"Senti falta da salada daqui." Disse Rachel colocando azeite no prato a sua frente. Quinn franziu o cenho, confusa, querendo saber de onde raios o prato de comida surgiu. "Não quer pedir nada?"
"Não sinto fome."
"Eu pensava assim quando cheguei, mas, depois de tanto tempo..." A morena olhou pensativa para a salada, então deu uma garfada e mastigou lentamente. Ao terminar, limpou os lábios no guardanapo. "Eu sempre quis saber, Quinn, a primeira vez que você me trouxe aqui, foi um encontro?" A loura sorriu, lembrando desse dia.
"Eu não sei. O que você acha?"
"Desde aquela festa em sua casa, sempre que você me chamava para sair eu sentia como se fosse um encontro." Deu uma nova garfada. "Desde esse dia, você passou a ser extremamente atenciosa e gentil comigo, além de sempre insistir em pagar quando comíamos fora." Pousou o garfo ao lado do prato. "Nunca me senti tão amada e importante antes de estar com você, Quinn. Obrigada por isso." Sorriu, o primeiro verdadeiro desde que a loura chegou onde quer que estivessem.
Quinn, num impulso, levantou e sentou ao lado da morena, a abraçando forte sendo retribuída. Rachel ainda cheirava como a loura lembrava: a chá e incenso, mas havia um novo aroma que a lembrava de quando visitara sua avó no hospital quando a idosa quebrara a bacia por causa de uma queda. Era como voltar ao hospital e olhar sua avó dormindo no quarto branco.
O barulho do sino que ficava na porta do estabelecimento soou pelo lugar, apesar de ninguém ter entrado ou saído. Rachel afastou a loura suavemente e levantou-se.
"Precisamos ir, Quinn." E a segurou pela mão.
Na segunda-feira, Rachel seguiu sua rotina normalmente. Acordara seis da manhã para exercita-se no elíptico que tinha no quarto, depois tomou banho e vestiu a roupa cuidadosamente escolhida na noite anterior, pegou a bolsa também arrumada na noite anterior e desceu para tomar café da manhã com os pais.
Leroy estava sentado à mesa, tamborilando com os dedos de forma aleatória enquanto seu marido, Hiram, terminava de fazer panquecas usando um avental azul com nuvens. Rachel sorriu com a cena tão doméstica e familiar.
"Bom dia, Estrela." Disseram juntos ao ver a filha entrando no cômodo.
"Bom dia, pai." Disse alegremente beijando o rosto de Hiram que baixou-se um pouco para que a filha pudesse alcançar sua bochecha. "Bom dia, papai." Fez o mesmo com Leroy e sentou à mesa esperando pelo café ser terminado.
"Filha, seu pai e eu queremos conversar com você." Disse Hiram colocando um prato com panquecas sobre a mesa e sentando-se. "Ontem percebemos que você voltou extremamente cansada e parecendo distraída com alguma coisa, então decidimos lhe dar espaço. Contudo, ainda esperamos uma explicação sobre a"
"Mentira que você nos disse." Interrompeu Leroy, ainda tamborilando os dedos. Rachel ficou tensa, sabendo que não teria como adiar o assunto.
"Leroy!"
"O quê? Ela mentiu, não mentiu?" Hiram suspirou fundo, voltando a encarar a morena.
"Apenas nos diga o motivo da informação errônea e, talvez, antecipada." Frisou encarando o marido por alguns segundos antes de voltar a atenção para a filha.
"Primeiro, quero me desculpar por te-los enganado e ainda ter posto a senhora Kimmel nessa situação. Acredito ter sido embaraçoso tanto para os senhores como para o filho dela." Seu olhar revezava entre os dois. Estava realmente arrependida de ter mentido aos pais e queria que eles tivessem certeza disso. "Eu fui a uma festa na casa de Quinn." Então, silêncio.
"Quinn Fabray?" Perguntou Hiram após um tempo.
"Sim. Na quinta-feira, enquanto eu estava no hospital, me encontrei com ela e Santana que haviam ido porque Brittany, aparentemente, falava muito sobre mim, mas ao referir-se a mim, ela usava o apelido que me dera. Creio que Santana e Quinn quiseram conhecer pessoalmente a 'El'. Após a contação de história e a maioria das crianças terem ido embora, Quinn veio falar comigo." Viu Leroy a olhar expectativamente, enquanto Hiram continuava com uma expressão neutra. "Surpreendentemente, ela foi bastante cordial. Elogiou minha performance e minha habilidade culinária, então me chamou para essa festa que houve na casa dela."
"Eu admiro sua capacidade de ver o melhor nas pessoas, Estrela, ainda mais pessoas como Quinn Fabray que entendo que deva ser mais uma vítima do fanatismo religioso e, ouso dizer, hipócrita, de Russell. Contudo, você não pensou que o convite seria mais uma tentativa de humilha-la?" Perguntou Hiram. Leroy afirmou com a cabeça, concordando com o marido.
"Pensei nisso, sim, pai, mas como o senhor mesmo disse, minha capacidade de ver o melhor nas pessoas sempre é maior. Confesso que, ao longo do dia de sábado, até mesmo no caminho à casa de Quinn, pensei várias vezes em desistir e voltar para casa, mas caso fosse mesmo mais uma pegadinha, aconteceria do mesmo jeito. Achei melhor não adiar minha própria angústia."
"Contudo, você não voltou para casa cedo." Lembrou Hiram.
"Quando eu cheguei, apenas Quinn estava em casa. Ela me ajudou com as bandejas que levei e, para minha surpresa, enquanto a ajudava, percebi que alguns dos pratos para a festa, que ela encomendara, eram veganos. Depois ela me serviu e fomos ver filme enquanto esperávamos os demais convidados chegarem. A medida que o tempo passava e a casa ia se enchendo de pessoas, fiquei mais nervosa, mas nada aconteceu. De madrugada, comentei com Quinn sobre meu horário de dormir ter passado e creio que ela percebeu meu cansaço, pois logo depois ela ordenou que todos fossem embora, mas não sem antes ajudarem na limpeza."
"E você dormiu lá."
"Mesmo com toda a ajuda para limpar, não foi o bastante. Quando perguntei pelo material de limpeza, Quinn lembrou do horário e percebi que, ela própria estava cansada. No momento que me despedi, ela disse que, caso eu realmente quisesse ajuda-la na limpeza, poderia dormir lá e, quando acordássemos, continuaríamos."
"Quinn Fabray fez uma festa, a convidou, houve realmente uma festa e você dormiu lá." Hiram cruzou os braços pensativo.
"Correto." Pensou se estava esquecendo de algo. "Oh. Santana e Brittany também dormiram lá e, curiosamente, Santana também foi cordial comigo." Okei, ela havia ameaçado a morena uma vez, mas dormira na mesma cama que a diva, comeu e repetiu a comida que fizera e não fez qualquer comentário rude. Até despediu-se da morena quando esta teve de ir embora, após ajudar no resto da limpeza.
"Leroy, gostaria de sua opinião." Voltou o olhar para o marido que, para a surpresa dos outros dois, não havia interrompido a narração em nenhum momento.
"Quero acreditar que Santana Lopez e, principalmente, Quinn Fabray tenham, finalmente, amadurecido e estejam tentando se aproximar e compensar tudo o que fizeram com você, Estrela. Ainda que mesmo que elas passassem o resto da vida delas se desculpando e trabalhando para você de graça," Rachel riu não conseguindo evitar imaginar ambas as líderes de torcida como suas assessoras e realizando seus pedidos mais esdrúxulos e banais. "ainda não seria o bastante. Entretanto, permaneço cético quanto a mudança repentina visto que ainda na quinta encontrei um sutiã manchado irreversivelmente na lata do lixo." A morena corou.
"Eu não sei o que dizer." Confessou Rachel. "Também quero acreditar nessa mudança, papai, mas não consigo esquecer tudo que elas já me fizeram. Talvez elas apenas estivessem em um bom dia."
"Apenas continue seguindo sua vida normalmente, então." Concluiu Hiram. "O tempo dirá no que você deve acreditar. Seu pai e eu continuaremos a apóia-la. Sempre."
"Obrigada, pai e papai." Sorriu chorosa, enxugando uma lágrima que escorria.
Entrar na escola nunca lhe parecera tão desafiador quanto naquele dia. Não sabia o que esperar de Quinn. Por habito, trouxera a bolsa com roupas e material de higiene caso fosse necessário trocar-se. E, por precaução, estava preparada para até três raspadinhas. Foi até o armário, olhou ao redor em alerta e o abriu. Havia aprendido a ser mais cuidadosa quando guardava os livros desde uma vez em que raspadinha respigou dentro do armário molhando alguns cadernos.
"Oi." Rachel sentiu o sangue gelar, fechou o armário apressadamente e não se virou esperando a raspadinha gelada em suas costas. "Não vou jogar nada em você. E nem ninguém vai." Mesmo sentindo a impaciência da loura, a morena demorou alguns segundos para se virar, até que o fez. "Só queria saber se você teve problemas com seus pais. Você disse que eles estavam irritados por você não ter avisado que ia dormir fora."
"Bom dia, Quinn." Não importava se a loura fazia da sua vida um inferno, nunca deixaria de ser educada. "Eles estavam calmos quando cheguei em casa e me deram o espaço adequado para que eu pensasse sobre meus atos e, depois, explicasse a situação a eles. Conversamos esta manhã e, apesar de papai ter me alertado sobre o quão errado e desnecessário foi minha falta de consideração com eles, ele e meu pai decidiram que eu tive uma boa razão ao não avisa-los que dormiria em sua casa." A morena decidiu deixar de fora a parte em que seus pais não sabiam até essa manhã que ela havia ido à casa da loura. "Obrigada por perguntar, Quinn."
"Que bom." Novamente, silêncio desconfortável. "Vou ao shopping depois da escola. Quer vir comigo?"
Rachel franziu o cenho. Talvez quando a loura tivesse se aproximado, no lugar de te-la cumprimentado, a empurrou contra o armário a fazendo ter uma concussão e, agora estava delirando. Quinn mordia o lábio inferior, aguardando uma resposta.
"Santana e Brittany vão ter um encontro mais tarde, então não irão." Completou. "Não que eu esteja te chamando por segunda opção." Rachel não esperava ser segunda opção quando nem ao menos esperava ser uma opção. "Então, você vai?"
"Sinto muito pelo meu silêncio, Quinn, mas, francamente, estou surpresa pelo convite." E desconfiada. É como um deja vu. "Normalmente, tenho aula de dança às segundas e quartas, mas minha professora já ligou me avisando que não poderá comparecer hoje por um problema familiar."
"Isso quer dizer que você vai?"
"Sim." Esperava que Quinn não fizesse nada contra ela em um local público. E, claro, evitaria ficar sozinha com a loura no estacionamento ou no banheiro.
"Combinado, então. Até mais tarde." Deu a volta, fazendo a saia do uniforme voar um pouco.
Rachel conseguiu manter o foco durante o resto da manhã e tarde. Na verdade, achou a cena com Quinn, naquela manhã, tão surreal que decidiu acreditar ter sido uma poderosa manifestação da sua imaginação.
Contudo, ao final do ensaio do coral, enquanto arrumava as coisas, percebeu todos deixarem a sala exceto a loura que estava de pé, ao seu lado, esperando.
"No que posso ajuda-la, Quinn?" Perguntou colocando a mochila nas costas e encarando a loura.
"Você ainda vai comigo ao shopping, certo?"
"Oh." A cena foi real, então. "Claro." Quinn cruzou os braços e franziu o cenho fazendo a morena prender a respiração em antecipação a uma possível retaliação.
"Eu quero que você vá porque queira ir, não por..." Hesitou. "...pressão ou sei lá."Encarou a morena com uma expressão mais suave, mordendo o lábio inferior.
Rachel estudou a outra. O pedido parecia ser real. Talvez Quinn realmente estivesse mudando e querendo compensar tudo que fizera contra a morena.
"Eu quero ir." Sorriu fazendo a loura sorrir também e descruzar os braços a ajudando a segurar as pastas com partituras dentro. "Obrigada, Quinn."
"Vou seguindo você até sua casa e, de lá, podemos ir no meu carro." A morena acenou com a cabeça concordando. "E não esqueça de avisar seus pais." Disse divertida fazendo Rachel bufar.
"Eu sempre aviso sobre minhas saídas aos meus pais, obrigada."
Quinn sabia onde a morena morava por ser na mesma vizinhança da avó de Santana, mas nunca chegara se dar tempo de parar e observar a casa. Era grande, térreo e o andar superior, telhado e janelas azul marinho, cada janela contendo um pequeno varal com um mini jardim e a porta de entrada amarela. Havia diversas flores no jardim com a grama bem cortada. Logo ao lado, um caminho de pedras que levava ao fundo da casa. A loura teve de admitir de nunca ter visto uma casa tão bonita e acolhedora como aquela. Parecia ter sido feita sob encomenda.
"Papai quem detalhou ao meu pai a casa dos sonhos dele. Obviamente, meu pai seguiu a descrição rigorosamente." Disse a morena ao entrar no carro da outra que assustou-se. "Percebi que olhava para a casa como um todo, parecendo analisa-la."
"Desculpe." Murmurou. "Você tem uma bela casa. Pelo menos, a parte de fora."Disse dando partida no carro.
"Obrigada, Quinn." Sorriu. "Meu pai tem orgulho de ter transformado uma vontade de meu papai em realidade. Mesmo o jardim e a decoração dos fundos foi ideia dele e meu pai a executou. Todo ano eles tiram uma foto na frente e atrás. É como a segunda criança deles."
"Mas é só uma casa." Disse Quinn confusa. Seus pais tinham orgulho da casa que tinham, mas por ela significar status. Não era como se fosse realmente um lar.
"É a nossa casa, Quinn." Encarou a outra. "Eles compraram o terreno e construíram a casa como desejavam mesmo contra a vontade de muitos nessa cidade. Eu, praticamente, nasci lá. Ela conta a história deles e a minha história. Você não gosta da sua casa? Não se sente conectada à ela?"
"Meus pais... Russell sempre me ensinou que o importante de uma casa é o quão poderoso ela te faz parecer. E depois que fui expulsa de lá, e mesmo com a reforma que minha mãe fez, não é a minha casa. Não é meu lar. É só uma casa. Uma grande. bonita e reformada, mas só uma casa."
"Ainda assim é a casa onde você mora, Quinn. Onde você nasceu e cresceu. Deve haver algo que a conecta àquele lugar."
"Eu não pensaria duas vezes em sair de lá." Deu de ombros.
O movimento do carro foi cessado pelo sinal vermelho logo a frente. Sem pensar muito, Rachel virou o corpo para a loura e tocou-lhe a mão descansando sobre o volante chamando a atenção da loura para si.
"Quando for a hora, você terá seu próprio lar. Será como você quiser que seja e você fará ótimas memórias nele. E a pessoa com quem você dividir esse espaço, vai ter certeza de trata-la maravilhosamente bem e, vocês terão crianças que irão crescer lá e contar histórias aos filhos delas sobre essa casa. Uma casa aonde todos irão ser e sentir-se amado."
Quinn queria falar alguma coisa, qualquer coisa, mas a intensidade das palavras da morena e o olhar da mesma a deixaram com o pensamento lento e o coração batendo acelerado.
O carro atrás buzinou, fazendo Quinn voltar a focar no rumo que iam.
Não havia muito movimento, então foi fácil estacionar o carro. No momento que Rachel tocou na porta para abri-la, Quinn foi mais rápida saindo do carro, deu a volta e abriu a porta para a morena que a olhou surpresa, mas apenas agradeceu e seguiu a loura para dentro do shopping.
Não houve muita interação entre elas, pois não sabiam ainda como agir perto uma da outra. Entraram em algumas lojas, olharam vitrines, lancharam – Quinn quem pagou a conta mesmo sob os protestos da morena – e saíram de lá já um pouco tarde. De volta ao estacionamento, em um silêncio – finalmente - confortável, Quinn abriu a porta para a morena entrar e só depois entrou.
"Tive uma ótima tarde, Quinn, muito obrigada." Disse Rachel logo que o carro parou em frente a sua casa. A loura apenas concordou com a cabeça. Quando Rachel foi sair, a loura, novamente, foi mais rápida dando a volta e abrindo a porta. "Obrigada." Sorriu. De costas, pronta para atravessar o jardim e entrar em casa, sentiu ser puxada gentilmente pelo braço."Quinn?" Encarou a outra confusa.
"Isso não é um plano, Rachel. E eu vou provar que você pode confiar em mim e... gostar de mim." Seu nervosismo era evidente. Queria dizer mais, se desculpar, mas não sabia nem por onde começar.
"Eu não confio em você, Quinn." Percebeu a tristeza na expressão do rosto da loura. "Ainda." Completou. "E eu já gosto de você. O que eu espero é que, um dia, você venha a gostar de mim também." Tocou na mão que ainda a segurava pelo braço e, depois de alguns segundos, soltou-se e foi para casa.
Apenas na segurança de seu quarto, a morena percebeu que Quinn, pela primeira vez, a chamou primeiro nome. Rachel não conseguiu deixar de sorrir mesmo depois de deitada, pronta para dormir.
As primeiras horas da manhã de terça-feira não foram menos angustiante do que o dia anterior. Rachel já não mais achava haver uma conspiração contra sua pessoa, mas ainda sentia a necessidade de se precaver, então continuava a trazer a muda de roupa e a pensar em cenários mirabolantes e em modos de escapar deles com o máximo de dignidade possível.
Estava guardando as coisas no armário – sempre alerta a qualquer aproximação suspeita – quando, num piscar de olhos, estava sendo sufocada e girando. Seria o começo de um ataque de pânico?
"El! Podemos deixar de ser super melhores amigas secretamente!" Brittany gritava em seu ouvido esquerdo. A morena esperava não ficar surda permanentemente.
"Rupaul parece prestes a vomitar, B." Santana advertiu fazendo a dançarina afrouxar o abraço, mas não solta-la completamente.
"Bom dia, Ny." Disse Rachel sorrindo para amiga que parecia cheirar seu cabelo. "Fico feliz pela notícia, mas posso saber o motivo de somente agora podermos ser amigas abertamente?" Encarou Santana sabendo que a latina quem teria a resposta.
"Sabe o quão cansativo é ouvir B falar de você? E ainda ter o segundo abraço preferido? Talvez agora eu volte a ser a favorita em alguma coisa." Cruzou os braços, mas não parecia irritada como Rachel esperava e sim, entediada.
"Oh. Certo." Piscou demoradamente. "Ny, o sinal tocou. Precisamos ir para a sala." Afastou-se da outra e não conseguiu não sorrir ao vê-la tão contente.
"Agora podemos almoçar todo dia juntas!"
"Dios mio, no lo permita." Murmurou Santana.
"Não precisa vir todos os dias, Ny." Disse Rachel ignorando o comentário da latina. "Mas sempre será bem vinda a juntar-se a mim."
"Oi." As três viraram-se em direção a voz e viram Quinn aproximando-se.
"Bom dia, Quinn." Disse Rachel cordialmente.
"Q, quero almoçar com a El hoje." Pediu Brittany finalmente soltando a morena e agarrando-se ao braço de Santana. A loura e a latina encararam-se em uma conversa silenciosa até que Santana rolou os olhos e respirou audivelmente.
"Está bem, B, mas sabe que não podemos almoçar fora do refeitório todos os dias."
"Porque a Treinadora quer que todas as líderes de torcida sejam unidas e nada melhor do que nos unirmos do que durante os intervalos como o almoço." Brittany falou automaticamente, como se já tivesse repetido várias vezes aquela frase, recebendo sorrisos de aprovação por parte de Quinn e Santana. "Não podemos escolher locais diferentes e trazer as outras líderes com a gente? Assim poderíamos almoçar em um canto diferente todo dia!" Novamente, as outras duas líderes se encaram até que Quinn mordeu o lábio inferior, sem saber o que dizer.
"Q vai falar com as outras." Disse Santana suavemente e respirou aliviada depois que a dançarina concordou. "Vamos indo pra sala, B." E a puxou gentilmente junto de si.
Rachel nunca havia prestado real atenção na interação das três líderes, apesar de saber serem muito unidas. Não era surpresa Brittany ter os pedidos aceitos, mas ficou surpresa em testemunhar Quinn e Santana tão sincronizadas uma com a outra sendo um olhar e gesto o bastante entre elas.
A morena admitiu internamente estar com inveja das duas. Era seu maior desejo emocional – Rachel dividiu seus desejos por categoria, Broadway era algo pessoal – ter alguém que a entendesse assim, apesar de suas muitas manias e ansiedade.
"Acredito ser hora de irmos para a sala também." Disse Rachel fechando o armário e se abaixando para pegar a bolsa que estava no chão, por entre os pés. Quinn, no entanto, foi mais rápida em pegar a bolsa. "O que está fazendo?"
"Você carrega muita coisa." Deu de ombros pondo-se a andar sendo seguida pela morena.
"Não precisa, Quinn. E assim você se atrasa para a sua aula."
"Você ainda não aprendeu no que ser a chefe das líderes de torcida significa?" Ergueu uma sobrancelha. "Eu mando em toda a escola." Sorriu de lado.
"Todos a temem." Murmurou a morena. Quinn desmanchou o sorriso, passando a ficar tensa. Rachel engoliu em seco, esperando que a outra a empurrasse contra o armário ou algo semelhante.
"Deixe que me temam desde que me obedeçam." Se a morena não tivesse a ótima audição que tinha e o corredor já não estivesse vazio, com certeza, não teria ouvido.
Mas Rachel preferiu permanecer calada, apenas sendo acompanhada pela loura até a sala de aula. Próxima a porta, Quinn entregou-lhe a bolsa e desejou boa aula, mas antes de seguir caminho, Rachel a chamou de volta.
"Eu não tenho medo de você, Quinn. Não posso negar o quão intimidadora apenas sua presença pode ser, mas acredito ter visto o seu pior. Aliás, ouso dizer ter sido uma das poucas pessoas dessa escola a ter visto esse seu lado e, ainda assim, estamos tendo essa conversa." A loura a encarava intensamente, e, de repente, sua expressão fria de chefe de líder de torcida voltou.
"E por que você é a única a não ter medo de mim? Você sabe o que eu posso fazer. Você sabe que, se eu quiser, posso fazer pior." Sua voz continuava melodiosa, mas havia um tom de perigo.
"Porque o que você tenta destruir em mim, você não pode alcançar." Quinn a encarou surpresa. "Eu posso comprar novas roupas e machucados se curam. Você pode ser muitas coisas, mas não é uma psicopata e não me preocupo de você tentar me matar ou tentar ferir fisicamente as pessoas que me importam. E você sabe disso, Quinn. Por isso sempre fica tão frustrada ao me ver continuar a ignorar suas tentativas de me ver falhar comigo mesma. Você não sabe o que pode fazer de pior contra mim e até que saiba, não vai me ver temer você nunca."
"E por que eu temo você?"
O corredor pelo qual passavam possuía diversas janelas venezianas sendo possível ver o campus lá fora. Quinn gostara da possibilidade de ver o exterior do prédio. Andava encarando a paisagem até que começou a ouvir risos e ver crianças mais ao longe brincando em um parquinho. Na janela seguinte, era possível ver o parquinho mais de perto. Andou algumas janelas e parou em uma cuja vista era bem próxima a um dos bancos de frente ao parquinho. Havia uma garotinha de saia rosa xadrez com um suéter marrom e sapatilha sentada, encarando as demais crianças brincando.
Quinn prendeu a respiração ao perceber que a criança com pouco mais que cinco anos era Rachel. E quis chorar ao perceber a tristeza da outra.
Havia uma porta logo ao lado e a loura não hesitou em abrir e ir até a garota, sentando ao seu lado.
"Olá, meu nome é Rachel Barbra Berry." Disse a morena estendendo a mão quando percebeu a nova companhia.
"Olá, Rachel. Eu sou Quinn." E apertou a mão oferecida.
"Tem uma garota na minha sala que também se chama Quinn. Ela me proibiu de brincar no parquinho ou Santana iria me prender dentro do bebedouro." Disse chorosa, voltando a olhar os colegas correndo e se divertindo. A loura não lembrava o motivo de proibir a outra, mas lembrava de quando fizera a ameaça. "Quinn é aquela ali no escorregador laranja, junto da garota morena, que é a Santana, abraçada a garota loura, que se chama Brittany. Ela é legal comigo, a única, mas Quinn e Santana não deixam ela ser minha amiga.. Elas três são melhores amigas." Quinn encarou sua versão criança. "Eu gostaria de ter uma melhor amiga também."
A loura não sabia o que dizer, então ajoelhou de frente para Rachel-versão-cinco-anos e a abraçou.
"Eu sinto muito, Rachel." Murmurou. "Quando você for mais velha, prometo que terá vários amigos."
"Não quero esperar até ficar mais velha. Quero amigos agora!" E empurrou a loura que se afastou mais pela surpresa do que pela força da menina. "As outras crianças não gostam de mim porque tenho dois pais. E elas dizem que me visto engraçado e que sou egoísta, mas eu não sou! E elas riem de mim quando falo porque minhas frases são grandes." A esse ponto, seu rosto estava vermelho e lágrimas escorriam.
"Não é nenhum problema ter dois pais, Rachel." Beijou a testa da morena. "Sua roupas são lindas, as outras crianças só tem inveja. Você não é egoísta, pelo contrário, você é a pessoa mais altruísta que conheço. Você não fala muito. Deus sabe que o tanto que você fala ainda não é o bastante." A abraçou novamente. "Eu amo a sua voz."
"Por que você me deixou, Quinn?" A voz não era mais de uma criança. Quando a loura se afastou, sua Rachel quem a encarava de volta. "Eu não espero mais por um conto de fada e um amor eterno, e nem queria lhe pressionar em nada, mas você passou a se distanciar mais e mais. De todos, mas principalmente de mim. Por quê?"
"Porque depois que pude alcança-la, tive medo do que eu poderia fazer contra você. Você mesmo me disse isso, Rachel, que você me amava, mas igualmente me temia."
"Acho que eu quem nunca consegui alcança-la, Quinn. Sinto muito." O sinal tocou, avisando o fim do intervalo e fazendo as crianças entrarem correndo de volta à escola. Rachel enxugou as lágrimas com as costas das mãos e se levantou. Quinn permaneceu no mesmo lugar, de joelhos, a observando. "Precisamos voltar. Não sei quanto tempo ainda temos, mas está claro que precisamos nos apressar mais ainda."
A loura estava frustrada em não conseguir falar o que realmente queria. Culpava seu pai por sempre ensina-la a nunca demonstrar fraqueza e, para ele, amar era uma fraqueza. Porém, Quinn era acostumada a sempre conseguir o que queria.
Saber que nunca poderia fazer Rachel lhe temer, a ajudou em faze-la se aproximar. Porém, se não podia alcança-la, isso quer dizer que não a teria. E o problema recomeçava. Era como um ciclo, mas se elas se encontraram no topo, a loura faria com que se encontrassem no final.
Não poder ter Rachel lhe era angustiante, mas a loura também era teimosa e paciente.
A aproximação das duas começou não tão lentamente assim. A loura sabia que precisaria pressionar um pouco a diva, para só depois de estabelecer uma ligação entre elas, seguir de forma gradual. Então depois do primeiro contato onde Rachel aceitou ir à festa em sua casa, nos dias seguintes Quinn sempre estava perto, a convidando para saídas aleatórias pela cidade e a acompanhando à sala de aula. Santana sempre fazia algum comentário em como a abelha rainha de McKinley passou a ser o zangão deixando o trono para a cantora. E Brittany estava muito feliz em poder abraçar Rachel sem ter de esperar encontrar a morena fora da escola.
"Olá." Cumprimentou Quinn ao aproximar-se da morena que já tinha guardado alguns livros no armário.
"Bom dia, Quinn."Sorriu, passando a mochila escolar para a outra que a pôs nas costas. Rachel aprendera que não adiantaria discutir isso com loura e passou a apenas aceitar a ajuda. "Onde você deixa seu material acadêmico, Quinn? Nunca vejo você com uma mochila ou livros, mas você os usa durante as aulas." A morena estava curiosa quanto a isso há muito tempo.
"Eu mando alguém deixar minhas coisas na sala por mim, ou eu mesma o faço, antes das aulas começarem, após o treino das líderes."
"Oh."A morena estava surpresa de Quinn não querer se dar ao trabalho de carregar o próprio material, mandando alguém faze-lo em seu lugar, mas cá estava ela, carregando sua bolsa e a acompanhando para a aula. "Hoje minha aula de dança terminará mais cedo. Estamos nos ensaios finais, mas a senhora Shelter disse que preciso ir apenas por pura formalidade visto que estou pronta para o dia da apresentação."
"Claro que você está. Você é Rachel Berry." Disse divertida.
"Então eu estava a me perguntar aonde iremos hoje?" A loura não respondeu de imediato, parecendo pensar, mas Rachel sabia que Quinn já havia decidido para onde iriam àquele dia. "Quinn, estamos há poucos metros da minha sala e eu gostaria de uma resposta antes de chegarmos lá."
"Eu estava pensando... Podemos ir para minha casa, se você quiser."
"Finalmente vou ter Quinn Fabray me mostrando o quarto dela?" A loura riu, sacudindo a cabeça, fazendo Rachel corar ao perceber o quão maliciosa sua pergunta soara. "Você entendeu o que eu quis dizer."
"Posso te mostrar a case inteira, se quiser." Parou em frente a sala onde a morena teria biologia. "Boa aula. Te vejo depois."
A morena sentia-se ansiosa ao entrar novamente na mansão Fabray. Mesmo já conhecendo parte do lugar, não havia a desculpa de estar indo para uma festa. Quinn lhe mostraria todo o lugar e ficariam horas sozinhas, apenas com a mãe da loura presente. O que aumentava a agitação da morena: iria conhecer a mãe de Quinn.
Não entendia seu próprio nervosismo quanto a isso, aliás, mas não conseguia parar de tamborilar os dedos nos joelhos. Estava impaciente.
"Não vou fazer nada com você, sabe?" Disse um pouco irritada com a morena ainda se mostrar ansiosa em sua companhia.
"Não estou pensando nisso." Ajeitou-se no banco mais uma vez. Realmente não estava preocupada da loura ainda estar tramando algo, mas ainda não confiava totalmente na outra."Estou pensando no que sua mãe vai achar de mim. Primeiras impressões são importantes e não quero falar ou fazer algo que possa aborrece-la."
"Não creio que você possa fazer algo que a irrite. A menos que você pretenda criticar a decoração ou perguntar a idade dela."
"Claro que não! Eu já havia dito o quão tátil sua mãe foi na escolha de cores e móveis! E que tipo de educação você acha que meus pais me deram?" Disse indignada. "Nunca pergunte a idade de alguém que não seja uma criança ou um animal. Ainda mais se for uma mulher." Cruzou os braços pensativa. "Ainda que eu não ficasse ofendida caso perguntassem minha idade em alguns anos."
Quinn estacionou o carro e encarou a morena que parecia mais nervosa agora que haviam chegado.
"Rachel." Virou-se para a morena, cobrindo a testa da morena com uma mão. "Relaxe. Minha mãe mudou bastante desde que Russell foi embora. Mesmo se você xingar a decoração e quebrar toda a louça, ela não vai se irritar." Sentiu a outra franzir o cenho. "Bom, talvez ela se irrite um pouco, mas não vai te proibir de voltar ou qualquer coisa. No máximo, vai querer saber se você é alguma maluca." A morena sorriu, então Quinn afastou-se. "E ela tem 48 anos, apesar de dizer 43." Dessa vez, Rachel não conseguiu se conter e riu.
Judy estava na biblioteca que servia como escritório e local de estudo quando ouviu passos pelo corredor e batidas na porta que estava aberta. Quinn apenas queria chamar sua atenção.
"Olá, Quinn. Estou terminando de ler alguns papéis. Como foi na escola hoje?"Perguntou suavemente. Antes, nem saberia que a filha estava em casa, buscando por sua presença apenas se fosse realmente necessário. Muita coisa havia mudado desde a separação e Judy estava muito contente com tais mudanças.
"Bem." Deu alguns passos para o lado, puxando Rachel consigo. "Mãe, eu trouxe uma amiga da escola, tudo bem?"
"Claro." Levantou-se dando a volta na mesa. "Olá, Rachel. Como vão seus pais?"
"Olá, senhora Fabray. Eles vão muito bem, obrigada." Sorriu timidamente. "A senhora tem uma bela casa e um ótimo gosto para decoração. Eu já havia comentado com Quinn sobre isso antes, mas achei melhor falar pessoalmente." A loura rolou os olhos vendo Judy aumentar o sorriso.
"Muito obrigada, Rachel. Tentei fazer Quinn e minha filha mais velha me ajudarem na escolha dos móveis novos, mas nenhuma delas quis dar qualquer sugestão. Tive de pensar por elas duas também e, acredite, não foi fácil."
"Eu entendo. Quando meus pais reformaram nossa cozinha por conta que papai quis trocar os armários, eu quem fiquei encarregada de escolher todo o resto da decoração combinando com o móvel novo, mas meus pais possuem gostos muito diferentes um do outro. Enquanto papai gosta de muitas cores e detalhes, meu pai prefere o mais simples possível. Foram exatos nove dias de pesquisa até que eu conseguisse montar algo que agradasse a ambos."
"Sua casa deve ser maravilhosa. Eu já passei em frente algumas vezes e sempre invejei a fachada e o jardim."
"Meu papai quem fez o projeto e meu pai quem o executou." Disse orgulhosa.
"Ambas não preferem sentar na sala? Posso fazer um chá e biscoitos, então podemos passar o resto do dia falando sobre decoração de interiores." Quinn estava aliviada das duas terem se dado tão bem, mas não queria que Rachel passasse as horas que ficasse lá conversando com sua mãe.
"Não use esse tom sarcástico comigo, mocinha." Judy cruzou os braços erguendo uma sobrancelha. Rachel via a semelhança entre mãe e filha. "Desculpe prende-la, Rachel, querida."
"Está tudo bem, senhora Fabray. Não me oponho em realmente mover nossa conversa para a sala enquanto Quinn prepara chá e biscoitos, como tão prontamente ofereceu." Sorriu vendo a loura cruzar os braços e franzir o cenho. Judy riu com o comentário e a atitude da filha a fez rir mais ainda.
"Poderíamos mesmo fazer isso, mas preciso terminar aqui." Apontou para a mesa cheia de papéis.
"Então não vamos mais atrapalha-la." Disse Rachel empurrando gentilmente Quinn para as escadas. "Muito prazer em conhece-la, senhora Fabray. Tenha uma boa tarde."
O quarto de Quinn era uma suíte grande. As paredes eram de um violeta claro, uma delas possuindo várias fotos pregadas. Eram imagens de Quinn ao longo dos anos com a família e amigos, algumas paisagens, pessoas aleatórias e imagens impressas de filmes preto e branco.
"Não sabia que você gostava de filmes antigos, Quinn."
"Minha mãe e eu costumávamos assistir quando eu era menor."
"Você organiza os livros por ordem alfabética de tema, ano e autor." A estante baixa ficava logo abaixo das fotos.
"Você quer beber ou comer algo?"
"Por enquanto, não, obrigada." Disse movendo-se pelo quarto comentando cada nova descoberta.
Até aquele momento, Quinn se mostrava uma pessoa bastante organizada e, aparentemente, com um gosto muito abrangente. Possuia livros de romance, novela, científico e alguns poucos infantis. Bichinhos de pelúcia, bonecos de montar e pequenas estatuetas de bailarinas eram parte da decoração. Seus DVD's, também organizados por ordem alfabética por diretor, ano e nome, variavam de documentários e filmes antigos a filmes mais contemporâneos.
A casa possuía cinco quartos, dois banheiros sociais sendo um no térreo e um no primeiro andar, a biblioteca/escritório, cozinha, sala de jantar e uma sala de visita. O sótão, ao contrário da maioria das casas, não era usado para estocar objetos já não mais usados. Era limpo, iluminado e servia como uma sala/quarto de hóspedes para quando a loura chamava amigos. O porão não era muito diferente, mas possuía sim algumas caixas fechadas.
"Você quer ver algum filme? Está com fome ou sede?" Perguntou Quinn após voltarem para seu quarto depois de mostrar o resto da casa.
"Eu gostaria de um copo de água com gelo em lascas, por favor. Ainda não estou com fome, mas, caso você esteja, não se sinta na obrigação de esperar por mim. É importante respeitar as vontades de seu organismo. E eu adoraria assistir um filme. Posso sugerir um e, acredite, não é musical ou relacionado a música. Claro que estou aberta a opções." Quinn a encarava sorrindo e parecia não ter prestado atenção em nada ao que dissera. "Quinn, gostaria de uma resposta sua e que parasse de me olhar de maneira tão docemente intensa. Está a embaraçar-me." A loura riu, fazendo a diva bufar.
"Em momentos como esse posso entender porque Britt quer te abraçar o tempo todo." Rachel corou, sem saber o que dizer. "Vou buscar sua água e trazer um lanche. Não precisa comer agora, mas vou deixar aqui. E você pode escolher o filme que quiser. Musical ou não."
A partir desse dia, Rachel passou a ser uma visita constante na casa da loura.
Ambas criaram uma rotina. Pela manhã, Quinn buscava a morena em casa e iam juntas para a escola. Após as aulas, elas iam para a casa da líder de torcida, lanchavam e Quinn deixava Rachel em qual atividade extra a morena tivesse no dia: aula de dança, balé, aula de canto, algum voluntariado e alguma atividade extra para um dos clubes da escola que a morena participava. Rachel, de início, não aceitava fazer da loura sua motorista. Percebendo que não conseguiria argumentar com a outra, disse que pagaria a gasolina. Após muita discussão, duas saídas à la diva por parte da cantora, e Quinn ameaçar pular pela janela – momentos drásticos com pessoas drásticas como a morena, pediam medidas drásticas -, a loura ganhou.
Quinn era a motorista não oficial de Rachel e, sempre que saiam juntas para comer, a loura quem pagava apesar de sempre concordar com a morena que a próxima vez, ela quem pagaria.
"Não somos os amigos mais próximos e ainda não gosto de como se veste, mas estou preocupado com você." Disse Kurt certo dia no horário de almoço. "Quinn não tem escrúpulos quando ela deseja humilhar alguém."
"Peço que não fale dela de forma negativa, principalmente na minha presença." Rachel estava sentada no chão, ao pé do piano preto no centro palco, sobre uma toalha vermelho xadrez. Havia uma bolsa estilo praia ao seu lado onde ela guardava o lanche e a toalha que usava naquele momento. Nunca confiara na limpeza da escola. "E eu sei me defender, Kurt, mas obrigada por sua preocupação, apesar de desnecessária."
O garoto continuou a encara-la, em silêncio, incerto do que deveria fazer.
"Deseja me dizer mais alguma coisa, Kurt?"
"Eu sou gay." Após dizer isso, seus olhos estavam bem abertos e sua mão direita tapava sua boca. Ao que parecia, ele não planejava dizer aquilo.
"Devo dizer que o fato de você ser gay é algo da qual já tenho conhecimento, mas agradeço por me dizer e o parabenizo por finalmente aceitar quem você realmente é." O outro relaxou, mas ainda estava inquieto.
"Você não entende. Meu pai me deserdaria se souber! Ou se tiver certeza, o que vier primeiro. Eu já sou um perdedor para todos nessa escola. Todos sabem como seus pais ainda são tratados. Imagine o que poderiam dizer e fazer comigo." Rachel levantou aproximando-se do albino.
"Há muita gente que apenas ignora, mas sempre há os que irão realmente tentar fazer algo contra você por isso. Estamos em uma cidade pequena onde ser visto como diferente já é muita pressão e vai ser pior quando você sair daqui. A escolha é somente sua, Kurt. Você pode esconder quem você é pro resto da vida por ser mais fácil, mas então você será infeliz, ou você pode aceitar e lutar por isso. Não estou dizendo que você precise anunciar ser gay, mas não negue." O abraçou fortemente sendo retribuída. Nunca havia abraçado o garoto e chegou a pensar uma vez que se o fizesse, o outro iria empurra-la para longe e queimar as roupas que estava vestindo durante a ação. "Se você quiser, converse com meus pais. Iremos apóia-lo no que você precisar."
"Obrigado, Rachel." E a abraçou novamente, lágrimas em ambos os rostos. "Mas ainda não confio na majestade do McKinley."
"Eu mesma ainda estou trabalhando nisso." Sorriu.
Rachel estava mais contente quando finalmente Kurt percebeu que a diva não se resumia a vestimenta brega – palavras dele – e uma voz maravilhosa – também palavras dele, mas caso ela repetisse, Kurt negaria -. O garoto teve uma longa conversa com Hiram e Leroy que ficaram felizes em dividir experiências e falar como cada um realizou ser gay, e como cada família e amigos reagiram. Alguns dias depois, o albino contou ao pai que disse que já sabia e que não se importava, pois continuava a ama-lo.
Kurt ligou chorando para Rachel que chorou também e ambos ficaram três horas balbuciando incoerentemente coisas sobre amizade, amigos para sempre, roupas e festa do pijama.
Alguns dias depois, era um domingo à tarde quando Kurt arrastou sua melhor amiga, Mercedes, a uma cafeteria para se encontrarem com Rachel e a Trindade Profana.
Mercedes sabia da ajuda da cantora e o apoio dos pais da mesma ao garoto, e até passou a ser menos hostil com a morena, mas ainda era cética sobre a amizade da diva com as três mais populares da escola. Tudo o que pensava sobre, comentava apenas com Kurt. Todos sabiam que os dois eram os alunos mais fofoqueiros da escola, perdendo apenas para Jacob que carregava sua câmera e gravador para todo canto que ia. Quinn desconfiava do silêncio deles, mas quando Rachel lhe falou sobre Kurt, sabia que não precisaria se preocupar com ele. Já Mercedes, seria um problema. Além dela não conseguir manter um segredo, costumava competir por atenção com Rachel e se fazer um escândalo sobre a amizade da morena com Quinn lhe desse atenção, que assim fosse.
"Boa tarde, Kurt." Abraçou o amigo. "Olá, Mercedes." Acenou, sabendo que a outra ainda não a aceitava completamente. "Por favor, sentem. Ainda não pedimos nada, caso queiram escolher algo e comer conosco."
"Olharemos o cardápio, obrigado, Rachel, querida." Aceitou o menu oferecido pela diva e o entregou à Mercedes. "O que farão do resto do dia?"
"S e eu vamos alimentar os patos." Disse Brittany excitada. "Depois vamos para minha casa fazer sexo." Santana sorria de lado, com certeza pensando em simplesmente puxar a namorada e ir logo embora. Quinn continuava a olhar o cardápio como se a dançarina tivesse comentado sobre o tempo. Rachel foi a única que teve a decência de corar. Mercedes e Kurt não sabiam o que dizer, encarando Brittany. "Quinn e El querem dançar e S disse que elas querem fazer isso na horizontal, mas eu não sabia que era possível dançar assim."
Kurt e Mercedes, se possível, ainda estavam mais incrédulos. Quinn continuava a olhar o cardápio.
"O que Ny quis dizer é que Quinn e eu estamos decidindo sobre irmos ao cinema ou jogarmos Just Dance na casa dela." Explicou Rachel aos amigos que pareciam aliviados.
"Eu digo para vocês fazerem os dois." Sugeriu Kurt. Brittany concordou batendo palmas vigorosamente.
"Os filmes em cartaz agora são uma porcaria." Lembrou Santana. "Q, leve a anã no observatório. Hoje o céu vai estar sem nuvens." Mercedes franziu o cenho quando ouviu a latina usar um dos apelidos criados para caçoar da diva, mas Rachel não pareceu se ofender e Quinn quem parecia desconfortável, ainda com os olhos pregados no cardápio.
"É uma excelente ideia, Santana. Obrigada." Rachel sorria para a latina que deu de ombros.
"As formigas tem cintura fina para que possam mover as porções separadas do corpo com mais liberdade em passagens estreitas." Disse Brittany abraçada a namorada. Mercedes e Kurt a encararam esperando por algum complemento, mas nada veio.
"Isso as permitem se contorcer em diferentes direções, o que é bastante importante em um formigueiro." Completou Rachel sorrindo orgulhosa para a dançarina que acenava com a cabeça concordando. "Todos decidiram o que pedir?" Mercedes encarava a morena como se visse duas cabeças.
Quinn gesticulou chamando um garçom e apontou para Santana.
"Um desses smooth de frutas vermelhas, um suco de laranja sem açúcar e dois muffins de chocotale." Pediu Santana.
"Um suco de morando batido com leite e açúcar, por favor, e um croissant de queijo." Disse Kurt logo em seguida.
"O mesmo que o dele, mas traga dois croissants." Pediu Mercedes.
"Serão dois smooth de frutas vermelhas, sendo um com leite de soja, uma água e duas saladas de frutas, por favor." Pediu Quinn entregando o cardápio ao garçom que repetiu os pedidos antes de se afastar.
Os minutos iam passando, e Mercedes pensava em diversos cenários onde Quinn sempre acabava humilhando Rachel. Ela não conseguia entender o que as duas poderiam ter em comum, além de estudarem na mesma escola e morarem na mesma cidade. E tudo parecia errado: desde a maneira como a cantora sorria para Quinn e esta lhe falava suavemente até a loura não interromper as divagações da diva e nem deixar que ninguém interrompa. Ou, no caso de Santana, ter cortado a latina duas vezes até que ela decidiu não falar mais nada e deixar Rachel vomitar as palavras livremente.
"O que raios você tem, tentativa falha de ser Beyonce?" Perguntou Santana rudemente. "Desde que chegou você fica encarando Q e fica fazendo essa cara de dor de barriga."
"Estou quase desvendando essa tentativa de, mais uma vez, humilhar Rachel." Mercedes não estava nem no começo de desvendar algo, mas não se deixaria intimidar agora.
"Cedes!" Reprovou Kurt olhando a amiga como se a visse pela primeira vez.
"Vou repetir para você o que estou repetindo para todos com coragem o suficiente de me dizer o mesmo, Mercedes." Disse Rachel polidamente. "Agradeço pela preocupação, mas ela é desnecessária. Acredito que Quinn e, mesmo Santana, tenham a melhor das intenções. E, de qualquer forma, sei me defender."
"Melhor das intenções?" Mercedes repetiu incrédula. "Rachel, elas te atormentam desde o jardim de infância! Xingamentos, desenhos pornográficos, raspadinhas, empurrões e diversas outras coisas piores! Você tenta ser amiga delas há anos e nem mesmo quando Quinn ficou grávida ela quis saber de você! E ainda deu Beth pra sua mãe! A mulher que te rejeitou! Duas vezes!"
"Hey!" Interveio Santana ao perceber Rachel quase às lágrimas. Brittany estava amuada ao lado da morena, apertando seu braço fortemente. "Não grite com Berry, ou arranco essas suas mechas prendendo na porta do meu carro e te arrastando pelo estacionamento!" Se possível, Kurt ficou ainda mais pálido.
"Como você pode confiar nessa magrela branca depois de tudo que ela te fez, Rachel?" Mercedes não parecia intimidada pela latina.
"E por que raios você se importa agora, Jones? Não te vi mover um dedo pra ajudar Berry nas vezes que fazíamos da vida dela um inferno." Disse a latina agora sendo segurada pela namorada que tinha certeza que, no momento que a soltasse, Santana se sentiria livre para executar suas ameaças.
"Pelo menos eu nunca fiz nada contra ela!"
"Se você não faz nada para ajudar, faz parte do problema, Mercedes." Disse Brittany deitando a cabeça no ombro da latina.
"Sábias palavras, Ny." Rachel sorriu carinhosamente para a dançarina. "E eu não devo nenhum explicação à você, Mercedes. Minha amizade com Quinn é algo somente entre nós duas."
"Amizade? Você está defendendo ela, e quem te defende é Santana!"
"Santana está mais preocupada com o fato de sua atitude estar assustando Brittany. Aliás, também reprovo seus modos, nesse caso, falta deles." Franziu o cenho. "E Quinn sabe que posso me defender sozinha." A loura ergue uma sobrancelha em direção a Mercedes, e continuou sem dizer nada. Kurt estava achando que teria de chamar uma ambulância, e, talvez uma equipe de perícia forense para Mercedes. Santana teria certeza de tudo parecer um acidente.
"Mercedes, você sendo irracional. Brittany está quase chorando. E eu não vou depor a seu favor em um tribunal depois que Santana e Quinn forem acusadas de tentativa de homicídio."
"Viu, amante de tots? Até o Porcelana está do nosso lado." Mercedes encarou o amigo irritada.
"Quer saber, desisto. Seja amiga de quem você quiser, Rachel. Quando elas te humilharem, de novo, eu vou estar sendo, finalmente, a estrela do Nova Direções enquanto você chora em casa por causa delas, de novo." Levantou bruscamente. "Não sabia que você gostava tanto de ser o cachorrinho delas. Se eu pagar sua comida, também consigo que você faça algum truque?"
Num movimento rápido, Quinn se levantou e aproximou-se da outra. Seu rosto a milímetros do dela e sua expressão era fria fazendo Mercedes finalmente perceber ter ido longe demais.
"Mais uma palavra contra Rachel e sugiro que mude de cidade." Sibilou.
"Quinn, por favor." Pediu Rachel. A loura não se moveu, mas deu um passo para trás, ainda encarando Mercedes.
"Você é egoísta e não está realmente preocupada com Rachel, apenas que causar um escândalo. Vá embora, pense bem como irá agir a partir de amanhã e não dirija a palavra a nenhuma pessoa dessa mesa a menos que seja realmente necessário." Ergueu uma sobrancelha. "Entendido?"
"É. Tanto faz." Deu as costas e saiu do estabelecimento.
"Yo! Ela não pagou a parte dela." Lembrou Santana.
"Tudo bem, eu pago." Disse Kurt tirando mais algumas cédulas da carteira e juntando com o dinheiro já sobre a mesa. "Sinto muito por toda essa cena. Eu realmente não esperava que Mercedes fosse agir assim. Sinceramente, não sei onde meter a cara depois dessa. Terei uma séria e longa conversa com ela mais tarde. Inaceitável."
"Está tudo bem, B. Acabou." Murmurou Santana acariciando o rosto da dançarina.
"E o que você acha da minha amizade com Rachel?" Perguntou Quinn encarando Kurt. "Um dos alunos mais linguarudos da escola e que ainda não abriu o bico é algo a se desconfiar."
"Quinn." Falou Rachel em tom de aviso.
"Tudo bem, Rae." Acalmou a morena. " Claro que tenho muitas dúvidas, mas não me cabe julgar." Deu de ombros. "E tenho certeza que nossa diva está pronta mesmo se o cenário for um ataque de zumbis."
"Ataque de zumbis? Sério, Louça Fina?" Questiono Santana.
"Não são muitas as discussões intelectuais que você ouve no vestuário masculino." Levantou-se graciosamente. "Devo ir e acalmar meu espírito comprando um blazer novo da nova coleção Armani." Rachel sorriu indo abraçar o amigo. "Estou ao seu dispor, Rae."
"Eu sei. Obrigada, Kurt."
"Até amanhã." Disse Quinn, acenando com a cabeça. Kurt olhou confuso para a cantora que sorriu mais ainda. Santana rolou os olhos, acenando para o albino também e Brittany jogava os braços sobre a cabeça, de forma descontrolada, despedindo-se.
"Até amanhã, Quinn. Santana e Brittany."
Kurt comprou dois blazers e uma calça skin nesse dia. Dois dias depois, foi até a casa dos Jones e passou a tarde conversando com Mercedes. No final, os dois se abraçaram chorando, voltando a ser os melhores amigos. No dia seguinte, Mercedes falou com Rachel, e mesmo elas não tendo uma reconciliação dramática como a que tiveram com Kurt, passaram a conviver bem melhor. Tanto que dois finais de semanas depois, os três estavam confortáveis o bastante para uma festa do pijama.
Rachel começava a acreditar nas boas intenções de Quinn e Santana, após ver a duas defende-la. E Mercedes foi apenas a primeira a receber ameaças por parte das líderes caso tentasse novamente chatear a diva.
Duas vezes, Rachel sugeriu que estudassem em sua casa. Leroy não entendia o motivo da filha sempre ir de encontro a loura – mesmo Rachel repetindo que a escolha para onde iriam nas horas livres era em conjunto – e passou a exigir um dia em que a escolha fosse a casa Berry. Hiram sabia que possivelmente Quinn não estivesse pronta para encarar os pais da garota que atormentara por tanto tempo, mas preferia não comentar. Após muito ouvir de seu papai, Rachel cedeu.
"Quinn, você está me ouvindo?"
As duas haviam subido algumas escadas e chegado ao ginásio, parando em frente a porta o vestuário das líderes de torcida. Quinn estava curiosa imaginando qual próximo ambiente entrariam. Só não esperava que fosse o quarto de Beth.
"Ela está tão grande." A loura olhava as fotos emolduradas da filha espalhadas pelo quarto. Havia uma em que Puck a segurava no colo, sorridente, quase parecendo alguém maduro o suficiente para ser pai. Ao lado, havia uma com Quinn que parecia quase as lágrimas e a loura reconheceu ter sido tirada na primeira vez que reencontra a filha.
"Vocês se parecem tanto." Disse Rachel, finalmente conseguindo a atenção da outra que aproximou-se da foto que a morena olhava. Era delas duas com Beth.
"Acho que Shelby nunca mais vai me deixar vê-la."
"Você está enganada." A morena a encarou de cenho franzido. "Shelby sempre perguntava sobre você e mesmo sendo tão pequena, Beth sente sua falta. Ela dormia apenas se o carneiro de pelúcia que você deu estivesse no berço. Todos sentem sua falta, Quinn. Você ainda não percebeu isso?"
Apesar dos últimos desentendimentos que a loura tivera com os amigos, família e professores, todos esperavam que Quinn percebesse ser amada e deixassem que lhe ajudassem.
"Eu nem lembro mais por que me afastei tanto." Quinn suspirou cansada, sentando na cadeira de balanço próxima ao berço. "A princípio, achei que minha mãe iria me expulsar de casa, de novo, quando descobrisse que a filha, além de mãe adolescente, também era lésbica. Depois meu pai reapareceu, ameaçando minha mãe a aceita-lo de volta. Então Shelby voltou, e vê-la todo dia... Mesmo eu podendo visitar Beth, era difícil ver as duas juntas e perceber que eu nunca seria chamada de mãe pela minha própria filha. Daí você" Parou bruscamente, olhando para as mãos sobre o colo.
"Daí eu disse que te amava." Completou Rachel encarando a loura. "E você percebeu que havia me alcançada, então tentou me proteger se afastando de mim." Ajoelhou de frente a outra. "Mas você me machucava mais ao se afastar."
"Eu fiquei com medo de ser rejeitada pelos meus pais, de novo, e por Beth. Eu precisava rejeita-los primeiro, mas então eu passei a te rejeitar." Encarou as orbes castanhas. "Me desculpe, Rachel." Enxugou algumas lágrimas. "Eu estraguei tudo como sempre faço."
"Você ainda pode reparar seus erros, Quinn. Nenhuma de suas ações foram graves o bastante para não serem revertidas, mas você precisa deixar que os outros lhe ajudem e ter mais confiança em si mesma."
"E como eu conserto isso?"
"Primeiro, tenho que tira-la daqui."
"Quinn, no lugar de eu pegar roupas para voltarmos para sua casa, porquê não ficamos na minha mesmo? Nós nunca ficamos na minha casa." Ambas estavam no carro, em frente a casa de Rachel. Naquele dia, a morena teria aula de canto, mas iria da casa da outra após estudarem. Passaram por lá apenas para que Rachel pudesse pegar um muda de roupa.
A loura encarou a outra por alguns segundos, pensando em algo para falar. Nas duas vezes em que a ideia surgiu, foi fácil mudar de assunto e convencer Rachel de irem para a mansão Fabray, mas agora Quinn sabia não ter jeito.
"Tudo bem." E desligou o motor do carro.
"Meus pais não vão lhe causar nenhum mal, Quinn." Disse Rachel tocando nos lábios da loura a parando de morder o próprio lábio. "Sempre que você está nervosa, morde o lábio inferior." Respondeu percebendo o olhar questionador da loura.
"Eles vão jogar água quente em mim antes mesmo de eu passar da porta." Murmurou saindo do carro.
"Quinn Lucy Fabray."
A loura paralisou ao ouvir seu nome completo. Quando sua mãe quem falava, sabia que havia feito ou falado algo de errado, mas sempre saia impune. Então sua reação era apenas de tédio, esperando pelo sermão da mãe. Quando seu pai quem falava – e isso aconteceu apenas uma única vez -, sua reação era de puro terror. Russell nunca levantara a mão para as filhas e a esposa, nem nenhuma mulher, mas apenas o olhar louco do homem a aterrorizava. Ouvir Rachel Berry dizer seu nome era um misto de expectativa com ansiedade. Seja lá o que viesse depois, a loura sabia que mereceria e que precisaria se desculpar o mais depressa possível.
"Você está sugerindo que meus pais são insensíveis e violentos a esse ponto? Tenha conhecimento de que meus pais são dois cavalheiros, os mais compreensíveis e amáveis parentes que alguém pode ter. Eles me amam e me apoiam, além de nunca me cobrarem nada além do que é direito deles cobrar e dever meu realizar. E, caso eles façam alguma coisa remotamente negativa contra alguém, com certeza tiveram uma excelente razão." Bufou cruzando os braços encarando a loura.
"Me desculpe, Rachel. Eu sei que seus pais são homens maravilhosos. Você é um exemplo de quão ótimos pais eles são, mas tente entender que Russell não é nenhum exemplo de nada bom e, caso os papeis fossem invertidos, ele, com certeza, faria algo pior." Com isso, a morena suavizou a expressão e descruzou os braços.
"Está tudo bem, Quinn." Rachel segurou-lhe pela mão e, seguiram juntas para dentro da casa. "Papai, cheguei." Anunciou fechando a porta atrás de si.
"Cozinha."
Leroy usava um avental branco com várias imagens de bichos, enquanto esquentava algo na frigideira. Desligou o fogo ao ver as duas entrando na cozinha.
"Olá, Estrela. Bem-vindo de volta ao lar." Sorriu.
"Olá, papai. Obrigada. É bom voltar." Quinn se perguntou se o cumprimento era um tipo de código entre eles – algo como, seja legal, trouxe a minha inimiga da escola -, ou apenas a maneira rotineira de se falaram. "Papai, essa é Quinn Fabray. Quinn, esse é meu papai."
"Olá, senhor Berry." Disse educadamente, acenando.
"Olá, Quinn. Deseja algo para beber ou comer? Estou fazendo sanduíches. Veganos, claro, mas você nem perceberia a diferença caso eu não tivesse dito."
"Não, senhor, obrigada. Ainda estou cheia do almoço."
"Papai, Quinn e eu iremos estudar um pouco e depois ela vai me deixar na aula de canto, tudo bem?"
"Claro, Estrela. Podem subir. Mais tarde levo um lanche para vocês. Alguma preferência, Quinn?"
"Não, senhor." Mordeu o lábio inferior. "Eu não tenho problemas com comida."
"Quinn gosta de praticamente tudo, papai. Ela nasceu para ser uma líder de torcida porque ela realmente gosta de comer e não engorda." A loura corou. " Seu controle na alimentação é maior do que o necessário por conta da lavagem cerebral que a treinadora Sylvester faz."
"Sanduíche extra para Quinn, então." Ligou o fogo novamente, voltando a atenção ao que estava fazendo. Rachel, então puxou a loura escada acima e foi para o quarto.
O quarto da diva era de conhecimento de todos que entravam em sua página do MySpace para assistir as gravações que ela fazia. Quinn, apesar de todos os comentários ofensivos, gostava do quarto da outra.
"É bem diferente entrar no seu quarto e vê-lo por um vídeo na internet." Comentou a loura olhando a decoração. Rachel sentou na cama, nervosa. "Os comentários que escrevi sobre o seu quarto foram maldosos, mas é tudo mentira. Eu não penso realmente tudo aquilo. Seu quarto é lindo, Rachel."
"Obrigada, Quinn." Sorriu. "Você quer conhecer o resto da casa ou começar a estudar logo?"
"O resto da casa, por favor."
No final, nenhuma delas estudou coisa alguma, preferindo ficar no porão vendo filme e comendo dos sanduíches que Leroy preparara mais cedo. Na metade do segundo filme, Rachel pediu licença e foi tomar banho deixando Quinn sozinha. Após alguns minutos, a loura subiu seguindo as vozes dos senhores Berry e os encontrou na cozinha. Leroy sentando, com o queixo apoiado em uma mão e Hiram em pé, ainda com a roupa do trabalho, usando um avental azul e lavando a louça que o marido sujara mais cedo fazendo sanduíches.
"Olá, Quinn. Deseja outro sanduíche?" Perguntou Leroy polidamente.
"Não, senhor, obrigada." E encarou Hiram. "Boa tarde, senhor Berry. Sou Quinn Fabray. Prazer em conhece-lo."
"Boa tarde, Quinn. E o prazer é meu." Sorriu de um jeito que lembrava muito a filha. "Rachel está no banho, se arrumando para a aula de canto. Quero agradecer pessoalmente por acompanhar minha filha em todas as atividades que ela tem. Apesar de ser tão independente, Rachel gosta quando tem companhia. Infelizmente, trabalho o dia quase todo e não posso acompanha-la nos ensaios e meu marido também é muito ocupado na maioria dos dias, nos deixando pouco tempo livre para aproveitarmos com nossa filha."
"Não é nenhum incomodo, senhor Berry." Mordeu o lábio revezando o olhar entre os dois homens. "Eu gostaria de falar com vocês."
"Não quer sentar?" Perguntou Leroy já afastando uma cadeira.
"Não, não." Apressou-se em dizer. "Estou bem em pé. De verdade." Na verdade, sentia que iria desmaiar a qualquer momento. "Quero me desculpar por tudo que fiz a sua filha." Disse de uma vez. "Eu sei que ela comenta o menos possivel para não preocupa-los, mas... Desde pequenas, eu fui ruim pra ela. Eram comentários maldosos sobre as roupas dela, sobre vocês e sobre ela falar muito até xingamentos, empurrões e raspadinhas." Estava embaraçada e queria sair de lá correndo, mas precisava continuar. "E quando eu não fazia uma dessas coisas pessoalmente, mandava alguém fazer. Por diversão." Respirou fundo algumas vezes. "Rachel sempre me ajudou, mesmo quando eu a afastava. E eu gostaria de culpar meu pai, ou a sociedade, ou sei lá, a crescente violência na TV, mas sei que a maior parte disso é culpa minha. Eu não sei ainda como me desculpar com ela, então queria me desculpar primeiro com vocês." Falou determinada. "Rachel é a pessoa mais pura que pode existir. Ainda que ninguém valorize o que ela tem a oferecer, ela continua perto e ajudando. E a voz dela é maravilhosa, e vocês são os melhores pais que alguém poderia ter. Eu sinto muito. Por tudo."
Leroy piscou algumas vezes, tanto para ter certeza que de que não estava alucinando como para segurar as lágrimas. Hiram revezava o olhar entre o marido e Quinn até que, num impulso, abraçou a loura que não reagiu. Apenas o encarou surpresa quando ele se afastou.
"Obrigado por suas palavras, Quinn." Disse sorrindo. "Fico contente por sua coragem em falar conosco e por, finalmente, aceitar o que Rachel tem a lhe oferecer."
"Somos pessoas leais, Quinn. Se ficar conosco, estaremos sempre ao seu lado." Completou Leroy, também sorrindo.
Agradeço à todos que leram e passaram a acompanhar essa fic! E muito obrigada pelos comentários! Para quem não respondi de volta, a mensagem privada estava desabilitada (viu, Sabaku no Ino-sama?) ): Também quero indicar uma ótima fanfic que comecei a ler há pouco tempo: Mantendo Você Perto de Mim. Também de Glee e Rachel/Quinn como par. Autoria de Drika-achele que escreve muito bem e faz você querer ler do começo ao fim. Para quem não conhece, agora é hora!
Sorrisos e bom final de semana. E lembrando, podem mandar seus pensamentos via review sem qualquer pudor!
ps: não tenho ninguém para revisar, então perdoem os possíveis erros ortográficos, ou repetições, ou nomes errados, enfim.
