recomendação do seu irmão, foi se deitar, e assim que apagou, o sonho recomeçou, igual ao das outras vezes. Ao parar diante da porta, porém, ouviu uma voz, vinda detrás dele, que dizia:

–Você pretende mesmo abrir?

– É claro que sim! – respondeu Jack, como se a pergunta lhe parecesse extremamente cretina – Eu estou aqui, não estou? Mas por que está me perguntando isso?

–Essa porta é muito perigosa – respondeu a voz – Todos que a cruzaram perderam coisas que estimavam muito. Mas é a primeira vez que vejo alguém fazendo o caminho inverso...

–Inverso? Como assim? – aquela conversa deixou o bruxo extremamente interessado.

–Essa porta é uma passagem entre dois mundos, tão intimamente ligados e mesmo assim separados como o céu e a terra – a voz parecia partir de todos os lugares, e apesar de assustador e estranha era doce e etérea – Você vive num mundo onde a magia e as máquinas dominam tudo. Do outro lado dessa porta, há um outro mundo, regido pela alquimia.

–Jura? – se antes ele estava interessado, agora estava muito mais – E como eu faço para chegar lá?

–E você acha que isso é fácil? – indagou a voz – Todos os que a cruzam acabam perdendo algo muito valioso. Até essa passagem é regida pela Lei da Troca Equivalente, e você tem que dar algo em troca para passar. Diga-me, você é um alquimista?

–Bem, eu sei alguma teoria, e até consigo fazer transmutações, mas é extremamente difícil.

–Isso faz sentido, já que a alquimia não deveria nem sequer existir no seu mundo. Mas você cruzou essa porta antes, lembra-se?

–Como assim? – ele riu, com desprezo – Não me leve a mal, Dona Voz Estranha, mas acho que me lembraria de uma coisa como essa!

–Você não acorda todas as manhãs com a sensação de que há algo de errado e você não consegue identificar o que é? – perguntou a voz incisiva – De que há uma verdade oculta, e que cabe a você descobri-la? E que há muitas coisas no mundo que violam todas as leis que o regem?

Jack não respondeu. Como a voz poderia saber? Toda manhã ele acordava daquela forma, e a cada manhã sua angústia aumentava cada vez mais. Perdido em devaneios, não percebeu que estava sobre um círculo de transmutação e dele partiu um brilho intenso que o engoliu inteiro. Só pôde perceber, entre a luz ofuscante, que a porta se abria, e que dessa vez não era um prolongamento do corredor branco que havia do outro lado, e sim um buraco negro. As mãos surgiram, maiores que nunca, geladas e cortantes, e o arrastaram para a escuridão.

Nesse momento, ele acordou sobressaltado. Ainda estava escuro, e Martin roncava na cama ao lado da sua. Uma sombra se abateu sobre ele, uma sombra densa, quente e sufocante, que parecia querer tirar-lhe totalmente a respiração. Finalmente se lembrara do que havia sonhado todas as noites, e mesmo o sonho daquela noite estava estampado em sua mente como uma queimadura.

Depois daquilo, não conseguiu voltar a dormir. Em vez disso, voltou ao escritório, e retomou as pesquisas, com a esperança renovada. Fazia cálculos e mais cálculos sem parar, como se finalmente um bloqueio em seu cérebro tivesse se rompido e todas as informações que tinha fluíssem com a maior facilidade.

Horas depois, já de manhã, ouviu a voz sonolenta do irmão à porta, dizendo:

–Ah, qual é, Jack? Você ficou doido? Desde quando está aqui?

–Lembra do sonho estranho que eu tive e não me lembrava? – Jack, animado demais para prestar atenção nas palavras de Martin, disse – Eu me lembrei, e o sonho aumentou. Foi muito... bizarro!

Então, ele contou com detalhes tudo, desde a porta até o túnel e a voz. Terminou dizendo:

–... e, depois que acordei, senti que estava pronto para conhecer a alquimia na sua forma mais pura – seu olhar estava maravilhado – Acabei de terminar os cálculos, e acho que descobri um jeito de cruzar essa porta definitivamente! Não é o máximo?

–Isso é loucura, isso sim! – exclamou Martin, exasperado – Se essa porta é mesmo como você diz, ela pode até te matar! E como você pretende voltar depois?

–De acordo com a voz, algumas pessoas já conseguiram fazer o caminho inverso – respondeu Jack – O que quer dizer que eu posso também, se me esforçar.

–Mas é um risco muito grande! – Martin não se convencia – A gente conhece muito pouco sobre alquimia... E, de acordo com o que você disse, é preciso cumprir a Lei da Troca Equivalente! Você só cruzou essa porta em sonhos, mas já parou para pensar no que vai ter que dar em troca para atravessá-la de verdade? E se você perder um braço ou uma perna, o que é que eu faço?

–Vai me ajudar ou não? – aborreceu-se o outro – Olha aqui, essa é a nossa chance! Se eu conseguir descobrir o bastante, poderemos finalizar nossa pesquisa! Já pensou? Podemos mudar o mundo!

Martin hesitou por um tempo. Por fim, disse:

–Ah, está bem, me dê as instruções! Espero que saiba o que está fazendo!

Aquele dia foi dedicado aos preparativos. O círculo tinha cinco pontas, Jack sabia disso, mas não sabia explicar como sabia. Naquele momento, resolveu não parar para pensar e apenas trabalhar o mais rápido que pudesse. Os pergaminhos do alquimista misterioso estavam em seu bolso, como uma garantia. Se eles estavam lá, talvez quem o escreveu também já tivesse cruzado a porta. Também, por segurança, estava com sua varinha. Se a alquimia falhasse, ainda podia contar com a sua magia.

Ao final do dia, o círculo estava montado. Ocupava quase todo o chão da sala, havia símbolos e inscrições que Martin não conhecia, mas que faziam todo o sentido para Jack. Ele ficou bem no centro do círculo e se ajoelhou no chão, sobre dois pontos onde várias linhas se cruzavam. Martin ainda tentou argumentar uma última vez com o irmão:

–Você ainda quer fazer isso?

–É claro que sim – respondeu o outro, sério – Eu preciso fazer isso. Essa é a nossa chance, podemos ficar famosos, descobrir coisas extraordinárias! Por favor, confie em mim.

–Está bem – disse então Martin, suspirando – Precisa de mais alguma coisa?

–Não, obrigado. Agora se afaste, ou pode se machucar!

Respirando fundo, Jack bateu as mãos no chão, sobre uma das linhas. Usando até as últimas reservas de concentração, sentiu novamente a onda de choque percorrendo-o, e correndo pelas linhas do círculo. Mas era um fluxo de energia muito maior, tão grande que até parecia que seu corpo iria se romper em mil pedaços. Suas mãos agora estavam praticamente coladas ao chão, a sua blusa rasgou-se, e uma cúpula de luz branca ergueu-se sobre ele. Ainda pôde ouvir a voz do irmão gritando para ele, desesperado:

–SAIA DAÍ, SEU IDIOTA, OU ESSA COISA VAI MATAR VOCÊ!

–NÃO DÁ, DROGA! – respondeu Jack, a cabeça arrebentando de dor – EU ESTOU PRESO!

–EU VOU TIRAR VOCÊ DAÍ! – gritou Martin de volta, resoluto – AGUENTE UM POUCO, EU VOU TE RESGATAR!

–NÃO! FIQUE ONDE ESTÁ! É PERIGOSO DEMAIS!

Mas Martin não deu atenção, e pulou no círculo, até o lugar onde o irmão estava. Tentou puxá-lo, mas ele não se moveu nem um centímetro, e parecia que quanto mais força usasse, mais Jack ficaria preso ao chão. Este disse, já fraco:

–Dê o fora daqui, ou vai acabar se machucando!

–Mas e você...

–VÁ! – o tom de Jack foi decisivo – ANDA LOGO, SE MANDA!

Um segundo depois que Martin se afastou do círculo, ele se transformou em um vórtice, que tragou Jack, até a porta, que se abriu imediatamente. Nesse exato momento, as mãos o pegaram, arrastando-o para um caminho tortuoso e longo, e a única pergunta que pairava em sua cabeça era "para onde é que eu estou indo?".

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No próximo capítulo:

Oi, eu sou o Jack! É nisso que dá a gente tentar mexer com uma coisa que não entende e que não é da nossa conta. Agora eu estou perdido num lugar estranho, cheio de coisas estranhas e com pessoas que eu não conheço. Mas que droga, do que é que eu estou reclamando? Raios que o partam, eu consegui! Eu cruzei a porta!

Sem falar que eu conheci uma garota muito legal do outro lado, que me ajuda bastante, mas não sei o que vou dizer para ela não descobrir quem eu sou, de verdade... Se ela descobrir, não sei o que ela vai fazer. Não sei como as pessoas daqui lidam com bizarrices desse tipo.

No próximo capítulo, novidades, revelações, novos personagens e mentiras. Não percam o próximo capítulo, A situação muda: Surge Charlotte!