Parte 2: A Dança das Uvas

Uma névoa foi dominando a visão de Rangiku.Esta durou alguns segundos,dando lugar a um turbilhão de imagens diversas e confusas que se aceleravam.Imagens essas de vários episódios vivenciados em reminiscências de passados recentes e longínquos da moça.

Depois de algum tempo,uma determinada lembrança,chamou mais a atenção dela,pois em pouco tempo,descobriu que podia se apegar a alguma e vê-la mais atentamente.

-Eu me lembro disso...foi há muito tempo...Sim,eu me recordo desses tempos!!Dessa minha vida,tão perdida e esquecida em meu passado tão remoto!!-Pensou Matsumoto com um doce sorriso.

Então,ela mesmo,nesse exato momento,se tornou testemunha de fatos tão antigos,cujos protagonistas são ela e algumas pessoas que lhe foram caras em outra vida...

Rangiku,percebeu que seu corpo,estranhamente estava dentro daquela paisagem bucólica que estava observando.

Tudo ali parecia ser bem familiar para ela...e então passou a acompanhar tudo,como se fosse uma mera espectadora de uma peça de teatro...

ITÁLIA - INÍCIO DO SÉCULO XX

Região do Piemonte...

Num verdejante campo,preso entre as montanhas ao fundo,e alguns bosques de coníferas e carvalhos,encontram-se um parreiral com belíssimas uvas preto-azuladas,bem pequenas,e assaz perfumadas.

As uvas estavam sendo colhidas por jovens mulheres que carregavam cestos de palha.Elas cantavam animadamente uma doce canção de amor,que podia ser ouvida ao longe...

Quase bem próxima do parreiral,uma linda jovem mulher,amassava as uvas numa grande tina,em que na outra extremidade saía um líquido de aroma penetrante e agradável,que caía num tonel...

A moça era ruiva,de longos cabelos presos num lenço vermelho;olhos verde-azulados,com rosto bonito e faces rosadas pelo esforço do trabalho,com uma pinta bem próxima dos seus lábios carnudos e vermelhos como morangos.

Era um pouco alta,com um corpo bem curvilíneo de formas generosas e seios fartos.

Vestia uma roupa simples de camponesa,ou seja:Uma blusa azul com laço na frente,um corpete marrom que realçava os seus seios e deixava seu corpo bem moldado;uma saia grená longa,que estava amarrada na altura dos joelhos,à fim de não sujá-la em seu trabalho.

Ela fazia a sua tarefa com muito entusiasmo,como se estivesse dançando,entre as pisadas nas uvas escuras,que deixavam os seus pés tingidos da cor das uvas.

E não tardou para que cantasse também da mesma canção que as jovens senhoritas ao fundo entoavam.

A moça labutava com imensa alegria,e nem o cansaço a impedia de parar...

E isso era motivo suficientemente fértil para uma inspiração artística para um jovem homem que estava sentado debaixo de um carvalho de tronco grosso e copa frondosa.

O moço era franzino de corpo e com estatura normal para um homem de sua idade;tinha cabelos muito claros,platinados;olhos castanhos avermelhados,alongados e semelhantes as de uma raposa;rosto fino e delicado;e um sorriso largo nos seus lábios finos e longos.Usava um boné de pano amarelo quadriculado de marrom e verde,estilo italiano;estava vestido com uma camisa branca de algodão,um pouco desabotoada,com a gravata marrom frouxa,paletó de lã marrom,colete cinza e calça cinza escura,com sapatos pretos e meias também pretas.

Ele estava descontraidamente observando a moça dançando e amassando as uvas na grande tina,enquanto a desenhava num caderno com capa de couro macio e claro,com um pedaço de carvão.

A jovem,percebeu que estava sendo observada por aquele rapaz que fazia alguns rabiscos demoradamente naquele caderno de couro.Ele sorria pra ela enquanto a desenhava...

Aquilo ali a intrigava tanto,que ela não se conteve e perguntou para ele:

-O que faz você aqui me olhando?-Ela parou de amassar as uvas e segurou suas duas mãos na borda da tina.

-Ah...eu estava aqui admirando a sua beleza que está servindo de inspiração para o meu desenho.-Disse o rapaz com um sorriso sincero e com uma expresão tranqüila.

-Posso ver o que você está desenhando?-Disse a moça um pouco curiosa,enquanto balançava com as mãos num gesto pra que ele se aproximasse dela.

Ele se levantou,sacudindo com as mãos o pouco de terra e grama que estava em sua roupa e foi até aonde ela se encontrava,mostrando seu caderno pra ela.

-Eis aqui o meu trabalho!!Espero que o aprecie...-Disse o jovem com um sorriso enquanto lhe entregava o desenho.

-É realmente muito bonito mesmo...!!Digno de um artista!!-Disse a moça com um olhar de aprovação e um sorriso doce.-Você tem muito talento para desenhar!!

De fato,era um lindo retrato dela mesma feito com um delicado estilo artístico,num momento em que ela estava distraidamente amassando as uvas com os seus pés.

-Qual é seu nome?É um artista?De onde veio...?Nunca te vi por aqui...!!-Disse apressadamente a moça,quase atropelando as palavras,tamanha a curiosidade em saber mais detalhes dele.

-Calma aí,senhorita!!Fale mais devagar,para que eu possa te responder adequadamente!!-Disse o rapaz um pouco aflito.

-Ah...sim,me desculpe...-Ela ficou com as faces coradas,e então olhou para ele.-Qual é seu nome?

-Meu nome é Ignatio Gianinni;sou um estudante de arte em Milão,e vim para esta cidadezinha em busca de inspiração para meus projetos artísticos,que futuramente me atrairão uma boa clientela.Satisfeita?-Ele sorriu com uma plácida alegria.-E você,senhorita,como se chama?

-Sou Renata Maldovanni,e trabalho na vinícola do meu pai.-Ela ergueu sua mão para cumprimentá-lo.-Eu nasci aqui nesta cidade,e gosto de ajudar todos na fabricação do vinho!!

-Muito prazer em te conhecer!!-Ele tirou o boné da cabeça e com o caderno debaixo do braço,fez um gesto de reverência.-Hum...me parece ser bem interessante esse seu trabalho de fazer o vinho...O aroma das uvas é muito bom!!

-Quer experimentar amassar as uvas aqui comigo?-Disse a garota com um sorriso.

-Eu posso?Posso MESMO?Não seria ousado de minha parte entrar aí dentro desta tina?-Ele estava um pouco encabulado.

-Ah...não...!!Não tem nenhum problema!!Tire os seus sapatos e venha para cá!!-Disse com muita animação.

-Então está bem!!Me espere só um minuto!!-Ele foi até a árvore apressadamente.

Então o rapaz,se sentou,deixando seu caderno e seu boné ao lado de uma valise de couro marrom.Tirou o paletó,o colete,arregaçou as mangas da camisa,tirou os sapatos e as meias,arregaçando as bainhas de suas calças.

Em seguida,levantou-se e se dirigiu até a tina,onde estava a garota.Subiu cuidadosamente numa bancada de madeira e entrou dentro da tina,onde sentiu como eram frias as uvas,e com uma sensação diferente e interessante,quando seus pés mergulhavam nelas...

-Como devo fazer?-Perguntou com curiosidade,Ignatio.

-Com firmeza,e ao mesmo tempo,como se estivesse dançando.Sugiro que faça de conta como se estivesse dançando...Segure em minhas mãos e dance comigo!!-Renata segurou nas mãos dele,dançando e o olhou com um lindo sorriso.

E ficaram amassando as uvas,dançando e cantando,entre risos e alegria,num rodopiante embalo da canção que ao fundo as moças do parreiral entoavam animadamente...

-Isso é muito agradável...a sensação das uvas nos pés...muito relaxante!!-Disse Ignatio entusiasmado.

-Sim,sim...é muito bom mesmo!!-Disse Renata sorrindo e olhando para o moço com doçura. -Faço isso desde que eu era pequena,e eu gosto de trabalhar na vinha de meu pai!!

Estavam amassando as uvas numa dança contagiante...o tempo passava bem depressa,que quase que não percebiam que ali,logo ao fundo,onde ficava o parreiral,as moças que colhiam as uvas estavam terminando o trabalho do dia,quando juntavam as frutas num cesto de palha que carregavam nas costas,como se fosse uma mochila.

-Olhe só para elas...já vão trazer mais uvas para cá!!-Disse Renata mostrando o parreiral para Ignatio.

-Sim...estou vendo...-Ele tirou do bolso da calça um relógio de bolso e ficou preocupado.-Infelizmente tenho que ir embora,linda senhorita...-Disse com pesar o moço.

-É mesmo?...-Ela ficou um pouco desanimada com o que ele lhe disse.

-Não fique assim...depois eu volto em outro dia...-Disse Ignatio com um brilhante sorriso.

Ele saiu da tina,no que foi seguido pela doce Renata.Ela ofereceu uma toalha para que ele possa limpar os seus pés,que estavam sujos e molhados da tintura das uvas tão escuras.

De fato,seus pés estavam realmente melados e molhados das bagas das uvas e tingidos das cores delas.E logo tratou de secar e enxugar bem os seus pés,antes pensar em calçar os seus sapatos.

O moço sentou-se depois,embaixo do carvalho,ajeitou as mangas da camisa,fechando os botões do punho delas.Vestiu suas meias e calçou seus sapatos,e abaixou as bainhas de suas calças;pôs o caderno de desenho dentro da valise de couro,e então se levantou,vestindo o colete.Ao pegar o paletó,o sacudiu à fim de tirar o pouco de grama e folhas secas que nele haviam,vestindo-o à seguir.E por último...o boné,que antes de colocar em sua cabeça,passou sua mão em seu cabelo platinado,para tirar umas folhas de carvalho que teimavam em não sair de seus cabelos.

Ele pegou a valise,e conferiu,se não esqueceu de mais nada ali;se deixou tudo acomodado dentro dela.E então,a segurou com uma das mãos.

-Bem...agora eu tenho que ir,minha doce senhorita...Renata...

-Isso,sou Renata!!Não tem como você ficar mais um pouquinho comigo?As meninas vão trazer mais uvas para pisarmos...-Disse Renata um pouco esperançosa.

-Se eu pudesse,ficaria mais tempo aqui contigo...mas eu não posso,pois tenho que voltar para a pousada onde estou.Tenho coisas para resolver...Coisas do meu trabalho e também a minha estadia.

-Você está hospedado aqui perto?

-Sim...bem próximo desta vinícula,numa hospedaria.Aqui pretendo passar um tempo e trabalhar em esboços e pinturas...Vou montar um pequeno ateliê e praticar a minha arte...e quem sabe consigo um reconhecimento como artista?Quero mostrar ao meu mestre do que sou capaz!!

-Está bem...Ignatio...-Ela sorriu para ele com mais tranqüilidade.-Então vá...Mas voltarei a te ver outra vez?

-Claro que sim!!Pois estarei por aí nesses campos verdejantes,buscando inspirações para as minhas pinturas...e o seu desenho,ainda não terminei...Quando tiver pronto,prometo mostrar para você!!-Disse Ignatio com um lindo sorriso,que deixou a moça animada.-Até outro dia,minha linda senhorita!!

Ele delicadamente segurou a mão da bela moça e beijou-a com suavidade,olhando-a em seus lindos isto,as faces dela ficaram rubras pelo gesto do gentil cavalheiro.

Em seguida,ele se retirou dali,acenando com uma das mãos sorridente para ela,carregando a valise em outra mão.

A jovem,estava se despedindo do rapaz com um aceno de mão,quando as outras moças dela se aproximaram.Ficaram todas muito curiosas em vê-la ali há alguns minutos antes conversando com ele.

-Quem é ele?-Disse uma delas com curiosidade.

-Nunca o vimos por aqui...-Disse a outra enquanto descansava o cesto no chão.

-Quem será esse homem tão charmoso,Renata?

-Um maravilhoso e tão educado estudante de artes que veio conhecer nossa terra...-Disse Renata com um olhar sonhador,enquanto suspirava de alegria.-Vamos!!Temos que cuidar logo dessas uvas!!-Disse a jovem com determinação.

E assim,Renata voltava a labuta com suas companheiras,ajudando-as com os cestos de uvas,enquanto olhava ao longe,o jovem homem que caminhava lentamente até sumir na direção da colina.

Ela desejava esperançosamente que em breve,numa oportunidade qualquer,possa um dia se reencontrar com aquele homem de sorriso misterioso e encantador que a desenhou tão bem...e que deixou uma luz entrar em sua vida de moça simples do campo...

Enquanto isso,Rangiku Matsumoto observava tudo isso que estava acontecendo,e sentiu um aperto em seu coração...

Mas um aperto de felicidade,pois ali começou a se recordar daquela lembrança específica...

...Do dia em que conheceu aquele que se tornou seu grande amor de tantas eras...

-Ah...Ichimaru...Meu Ichimaru Gin!!Eu me lembro de como era você nesta época...tão doce,tão belo!!Sempre te amei...-Rangiku suspirou saudosamente enquanto observava as moças despejando as uvas na tina.

Rangiku se emociona com esse evento em sua vida.O momento em que conheceu pela primeira vez,nesta vida,o seu amado Ichimaru Gin,encarnado como o jovem e promissor artista Ignatio Gianinni.

Tantas vidas,dando voltas,como se fosse uma roda sem fim...

Vida após vida,sempre o mesmo amor a continuar...

...num ciclo de vida e amor que o tempo não pode apagar...

Quais serão as lembranças seguintes que Rangiku irá vivenciar?

E o que o destino lhe reservou nesta vida que ela está observando?

Encontrará novamente aquele homem que ama...?

CONTINUA NO PRÓXIMO CAPÍTULO...