Hospital, dias depois.

O jovem ruivo passou pelos corredores a passos lentos. Não tinha pressa. Não que não quisesse. Simplesmente não podia. Não ia ajudar em nada, e não queria piorar as coisas. Já bastava as besteiras que havia cometido.

O destino já era conhecido. Seus pés poderiam levá-lo até lá sem que ao menos se desse conta. Logo estava em frente a porta do quarto, o lugar onde passava mais tempo, desde que tudo acontecera. Não se queixava disso, apesar de, em sã consciência, ninguém querer estar num hospital.

Que se danasse. Estava exatamente onde queria estar. Podia não ser o melhor, mas simplesmente estava ao lado de Kyo. Então, não importava.

Abriu a porta, devagar para não fazer barulho. Logo se deparou com o jovem moreno, deitado na cama, mergulhado em um sono que durava dias.

Aproximou-se dele, querendo vê-lo melhor. O rosto bonito estava pálido e maculado por alguns ferimentos, que já tinham começado a cicatrizar. A expressão era serena, como se estivesse num sono leve e revigorante, mas infelizmente não era o caso. Seu namorado ainda estava em coma, e o seu diagnóstico era o mesmo: sem previsões ou estimativas.

Acarinhou o cabelo castanho do rapaz, desejando saber se por acaso ele poderia ouví-lo, ou saber que estava ali ao seu lado. Seria um alento, mas não esperava por essa resposta. Apenas fazia a mesma coisa, todos os dias, esperando que pudesse sentir sua presença e quem sabe, reagir.

Suspirou, sentando numa poltrona desconfortável que havia ao lado da cama, ignorou o incômodo e as dores que certamente teria ao levantar. Não tinha direito a reclamações, e de qualquer modo, todo desconforto seria pouco comparado ao que estava sentindo por não ter o namorado ao seu lado.

Tudo aquilo era muito estranho. Eram situações completamente novas. E de todas essas situações, o responsável era o mesmo.

Kusanagi... justamente Kusanagi. Certamente ele ficaria orgulhoso em saber disso, caso o ruivo tivesse coragem de admitir. Caso também tivesse oportunidade de lhe dizer, ou fazer com que percebesse. Sua tolerância, sua calma, e a preocupação naquela hora. Tudo isso junto, por uma só pessoa.

Com certeza Kyo gostaria muito de saber disso.

Sentia-se mais calmo, mais sereno para passar por tudo aquilo. Sua aparente impassividade não era indiferença. Quem o viu durante os primeiros dias depois de receber a notícia, sabia que não era o caso. Poucos viram a expressão de Iori ao ouvir o médico sisudo falando em "nunca", de uma forma tão trágica, como se não tivesse mais volta. Ninguém viu que foi preciso que entrassem pessoas para lhe aplicar sedativos, tamanho foi o abalo emocional que sofreu.

E quem não sofreria?

"Quem eles pensam que são para me pedir calma?"

Ninguém parecia entender o que estava acontecendo ali. Aquelas pessoas de branco não sabiam o que estavam querendo quando lhe mandavam ficar calmo. Elas tentavam impedir que fosse procurar Kyo. Queria apenas vê-lo, será que era pedir demais? Se tivessem entendido antes, não precisaria empurrar novamente o pedestal do soro só para tentar se desvencilhar do médico e da enfermeira, e nem bater em três auxiliares, só pra tentar sair do quarto.

Fosse como fosse, a ansiedade por não poder vê-lo durou três dias, o tempo em que ficou internado. Durante esse tempo, não lhe foi permitido vê-lo, tendo apenas notícias por outros funcionários. Coisa que o enlouquecia, pois de um modo ou outro, as circunstâncias eram muito ruins... e estava apavorado por Kusanagi.

Só conseguiu vê-lo quando teve alta. Ainda assim, desrespeitou ordens médicas, porque lhe recomendaram repouso. Simplesmente não pôde se conter. Tinha que ver seu namorado, precisava ver com seus próprios olhos e tirar suas conclusões. E quando o viu, o susto: ele estava em uma UTI, ligado à várias máquinas, tinha o rosto marcado, corpo ferido. O acidente fora cruel com Kyo. Não tinha se dado conta, mas vendo-o, foi capaz de perceber que as colisões aconteceram do lado onde seu namorado estava sentado.

Já havia se passado pouco mais de uma semana, e nada. Nenhuma reação a não ser alguma melhora nos ferimentos internos, que também lhe ameaçavam a vida. Não que seu estado ainda não fosse delicado. Continuava mal, mas Kusanagi resistia. Iori sabia que ele estava lutando da forma que podia.

Uma luta quase solitária. Yagami sentia-se impotente, de mãos atadas. Era terrível ver a pessoa que amava sofrendo sem poder fazer nada pra ajudar. E estar ao seu lado, na cabeceira de sua cama, era o mínimo. E ainda assim, insistindo muito, pois os médicos diziam que não havia necessidade de sua presença, alegando que o rapaz não poderia ouvi-lo, sentir seus toques, ou saber que estava ali.

Iori não acreditava nessas palavras. Estava sempre ao seu lado, velando o sono, falando com ele, mesmo que isso significasse fazer um monólogo, ou fazendo um carinho, tentando estimulá-lo a reagir.

E esperava. Era tudo o que tinha a ser feito. E com isso, na ânsia de estar perto do moreno, mudou toda sua rotina, passando a ficar em sua função. Passava várias horas dentro daquele quarto, ficando o dia todo dentro do hospital, hesitando em ir para casa nem que fosse apenas pra tomar um banho ou trocar de roupa. Não queria deixá-lo sozinho, e acompanhava todos os procedimentos dos médicos e enfermeiras que entravam naquele quarto. Seu sono se resumia a cochilos na poltrona, próxima ao leito de Kyo. Sua alimentação era apenas de lanches rápidos, onde comia bem pouco. Não tinha fome, se alimentava o suficiente para se manter de pé e de vigília.

"Céus, por que tinha de acontecer desse jeito?"

Sentia-se mal, arrependido. Depois de ter um tempo para refletir, lembrou-se do motivo da discussão. Na realidade, não era preciso pensar tanto, pois quase todas as discussões começavam pelo mesmo motivo: ciúmes. Iori era ciumento, possessivo. Não gostava de violência, mas brigava por qualquer motivo. O namorado era o mais freqüente deles.

Sentia ciúmes de Kusanagi. Claro que sentia. O moreno chamava a atenção de todos quando estava na rua, homens ou mulheres. Os olhares de cobiça que ele recebia eram quase palpáveis, lascivos a ponto de serem constrangedores.

Parecia ter mel. E claro que Yagami não gostava disso. Queria tê-lo só para si. O moreno lhe pertencia, será que era pedir demais?

Fidelidade não era pedir demais. Ciúme e fidelidades eram provas de amor. E sabia que Kyo o amava tanto quanto. Mas, fidelidade, daquele jeito lhe parecia quase impossível. Muitas tentações ao lado, todas praticamente debaixo de seu nariz, e o outro parecia ser desligado demais pra perceber.

Talvez Kyo não soubesse o quanto ele atraísse as pessoas. Talvez ele se subestimasse. Iori sabia disso, mas se esqueceu ao iniciar a discussão. Mais uma entre as tantas durante a semana. Agora por alguém que se aproximara do moreno para puxar conversa enquanto o ruivo estava no palco, tocando com sua banda em um bar. E Kyo trocara algumas palavras com o desconhecido, bem poucas. Palavras que não pôde ouvir.

Desconhecer as palavras trocadas entre eles, não participar daquele momento deixou-o profundamente incomodado.

Ciúmes, inevitáveis. Discussões também. Brigas podiam acontecer muito facilmente, e mais ainda quando aqueles que discutem são teimosos e de temperamento forte. Esse era o caso dos dois, embora claramente Iori fosse o mais difícil de se lidar. Yagami era aquele que tinha mais chances de ofender alguém, de perder o controle.

E perdera. Durante a discussão, que se estendeu até dentro do carro durante a volta para casa, foi o ruivo quem disse tudo aquilo que poderia feri-lo. Razões pequenas podiam levar a grandes batalhas, onde são expostos tudo aquilo que seria menor, como manias irritantes notadas pela convivência e defeitos pessoais. Ou mesmo aquilo que parecia ter sido esquecido: a descendência.

Kusanagi e Yagami. Clãs que eram inimigos mortais. Uma disputa que fez duas pessoas se odiarem por muito tempo, sem que o motivo realmente lhes pertencesse. A guerra não tinha mais importância para Kyo e Iori, que acabaram ignorando os sobrenomes para ficarem juntos, quando a obsessão mudou de forma: quando o ódio se tornou um amor, nem por isso menos complicado ou menos explosivo.

Amor e ódio eram sentimentos quase irmãos. Sabia que o relacionamento deles era assim desde o início, tanto pelo ódio burocrático que havia antes, quanto pela intensidade das personalidades explosivas. Iori sabia que a disputa de clãs ainda era um assunto muito delicado, mas mesmo assim não hesitou em chamar o namorado pelo sobrenome: fato que os separou durante muito tempo.

Sabia que aquilo ia ferir, mas ainda assim o fez, tendo em resposta, palavras que agora lhe soavam como uma macabra profecia.

- Você estaria mais feliz se eu saísse da sua vida, Iori. Devia ter me matado quando teve a chance.

Naquele momento, teve vontade de calá-lo, até mesmo de lhe bater para que parasse de falar aquelas asneiras. Era o que deveria ter feito... mas não! Tinha que irritá-lo. Tinha que feri-lo ainda mais, concordando.

- Quer saber? Tem razão, eu estaria mesmo muito melhor sem você. Foi um erro ter me envolvido com um... um Kusanagi.

Bastou lhe responder e tudo aconteceu. Passaram alguns poucos segundos, suficiente para perceber que conseguira ofendê-lo já que ele se calara, mas sem demora veio o grito, na voz de Kyo. Uma advertência sobre o cenário formado logo a frente, mas do qual Iori não teve tempo de desviar.

O acidente. Sem tempo ou oportunidade para que desmentisse e fizessem as pazes.

Agora, o ruivo sabia que deveria tomar mais cuidado com as palavras, mas talvez fosse tarde demais. Sabia que deveria tê-lo magoado profundamente. Sabia que isso ia acontecer e ainda assim tinha feito.

Daria tudo para que o tempo voltasse. Queria ter evitado o acidente, do qual talvez pudessem ter escapado por cinco minutos, antes ou depois. Queria ter evitado a briga, ou não ter lhe dito as más palavras, especialmente isso. Porque, se a discussão tivesse de acontecer, o acidente fosse inevitável e houvesse a possibilidade de perdê-lo, Kyo não teria se magoado por uma atitude impensada. Não acreditaria em bobagens.

Yagami admitia: falava demais, dizia coisas erradas nas horas erradas. Mas, de um modo ou de outro, era capaz de contornar os estragos. Já agora poderia não ser mais possível.

Queria dizer a ele, que não se arrependia por estarem juntos, que o sobrenome não significava nada e que não estaria melhor se estivesse morto. Queria dizer que o amava.

Estava pagando o preço por seu orgulho. Um preço alto demais.

Ali, naquele momento, daria tudo o que tinha por alguma reação de sua parte, fosse ela qual fosse. Mataria para que ele abrisse os olhos. Morreria para vê-lo sorrir.

Quem diria que um Kusanagi teria tanto poder?

Kyo ficaria orgulhoso em saber o tamanho da importância que tinha em sua vida. E Iori ficaria feliz em deixar que ele soubesse. Não ia se importar em parecer fraco. Sentir e demonstrar afeto não era fraqueza.

Mas, se queria mesmo que acontecesse, teria de ter paciência. Poderia lhe contar agora, lhe dizendo tudo isso, mas era absurdamente incômoda a idéia de estar falando sozinho. Por mais que sempre falasse com Kyo enquanto estava lá dentro, ficava triste por achar que pudesse ser inútil.

Não queria acreditar que fosse, mas, as vezes era quase impossível. Às vezes era difícil acreditar em qualquer coisa quando ouvia tantos dizerem o contrário. Falava com o namorado, por instinto, por crença. Queria acreditar que ele o ouvia. E se assim fosse, queria que ele soubesse, que estava ao seu lado.

Olhou atentamente para o rosto dele. Acarinhou suavemente a face bonita do rapaz, tomando cuidado para não resvalar em qualquer ferimento, temendo que pudesse infeccionar e assim agravar seu estado. Não estava mais agüentando aquele silêncio forçado, embalado por sons das máquinas, monitorando um Kusanagi que mal parecia ser aquele moreno que lhe despertava tantos sentimentos.

Sem que pudesse ou quisesse se controlar, as palavras foram sendo pronunciadas, sem que pudesse pensar muito. Talvez se pensasse, não lhes dissesse, e ao menos naquele momento quis seguir seus instintos.

- Bem, Kyo, eu não sei se pode me ouvir. Os médicos dizem que não, mas eu quero acreditar que possa... então, como não sei o que pode acontecer, talvez seja melhor eu arriscar e te dizer o que tem de ser dito. E acho que tenho muito a dizer. – segurou-lhe a mão, tocando-lhe os dedos, tomando cuidado para não esbarrar em nenhum fio preso ali – Eu não queria ter te magoado, sou mesmo um idiota, me desculpe.

Abaixou a cabeça, respirando pesadamente, pesaroso.

- Quando você acordar, vamos consertar tudo isso, certo? Eu prometo que não reclamo mais de nada que você possa esquecer, ou de qualquer besteira que você fale. Eu nunca mais vou brigar quando você estiver triste e for a praia sem mim... desde que me avise antes, senão vou ficar te procurando feito louco. E juro que vou controlar essa minha boca maldita pra parar de falar asneiras. E também juro que vou tentar controlar meus ciúmes – riu, nervoso – Eu sei que vai ser difícil, mas eu prometo que vou fazer um esforço. Se for por você, vai valer a pena.

"Mas sem você, isso não terá valor nenhum."

Apertou suavemente a mão de Kyo, como se quisesse lhe passar algum calor, ou dizer que não ia sair de perto. Passou algum tempo assim, até que sentiu seus olhos pesarem. O cansaço da vigília estava falando mais alto, afinal cochilos não eram o bastante, especialmente naquela poltrona. Sono sempre leve, como se estivesse em constante alerta. Sempre a espera de algum sinal da parte de Kusanagi, que permanecia alheio em seu sono profundo.

Sabia que não conseguiria permanecer acordado por mais muito tempo, então, antes de qualquer coisa, repousou sua mão sobre a dele, e enquanto deitou a cabeça no braço daquela poltrona, já tão companheira. Nenhum conforto, mas para poder ficar com Kyo, certamente era o bastante.

Apenas fechou os olhos, obedecendo ao seu corpo já fatigado pela espera.