Como continuar

Como continuar?

A noite no Santuário era serena e, por mais paradoxal que fosse, as estrelas no céu brilhavam com imensa vivacidade. Era como se todos que morreram até agora olhassem para baixo, regozijando a vitória dos Cavaleiros de Bronze das duas Amazonas de Prata, os únicos sobreviventes de todos os 88 guerreiros de Atena.

Havia um enorme banquete preparado pela Fundação. No pátio externo da Sala do Mestre, uma mesa branca e longa estava disposta com os mais variados manjares de todo o mundo, focando principalmente nas culinárias das terras de cada um dos doze presentes ali. Tochas haviam sido dispostas para iluminar o local e aquecer um pouco os ares de outono grego e a brisa fria que soprava à beira do Mediterrâneo. Embora Saori houvesse contratado uma orquestra, quem levava a música era Seiya, ao violão.

- Vamos lá, gente, cantem todos!

Sentados no chão e dispostos em círculo, por um momento não se lembrava que Saori era uma deusa. Ela estava sentada entre Shun e Shyriu, abraçada nos cois, cantarolando, junto com os demais, a música que Seiya tocava. Vestia seu tradicional vestido branco e o enfeito no cabelo, mas parecia esquecer da pompa que aquela roupa trazia, e seu báculo jazia apoiado numa cadeira ao redor da mesa. A única coisa que destoava naquela confraternização eram Shina e Marin.

Marin vestia-se com uma saia longa preta, até o meio das canelas, rodada, de um tecido leve. Calçava sapatos de salto médio pretos e usava um blusão vermelho de lã de gola alta, mantendo os cabelos ruivos e encaracolados presos de modo um tanto displiciente numa piranha.

Shina vestia um sobretudo jeans, com calças do mesmo tecido, tênis brancos com detalhes verdes que lhe moldavam o pé quase como uma sapatilha, e uma camiseta de manga comprida verde com um lenço branco a lhe adornar o pescoço esguio.

Mas as duas usavam suas máscaras.

Foi então, num momento, em que Saori ergueu uma mão, num sinal para que Seiya parasse de tocar, e sorriu para as duas. Todos gradativamente foram se silenciando, todos, menos Seiya que, empolgado, já berrava, de olhos fechados, balançando pra frente e para trás, quase levando o violão às costas:

- Oh, awn-oh-awn, Sweet child of mi-i-iiiiine... Yeah!!... Huh... Hein? Está tudo bem?

Houve uma risada coletiva seguida da voz de Ikki. Sim, até mesmo Ikki estava ali!

- Seiya, você canta muito mal! Hahaha!!
- Ah, Ikki, o que é isso - respondeu Jabu - Você nunca viu o Tatsume cantarolando no banho!

E mais uma imensa risada. Por fim, Hyoga tomou o controle da situação:

- Muito bem, muito bem. Saori que falar algo. Diga, Saori.

- Obrigada, Hyoga. - Disse olhando-o brevemente e virou-se às Amazonas em seguida - Shina, Marin, eu estive pensando: a voz de vocês duas fica abafada atrás dessas máscaras.

Houve um silêncio geral. As duas se entreolharam e voltaram novamente a olharem para Saori, podendo a deusa apenas adivinhar que expressão elas possuíam por trás daquelas fachadas de metal.

- O que eu quero dizer - continuou Saori - É que vocês já mostraram seu valor em combate. Não só em combate, mas também como pessoas. Eu declaro agora, vocês não vão ser mais chamadas de mulher-cavaleiro. A partir de hoje, vocês são Amazonas. Tirem essas máscaras. Não precisam mais usá-las.

O choque havia sido imenso, e Shina, minutos antes de entrar no ringue, ainda lembrava de todas as emoções que lhe assomaram no momento em que recebeu a permissão para tirar a Máscara. E fazia olhando para a mesma, prestes a colocá-la, antes de entrar na arena para arrancar o couro de Hydra.

A Máscara não lhe apertava na cabeça, nem tinha tiras para serem presas. Ela unia-se ao seu rosto como as demais peças da armadura uniam-se ao seu corpo. Mas esquentava. Resfriava o ar. Doía quando era acertada no rosto e aquela chapa de metal lhe esmagava a face. Doía quando, por crerem que ela era tão impassível quanto a expressão da Máscara, julgavam-na fria.

E agora, ela a colocava uma vez mais. Hydra iria dormir numa banheira de gelo esta noite.

...

- Retomar a Guerra Galática? Lutar mais? Mas pra quê?!
- Por dinheiro, Shun! Esses imbecias pretendem usar seus cosmos para ficarem ricos!
- Ikki, não é exatamente assim...
- Sim, é exatamente isso, Saori! Não me interessa você ser Atena ou não, o dia em que quiserem te enrabar eu venho dar minha vida por você! Mas não, fazer isso simplesmente porque a Fundação anda mal das pernas? Pra que manter a fundação, afinal!?

Foi então que Jabu ergueu-se, punhos cerrados à frente do rosto, no meio daquela sala de estar onde todos reuniam-sem em largas e confrotáveis poltronas ao redor da lareira. Saori havia vindo da Grécia, deixando o Santuário aos cuidados das famílias que, por gerações, cuidaram dele nos períodos entre batalhas. Ela reuniu todos os Cavaleiros e Amazonas ali porque recebera a notícia que a Fundação Graad estava prestes a declarar falência.

- Você não pode falar com Atena assim, seu atrevido!
- Com Atena, ou com Saori, de quem você sempre foi um escravo enrustido?
- Chega vocês dois! - Bradou Shun - Ikki, por favor, não fale com Saori assim, ouça o que ela tem a falar!
- Sim, Ikki - imendou Hyoga - Ainda há muito problemas no mundo que não compete a nós Cavaleiros resolvê-los. Há fome, guerra, corrupção, tráfico de drogas, órgãos e pessoas, pobreza... e infelizmente essas coisas não se resolvem através de lutas, mas sim com dinheiro!

Ikki não podia acreditar naquilo. Lutou tanto para que, no final das contas, se tornasse um ídolo de adolescentes e cuja imagem rendesse milhares de dólares? Os administradores da Fundação já haviam desviado e corrompido os milhares que a Fundação tinha, quem garantia que isso não ia acontecer de novo? Pessoas normais não têm um Cosmo que pode ser analisado como benigno e maligno. O Cavaleiros haviam salvado a Humanidade daqueles que poderiam destruí-la, mas não é dever nem deles em de Atena salvar a Humanidade dela própria.

Se Hades que matar a todos, pois bem, que lutemos contra Hades. Se um povo se liberta de um tirano e, anos depois, afunda em crises de corrupção e tráfico de drogas, digamos, é um povo que não aprendeu a lição. A missão dos cavaleiros é divina, e não mundana. A Humanidade cuida de si própria, e os Cavaleiros a protegem daqueles de quem ela não pode se defender. Era um golpe em sua honra envergar a Armadura de Fênix uma vez mais por nada que não fosse lutar pra proteger Atena e a justiça.

Por fim, Hyoga imendou:

-...E quanto ao modo que se dirigiu a Saori, e falo por todos aqui, não só por Jabu, mas inclusive por Shun; se o fizer novamente você vai ter que ressurgir das cinzas uma vez mais.

Houve silêncio. Todos menos Shun, Saori e Marin olhavam para Ikki com um misto de ódio e expectativa. Shun e Saori mostravam amor e expectativa. Os olhos azuis de Marin... estes mostravam alguma coisa além que este não sabia precisar ao certo. Por fim, o silêncio foi quebrado.

- Eu vou embora daqui. Se for ficar, Adeus, Shun.

E tendo dito isto, Ikki colocou-se a passos largos para fora da confortável sala, para buscar sua armadura e ir embora. Desta vez, de modo definitivo. Se Shun tivesse aprendido qualquer coisa com isso, viria com ele. Mas tinha certeza que Shun ficaria. Mas ao menos, Shun era doado. Como Cavaleiro de Andrômeda, se sacrificaria pelo bem alheio, mesmo que esse sacrifício tivesse de ser algo mais importante que a própria vida: a honra.

- Ikki! Espere Ikki...!

Shyriu confortou Shun num abraço, enquanto seu irmão desaparecia corredores a dentro.

...

E assim, ao som de uma música empolgante no Coliseu lotado de pessoas, Shina correu rampa abaixo e pulou clamando por sua armadura. Vestindo a Máscara. Ela era das favoritas do público.

E Hydra iria apanhar muito por causa disso.