Katherine Garbera Um Pai muito Especial
Um Pai muito Especial
(Her Baby's Father (2000)
Katherine Garbera
Distribuído por: Rosangela Nutri
Traduzido por: Denise Ferreira
Revisado por: Bruna Lopes
Padronização: Projeto Revisoras – Raí Lira
2º Série Multi-autor: Banco de Bebês
Editora: Harlequín Ibérica
Coleção: Desejo 967
Gênero: Contemporâneo
Protagonistas: Reese Howard y Sabrina McFadden
Reese Howard, um jornalista encarregado de escrever uma história sobre uma mulher que recorre a um banco de esperma para ter um bebê, jamais esperou que a moça de sua história, Sabrina McFadden, fosse à personificação de seus sonhos adolescentes.
Cada um satisfaz as fantasias um do outro e, ao fim de umas poucas entrevistas, acabam se amando. Então, um pequeno acidente, faz desnecessária a visita de Sabrina ao banco de esperma. Isso dá por terra com a história de Reese. Dará também por terra com a solteirice de Reese, um homem que esconde um doloroso passado e que se acha incapaz e indigno de amar?...
Capítulo Um
A senhorita MacFadden estava atrasada. Reese Howard era extremamente pontual. Desde menino perdeu muitas coisas por causa dos atrasos, de maneira que a pontualidade tinha acabado por ser uma de suas paixões.
Ao longo de sua vida tinha-se esforçado por romper os moldes que lhe impuseram durante sua infância. Ainda que não nascesse destinado a ter sucesso, o tinha atingido. Mas a que preço?
Ainda não tinha cumprido os trinta e cinco anos e já sofria de tensão alta devido a um histórico de problemas de coração em sua família e a seu vício ao trabalho, seu médico tinha-lhe recomendado que se retirasse. Em lugar de retirar-se, mudou de trabalho, deixando seu posto de repórter investigador no jornal Los Angeles Times. Tinha passado de ser um homem metido no miolo dos assuntos a ser um escritor de superficialidades.
Aquele novo encargo para a seção Estilos de Vida da revista Califórnia Magazine, um artigo que ia ser titulado Inseminação Artificial: Futura Onda, não lhe fazia nenhuma graça.
Voltou a olhar seu relógio e amaldiçoou aquele ridículo encargo. Sabia que seu enfado ia mais dirigido para si mesmo e para as circunstâncias que o tinham levado ali que ao atraso da senhorita MacFadden.
Fazia num dia caloroso. Queria estar no Time Lapse, seu iate de dez metros, navegando pela baía de San Francisco em lugar de andar dando voltadas em frente a uma clínica de inseminação artificial. Sentindo-se mais velho do que tinha direito a se sentir, respirou profundamente e tratou de relaxar. Mas não podia relaxar. Sentia-se como um pervertido. Temia que alguém o visse e pensasse que era um doador.
Irritava-o a idéia de que existissem bancos de esperma para mulheres solteiras. Compreendia que um casal com problemas de fertilidade precisasse ir a um lugar como aquele, mas uma mulher sozinha... Nunca. O dever de um homem era deixar grávida sua parceira.
Sabia que aquele pensamento era totalmente machista, mas por algum motivo tinha criado Deus ambos os sexos e os tinha posto juntos na terra.
Ainda que ele não se tivesse deixado domesticar e, provavelmente, nunca teria filhos, seu orgulho masculino se disparava ante a idéia de que uma mulher estivesse disposta a ter um filho por sua conta. Tinha suficientes homens no mundo para que os bancos de esperma não fossem necessários.
A revista para a que trabalhava tinha decidido correr com os gastos do tratamento para Sabrina MacFadden se esta lhes contasse todos os detalhes de sua decisão. Devia estar desesperada. Provavelmente teria trinta e oito anos, não teria estado nunca com um homem e seria tão atraente como um poste da luz.
E ele tinha deixado Los Angeles para isso?
Piscando contra o sol do entardecer, apoiou-se contra uma lateral do edifício enquanto esperava à senhorita MacFadden. O peculiar som de um motor chamou sua atenção para a zona de estacionamento. Tratava-se de um Mustang desencapotado dos anos sessenta e nove que acabava de entrar. A motorista usava um grande óculos de sol e o cabelo preso com um lenço vermelho. Desligou o motor e saiu do carro. Tirou o lenço e um grande cabelo castanho avermelhado caiu em ondas em torno de seus ombros. Reese quis enterrar suas mãos entre seus espessos caracóis.
Oh, sim.
A mulher tirou do carro uma jaqueta azul marinho. Enquanto punha-lha, a blusa de seda que vestia se tencionou contra seus peitos. Reese soube que devia desviar o olhar, mas não foi capaz do fazer.
A mulher caminhava como um sonho. Reese propôs-se momentaneamente a possibilidade de esquecer seu trabalho para tratar de segui-la. Era a viva representação de um sonho que teve aos dezesseis anos. Seu carro favorito e uma mulher sexy juntos, ambos a mil. «Porco», pensou.
A mulher que avançava para ele tinha pernas intermináveis. Pareciam começar em suas axilas e continuar para abaixo para sempre. A saia lisa que vestia terminava ao meio da coxa e subia um pouco a cada passo que dava. Nunca tinha visto umas coxas tão perfeitas. Parecia um sonho feito realidade.
Fantasiou sobre aquelas pernas enquanto a mulher seguia avançando com a fluidez de uma bailarina.
Reese imaginou que estavam numa praia deserta e que ela só usava um diminuto biquíni. Seu corpo seria uma mistura do de Cindy Crawford e Kathy Ireland, mas também não demasiado perfeito, porque a perfeição era seu próprio diabo. Teria a mente de um físico nuclear e cozinharia como Betty Crocker, porque toda mulher devia saber cozinhar.
Sabendo que levava os olhos cobertos por seus óculos de aviador, seguiu contemplando o escultural corpo da mulher até que se deteve em frente a ele. Uma suave brisa veraniana agitou seu cabelo e levou até ele seu delicado aroma a flores.
— Desculpe-me — disse ela.
Seus grandes óculos ocultavam seus olhos e a metade de seu rosto, mas seu nariz era um pouco arrebitado. Reese gosto disso. Com seu corpo, uns traços clássicos teriam sido demais.
— Sim? — É você Reese Howard?
«Ah, a fantasia contínua», pensou ele. Talvez tivesse ficado muito ao sol. A boca da mulher atraía-o como um ímã. Queria beijar aqueles lábios, sobretudo o inferior, carnudo e sensual que pareciam estar rogando a caricia de um homem...
— Sim, senhorita.
— Ótimo. Sou Sabrina MacFadden. Sinto ter chegado tarde.
Estendeu uma mão e Reese a estreitou automaticamente. O contato com seus delicados dedos fez que uma intensa corrente o percorresse desde o braço até a entre perna. O sol devia tê-lo aturdido, porque não recordava ter reagido nunca de forma tão imediata ao contato com uma mulher. Seus dedos eram longos e finos. A feminina delicadeza com que ela lhe sustentou a mão lhe fez se sentir como um bruto, como um viril guerreiro disposto a conquistar e a fazer totalmente sua. Ela tirou os óculos com a mão livre e Reese se encontrou em frente a uns olhos da cor do mar do Caribe, onde tinha passado o último verão. Uns olhos vulneráveis que pareciam o convidar a se aproximar ao mesmo tempo em que lhe rogavam que se mantivesse a distância. Uns olhos que lhe fizeram pensar num lar, não na casa em que passou sua infância, senão no autêntico lar que sempre tinha almejado secretamente.
Ao dar-se conta de que ainda não tinha respondido, murmurou: — Não há problema. Podemos começar nossa entrevista no Bay Side Café, que é aqui enfrente.
Mas sim tinha um problema. Aquela mulher estava alterando sua libido e seus instintos de proteção. E isso não gostava. Supunha-se que seria mais velha e que ia ter um jeito de solteirona. No entanto, era jovem, sexy, vibrante, e estava intensamente viva, num sentido que Reese praticamente tinha esquecido.
Só tinha esse sentimento quando estava fazendo algo perigoso: descer fazendo rapel em plena noite, conduzir sua moto através do Passo do Diabo a cento cinqüenta por hora...
Pegou o cotovelo da mulher para ajudá-la a cruzar a rua. Ela se pôs rígida de imediato. De acordo, sabia que não precisava sua ajuda, mas queria a tocar.
Desejava sentir aquele longo e elegante braço baixo sua mão. Queria passar-lhe um braço pelos ombros e entrelaçar-la contra seu corpo.
Soltou-a. Afinal de contas, ele era um profissional. Não se envolvia em relações pessoais com suas entrevistadas.
Quando entraram no café, Mario, o dono, levantou seu polegar quando viu a mulher que o acompanhava. .
Era o tipo de mulher que atraía a atenção dos homens. Até por isso, não tinha aspecto de se ver obrigada a ter um filho sozinha. «Se ao menos quisesse continuar solteira e sem filhos», pensou Reese. Mas estava certo de que perderia seu encanto em quanto começassem a falar.
Ainda que em Los Angeles trabalhou muito duro, também saiu muito e foi a muitas festas. Mal tinha tido tempo para uma relação séria, coisa que não lhe importava. Reconhecia que a maioria das mulheres lhe pareciam iguais. Fazia tempo que tinha perdido a sensação de antecipação e emoção por conhecer e descobrir a alguém novo.
Mas ali estava. E mais forte que nunca, precisamente pelo inesperado. Fazia muito tempo que não se sentia tão vivo.
E era uma mulher que lhe estava fazendo se sentir assim, não o mar no meio de uma inesperada tormenta ou os rápidos do Colorado. Era uma mulher! Rogou ao céu que fosse tonta. Sabrina MacFadden brincou nervosamente com seu copo de água. Reese Howard não era o tipo de homem que tinha imaginado. Também não tinha esperado sentir uma faísca de desejo quando tinham se tocado. Como secretária do vice-presidente de vendas, passava no dia estreitando mãos, mas não estava preparada para a comoção que tinha sentido ao estreitar a daquele homem. Tinha sido como encontrar o yin de seu yang.
Deveria ter sido o típico jornalista com aspecto de pertencer à outra época, e não o musculoso tipo que estava sentado em frente a ela. Provavelmente, aquele homem nunca se tinha topado com um obstáculo que não pudesse conquistar.
Seus poderosos bíceps se tencionaram quando apoiou os cotovelos sobre a mesa. Sabrina nunca havia se sentido mais feminina. Nunca tinha estado junto a um homem cujo nível de testosterona fosse tão alto que quase podia se cheirar. Era todo um homem. O do tipo que podia entrar em qualquer caverna da estrada mais apartada e se sentir como em casa.
Quando lhe tinha tocado o cotovelo tinha sentido seu calor através da jaqueta. Por uns instantes esqueceu por que tinha renunciado aos homens. Mas a lembrança voltou a aflorar de imediato. Não tinha nenhum Senhor Perfeito a esperando aí fora. Somente tipos atraentes dispostos a passar um bom momento antes de despedir. Reese Howard não seria diferente, se lembrou com firmeza.
— Gosta de café com leite?
— Sim — contestou Sabrina.
Reese pediu café para ambos de um modo que molestou a Sabrina. Mas deixou-o passar, porque supôs que estaria enfadado com ela por seu atraso.
Provavelmente precisava restabelecer sua posição de controle. Tendo trabalhado com homens durante vários anos, estava acostumada à forma em que tratavam de atrair o poder e sabia quando valia a pena discutir e quando não.
Reese olhava-a atenciosamente através de seus óculos, e isso a estava deixando nervosa. Passou uma mão pelo cabelo, supondo que estaria bastante revolto. Não queria que o jornalista desse um mau relatório a seu chefe. «Preocupar-se não serve de nada. Tranqüiliza-te», disse-se.
Mas não podia. Apostava-se muito naquele encontro inicial. E se Howard sugerisse aos seus editores que buscassem outra mulher para o artigo sobre a inseminação artificial? Teria que encontrar algum modo de pagar o tratamento ela mesma, e andava escassa de dinheiro porque estava poupando para comprar uma casa em Mount Tam. Os bancos gostavam de saber que tinhas dinheiro na conta antes de lhe emprestar mais.
A única coisa que possuía de verdadeiro valor era o carro clássico que seu pai comprou para ela quando nasceu. Depois de sua morte, acontecida dois anos atrás, prometeu-se vendê-lo só em caso de extrema urgência, e naqueles momentos tinha outra opção. Uma opção que podia chegar a fazer realidade seu sonho de ser mãe.
Olhou para a baía e recordou por que tinha começado a fazer sacrifícios. Sempre quis ter uma grande família, mas seus pais já tinham mais de quarenta anos quando ela nasceu, e não puderam ter mais filhos. Tinha saudades a sua mãe e a seu pai, e almejava os laços familiares como outros almejavam o dinheiro ou o poder.
E queria filhos porque tinha um grande vazio em sua alma que não podia ser preenchido pelo trabalho ou encontros. Precisava responsabilizar-se de um pequeno ser, transmitir-lhe os contos e as habilidades que tinha aprendido de seus pais e deixar para trás uma pequena parte de si mesma. E queria iniciar uma família antes de ficar muito velha com sua mãe, para desfrutar de um bebê.
Seus frustrados pais tinham-lhe demonstrado que a única forma de chegar a ter uma família seria se lançando pessoalmente a criar uma. Precisava a estabilidade, o amor e o carinho de uma família. Queria ser capaz de conseguir algo significativo antes de morrer. Uma de suas melhores amigas tinha morrido no ano anterior de câncer, e Sabrina estava convencida de que tudo sucedia por algum motivo. A morte de Márcia fez-lhe ver que tinha chegado o momento de mudar. Não ia viver sempre.
Queria que a cada detalhe daquela entrevista fosse perfeito. Com um pouco de sorte, conseguiria impressionar o suficiente ao jornalista para que convencesse ao seu editor do importante que seria que ela tivesse um filho.
Devia recuperar os pontos perdidos por ter chegado tarde. A revista ainda não tinha pagado por nada e aquela entrevista seria o fator decisivo.
Enquanto levaram-lhes o café, Reese pegou um pequeno caderno de seu bolso traseiro.
— Conte-me por que decidiste ter um filho por tua conta — tirou os óculos e Sabrina se encontrou em frente a uns olhos da cor da noite mais escura.
Pensou que deveriam ser marrons, ainda que parecessem quase negros. As linhas de seu rosto revelavam que tinha levado uma vida dura e que passava muito tempo ao sol. Sempre lhe tinham atraído os homens desse tipo. Reese Howard era um homem duro e muito atraente... E no estacionamento tinha-a olhado com evidente interesse.
— Sinto-me sozinha — contestou, finalmente, pensando nos passados e solitários Natais.
Todos seus amigos os tinham passado com suas respectivas famílias, e ainda que Kalya tivesse feito questão de que a acompanhasse, ela não aceitou.
Fazê-lo teria sido mostrar-lhe a sua amiga e ao mundo aquilo do que carecia.
Foi então quando decidiu ter um filho. A idéia vinha rodando-lhe há vários meses, mas encontrar-se sozinha em frente a sua árvore de Natal fez-lhe decidir-se.
— Em que sentido te sentes sozinha? — perguntou Reese, que ainda não tinha anotado nada em seu caderno.
Sabrina pensou que sua voz, grave e profunda, se parecia à do amante sem rosto de seus sonhos. Começou a sentir-se mais cômoda e praticamente esqueceu que aquele não era um encontro entre amigos, senão uma entrevista de negócios. Aquele homem fazia-lhe sentir-se como se fosse à única mulher no mundo. Notava-se que lhe importava o que tivesse que lhe dizer.
— Não tenho família. Todos meus colegas de trabalho a têm boa ou má, mas eu não.
— És órfã?
— Na realidade não. Mas meus pais morreram faz nuns anos - Sabrina deixou que a lembrança de seu pai passasse por sua mente. Costumava cheirar a um extraordinário cachimbo, e quando a abraçava fazia com que se sentisse querida e a salvo, coisa que não lhe acontecia fazia muito tempo. E tinha saudades o sorriso de sua mãe e seu cálido entendimento.
Queria ter um filho para dar-lhe a mesma segurança e apoio que deram a ela seus pais. Queria compartilhar a alegria de viver com outro ser, com sua família.
— Sinto Muito — disse Reese, e Sabrina viu em seus olhos que era sincero.
Quando, por um instante, seus olhos se encontraram, sentiu a mesma descarga que quando tinham se tocado.
— Obrigada. Ainda os tenho saudades — umas lágrimas arderam no fundo de seus olhos, mas não chegaram a cair. Piscou várias vezes e desviou o olhar.
— Meu pai também morreu — disse Reese.
— E tua mãe? — perguntou Sabrina, ainda que ela fosse à entrevistada.
— Morreu ao dar-me a luz — contestou Reese, num tom que não animava a fazer mais perguntas. Sabrina sentiu o impulso de tocá-lo. Tomou sua mão e acariciou-lhe os nódulos com o polegar. Ele a olhou um longo momento antes de baixar a vista. Sabrina olhou suas mãos unidas, assombrando-se de novo com o tamanho do jornalista. Sua mão morena contrastava com a dela, bem mais pálida e pequena. Junto a sua áspera pele, a dela parecia suave como seda.
Tirou a mão lentamente, receava-se a deixar de tocá-lo. Mas sabia que devia se mostrar mais profissional. Por mais cômoda que se sentisse com ele, não devia esquecer que ele não era seu amigo, por muito que seu profundo olhar lhe fizesse parecer. Só era um desconhecido.
— Por que é tão importante para ti ter um filho por tua conta?
Sabrina voltou a olhar para o mar. Sabia por que queria um bebê, mas nunca o tinha expressado em palavras. Mais que nada, era uma sensação de que algo lhe faltava.
— Não sei se isto expressará bem, mas sinto que me falta uma grande parte de mim mesma. Meus braços almejam sustentar um bebê, não o de meus amigos, ou o de meus colegas de trabalho, senão o meu.
Olhou a Reese para comprovar se entendia o que tratava de lhe dizer, mas sua expressão era inexpressível. Seus sonhos sobre o bebê estavam muito unidos à mulher que sonhou ser quando tinha dezoito anos e estava a ponto de se casar.
Viu-se a si mesma numa igreja cheia de familiares e amigos, olhando ao homem que pensava que a amaria para sempre, o futuro pai dos quatro filhos que sonhava ter.
Naquele momento voltava a sentir-se como uma mulher a ponto de mudar. Mas agora era ela a que controlava a situação, e, finalmente, estava a ponto de conseguir que seu sonho se tornasse realidade. Tudo o que tinha que fazer era convencer ao homem que estava sentado em frente a ela.
Tomou sua caneca de café e deu um longo gole. Sentia-se como se tivesse recuperado o terreno que tinha perdido por chegar tarde.
— Uma última pergunta e daremos isto por encerrado — disse Reese, dedicando a Sabrina um sorriso que não chegou a atingir seus olhos—. Por que não queres um homem em tua vida?
Capítulo Dois
Reese viu que Sabrina se engasgava com seu café. Sabia que não deveria lhe ter feito aquela pergunta. Seu editor, Jeff, tinha-lhe advertido que tivesse cuidado com aquele tipo de pergunta quando a entrevistasse.
Os olhos azuis de Sabrina refletiram sua dor, e piscou várias vezes. Reese teve que reconhecer que não lhe teria feito aquela pergunta tão franca se tivesse tido mais de trinta anos e tivesse sido menos atraente.
Durante o tempo que levavam sentados naquele café, o laço de união entre eles parecia se ter fortalecido. Era como se suas vidas tivessem estado orientadas para aquele momento e aquele encontro.
A cada vez que se tocavam saltavam faíscas entre eles. E Reese sentia-se desconcertado, desequilibrado, como se acabasse de acordar de um profundo sonho no que não sabia que se achava. Um sonho que lhe tinha permitido se relacionar e viver com segurança porque mantinha uma parte de si mesmo à margem de todos os demais.
Não lhe agradava o que aquela mulher lhe fazia «sentir», porque até esses momentos tinha feito um bom trabalho ocultando suas emoções. Mas Sabrina MacFadden, com seu magnífico tipo, seu nariz arrebitado e sua aura de tristeza, o tinha comovido. Disse-se que teria tido que ser um monstro para não apiedar-se dela, mas isso não o ajudou. Sua vida funcionava porque não permitia que suas emoções o dominassem, e tinha se acostumado a estar sozinho. Sempre mantinha uma barreira entre si mesmo e os demais.
— Quero ter uma família — disse Sabrina com maciez, como confessando um importante segredo.
Reese imaginou-a com uma família completa, não com a que planejava ter.
Uma família com um marido e dois filhos, um nos ombros dele e outro nos braços dela. Inesperadamente, sentiu incomodado de não ser ele esse homem.
— Que eu saiba, numa família costuma ter um pai e uma mãe — disse.
Sabia que estava sendo um miserável. Devia deixá-la em paz.
— Sim.
— Por que não queres um marido? — perguntou Reese, sem poder evitá-lo.
— Tentei uma vez e não funcionou.
— Por que não tentas outra vez?
— Por que te preocupa isso? — replicou Sabrina.
— Acho que os leitores quererão saber.
Sabrina não era o tipo de mulher que Reese esperaria que elegesse ser inseminada artificialmente. Parecia uma mulher que se sentiria bem se casando e tendo depois filhos. Apesar de sua roupa profissional, tinha algo muito doce e suave nela.
— Pois temo que teus leitores terão que se conformar com as respostas que te dei.
— Pelo dinheiro que te vai pagar a revista, esperamos poder aprofundar mais em tua vida — disse Reese.
— Aprofundar? — repetiu Sabrina, brincando nervosamente com seu pingente em forma de coração.
O movimento atraiu a atenção de Reese para seu pescoço. Perguntou-se se sua pele ali seria tão suave como a de sua mão. Provavelmente, ainda mais. Moveu-se no assento e esticou as pernas para aliviar a pressão em sua entre perna.
Maldição.
Inclinou-se para frente, ignorando sua reação tão bem como pôde.
— Sim, aprofundar.
Sabrina suspirou, pegando seus óculos de sol e coloca-los.
— Tenho má sorte com os homens.
Impossível. Era o tipo de mulher que a maioria dos homens desejava. Reese levantou uma sobrancelha com gesto cético e esperou a que continuasse. Estava dando-lhe evasivas, sabia-o.
— Tenho trinta anos — continuou ela.
Por seu tom, parecia esperar que Reese acreditasse nela e a liberasse do anzol. Mas ele não estava disposto a fazer isso. Qualquer mulher que o transtornasse daquela maneira devia sofrer o mesmo efeito.
— Trinta não são tantos para não poder fazer à moda antiga. Tudo bem se contares a verdade?
Sabrina suspirou.
— Gosto de controlar as situações. Odeio ter um homem perto me dizendo o que devo e o que não devo fazer. A todas minhas amigas casadas acontecesse isso. Ademais, os homens que me atraem não costumam mostrar o mínimo interesse em serem pais.
De maneira que era uma mulher com garras. A cada nova descoberta fazia que o interesse de Reese aumentasse. Sabrina MacFadden era uma mulher simpática, atraente e triunfadora, seu carro clássico era indício disso. Não precisava ser inseminada, mas tinha tomado essa decisão.
Ele tinha começado sua carreira como jornalista investigador porque gostava de resolver enigmas. Gostava de seguir um pensamento até suas complicadas conclusões e descobrir os ocultos desejos que motivavam à gente. Esses instintos estavam ressurgindo com Sabrina.
Queria descobrir o que fazia realmente bater seu coração. Queria afastar tudo o que era pura máscara e descobrir à autêntica Sabrina MacFadden.
Aquele pensamento fez-lhe pôr-se em pé. Não se relacionava com «boas» mulheres. De vez em quando saía com alguma, mas sempre se tratava do tipo de mulher disposta a passar um bom momento sem maiores conseqüências.
As mulheres que buscavam uma família não o atraíam. Estava solteiro e pensava seguir assim até que fosse demasiado velho para desfrutar do sexo.
Com um pouco de sorte, até passados os oitenta anos.
Sabrina também se levantou. Reese jogou um par de notas sobre a mesa.
Ela afastou uma mecha de cabelo de sua orelha. A brisa agitou seus caracóis e Reese olhou como segurava a volumosa massa de cabelo numa mão.
Desejava-a. Seu desejo tinha crescido desde o momento em que a tinha visto.
Queria tirar-lhe a roupa e deita-la nua na coberta de madeira de seu barco.
Estariam somente eles, o sol e o mar.
Mas não podia a ter. Não poderia a ter nunca. Por algo mais que razões éticas.
Por algo mais que as regras do cortejo. Por algo mais que queria admitir.
Não podia a ter porque Sabrina era o tipo de mulher que não aceitaria os limites que ele impunha em suas relações. E sabia com certeza que o pressionaria até obter a resposta que queria. Palavras suaves e delicadas e demonstrações de afeto.
— De acordo. A revista se ocupará de encaminhar os papéis e nós voltaremos a nos ver na semana que vem após tua consulta — disse.
— Queres que nos vejamos aqui mesmo?
— Sim — Reese sabia que devia se ir antes de lhe sugerir que o acompanhasse em casa.
Antes de sugerir-lhe que ele podia se ocupar de deixá-la grávida. Antes de descobrir as razões pela qual aquela mulher o olhava com tal vulnerabilidade...
As razões pelas que ele queria entrelaçar-la entre seus braços e a proteger.
— Serei pontual — disse Sabrina antes de afastar-se.
Reese contemplou o balanço de suas cadeiras enquanto caminhava, e, apesar de sua incomoda excitação, sentiu-se vivo de um modo que não se sentia fazia anos. A consulta do médico era fria e pouco acolhedora, apesar das reproduções de Monet que enfeitavam as paredes. Os nervos tencionavam o estômago de Sabrina. Nesse dia somente iam fazer-lhe um exame preliminar, mas em sua visita seguinte seria inseminada. Sentia-se excitada e também assustada. Estava tão certa de que seu sonho se converteria em realidade...
Parecia impossível sentir-se cômoda estando sentada na borda de uma maca e vestida com uma simples bata de papel.
Ultimamente tinha tido dúvidas com respeito ao processo de inseminação. Não sabia se sua decisão era a correta, sobretudo após ter conhecido a Reese Howard. Nunca tinha sentido uma atração instantânea por um homem. De fato, achava que o desejo a primeira vista era só um mito.
Mas algo nos olhos de meia-noite de Reese tinha atingido diretamente sua alma. Ele tinha visto para além das desculpas que ela costumava pôr para explicar por que queria um bebê. Tinha-lhe exigido que falasse claro e ela o tinha feito. Era um homem perigoso... Para ela. Falar com ele tinha sido um autêntico prazer. Contou-lhe coisas sobre si mesma e não viu o típico olhar de vidro em seus olhos, tinha-lhe demonstrado que os homens podiam ser menos superficiais do que acreditava. «Deixa de pensar nele!»
Tratou de concentrar-se em seu futuro bebê e seus temores começaram a evaporar-se. Logo levaria uma nova vida em seu seio. Logo faria parte da história real, da parte que sobrevivia acima da política e os acontecimentos sociais. A parte real da vida, que seguia em frente acima de tudo.
O doutor entrou e depois de um rápido exame disse-lhe que se mudasse e entrasse em seu escritório. Sabrina sabia por que. Tinha que assinar muitos papéis relacionados com os seguros. Vestiu-se rapidamente, perguntando-se se Reese a esperaria.
A noite anterior tinha sonhado com ele, e era estranho, porque fazia anos que nenhum homem real invadia seus sonhos. No entanto, Reese Howard tinha-se apoderado por completo deles.
Entrou no consultório do doutor Hyde e assinou todos os papéis necessários.
O médico voltou a explicar-lhe todo o processo, e também a tranqüilizou com respeito à informação que ia dar à revista. Tinha certa parte em seu histórico médico que Sabrina não queria compartilhar com ninguém. Passados erros que poderiam questionar sua atual decisão.
Saiu da consulta e atravessou a rua. Reprimiu a excitação que batia em suas veias, se recordando que, se não tivesse decidido ir ao banco de esperma, Reese Howard não teria aparecido em sua vida.
Estava-a esperando na mesma mesa ao ar livre que ocuparam a vez anterior. Vestia uma camisa estilo aviador e calça jeans.
— Voltas a chegar atrasada — disse Reese.
Sabrina assentiu e sorriu com expressão arrependida. A pontualidade não era seu forte. Por mais que tentasse, nunca chegava a tempo a nenhum lugar.
Durante um tempo tentou adiantar seu relógio meia hora, mas não lhe serviu de nada e decidiu deixar de usar.
Reese levantou-se e afastou uma cadeira para que se sentasse. Sabrina desejou aproximar-se dele, se sentar em seu colo e lhe falar de seus temores e segredos... Coisa que não podia fazer.
Porque Reese ia gravar seus segredos para depois contar-lhos ao mundo na revista. «Tu aceitaste o trato», se recordou. Respirou profundamente para acalmar seus nervos. Era ela realmente uma mulher adequada para ter filhos?
Nessa ocasião, Reese sentou-se de costas à baía. Seus óculos estavam sobre a mesa, junto a seu caderno de notas. Sabrina voltou a pensar que não parecia um jornalista.
— Sinto ter chegado tarde de novo, mas o doutor Hyde precisava que assinasse alguns papéis.
— Para os seguros.
— Sim.
Um garçom aproximou-se deles e Sabrina pediu um chá antes de que Reese pudesse pedir por ela. Ele levantou uma sobrancelha com gesto inquisitivo, mas ela o ignorou.
— Está um pouco pálida.
Sabrina tinha esperado que não notasse.
— Deve ser por ter pedido pessoalmente minha bebida. Muita pressão.
Os lábios de Reese curvaram-se levemente, mas sem chegar a sorrir.
— A próxima vez eu me ocuparei de pedir por ti.
A Sabrina sempre tinha gostado disso, e agora tinha encontrado alguém certo com quem o fazer. Era o escape que estava buscando para suas dúvidas.
— Não te preocupes, acho que será melhor que me vá acostumando. Afinal de contas, tenho quase trinta anos.
Reese inclinou-se para a mesa e fez um gesto para que ela fizesse o mesmo.
Sabrina obedeceu.
— Pode ser que seja muito tarde para ensinar a um cão velho um truque novo — disse, com maciez.
—A quem está chamando cão? — perguntou Sabrina.
Nessa ocasião, Reese riu abertamente, e ela pensou que nunca tinha ouvido um som tão bonito. O riso fazia que a expressão daquele homem se transformasse de quase incivilizada em encantadora.
Encolheu-se de ombros.
— A ninguém. É só um ditado.
— Pois não é um ditado muito agradável — disse Sabrina.
Mas não tinha se ofendido. Por uns minutos, Reese tinha-lhe feito esquecer suas preocupações. Não era a esperança de um bebê o que fazia que às vezes acordasse no meio da noite suando. Era seu passado. Reese voltou a apoiar-se contra o respaldo de sua cadeira.
— Então, por que estás pálida? Talvez esteja te arrependendo de tua decisão?
Sabrina deveria ter suposto que voltaria ao meio do assunto. Aquele homem não era dos que renunciavam. No entanto, aquele processo de entrevistas teria resultado bem mais cômodo se ela tivesse podido manipular o entrevistador.
Se Reese tivesse sido o tipo a que tivesse podido distrair com suas pernas ou um pouco de decote. Sabia que esse não era o melhor modo de funcionar, mas costumava dar resultado. Normalmente, os homens deixavam-se distrair facilmente por seu aspecto, mas não aquele.
Irracionalmente, pensou que Reese podia ter lido seus pensamentos. Talvez tivesse adivinhado que estava pensando em mentir.
«Não mintas», pensou. Sempre era melhor a sinceridade, ainda que às vezes fosse dolorosa.
— A verdade é que não gosto dar voltas.
— E?
— Sempre acabo chegando ao mesmo ponto: desejo um bebê mais que nada no mundo.
— Mais que nada?
Sabrina sentiu o olhar de Reese deslizando-se por seu corpo e se encolheu de imediato. Não, também desejava outras coisas. Mas o bebê era o tema mais seguro sobre o que podia falar com ele.
—Sim — disse, sem convicção.
— Mais que um homem em tua vida?
— Sim — respondeu Sabrina, com mais firmeza.
— Mais que...?
— Sim, quero um bebê, uma família, mais que nada no mundo.
— Muito bem. Nesse caso, deixa de ter dúvidas.
— Não é tão fácil.
Reese estreitou os olhos.
— Sei.
Sabrina olhou-o fixamente. Em nenhum momento tinha-lhe ocorrido pensar que Reese também pudesse ter um passado que o perseguisse com seus demônios. Mas agora via que assim era.
O alegre riso de um menino atraiu sua atenção. Uma mãe que empurrava o carrinho de seu filho acabava de se deter junto ao café. Abaixou-se ante o menino para amarrar-lhe o cordão do sapato. Antes de levantar-se acariciou com ternura uma de suas grossas perninhas. Uma onda de inveja percorreu Sabrina. Almejava tanto ser aquela mulher que seu coração se deteve um instante.
Seus olhos encheram-se de lágrimas antes que lhe desse tempo de cobrir o rosto com as mãos. Em lugar de ver ao menino do carrinho, viu em sua mente o bebê que perdeu aos dezenove anos. Um bebê que desejava com todo seu coração, mas que perdeu por sua falta de cuidado.
Rompeu a chorar desconsoladamente. Reese apoiou as mãos em seus ombros e pressionou-os calidamente, fazendo com que relaxasse.
Sabrina pensou que deveria ir embora, que devia escapar à pressão que tinha atraído aceitando aquelas entrevistas. Pensava que já tinha superado sua culpa, sua raiva, seus medos. Mas, evidentemente, não era assim.
Reese fez-lhe pôr-se em pé e a estreitou entre seus braços. Por que estava fazendo tudo o que ela sempre tinha sonhado que podia fazer um homem? Por que estava tomando suas fantasias sobre o homem perfeito quando ela sabia que nem sequer se chegava a esse homem mítico?
— Não te preocupes. Os medos são naturais nas mães de primeira viajem. Será uma mãe maravilhosa.
As palavras de Reese fizeram que Sabrina se sentisse ainda pior. Como ia ser uma mãe maravilhosa? No entanto, isso era o que queria. Era seu sonho secreto, o que a tinha impulsionado a poupar e a ficar em casa pelas noites em lugar de sair com seus amigos, o que tinha moldado a tal ponto sua personalidade que sem ele temia não existir.
— Como sabes? —perguntou.
— Minha secretária teve a mesma reação quando soube que estava grávida.
— Como enfrentou isso?
— Aí é quando um homem parece útil. Seu marido distraiu-a.
— Como? — perguntou Sabrina, pensando que Reese Howard era um homem muito agradável.
— Bom, digamos que ela não me deu todos os detalhes.
— Oh.
— Tenho uma idéia. Por que não saímos a navegar em meu veleiro e nos esquecemos de tudo por esta tarde?
A idéia era muito tentadora, e Sabrina estava desfrutando de que Reese a tivesse entre seus braços, como se tratasse de algo proibido.
— Não sei...
— Vamos. Simulemos que somos amigos.
Sabrina não queria simular. Queria uma verdadeira amizade com Reese, mas sabia que não era possível. Ele tinha um trabalho que fazer e ela era esse trabalho.
— Não tenho nenhum amigo homem.
— Agora já o tens.
Pela primeira vez desde a morte de seus pais, Sabrina deixou de sentir-se sozinha.
Capítulo Três
Reese sabia que tinha certas coisas na vida que não podiam se medir. As horas que passava no Time Lapse era uma delas. Seu iate era seu bebê. Seu carro precisava uma mão de pintura, e sua casa alguns reparos, mas não seu barco. Estava sempre em perfeitas condições. Não tinha um iate mais bonito no porto esportivo. Referente ao Time Lapse, não economizava em gastos.
O tempo que passava a bordo servia para contristar a tensão de trabalhar catorze horas ao dia, o mero fato de pensar nele o relaxava. Agora que tinha deixado Los Angeles por Sausalito, passava o tempo todo que podia no porto.
Não sabia que tinha desagradado a Sabrina. Só sabia que queria a tranqüilizar.
Queria estar a seu lado, salvar a barreira que ela tinha levantado ao ver àquela mãe com seu bebê.
Pegou o iate do porto e dirigiu-o para a baía. Sabrina observava-o de seu assento em coberta. Apesar de que usava os óculos, Reese sentia seus olhos nele enquanto manobrava o barco. Quando passaram à última bóia e entraram na baía, desacelerou e alçou as velas. O sol esquentava com força. Queria despir-se, fundir-se com os elementos.
Mas não estava só.
Tirou a camisa e deixou-a embaixo seu assento. Ao ouvir que Sabrina continha o fôlego, amaldiçoou em silêncio. Tinha esquecido as velhas cicatrizes. Não tudo, com certeza, pois era uma lembrança constante de seu passado.
Voltou a pegar a camisa e pó-la.
Fez um gesto para que Sabrina se aproximasse. Ela avançou lentamente, como se não estivesse segura de seus movimentos. Reese não recordava uma época na que não se tivesse sentido na água como em sua casa. Aproximou-se dela e a ajudou a chegar até o timão.
— Reese...
— Tinhas subido alguma vez a um barco? — perguntou ele, a interrompendo.
Não queria responder nenhuma pergunta pessoal. Aquela era sua entrevista. E era só uma entrevista, voltou a se recordar. Sabrina não era uma mulher à que pudesse meter em sua cama, por mais que desejasse fazer.
— Não — contestou ela.
Seu cabelo agitou-se ao vento como seda vivente. Por um instante, Reese sentiu a tentação de acariciá-lo.
Mas a realidade impôs-se. Uma coisa era conseguir que Sabrina se relaxasse, e outra se deixar levar por seus impulsos. Sobretudo tendo em conta que baixava a guarda, ela o bombardearia de perguntas. As mulheres sempre o faziam. Nenhuma mulher tinha-se combinado com ele nos momentos difíceis. Começando pela morte de sua mãe poucas horas após dar-lhe a luz.
Obrigou seus pensamentos a voltar ao presente, à mulher que tinha tão perto que podia sentir o calor que emanava de seu corpo.
— Já estás relaxada? — perguntou, tratando de distrai-la das perguntas que sabia que queria lhe fazer.
Sabrina encolheu os ombros.
— Estaria mais relaxada se deixasses de interromper-me.
Reese suspirou.
— Sei. Mas há coisas sobre as que me nego a falar.
— Pode voltar a tirar a camisa. Surpreendi-me, mas não me assustei.
Reese sentiu a tentação de fazê-lo, mas sabia que não o faria. Algumas vergonhas eram demais profundas, e aquelas cicatrizes eram uma das suas.
Em sua mente eram tão recentes como no dia que as recebeu.
Sabia que se tirasse a camisa e Sabrina o interrogasse sobre as cicatrizes com sua suave voz feminina corria o risco de lhe contar. E não queria empanar a inocência de seus olhos lhe revelando a feia verdade de seu passado.
— Queres aprender a governar o barco? — perguntou.
Sabrina suspirou. Por um momento, Reese pensou que não lhe ia deixar mudar de tema, mas ele podia ser muito durão quando queria.
—Claro.
Sabrina girou para situar-se em frente ao timão e ele se colocou a suas costas.
Tinha um traseiro muito bonito. Bem curvado e feminino. A Reese teria gostado de torná-la pelas cadeiras e colá-la contra seu corpo, mas fazê-lo teria sido uma loucura, e ele não era nenhum louco.
Apoiou as mãos no timão e explicou a Sabrina os rudimentos da navegação a vela. Uns minutos depois, ela estava manejando o timão.
— É maravilhoso! — exclamou, emocionada.
Reese sorriu para si. Finalmente, a tensão começava a desaparecer.
Meia hora depois, Sabrina devolveu-lhe o timão e ele levou o barco de regresso a porto.
— Senti-me como Leonardo DiCaprio em Titanic —disse Sabrina enquanto atracavam.
Reese olhou-a com gesto irônico.
— Como se fosses afundar?
Ela riu e ele se sentiu melhor por tê-la divertido. Já não era a mulher chorona que tinha levado ao barco.
— Não... Como se fosse a rainha do mundo.
Reese entendeu-a perfeitamente. Tinha algo especial em se encontrar no meio dos elementos, em sobreviver nas partes da terra que não eram habitáveis para o homem. Ele amava seu barco, e sempre tinha querido viver nele, mas nenhuma das mulheres de sua vida tinha aceitado aquele plano.
— É bem como te sentes? — acrescentou Sabrina.
— Às vezes.
— Por que és tão precavido em tuas respostas?
— Por que fazes perguntas tão perspicaz?
— Estou te contando os detalhes íntimos de minha vida.
— A mudança de uma compensação.
Sabrina olhou para a baía. O sol estava-se pondo e a brisa tinha refrescado.
Estremeceu-se um pouco, mas Reese suspeitou que não fosse por causa do vento.
— Sinto que me vendi muito barato.
«Mantenha a distância», disse-se Reese. «Mantenha-se afastado dela. Não a toque».
No entanto, aproximou-se de Sabrina. Esfregou-lhe os braços com as mãos e sentiu sua fragilidade. Como ia poder proteger ela sozinha o filho que queria?
— Não há nada barato em ti.
— Estou me vendendo por um filho.
— Não é verdade. Estás compartilhando tua vida com o mundo para ter a oportunidade de que teu sonho se faça realidade.
Sabrina lançou uma olhada para ele, com os olhos muito abertos e a boca tremula... E Reese não pôde se conter. Inclinou-se para ela e lhe acariciou os lábios com os seus. Era melhor ainda do que tinha imaginado. Afundou os dedos em seu cabelo e a fez inclinar a cabeça para ter acesso completo a sua boca. Reese bloqueava o sol e o mar, e as dolorosas lembranças que Sabrina tinha desenterrado. Sua boca era mais doce e mais proibida que o primeiro gole de champanhe que deu aos dezesseis anos. Mas almejava mais.
Reese deslizou a língua entre seus lábios e penetrou em sua boca. Sabrina nunca tinha sido beijada tão conscientemente. Agarrou-se aos ombros de Reese, cobertos pela camisa.
Recordava suas costas e aquelas cicatrizes. Sua carne não era tão perfeita como a das estrelas de cinema, mas era muito real. Como ele mesmo, que era um homem com muitas facetas a explorar. Queria tocar sua pele, acariciar as imperfeições que lhe faziam parecer tão humano.
Levou as mãos depois a suas costas e deslizou-as para baixo da camisa.
Estava mais quente do que tinha imaginado. Acariciou o pequeno corte que tinha na parte baixa de suas costas e depois foi seguindo o rastro das demais cicatrizes. Perguntou-se como teria se ferido.
Sabia que Reese não queria falar de seu passado. Teria que ser tonta para não se dar conta de como evitava falar de si mesmo, se concentrando exclusivamente nela, apesar de que tinha prometido se esquecer essa tarde do artigo. Mas não podia esquecer. Era seu trabalho.
Mas enquanto a beijava também soube que aquilo era algo mais que um trabalho para ele. O desejo palpitou em suas veias, sensibilizando ao máximo sua pele.
Reese a estreitou com mais força entre seus braços. «Por fim», pensou ela, desfrutando do contato com a firmeza de seus músculos. Ele era um homem e ela uma mulher, e naquele barco e naqueles momentos eram os únicos habitantes do mundo.
Fazia muito que um homem não a abraçava assim. Demais. E queria mais.
Reese separou seus lábios dos dela e foi deixando um rastro de beijos por sua bochecha e seu pescoço, onde a mordeu com delicadeza. Sabrina deixou-se levar. Permitiu-se sentir a Reese Howard como tinha desejado o fazer desde o primeiro momento em que o viu.
Entrelaçou os dedos em seu cabelo e sustentou-o contra seu pescoço. Sentiu que deslizava uma mão para baixo de sua blusa — e ascendia lentamente até acariciar um de seus seios através do fino tecido do sutiã.
Era tão agradável sentir o calor de sua mão, tão perfeito... Queria mais. Precisava mais. Precisava-o nesse mesmo momento.
Inclinou-se para ele e a caricia se intensificou. Sentiu a excitação de Reese entre a união de suas coxas e esfregou-se contra ele. Queria ser a mulher daquele homem, a elementar resposta a seu desejo, a satisfação de suas necessidades.
O barco balançou-se, separando-os. Reese segurou-a pelos ombros para que não perdesse o equilíbrio. Mas Sabrina não queria que a soltasse. O coração batia-lhe com tal força que sentia que ia sair do peito.
— Isto foi para além do que tinha planejado — disse Reese, passando uma mão pelo rosto e pelo cabelo.
Sabrina só era capaz de olhar sua boca, seus carnosos e sensuais lábios.
Queria voltar a senti-los sobre os seus. «Agora», pensou.
— Sim? — perguntou, num tom rouco que resultou estranho a seus próprios ouvidos.
Reese assentiu.
Sabrina pensou que talvez estivesse jogando com ela, mas compreendeu que sua situação era delicada. Reese podia tomar a iniciativa até verdadeiro ponto, mas ela devia decidir.
— Eu...
— Não importa. Sei que fui muito longe.
Reese pegou as coisas de Sabrina e conduziu-a para a escada do barco. Ela pensou em sua vida. Em seu frio e solitário apartamento. Recordou a casa de sua infância, os quadros e os móveis antigos, os guardanapos irlandeses de sua mãe e os carros antigos de seu pai. Sua família teve mais que o vazio em que consistia sua atual vida. Seus pais compartilharam sua intimidade, sua vida, tudo.
E aquela era sua última oportunidade.
Depois que nascesse a criança não poderia ter nenhum homem em sua vida.
Não poderia fazer amor com um homem, dormir toda a noite com ele e voltar a fazer amor ao acordar. Tinha sido solteira muito tempo, e essa escolha tinha sido inteligente.
Uma garota não esquecia de ter tomado uma dura decisão sendo jovem, nem as circunstâncias que a tinham levado a tomar essa decisão. Mas agora era uma mulher. Uma mulher com as necessidades e os desejos de uma mulher.
Olhando os escuros olhos de Reese tomou outra decisão. Essa noite ia ser a mulher daquele homem.
— Reese?
— Sim?
— Não quero ir. Não acho que nosso abraço tenha ido muito longe.
Em resposta, Reese voltou a rodeá-la com seus braços e Sabrina descansou entre eles, sentindo as fortes batidas de seu coração contra a bochecha. Tinha tomado à decisão correta. «Que seja uma decisão inteligente, por favor», pensou. A casa de Sabrina era sofisticada e singela, como ela mesma. E também, como ela, tinha verdadeiro ambiente de desolação. Os quartos eram funcionais, mas mal estavam usados, fizeram que o coração de Reese se encolhesse, apesar de que tinha jurado que nenhuma mulher romperia o muro no qual ocultava suas emoções. E perguntou-se o que estava fazendo ali.
O silêncio reinante era ainda mais denso que os segredos que tinha entre eles.
Tinha os seus, e implicavam mais que as cicatrizes que Sabrina tinha visto em suas costas. E sabia que ela também os tinha. Sua forma de reagir ao ver à mãe com o menino o tinha evidenciado.
Mas tudo isso carecia de importância naqueles momentos. Sabrina fechou a porta a suas costas. Seu cabelo, ligeiramente revolto pela brisa, caía em suaves ondas em torno de seus ombros. Sua blusa estava ligeiramente enrugada no lugar que Reese tinha introduzido sua mão um momento antes.
Reese voltou a sentir a pressão de sua excitação contra a calça jeans. Fazia anos que não se sentia tão excitado. A inocência de Sabrina atraía-o como nunca o tinham atraído outras mulheres mais experientes.
Desejava-a de forma alucinada, intensa, emocionada. Ignorou a emoção e concentrou-se na pulsação de seu corpo, que lhe exigia que a levasse à cama, que a fizesse sua de imediato.
As calças compridas apertavam as perfeitas coxas e as cadeiras de Sabrina.
Seus lábios estavam ainda um pouco inflamados pelos beijos que tinham compartilhado fazia uns minutos, mas seus olhos estavam totalmente despejados. Ainda que soubesse que não ia mudar de opinião, Reese precisava lhe ouvir dizer as palavras em alto.
— Estás certa de que queres fazer amor comigo?
— Sim — contestou Sabrina, sem duvidas.
O corpo de Reese gritou por ela, mas sua mente lhe disse que fosse cauteloso.
Para ele, Sabrina era algo mais que um uma rapidinha. Era o tipo de mulher que merecia um homem devoto e um casamento. E ele não era esse homem.
No fundo, sabia que aquela não era a decisão mais sábia. Se queria escrever um artigo decente, devia manter certas distâncias com ela. Mas nesse momento Sabrina sorriu-lhe de um modo que quase lhe fez se ajoelhar ante ela. Não era como as mulheres de seu passado. Era a mulher de seus sonhos feita realidade, e soube que a ia ter.
— Só pode ser por esta noite.
— Eu sei — concordou Sabrina—. Quero estar contigo — avançou para Reese e lhe acariciou a bochecha. Nunca tinha tocado ninguém com aquela ternura.
Tinham-no tocado com raiva, com desejo, mas nunca só com ternura. Afastou de sua mente todas suas preocupações com respeito a seu trabalho e seu chefe. Soube no instante que não ia ficar satisfeito com uma só noite. Não podia esperar um minuto mais para tocá-la, a tê-la deitada debaixo seu corpo, nua, ofegante...
Pegou-a pelos braços e levou-a pelo curto corredor. Seu dormitório era amplo e arejado, e a cama era grande. Deixou-a no chão e Sabrina começou a desabotoar os botões da camisa. Quando terminou, deslizou as mãos estendidas por seu peito.
— Levanta os braços — disse.
Reese obedeceu.
Ela o rodeou com as mãos pela cintura e acariciou as cicatrizes de suas costas.
— Não me toques aí... Por favor.
— Quero aliviar a dor que sofreste.
— Não podes.
— Sim posso — Sabrina rodeou-o, agachou-se e saboreou as antigas feridas com a boca e a língua.
Reese estremeceu. Estendeu uma mão para trás e pegou a Sabrina pelo braço para que voltasse a se pôr diante ele. Depois inclinou a cabeça e a beijou nos lábios. Utilizando todo o conhecimento carnal acumulado durante anos, seduziu àquela mulher. Aquela mulher tão especial, capaz de tocar suas velhas feridas e de ver além de sua aparência externa.
Tirou-lhe a blusa e o sutiã. Seus generosos seios, de grandes mamilos, eram firmes e duros. Chupou primeiro o esquerdo, e enquanto fazia-o sentiu as poderosas batidas do coração de Sabrina. Deslizou uma mão para abaixo de seu ventre, lhe desabotoou o botão das calças e tirou-as. Depois pegou-a pelos braços e deixou-a sobre a cama.
Sabrina ficou deitada no meio, com o cabelo estendido sobre a almofada, completamente nua. Seu pálido corpo hipnotizou Reese. Precisava estar perto dela. Precisava estar sobre ela, dentro dela, sentir sua macieza o rodeando.
Sabrina separou as pernas e Reese terminou de despir-se rapidamente. Pegou do bolso da calça o preservativo que tinha guardado antes de sair do barco.
Precisava sentir o calor de Sabrina rodeando-o. Colocou-se cuidadosamente sobre ela e ouviu como suspirava.
Sabrina deslizou as mãos pelas costas de Reese e deixou-as apoiadas sobre suas nádegas. Seus excitados mamilos esfregaram o peito de Reese enquanto envolvia-o com suas pernas e dava as boas-vindas a sua dura masculinidade.
Quando Reese deslizou a mão até o centro do prazer de Sabrina, o encontrou úmido e disposto. Afastando-se dela, cobriu sua palpitante ereção com o preservativo. Depois, sem deixar de olhar-lhe o rosto, penetrou-a.
Viu que seus olhos se arregalaram ante o primeiro toque de sua excitada carne contra a dela. Ouviu que continha o fôlego quando a penetrou por completo.
Sentiu que lhe fincava os dedos nas costas quando começou a se mover.
Quando Sabrina se adaptou a seus movimentos, aumentou a velocidade. Ela o rodeava como úmida e cálida seda. Reese deslizou uma mão entre seus corpos e acariciou o centro de sua paixão. Sabrina se tencionou em torno dele e começou a gemer.
Reese pegou-a pelas cadeiras, levantou-a ligeiramente e bateu contra ela como um mar enfurecido contra um alcantilado. Quando chegou sua libertação, sentiu que nunca tinha experimentado nada parecido. Seu clímax nunca tinha sido tão forte e se sentiu possuído por novos e estranhos sentimentos que lhe fizeram desejar apertar Sabrina entre seus braços.
Sempre tinha suportado os abraços posteriores porque sabia que as mulheres os esperavam. Mas nessa ocasião desejava dar-lhos. Desejava ficar ali até a manhã seguinte. Queria voltar a tomar a Sabrina uma e outra vez.
Ela suspirou e se apertou contra ele. Reese se deitou de costas e atirou os lençóis. Sabrina o beijou delicadamente no pescoço e ele voltou a excitar-se.
Deslizou uma mão por seu corpo, precisando sentir a cálida seda de sua pele.
Mas não só sentiu isto, sentiu também o úmido resto da evidência de sua própria paixão.
Maldição!
Ergueu-se repentinamente na cama e baixou os olhos para suas coxas. O preservativo tinha-se rompido.
Capítulo Quatro
Sabrina olhou as marcadas costas de Reese enquanto este se sentava na borda da cama, amaldiçoando como um caminhoneiro.
— Que aconteceu, Reese? — Tudo. Não te protegi! — a espetou ele, sem a olhar.
Sabrina encolheu-se debaixo dos lençóis.
— Sim, me protegeu — disse, recordando o momento em que Reese tinha posto o preservativo. Teria preferido fazer amor sem ele, mas sabia que era necessário.
Seu quarto parecia-lhe agora frio e solitário. Tinha apostado tudo por aquele homem, e estava reagindo como todos os que tinha conhecido.
— O preservativo rompeu-se.
Aquelas palavras foram como uma punhalada no estômago de Sabrina. Nem sequer podia dizer que era um bom momento do mês, porque tinha tomando pílulas de fertilidade para aumentar as possibilidades de ficar grávida. De fato, semana seguinte tinha uma consulta para sua primeira inseminação. Mas, após o sucedido, talvez já não fosse necessária.
Sentiu o absurdo impulso de começar a rir. Mas sabia que se começasse acabaria chorando.
— Não te preocupes — disse —. Foi só uma vez — sua amiga Kalya demorou seis anos para conseguir ficar grávida pela primeira vez.
Reese pôs-se em pé e voltou-se para ela. Não tinha dúvida de que era um homem com um físico magnífico. O sol que entrava pela janela banhava sua pele de um tom dourado. Sabrina deslizou os olhos para abaixo. Era evidente que ainda a desejava, mas ela sabia que não queria a desejar. Por sua forma de mover-se, notava-se que se sentia atrapalhado. E não o culpava por isso.
— Claro que me preocupa — disse Reese, e se agachou para recolher seu jeans.
Depois jogou o preservativo rompido ao lixo.
— Por que te preocupa? Não é responsabilidade tua.
— Isso diz à mulher que quer ser mãe solteira, sinto muito, baby, porque agora o jogo mudou.
Sabrina cobriu-se com o lençol e saiu da cama. Não estava disposta a permitir que Reese a intimidasse. Uma das duras lições que tinha aprendido da vida consistia em que ela era a única pessoa disposta a lutar até morte por si mesma.
Aproximou-se dele e apoiou um dedo em seu musculoso peito.
— Nada mudou Reese Howard. E não me chames baby.
Reese inclinou-se para ela, com a aparente intenção de utilizar sua poderosa figura para amedrontar-la. Como se pudesse a assustar após a ternura com que lhe tinha feito amor... Mas Sabrina sabia que devia esquecer o delicado amante que acabava de estar em sua cama. Aquele homem era um guerreiro que tinha sido traído. Por si mesmo. Em realidade, sua raiva não ia dirigida para ela.
Reese olhou-a sem dizer nada.
— Não te culpes pelo sucedido — continuou Sabrina, sentindo que sua raiva se desvanecia —. Eu também não pensei nas conseqüências. Só foi um erro.
Reese levantou uma mão e tomou o rosto de Sabrina com uma delicadeza que esta não tinha experimentado nunca.
— Não foi um erro que fizéssemos amor.
— Não? — sussurrou ela, esperançosa.
Se não tinha sido um erro, ainda cabia a possibilidade de que as coisas funcionassem. Talvez por fim tinha encontrado a seu homem. Porque por muito que desejasse um filho, no fundo o que queria era uma família completa.
— Não — replicou ele, com firmeza.
A beijou suavemente nos lábios. Era maravilhoso. Sabrina rodeou-o pelo pescoço com os braços e reteve-o contra si.
Ele alçou a cabeça e lhe deu um forte abraço. Depois apoiou as mãos em seus ombros e separou-se dela.
— Quero que saibas que farei o correto.
— O que é o correto? — perguntou Sabrina, temendo o pior.
Uma relação permanente exigia confissões completas, um marido tinha direito, a saber, coisas das que um amante não tinha por que se inteirar.
Reese ignorou sua pergunta e colocou os sapatos.
— Reese?
— Sim?
— Que é o correto?
— Se estás grávida me casarei contigo.
— Por quê?
— Porque se um homem seduz a uma mulher...
— Você não me seduziu.
Os olhos de Reese brilharam como duros diamantes.
— Sim seduzi. Desejava-te e lancei-te o anzol.
— Fazes que pareça uma espécie de peixe tonto. Tonto e sem sentido comum.
Não me lançaste nenhum anzol.
— Sim lancei.
— Não penso discutir contigo. Sou uma mulher responsável de meus atos. Não penso me casar contigo porque aches que é teu dever o fazer.
— Já veremos.
«Não veremos nada», pensou Sabrina. Não pensava se casar com ele por aquilo. Reese tinha conseguido atingir uma parte dela que nem sequer sabia que existia, e quis ter a oportunidade de estar com ele dantes de ser mãe.
—Te ligarei dentro de uns dias — sem acrescentar nada mais, Reese saiu da casa.
Sabrina não estava certa de querer voltar a vê-lo. Reese duvidou ante a entrada da clínica. Uma vez mais se encontrava em frente ao banco de esperma. Olhou o sol, deixando que o cegasse.
Desafortunadamente, o sol não penetrou em sua mente para levar as imagens de Sabrina. Não deixava de recordar seu primeiro encontro, no dia em que ela lhe confessou que se sentia sozinha. Quando lhe disse pareceu pequena e perdida, como uma menina à que lhe tivessem tirado algo maravilhoso e não soubesse como o recuperar. Ele nunca tinha pensando na vida naqueles termos. Preferia ignorar o vazio de sua vida. Preferia ignorar que o que fazia não lhe enchia. E estava totalmente disposto a ignorar o gozo que sentiu quando teve Sabrina entre seus braços e lhe fez amor.
Sua alma almejava-a. Seu coração gritava que ele também estava só. Mas ele nunca tinha querido atuar se baseando em suas emoções. Nunca tinha querido as reconhecer. E agora o dever se jogava ante ele, amenizante.
Um homem real tinha certas obrigações, recordou-se. Seu pai não foi sempre um homem cabal, mas uma das lições que ensinou a Reese foi que um homem autêntico se responsabilizava de seus erros. Mas era seu «provável bebê» com Sabrina um erro? Empurrou a porta da clínica para fugir de seus pensamentos. Não fazia sentido se esconder até que soubesse se Sabrina tinha ficado grávida.
— Posso ajudá-lo? — perguntou a recepcionista.
— Sim, senhorita. Sou Reese Howard. Tenho uma entrevista com Sabrina MacFadden.
— A senhorita MacFadden está agora mesmo no consultório com o médico.
Vou avisar-lhes. Pode sentar-se um momento enquanto espera.
Uns minutos depois uma enfermeira conduziu-o até o consultório. Quando abriu a porta, Reese viu a Sabrina de pé no meio da sala, evidentemente nervosa.
— Encontras-te bem? — perguntou, preocupado.
Seu rosto estava quase tão pálido como as paredes brancas da clínica. Reese tinha vivido a seu modo toda sua vida de adulto, tomando o que queria sem se preocupar das conseqüências, mas ver Sabrina com aquele aspecto tão frágil lhe fez conscientizar de que, nessa ocasião, alguém, mas estava sofrendo por causa de sua irresponsabilidade. Dissesse ela o que dissesse, ele sabia que a tinha seduzido. Sabia que ele era o responsável do que tivesse acontecido.
— Não... Sim...
Reese queria percorrer a distância que os separava e estreitar-la entre seus braços. Mas devia conter-se. Ter-se-iam um filho, se casariam. Sabia que aquilo era uma autêntica comoção para Sabrina. Ela já tinha planificado sua vida e, provavelmente, agora se encontrava ante algo totalmente inesperado.
— Não te preocupes.
Sabrina deixou escapar um suave gemido e, apesar do que ditava o sentido comum, Reese rodeou-a com um de seus braços. Ela apoiou a cabeça contra seu peito. Justo em cima do coração. Reese sentiu que este começava a bater mais depressa. O sangue correu ardente por suas veias.
Amaldiçoou internamente. Estava tratando de ser terno, mas seu corpo não captava a mensagem. Por que não? «Não és um tipo respeitável, Reese. Nunca o serás». A voz de seu pai surgiu do passado alta e clara. .
— Desculpem — disse um homem alto com óculos que acabava de entrar no consultório.
— Doutor Hyde, este é Reese Howard, o homem que lhe mencionei.
— É um prazer conhecê-lo, senhor Howard —d isse o doutor, oferecendo-lhe a mão —. Por favor, sente-se. Reese apertou sua mão e esperou a que Sabrina se sentasse para ocupar o assento que tinha a seu lado.
— Tenho notícias para você — disse o doutor Hyde.
Sabrina se ruborizou, e quando Reese tratou de olhar seus olhos, baixou a vista.
— Que notícias? — perguntou, sentindo que uma poderosa mão lhe tencionar o estômago.
— Parece que logo vai ser pai, senhor Howard.
Reese resmungou uma maldição. O mundo deixou de girar e o peso do dever caiu a chumbo sobre seus ombros. Sabrina pôs-se em pé e saiu do consultório sem fazer nenhum comentário. Reese compreendeu que tinha cometido um grave erro, mas não sabia como o corrigir. O doutor permanecia sentado, sério e expectante. Reese tratou de concentrar-se nos aspectos práticos do assunto.
— Me ocuparei de devolver à revista o dinheiro que tenham investido até o momento no tratamento.
— Muito bem — disse o doutor Hyde.
Reese sentiu o penetrante olhar do velho médico, acusando-o de um montão de coisas que sabia serem verdadeiras. «Por que a seduziste? Por que reagiste como um adolescente, e não como um homem?»
— Farei o correto com Sabrina — disse, pondo-se em pé para sair.
— Pode ser que ela não deixe — replicou o médico.
Reese avançou pelo silencioso corredor sabendo que o que o doutor Hyde tinha dito podia ser verdade. Sabrina esperava muito da vida e dos homens, ou nunca teria tomado a decisão de ter um filho por sua conta. E ia ser difícil convencê-la de que se casasse com qualquer homem, ainda que este fosse o pai de seu filho.
Sua própria mãe morreu ao dar-lhe a luz, e Reese sabia que nunca encontraria a paz a não ser que cuidasse de Sabrina. A não ser que fizesse todo o possível para se assegurar de que estivesse totalmente a salvo ao longo de sua gravidez. O enfado de Sabrina levou-a a toda pressa até o estacionamento de seu carro.
O Mustang clássico era um carro muito especial e bonito para conduzi-lo quando se sentia descontrolada. Apoiou a cabeça no volante e deixou que as lágrimas se deslizassem por suas bochechas. Queria gritar com todas suas forças. Queria liberar sua raiva de um modo primário, elementar.
Mas, além de raiva de Reese, sentia uma mistura de excitação e ansiedade. Ia ter um filho. Apoiou as mãos em seu abdômen. O pequeno ser que tinha dentro acordou nela toda classe de sentimentos. Seu sonho feito realidade e seu mais profundo e oculto temor unidos num só.
Precisava sair dali. Escapar da clínica antes que Reese saísse. Escapar da humilhação.
Sabia que faria questão de cumprir com seu dever. E ela sentiria a tentação de dizer que sim. Tudo o que sempre tinha querido para valer era uma família real e completa, e podia imaginar a Reese como o homem dessa família. Não tal e como era nesses momentos. Mas tinha potencial.
Mas se tinha que se casar, queria que a união implicasse todas as emoções.
Não queria repetir o desastre de seu primeiro casamento. De fato, nesta ocasião teria que ser mais forte para proteger a seu bebê. Queria que seu marido se sentisse feliz ante a idéia de ser pai. Almejava um homem que quisesse fazer parte de sua família.
Mas, sendo realista, sabia que seu sonho não ia cumprir. O acordo entre Reese e ela não tinha incluído o futuro. De fato, por uma vez, ela tinha deixado que o futuro se ocupasse de si mesmo. Grande erro pensou. Se casassem, teria que contar a Reese a decisão que tomou aos dezoito anos.
«Só pode ser por esta noite». As palavras de Reese ressoaram em sua mente.
Ela tinha aceitado. Olhando seus olhos de obstinação, pensou que uma noite de paixão lhe duraria durante os anos nos que teria que se ocupar de criar o seu filho. E ainda queria se ocupar em criar sozinha.
Pôs o carro em marcha e dirigiu até sua casa. O apartamento em que compartilhou seu corpo com Reese não parecia tão acolhedor como antes.
Mas não queria se ver obrigada a tratar com Reese o que acabava de estar sujeita.
Queria ocultar-se do Reese marcado, do homem com as feridas emocionais e as cicatrizes. O homem que parecia ter algo em comum com ela, o que se ocultava depois de uma camada de sofisticação e encanto.
Permaneceu sentada no carro, em frente ao edifício, esperando ter alguma reação. Não queria entrar em seu apartamento. Desde que Reese foi-se, tinha dormido no sofá.
Um barulho na janela fez-lhe dar uma olhada de sua janela. Era Reese.
Quis ignorá-lo e afastar-se de ali, mas não pôde. Aquele era o Reese que temia se enfrentar. O homem que poderia ensinar a amar sem que o sexo estivesse obrigatoriamente por cima. O homem com que tinha feito um bebê.
— Saia — disse ele.
Sabrina pegou sua bolsa e saiu do carro. Reese pegou-a pelo cotovelo e acompanhou-a até a porta do edifício. Ela afastou o braço e se apoiou contra a varanda. Não pensava em entrar no apartamento com ele.
Reese parecia irritado, mas não disse nada. Apoiou um ombro contra a parede e olhou-a, entrecerrando os olhos. Molesta por suas reações anteriores, Sabrina espetou:
— Que queres?
— Que achas que quero?
Sabrina começou a tremer e compreendeu que não estava em condições de começar uma discussão com aquele homem. Suspirou, sentindo que seu enfado se ia, dando passo a um profundo cansaço.
— Diga-me por que estás aqui, faz favor — murmurou.
— Quero que te cases comigo — disse Reese. Parecia sincero.
— Não posso — Sabrina o observou atenciosamente, esperando sua reação.
— Por que não? — perguntou ele.
— Porque tu o farias como um dever, não porque quisesses.
Reese colocou-se junto a ela na varanda e olhou para a rua.
— Isso não é verdade.
— Por se esqueceste, estava na consulta quando o médico te deu a notícia, Reese.
— A notícia desconcertou-me. Agora que tive tempo do pensar sei que isso é o que quero.
— Estás seguro?
— Sim — contestou ele, com firmeza.
Sabrina moveu a cabeça.
— Não estou segura.
— O que falta para que esteja?
«Amor», pensou ela. Alguma amostra de afeto. Mas só pôde contestar:
— Não o sei. Reese observou-a e esperou. Sabrina conteve o fôlego e armou-se de valor, porque no fundo de seu coração queria casar-se com aquele homem. Queria que compartilhasse com ela a alegria de criar o seu filho.
— Convença-me — disse.
— Conheço-te, Sabrina MacFadden.
Sabrina pensou em suas entrevistas e em como Reese tinha sabido ir direto a seu coração, em como lhe tinha deixado ver sua alma. Sabia que agora ele ia utilizar aquele conhecimento para convencê-la de que se casassem. E isso a assustava e ao mesmo tempo lhe produzia um sentimento de euforia.
— Que sabes de mim? — perguntou, temendo achar que Reese tivesse visto o que outros homens em seu passado nunca viram.
Reese inclinou-se para ela, esfregando com seu peito os braços que Sabrina tinha cruzado sobre seus seios.
— Queres uma família.
Suas palavras chegaram-lhe diretamente ao coração de Sabrina.
— Sim — sussurrou.
Reese pegou-a pelos ombros e, delicadamente, fez-lhe separar os braços do corpo. Levantando-os, fez-lhe apoiá-los em seus ombros e depois rodeou-a com os seus pela cintura.
— Sou o homem perfeito para completar tua família.
Estava tão perto que Sabrina viu como se dilataram suas pupilas quando sua masculinidade aninhou-se no centro de sua feminilidade. Um repentino desejo percorreu-a e sentiu que se derretia.
Levantou uma mão e acariciou sua bochecha.
— Não minha família. Nossa família.
— Nossa família — assentiu Reese, e inclinou-se para beijá-la.
Capítulo Cinco
Reese notou que Sabrina queria se separar e a soltou. Era como uma borboleta, e nunca estava segura da direção em que se moveria a seguir.
Apesar de que tinha aceitado facilmente se casar com ele, queria ouvi-lo pedir.
— Vamos lá dentro discutir os detalhes — disse ela. Reese seguiu-a, esperando que, uma vez aclarados os detalhes, pudessem voltar a fazer amor.
Seu corpo não tinha esquecido o paraíso que Sabrina lhe ofereceu naquela ocasião. Aquela única ocasião. Queria fazer-lhe amor toda a noite, queria reafirmar o laço que tinha começado a se formar entre eles.
O apartamento continuava igual recordava, com a diferença de que tinha uns lençóis no sofá. Olhou Sabrina com gesto interrogativo e ela se ruborizou.
Recolheu rapidamente os lençóis e guardou-os num armário.
Ao que parece, ela também tinha tido dificuldades para dormir. Teriam sido seus sonhos invadidos por imagens do dia que fizeram amor, como tinha acontecido com ele?
— Sente-se — disse Sabrina, assinalando o sofá. Reese obedeceu enquanto ela se movia inquieta pela habitação. Perguntou-se se sua tensão seria boa para o bebê. Teria que relaxa-la e se ocupar dela. Apalpou o sofá ao seu lado.
Sabrina olhou-o um momento com expressão conturbada. Reese sentiu-se como um destruidor, um homem que criava o caos aonde ia. A vida não lhe tinha ensinado aquela lição uma e outra vez? Primeiro com a morte de sua mãe horas após dar-lhe a luz, e depois com o abandono emocional de seu pai.
—Vamos nos casar — disse. Era importante que seu filho tivesse a infância normal da que ele careceu. Faria tudo o que estivesse em sua mão para que se sentisse seguro e a salvo.
Suspirando, Sabrina aproximou-se e sentou-se num extremo do sofá. Seu perfume floral afetou aos sentidos de Reese como teria feito uma fresca brisa marinha num dia ensolarado.
— De acordo, falemos dos detalhes — disse Sabrina, seriamente.
— Que queres saber?
— Que implicará este casamento? Será uma espécie de acordo comercial?
— Claro que não. Por que perguntas isso?
— Até agora falamos do que eu queria, mas acho que o casamento nunca esteve entre teus planos.
— É verdade — disse Reese, sinceramente—. Mas talvez esteja proibido mudar de opinião?
— Pode, se um acordo comercial fosse o melhor. Já sabes que eu também nunca quis um marido.
«Mentirosa», pensou Reese. Claro que Sabrina queria um marido, o que acontecia era que nunca tinha conseguido encontrar ao mítico Senhor Perfeito.
Ele tinha intuído desde o princípio que desejava algo mais que aquele menino.
— Escuta Sabrina. Pode ser que eu não seja o candidato ideal como marido, mas quando me comprometo mantenho minha palavra acima de tudo.
Sabrina voltou a suspirar e baixou os olhos para seu seio. Reese sabia que o que estava oferecendo ia à contramão do que ela tinha dito que queria. Mas agora tinha que pensar em outra pessoa, em outro ser que não tinha pedido para nascer, mas que o ia fazer de todos os modos.
— É doce, carinhosa e tudo o que um menino poderia querer de uma mãe —continuou Reese —. Eu sou forte e capaz, e poderei protegê-los e mantê-los. Somos o casal ideal.
— E o sexo? — perguntou Sabrina. Sua expressão continuava sendo séria, ainda que não olhasse a Reese quando fez a pergunta.
— Que sucede com o sexo? — essa era uma das vantagens das que Reese pensava desfrutar plenamente.
Sempre tinha desejado uma relação sexual em longo prazo, desfrutar a intimidade com a mesma mulher noite depois de noite. No entanto, isso era algo que sempre tinha estado fora de seu alcance.
— Fará parte de nosso casamento?
Pelo tom de voz de Sabrina resultava impossível saber se ela também o considerava uma vantagem ou algo do que preferia passar.
— Tradicionalmente, sempre foi assim.
— Não te faças de tonto, Reese. Até agora não te ouvi mencionar que vai me dar carinho, e isso também pertence à tradição do casamento. Assim, vai ou não incluir sexo no lote?
Reese compreendeu que a tinha ferido com a franca exposição que tinha feito de suas habilidades como mãe e pai. Mas era melhor que soubesse a verdade, porque assim não alimentaria falsas esperanças.
— Ah, Sabrina. Sinto tanto carinho por ti como poderia sentir por qualquer outra pessoa.
— Isso não é especialmente alentador.
Reese duvidava que falar a Sabrina sobre seu passado fosse lhe servir de algo, mas a verdade era que tinha direito a saber o que ia obter. Tinha direito, a saber, que o pai de seu filho era emocionalmente deficiente.
— Cresci num ambiente muito duro, querida. Como um cão de rua. Meu pai morreu quando eu tinha dezesseis anos e passei os dois anos seguintes sobrevivendo como pude. Por isso é tão importante para eu ter uma família real no referente a este menino. Mas tens que saber desde o princípio que não
sou uma pessoa capacitada para o afeto.
Teria gostado de ser, mas isso não disse. Não queria gerar falsas esperanças, ainda que temesse que fosse ser assim. Sabrina era muito vulnerável. Não queria ferir seus sentimentos, mas temia que acabasse o fazendo.
— Foste maltratado? — perguntou Sabrina, com seus olhos azuis brilhantes pelas lágrimas.
Reese odiava falar de seu passado. Odiava que sentissem pena ou compaixão por ele. Mas ele mesmo tinha deixado o tema a aparecer. E sentia sinceramente que tinha coisas que Sabrina precisava saber dantes de tomar uma decisão.
— Sim.
— E agora tu maltratas aos demais? — perguntou ela.
— Não. Sou muito controlado. Por isso não sinto nenhuma emoção.
Sabrina apoiou-se contra o respaldo do sofá e olhou-o.
— Podemos ter mais filhos?
Mais filhos? Reese não queria pensar nisso naqueles momentos. Queria encontrar uma solução para o problema que tinha entre mãos e depois buscar águas tranqüilas.
— Por enquanto preferiria pensar só neste. Vamos casar-nos?
Sabrina não disse nada. Reese sentiu que ela estava escapando dentre seus dedos como se fosse água. Tinha que convencê-la. Tinha que encontrar um modo de lhe fazer ver que aquela era a decisão correta, a única possível para ela e para seu filho.
— Sabrina, sei que a vida pode dar muitas surpresas desagradáveis. Nós dois sabemos. Mas o bebê não sabe. E nosso filho não tem por que começar carregando com a desvantagem de não fazer parte de uma família real. Estou te pedindo que digas sim, por ti mesma, por mim e pelo bebê. Quererás casar-te comigo?
— Sim — contestou Sabrina.
Reese teve que se conter para não soltar um grito de alegria. Até esse momento não tinha consciência de quanto lhe importava que Sabrina aceitasse.
— Bem — disse, e olhou seu relógio—. Agora, o melhor será que fossemos ao centro e começar com a papelada. Podemos estar casados em três dias.
—Reese, poderíamos ter uma cerimônia real? — perguntou Sabrina, suavemente, num tom tão delicado e feminino que agitou no interior de Reese um oculto anseio que nem sequer ele mesmo sabia que existisse. O anseio de ser seu príncipe encantado, seu cavalheiro de conto de fadas.
Pensou na mulher que lhe contou seus sonhos secretos no Bay Side Café e na forma drástica que tinham mudado para ela as coisas nos últimos dias.
Pensou em tudo o que poderia ter tido com um tipo que fosse seu tipo, e não com um homem frio como ele. E decidiu que, por ela, estava disposto a passar por todo o circo do casamento.
— Claro que podemos. Mas não quero que esperemos demais.
— Ótimo.
— Por que não te mudas e coloca algumas de roupas numa mala? Podemos sair a navegar no Time Lapse para celebrar.
— Parece-me boa idéia, mas quero que saibas que não vou passar a noite contigo até que estejamos casados.
— Isso é como comprar um extintor após ter queimado a casa, não?
— É bem como me sinto.
— Por quê?
Sabrina mordeu-se o lábio inferior e desviou os olhos.
— Temos que nos casar. Confundido, Reese pegou-a pelo queixo para que o olhasse nos olhos. Era evidente que aquele detalhe era importante para Sabrina, e queria saber por que.
— Faz a bagagem de todos os modos. Não temos por que ter relações só porque vais passar a noite comigo.
— Não confio mim mesma.
— Então pode ser que esta não seja uma sábia decisão.
— Já que vamos casar-nos, quero esperar. Sei que soa tonto, mas quero te conhecer um pouco melhor antes que voltemos a fazer amor.
— Não há problema. Posso esperar — disse Reese.
Sabrina não respondeu. Limitou-se a pôr-se em pé e foi ao quarto trocar de roupa. Reese sentiu um raio de esperança. Apesar do modo em que os acontecimentos o tinham levado até ali, a decisão que tinham tomado podia ser a correta. Navegar pelas suaves águas da baía para o Pacífico produziu a Sabrina à ilusão de que tudo estava resolvido em seu mundo. Gostava da sensação, mas era suficientemente pragmática para saber que esse não era o caso. Apesar de que Reese quisesse manter relações íntimas com ela, o acordo ao que tinham chegado era essencialmente prático. Mas ainda que ele não lhe estivesse oferecendo seu coração e sua alma, tinha uma parte nela que se sentia satisfeita com aquele compromisso. Tinha crescido achando que um homem e uma mulher que esperavam um bebê deveriam se casar.
Como não era boa nadadora, nunca tinha sido aficionada em água, mas se sentia a salvo estando ali com Reese. E sabia que se sentiria a salvo com ele em qualquer circunstância, coisa que a reconfortava.
Mal capaz de achar que estava comprometida, olhou seu noivo. Reese manejava o timão, descalço sobre a coberta e com a camisa desabotoada. A habitual tensão de seus olhos e sua boca desaparecia quando pilotava o barco. Sabrina gostava de observar aquela mudança nele. Suspeitava que não deixasse muita gente o ver naquelas circunstâncias.
Desejava-o. Na realidade tinha dito que não queria que fizessem amor até que estivessem casados porque temia que pensasse que era uma mulher fácil.
Queria sentir seu corpo sobre ela no camarote que tinha abaixo, na área coberta. Queria acariciar seu peito, visível abaixo de sua camisa aberta. Queria que a paixão tomasse o controle. Mas acima de tudo queria conseguir seu respeito.
Observou-o enquanto detinha o barco e jogava a âncora. Seus movimentos eram ágeis, elegantes e seguros. Refletiam a segurança que sentia em si mesmo e no lugar que ocupava no mundo. Uma segurança da que ela carecia.
Os erros do passado sombreavam seu futuro, e sabia que tinha coisas que deveria contar a Reese antes que fosse tarde. Deveria abrir-lhe sua alma, fazer-lhe ver que não era a garota doce que ele achava que era. Não era a perfeita senhorita que sua mãe quis que fosse, e seu ex-marido a desdenhou por isso.
Desejava deixar-se levar e satisfazer seus sentidos, mas sabia que não devia o fazer. Antes tinha que conhecer melhor Reese.
Quando terminou com as manobras, Reese foi sentar-se junto a ela.
— Fala-me de teu trabalho — disse Sabrina.
Aquele parecia o modo mais cômodo de começar. Quando, um momento antes, Reese lhe tinha confessado que foi um menino maltratado, sentiu o impulso de estreitá-lo entre seus braços. Sentiu o impulso de compensá-lo por todo o carinho do que tinha necessitado, mas soube que não teria tolerado sua compaixão.
— Bom, já sabes que agora escrevo para o Califórnia Magazine. Antes disso me dedicava ao jornalismo de investigação para Los Angeles Times.
— Sempre quiseste ser escritor?
— Não, de menino queria ser um super-herói ou uma estrela de rock.
— Para salvar o mundo?
— Não, só para poder me divertir muito — contestou Reese, rindo.
Sabrina sorriu para si, feliz ao vê-lo relaxado. Talvez pudessem chegar a serem amigos. Essa era uma relação segura, e com o tempo seria o que melhor funcionaria.
— Vais ter problemas em teu trabalho por mim? — até esse momento não tinha pensado nas conseqüências que podia ter sua gravidez para o trabalho de Reese.
—Não sei. Provavelmente não. Penso devolver à revista o que gastou até agora no tratamento que ias seguir.
Sabrina mordeu o lábio. Sabia que não ia ser fácil para sua economia, mas era ela que devia se ocupar de devolver aquele dinheiro.
— Sou eu que devo fazer frente a esses gastos. Não deveria ter permitido que a revista se fizesse cargo do tratamento.
Reese olhou-a fixamente.
— Eu me ocuparei disso.
— Como? Achava que a maioria dos jornalistas não ganhava muito dinheiro.
— Um amigo meu é o fundador de uma das companhias de software mais importantes do mundo. Eu lhe prestei o dinheiro para começar e me pagou com umas quantas ações. Poderia viver dos dividendos durante o resto de minha vida.
— Oh — sussurrou Sabrina, sentindo que acabava de pô-la em seu lugar. De todos os modos, não pensava lhe deixar devolver o dinheiro à revista. Isso era responsabilidade sua—. Não discutamos. É minha dívida, e ponto.
— Será «nossa» dívida quando estivermos casados, e eu me ocuparei dela - replicou Reese, com um astuto sorriso.
— Vais ser tão cabeça dura com respeito a tudo? —perguntou Sabrina, sem irritar-se, agradavelmente surpreendida porque Reese estivesse pensando em termos de «nós».
— Por quê?
— Porque se é assim, pode ser que te empurre pela embarcação.
Reese observou Sabrina um momento. Ela se perguntou se pensaria que era mentalmente instável. Mas a verdade era que sempre tinha utilizado o humor para aliviar os confrontos.
— Nesse caso terei que tomar certas precauções.
— Que precauções?
— Assegurar-me de que precises me ter perto — contestou Reese, num tom sensualmente rouco que se deslizou sobre os despertos sentidos de Sabrina como uma cálida onda.
— Como?
— Poderia tentar algo assim — Reese se inclinou para Sabrina, lhe roçou o pescoço com os lábios e depois lhe mordiscou suavemente.
Ela sentiu o impulso de se despir ali mesmo e lhe oferecer seu corpo para que fizesse o que lhe apetecesse com ele. Reese passou uma mão depois de suas costas e atraiu-a para si.
O pulso de Sabrina era tão intenso que estava segura de que podia se ouvir na Ásia. Reese foi subindo por seu pescoço e bochecha até encontrar seus lábios. Depois de beijar-la, levantou a cabeça e lhe piscou um olho.
— Que te parece?
— Pode ser que isso não seja suficiente — disse Sabrina, tratando de reprimir um estremecimento de prazer.
— Tenho outras armas em meu arsenal. Queres vê-las?
«Sim», pensou Sabrina. Queria vê-las e experimentá-las. Sentir de algum modo que tinha tomado à decisão correta.
Inclinou-se para Reese e o beijou. Tomando sua boca como ele tinha tomado a dela. Saboreando o homem e o mistério que era Reese Howard. O barco balançava-se abaixo de seus pés, a brisa marinha rodeava-os, e ela sentiu que o mundo se desvanecia.
— Por favor, ensina-me. Reese desejava Sabrina ainda mais que o relaxamento que oferecia seu barco.
Sabia que ela sentia o mesmo, mas não queria que se arrependesse de ter feito o amor antes de se casar. Mas não precisava a tomar. Podia satisfazê-la ainda que ele tivesse que esperar até a noite do casamento. Assim cumpriria os desejos expressados por Sabrina. Os que ela parecia ter esquecido.
—Reese? — murmurou Sabrina.
O bebeu de seus lábios. Poderia passar no dia beijando-a, e teria gostado de deixar-se levar pela paixão, mas fazia tempo que tinha aprendido que a paixão era o caminho mais direto à destruição, que a paixão era o lado escuro da emoção. E não precisava um novo discurso que lhe refrescasse as idéias.
Acariciou o ventre de Sabrina e as curvas de seus seios. Depois puxou sua blusa para acima e tirou-a por cima da cabeça. Finalmente, pôde saborear a suave carne que tinha exposto.
Os mamilos de Sabrina eram duas duras framboesas pressionando contra o encaixe do sutiã verde pálido que usava. A evidência de sua excitação percorreu-o como uma ardente descarga.
Empurrou-a para trás com maciez para que ficasse deitada sobre o banco, era mais tentadora e proibida que o canto das sereias.
Suas mãos tremiam por causa da necessidade que sentia. Alongou-as para acariciar-lhe o corpo. Enquanto desfrutava de sua sedosa pele, Sabrina levantou os braços acima da cabeça, oferecendo-se completamente á ele.
— Reese, por favor...
— Por favor, que? — murmurou ele, lhe acariciando ambos os seios com as mãos.
— Beija-me, por favor — gemeu ela —. Saboreia-me...
«Oh, sim», pensou Reese. Seu sexo endureceu-se ainda mais, e se perguntou se ia ser capaz de se controlar, se ia ser capaz de saborear o corpo de Sabrina sem tomar nada para si.
— Gostaria saborear-te de inteira.
— Oh, Reese.
Desabotoou a bermuda dela e deslizou-a para abaixo por suas pernas junto com a calcinha. Com os braços levantados e movendo as pernas, Sabrina parecia uma fantasia feita realidade. A fantasia de Reese.
Incapaz de esperar um segundo mais, deslizou as mãos por suas coxas até cobrir com elas a mata de cabelo encaracolado que assomava entre eles.
Recebeu-o sua vaporosa calídez, acrescentando combustível ao fogo, já fora de controle.
Fez-lhe separar as pernas e inclinou-se para beijar-la, para saborear a essência da mulher que ia ser sua esposa. Aquele pensamento acordou nele um intenso e desconhecido sentimento de posse. Sua esposa. Aquela mulher, aquela tentadora criatura, ia ser sua.
Seu sabor era um dos elementos essenciais da vida. Encontrou o centro de seu prazer e brincou com ele com sua língua até que Sabrina começou a levantar as cadeiras. Quando a penetrou com dois dedos, sua carne o aprisionou, como querendo o absorver. Seus gemidos foram crescendo em intensidade até que atingiu o clímax.
Reese não tirou os olhos dela, maravilhado, e soube que nunca tinha visto nada mais formoso. Seu corpo estava totalmente endurecido de desejo quando a tomou entre seus braços. A trouxe para junto de si, compreendendo que seria capaz de sacrificar qualquer coisa para mantê-la a salvo e feliz.
Ainda que soubesse que nunca seria capaz da querer como deveria o fazer um marido, estava totalmente disposto a se sacrificar por aquela mulher e o bebê que levava dentro.
Capítulo Seis
A Reese não lhe tinha nenhuma graça ter que explicar ao seu chefe que Sabrina já não ia ser artificialmente inseminada. Jeff era um dos poucos homens com que se relacionava aos que considerava seu amigo. Fazia mais de quinze anos que se conheciam. Confessar a um amigo seu erro resultava mais difícil do que teria sido em Los Angeles, quando trabalhava para um homem ao que tão só respeitava.
— Que queres dizer com que está grávida? — perguntou Jeff.
— É algo que acontece.
— Como?
—Que queres dizer com «como»? Estás casado. Vá a sua casa e pergunte a tua mulher de onde saíram vossos filhos.
— Engraçado, Reese. Muito engraçado.
— Não te preocupes. Há outra mulher na clínica disposta a conceder-nos as entrevistas. Foi inseminada no mês passado, e já está grávida.
— Ainda bem. De todos os modos, acho que deveríamos apresentar uma queixa contra a senhorita MacFadden. Aproximaram-se à parte mais delicada do assunto.
— Não, não deveríamos o fazer.
— Por que não? — perguntou Jeff.
— Eu sou o pai do bebê — contestou Reese.
Jeff soltou uma série de maldições. Reese sabia que deveria ter manejado aquele assunto de outro modo, mas a essas alturas já não lhe importava.
— Queres explicar-me?
— Não. Mas reembolsarei à revista qualquer gasto que tenha tido. E de verdade, estás convidado pro casamento.
— Sabes o que estás fazendo?
— Sim — contestou Reese.
Sabia o que estava fazendo: cumprir com seu dever. Ademais, Sabrina afetava-o de um modo que nunca teria esperado, ainda que sempre tivesse sonhado secretamente com que alguma mulher chegasse a fazer.
O telefone tocou e Reese olhou seu relógio. Ia encontrar-se com Sabrina para ir comprar o anel de casamento.
— Tenho que me ir.
— Quero um rascunho do artigo para o fim de semana — disse Jeff, enquanto desligava o telefone.
Reese encontrava-se em frente aos elevadores quando Sabrina saiu de um deles. Estava um pouco pálida, mas também encantadora.
— Pensava que íamos encontrar na joalheria.
— Não podia suportar a espera, e meu chefe sugeriu que me tenha mais tempo para o almoço. Foi tudo bem com teu editor?
Reese sentiu-se comovido pela preocupação de Sabrina, mas sabia que tinha algo mais. Sabrina queria ocupar-se pessoalmente de arranjar as coisas com a revista.
Fez-lhe entrar de novo no elevador e apertou o botão para descer.
— Sim — contestou.
Sabrina brincou nervosamente com alça da bolsa.
— Pensava ir dizer-lhe que tudo tinha sido culpa minha.
Reese compreendeu que ele era o culpado de que estivesse nervosa e assustada. Quando ia deixar de cumprir as predições de seu pai, as palavras que surgiam de sua amarga boca a cada vez que falava por não cumprir suas expectativas?
— Não te preocupes tudo está arranjado — disse, para reconfortá-la. Mas como ia fazer? Não podia lhe dizer que tudo ia bem, porque na realidade não tinha idéia de como ser pai e marido.
— Tem certeza? — perguntou Sabrina, como se tivesse detectado a insegurança de Reese.
— Acabo de dizer, não? — a espetou.
Sabrina afastou-se dele, emocionada. Mas o mais emocionante era o próprio Reese. Até esse momento, nunca tinha perdido o controle, nem sequer um pouco. Tinha dever à situação. Sentia que tinha fracassado em seu trabalho, e isso nunca lhe tinha sucedido.
— Ficará — murmurou.
As portas do elevador abriram-se, mas Sabrina permaneceu quieta.
— Encontras-te bem?
Reese assentiu. Que podia dizer? Tinha perdido o controle. Não lhe tinha acontecido nunca, e não esperava que voltasse a se repetir. Não devia se envolver emocionalmente com aquela mulher. Não podia permitir que traspassasse ainda mais suas barreiras, porque já estava em águas perigosas.
— Vamos comprar os anéis — disse.
— Eu conduzo. Assim não perderás tua vaga no estacionamento. A não ser que isso ofenda teu orgulho masculino.
— Claro que não. Sempre quis um motorista - disse Reese, tratando de aparentar uma despreocupação que estava longe de sentir.
«E agora tu maltratas aos demais?» A pergunta que lhe tinha feito Sabrina nuns dias atrás ressoou em sua mente. Logicamente, não queria ficar com um homem que não soubesse se controlar. Reese sabia por experiência o perigoso que podia resultar isso. Especialmente para um menino. Um menino não entenderia por que os demais tinham um lar seguro enquanto ele vivia num campo de batalha.
O carro de Sabrina tinha-se esquentado debaixo do intenso sol. Tirou a capota e sentou-se depois do volante. Reese duvidou um momento antes de entrar. Sentia que tinha que dizer algo mais, mas não sabia exatamente que. — Entra — disse Sabrina com maciez.
Ele se sentou junto a ela. O aroma de seu perfume rodeou-o, relaxando as emoções que ferviam em seu interior. Ela apoiou uma mão em sua coxa e o olhou.
— Falar-me com dureza não é o mesmo que me maltratar.
—Eu sei — disse Reese, ainda que no fundo não fosse verdade. O maltrato verbal não deixava de ser maltrato. Não devia permitir que Sabrina visse mais debilidades nele.
Ela suspirou e se pôs os óculos de sol.
— Estava sendo molestada.
— Intencionalmente?
— Mais ou menos. Queria ocupar-me pessoalmente de esclarecer as coisas com a revista.
— Disso deve se ocupar um homem...
— Reese, já não há nada do que só possam se ocupar os homens.
— Pois deveria tê-lo.
— Dê-me um exemplo.
«Cuidar de sua colega», pensou Reese. Mas não o disse em voz alta. Enquanto Sabrina punha o carro em marcha e submergia-se no tráfico, ele reconheceu que tinha razão. Nos tempos que corriam mal tinha ocupações específicas para homens e mulheres, mas isso não significava que a sociedade tivesse razão.
Devia ter idéia de que iam mudar muitas coisas em sua vida com aquele casamento. Sabrina comprovou na joalheria que Reese não estava caçoando quando lhe disse que tinha dinheiro. A quantidade que investiu realçou a seriedade de suas intenções para ela.
Depois de pagar, guardou a caixinha num bolso e regressaram ao carro em silêncio.
— Por que não ligas pro teu chefe e lhe pedes que te deixe a tarde livre? —perguntou Reese.
— Não posso. Tenho que terminar de preparar a apresentação de uma campanha dantes das cinco.
— E por que deixou que te fosses tão cedo?
— Estava caminhando como louco de um lado a outro do escritório.
— Para aí. Só será um minuto.
Sabrina deteve o carro perto do parque que dava à baía. Reese saiu e rodeou o veículo para abrir-lhe a porta. Apesar do antiquados que pareciam, gostava daqueles detalhes de cortesia.
Caminharam até um banco. Soprava uma agradável brisa e Sabrina fechou os olhos e voltou o rosto para o sol. Fazia um dia muito agradável.
— Encanta-me o mar — disse Reese, enquanto sentava-se junto a ela no banco—. Sempre gostei.
Sabrina pensou que sabia por que. O anseio pela água sempre tinha sido um símbolo do anseio pelo amor. E se tinha algum homem que vivia no deserto da vida, esse era Reese.
— Eu não sou muito aficionada em água.
— Por que não?
— Não sei nadar. Ao menos, não muito bem. Quase me afoguei quando pequena.
— Eu te ensinarei.
— De acordo — disse Sabrina, ainda que duvidasse que fosse ser capaz de prestar atenção às aulas tendo a Reese perto e vestido tão só com uma sunga.
De repente, Reese clareou a garganta e pôs-se em pé. Sabrina sentiu que o coração se lhe subia à garganta. Brincou nervosa com o anel que sempre usava um presente de seus pais.
—Sabrina... — começou Reese, e olhou para o mar.
—Sim? — disse ela.
Ele se virou para olhá-la. Depois apoiou um joelho em terra e tirou a caixinha do bolso.
— Queres casar-te comigo?
Sabrina sorriu através das lágrimas que assomaram a seus olhos. Ali estava Reese, voltando a ser seu príncipe, ainda que soubesse que negaria se o dissesse. Ali estava fazendo-lhe alegrar-se de tê-lo conhecido e de ter feito amor com ele. Ali estava pondo-lhe as coisas fáceis para que se apaixonasse por dele, apesar de que sabia que seria um erro o fazer.
—Sim — contestou, tratando de que sua voz não delatasse a emoção que sentia.
Ele lhe pôs o anel no dedo e lhe sustentou a mão com força. Fazia-lhe sentir-se a salvo de um modo que Sabrina nunca tinha experimentado até então.
Esperava ser capaz de oferecer-lhe a ele a mesma segurança.
Depois de beijar-lhe a mão com antiquado galanteio, Reese levantou-se e puxou ela com maciez para tomá-la entre seus braços. A beijou com ternura no rosto, nas pálpebras e nas bochechas. Depois buscou seus lábios, e ela bebeu deles como uma mulher sedenta. O beijo voltou-se mais carnal quando Reese penetrou em sua boca com a língua, e Sabrina encostou-se a ele, o desejando mais do que acreditava ser possível.
Finalmente, ele se separou e a olhou aos olhos.
— Obrigada — disse Sabrina.
— Não, obrigado a ti por me dar à honra de aceitar te casar comigo. Tratarei de estar à altura de tua confiança.
— Eu farei o mesmo — contestou Sabrina, e soube que devia pôr Reese a par de alguns detalhes de seu passado. E devia fazê-lo logo, antes que a verdade que guardava em seu coração se virasse em uma mentira por omissão. No lugar da típica despedida de solteiros, Sabrina e Reese organizaram uma reunião com seus amigos na noite anterior ao casamento. Reese parecia mais relaxado que nunca, e sorria com facilidade. Sabrina tinha sugerido um casamento ao ar livre, coisa que ele gostou. Disse que só ao ar livre se sentia realmente cômodo e livre. Mas a igreja não tinha por costume celebrar cerimônias ao ar livre, de maneira que iam casar numa pequena capela.
Sabrina queria que Reese se sentisse feliz com aquele casamento. Às vezes, quando estavam juntos, sentia que ele se retraía. Esperava que o casamento lhes servisse para salvar aquela distância.
Tinha planejado um casamento bonito e elegante, mas não ostentosa. Afinal de contas, era a segunda vez que se casava. Rogava pára que aquele casamento fosse um sucesso, não como lhe sucedeu com Scott. Devia falar com Reese sobre aquele casamento antes que fosse muito tarde. Se esperasse demais para falar-lhe de sua primeira gravidez, Reese poderia pensar que o tinha traído. Não era fácil ganhar sua confiança. Duvidada que alguma vez fosse confiar plenamente em outra pessoa, mas queria que confiasse nela. Se não por ela mesma, por seu filho.
A casa estava cheia de colegas de trabalho de Reese e das pessoas mais próximas a Sabrina. Sua melhor amiga, Kayla, e seu marido, Larry, eram os anfitriões. Sabrina observou seu futuro marido, que falava com um dos convidados. Parecia sentir-se realmente cômodo com seu amigo, e perguntou-se se alguma vez chegaria a sentir-se tão cômodo com ela. Não esperava que se convertessem em amigos de alma, mas invejava a comodidade com que Reese parecia se relacionar com outros.
— Que fazes escondida num canto? — perguntou Kayla, falando pelo canto da boca.
Era sua imitação de um espião falando dissimuladamente. No passado tinham interpretado aquela cena várias vezes. Sabrina sentiu um eflúvio de gratidão por sua melhor amiga.
— Não me estou escondendo, Bond — disse, contestando do mesmo modo.
— Gosto de Reese — disse Kayla.
Sabrina fez uma careta.
—Acho que vou sofrer um ataque de nervos.
—Todas as noivas sentem apreensão no dia de seu casamento.
Sabrina compreendeu que sabia muito pouco de casamentos. Aos dezoito anos, quando se casou pela primeira vez, deixou todos os detalhes nas mãos de sua mãe. Mas nesta ocasião não tinha sido assim, e sabia que tinha bem mais em jogo. E tinha mais que perder se as coisas não saíam bem. Reese já significava mais para ela do que nunca significou Scott.
— Não sentia apreensão quando me casei com Scott.
— Isso deveria te reconfortar — disse Kayla em tom irônico.
Nunca gostou do marido de Sabrina, e o considerava um egocêntrico. Ao final resultou que tinha razão.
— Espero não estar cometendo um novo erro — murmurou Sabrina.
— Reese é dez vezes mais homem que Scott.
— Sim, tens razão.
— E agora, me acompanha - disse Kayla, piscando um olho a sua amiga —. Será melhor que vamos salvar Reese dantes de que Larry o espante.
Sabrina observou aos homens enquanto seguia a Kayla. Reese era mais alto que Larry, e, a seus olhos, mais atraente. Quando se aproximaram, Reese lhe passou um braço pela cintura, fazendo que desaparecessem parte de seus temores.
Que pensaria Reese quando a visse no dia seguinte? Seria algo mágico que transformasse seu sentido de dever em amor?
«Não trates de transformar a situação em algo que não é», se disse Sabrina.
«Reese não pode te amar. E tu não precisas amor».
Mas seu coração protestou. Um amante tão terno como Reese devia poder apaixonar-se, inclusive amar. Mas estava disposta ela a pôr em jogo seu coração?
Larry e Kayla afastaram-se para falar com uns amigos e Reese conduziu a Sabrina a um canto.
— Gosto de teus amigos — disse.
— Eles também gostam de ti.
Reese sorriu.
— Como te sentes esta noite?
— Bem — contestou Sabrina.
Reese tinha-se mostrado muito preocupado essa manhã, quando tinha passado a ver suas primeiras náuseas matinais.
— Não há dúvida de que tens um aspecto maravilhoso — disse ele, com um sorriso malandro.
Sabrina pensou que estava debochando, mas captou um brilho em seus olhos que lhe fez ver que não era assim. Reese inclinou-se pára beijar-la e deslizou a ponta da língua por seu lábio inferior. Quando, por causa da surpresa, ela deu um gritinho afogado, ele aproveitou para deslizar a língua dentro de sua boca.
Sabia que uísque com soda e algo mais primário que Sabrina só associava com ele.
Abraçada a ele na penumbra, sentindo a solidez e o calor de seu corpo, compreendeu que estava comprometida com aquele homem. E comprometida a conseguir que sua vida em comum fosse um sucesso.
— Humm, muito bom — murmurou Reese—. Deixa que volte a saborear-te.
— A sala está cheia de convidados — protestou Sabrina, sem convicção.
— Estamos comprometidos. Estou seguro de que entenderão — disse Reese, e se inclinou para beijar-lhe o pescoço. Um estremecimento de desejo percorreu o corpo de Sabrina, acumulando-se entre suas coxas. Uma nova excitação percorreu suas veias. Compreendeu que aquele homem era seu amigo a muitos níveis.
Iam fazer um bom casal. Reese colocou-se bem ao lado do padrinho e meteu as mãos nos bolsos.
Olhou seu relógio e comprovou que mal faltava meia hora para a cerimônia.
— Nervoso? — perguntou Jeff.
— Eu?
— Sim, homem, tu.
Reese encolheu os ombros. Por natureza, não era uma pessoa nervosa, de maneira que se negava a classificar suas sensações de nervos. Tinha descido uma geleira fazendo rapel em pleno inverno e tinha sobrevivido. Casar-se não era nada comparado com aquilo.
— Nunca estive mais assustado do que quando Stella e eu nos casamos - disse Jeff.
Reese queria ignorar seu amigo, mas sabia exatamente o que pretendia.
— Quando se passou?
— Quando a vi caminhando pelo corredor da igreja do braço de seu pai. Seu rosto alumiou-se como se acabasse de ver algo precioso e único, e nesse momento soube que tinha tomado à decisão correta.
Sabrina não tinha um pai que pudesse a entregar, de maneira que ia caminhar sozinha pelo corredor. Os dois estavam sozinhos no mundo, pensou Reese.
— É sério?
Jeff deu-lhe um amistoso soco no ombro.
— É sério.
O ministro que ia a oficializar a cerimônia entrou nesse momento, salvando a Reese de ter que fazer um comentário. Não podia imaginar uma expressão no rosto de Sabrina que pudesse supor uma diferença fundamental para ele.
Sabia que seus temores tinham suas raízes em sua infância e em seu passado, e seus compromissos com as mulheres nunca tinham durado mais de dois meses.
Que estava fazendo? Estava a ponto de comprometer-se para toda a vida com uma mulher à que conhecia fazia menos de dois meses. Tinham feito um filho juntos. Tinham forjado um laço que nenhum dos dois esperava.
— Está preparado, filho? — perguntou o ministro.
«Não», pensou Reese, ainda assim assentiu. Nuns minutos, Sabrina seria sua esposa.
Sua esposa. A pessoa suave e feminina que ajudaria a converter uma casa fria num cálido lar. A pessoa doce e carinhosa que numa fria noite tomaria ao seu bebê nos braços e o aconchegaria contra seu peito.
Por muito que quisesse achar que Sabrina não ia ser a resposta a seus sonhos secretos, não estava seguro. Como podia a proteger sem fazer dano a si mesmo?
A resposta estava em limitar o tempo que passasse com ela. Em limitar suas relações sexuais. Acima de tudo, isso era o que o tinha mantido em pé ao longo daquelas semanas de compromisso. Por natureza, ele não era um homem célebre. Mas tinha querido provar seu autocontrole e tinha-o conseguido.
Sabia que quando a gravidez de Sabrina se fosse fazendo mais evidente seu sentido de posse cresceria, bem como seu instinto pela reclamar sua do modo mais elementar. Já sentia o impulso de fazer, e nem sequer estavam casados.
Ocupou seu lugar ao final do corredor da pequena igreja, esperando a chegada de sua noiva.
Sua noiva.
Aquelas duas palavras ressoaram em sua mente como a promessa de que um banho gelado o teria feito em um menino pequeno. Mas ele já não era um menino. Era um homem que sabia que, às vezes, o que um esperava resultava ser uma grande decepção. Sabia que alguns desejos podiam o deixar exposto à maior dor de sua vida. Sabia que fazia tempo que tinha esquecido como ter esperança.
E sabia que era demasiado velho para reaprender as lições que lhe tinha ensinado a vida.
A música começou a soar e o desfile começou. Jeff deu um dissimulado empurrão em Reese para que olhasse para o final do corredor. Reese buscou Sabrina com os olhos e a localizou com seu vestido cor creme depois do da dama de honra, mais singelo e de cor azul marinho. Um instante depois surgia dentre as sombras como uma borboleta de um casulo. Radiante e impressionante. Cheia de luz e vida. O coração de Reese encolheu-se e, por um instante, esqueceu respirar.
Sabrina era a luz que precisava fazia tanto tempo na escuridão em que vivia.
Mas sabia que as sombras de seu passado podiam converter facilmente sua luz em escuridão. Tentar uma vida melhor para seu bebê era uma nobre causa à que estava disposto a dedicar sua vida, mas devia ter cuidado para não destroçar a vida daquela doce mulher.
O vestido de cetim de Sabrina era singelo, mas elegante, carecia dos adornos da maioria dos vestidos de noiva. Seu cabelo castanho avermelhado acrescentava o único toque de cor ao conjunto. Quando tomou a mão que lhe oferecia Reese, este notou que a tinha fria, e se perguntou se ela também teria dúvidas.
— Estás bem? — sussurrou junto a seu ouvido.
Ela assentiu e sorriu. Seus olhos azuis cintilaram através do véu. Reese desejou saborear o sorriso de seu rosto. Consumir parte da felicidade que via nele.
—E tu? — perguntou ela.
Reese assentiu.
O ministro começou a cerimônia, e ali, junto a Sabrina, Reese sentiu-se embargado por um sentimento de paz desconhecido para ele. Era o tipo de paz que tinha pensado que nunca chegaria a ter.
Sabrina e ele eram dois desconhecidos que tinham estado sozinhos no mundo e que se estavam unindo para se converter em três. Para criar uma família. Reese tratou de deixar que a felicidade do momento penetrasse em sua alma, mas parte de si mesmo sabia que nem todas as famílias eram felizes. Nem todas as mães e pais permaneciam casados. Às vezes, as mães desapareciam num momento de descuido. E às vezes, os inocentes eram os que mais sofriam.
Capítulo Sete
As emoções que tinham embargado a Sabrina durante a cerimônia e a recepção a abandonaram enquanto contemplava o luxuoso banheiro da suíte.
A elegância e opulência do hotel a encantaram, ainda que não tanto como dar-se conta de que seu marido se desenvolvia com total soltura naquele mundo.
Quase todas as pessoas que Sabrina conhecia viviam ao dia. Que tivesse pessoas no mundo que não o fizessem era uma anomalia.
Um telefonema à porta do banheiro fez-lhe sair de suas tristes comparações.
— Pensas sair esta noite? — perguntou Reese.
Sua voz, ainda que amortecida pela pesada porta de carvalho, fez que Sabrina se estremecesse de antecipação. Gostava que lhe fizesse se sentir como se fosse da única mulher do mundo para ele.
— Em seguida saio.
— Pedi uma garrafa de Dom Pérignon ao serviço de quarto.
— Estou grávida.
— Eu sei. Mas um golinho não te fará mal.
Quem sabia? Sabrina não estava disposta a correr nenhum risco. Animada por seu primeiro marido, correu um risco calculado em sua primeira gravidez, e a coisa acabou mau.
Se aquele casamento tinha alguma opção de sobreviver, dependia em grande parte do bebê que levava dentro. O bebê pelo que tinha sacrificado tanto. Mais do que nunca teria imaginado que chegaria a sacrificar. Devia confessar a
Reese essa mesma noite o sucedido em sua primeira gravidez, mas sentia-se muito covarde.
Queria desfrutar de sua noite de núpcias com ele, e sabia que as confissões desagradáveis estragariam tudo. Queria que sua primeira noite como marido e mulher fosse linda. Não era o momento adequado para falar de seus defeitos.
Mais adiante, quando fossem amigos, talvez encontrasse o momento necessário para falar com ele.
— Vamos, carinho.
A voz de Reese soava terna e doce, mas Sabrina não sabia se ia sair alguma vez do banheiro. Ainda que a mulher que refletia o espelho parecia muito sexy e sofisticada, ela se sentia como uma menina boba. Como uma mulher normal e certa de que não tinha direito a estar naquela elegante suíte, que não tinha direito a estar ali com Howard Reese.
— Se não sais tu, entro eu.
Sabrina suspirou e alongou uma mão para o trinco da porta. Mas deteve-se, dando-se conta de repente do motivo de sua timidez. Estava-se escondendo.
Mas não de Reese, nem de seu dinheiro e sofisticação, senão de si mesma.
Essa noite sentia-se muito vulnerável.
O trinco girou lentamente e Reese entrou ao banheiro. Estava muito atraente na penumbra reinante, vestido tão só com uns gastos jeans, desabotoados, mas com o zíper fechado.
Sentou-se junto a Sabrina na banheira. Inconscientemente, ela se inclinou para frente, desejando se liberar do ônus de seu segredo e a compartilhar com ele.
Quando Reese soubesse, poderia compartilhar o peso de seu passado. Tinha coisas que devia lhe dizer. Coisas das que ele se inteiraria antes ou depois, como de suas irresponsabilidades nos anos de adolescente. E do grande erro que cometeu aos dezenove anos.
— Sinto muito — disse, com maciez.
Não tinha mais que dizer. Sua confissão teria que esperar. Não podia lhe dizer essa noite. Não após a agitação dia que tinham tido. Antes de iniciar-se a cerimônia, teria apostado sua Mustang que Reese daria para trás no último minuto. Mas não o tinha feito. Nada teria podido significar mais para ela que a expressão de seu rosto enquanto avançava para ele pelo corredor.
— Por?
— Por esconder-me.
— Não se casa todos os dias — disse Reese.
— Já estive casada antes — Sabrina queria se liberar ao menos parcialmente, e Reese aceitaria com mais facilidade certas verdades se sabia que tinha estado casada.
— Eu sei — contestou ele.
Sabrina olhou-o, confusa.
— Como?
— Disseste-me em nossa primeira entrevista — Reese passou um braço pelos ombros de Sabrina e atraiu-a para si. Junto a ele, sentindo seu calor, ela se sentiu como no céu.
— Tu já esteve casado alguma vez?
— Não.
— Por que não? — perguntou Sabrina, sabendo que estava ganhando tempo, mas sinceramente interessada em averiguar mais coisas sobre Reese.
— Tal e como me criei, nunca me pareceu boa idéia.
— As coisas foram tão ruins?
— Já viste as cicatrizes de minhas costas.
— Sim — Sabrina alongou uma mão para acariciá-lo. Parecia sólido e invencível. Abaixo seus dedos. Agora sabia por que. Tinha tido que ser muito forte para sobreviver. De repente, sentiu-se muito agradecida por seu maltratado marido guerreiro.
Era o tipo de homem que lutaria até morte por ela e por seu filho. Os protegeria ainda a custa de sua própria vida. Isso era algo que seu ex-marido nunca teria feito.
—Estou pronta para deixar de esconder-me — disse, com voz ligeiramente rouca.
— Bem — Reese se levantou e a pegou nos braços.
Sabrina sempre se tinha perguntado como teria se sentido Scarlett quando Rhett a tomou nos braços e subiu com ela as escadas, e agora sabia. Sentia-se como uma princesa cujo príncipe acabasse de acordá-la. Reese não era um romântico, mas estava solteiro tempo suficiente como pára ter adquirido certos conhecimentos úteis sobre como seduzir a uma mulher.
Parecia-lhe um pouco frio utilizar seus conhecimentos com Sabrina, mas queria que recordasse sua noite de núpcias durante toda sua vida. Tinha acendido velas por todo o quarto, tinha espalhado pétalas de rosa pela cama, e inclusive tinha sacado seu velho volume de poemas de Lorde Byron.
Mas quando olhou o rosto em forma de coração de Sabrina e viu seus sonhadores olhos se sentiu incapaz de ser frio e calculado. Deixou-a no centro da cama e colocou umas almofadas ao redor dela. Depois serviu champanhe em duas taças, enchendo a de Sabrina com um dedo. Sabia que as mulheres grávidas não deviam beber, mas um golinho não lhe faria mal.
— Um brinde por nosso casamento — disse, batendo a taça.
— Pela vida, o amor e a felicidade — disse Sabrina, levantando-a.
Reese não podia brindar por isso. Não acreditava no amor, e não queria que Sabrina acreditasse. Era perigoso acreditar em coisas que não podiam se fazer realidade.
— Por uma longa vida e pela felicidade — disse, brindando com ela.
O brilho do olhar de Sabrina diminuiu enquanto dava um gole em sua bebida.
Depois, Reese tirou-lhe a taça da mão e deixou-a na mesinha. Depois se levantou para contemplar a sua esposa. Para contemplar à mulher que tinha feito sua em frente a Deus e os homens. A mulher que a partir daquele dia lhe seria fiel.
Desejava-a. Sentia as calças incomodas, e as mãos tremiam-lhe com a lembrança de sua acetinada pele. Queria arrancar-lhe a curta e sexy camisola que tinha posto para tentá-lo, nada podia o tentar mais que seu corpo nu.
Alongou uma mão para uma das finas aças da camisola e puxou para baixo, liberando um dos seios de Sabrina. Inclinou-se, acariciou-lhe o mamilo com um dedo e sentiu como mudava seu corpo, se preparando para ele.
Almejava a libertação que podia encontrar em seu corpo como em outra época almejou a normalidade e a decência. Sabrina estremeceu-se sobre a cama.
— Gostas disso?
Ela se mordeu o lábio e assentiu.
— Fui um bom garoto e esperei como me pediste — disse Reese, mais para si mesmo que para ela.
— Então vêem reclamar tua recompensa — replicou Sabrina, surpreendendo a Reese com sua franqueza.
Viu seu olhar aprovador deslizando-se para baixo de seu corpo. Desejou que suas mãos seguissem o mesmo caminho. Sentia que o zíper de sua calça estava a ponto de explodir.
— É minha perdição, mulher.
— Bem — disse Sabrina, rindo sensualmente.
— Dispa-se para mim. Deixa-me saber que desta vez não vai ter sedução por minha parte.
— Sim — contestou Sabrina.
Levantou-se, tirou a camisola por cima da cabeça e deixou-a cair aos pés de Reese. Depois se deitou sobre os lençóis de cor creme, com o corpo acendido de desejo e o cabelo espalhado em torno de sua cabeça.
Reese tirou rapidamente suas calças e avançou para ela. Sabrina olhou-o sem nenhum recato, e quando o teve a seu alcance estendeu uma mão e o tocou.
Foi uma caricia suave, como uma borboleta se posando numa flor, sem mal alterar a beleza das pétalas. Reese sentiu a vida fluindo poderosa em seu interior.
— És tão lindo — disse Sabrina com maciez.
Sentou-se e inclinou-se para frente para tomar entre seus lábios a palpitante excitação de Reese. Ele quis enterrar os dedos em seu cabelo e retê-la contra si. Mas antes de perder o controle queria dar-lhe o mesmo prazer que ela lhe estava dando. Com grande delicadeza, voltou a deitá-la sobre as almofadas.
Sabrina dedicou-lhe um olhar que teria feito perder o domínio a qualquer outro homem. Mas essa noite Reese queria controlar a situação.
Emoldurou-lhe o rosto com as mãos e depois as deslizou para baixo por seu corpo. Depois de acariciar-lhe os eretos mamilos, inclinou-se para beijar-los e suga-los. Continuou até que Sabrina começou a gemer e a mover a cintura.
Então deslizou os lábios até o ninho de caracóis que ocultavam seus segredos mais femininos.
Impaciente, Sabrina moveu as pernas sobre os lençóis.
Reese brincou acariciando-a em círculos com a língua, evitando intencionalmente o ponto que sabia que ela mais desejava que a tocasse.
— Reese... — sussurrou Sabrina.
— Sim?
— Por favor...
Reese entreabriu sua suave carne e sentiu o calor de suas boas-vindas.
Sentiu-se como se finalmente se achasse frente às portas do céu, e a acariciou até que seus gemidos se transformaram quase em gritos.
— Agora, Reese, agora...
Reese deslizou-se sobre ela, guiando seu corpo para o lugar que tanto almejava conquistar.
Como a desejava! Sabrina sorriu-lhe com extraordinária doçura enquanto penetrava-a. Conseguindo manter o controle a duras penas, Reese deslizou uma mão entre seus corpos para acariciar o centro de sua paixão. E enquanto Sabrina se convulsionava em torno de sua carne e tremia entre seus braços, deixou-se ir.
Caindo desde uma altura que nunca tinha conhecido, Reese se perguntou como ia proteger os muros que devia manter em seu lugar. Não ia poder se manter fisicamente distanciado de Sabrina. Teria que se distanciar emocionalmente. A Dave Matthews Band soava de fundo enquanto Sabrina colocava outra caixa com seus pertences na casa de Reese. Tinha gostado comprovar que compartilhavam gostos musicais, mas ainda tinha aspectos que seu novo marido era um desconhecido.
Sua casa era uma vasta propriedade instalada em Mount Tam que se via a baía de San Francisco. Tinham passado três semanas desde a noite de núpcias, quando Reese incendiou seu corpo e sua alma para depois se retirar com toda a delicadeza de um homem acostumado a se ocultar.
A parte irracional de Sabrina sabia que não estava fazendo outra coisa que o que disse que faria quando falaram de seu casamento, mas a sua parte racional não gostava nada aquele distanciamento.
Nesse dia estava terminando de levar suas coisas à casa de Reese. Ele tinha sugerido que vivessem no barco, mas ela tinha negado. Queria poder mover-se a seu gosto, e estava certa de que Reese teria acabado por retirar a sugestão.
Se queria distância entre eles, o barco não era o melhor lugar para conseguir.
— Onde queres que deixe esta caixa? — perguntou Reese.
Sabrina olhou-o. Só estava usando uma bermuda. O suor brilhava em seu peito, e desejou esticar uma mão e tocá-lo, capturar sua essência num dedo e saborear-lo.
— Não sei. Tem alguma etiqueta?
— Não.
— Nesse caso, deixe por aí e a abrirei mais tarde.
— A deixarei no quarto livre. Assim não atrapalhará se estiver muito cansada e quiseres esperar até manhã para abrir.
— Obrigada.
Reese sempre se mostrava muito solícito quando pensava que Sabrina podia estar sentindo os efeitos de sua gravidez. E assim era. A ideia de ter um filho e sustentá-lo entre seus braços parecia muito atraente, mas o parto em si a assustava. Também temia fazer algo errado e perder o bebê.
Fisicamente, sentia-se cansada e notava a pele tensa. E também lhe pesava muito a pressão de não ter confessado seu passado. Ademais, sentia-se muito velha para ter seu primeiro bebê. Sabia que muitas mulheres esperavam até passar os trinta anos para ter filhos, mas isso não a ajudava.
Sentia-se velha, cansada e gorda, e quando Reese a olhava tratava de ocultar seus sentimentos, mas sabia que não conseguia. Seu chefe disse-lhe uma vez que sua expressão sempre a delatava. E apesar do muito que se esforçava por ocultar suas emoções, nunca conseguia.
— Deixa que eu me ocupe de subir essas caixas — disse Reese —. Por que não vais ao pátio e descansa um pouco? Enquanto empilho as caixas preparo-te uma limonada. — Não tens por que me cuidar tanto, Reese.
Ele encolheu de ombros.
— Não faço.
Sabrina sorriu-lhe com doçura, porque sabia que não gostava dos suaves sentimentos que acordava nele. A princípio achou que a única coisa que sentia por ela era desejo, mas cada vez era mais evidente que sentia outras coisas e que tratava de oculta-las.
— É um homem muito doce, Reese Howard.
— Não acho que tenha um só osso doce em todo meu corpo, Sabrina.
Uma das coisas que combinamos antes de nos casar foi que cuidaria de ti.
Sabrina não recordava aquele acordo em concreto, mas se sentia lisongeada pelas atenções de Reese.
— Ademais — acrescentou ele, sorrindo travessamente—, já sabes que discutir comigo é uma luta perdida.
— Nesse caso — replicou Sabrina—, esperarei que estejas dormido para me vingar.
Reese dedicou-lhe um olhar muito sugestivo, e Sabrina notou que seus mamilos se endureciam.
— A esperança é a última que morre — disse Reese.
Sabrina riu enquanto ele subia as escadas com a caixa. O amor que sentia por ele aumentava quando a ajudava a superar os maus momentos. Não tinha por que o fazer. Reese poderia ter deixado à caixa na parte de cima e ter ido embora, mas não o tinha feito.
Seu coração aliviou-se com a esperança de que estivesse começando a se apaixonar por ela. Ainda que Reese tivesse-lhe dito que não era capaz de amar, ela sabia que todo ser humano podia ser.
Como sua esposa, era seu dever lhe ensinar a amar e a ser amado, e compensar pelos duros dias sem afeto de seu passado.
Reese desceu as escadas de dois em dois degraus.
— Que fazes ainda aqui dentro? Até os trabalhadores têm um descanso durante a jornada.
Sabrina sorriu e deixou que a guiasse até o banco do pátio. A baía de San Francisco estendia-se frente a eles como uma maravilhosa paisagem pintada por um grande artista. — Limonada? — perguntou Reese.
— Num minuto — contestou Sabrina, pegando sua mão. Reese olhou-a com gesto interrogante ao mesmo tempo em que lhe acariciava os nódulos com o polegar—. Tens uma casa muito bonita.
— Obrigado. Ficará ainda mais bonita quando colocar as tuas coisas. Têm algumas muito interessantes.
— Quase nenhuma vale nada.
— Eu acho que algumas são autênticos tesouros.
— Nada do que tenho vale mais de cinqüenta dólares.
— Mas alguns desses objetos estão carregados de lembranças. Como as bonecas que teceu tua avó, ou as xícaras de café que fez tua mãe. Nenhuma de minhas coisas tem história
Sabrina quis dizer-lhe que comprariam coisas juntos e criariam uma história para elas. A história de Reese e Sabrina. Mas, no fundo de seu coração, essa história dava-lhe um verdadeiro medo. Reese fazia-lhe sentir mais do que tinha sentido algum dia.
Reese passou-lhe um braço pelos ombros e permaneceram uns minutos em silêncio, contemplando a paisagem. Sabrina tinha se sentido comovida pelo que tinha dito sobre seus pertences. E ainda que soubesse que ele preferia que achasse que era um homem interiormente frio, também sabia que não era. Sem dar-se conta, tinha-lhe feito vislumbrar os anseios de sua alma. E ela queria fazer transbordar esses anseios.
— Esta pronta para a limonada?
— Sim, por favor.
Reese voltou a entrar e Sabrina permaneceu sentada, em silêncio, deixando que sua nova casa e sua nova situação se acomodassem em torno dela. Tinha tomado à decisão correta? Amava a Reese para o bom e para o ruim, e tinha que estar com ele. E se, ademais, conseguia convencê-lo de que se merecia seu amor, se sentiria no paraíso.
Capítulo Oito
Três semanas depois, Reese ainda se sentia como um novato. Nunca em sua vida se tinha visto rodeado de tantas comodidades. E isso lhe fazia se sentir inquieto e agitado. Odiava a maciez que Sabrina estava contribuindo a sua dura e solitária vida, e ao mesmo tempo a ansiava mais que seu seguinte fôlego.
Quando chegava a casa do trabalho encontrava a comida na mesa, o jornal junto a sua cadeira favorita e uma muda de roupa cômoda na cama. Cheiro de orégano invadia o ar enquanto uma doce voz feminina cantava totalmente desafinada.
O muro que pretendia manter levantado em torno de seu coração se tombou.
Ninguém nunca tinha se preocupado com ele o suficiente para se incomodar de lhe preparar a comida. As velhas feridas de suas costas coçavam-lhe.
Quase podia sentir seu pai golpeando-o com o cinto, dizendo-lhe que era muito preguiçoso para conseguir algo na vida.
Mas Reese tinha tido sucesso apesar de sua educação, e apesar da morte de seu pai quando tinha dezesseis anos. Poupou tudo o que pôde e investiu minuciosamente para demonstrar que seu pai estava equivocado. E tinha provado. Mas aquilo com Sabrina... Uma parte de si mesmo achava que seu pai tinha razão. Talvez não se merecesse uma mulher como ela.
Ainda que muitas das coisas que Sabrina fazia por ele eram agradáveis e um pouco antiquadas, gostava. No fundo, sabia que ele mesmo era um homem bastante antiquado. Odiava a mudança. E aquela mudança era difícil de assimilar. Mais do que pensava quando pressionou a Sabrina para que se casassem.
Os mesmos instintos de proteção e posse que o empurraram a fazer sua a Sabrina e a ter baixo seu teto o impulsionavam agora a afastá-la de seu lado.
Mas a cada noite voltava-se para ela, a cada noite precisava seu suave corpo feminino para acalmar a frieza de sua alma. Precisava-a bem mais do que nunca teria desejado.
Parte de seu problema residia em que o afeto de Sabrina por ele era tão óbvio que sentia que se morria por dentro. Pela primeira vez em muitos anos sentia que não controlava a situação, e isso lhe preocupava. Não confiava em suas emoções nem na faísca de anseio que sentia.
O passado tinha-lhe ensinado que a segurança residia em não desejar coisas.
Numa ocasião, seu pai tirou-lhe todos os brinquedos e os queimou para lhe demonstrar que não possuía nada. Com o tempo tinha chegado a aceitar que a vida oferecia muito pouco a Reese Howard a modo de consolo.
Deixou sua carteira no estudo e foi a até sua esposa. Tinha chegado o momento de alçar algumas das barreiras que lembraram quando se casaram.
Odiava ter que se mostrar duro, mas uma olhada ao espelho do vestíbulo lhe confirmou que esse era o papel que estava destinado a interpretar.
Era um homem duro que tinha levado uma vida ainda mais dura. O destino deveria ter cuidado melhor de Sabrina MacFadden. Deveria tê-la guiado para um homem melhor. Um homem mais suave e mais adequado para ser seu companheiro, no lugar do sombrio solitário que a buscava como as criaturas da noite buscavam a luz do dia.
— Sabrina? — chamou.
— Aqui — contestou ela.
Encontrou-a na cozinha, cantando ao som de um disco de Dave Matthews. Ao ver como balançava as cadeiras enquanto cortava umas cenouras, Reese ficou petrificado na soleira da porta.
Um profundo sentimento de desespero apoderou-se dele. Aquilo era o que sempre tinha querido. A mulher que sempre tinha almejado ter. E não podia lhe permitir. Tinha que voltar atrás.
«Fale», ordenou-se, e descobriu que não podia. Era como ter provado o céu e saber que estava destinado ao inferno. Queria tomar o que se lhe oferecia e esquecer as conseqüências. Mas Sabrina não merecia pagar por uma situação que não tinha criado.
— Espero que tenhas fome — disse ela, se virando.
Seu rosto brilhava de alegria, e ainda que parecesse um pouco cansada, resplandecia por dentro.
Seu ventre estava ligeiramente maior, e Reese sabia que tinha começado a usar o botão da calça desabotoado por comodidade. Sentiu o impulso de apagar o fogo e fazer-lhe amor ali mesmo, em cima da mesa da cozinha.
Desejava-a tanto que temia explodir e não deixar nada no seu lugar, como o conde Drácula, cuja natureza lhe exigia se alimentar da mulher que tinha amado durante toda a eternidade.
Lamentando o que devia fazer, mas sabendo que não tinha alternativa, entrou na cozinha.
— Comi antes de vir. Vou reunir-me com uns amigos para jogar uma partida de voleibol.
— Oh — disse Sabrina, e virou-se de novo para a pia da cozinha.
Seu pálido rosto refletia-se com clareza na pequena janela que se via o pátio.
Parecia perdida, frágil e sozinha. Reese teria apostado seu barco que estava chorando. Parecia como ele se sentia por dentro. Como tinha se sentido anos antes. Esse era o motivo pelo qual nunca tinha permanecido muito tempo com a mesma mulher. Sempre lhes fazia mal. E sempre acabavam o abandonando. Ao perceber o tremor dos ombros de Sabrina quis aproximar-se a ela para estreitá-la entre seus braços e lhe dizer que ele evitaria que sofresse. Mas sabia que não devia fazer.
— Esqueci de avisar — disse.
Desculpa idiota, e não serviu para lhe fazer se sentir melhor. Deveria ter mantido a boca fechada. Deveria dizer-lhe a verdade e permanecer ali, no lar que ela tinha criado a partir de sua casa vazia. Mas, por algum motivo, foi incapaz de fazê-lo.
— Estamos treinando para o torneio de Santa Cruz, que se celebra em julho.
— Não te preocupes. Preparei lasanha e podemos esquentá-la para comer outra noite.
Sabrina parecia mais calma. Reese teria querido que se voltasse o olhar.
Queria ver seus preciosos olhos azuis para averiguar o que estava pensando.
— Ótimo — disse, ainda que não sentisse nada parecido.
Só saber que qualquer indicio de fôlego naqueles momentos faria que Sabrina sofresse dez vezes depois, lhe deu a força necessária para sair da cozinha.
Ouviu que o seguia pelo corredor, mas não teve coragem para se voltar.
Na realidade não queria ver seus olhos, porque temia ver refletido neles a dor que tinha percebido em sua voz. Sentiu que o observava enquanto se ia. E soube que era um estúpido por se ir tendo ali tudo o que qualquer homem em seu juízo teria desejado.
—Vemos-nos depois — disse, acima do ombro, sem olhar para trás.
Tinha certas coisas que um homem nunca deveria ver, e uma delas era as lágrimas de sua esposa. O silêncio recebeu Sabrina quando entrou na casa. Só eram dez da noite. Se não tivesse visto o carro de Reese na garagem, teria pensado que a casa estava vazia. Sabia que estava ali e temia o ver. Não lhe tinha parecido aborrecido quando a tinha chamado para lhe dizer que essa tarde chegaria tarde e que estava desejando comer o que tivesse preparado.
A raiva que ela tinha ignorado durante as semanas passadas explodiu e lhe disse que essa tarde tinha planos, que chegaria tarde. Ainda que não tivesse nada que Sabrina quisesse mais que passar à tarde com Reese, sabia que não podia se deixar pisotear. Permitia-se que a tratasse sem consideração uma vez, seguiria o fazendo. Sabia que não o fazia com ânsia de dominar, senão para evitar que se apaixonasse por ele. Mas já era muito tarde.
De maneira que tinha passado quatro horas no cinema, vendo dois dos piores filmes produzidos por Hollywood ao longo de sua história.
Ao princípio tinha pensado que o distanciamento com Reese se devia ao temor que ela sentia a lhe falar de seu passado, mas não tinha demorado em compreender que era ele quem a mantinha a distância. E não sabia como superar aquela distância, porque por mais carinho que sentisse por Reese, também devia proteger um pouco a si mesma.
Uma intensa apreensão apoderou-se dela enquanto permanecia no escuro vestíbulo. O arrependimento não estava bem longe. Odiava comportar-se de um modo infantil, mas sabia que lhe faltava muito pouco para saltar.
Deixou a bolsa e as chaves na mesa. O som destas ressoou no silêncio reinante. Perguntou-se se Reese estaria dormindo. Era um pouco cedo para ele, mas suporia um alívio. Inclusive estava disposta a dormir no sofá para não o incomodar.
Um peculiar cheiro chamou inesperadamente sua atenção. Identificou-o como o aroma de um charuto. O azedo cheiro levou-a até o pátio. Seu corpo reconheceu Reese antes de vê-lo. Seu pulso acelerou-se ao ver seus gastos jeans e sua relaxada pose. Com o peito e os pés nus, parecia imune à fresca brisa da noite. Por um instante perguntou-se se era realmente humano. Com freqüência atuava como um andróide carente de sentimentos, ainda que suas cicatrizes lhe tivessem feito compreender que tinha bons motivos para se esconder. Mas estava cansada de que se ocultasse dela.
Uma garrafa de cerveja pendurava de sua mão direita, perto do chão.
Segurava o charuto na esquerda. Sabrina cruzou a ombreira e deteve-se junto a sua cadeira. Sentia-se como se voltasse há ter dezesseis anos. Mas ter dezesseis anos teria sido uma bênção, porque assim teria contado com a esperança da juventude. A vida tinha-lhe ensinado algumas duras lições, e parecia que as aulas ainda não tinham terminado.
De repente, a raiva de apoderou dela. Todas as noites que tinha permanecido sentada e sozinha ante a mesa da cozinha voltaram a sua mente. Reese insistiu para que se casassem, e depois a tinha tratado como se fosse seu carcereiro. Ou pior ainda.
— Te divertiu?
O tom sarcástico de Reese fez que Sabrina se sobressaltasse.
— Sim — contestou, depois de uns minutos de silêncio.
— Com quem saístes?
Sabrina encolheu-se de ombros e avançou até a varanda do pátio. Os olhos de Reese brilhavam na escuridão. Perguntou-se se seria consciente do quão intimidante que podia parecer.
— Com uns amigos.
— Que amigos?
Com cautela, Sabrina ocupou o assento contíguo ao de Reese.
— Amigos do trabalho.
— Podes ser mais específica? — Reese deixou a garrafa sobre a mesa com mais força do que necessário.
— Podes sê-lo tu? — replicou Sabrina.
Se queria briga, ela estava mais que disposta a brigar.
Reese dedicou-lhe um olhar gélido.
— Que significa isso?
— Que achas que significa? És tu que se dedica a jogar voleibol com teus amigos todas as tardes. Quem são?
Sabrina confiava que Reese lhe tivesse dito a verdade, ainda que soubesse que tinha homens capazes de enganar as suas mulheres com total desembaraço. Mas Reese possuía uma integridade essencial que até então não tinha encontrado em nenhuma outra pessoa.
— Se te irritou o que fiz, teria gostado que tivesse me dito.
Sabrina lançou um olhar e inclinou-se para ele. Sabia que contava com sua atenção, e respondeu com a sinceridade que queria que tivesse em seu casamento desde o primeiro momento. Não pensava voltar a perder quatro horas vendo lixo num cinema.
— Não terias gostado.
Reese também se inclinou para ela. Estendeu uma mão e deslizou um dedo por sua bochecha. Sabrina sentiu que seus olhos se enchiam de lágrimas. Reese podia ser tão terno às vezes... Era um homem muito complexo, e não sabia se em algum dia chegaria a conhecê-lo para valer.
— Tens razão. Gosto de conservar meu espaço. Mas isso não significa que goste que tu faças o mesmo.
As emoções de Sabrina agitaram-se em sua cabeça. Seu coração gritava-lhe que tomasse Reese entre seus braços e acalmá-lo com seu amor, mas sua cabeça lhe dizia que protegesse a si mesma.
— Foste tu que disseste que viveríamos vidas separadas.
Reese dedicou-lhe um dos sorrisos mais tristes que tinha visto em sua vida.
— Disse verdade? — perguntou, num tom profundamente melancólico.
— Sim — as lágrimas ardiam nos olhos de Sabrina, e nessa ocasião pensou que podiam se derramar, porque sua emoção aumentou ao ver no olhar de Reese um brilho de afeto que sentia por ela.
— Pois mudei de opinião — disse ele.
— Por quê?
— Talvez porque tenho estado aqui só desde as seis e acho que não poderia voltar a ficar. Talvez porque compreendo o que te tenho estado fazendo noite depois de noite e não está funcionando. Talvez... Porque tenho me apegado a ti.
O coração de Sabrina animou-se um pouco.
— É sério?
— É sério.
Reese esticou as mãos para ela e lhe fez levantar-se para depois senta-la encostada em seu peito. Apoiou a cabeça em seu peito e suspirou.
Sabrina se excitou ao sentir o cálido fôlego de Reese através do tecido de sua blusa. Apoiou as mãos em sua cabeça e reteve-o contra si. Queria oferecer-lhe o consolo de seu corpo. Queria fazer-lhe ver que compreendia o que tinha tentado lhe dizer.
Queria consolar àquele homem que, segundo suas próprias palavras, tinha crescido como um cão de rua. Queria cobri-lo e protegê-lo com seu amor.
Reese esticou uma mão para os botões de sua blusa.
— Não sabes o que me fazes mulher.
Sabrina perguntou-se se seria uma décima parte do que ele fazia a ela. O sol do verão queimava as costas de Reese enquanto esperava a bola. O voleibol de praia era um esporte que desfrutava com paixão. Jeff e ele estavam competindo no troféu Cal King. Olhou para os espectadores e viu Sabrina sentada junto a Mimi, esposa de Jeff. Seus dois filhos, dois meninos loiros que se pareciam com pai, estavam junto a Sabrina.
Sua esposa. Ultimamente queria que o acompanhasse a todas as partes.
Sabrina sorriu-lhe e teve o louco desejo de posar para ela, de flexionar os músculos que tinha modelado ao longo de anos de viver a vida ao máximo. A diferença de outros tipos que jogavam nus da cintura para cima, ele usava uma camiseta. De fato, Sabrina era provavelmente a única pessoa viva que sabia de suas cicatrizes.
Nenhuma de suas amantes prévias tinha sido tão perspicaz como ela, coisa que lhe tinha vindo bem. Mas estava descobrindo que queria mais de Sabrina que o que tinha tido com outras mulheres. Assim tinha sido desde o princípio.
— Deixa de lançar olhadinhas a tua esposa e concentra-te no jogo — disse Jeff.
Reese voltou o olhar justo a tempo de evitar que a bola saísse da quadra, e conseguiu a centrar para que Jeff executasse um arremate perfeito. Depois, sorrindo amplamente, seu amigo levantou as mãos ao ar ao mesmo tempo em que agitava seu traseiro. Tinha sido o ponto ganhador.
Reese invejava a segurança que tinha Jeff em si mesmo. Seu amigo possuía uma veia cômica que ele nunca teria. A vida tinha sido dura para ele. Tanto, que nunca lhe tinha passado pela cabeça a possibilidade de executar uma dança cômica quando marcava um ponto.
Reese e Jeff aplaudiram e estreitaram as mãos de seus oponentes. Sabrina desceu à pista com uma toalha e acompanhada de Mike, o filho maior de Jeff.
— Bom partido — disse.
— Sim, senhor Howard — acrescentou o menino—. Esse último passe foi fantástico.
Reese sorriu para Mike. Nunca tinha se relacionado muito com meninos, e normalmente se mostrava bastante distante com eles, mas Sabrina os adorava. Sempre estava cuidando dos filhos de alguma amiga, ou convidando à família de Jeff para passar o dia. Estava-o obrigando a sair do casco, e não estava certo de que gostava disso.
— Obrigado.
— Não sabia que este jogo podia ser tão intenso — disse Sabrina.
Reese olhou-a atenciosamente, sabendo que queria dizer algo mais, mas sem saber o que.
— Sinto ter me queixado por ter tido que passar algumas tardes sozinha em casa — acrescentou ela, finalmente.
A atenção de Mike foi atraída por um caranguejo ermitão e afastou-se uns passos deles.
Por uma vez, Reese deixou que suas reflexões controlassem a situação e tomou Sabrina entre seus braços.
— Estava usando os treinamentos como desculpa para nos distanciar.
— É sério?
— Sim. Todos os demais jogadores trazem suas noivas e esposas aos treinamentos. Eu...
Inclinou-se para trás e olhou Sabrina, tratando de encontrar as palavras que não sabia como expressar. Estava acostumado a manter as pessoas a risco.
Inclusive aos amigos com que costumava sair após o trabalho. Não sabia como derrubar barreiras, mas queria encontrar um modo de permitir que Sabrina se aproximasse mais. Ainda que não de tudo.
— Posso vir a ver teus treinamentos no futuro? — perguntou ela, lhe evitando ter que expressar o que mostraria com toda clareza sua vulnerabilidade.
— Sim. Seria absurdo seguir negando que me afetas.
Sabrina olhou-o timidamente.
— Afeto-te?
— Sabes que sim — contestou Reese, lhe acariciando o cabelo com os lábios.
— Bem — sussurrou Sabrina —. Onde está Mike? — perguntou de repente, como se acabasse de se dar conta de que o menino se tinha ido.
— Aí — disse Reese.
Tinha um principio de pânico na voz de Sabrina que não compreendeu.
— Vêem aqui, Mike — chamou ela.
Estendeu uma mão para pegar a do menino, como se temesse que algo pudesse lhe passar. Reese pensou que sempre cuidava muito dos meninos pequenos. Quando no fim de semana anterior foram cuidar dos filhos de Kayla e Larry, se comportou do mesmo modo.
Sabrina deveria estar casada com um homem que tivesse sido criado normalmente. Mas naqueles momentos estava-lhe sorrindo, contemplando com os olhos entrecerrados seu corpo suado. Tinha o olhar que costumava iluminar seu rosto quando faziam amor.
Reese sentiu que seu corpo se endurecia repentinamente e se perguntou quanto tempo mais teria que continuar ali antes que pudessem ir embora.
Precisava fazer amor com sua esposa. Tinha estado utilizando o sexo para atá-la a ele. Numas semanas atrás esteve a ponto de perdê-la. Não sabia o que devia fazer para que ficasse, mas quantas mais ataduras encontrasse para retê-la, melhor. Jeff, Mimi e Kyle reuniram-se com eles.
— Vamos celebrá-lo num dos bares da praia — sugeriu Jeff.
Reese passou um braço pelos ombros de Sabrina e seguiu seu amigo a contragosto. Sabia que tinha recebido um presente do destino e queria demonstrar a Sabrina quanto significava para ele que fosse ter um filho seu. Quanto significava que quisesse o ter em casa a cada noite. Quanto significava o carinho que lhe demonstrava.
Capítulo Nove
Reese movia-se pela cozinha como um homem seguro de seus domínios. O ambiente estava carregado de tentadores aromas e, após o dia que tinha tido, Sabrina se alegrou de poder pôr os pés no alto e deixar que Reese a atendesse.
— Que estás preparando? — perguntou depois de dar um gole no suco que Reese lhe tinha oferecido ao chegar.
— Truta frita e vegetais picados. — É um prato pré-cozido?
Sabrina sorriu ao ver o gesto ofendido de Reese.
— Claro que não.
— Sabes cozinhar? — aquela era uma faceta de Reese totalmente desconhecida para ela.
— Claro que si cozinhar. Levo mais de quinze anos vivendo sozinho, e não gosto de comer em restaurantes todos os dias.
— Eu também não. — Sei.
Sabrina sorriu.
— Já que sabes cozinhar, podes combinar-te com o trabalho.
— Por quê?
— Porque eu o odeio. E, ademais, não me dou muito bem.
— Isso não é verdade.
O telefone soou antes que Sabrina pudesse comentar que ele sempre a estava defendendo, inclusive contra si mesma. Reese foi a contestar enquanto ela permanecia sentada. —Sabrina?
— Sim?
— É para ti — disse Reese, lhe estendendo o telefone.
Era Kayla. Queria saber se podia cuidar de seus filhos essa noite. Seu marido tinha saído de viagem e sua cunhada estava de parto.
— Claro que posso cuidar. Traga-os aqui.
— Obrigada, amiga. Devo-te uma. Cuidarei do teu bebê uma noite para que possas sair com Reese.
— De acordo.
Sabrina desligou o telefone e apoiou brevemente uma mão em seu ventre. Estava desejando ter seu bebê. Às vezes desejava-o quase com desespero.
Outras vezes recordava sua primeira gravidez e se preocupava em fazer algo que pudesse pôr em perigo o bebê.
— Kayla precisa que cuide de seus filhos. Importa-te que fiquem pra passar a noite?
— Claro que não.
— Sei que gosta de assistir o Sports Center. Eu me ocuparei de que não te incomodem.
Reese serviu as trutas em dois pratos.
— Gosto de Dee e Rosie, Sabrina. Ademais, não será ruim praticar um pouco.
— Praticar o que?
— Não sei nada sobre como ser pai.
Sabrina pensou no único exemplo que tinha sido seu marido. Não tinha sido bom.
Reese aproximou-se da mesa para deixar os pratos. Quando ia se afastar, Sabrina o pegou pelo braço.
— Acho que vais ser um pai maravilhoso.
Ele não disse nada. Sabrina acreditou notar um brilho de esperança em seu olhar, mas sua expressão não revelou nada.
— Obrigado — disse, e inclinou-se para beijar-la. O telefone tocou quando acabavam de se sentar no sofá para ver o canal Disney.
As filhas de Kayla tinham seis e oito anos e não paravam de fazer perguntas.
Reese se desculpou para atender ao telefone. Sabrina perguntou-se se estaria desejando que fosse um telefonema do trabalho que o obrigasse a sair.
— É para ti — disse Reese do corredor.
Era seu chefe, e Sabrina passou vinte minutos repassando com ele a apresentação que tinha preparado. Ao que parece, essa tarde Raúl tinha causado uma impressão muito favorável a seus superiores, e estes queriam que se ocupasse da apresentação para a companhia que tinha encarregado à publicidade.
Voltou à sala de estar movendo a cabeça. Por mais que avançasse a tecnologia, o mundo dos negócios sempre precisaria das secretárias.
Deteve-se na soleira da porta. Dee e Rosie estavam dormindo sobre o peito de Reese. Este as rodeava protetoramente com seus fortes braços, e Sabrina sentiu que seu coração se derretia. Esse era o homem que queria ver mais com freqüência, o que podia amar ainda que temesse se mostrar.
Tinha uma expressão de dolorosa vulnerabilidade em seu rosto enquanto observava-o. Perguntou-se se estaria pensando em seu bebê. Um bebê com seus olhos escuros e o cabelo encaracolado dela. Talvez uma menina?
Oh, Deus, não podia esperar para ter. Seria seu sonho em realidade e, talvez, a salvação que Reese precisava sem saber.
Clareou a garganta antes de entrar. Reese olhou-a acima do ombro.
— Não sei como aconteceu.
O tipo duro e seguro de si mesmo em qualquer barranco ou beco de uma cidade dobrado por duas meninas pequenas. Sabrina lamentou não ter uma câmera a mão.
Mordeu a língua para não fazer nenhum comentário jocoso. Aquele era um momento importante para Reese, e esperava que desse conta.
— Vou levá-las pra cima — disse.
Depois de meter às meninas na cama, Sabrina reuniu-se com Reese no sofá para ver o canal esportivo. Queria averiguar o que sentia pelas meninas, o que tinha estado pensando enquanto dormiam com as cabecinhas apoiadas sobre sua peito, mas temia o fazer. — Por que não te dedicaste ao esporte profissionalmente? — perguntou.
— Porque não pratiquei nenhum sendo jovem.
— Por que não? É evidente que te encantam.
— Não era um menino saudável.
— Tinhas asma? Kayla tem asma.
— Não, asma não.
— Então, que tinhas? Suponho que nada genético.
Reese manobrou Sabrina para sentá-la em seu colo. Depois começou a massagear-lhe o pescoço. Ela pensou que talvez tentasse evitar o tema.
— E daí diz-me dos típicos esportes de juventude? Teu físico é perfeito para o futebol norte-americano.
Gemeu com maciez quando Reese tocou um ponto especialmente sensível de seu pescoço. A sensação estendeu-se para baixo em ondas, tencionando seus peitos e acumulando-se entre suas pernas.
— Não queria praticar esportes porque sempre tinha hematomas inexplicáveis e ossos rompidos.
Sabrina sentiu que seus olhos se enchiam de lágrimas. Ninguém deveria suportar o que Reese tinha suportado.
— Oh, Reese.
Tratou de voltar-se para beijá-lo e acariciar seu rosto, mas ele a estreitou com força e apoiou seu rosto em seu ombro, lhe impedindo.
Não sabia o que fazer nem como o liberar de seu pesar e, às vezes, falar só servia para piorar as coisas. Depois de uns momentos, Reese voltou a massagear-lhe os ombros.
— Que fizeste hoje? — perguntou.
Sabrina nunca tinha compartilhado com ninguém os detalhes íntimos de sua vida. Mas essa noite queria terminar de falar com seu marido e leva-lo à cama.
Acariciar seu marcado corpo e curá-lo. Perguntou-se o que faria se se despisse ali mesmo e o seduzisse enquanto a televisão continuava ligada.
— Uma apresentação de última hora — contestou —. Raúl tem um problema com os horários — gostava de seu chefe, mas, de vez em quando, ele passava um pouco dos limites.
Reese riu.
— Suponho que não voltará a ter.
— Agora tem outro. A próxima vez não me dará a bata enquanto preparo sua apresentação. Temo que perdi as estribeiras — Sabrina ainda estava assombrada das emoções que tinha sentido quando seu chefe tinha entrado em seu escritório às quatro e meia e lhe tinha dito que precisava de uma apresentação de quarenta slides para as cinco da tarde.
— Não sabia que tinha um gênio complicado — disse Reese com cautela.
— Não tenho. Acho que deve ser coisa da gravidez.
— Pobre Raúl.
— Raúl está perfeito — replicou Sabrina.
— Eu não — sussurrou Reese junto a seu ouvido.
— Por que não? — perguntou ela, o olhando.
— Porque não te estou beijando.
Reese inclinou a cabeça e tomou sua boca. Enquanto a saboreava com seus firmes lábios e com sua língua, Sabrina deslizou uma mão para baixo de seu pescoço.
Reese interrompeu o beijo com várias mordidinhas em seus lábios.
— Suficiente por agora.
Ela sentiu a prova de seu desejo pressionando contra seus glúteos.
— Na verdade não estou vendo a tv.
— Eu também não.
— Então, vamos para cama — sugeriu Sabrina.
— Não. Estou tratando de ser algo mais que teu amante.
«Já és», pensou ela. Mas Reese não estava preparado para ouvir aquilo. Nem ela para dizer.
Encolheu-se contra ele e deixou que seu calor corporal a envolvesse.
Encantava-lhe sentir-se rodeada e protegida por Reese... Amada por ele?
Tinha mudado nele seu afeto, mas contendo uma parte de si mesma. Ainda que soubesse que para que Reese amasse só precisava que lhe demonstrassem amor, não queria se tornar totalmente vulnerável ante ele. Se o fizesse, teria tudo que perder se não fosse correspondida.
— Tudo bom no dia? — perguntou, para distrair-se de seus pensamentos.
— Falei com a mulher da clínica.
— Que mulher?
— A inseminada.
A amargura do tom de voz de Reese surpreendeu a Sabrina.
— Não gostas?
— Pra mim é indiferente.
Sabrina virou-se para olhá-lo. Tinha perdido todo o humor e a sensualidade de alguns minutos atrás.
— Por quê?
— Não acho que as mulheres devam ter filhos por sua conta.
— Eu ia ter.
— Eu sei.
— Pensaste o mesmo de mim?
— Sim.
— E agora?
— Estamos casados. Não vais ter um filho por tua conta.
— E se tivesse decidido não me casar contigo?
— Isso é água passada.
Sabrina levantou-se, sentindo pela segunda vez nesse dia um arrebato de raiva.
— Que sentes por mim?
— Não sei.
Reese também se pôs em pé, e a abraçou com tal força que a raiva de Sabrina se evaporou tão rapidamente como tinha surgido. Estava-a sustentando como se nunca fosse a soltar.
—Não sei — repetiu ele, lhe acariciando as costas—. Mas não quero brigar contigo.
Por enquanto, aquilo foi suficiente para Sabrina. Tinha um bebê sobre a coberta do Time Lapse, chorando. Uma tormenta ameaçava na distância. Enquanto Reese tratava de percorrer a escorregadia coberta sentiu a agulhada do cinto de seu pai nas costas. Tensionou o corpo e ignorou a dor, como costumava fazer no passado. Tinha que chegar até o bebê. Onde estava Sabrina?
Olhou freneticamente a seu arredor e viu a sua esposa inconsciente sobre a coberta. Tinha que a ajudar. O grito de um menino rasgou a noite. Tinha que o salvar...
— Reese?
Aquela suave voz queria afastá-lo do barco, mas ele não queria ir. Tinha que proteger o menino e salvar sua esposa. Avançava para eles quando uma enorme onda varreu a coberta, os arrastando consigo para o mar.
— Reese, acorda.
Reese sentiu que lhe tocavam o ombro. Tinha que salvar ao bebê e a sua esposa.
— Reese...
Lutando para deixar para trás o angustioso sonho, Reese se ergueu bruscamente na cama. Enterrou a cabeça nas mãos e esperou que o pesadelo passasse.
A mão de Sabrina em suas costas suavizou as emoções que se aglomeravam em seu interior, mas se afastou dela. Não queria que o consolasse. Sua mente ainda sentia a agulhada dos golpes de seu pai e a imagem do menino arrastado pela onda.
— Estás bem? — perguntou Sabrina, suavemente.
— Sim — contestou ele, sem a olhar.
Talvez não lhe fosse deixar nunca em paz seu passado? Estaria predestinado a repetir os erros de seu pai? Tinha sido uma advertência aquele sonho? Nunca tinha querido ser pai, mas, devido a sua própria insistência, ia tomar parte ativa na criação de seu filho.
Em que diabo tinha estado pensando?
Tinha que se ir atrás, e rápido. O colchão afundou-se um pouco quando
Sabrina se aproximou dele e o rodeou com os braços pela cintura. Reese esperava que não sentisse as dúvidas que o corroíam. Queria aceitar o consolo de seu doce corpo, mas sabia que seu pesadelo era uma mensagem.
Uma mensagem que não podia ignorar.
Sabrina lhe beijou as costas. Ele teve que fazer um esforço titânico para não a tomar em seus braços. Não podia lhe permitir. Não nesses momentos.
Uma violência incontrolável percorreu suas veias. Com o sonho ainda fresco em sua mente e as lembranças de seu passado vivos em sua cabeça, precisava liberar sua raiva.
Por que estava fora de seu alcance o que para outros homens resultava totalmente acessível? Ou talvez fossem poucos os que realmente chegavam a ter uma família, uma esposa, filhos?
Retirou cuidadosamente as mãos de Sabrina de seu corpo e pôs-se em pé.
Ultimamente tinha tratado de superar o abismo que ele mesmo tinha criado a excluindo de sua vida. Mas seus esforços não tinham sido suficientemente entusiasmados, e sabia que Sabrina tinha sentido.
Voltou-se e olhou-a. Estava encolhida num lado da cama, com o ventre ligeiramente inchado contra o tecido da camisola e o cabelo estendido sobre a almofada. Ver seu corpo grávido fez que tudo se centrasse em sua mente.
Naqueles momentos compreendeu o que lhe acontecia. Não só tinha medo de ser como seu pai e fazer mal ao bebê, mas também tinha medo de perder Sabrina como perdeu sua mãe.
— Aonde vais? — perguntou ela, o olhando com gesto sério.
Reese sentiu-se mais mesquinho que um predador saltando sobre sua descuidada presa.
— Sair.
— Voltarás?
Reese encolheu os ombros. Não pensava se comprometer a nada mais até que encontrasse o modo de fazer que aquela relação funcionasse. Sabrina acordava nele emoções que não estava preparado para manejar.
Vestiu-se rapidamente, sentindo os grandes olhos azuis de sua esposa nas costas. Pôs os sapatos de pé. Não queria se sentar no borda da cama, perto dela.
Mas isso não era verdade. Queria estar perto de Sabrina, sentir seu fôlego, seu cálido corpo e seu coração batendo perto dele. Mas sabia que naqueles momentos não podia o fazer, de maneira que simulou não a ver. As mãos tremiam-lhe quando se agachou para se amarrar os sapatos.
Depois guardou sua carteira no bolo da calça e pegou suas chaves.
— Reese?
A luz da lua alumiava o corpo de Sabrina na cama. Inclusive de onde estava Reese viu que seus olhos brilhavam e soube que, uma vez mais, tinha feito chorar à única mulher que nunca teria querido ver chorar.
Encaminhou-se para a porta, precisando escapar dos laços emocionais que ameaçavam o consumir.
— Tenha cuidado — disse Sabrina com maciez.
Reese saiu, amaldiçoando-se a si mesmo e ao bastardo que o tinha criado. Sabrina não esperava uma desculpa de Reese pelo modo em que a tinha deixado na noite anterior. De fato, surpreendeu-lhe que ligasse do trabalho para lhe assegurar de que tinha chegado bem. Tinha tido que dirigir até o trabalho no meio de um espesso nevoeiro, e ele sabia que não gostava nada de fazer. As lágrimas lhe queimaram a garganta, e mal foi capaz de sussurrar que estava bem.
Não esperava que lhe enviasse rosas e lhe pedisse perdão, mas sim esperava algum indício de que compreendia o impacto que suas ações exerciam sobre ela. Foi fácil manter vivo o lume da esperança após o telefonema. Mas quando o viu entrar pela porta essa tarde, soube que tinha esperado em vão. O terno amante que queria ver estava profundamente oculto depois da imagem do duro guerreiro.
Sabrina não soube o que fazer quando, ao dia seguinte, Reese regressou mais tarde. Amava àquele homem. Amava sua paixão pelo ar livre e os esportes. Amava que soubesse todas as respostas das cruzadinhas do jornal sem vangloriar-se nunca disso. Amava todos os aborrecimentos que tinha passado para lhe fazer sentir que aquela casa era agora seu lar.
Significava para ela mais que ninguém no mundo, mas, apesar de todo o que lhe tinha dado, não lhe tinha dado o que mais almejava.
Seu amor.
Teria se conformado com seu carinho se lhe tivesse mostrado de forma consistente. Mas nunca o fazia. E ela começava a temer que nunca o fizesse.
Casar-se com ele tinha sido um terrível erro.
Reese permaneceu na soleira da porta da cozinha. A luz exterior entrava através do vidro da porta primeiramente, deixando seu rosto em penumbra.
Com essa iluminação deveria ter tido um aspecto sinistro, ou ameaçador. Em lugar disso, parecia muito cansado e tenso, como se esperasse receber um golpe a qualquer momento. Sabrina teria querido rodeá-lo com seus braços e estreita-lo contra seus seios, oferecer-lhe o consolo de seu corpo. Mas, pela sombria expressão de Reese, sabia que não o aceitaria.
Aquele pensamento deixou-a tão desolada que deu um passo atrás. Ele permaneceu na soleira da porta, a olhando. Os jeans e a camisa negra que vestia lhe sentavam muito bem, pensou Sabrina. Parecia um homem normal e feliz. Mas só ela sabia que estava bem longe de ser, e que sempre o estaria.
O bebê deu um chute, surpreendendo-a. Já levava uns dias se movendo, mas as repentinas mudanças de posição em seu útero não deixavam de surpreender. Tinha criado outro ser vivo... Com Reese. Sorriu para si enquanto apoiava as mãos em seu abdômen.
— Moveu-se o bebê? — perguntou Reese, dando um passo adiante com expressão maravilhada.
Estendeu uma mão para Sabrina, mas deteve-se dantes de atingi-la. Uma expressão de intensa dor cruzou seu rosto.
Tudo se aclarou num instante na mente de Sabrina.
Tinha-se estado enganando a si mesma.
Reese não ia acordar de repente uma manhã feliz e contente por se encontrar numa situação que tinha evitado cuidadosamente toda sua vida. Não se ia dar uma palmada na cabeça, dizendo «Vá! Olha o que tive todo este tempo sem me dar conta».
Sentisse o que sentisse por ela, não era amor. Só a dor de suas lembranças e a dura realidade do dever tinham feito que acabassem juntos. Nisso estava baseado seu casamento.
Não tinha amor para encontrar em Reese Howard. Sabrina compreendeu que tinha estado gastando suas emoções, que lhe tinha oferecido o que ele nunca aceitaria dela. O que não podia aceitar.
A tensão de um longo dia de trabalho, a dor nas costas devido à gravidez e o fato de que a realidade tivesse elegido nesse dia para golpeá-la de cheio estiveram a ponto de fazer que se desmoronasse ali mesmo. Um profundo cansaço apoderou-se dela. Desejou poder chorar, mas compreendeu que já tinha derramado suas últimas lágrimas por Reese. Tinha passado sozinha à última noite na cama em que Reese tinha levado repetidamente seu corpo aos cumes mais altos do prazer.
O bebê deu outro chute. Sabrina perguntou-se se o pequeno ser teria captado de algum modo sua agitação. Estava segura de que assim tinha sido.
— Estás bem? — perguntou Reese. Sua sincera preocupação só serviu para intensificar a dor de Sabrina.
Temendo falar, limitou-se a assentir. Reese deixou sua carteira e sua jaqueta numa cadeira e passou ambas as mãos pelo cabelo.
— Eu... O...
«Sinto muito». Sabrina sabia que isso era o que tratava de dizer. Mas já não acreditavas.
Reunindo todas suas forças, apoiou as mãos no respaldo de uma cadeira e disse:
— Não podemos seguir assim.
— Eu sei.
— Acho que deveria ir-me.
— Não — Reese pronunciou aquela palavra com maciez, mas também com ênfase.
— Seja razoável, Reese. Estou te torturando.
— Não é verdade. Estou tentando, Sabrina. Juro-te que estou tentando.
— Eu sei, e isso é o pior. Ver como te rasgas por algo que não podes controlar. Não posso o suportar mais — ao sentir o cálido e úmido rastro de uma lágrima em sua bochecha, Sabrina compreendeu que ainda podia chorar—. Te amo. Mas não posso seguir vivendo contigo.
— Sabrina...
— Não, não digas nada ainda — disse ela, se aproximando dele para lhe cobrir a boca com os dedos —. Tudo isto não tem nada que ver com o que tinha antecipado quando decidi que me inseminassem. Ia fazê-lo por puro egoísmo, porque me sentia sozinha. Agora vou fazer isto por ti e pelo bebê.
— Não quero que te vás.
Sabrina esperou, desejando escutar as palavras que sabia que não escutaria.
— Também não queres que fique.
Passou junto a Reese, pegou sua bolsa e as chaves na mesinha da entrada e saiu da casa. O fresco ar da noite envolveu-a e o bebê voltou a dar um chute, mas nada serviu para aliviar a dor que envolvia sua alma. Nunca tinha se sentido tão sozinha. Nem sequer quando esteve naquela fria e solitária cama de hospital depois de perder seu primeiro filho.
Capítulo Dez
«Te amo». As palavras de Sabrina ressoaram na mente de Reese como a música mágica de um carrossel de sua infância. Ninguém lhe tinha dito nunca aquelas palavras, e quase sentia que não eram reais. No entanto, era, como também era Sabrina. Mas ela se ia, o deixava, e não tinha intenção de voltar.
Devia conseguir que ficasse. Sem ela, não tinha nada. Voltaria ao vazio em que vivia antes que ela entrasse em sua vida.
Não sabia com exatidão quais eram seus sentimentos, mas estava seguro de que deixar que se fosse seria o maior erro de sua vida.
Correu à porta e saiu ao pátio, onde as luzes da baía e da cidade eram mal visíveis por causa do nevoeiro.
— Espera Sabrina.
Amaldiçoou a si mesmo enquanto corria depois de sua chorosa esposa. Só um miserável seria capaz de fazer chorar a sua esposa grávida. À mulher que o amava.
Quando a alcançou lhe tocou o ombro delicadamente. Não queria ser um desses homens que não sabiam medir suas forças quando se aborreciam.
Sempre tinha se orgulhado de seu auto controle, mas o controle era só uma lembrança distante desde que tinha conhecido Sabrina.
Ela se afastou ao sentir seu contato.
— Por favor, Reese... — disse, abraçando-se a si mesma.
Ao ver como se estremecia, Reese compreendeu quanta dor lhe tinha infligido.
Quanta dor tinha infligido à mulher que tanto significava para ele. Não compreendia com exatidão o que sentia por ela. Não tinha outra experiência com que o comparar, mas sabia que se deixasse que o abandonasse se arrependeria.
Tomou-a entre seus braços e sustentou-a com força contra seu peito. Não queria que se fosse, mas também não podia esperar que ficasse com ele enquanto seguisse a pressionando. Não podia manter a distância emocional que precisava e a proximidade física que almejava.
Enterrou a cabeça no suave cabelo encaracolado da parte traseira de seu pescoço e respirou profundamente seu doce aroma. Sentiu a tentação de levá-la para cama e esquecer a discussão e os problemas que lhes tinham levado até esse ponto.
— Não te vás, querida.
— Estou me desmoronando, Reese. Estou me convertendo na mulher que era aos dezoito anos e não quero voltar a ser essa pessoa.
— Não quero que te desmorones — disse ele. Odiava pensar que Sabrina estava se desmoronando enquanto o ajudava reconstruir-se. Enquanto mostrava-lhe uma forma de vida totalmente diferente à que conhecia.
A brisa aumentou e ela estremeceu entre seus braços.
— Vamos para dentro.
Reese pegou-a pela mão, mas Sabrina não avançou. Olhou-a. Sua expressão era tão séria e triste que o coração se encolheu.
— Não me faças achar que as coisas vão mudar para depois continuar me afastando de teu lado, Reese. Se voltar e tiver que ir de novo, será definitivo — a seriedade do tom de Sabrina convenceu a Reese de sua sinceridade. Mas ele já sabia que após essa noite não poderia voltar a lhe pedir que regressasse.
Quantas vezes poderia afastá-la de seu lado e esperar que voltasse? Quantas vezes poderia esperar que o perdoasse pelo passado? Quantas vezes tinha que pagar pela infância que o tinha convertido no homem que era?
— Tudo será diferente. Eu serei diferente — disse, e compreendeu que tratava de convencer a Sabrina tanto como a si mesmo.
— Por que essa repentina mudança? — perguntou ela.
— Me quer pra valer? — perguntou ele a sua vez, com voz rouca e grave.
Sabrina baixou o olhar e assentiu.
Reese sentiu que as mãos tremiam e que o sangue se angustiava entre suas pernas. Precisava dos frágeis laços que Sabrina tinha estendido com sua confissão. Queria abraçá-la tão forte que nunca pudesse voltar a deixá-lo.
— Não entendo como é possível.
Sabrina levantou as mãos e apoiou-as delicadamente em ambos os lados do rosto de Reese. Ninguém o tinha feito nunca com tanto carinho.
— Eu também não. Só sei que te preciso mais do que precisei de ninguém em minha vida.
— Oh, baby — disse Reese, inclinando a cabeça para tomar a boca de Sabrina entre seus lábios, à boca que sabia como cada sonho erótico que tinha tido e a cada sonho secreto que tinha buscado. Sonhos dos que seus colegas de voleibol se teriam troçado e que seu chefe nunca teria acreditado. Seu anseio por uma agradável e sã rotina e por uma vida normal e corrente.
Tomou Sabrina em seus braços e levou-a de volta a casa. Fechou a porta utilizando o pé. O silêncio da casa rodeou-os. Só se escutavam suas respirações.
Sabrina alçou o rosto do ombro de seu marido, buscando seus lábios na penumbra do vestíbulo. Sua tentadora e sensual boca impulsionava Reese a beijá-la e a não parar até estar profundamente enterrado em sua úmida gruta, com ela gemendo docemente seu nome.
— Preciso de ti, Sabrina — disse, rogando para que ela não compreendesse que a precisava para bem mais que o prazer que lhe dava na cama. Precisava-a de maneira que nem sequer queria reconhecer.
— Eu também preciso de ti, Reese.
— Estou aqui para ti, carinho.
Reese levou a sua esposa ao quarto e deixou-a cuidadosamente no meio da cama. Queria levá-la uma e outra vez ao mais alto do êxtase. Não podia esperar mais.
Despiu-a rapidamente, sentindo que em qualquer momento podia sofrer uma combustão espontânea. Sabrina grávida era uma mulher na plenitude de sua feminilidade.
Desejava àquela mulher. Sua mulher. A mulher que lhe tinha entregado seu coração e sua alma. A mãe de seu filho.
— Esta noite não posso esperar — disse, enquanto tirava sua roupa.
Uns segundos depois estava sobre o florescente corpo de Sabrina. Inclinou-se e tomou um de seus escuros e grandes mamilos entre os lábios. Acariciou-o delicadamente com a língua, pois sabia como estavam sensíveis com a gravidez.
Deslizou a mão até seu ventre e depois mais abaixo, até apoiar a palma no centro de seu desejo. Sua calídez deu-lhe as boas-vindas. Comprovou se estava preparada com um dedo, e depois com dois. Sabrina gemeu e levantou as cadeiras da cama ao mesmo tempo que lhe fincava as unhas nas costas.
— Agora, Reese. Agora...
Levantou a cabeça e apoiou na cama as palmas das mãos. Penetrou-a lentamente, ainda que seu instinto clamasse para que o fizesse profunda e rapidamente. Queria assegurar-se de que Sabrina compreendesse quanto a apreciava.
Começou a mover-se ritmicamente, esperando-a. Precisava sentir seu corpo tencionando-se em torno dele, o levando a casa. Seus gemidos intensificaram-se, e a ardente palpitação de seu sexo quando atingiu a cume fez que Reese transbordasse.
Quando recuperou a consciência de si mesmo, se afastou para um lado e estreitou Sabrina contra seu peito.
Ali, na escuridão, com o coração batendo firme e lentamente em seu peito, soube que devia fazer algo para conseguir que ficasse. Tinha que lhe demonstrar que significava mais para ele que nenhuma outra mulher que tivesse conhecido. Mas também tinha que se proteger, porque acabava de se dar conta do poder que Sabrina tinha o ameaçando em ir embora. Reese estava virando em Sabrina uma devoção que esta nunca tivesse considerado possível. Mas ainda que desfrutasse com suas atenções, o terrível segredo que guardava em seu interior tinha atingido proporções desmedidas.
Uma decisão tomada quando era mais uma menina que uma mulher. Mas o fato de tê-la ocultado durante tanto tempo tinha feito que crescesse até se converter em algo monstruoso.
Quando, por fim, Reese tinha decidido desfrutar de seu casamento, ela era incapaz de fazer. Quanto mais se aproximava o parto, mais se acentuavam suas preocupações.
Um aborto de última hora seria bem mais difícil de assimilar que um primeiro.
Seguia religiosamente as instruções do médico e, às vezes, Reese debochava dela. Mas para Sabrina não tinha nada mais importante que ter seu bebê.
— Fecha os olhos — ordenou Reese.
Sabrina obedeceu. Preferia não o olhar quando se sentia tão embargada pela culpa.
— Tenho que falar contigo, Reese — não podia deixar passar um minuto mais.
Reese era um homem compreensivo abaixo seu duro exterior, ainda que provavelmente lhe doesse que tivesse esperado tanto a lhe o que tinha de dizer.
— Agora não. Tenho uma surpresa — disse ele, e a beijou nas pálpebras.
Sabrina estremeceu-se de prazer. Estava se convertendo numa maníaca sexual, pensou, esperando que a surpresa de Reese fosse passar a tarde entre seus braços.
— De acordo, mas após a surpresa terás que me escutar. É importante.
— Muito bem. Agora continue com os olhos fechados — Reese a pegou da mão e a conduziu para as escadas—. Asseguro-te que a surpresa vale a pena.
Sabrina tropeçou com o primeiro degrau e ele a pegou nos braços.
— Peso muito, Reese. Ponha-me no chão.
— Nunca pesarás muito.
— Não sejas machão comigo. Se te acontecer algo, Jeff me matará. Lembre-se que jogarás uma partida importante no próximo fim de semana.
Reese bufou.
— Você bufou?
— Os homens não bufam.
— Pois me pareceu ouvir-te bufar.
Os lábios de Reese silenciaram Sabrina. Sabia do café e das omeletes que ela tinha preparado para tomar o café da manhã. Era como o sol num frio dia de verão. Era o homem que se tinha convertido no sol de seu mundo. Se ao menos pudesse afastar as nuvens que ameaçavam no horizonte...
— Já chegamos — disse ele, a deixando no solo.
— Espero que estejamos no quarto — caçoou Sabrina.
Ele riu e a beijou. Depois disse:
— Abre os olhos.
Sabrina obedeceu e ficou petrificada no lugar. Reese tinha-a levado ao estúdio.
Nessa semana tinha-no pintado entre os dois de uma preciosa cor verde mar e tinham-no transformado num quarto para seu filho.
Mas na noite anterior a mobília ainda se encontrava nas caixas. Naqueles momentos estava todo colocado. O berço estava cheio de animaizinhos de pelúcia e tinham duas cadeiras de balanço em frente à janela que dava à baía.
Um móvel de baleias e golfinhos pendurava sobre o berço, e a mesa para mudar o bebê estava cheia de roupas tão pequenas a que custava imaginar que alguém pudesse usá-la.
Os olhos de Sabrina encheram-se de lágrimas enquanto olhava a seu arredor e compreendia que o homem que tinha organizado tudo aquilo era um homem que podia amar.
— Oh, Reese... — foi tudo o que pôde dizer dantes de que a garganta se fechasse e as lágrimas começassem a deslizar por suas bochechas.
Reese atraiu-a contra seu peito e balançou-a lentamente para trás e para frente.
— Sei que querias fazer tudo pessoalmente, mas o médico disse que não devias levantar mais peso, assim pensei que eu podia me ocupar disto.
— Obrigada — disse Sabrina—. Te amo.
— Eu sei.
Não era a resposta que ela queria. Nem a que esperava. Afastou-se de Reese, olhou-o aos olhos e viu a mesma expressão cautelosa que tinha fazia duas semanas, quando tinham discutido.
Não estava apaixonado por ela e nunca estaria. Por muito que o desejasse, nunca ia ouvir de seus lábios as palavras que tanto precisava.
Caminhou distraidamente pelo quarto e deteve-se para acariciar a toquinha do bebê que se achava na borda do berço. Sabia que para seu filho nunca faltaria nada, mas seria Reese capaz de lhe dar algo mais que coisas materiais?
— O que acontece, Sabrina?
— Nada.
— Estás certa? — perguntou Reese, olhando-a com gesto preocupado.
— Sim — contestou ela, sabendo que, se lhe pedisse Reese lhe diria que a queria, mas as palavras não significariam nada para ele. E ela não era a jovem ingênua que foi. Pediu amor e saiu escaldada. Não pensava em voltar a pedir. Reese sentou-se no último degrau do pátio. Acabava de correr um tempo e estava suando. Olhou para a baía, pensativo, e suspirou.
Tinha renunciado a tentar compreender as mulheres. Fazia uma semana que tinha decorado o quarto do bebê. Ocupou-se disso para demonstrar a Sabrina que queria a ter em sua vida, a ela e a seu filho, mas sem necessidade de se envolver nos laços emocionais que tanto temia. Mas o tiro tinha lhe saído pela culatra.
Sabia que Sabrina merecia algo mais e, ao que parece agora ela também sabia.
Não teve mais declarações de amor, nem mais abraços no sofá, nem mais passeios no barco, onde faziam amor rodeados pelo mar e o vento.
Não esperava que fosse o abandonar emocionalmente. Contava que continuasse lhe demonstrando seu amor de forma contínua. «É um idiota», se repreendeu.
Sabrina não tinha uma fonte inesgotável de amor para lhe dar. Precisava recarregar-se, e isso só sucederia se também recebia amor. Mas ele não era capaz de lhe dar. Ou, ao menos, isso acreditava.
Não sabia o que se sentia quando amava. Só sabia que quando Sabrina lhe dizia aquelas duas palavras o mundo parecia se deter, as batidas de seu coração se duplicavam e a vida não lhe parecia tão solitária como antes.
Tinha que falar com ela. Devia averiguar se o que sentia tinha algo que ver com o amor, se estava mal interpretando algum indício que desconhecia.
Levantou-se e entrou na casa. Encontrou Sabrina deitada no sofá, dormindo.
Seu disco favorito de Anita Baker soava no fundo. Usava uma das longas camisas de flanela de Reese e seu arredondado ventre pressionava contra a parte dianteira. Umas malhas negras cobriam suas esbeltas pernas e usava o cabelo preso no alto da cabeça.
Reese se acalorou só de olhar, e, enquanto o fazia, compreendeu que parte daquele calor também tinha atingido seu coração. O órgão que sempre tinha ignorado e cuja existência negava tinha estado aí o tempo todo. Vivo e lânguido, precisando somente que chegasse a mulher adequada para lhe mostrar como o usar... Mas, a que preço?
Ajoelhou-se junto a ela. Parecia totalmente relaxada. Olhou-a atenciosamente, tratando de averiguar que sentimentos implicavam aquele famoso amor.
Sabrina abriu os olhos e deu um grito. Se ergueu repentinamente no sofá, cobrindo o coração com uma mão.
— Deste-me um susto de morte! — protestou —. Pode-se saber que fazias?
— Ver-te dormir.
— E não podias o fazer de mais longe?
— Não, não podia — as respostas que Reese buscava precisavam de uma observação muito direta.
— Que te passa Reese? — perguntou ela.
— Nada. Mas gostaria de entrar em ti.
— Escuta, seja quem for, quero que me devolvas meu marido.
— Não seja tonta, Sabrina.
— Tu nunca fazes tolices desse tipo, Reese. É um homem firme, sério e distante.
— Pode ser que tenha mudado.
— Duvido — Sabrina empurrou-o suavemente para apoiar os pés no chão.
Ele ajudou-a a levantar-se.
— Falo sério, carinho.
— Para valer?
— Então, sente-se. Tenho algo que te dizer.
A seriedade de Sabrina assustou Reese. E se soubesse que nunca poderia a amar? «Idiota!» disse-se. «Com certeza que sabe. Por isso deixou de te querer».
— Não pensará em ir embora outra vez, não?
Sabrina suspirou e moveu a cabeça.
— Não, não vou ir. A não ser que tu me peças.
— Nunca me ocorreria fazer isso.
— Não pode ver o futuro, Reese.
— Não, não posso. Que me ias dizer?
— Sinto não ter contado antes. Esperei tanto para falar-te disto que estou nervosa e não sei como reagirás. Aconteceu faz muito...
— Conte-me.
— Já sabes que me casei aos dezoito anos.
Reese assentiu.
— Oh, Reese. Custa-me tanto expressá-lo em voz alta...
— Que aconteceu?
— Fiquei grávida.
Reese franziu o cenho.
— Entregaste teu filho para adoção?
— Não. Nunca teria feito isso.
— Então, que aconteceu?
— Scott não queria que o tivéssemos. Disse-me que abortasse, mas eu me neguei. Então ele decidiu ignorar a gravidez. Quando estava grávida de oito semanas, organizou uma excursão de vários dias no campo. Supunha-se que ia ser nossa grande reconciliação. O médico deu-me permissão e fomos, mas nessa mesma noite abortei. Scott estava encantado, e disse que sabia que, no fundo, eu também não queria ter aquele bebê.
Sabrina enterrou o rosto entre suas mãos. Reese sabia que devia dizer algo, mas não era especialmente bom naquele tipo de situação. Sabrina parecia tão perdida, tão sozinha... Assim era como ele tinha se sentido toda sua vida.
— Sinto muito — disse. Suas palavras soaram vazias.
— Sempre me perguntei se poderia ter feito algo mais. Talvez antepus meu casamento a meu bebê. E fui castigada por isso.
— Conheço-te, Sabrina. Ninguém no mundo valoriza e merece um filho mais que tu.
— Obrigada. Acho que cheguei a entender que o aborto não foi culpa minha, mas me preocupava muito em te dizer.
— Por quê?
— A princípio, pela entrevista para tua revista. Não sabia se tinha direito a ter um filho após o que tinha acontecido.
— Uma mulher tão carinhosa e maternal como tu estás destinada a ter filhos.
— Oh, Reese. Te amo — disse Sabrina, apoiando a cabeça contra o peito de seu marido.
Ele ficou paralisado e compreendeu que, fosse qual fosse à emoção que sentia, era muito profunda. Mas não podia a expressar em palavras. Porque nunca tinha querido ser tão vulnerável como era Sabrina naqueles momentos.
Saber que tinha tanto poder sobre sua felicidade o deixou paralisado.
Compreendeu que não podia dar a Sabrina o mesmo poder sobre ele.
Nunca tinha sido capaz de dar a nenhuma mulher aquele poder, porque na realidade nunca tinha conhecido a nenhuma que necessitasse aquele tipo de afeto. Sua mãe amou-o, mas deu sua vida por ele.
Sabendo a pressão à que se tinha submetido Sabrina para lhe falar de seu passado, supôs que não creria uma declaração por sua vez. A tonta felicidade que estava sentindo o abandonou. Bastariam as palavras? Tinha a sensação de que faria falta bem mais para convencê-la de que tinha mudado.
— Reese, sente algum carinho por mim?
— Com certeza.
— Mas não me amas — disse Sabrina com singeleza, como se só estivesse manifestando um fato.
Reese não queria a ferir mais. Afastar-se-ia de sua vida lentamente. Isso era a única coisa que sabia fazer bem.
— Não, carinho, não posso te amar.
Sabrina assentiu lentamente e saiu em silêncio do lugar. Reese sentiu que levava consigo a luz. Sabia que tinha cometido um erro, mas não tinha idéia de como o corrigir.
Capítulo Onze
Sabrina tinha esperado que as coisas fossem melhorando, ainda que a experiência lhe tivesse ensinado que não existiam os finais felizes. Apesar de tudo, tinha confiado em que tivesse exceções. O filho que levava dentro transbordava um desejo longamente almejado, e queria o mundo de cor rosa que sempre tinha imaginado.
Ouvir Reese dizer que nunca poderia a amar tinha transformado aqueles sonhos num pesadelo. Sua realidade consistia agora na verdade, nos duros fatos que se tinha permitido ignorar enquanto se deixava levar por suas emoções. A verdade que conhecia antes de ver o precioso quarto para o bebê.
A única coisa que Reese estava realmente disposto a lhe dar eram bens materiais.
Aquela noite de inverno era especialmente escura, mas as luzes da rua iluminavam os traços de Reese enquanto conduzia. Parecia muito relaxado.
Bem mais do que ela se sentia.
Era duro superar o fato de que tivesse expressado em voz alta o que
Sabrina sabia desde o princípio. Quase desejava que nunca tivesse dito que não podia a amar. Assim teria podido seguir vivendo em seu mundo de fantasia.
— Não tens por que vir comigo — disse, sabendo que só tratava de alfinetá-lo.
— Quero ir — respondeu Reese.
— Por quê? Já deixaste muito claro que não me...
— Não digas — advertiu ele em tom cortante.
— Pensava que a verdade não te assustava.
— E assim é.
— Então, por que não posso repetir o que disseste?
— Não quero voltar a ouvir.
Sabrina obrigou-se a olhar pela janela. Às escuras sombras dos edifícios junto aos que passavam adquiriram um tom amenizado enquanto um profundo sentimento de solidão se apoderava dela.
Reese a deixou frente à entrada da clínica para mulheres na qual ia receber o curso de preparação para o parto e foi estacionar. Faltavam muito poucas semanas para as festas, e Sabrina pensou no ano anterior e nas decisões que tomou. Decisões que a levaram à clínica de inseminação e a conhecer Reese Howard. De repente compreendeu que não mudaria nada do que aconteceu.
Reese tinha feito que seu sonho se fizesse realidade, e lhe tinha dado muitas outras coisas. Tinha aprendido muito sobre si mesma e, o amando, tinha se convertido na mulher que sempre tinha esperado ser.
A brisa noturna era muito fresca. Se enrolou no cálido abrigo que Reese lhe tinha presenteado fazia uns dias e o buscou com os olhos. Avançava rapidamente para ela através da fria noite.
Sabrina estava nervosa. A princípio, ter um filho tinha lhe parecido bom, mas agora que se aproximava o momento do parto, os nervos e a falta de comodidade de seu corpo estavam fazendo que lhe parecesse impossível dormir. Assustava-lhe fazer algo que pudesse prejudicar o bebê.
— Vamos querida — disse Reese, tomando-a pelo cotovelo e conduzindo-a para o interior do edifício.
Sabrina retirou o braço de sua mão.
— Faça o favor de não usar apelidos carinhosos.
Reese olhou-a, desconcertado.
— Que te passa?
— Nada.
Sabrina tirou o abrigo enquanto caminhavam pelo corredor. Reese tomou-o num de seus braços. Depois passou o outro pela cintura de Sabrina, envolvendo-a em seu calor. Ela quis se submergir em sua calídez, mas não o fez. Tinha que pensar com clareza sobre aquele homem que não a amava. A única intimidade que tinha entre eles era a dos amantes.
Sentaram-se juntos num dos sofás da sala. Sabrina observou discretamente aos demais casais. A maioria era bastante jovem, e tinha uma mulher que ia acompanhada de outra. Ainda que seu casamento não fosse como tinha sonhado, não podia negar que Reese era um sólido apoio.
Encostou-se nele, lamentando seu enfado de fazia uns dias. Ele se inclinou e a beijou no rosto.
Por que não podia a amar? «Seja forte e audaz», disse-se. «Ame-o com todas tuas forças e lhe demonstre o que está perdendo».
Mas já tentou isso em seu primeiro casamento e se saiu mal. No entanto, devia reconhecer que era muito diferente ser uma jovem de dezoito anos que uma mulher madura de trinta.
E talvez não valesse a pena tentar por Reese? Perguntou-se. Não devia ter mudado tanto como achava se ainda não era capaz de se entregar por completo a ele. Uma parte de si mesma seguia tratando de se proteger, e esse podia ser em parte o motivo de que Reese não pudesse a amar.
A instrutora entrou na sala e apresentou a si mesma como Lori Mathers, uma enfermeira titulada com mais de vinte anos de experiência em partos.
Enquanto Lori falava do processo do parto natural, Sabrina se encostou ainda mais junto a seu marido. Ele lhe acariciou o braço e a reteve carinhosamente contra si.
— Sinto muito — sussurrou junto a seu ouvido.
Sabrina olhou-o, surpreendida e comovida pelo fato de que estivesse se desculpando. —Oxalá pudesse te amar — acrescentou Reese com maciez.
Sabrina obrigou-se a prestar atenção na enfermeira. Aquilo era tudo o que precisava. Tinha que ensinar Reese a amar, e pensava em começar a fazer quanto voltassem a casa.
«Oxalá pudesse te amar». Aquelas palavras não deixavam de ressoar na mente de Reese enquanto conduzia de volta a casa. Não deveria tê-las dito, mas tinha querido aplacar a dor que tinha captado na enfadada voz de Sabrina ao chegar à clínica.
A dor que ele lhe infligia involuntariamente uma e outra vez. Sabia que o que tinha com Sabrina era algo excepcional e muito valioso. E se não fora pelo profundo vazio que tinha em seu interior, poderia o fazer funcionar.
Quantas vezes mais iria poder afastá-la de seu lado? Olhou sua esposa, que dormia serenamente no assento do lado. Tinha algo em sua tranqüilidade que comovia Reese, suavizando a dor e o temor com que tinha convivido desde sua infância. Sabrina era perfeita para superar o passado, mas temia confiar nela.
Amaldiçoando interiormente sua incapacidade para amar, para expressar seus sentimentos, voltou a prestar atenção à estrada.
Quanto mais se aproximava o momento do parto, menos gostava de separar-se dela. Sabia que, às vezes, os partos iam mal e desde que Sabrina tinha ficado grávida não tinha deixado de ler livros sobre o tema. De fato, pensava que seria capaz de atendê-la só se se visse obrigado a isso. A possibilidade de perdê-la ela ou ao bebê lhe doía de um modo que nunca teria crido possível.
Ultimamente tinha notado que Sabrina estava mais cansada do que o habitual.
Provavelmente por sua incapacidade para amá-la. Quantas vidas mais ia arruinar Pete Howard? Os nós de seus dedos ficaram alvos devido à força com que apertou o volante. Seu pai levou muito tempo exercendo sua influência desde a tumba, golpeando-o nas costas com seu cinto a cada vez que tratava de se relacionar com uma mulher, a cada vez que tratava de estabelecer uma relação significativa. Com freqüência sentia-se como o menino que tanto tempo passou trancado num armário, castigado. A diferença era que no presente podia ver tudo o que sucedia a seu ao redor, mas sem poder participar disso.
E sua atitude estava afetando com toda clareza Sabrina. A tristeza que viu em seu rosto a primeira vez que se afastou dela tinha regressado, apesar de que estava fazendo tudo o que ela queria.
A pressão era quase insuportável para seu auto controle. O controle que utilizava para se proteger de si mesmo e aos demais da raiva destrutiva que foi a essência de seu pai. O mesmo sentimento perigoso que tinha percebido em seu interior um par de vezes em sua vida, uma delas quando Sabrina tratou de deixá-lo. Isso assustava-o, porque seu auto controle era o único que impedia que se convertesse no homem doente que foi seu pai.
Não deveria ter dito a Sabrina que nunca poderia amá-la. Sabia. Mas a sinceridade era a única coisa com que sempre tinha contado em sua vida. Era a única que realmente tinha, e não queria a perder.
Deteve o carro em frente à casa e apagou o motor. Apoiou a cabeça no volante e rezou pedindo orientação e força. Algo que nunca tinha feito.
Contemplou Sabrina uns minutos, sem querer acordá-la. Sua relaxada respiração foi como um bálsamo para seus agitados pensamentos.
Moveu-a delicadamente por um ombro. Sempre lhe parecia uma mulher muito frágil, coisa que era ridícula. Sabrina tinha igualado a força de sua paixão na cama e tinha-o amado com silencioso orgulho durante os oito meses que tinha durado seu casamento.
— Já estamos em casa? — perguntou ela, adormecida.
— Sim — Reese saiu do carro e rodeou-o para abrir-lhe a porta.
— Doem-me as costas — disse Sabrina.
Reese não estranhava. Devia ser duro carregar constantemente oito quilos a mais.
— Posso te fazer uma massagem no quarto.
— Quero que conversemos — disse ela.
— Bem. Não pensava em ficar calado.
— Falo sério, Reese.
— Eu sei — contestou ele, e era verdade. Mas a perspectiva assustava-o. Que quereria lhe dizer Sabrina? Seu estado de ânimo não tinha deixado de oscilar durante toda à tarde. Um minuto estava pensativa, no seguinte enfadada, e suave como um gatinho a seguir.
Não sabia como a tratar naquele estado, e isso o assustava. Assustava-o porquê queria que continuasse o amando durante os seguintes cinqüenta anos. Talvez ainda pudesse aprender a corresponder. Sabrina estava deitada de bruços na cama que compartilhava com Reese enquanto ele lhe fazia uma massagem.
Observou seu rosto refletido no espelho das portas do armário. Estava muito concentrado em sua tarefa. Incomoda com sua própria nudez, ignorou sua imagem no espelho. Reese tinha feito questão de que se deitasse nua junto a ele e lhe falasse enquanto lhe fazia uma massagem com óleo aromatizado. Ela se sentia lânguida e letárgica, e nada preparada para manter uma conversa séria. Mas sabia que devia formular certas perguntas, e que precisava escutar as respostas.
— Pensava que querias falar — disse Reese depois de uns minutos.
— E assim é.
— Pois fale.
Sabrina buscou seus olhos no espelho e encontrou-o olhando atenciosamente a curva de seu ventre.
— Por que não podes me amar?
Antes de contestar, Reese jogou mais óleo na palma de sua mão e disse-lhe que se deitasse de costas. Ela não queria ver seu corpo inchado, ainda que fosse evidente que Reese sim. O fogo que tinha em seu olhar lhe fazia se sentir como a criatura mais desejada da terra.
—Não sei como amar e respeitar a uma mulher — disse ele, deslizando as mãos pelos seios e o ventre de Sabrina.
Sabrina sentia-se respeitada, mas Reese estava tão acostumado a considerar-se incapaz de sentir qualquer emoção que não se reconhecia como o homem que era.
Naquela posição custava-lhe respirar, e soube que não ia poder permanecer deitada de costas muito tempo. Tratou de erguer-se, mas precisou da ajuda de Reese para fazê-lo. Depois, ele lhe deu a camisola.
— Sentes carinho por mim? — perguntou com cautela.
Não sabia com exatidão como chegar ao miolo da questão.
Reese suspirou.
— Acho que sim. Mas não quero te dar falsas esperanças. Toda minha vida foi um vazio emocional e me sinto cômodo nesse vazio. Abandoná-lo agora... —olhou as mãos—. Acho que não saberia como sobreviver.
— Eu te ajudaria a fazer.
Reese apoiou as mãos nos ombros de Sabrina e olhou-a com expressão tão séria que ela esteve a ponto de perder toda esperança.
— Isso é algo no que não podes me ajudar Sabrina. É algo que está dentro de mim. Muito dentro.
— Todo mundo pode amar.
— Eu não.
Sabrina pensou nisso um momento.
— Que mudaria se me amasse?
— Não sei.
— Vamos, Reese, temos que chegar ao coração do assunto.
— Não há coração, Sabrina. Isso é o que tratei de te dizer desde o princípio.
— Então, por que fizeste questão de que nos casássemos?
— Queria que fosses minha. Queria que nosso filho conhecesse a segurança de ter uma família normal.
— Não somos uma família normal.
— Estava cumprindo com meu dever, maldita seja! Fiz o que deve fazer um cavalheiro — disse Reese, se levantando bruscamente da cama. Seu peito subia e baixava como se acabasse de correr uma maratona, e seus olhos brilhavam quase de maneira selvagem.
— Mas não é um cavalheiro, verdade, Reese?
— Não, não sou. Mas isso soube desde o princípio.
— Que queres dizer com isso?
— Na realidade nunca confiaste em mim. Sempre tiveste um pé fora, disposta a ir se eu não respondia as tuas expectativas.
— É difícil não ter um pé na porta se sempre estás me afastando do teu lado.
Reese resmungou uma maldição.
— Eu tentei Reese. Tentei mostrar-te o que poderíamos ter se te abrisses pra mim, mas tu não queres o fazer... Ou não podes.
Sabrina sentou-se na cama e depois se pôs em pé fazendo um esforço. Reese estendeu uma mão para ajudá-la, mas ela o fulminou com uma mirada.
— Estou cansada de tanta indecisão. Quero uma família e mais filhos, e quero que o homem que amo seja capaz de desfrutar dessas coisas.
— Não posso — disse Reese.
— Eu sei. Vou embora Reese. E desta vez é definitivo. Não penso em voltar a não ser que algo mude em teu interior. Já não sou a menina assustada que uma vez fui. Nem sequer sou a mesma mulher com a que te casaste a que acreditou tontamente que se convertia numa esposa e mãe modelo teria um casamento perfeito. Agora sou uma mulher que sabe o que vale, e se não podes me querer estás perdendo a oportunidade de tua vida — com tanta dignidade como pôde, avançou até a porta do quarto e a abriu—. E agora saia, por favor.
— Precisas que te leve a algum lugar? — perguntou Reese, em tom mal audível.
— Não. Eu mesma dirijo.
Ele assentiu e saiu ao escuro corredor. «Uma vez mais oculto nas sombras», pensou ela.
— Nunca quis te fazer mal.
— Nem eu a ti — contestou Sabrina com maciez. Mas Reese já se afastava.
Não importava que fosse ela que se ia. De algum modo, estava vendo como se afastava a única pessoa à que tinha amado para valer.
Sentia que estava morrendo por dentro, mas sabia que não podia continuar vivendo com Reese enquanto ele não deixasse de se torturar e da torturar por não ser o perfeito ideal de homem.
Reese viu como ia Sabrina, consciente de que estava perdendo algo precioso e único, mas sem saber o que fazer para conseguir que voltasse. Seguiu-a ao carro e viu que tropeçava em um ladrilho solto. Caiu no chão antes que pudesse a segurar.
—Oh, Reese — gemeu Sabrina enquanto ajudava-a a levantar-se —. Acaba de acontecer algo.
Agarrou-se a ele com uma força que Reese nunca tinha sentido nela.
— Que acontece? — perguntou, alarmado.
— Sinto algo úmido entre as pernas.
— Rompeu a bolsa, ou é sangue?
— Não sei.
Reese pegou Sabrina nos braços e levou-a até seu carro. Tudo aquilo era culpa sua. Não deveria a ter desagradado. Não era melhor que seu pai. Não deveria ter deixado que se fosse. Não podia a perder agora.
Após deixá-la no assento, pegou o telefone no porta-luvas do carro.
— Não posso perder outro bebê, Reese — sussurrou ela, assustada.
— Não vou permitir — disse Reese, ainda que soubesse que tanto Sabrina como o bebê corria perigo. Mas faria tudo o que estivesse em sua mão para protegê-los.
Capítulo Doze
Pôs o carro em movimento e discou o número do hospital. Uns minutos depois detinha o veículo ante a entrada de emergência, onde uma equipe de médicos e enfermeiras se fez cargo de Sabrina de imediato.
Reese seguiu-os cegamente, precisando manter algum contato com ela. O doutor examinou Sabrina enquanto ele lhe segurava a mão.
Reese sabia que muitas mulheres davam a luz antes de tempo, mas Sabrina não era «muitas mulheres». Era sua mulher. A mulher sem a qual não podia viver.
Estava cansado de fugir da verdade. Sabrina era o mais importante para ele no mundo. Tinha tratado de negá-lo. Tinha tratado de ignorá-lo, mas todos seus esforços tinham sido em vão. Porque ainda que sempre tivesse achado que não podia amar, sabia que a capacidade para fazê-lo sempre tinha estado aí, esperando que aparecesse a mulher adequada para fazê-la surgir.
E sabia com certeza, porque o que tinha estado fazendo nas últimas semanas não era viver. Era existir. E tendo saboreado o pedaço de céu que era Sabrina, queria a recuperar, feliz e sã.
Sustentou-lhe a mão com força, murmurando-lhe palavras de ânimo enquanto o médico terminava de examiná-la. Tinham conectado um monitor fetal, e Reese conteve o fôlego quando o médico se dispôs a falar com eles.
Sabia que Sabrina estava assustada, e que ele tinha que se mostrar forte por ela.
— Rompeu a bolsa ao cair, senhora Howard, mas não se preocupe. Está conectada ao monitor e vamos fornecer-lhe um remédio para induzir o parto.
— Por quê? — perguntou Sabrina.
— Os batimentos do coração do bebê estão um pouco debilitados e não quero correr nenhum risco.
Sabrina olhou Reese e este sentiu que o mundo se afundava a seus pés.
Amava àquela mulher mais que à própria vida, e podia perder a ela e a seu filho. Sentiu que a alma que cria perdida para sempre voltava a ser sua, e soube que seria capaz de renunciar a ela se isso servisse para liberar a sua mulher de qualquer sofrimento.
Prepararam a Sabrina para o parto e, enquanto o processo começava, Reese sentiu-se um pouco incomodo e fora de seu elemento. Mas estava disposto a suportar aquelas sensações a mudança do consolo que pudesse oferecer a Sabrina. Queria dizer-lhe que a amava.
— Tinha pensado em cesariana? — perguntou o médico.
— Não. Ia ser um parto natural — contestou Sabrina.
— De acordo. Isto é o que vamos fazer. Você, papai, observe o monitor e avise a mamãe quando uma contração chegar ao máximo. E você, mamãe, relaxe-se e respire. Seu corpo sabe o que deve fazer.
— Está pronta, carinho? —perguntou Reese.
— Suponho que sim.
Reese inclinou-se, beijou Sabrina no rosto e sustentou-lhe a mão até que o monitor deu um apito.
— Aqui vem a primeira contração.
Sabrina respirou como uma veterana e Reese se alegrou quando a contração terminou.
— Acho que não posso fazer isto — disse Sabrina.
As contrações fizeram-se mais fortes, os batimentos do coração do bebê mais debilitados e o médico parecia a cada vez mais inquieto.
— Eu sei carinho, eu sei.
— Se acontecer algo, Reese, tens que querer a nosso bebê. Promete-me agora mesmo que lhe dirás que o queres. Não deixes que cresça sem ouvir essas palavras.
— Não vou deixar que te aconteça nada, carinho. Prometo.
— Algumas coisas não podem se controlar. Tu me ensinaste isso.
— Prepare-se para empurrar, mamãe.
Enquanto a equipe médica trabalhava em torno de Sabrina, Reese sentia-se tão impotente como só um homem podia se sentir naquelas circunstâncias. Mas não ia permitir que Sabrina desse a luz sem que lhe tivesse dito antes que a amava.
— De acordo, papai, olhe o monitor e diga-lhe quando começar a subir de novo.
Sabrina respirava enquanto Reese observava o monitor.
— Agora, querida.
— Empurre senhora Howard, ordenou o doutor.
Sabrina lutou e grunhiu enquanto Reese rodeava-a com um braço pelos ombros para dar-lhe sua força.
— Isto, vai bem, mamãe. Tome ar e na próxima tentativa teremos aqui o bebê.
Sabrina respirou pausadamente e Reese inclinou-se para ela.
— Te amo — sussurrou junto a seu ouvido.
Ela o olhou, sobressaltada, mas nesse momento voltou a soar o monitor e teve que empurrar de novo.
— Vamos, mamãe. Uma vez mais e...
O doutor deixou de falar enquanto o bebê deslizava do útero de Sabrina a suas expectantes mãos. O coração de Reese deteve-se um instante enquanto olhava o choroso bebê e Sabrina.
Inclinou-se e a beijou nos lábios.
— Conseguimos carinho.
Ela lhe dedicou um sorriso que pareceu surgir diretamente de seu coração e depois estendeu os braços para pegar o bebê.
— Felicidades, papai e mamãe. Acabam de ter uma menina linda. Reese olhava Sabrina com lágrimas nos olhos e sentindo um amor tão intenso que quase enchia o quarto. E esse amor não ia unicamente dirigido ao bebê que ela segurava em seus braços.
Sabrina esperava que não fosse muito tarde. Precisava de Reese em sua vida tanto como precisava de oxigênio. Sem ele, morreria.
— Oh, Reese — sentia-se incapaz de dizer nada mais naquele momento, e Reese também não parecia muito certo do que dizer.
Levantou o braço que tinha livre e lhe acariciou o rosto. O rosto que sempre a tinha atraído por sua dureza. O rosto mais querido para ela... Aparte do da deliciosa criatura que sustentava no outro braço.
— Bom trabalho, mamãezinha — disse Reese, olhando sua esposa e sua filha com autêntica adoração.
Sabrina não podia afastar o olhar dos escuros olhos de seu marido. Estava cansada, mas era um prazer sentir sua mão na dela.
O yin de seu yang.
Reese Howard compartilhava com ela algo mais que um amor normal e corrente. Compartilhava uma união de almas e um pequeno milagre. Sentiu uma intensa satisfação ao pensar aquilo.
— Reese?
— Sim, carinho?
— Te amo.
— Eu sei — disse ele, e a tranqüila satisfação de seu tom de voz fez Sabrina sorrir.
— Não tens por que soar tão arrogante.
— Eu sei.
— Tu me amas? — perguntou Sabrina, sem saber mais o que dizer.
— Mais do que nunca tivesse acreditado ser possível.
— Oh, Reese.
Ele sorriu, mas Sabrina captou em sua expressão um traço de tristeza que lhe preocupou.
— Não estás te culpando por minha queda, não? — perguntou, conhecendo-o o suficiente para perceber um indício de culpa debaixo daquela tristeza.
— Se não tivesse...
— Não. Não penso te deixar o fazer. É um homem bom e carinhoso, Reese Howard, e não penso permitir que ninguém, nem sequer tu mesmo, pense o contrário — sentia as pálpebras cansadas e mal podia as manter abertas —.
Não te vás.
— Não vou ir — assegurou-o.
Sabrina fechou os olhos, prometendo-se só um minuto de descanso. Tinham muitas coisas que se dizer, e precisava aclarar a situação, averiguar se o amor que via refletido nos olhos de Reese era real. Annabelle chorava suavemente e Sabrina abriu os olhos e olhou ao seu redor.
Reese estava junto à janela, com a menina estreita entre seus braços, murmurando-lhe coisas.
Nada a tinha comovido tanto como aquela visão. Recordaria as lágrimas nos olhos de seu marido enquanto vivesse.
— Reese?
— Annabelle e eu estávamos esperando que acordasse.
— Tem fome? — perguntou Sabrina enquanto Reese avançava para ela.
— Acho que sim.
Sabrina tomou à menina nos braços de Reese, abriu a camisola e colocou-a junto a um de seus seios.
Reese observou-a com uma mistura de ternura e desejo.
— Podemos falar? — perguntou ela, temendo que Reese se fosse antes de que pudessem conversar.
— Claro.
— Ainda me amas? — perguntou Sabrina.
— Sim.
— Desde quando?
— Isso vai ser uma discussão — disse Reese em tom carinhosamente zombador.
Era um vislumbre do homem que Sabrina tinha visto em algumas ocasiões, do homem que queria ver bem mais com freqüência. Limitou-se a olhá-lo, esperando sua resposta.
— Acho que desde o primeiro momento em que te vi. Mas não queria reconhecer.
— Eu também não. Assustava-me porque o que sentia por ti era mais forte que o que nunca tinha sentido.
— Eu sei. Por fim sei o que queres dizer. Estas últimas três semanas foram uma tortura, e ainda que soubesse que deveria te deixar ir para que encontres um tipo decente, sou incapaz disso. — Alegro-me, porque tu és um tipo decente.
— É sério?
— Com certeza.
— Te amo, carinho.
As sinceras palavras de Reese dissolveram as últimas dúvidas de Sabrina. Em frente a ela se achava o homem que sempre soube que podia ser. O Reese que tinha visto brilhos no começo de sua relação. Seu valente guerreiro tinha voltado por fim a casa.
— Eu sei — disse, repetindo as palavras de seu marido.
Ele riu com maciez. Sabrina transladou a Annabelle ao outro peito.
— O que começou como um aborrecido encargo para um artigo, isto foi o que melhor me aconteceu na vida — disse Reese.
— Eu sei.
Reese voltou a sorrir e, enquanto alongava uma mão para acariciar a cabeça de sua ilhinha, Sabrina soube com absoluta certeza que ele era sua alma gêmea.
— Quero mais filhos — disse. «Eu sei», pensou Reese. «E eu também», compreendeu feliz.
O Time Lapse, que em outra época serviu a Reese para escapar de seu solitário mundo, estava agora cheio de risos e canções. Seus filhos brincavam na área coberta e sua esposa pilotava o barco com uma soltura que só se adquiria depois de vários anos de prática.
— Olha-me, papai — disse Annabelle de sua posição. O vento agitava seu cabelo castanho avermelhado, e Reese sabia que aquele era o aspecto que teve Sabrina quando menina.
Sua primeira filha tinha completado já sete anos. Caleb, de quatro anos, estava junto a ela. Reese pegou os dois nos braços e aproximou-se da borda.
— Quem quer nadar? — perguntou.
O riso dos meninos invadiu o ar e Reese sentiu uma satisfação que não teria crido possível antes de conhecer Sabrina. Ela tinha se convertido na luz de sua vida.
Deixou os meninos na área coberta, advertindo-lhes que não se aproximassem da borda, e foi para perto de sua querida esposa.
Seu precioso corpo estava intacto apesar dos dois partos e da terceira gravidez. Ainda que só estivesse grávida de dois meses, seus seios estavam extraordinariamente sensíveis.
— Como te sentes? — perguntou Reese, apoiando as mãos em suas cadeiras.
— Muito bem. Adoro navegar.
Reese inclinou-se para aspirar ao aroma de sua mulher, abraçando-a com uma intensidade que nunca poderia controlar.
— Te amo — disse, suavemente. Fazia tempo que aquelas palavras surgiam de seus lábios com grande facilidade.
— Eu também te amo.
O amor que brilhava nos olhos de Sabrina era evidente, e Reese aceitava com orgulho que ela era sua companheira em todos os aspectos. Tendo sua esposa nos braços enquanto seus filhos brincavam a uns metros, sentiu-se embargado pela felicidade que tinha buscado toda sua vida.
Sem importar o que o mar da vida lhes deparara, ele e sua família seguiriam juntos seus cursos.
Fim.
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