Gênero: Drama/Romance

Spoilers: Essa fic pode ter um ou vários spoilers seja do livro um, dois, três, quatro ou meio do quinto (haushaushaush). Eu não sei ainda aonde a minha imaginação vai me levar, no entanto estejam avisados desde logo, porque depois eu não quero gente reclamando comigo oká. E ela é uma fic slash/yaoi, então se você não curte, e nem se arrisca a por os olhos em tal espécie de texto, não o aconselho a ir adiante.

Sumário: Finalmente Seth teve sua impressão, afinal todo lobisomem tem o direito de tê-la! Mas e se essa pessoa em questão não é exatamente quem ele esperava?

Disclaimer: Essa fic foi baseada na série de livros Twilght. Todos os direitos autorais pertencem a Stephenie Meyer. Eu só peguei o gancho dela e criei uma estória a parte, só por diversão e falta do que fazer num domingo a tarde. Os novos personagens e o que acontece com eles... é tudo meu! My precious...

SUNRISE

por Ge Black-Masen

beta-read por nathsnape


Cap. 02 Baleias?!

Já fazia mais ou menos uma semana que eu estava em Washington, DC. Como qualquer turista amador ou como uma criança que acaba de ganhar um brinquedo novo, eu não conseguia desfazer aquela cara de bobo que me assomava toda vez que eu me surpreendia com alguma novidade ou costume estranho dos americanos. Nós, europeus, certamente não tínhamos um vício quase que doentio por carne, principalmente por hambúrgueres e afins – o que eu podia constatar pelos inúmeros Mcdonalds espalhados pela cidade, um em cada direção em que eu me virasse. Não era a toa que a Discovery Home & Health sempre mostrava que os americanos eram seres humanos ociosos e sedentários. Também, com tanto o que comer sem sequer ter que se mexer muito do lugar, não era de se esperar algo diferente. Se eu experimentasse o cheiro de algum humano gordinho que passasse por mim durante as minhas caminhadas de reconhecimento, certamente sentiria lá no fundo, uma pontinha de colesterol e gordura "trans".

Eu estava hospedado em um pequeno hotel, no centro, de onde eu poderia facilmente me locomover até os pontos turísticos da cidade que mereciam alguma atenção e foi em uma dessas andanças de "turista" que eu descobri que havia um pub, ou melhor, um bar, em um beco dentre as emaranhadas ruelas do centro, que era bastante freqüentado por vampiros. Eu só me perguntava por quê?! Sem contar que eu precisaria descobrir um local pra caçar, e urgente, porque com tantos prédios e asfalto, onde eu poderia encontrar algum "verde" que pudesse oferecer condições de caça ou, em outras palavras, presas?

Não foi muito difícil encontrar uma mata decente, mas em compensação, os únicos animais que eu poderia caçar em quilômetros eram pequenos roedores, e que ainda assim não ofereciam resistência alguma, já que estavam hibernando – o que eu devia ter previsto, já que eu chegara em pleno inverno. Não foi "a" refeição, mas foi o suficiente para que eu ignorasse tentar puxar para alguma ruela escura algum daqueles gordinhos que eu tinha notado que sempre passavam por ali, e me esbaldar num 'pratinho gorduroso'. Além do mais eu precisaria de uma ocupação se eu quisesse me fazer esquecer – e eu estava mais do que disposto a me fazer esquecer! – dos fatos que me trouxeram para este novo continente para início de conversa.

Eu já tinha descartado fazer Harvard. Se você quer atenção e holofotes em cima de você, você faz Harvard. Sem contar o fato de que dividir um dormitório com um monte de gente desconhecida - e que certamente debandariam enquanto eu passasse por elas - não era uma boa idéia. Eu nunca gostei de aglomerações, não desde que fui transformado; sempre levei uma vida de seminômade, passando longos períodos de tempo em várias cidades da Europa, sempre sozinho. Devo confessar que a idéia de nunca dividir a minha existência com alguém me abatia às vezes, mas nada do que eu não pudesse lidar. Quando se chega à marca de 325 anos de idade você já tem praticamente respostas e explicações plausíveis para tudo, e é claro que eu tinha uma para o fato de eu estar sozinho até hoje – mas essa não era tão convincente assim: não era o tempo certo ainda. Eu mesmo derrubava minhas especulações, fazendo o questionamento chave do qual talvez nunca encontrasse a resposta – "Mas quando seria o tempo certo?!"

Nunca tinha encontrado o amor, ou melhor, na verdade, nunca o tinha sentido ou conhecido na minha pele, mas podia ver nos olhares apaixonados que a minha mãe sempre dirigia ao meu pai, que amor verdadeiro como o deles certamente existia, e o meu estava escondido em algum lugar por aí ou, no meu caso, em alguma época por aí.

Além do mais, fazer outra faculdade estava fora de questão, pelo menos pelos próximos dez ou vinte anos. Ter tempo livre de sobra já estava começando a me dar nos nervos e não é como se eu não procurasse algo para me ocupar a cada nova década; eu procurava, encontrava, terminava e o que sobrava? Mais tempo livre, uma eternidade se você quer quantificar isso. Mas para essa década eu tinha novos planos, novas idéias, uma coisa que me fincasse nesse lugar como os perfumes uma vez me enraizaram na França (porque eu também sou perfumista, e dos bons, caso não tenha mencionado antes).

Como se algo invisível, um chamado inaudível me atraísse, eu estanquei em frente ao Smithsonian, o maior museu do mundo em história natural e da arte. "Por que eu não pensei nisso antes?!". Era uma quinta feira nublada de inverno, então eu podia andar seguramente pelas ruas sem correr o risco de "cegar" alguém com o meu brilho corporal causado pelo sol. Entrei decidido no museu, procurando pelo setor de administração a fim de falar com o curador, mas parei a meio passo da porta da Ala Norte, quando me choquei com um homem atarracado, um pouco gordinho, quase careca, usando óculos redondos e que aparentava ter seus cinqüenta anos, que de tão apressado, não me viu e eu idem, o que resultou em um monte papéis voando e ele caindo no chão. Ele levantou com uma cara de quem acabava de bater numa parede – eu não tiraria a razão dele – e me olhou esbaforido, pedindo desculpas e pegando os papéis que eu já havia juntado de pronto.

"Oh, me desculpe, me desculpe mesmo!" – eu disse, tratando logo de distraí-lo do fato de que eu não me movi um centímetro do lugar com o impacto.

"Não, não se desculpe. Eu que peço desculpas. Eu não o vi, meu rapaz! Também com tantos relatórios obstruindo minha visão... Poço lhe ajudar? Você parece perdido."

"Oh, talvez o senhor possa. Estou procurando a sala do responsável pelo setor de ciências do museu."

"Mas que coincidência! O senhor acaba de encontrá-lo."

"Sério?! Mas que ótimo!"

"Oh, a propósito, muito prazer, sou o Doutor Thomas Stiffel, co-curador do museu de história natural e biólogo-chefe responsável pelo parque zoológico do instituto."

"Stiffel? Autor daquele estudo fantástico sobre as tartarugas seculares das Galápagos? Uau! O prazer é todo meu conhecê-lo, doutor Stiffel! Chamo-me Andreas Aknos. Formei-me em Biologia Marinha em Atenas."

"O que o traz até o Smithsonian, senhor Aknos?" – ele disse, com um olhar curioso.

"Gostaria de me candidatar ao programa de biologia marinha para pesquisadores estrangeiros, para o próximo semestre. Eu sempre gostei de animais. - mais do que o senhor imagina – E cativo um interesse em especial pelas baleias."

"Baleias?" – ele perguntou surpreso.

"Sim, baleias. Orcas são as minhas favoritas. Seus hábitos sociais são tão peculiares. E me fascinam como elas podem parecer tão adoráveis e selvagens ao mesmo tempo."

"Uhn, interessante, senhor Aknos. Mas perdoe-me a curiosidade demasiada. O senhor me parece jovem demais. Quantos anos o senhor tem?"

"Dezenove."

"Dezenove? Tão jovem e já graduado? Não temos pesquisadores tão jovens assim aqui nos Estados Unidos."

"É que sempre fui avançado demais para a minha idade. Pulei várias séries durante o básico. Comecei o curso aos treze, graduei-me aos dezoito e especializei-me este ano."

"Mais interessante ainda! Na verdade senhor Aknos, abrimos uma vaga de pesquisa de campo. O senhor, caso se candidate ao programa, concorrerá à vaga com mais 15 outros pesquisadores, cujas inscrições estão em minhas mãos neste momento. E o período de inscrições termina daqui a... – aqui ele olhou rapidamente para um relógio de bolso – trinta minutos."

"Oh! Meus Deuses! Trinta minutos?! Não vai dar tempo! Vai dar tempo? Oh, não vai dar tempo!" – eu surtei ali, bem na frente do curador.

"Não se preocupe senhor Aknos. O senhor esteve com o examinador das inscrições todo esse tempo." Nós paramos então em frente a uma sala, com o nome do senhor Stiffel escrito na porta, o que eu entendi ser a sala dele, e rapidamente abri a porta, para que ele passasse.

"Mas..."

"Só preciso que o senhor preencha esta ficha de inscrição. Os documentos restantes o senhor entrega a minha secretária amanhã. O exame de aptidão é depois de amanhã, às nove da manhã. Ah! E preciso de recomendações de dois antigos professores seus." – tudo isso ele me disse enquanto entregava uma folha de papel amarelo, e mais uma branca, com uma lista dos documentos de graduação necessários a inscrição.

"Muito obrigado, doutor Stiffel, muito obrigado mesmo! Essa é uma chance única. Muito obrigado."

"Não me agradeça ainda, senhor Aknos. O senhor nem fez o exame, o qual, eu arrisco dizer, não é dos mais fáceis. Ademais, seria muito interessante ter um biólogo tão jovem em nosso quadro de pesquisa."

"Não se preocupe, doutor. Não vou decepcionar."

"Agora, senhor Aknos, preencha esta ficha, entregue a minha secretária na sala aqui em frente e nos vemos dentro de dois dias, no exame."

"Obrigado mais uma vez, doutor Stiffel."

"Não foi nada. Até logo, eu creio. Boa sorte!"

Saindo da sala do doutor Stiffel, preenchi a folha amarela, e a entreguei a secretária dele, que fez questão de não disfarçar um olhar faminto daqueles de quem vê o último copo de água do planeta! Aff! Eu e minha enfadonha fascinação.

No dia seguinte, voltei ao museu para entregar a documentação necessária para a inscrição. Não consegui falar pessoalmente com dois de meus antigos professores, mas eles me mandaram por email depois, duas cartas de recomendação recheadas de congratulações. Novamente a secretária, que só hoje descobri se chamar Juno, recebeu-me de uma forma mais do especial, eu diria, colocando meu pedido no topo da pilha, depois que lhe fiz um pequeno galanteio, dizendo que Juno era o nome da bela deusa rainha do Olimpo, e que e jovem fazia jus ao nome que recebera. Uma óbvia mentira, mas não custava nada agradá-la um pouco. Acabei por dar motivo de alegria a vida da coitada por dias!

No dia seguinte, uma hora antes da marcada para o início do exame, eu já estava na sala de espera, com mais dez concorrentes a vaga da bolsa de pesquisa, alguns que de tão ansiosos dava para eu sentir o cheiro da adrenalina no sangue deles, outros mais calmos e um mais ao canto que estava praticamente estático; eu diria que ele estava morto se não ouvisse seus batimentos nem a sua respiração de onde eu estava. Definitivamente aquele exame era muito importante para eles. Pra mim também, na verdade, porque ele seria minha saída, o meu álibi, a minha ocupação. Pois mamãe sempre dizia que "mente desocupada é oficina pros demônios!". Além do mais, eu estaria fazendo o que gosto, já que de uns anos pra cá a biologia marinha tem sido um desafio excitante pra mim, junto pra mim que sempre odiei peixe! Doce ironia do destino.

O doutor Stiffel mesmo iria aplicar o exame, já que ele consistia de duas partes: uma escrita, com perguntas dissertativas acerca da vida em habitats marinhos e a outra verbal e prática, com a demonstração in causus (sobre o caso)do conhecimento. Todos os candidatos teriam 2 horas para responder ao exame escrito e depois cada um teria 15 minutos para dar seu parecer acerca de uma situação-problema. O exame terminaria às quinze horas em ponto. O exame escrito em si não estava muito difícil; era só uma pequena análise de um ecossistema afetado por um derramamento de petróleo e um breve parecer acerca da catalogação de duas novas espécies de peixes na Grande Barreira de Corais¹. Fácil pra mim que tive tempo de sobra pra reler sobre diferentes ecossistemas marinhos antes de fazer o exame, já que dormir não era uma necessidade.

Fui o segundo no exame prático, e não demorei muito pra desenvolver meu raciocínio sobre os hábitos de acasalamento das lulas gigantes. Se eu mesmo não tivesse pesquisado sobre o assunto anos antes, adeus bolsa de pesquisa! E pela cara que o Dr. Stiffel fez quando eu terminei, arrisco dizer que a bolsa já era minha.

Quando já eram quinze horas e todos já haviam se apresentado, estávamos todos na mesma sala de espera aguardando o resultado que, graças à ausência de dois concorrentes, sairia um pouco antes do que o esperado. Não demorou muito e a secretária saiu da sala do curador, com o resultado nas mãos, dirigindo-se até o quadro de avisos no canto da sala para pregá-lo. Muitos ali não se agüentavam de tanta ansiedade, aqui eu incluo uma pequena mulher de óculos com armação tartaruga que não parava de estralar os dedos de forma nervosa – e irritante! Todos se dirigiram até o quadro para saber quem houvera sido o felizardo merecedor da bolsa. Para minha total surpresa, meu nome não estava no topo da lista, e sim o do homem que eu achava que estava "morto" na sala de espera antes do exame. Pensando bem, seria prepotência minha achar que eu conseguiria a bolsa assim tão facilmente, até porque talvez ele fosse mais merecedor dela do que eu. Talvez tivesse se preparado mais. É talvez.

Cessados os parabéns, e apertos de mão, subtraindo-se aqui o meu por óbvias razões – ninguém quer sua mão apertada por um iceberg – a maioria já se dirigia para a saída do museu quando a senhorita Juno me chamou.

"Senhor Aknos, o senhor não pode ir embora antes de falar com o Dr. Stiffel. Ele pediu que o senhor fosse a sala dele assim que todos fossem embora. Ele quer conversar com o senhor."

"Oh, comigo?! Agora?! Claro. Claro, porque não?!"

"Por aqui senhor, ele o espera." – ela disse, se levantando de forma esguia e galanteadora, convidando-me a segui-la.

Ao entrar no gabinete do curador, o encontrei em pé, a um canto da sala, olhando pela janela o sol que tentava relutantemente aparecer em meios as pesadas nuvens. Como ele não me notara, resolvi me pronunciar.

"Pois não Dr. Stiffel. O senhor queria me ver?"

"Pois sim, certamente. Sente-se senhor Aknos. Tenho uma proposta para o senhor."

"Uma proposta doutor?" – disse assim que sentei e ele também.

"Sim, uma proposta. E pelo que o senhor me disse há uns dias atrás, quando nos conhecemos, certamente não irá recusar."

"Oh, pois então diga doutor, sou todo ouvidos."

"O chefe do nosso programa de observação e combate a caça predatória às orcas, na Península de Olímpia, em Washington, disse estar precisando de um pesquisador jovem, audacioso e com bastante energia, para ser seu observador em terra e estudar os hábitos das orcas enquanto elas estão próximas da costa. E também, ao que parece, a equipe volta para o Alaska na primavera, a fim de seguir as baleias em migração. Como sempre ficam algumas para trás, ele quer deixar um membro da equipe em Port Angeles, que é onde fica a nossa base, justamente para descobrir o motivo da estadia mais demorada dessas baleias. Se o senhor aceitar, o senhor parte amanhã mesmo, já que pelo seu exame, não tenho a menor dúvida em aceitá-lo para a vaga. A outra vaga que tínhamos era para trabalho interno, coisa burocrática. Como vi nos seus olhos o mesmo brilho que os meus costumavam ter, enquanto falava sobre a vida marinha com tanta paixão, percebi que estaria desperdiçando seu potencial enviando-o para o Havaí."

"Havaí?" – perguntei, tomando o cuidado para disfarçar a surpresa.

"É, Havaí. O rapaz que ganhou a bolsa tinha mais especializações que você, de fato, mas não me impressionou como devia. Só o bastante para conseguir passar dois anos fazendo a supervisão de outros biólogos na base de Honolulu. Agora o senhor, meu rapaz, fez por merecer essa oferta. Três anos de pesquisa, totalmente financiada pelo instituto e com a autorização do museu nacional, e mais passe livre entre a fronteira com o Canadá, na área da península e da Ilha Vancouver. Então, o senhor aceita?"

"Se eu aceito? Aceito, com certeza! O senhor acaba de ganhar o seu pesquisador, doutor."

"Perfeito! Sua documentação já está toda conosco, então a papelada e toda aquela burocracia de visto estará pronta amanhã de manhã. O senhor parte para Seattle pela tarde. De lá o senhor pega um avião menor até Port Angeles. Haverá um membro da equipe lhe esperando no aeroporto que irá acompanhá-lo até a base."

"Muito obrigado doutor. Muito obrigado por estar dando um voto de confiança a mim. O senhor não irá se decepcionar."

"Você disse isso há dois dias e não me decepcionou rapaz, muito pelo contrário. É com prazer que o Instituto Smithsonian o acolhe como seu mais novo membro. Eu sugiro que o senhor comece a fazer suas malas. E não se esqueça de comprar agasalhos, muitos agasalhos e botas, porque o senhor estará indo para a área mais chuvosa do estado. O sol é uma raridade por lá." – ele disse já se despedindo.

Ai que maravilha! Nada de sol? E eu ainda vou trabalhar sozinho? Co a liberdade de conduzir minha própria pesquisa? Que sonho! Isso é um sonho! – pensei em devaneios...

Com a perspectiva de um ano maravilhoso se descortinando para mim a partir já do dia seguinte, resolvi ir pela primeira vez naquele bar atulhado de vampiros, próximo ao hotel, para comemorar, ou só pela curiosidade de saber o que de tão interessante havia naquele lugar. No caminho eu imaginava o que eu encontraria lá, já que só sabia que existiam outros da minha espécie ali por causa do cheiro e porque eu via a aura vermelho turvo dos que entravam e saiam dali. O cheiro de sangue humano abundava no ar já a dois quarteirões antes do bar, e quanto mais eu me aproximava, mais palpável ele se tornava pra mim, cinco vezes mais aguçado do que os meus instintos já permitiam, dada a minha capacidade especial. Saia uma música pesada do lugar, um tipo de heavy metal diferente e dark, carregado de gritos e solos de guitarra, coisa digna do KISS ou Marylin Menson. Quando eu ouvi uma gargalhada gutural que se misturava sutilmente a um rosnado de advertência, o som de algo grande batendo pesadamente contra o que parecia ser a parede e vidro quebrando, percebi que ali eu não poderia sequer pensar em desligar meus instintos de defesa, não quando sabe lá quantos outros vampiros não estavam nem aí uns pros outros e destruírem-se a si mesmos era mais uma diversão do que qualquer outra coisa. Eu não estava com medo, até porque eu podia muito bem me virar sozinho quando eu precisava e não é como se eu fosse uma criança indefesa quando eu tinha além dos músculos e dentes, uma mente capaz de imobilizar facilmente outro vampiro. A nossa pele podia resistir a tudo, menos aos nossos próprios dentes, mas comigo eles tinham outra coisa com o que se preocupar.

O nome do bar era Blood Sea, e a calçada cheia de marcas de sangue – humano, notei pelo cheiro – só dizia como aquele nome lhe caia como uma luva. Na porta havia dois grandalhões negro-apáticos, com cabelos trançados em dreads grossos presos num rabo de cavalo frouxo nas costas, e que tinham uma cara de poucos amigos que tentava parecer ameaçadora, mas estava mais pra cômica, na minha opinião – e eu tive que conter um riso baixo. Eles não seriam problema se não encrencassem comigo; tudo ficaria bem se eles ficassem na deles. Eu simplesmente os ignorei e me dirigi a porta.

"Hei! Quem você pensa que é para ir entrando assim aqui, hein criança?" – o da direita disse, me barrando enquanto eu passava por eles.

"Aqui não é um bar para bebedores de sangue?" – a cara que eles fizeram não foi de surpresa, mas sim de desgosto pelo termo que eu usei. "Não?! Huum... Será que eu me enganei?!" – eu perguntei de novo fazendo a maior cara cínica do mundo.

"Quem é você? Responda ou eu quebro cada ossinho seu antes que você possa dizer 'sanguessuga'." – e foi só quando o grandalhão da esquerda falou que eu notei que ele não era vampiro. Ali tinha tanto cheiro de sangue humano que eu nem consegui distinguir o cheiro dele do resto.

"Você só precisa saber que eu não sou ninguém que você queira conhecer. E você nunca conseguiria quebrar um osso meu, caso queira saber." – Eu levantei uma sobrancelha só pra questionar se ele havia entendido a minha deixa.

Ele liberou a passagem – ele entendeu então! - e me deixou passar, mas não antes de me dizer, alertando, "Nunca o vi por aqui. Você deve ser novo na cidade, deu pra perceber pelo sotaque. Cuidado lá dentro criança. O clima hoje ta um pouco mais pesado que o normal."

O que ele quis dizer com "um pouco mais pesado que o normal" e porque ele se deu ao trabalho de me alertar para início de conversa?! Minhas perguntas mudas foram rapidamente respondidas assim que eu cruzei o último pórtico, dando em um salão amplo, mas quase que totalmente escuro, 'iluminado' por lâmpadas de luz negra. Se eu já quase tocava o cheiro de sangue lá fora, aqui dentro eu podia cortá-lo em dois com uma faca de tão denso e carregado o ar estava. Eu notei logo de cara a pilha de corpos num canto mais afastado do bar, próximo ao grande balcão, já que era lá a fonte do cheiro, e constatei que talvez esses vampiros não precisassem caçar, eles só tinham que 'comprar' o seu sangue no barzinho da esquina. "Que curioso... hunf! Ótimo! Olha aonde eu vim parar!". Tal como o vigia lá na porta - que talvez só servisse para afastar humanos curiosos, por isso a cara de 'mau' - me alertou, o clima estava mesmo meio pesado demais. Eu compararia o clima ao de um velório, o que não seria uma comparação muito justa, dado ao fato de que todos naquela sala já estavam mortos.

O que mais me aliviou foi que a minha presença não havia sido notada, como se eu fosse mais um dentre os que já estavam ali dentro, não merecendo atenção. Procurei sentar no canto mais afastado do balcão, no extremo oposto a onde se encontravam os corpos empilhados e – só agora eu havia notado isso – ao seu lado, dois outros, que pareciam ser de dois homens, estavam de cabeça para baixo, presos a uma viga pelos pés, com o seu sangue escorrendo pela jugular desfacelada, ajuntando-se dentro de uma bacia. Repulsivo!

Foi quando eu dispensei o 'barmen' dizendo-lhe que não queria nada, ao que ele me respondeu com um olhar desconfiado, e a música que ainda tocava acabou, dando uma pausa para que outra começasse, que eu peguei de relance o diálogo de quatro outros vampiros sentados numa mesa no outro canto do cômodo. Aquilo teria passado despercebido por mim, se não fosse o tema da conversa e as pessoas que eram alvos daqueles murmúrios baixos: Os Volturi. Falavam de forma cochichada, em uma estúpida tentativa de que ninguém ouvisse. Um nômade de nome Isaac estava comentando acerca de rumores de uma visita que muito brevemente a tríade juntamente por seu séquito faria a América, por motivos até então desconhecidos.

"Você sabe Faro, você viu o que os Volturi fizeram àqueles vagabundos baderneiros em Toronto. Demetri, aquele perseguidor 'biônico' deles, estraçalhou um a um como se fossem feitos de papel. E não adiantava se esconder porque ele mais cedo ou mais tarde os encontrava. Até você ficou com medo. Admita!"

"Eu?! Eu não! Eu só prezei pela minha vida! Jamais ficaria lá, esperando que ele me destroçasse também, mesmo eu não tendo vendido meu peixe naquela história! Você ficaria Gabe?!" perguntou ao homem ao seu lado num tom de desconfiança.

"Eu também não! Mas o que me deixa muito receoso é o porquê destes rumores estarem correndo por estas bandas justo agora. Para se existirem rumores, existem notícias verdadeiras, pois ninguém levanta rumores sem fundamento! O que a realeza quer visitando sua "colônia" mais distante? Algo de bom certamente não é, pois eles jamais saem de Volterra. – ponderou o tal de Gabe.

"Obadiah me disse em Seattle, antes de partir para o Canadá, que acredita que as coisas são mais sérias do que aparentam. Ele ouviu que eles fariam essa visita por causa de uma mulher humana, mas também foi só o que pode apurar dos boatos. Ele também ouviu que nas proximidades de uma cidadezinha de Washington de nome Forks, uma batalha acontecera porque vira a fumaça branca da queima de muitos corpos. Além do mais ele notou que os ataques que estiveram acontecendo em Seattle cessaram depois do dia em que viu a fumaça. Supostamente a armada dos Volturi fez uma de suas usuais visitas de rotina. Falou também que Demetri andou caçando alguns coitados quando passou por Salem só para descarregar a raiva, depois do ocorrido em Forks. Eu evitaria aquelas bandas se fossem vocês." – advertiu isso, o último, que vestia um moletom preto com as mangas rasgadas, de nome Job.

"Existem histórias de que existe um clã habitando aquela área, mas nada confirmado. No entanto Laurent, vocês lembram-se do Laurent não?" perguntou brevemente para constatar atenção dos ouvintes, ao que todos acenaram. "Pois é, a última vez em que se soube dele, ele estava caçando por lá. Depois..."

A conversa rapidamente se findou quando outro grupo de vampiros, que estavam no outro canto do bar, começaram a brigar e rosnar uns para os outros. O barman, que aparentemente era também o dono do lugar, saiu em um pulo de trás do balcão e junto com o segurança vampiro se dirigiu para o bolo de corpos que eram os três animais se mordendo. Não fiquei pra saber que fim deu-se aos que ainda ficaram lá, pois aproveitei a distração dos locais para me esgueirar e sair dali o mais rápido e sorrateiramente possível. Só o segurança humano notou quando eu já saia na porta e me dirigia de volta para o hotel, controlando a muito custo os meus passos, para não sair voando dali.

"Eu não disse pra você que o clima estava meio pesado aí dentro?! Tem estado assim desde que os rumores sobre os Volturi chegaram por aqui, e as visitas frequentes da armada ao país contribuíram. Tudo anda meio 'instável' sabe..." – ele disse.

"Sei, deu pra perceber isso."

"Não vou dizer pra voltar mais vezes, porque eu não diria isso nem pra o meu pior inimigo se eu pudesse, mas volte, se você quiser." – ele falou olhando de forma sonhadora pra mim. Ah, a maldita fascinação de novo!

"Não, obrigado." – eu, como sempre, delicado como uma serra elétrica. Dei meia volta nos calcanhares e em menos de cinco minutos já estava de volta ao hotel. Liguei a luz do quarto e me pus a arrumar as minhas malas. Havia passado mais cedo em uma loja de departamentos e comprado o que eu certamente precisaria: os agasalhos, não para me esquentar, mas para a máscara de faz-de-conta de garoto humano, as botas, roupas de trabalho. Aproveitei para ir a algumas lojas e comprar outras roupas de sair, pois nunca se sabe, e mesmo lá sendo o lugar que certamente mais chove no mundo, o seguro morreu de velho.

No dia seguinte, a senhorita Juno me ligou bem cedo, para avisar da hora do vôo e dizer que toda a documentação e mais as autorizações devidas estavam em uma pasta endereçada a mim, sob a guarda da companhia aérea. Desejou-me boa viagem e pediu que fosse visitá-la caso voltasse a Washington em breve. Não dei esperanças a ela, mas agradeci a cortesia.

Na hora marcada, peguei um taxi e me dirigi ao aeroporto, com a expectativa de uma criança que vai conhecer o papai Noel! Parte de mim ainda não acreditava que aquilo acontecera comigo e a outra parte dizia para que eu parasse de me dissuadir e aproveitasse o momento. E foi o que eu fiz, eu curti o momento, até o avião pousar em Seattle e eu tomar o outro vôo, no aviãozinho menor até Port Angeles, onde eu deveria me encontrar com o enviado da equipe do Dr. Jeferson, o chefe do programa de observação das orcas.

O rapaz era simpático e aparentava ser cinco a seis anos mais "velho" do que a minha aparecia externa demonstrava, penetrantes olhos azuis e pele clara. Não diria como a minha porque mesmo depois da transformação mantive o meu moreno jambo, só que mais pálido.

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"Boa tarde. O senhor deve ser o senhor Aknos. Eu me chamo Justin. Sou o subchefe da equipe do Dr. Jeferson."

"Olá, muito prazer! Andreas. Pode me chamar só de Andreas. E, por favor, não sou mais velho que você, por isso esqueça o 'senhor' ok?" – eu disse apertando levemente sua mão, já que eu estava de luvas.

"Ok. Será Andreas então. Vamos? O doutor está esperando pelo s... por você. Ele está na base para vê-lo e lhe dar todas as informações que precisar. A equipe parte amanhã, ao meio dia, para o Alasca, então ele espera que você já esteja preparado para se virar sozinho até lá. Ele raramente sai do barco, então acho melhor nos apressarmos."

"Certamente. Vamos então. Não o deixemos esperando."

A cidade não era lá uma metrópole, já que se passaram mais ou menos dez minutos no percurso do aeroporto até o cais, onde ficava a base. Apesar de pequena, a cidade era simpática, pelo menos a noite – sim, a essa altura já era noite. E sentia-se o ar de cidade litorânea em qualquer lugar ali.

Chegamos ao cais e fui logo recebido, assim que desci do carro, por um homem alto, magro e com cabelos tão brancos quanto à neve, que me olhava como uma criança olha para um presente que acaba de ganhar.

"Olá! Olá! Boa noite! Você deve ser Andreas. O doutor Stiffel me falou muito sobre você. Disse que mesmo não o conhecendo muito bem, você passou a ele uma segurança que ele jamais sentiu em outra pessoa. Por isso o indicou a vaga. Fico feliz que tenha aceitado."

"Eu que fico feliz por ter aceitado a oferta do Dr. Stiffel. Espero corresponder as expectativas dele e as suas também, doutor."

"Certamente, certamente. Isso só o tempo e o seu trabalho dirão meu rapaz. Mas por hora, você deve estar faminto e cansado, passou a tarde toda no avião. Você não quer descansar? Pela manhã nós conversamos mais calmamente e eu lhe dou todas as coordenadas necessárias."

"Na verdade, não estou muito cansado doutor. E eu comi no avião, então... Por que não começamos agora mesmo?" – eu respondi, solicito.

"Porque EU estou cansado meu rapaz, e um pesquisador, na minha idade, deve aproveitar cada segundo de descanso que lhe é oferecido, pois o mundo é imenso demais para se observar em um só dia. Não se preocupe, já está tudo acertado. Amanhã lhe explico direitinho. Agora só posso lhe adiantar que você virá a base somente para transmitir o andamento da sua pesquisa para o nosso navio no Alasca e para o instituto, em DC.² Obviamente, para pegar mantimentos também. No entanto, você ficará no posto avançado de observação, localizado na orla da reserva indígena de La Push. Qualquer coisa que precisar, é só contatar o xerife Charlie, em Forks."

"Forks?!"

(¹): A Grande Barreira de Coral é o maior recife de coral do mundo, com uma extensão de cerca de 2300 km, situada junto à costa nordeste do estado australiano de Queensland.

(²): Como os americanos chamam Washington DC, a capital dos EUA.

N/A: Sorry!! Eu sei que eu demorei horrores pra atualizar a história, mas é pq eu andei meio ocupada com a facul e tals... Contudo, aki está mais um capítulo novinho. Espero que tenham gostado de lê-lo tanto quanto eu gostei de escrevê-lo. E para aqueles que ficaram desapontados porque o Seth não apareceu nesse capítulo de novo, só peço um pouco de paciência. Ele vai aparecer, no próximo capítulo... eu acho! rsrsrs Ah e desculpem o vocabulário rebuscado e antiquado de algumas partes (ou da fic toda! ¬¬'), mas é porque eu tentei expressar que esse era o modo do Andreas falar entendem, devido aos anos de experiência nas costas e tals. Ah, vcs sabem do que eu to falando! O Edward fala assim as vezes.

É isso. Como ninguém me deixou uma insiginificante review no capítulo passado, o que me leva a crer que ninguém lê essa fic mesmo e eu tô postando ela de introzada que sou, não há o que responder a nenhum leitor. Espero que o quadro clínico mude daqui em diante. Reviews incentivam o autor a escrever, meus queridos! Exerçam esse facinante poder sobre mim.

Inté o próximo capítulo... (que eu não sei quando vem, vai depender das reviews)

Bjunda da Gê!

Parênteses: ESTE CAPT FOI ALTERADO. HÁ CERTOS TRECHOS QUE FORAM MUDADOS PARA ENQUADRAR A FIC DENTRO DO CONTEXTO DO ÚLTIMO LIVRO. RELEIAM, POR FAVOR, PARA ENTENDER A HISTÓRIA. OBRIGADA!