Capítulo 2 – Somos inseparáveis
Roger Ackles andava de um lado a outro da sala enquanto Jensen, calmamente, repetia as mesma palavras que dissera minutos antes.
– Eu falei com Jim Beaver, pai do meu amigo Chris enquanto o senhor estava no trabalho, papai. Ele é advogado e trabalha com assuntos relacionados à família e me garantiu que eu conseguiria a guarda do garoto. Eu não entendo qual o problema...
O homem parou e mais nervoso ainda, comentou com o tom de voz alto, sem conseguir esconder sua irritação.
– Qual o problema? Você, um jovem solteiro, morando sozinho em um apartamento com uma criança que poderia ser seu irmão caçula! O que você acha que os outros vão pensar?
– O que o senhor pensa de mim? Porque eu nunca dei motivos para que minha conduta fosse questionada. Esqueceu como a mamãe me educou? – Falou de pé, próximo ao pai, visivelmente irritado.
O mais velho suspirou longamente e encarou o filho. Jensen tinha a melhor das intenções com Jared, mas temia que os sentimentos de ambos, pudesse ultrapassar a barreira da amizade e não era isso que ele queria para seu unigênito.
– Perdoe-me e entenda. Você tem uma vida social, amigos, sem falar que sua futura esposa pode não gostar do fato de você ser um pai solteiro e... – O filho o interrompeu.
– Pode parar senhor, Roger Ackles! Eu não estou interessado em conquistas, se eu casar ela terá que aceitar o Jay e mesmo que eu não consiga adotá-lo, jamais permitirei que nos tirem a amizade que construímos. Eu o amo como alguém da família e ele é prioridade.
Falou em um só fôlego.
– Mas filho...
– Sinto muito, mas a decisão já foi tomada e o Jay será adotado por mim.
Saiu, deixando o patriarca mais preocupado do que antes. Ele esperava arrumar bons pais para o menino e afastá-lo de Jensen. Porém, percebeu tarde demais, que sua atitude apenas contribuiu para que se aproximassem mais ainda.
– Donna, eu queria tanto que você estivesse aqui! Eu tentei separá-los e olha o que fiz... – Pensou, sentindo-se frustrado.
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Da janela de seu quarto, Jensen olhava com tristeza para o céu estrelado. Estava triste. Não entendia a atitude do pai. Como ele pensou em afastá-lo de seu melhor amigo? Por que causar mais dor a uma criança que cresceu sob os cuidados e a caridade de estranhos?
A verdade é que ele não parecia o mesmo homem doce e gentil que sempre ajudou os indefesos. Preocupar-se com uma resposta à sociedade enquanto fazia alguém que não merecia sofrer?
– Nunca vou abandoná-lo, papai. Mesmo que eu não possa estar presente sempre o protegerei de alguma forma.
Pensou. E, quando uma estrela cadente riscou o céu, deixou que o vento da noite levasse o nome de sua mãe, sussurrado em melodia, pedindo a ela que de onde estivesse, ajudasse-o a cuidar daquele ser que aprendera a amar. Lembrando da música que cantava para ele, sentiu o peito apertar diante da intensidade dos significados de seus versos. Cantarolou-os afastando o medo de perdê-lo.
Como pode o peixe vivo
Viver fora da água fria
Como pode o peixe vivo
Viver fora da água fria
Como poderei viver
Como poderei viver
Sem a tua, sem a tua
Sem a tua companhia.
Sem a tua, sem a tua
Sem a tua companhia
Os pastores desta aldeia
Já me fazem zombaria.
Os pastores desta aldeia
Já me fazem zombaria
Por me verem assim chorando
Por me verem assim chorando.
Sem a tua, sem a tua
Sem a tua companhia
Sem a tua, sem a tua
Sem a tua companhia.
Uma semana se passou após a conversa do jovem Ackles com seu pai. Ele o evitou durante esse tempo, porque todo dia, após o trabalho, visitava o escritório de Jim Beaver em busca de uma resposta, até que na sexta-feira, veio o que esperava.
– Alguma novidade sobre o meu pedido de adoção?
O homem o olhou com o semblante sério e o olhar penetrante. O loiro não entendia o que isso significava. Foi pego de surpresa quando o outro sorriu, falando com empolgação:
– Parabéns, meu jovem! Considere-se pai adotivo de Jared Tristan Padalecki.
– Sem conter a alegria, abraçou o advogado em vez do singelo aperto de mão, permitindo que lágrimas contidas umedecessem o seu rosto iluminado e sorridente.
– obrigado! Nunca poderei realmente pagar sua competência. – Disse emocionado.
Jim Beaver era um renomado advogado. Trabalhava como titular da vara de família no Fórum e era presidente da comissão de advogados de Vancouver. Dono de uma fama regada a vitórias e resolução de casos difíceis sobre guarda de crianças, o homem conhecia pessoas influentes capazes de agilizarem em uma semana o que levaria no mínimo três meses para ser solucionado.
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Jensen mal dormiu a noite. Levantou às cinco da manhã, arrumou o pequeno apartamento e desocupou um quarto que mantinha trancado por falta de uso. Após limpá-lo, espaná-lo e passar uma demão de tinta nas paredes e no teto, resolveu que era hora de fazer as compras. Decorá-lo-ia de acordo com o jeito doce e carinhoso de Jared.
Após passar na empresa em que trabalhava e justificado sua ausência naquele sábado, foi a um supermercado e fez compras, lembrando de alternar entre comidas saudáveis e lanches nos sabores morango e doce de leite. Os preferidos do seu melhor amigo.
Depois de abastecer o carro, foi a uma loja especializada em quartos de adolescentes e com o aconselhamento dos decoradores da loja, comprou o que precisava para o quarto do garoto, pagando um pouco mais para que ainda pela manhã, um decorador fosse ao seu apartamento.
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Olhou para o relógio em seu pulso. Eram cinco e quinze da tarde. Da varanda do seu quarto Jared observava a beleza do pôr-do-sol. O céu, de um azul intenso, contrastava com o rubro que riscava-o de uma ponta a outra, misturando-se ao alaranjado que se estendia em duas camadas opostas.
O vento frio arrepiava-lhe a pele e a tristeza se fazia presente. A ausência do loiro o machucava, apesar de saber que quando ele não vinha aos sábados estava trabalhando. Mas, isso não ajudava a doer menos.
Pensava no que as pessoas do orfanato lhe falavam enquanto crescia: o dia que o loiro o conhecera, a maneira como cuidava dele quando bebê, o carinho, a dedicação...
Sabia que o amava. Na verdade, sentia. Apesar de muito jovem e ter um raro conhecimento sobre o mundo, tinha um grande conhecimento sobre seus sentimentos. Eles pulsavam firmes em si e as batidas de seu coração ritmavam apenas um nome, embora, sem ter entendimento do que isso significava, o garoto o queria muito mais do que o "sangue" pudesse explicar.
Fechou os olhos sentindo o frio vespertino arrepiá-lo. Assustou-se quando alguém por trás, afagou o topo de sua cabeça. Sorriu longamente ao ver aquele que ocupava os seus pensamentos.
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Quando Jensen chegou ao The Institute dawn, procurou pelo moreno e foi informado que ele estava no andar de cima, na varanda do quarto que dormia.
Subiu devagar e sem fazer um mínimo de barulho, abriu um pouco a porta avistando o outro. Entrou e afagou os seus cabelos, devolvendo o sorriso quando ele o olhou e lhe sorriu mostrando duas lindas covinhas em sua bochecha, seu sorriso típico, símbolo de quando estava feliz.
Sentou ao lado dele e compartilhando juntos a beleza do entardecer, deu a notícia que mudaria para sempre o rumo de suas jovens vidas.
Em baixo, Ashila e Many ouviram o barulho, subiram correndo as escadas e foram recebidas com um grande abraço enquanto o moreno contava a novidade, tropeçando nas palavras, tamanha sua felicidade.
Entreolharam-se, tento a certeza de que suas suspeitas se confirmariam em pouco tempo.
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O lugar não era muito grande, mas era espaçoso e limpo. O garoto adentrou a sala de estar, observando a organização e beleza de seus móveis em madeira mogno, contrastando com a cor creme das paredes e o verniz branco da laje do teto.
– Que casa linda Jen! Ela é mesmo sua? – Perguntou sorridente.
– De hoje em diante ela é nossa!
A criança largou a mochila sobre o sofá redondo e correu em direção ao amigo. Abraçou-o. Olhou em seus olhos e comentou com lágrimas escorrendo de sua íris azul:
– Pensei que não o veria hoje, mas valeu apena te esperar. Vou poder vê-lo todos os dias.
O jovem Ackles o olhou e alisando-lhe os cabelos, respondeu:
– Muito mais do que me ver, Jay. Vamos compartilhar a vida juntos.
Jensen o levou ao seu novo quarto. Ele era simples: uma cama e um criado-mudo na cor mogno, um abajur em metal fosco, ventilador de teto, um closet na cor da cama e uma escrivaninha com um notebook, um play station e alguns livros para pesquisa. Havia um pequeno banheiro ao lado da cama, no qual fora colocado utensílios para higiene pessoal e toalhas limpas. Tudo decorado de acordo com a cor azul royal das paredes e o teto.
Ao lado da porta de entrada, uma janela em madeira branca vernizada e com vidros, coberta pelo fino tecido da pequena cortina roliça.
Não era um quarto de hotel cinco estrelas, mas sem dúvidas, um quarto aconchegante e cheio de calor humano. Um pequeno mundo para o descanso do menino, após um dia intenso, alternado entre estudos e tarefas escolares. Um pedacinho do paraíso ao qual chamaria de lar, porque por mais simples que seja o lugar, estando ao lado de quem se ama esse é o verdadeiro lugar para se morar.
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Os dois amigos aproveitaram o fim de semana entre rodadas de jogos de vídeo-game, filmes de aventura e pizza. O loiro resolvera fugir um pouco dos padrões de um pai disciplinar. Queria que Jared se costumasse à nova vida ao seu lado.
No entanto, na manhã de segunda-feira, Jensen foi com o garoto a um colégio particular com sistema de semi-internato. Os alunos assistiam às aulas didáticas pela manhã, cuidavam da higiene pessoal e almoçavam no local e tinham aulas de reforço escolar a partir das duas da tarde, saindo apenas com seus pais para sua casa às cinco e trinta da tarde.
Eram sete e trinta da manhã, quando ambos saíram do apartamento seguindo caminho para o "Center School independence". Jensen dirigia animadamente o seu Posh enquanto Jared perdido em seus pensamentos, não notou a pergunta que o outro fizera, voltando a realidade quando sentiu uma mão chacoalhar seu braço.
– Você ouviu alguma coisa do que falei, Jay? – Perguntou debochado.
– desculpe-me, estava distraído. O que foi mesmo que você falou?
Riu com vontade, balançando a cabeça incrédulo da distração do outro.
– Eu disse que você vai gostar desse colégio. É um lugar muito disciplinar, mas amigável. Tenho vários amigos aqui e conversei com eles sobre você. Na maioria são professores e me garantiram que não vão deixar que você se sinta deslocado.
– Ah! Que bom! – Falou sem animação.
– Jay, o que está acontecendo? Não está contente em morar comigo?
O garoto rapidamente tratou de se explicar.
– Não! Claro que estou! Como pode pensar isso, Jen? Você é o meu melhor amigo.
– Então, explique-me o que está acontecendo!
A criança suspirou pesadamente. Temia que o outro se aborrecesse, mas mentir nunca lhe pareceu a maneira certa para se manter um relacionamento. Resolveu expor de uma vez o que o afligia.
– Eu tenho medo que você se canse de mim e que depois de um tempo, perceba que perdeu seu tempo comigo.
Ao ouvir tais palavras, o loiro congelou diante da tristeza contida naquela confissão. Como ele podia pensar isso? Jamais se cansaria de ser seu tutor. Conhecê-lo fora de longe a melhor coisa que aconteceu em sua vida.
Parou o carro no acostamento, retirou o cinto de segurança e fitou os seus olhos tristes. Estavam úmidos por lágrimas que resistiam firmemente. Passou o polegar e enxugou-os antes de falar:
– Eu nunca vou me arrepender de estar ao seu lado. Eu o amo, garoto ingênuo e sei que vamos ter dias ruins em nosso caminho, mas sabe de uma coisa? Juntos somos mais fortes e também completos. Concorda? – Jared balançou a cabeça confirmando. – ótimo! Esqueça essa tristeza e se concentre no que nós ganhamos: a companhia um do outro.
Ambos sorriram espontaneamente. Aquela conversa simples e sincera era o que o mais novo precisava para manter sua mente focada no que o futuro o aguardava. E seu melhor amigo mais do que qualquer outra pessoa, tinha como prioridade fazê-lo feliz.
Seguiram caminho. Cada um pensava no conteúdo da conversa de instantes atrás, mas, sem o véu escuro do temor, sem a dura realidade da incerteza. Tinham um ao outro e isso era o determinante em suas vidas.
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Duas semanas se passaram após a ida de Jared para o apartamento de Jensen. Roger Ackles o visitava às vezes, pois não se conformava com a atitude do filho. Também o incentivava a sair para se divertir e arranjar uma namorada. Alegava estar preocupado com sua vida social, alegava também que ele deveria dedicar sua juventude a procura de um amor.
O loiro nunca fez o tipo conquistador, apesar de sua beleza. Em seu histórico de conquistas havia somente duas namoradas. Passar de uma mulher para outra, não fazia parte da sua personalidade.
Mas, de tanto insistir, Roger Ackles conseguiu. Eram seis e meia da noite quando o moreno entrou no quarto do amigo e o viu vestido em um traje esporte fino. Estava elegante. Pensou que sairiam para algum lugar.
– Jen! Como você está lindo! Para onde vamos? – Perguntou com os olhos brilhantes.
– Desculpe-me, Jay! Mas, não somos nós. Infelizmente ficará em casa com a senhora Staff.
– Quem é ela? – Perguntou curioso.
– A babá que contratei para cuidar de você. Ela é legal.
– Com quem você vai sair, Jen?
– Cara! Ela é linda e se chama Jennifer. Meu pai nos apresentou há dois dias! – Falou empolgado.
– Você arranjou uma namorada? – Temeu a resposta.
– Ainda não, Jay. Porém, essa garota pode ser a sua futura mãe.
O menino sentiu algo revirar em seu estômago. De repente uma sensação de vazio e solidão se apossou de si. A tristeza o consumiu e sem conseguir falar mais nada, deu um meio sorriso e saiu do quarto evitando que o outro percebesse as lágrimas que banhavam o seu rosto.
Quando chegou ao quarto, jogou-se sobre a cama e afundou o rosto no travesseiro. Chorou compulsivamente expondo toda a dor e o medo. Triste, desolado e com frio. Sentimentos que envolviam sua alma e mesmo sem entender porque reagira assim, tinha certeza de apenas uma coisa: não suportava a ideia de Jensen casado e sendo tocado por alguém. Adormeceu tendo como companhia o desalento e a escuridão de seu quarto.
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Antes de sair, Jensen foi ao quarto do menino. Viu que ele dormia profundamente. Sem querer acordá-lo, deu um beijo em sua testa e o deixou aos cuidados de Elisabeth Staff, uma senhora de quarenta e cinco anos, aposentada e muito amiga dos Ackles.
Pensou em desistir do jantar. Por algum motivo, sentiu-se mal ao olhar para Jared adormecido. Afugentou os pensamentos. Certamente era apenas a falta de costume com encontros.
A garota sorria, gesticulava e falava o tempo todo. No entanto o loiro tinha a sensação de que algo não estava bem com o garoto. Talvez fosse apenas nervosismo ou porque ela o estava irritando. Por mais que buscasse uma justificativa não obtinha uma resposta plausível, até receber o telefonema da babá do seu filho.
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Jared ardia em febre e seu rosto pálido demonstrava o mal-estar que sentia. Balbuciava palavras desconexas e por mais que a senhora Staff tentasse acordá-lo, o garoto se mantinha inconsciente. Ligou para o pai, temendo que algo pior acontecesse, sendo que este voltou ao apartamento em apenas quinze minutos, pois quando seu celular tocou, pagou a conta pedindo um táxi para a garota.
Uma hora se passou após o susto. O pediatra havia examinado o menino constatando que devia ser algum problema emocional porque não apresentava sinais de doença.
A babá havia sido dispensada. O mais velho velava o sono do outro, preocupado. Quando ele acordasse conversariam.
– Menino! O que aconteceu com você! – Sussurrou alisando os seus cabelos.
Continua...
Notas finais do capítulo
Pessoal, era para ser somente dois capítulos, mas as ideias avançaram e eu vou dividir o próximo capítulo em dois, portanto amanhã postarei o terceiro e sexta-feira o quarto e último capítulo. Espero que não se cansem de acompanhar mais essa histó são muito bem vindos. Espero que comentem e me deixem saber o que acharam do capí! Uma ótima Semana Santa.
