Prólogo
Oxfordshire, Inglaterra
-Perfeito, agora o que quer? Um golpe no estômago possivelmente?
Edward torceu seu lábio superior um pouco parecido com um sorriso e logo se deixou cair na cadeira frente à delicada mesa de chá, pertencente à esposa de seu melhor amigo Charlie.
-Agora que sabe sobre meu pequeno segredo, espero que não saia correndo como uma galinha pensando que vou tomar seu sangue a qualquer momento.
-Bem.
Edward piscou surpreso.
-Bem? Eu te digo que sou um vampiro e que vivi durante quinhentos anos e você somente me diz isso?… Bem? Ah demônios.
-Ouça, ouça; eu já te disse que somos amigos aconteça o que acontecer, não é para que te retorça enquanto lhe recordo isso. Cai-me bem Cullen, é somente isso.
-Obrigado, você também me cai bem Charlie, ou isso eu acredito.
Charlie se serviu de um bom copo de uísque e o tomou de um só gole.
-Droga! Por que alguma vez não me ocorreu isso? Nunca comia conosco, não se deixava ver a luz do sol e sempre andava pálido – voltou a servir outro copo e esta vez começou a bebê-lo pouco a pouco – Espero que não tenha pensado em matar a mim ou a Renée e logo sair pela porta.
Edward sorriu e negou com a cabeça. Não tinha a mínima intenção de fazer algo a alguém como Charlie e sua esposa; voltava a repetir, era seu melhor amigo, além disso, o único conhecedor do seu segredo. Observou a janela descoberta que permitia a lenta entrada da luz da lua cheia e recostou sua cabeça ao observá-la.
-Acredita que posso explorar seu jardim?
-Claro, claro… Todo seu – disse servindo seu terceiro copo de uísque.
-Deixa de beber, Renée se zangará se te encontrar ébrio.
Edward se sentou na grama e observou diretamente a lua. Sentia-se como se estivesse esperando algo, quão mesmo esperava há quinhentos anos. Quando viria a ele? Não estava muito seguro, só que lentamente a solidão vinha consumindo-o nas sombras… Necessitava que "ela", sua companheira, viesse por ele.
Viesse a sacudi-lo e o salvar da miséria, de sua própria escuridão e dos demônios que o acossavam do passado mais longínquo que pudesse recordar.
Havia um rio a seus pés, mas não se preocupou em agachar-se para olhar seu aspecto, já que sabia que não se refletiria nele. Os vampiros não tinham reflexo por não possuir uma alma a qual refletir. Mas então se não tinham alma por que seguia ele e os seus vagando das trevas? Não tinha certeza.
Só sabia que Deus os tinha odiado e aos que odiava os castigava e para ele e sua gente tinha decidido o pior dos castigos… convertê-los em bestas sem alma e com sede de sangue, destinados a vagar pelas trevas durante uma eternidade.
O som de uma risada inocente alcançou seus ouvidos, os pezinhos arrastando-se pela grama lhe fizeram levantar a vista. Que hora era? As pessoas ainda deixavam seus filhos fora das casas tão tarde?
A risada em processo e a sombra de uma menina se plantaram a seus pés. A escuridão da noite, a lua tinha sido coberta pelas negras nuvens que refletiam a tormenta que se aproximava, não deixava vê-la, tão somente o voar de seu vestido de renda e seus cabelos soltos formando redemoinhos pelo forte vento.
-Está triste por algo, senhor? –A voz era doce, infantil e cheia de inocência primaveril, aquelas que somente as pessoas que não viram nada capaz de corrompê-los possuem; algo que ele não era.
-Por que pergunta, pequena senhorita?
Ela soltou uma risada.
-Porque ao longe parecia como se fosse chorar.
"Curioso." Pensou Edward.
-Entendi… Obrigado por se incomodar em vir até aqui para saber como eu estava –Sorriu levemente –E perdoe por havê-la preocupado milady, mas esqueça. Eu sou bem capaz de suportar os golpes mais cruéis do destino.
Ela hesitou em falar.
-Gosta de flores, senhor?
-Sim, certamente.
A menina procurou em seu bolso e tirou um botão de rosa para entregar-lhe nas mãos. A lua saiu detrás da nuvem e com sua luz pôde dar-se conta que era branca… Pura e deliciosamente branca. Levantou o rosto.
E foi como se lhe tivessem golpeado. Agora podia vê-la bem, a menina não teria mais de cinco anos, mas o desejo precoce o invadiu… Os olhos castanhos observavam curiosos e inquietos e os cabelos castanhos completamente encaracolados se enroscavam e brincavam com o vento. Por ser somente uma menina, era a criatura mais formosa que tinha visto…
Não acreditava… Simplesmente não podia.
-Não vai me agradecer?
-Obri… Obrigado.
E o sorriso que lhe deu foi suficiente para comprová-lo. Depois de quinhentos anos a tinha encontrado. Sua companheira estava diante de seus olhos. Mas ela saiu correndo antes que pudesse dizer algo mais e ele estava muito assombrado para segui-la.
Entrou no escritório de Charlie, ele estava completamente adormecido sobre sua cadeira. E ao lado dele algo no que jamais tinha reparado. Uma foto de sua família.
Estava Renée, Charlie… E sua companheira nos braços de ambos; a filha de seu único amigo humano. Sabia que era um grave engano, mas o destino era o destino… E a inocência dela era sua única salvação.
