Capítulo II

O sol estava a pino e o constante balançar da carruagem oscilando por entre as valetas e pedregulhos da estrada em péssimo estado que levava à Paris faziam o estômago de Elizabeth Thompson se retorcer, isso somado à terrível enxaqueca que não lhe abandonava desde que partira do castelo de Isenwood há mais de cinco dias tirava-lhe todo o ânimo.

Elizabeth já havia feito muitas viagens longas, mas nunca se acostumara a elas. Havia nascido e sido criada nas colinas escocesas. Incomodada com o sacolejar, levou o lencinho de algodão bordado à boca. Num gesto claro de que não se sentia bem. Charlie Pace, ao seu lado notou isso e indagou, preocupado:

- Algum mal lhe aflige, Srta. Thompson?

- Oh sim, Sr. Pace. Minha cabeça está girando e meu estômago se contrai a cada avanço da carruagem.

- Posso eu fazer alguma coisa pela senhorita?

- Agradeço o interesse, mas só irei sentir-me melhor quando chegarmos à Paris. Se eu não estivesse com tantas saudades das meninas teria deixado que a velha Nahí tivesse vindo em meu lugar com Nikki para levar Kate de volta.

Elizabeth Thompson vivia desde a adolescência no castelo de Isenwood. Sua família inteira morrera da mesma moléstia, tuberculose, e quando ficou órfã, Samuel e Diana a adotaram como filha. Praticamente viu os irmãos Austen crescerem. Possuía exímia educação porém um temperamento autoritário e modos extravagantes, se provocada podia ser bastante cruel com o provocador, que ninguém se enganasse com as delicadas madeixas loiras e os olhos verdes que refletiam aparente delicadeza. Era anos mais velha que as irmãs Austen, mas ainda não se casara. Extremamente exigente, Libby, como era carinhosamente apelidada pelos íntimos dispensava a côrte de todos que se atreviam a se aproximar dela alegando que não era nenhuma idiota, pois possuía uma fortuna imensurável que o homem que se casasse com ela passaria a adquirir assim que trocassem as alianças. Por isso justificava o extremo cuidado que tinha em escolher o marido adequado.

Por causa das dívidas dos Austen, chegou até a sugerir a Lady Diana, com quem permaneceu em Flandres durante todo o exílio que poderia se casar com Paulo para que o novo chefe do clã Austen herdasse sua fortuna e reerguesse Isenwood. Mas o rapaz jamais aceitara porque desejava um casamento por amor, além disso, estava por demais envolvido na causa rebelde escocesa para ter tempo de pensar em se casar e se dedicar a uma esposa.

A carruagem seguia seu caminho, os cavalos de raça trotando à velocidade que o cocheiro lhes permitia em meio ao calor estafante da tarde, os barulhos dos cascos cobertos com ferradura fazendo um ruído constante. De repente, o trote de outros cavalos que não eram os garanhões negros que puxavam a carruagem foi ouvido. Charlie ficou atento e posicionou o dedo em seu mosquete, estrategicamente escondido embaixo do assento da carruagem. Nicole Murray, que viajava ao lado da Srta. Thompson notou o movimento brusco dele em direção à arma e levou as mãos ao peito num gesto de medo.

- Desculpe-me, Srta. Murray.- disse Charlie tentando tranqüilizá-la. – Mas estamos em guerra, por isso estaremos mais protegidos com o mosquete. Ei, Lance!- dirigiu-se ele ao cocheiro, colocando a cabeça para fora da carruagem. – Quem vem lá?

- Oficiais ingleses meu senhor.- respondeu o cocheiro. – Que devo fazer?

- Pare a carruagem e espere que eles se aproximem.

A pobre Nikki começou a tremer. Libby colocou a mão em seu ombro para acalmá-la. Não demorou muito e o regimento se aproximou. Curiosa, Libby pegou seu leque bordado e olhou pela janela, esticando os olhos verdes para ver alguma coisa. À frente do regimento vinha um soldado com uniforme mais elegante que os demais, provavelmente o capitão. Era alto, forte e musculoso. Os cabelos castanho-escuros e lisos caindo sobre a tez cuja barba era cuidadosamente bem feita, dando-lhe um ar de heroi romântico. Libby arfou diante de tão esplendorosa visão e cobriu o rosto pálido com um leque.

- O que foi, senhorita Thompson? O seu mal estar piorou ou está com medo dos ingleses assim como a Srta. Murray? Asseguro-lhe que nada nos acontecerá.

- Oh, eu sei senhor Pace que nos protegerá de qualquer mal.- comentou Libby apertando ainda mais a pressão de sua mão no ombro de Nikki.

Ao contrário de Libby, Nikki nunca fizera uma viagem daquelas. Era a primeira vez que deixava as colinas a pedido de Lady Diana para acompanhar Libby até Paris. Era uma simples camponesa que trabalhava na cozinha do castelo de Isenwood junto com sua mãe. Mas a Srta. Thompson gostava muito dela, e sua família era muito especial para os Austen. Por isso seus pais consentiram que viajasse. Sua mãe, a bondosa Rose queria que ela conhecesse um pouco mais do mundo antes que se casasse e assumisse uma família.

Não demorou muito e o regimento finalmente se aproximou. Libby voltou a olhar pela janela para poder fitar de perto o belo capitão que avistara, mas dessa vez Charlie interveio colocando sua mão na frente dela em um gesto protetor.

- Melhor se afastar, Srta. Thompson. Não sabemos se é seguro.

Ela contraiu discretamente os lábios em frustração, mas fez o que ele pediu, se encolhendo na carruagem junto com a assustada Srta. Murray.

- Boa tarde!- saudou o capitão do regimento inglês, tirando o seu chapéu em sinal de cortesia.

- Boa tarde, capitão.- respondeu Charlie respeitoso.

- Estão indo a Paris?- indagou o capitão fitando o interior da carruagem.

- Estamos indo sim, ao convento St. Marie visitar minhas primas que estudam na escola das freiras. Eu sou Charlie Pace.

O capitão assentiu com um menear da cabeça e estendeu sua mão para cumprimentar Charlie.

- Muito gosto. Eu sou o Capitão Jack Shephard. E as senhoras que o acompanham?

- Senhoritas.- corrigiu Charlie. – Senhoritas Thompson e Murray, protegidas de minha mãe. Vieram comigo porque pretendo levar uma de minhas primas de volta à Escócia.

Jack sorriu, levemente: - Pelo sotaque e o brasão na carruagem, logo que vi que eram escoceses.- ele fez uma pausa e pigarreou. – Bem, não pretendo atrapalhar a viagem de vocês, mas esta estrada é muito perigosa, especialmente esse horário da tarde. Há muitos salteadores e o senhor há de convir que nossos países estão em guerra, ainda que não oficialmente.

- Oh, sim senhor.- disse Charlie. – Mas não se preocupe, as damas estão bem protegidas comigo.

- Creio que sim Sr. Pace, mas insisto para que minha escolta acompanhe sua carruagem até a entrada de Paris, conheço essa região como a palma de minha mão e lhe asseguro que não é muito confiável.

Sem escolha, Charlie acabou assentindo, mas assim que Jack se afastou com um sorriso gentil para as damas, ele resmungou irritado:

- Ingleses! Se acham os donos da Europa.

Libby apenas assentiu educadamente, pois não estava prestando atenção ao que ele dizia. Sua mente estava concentrada na lembrança do belo rosto e do sorriso do Capitão Jack Shephard e sem se dar conta sua face ficou ruborizada de repente e a respiração tornou-se mais acelerada. Ela abanou-se desesperadamente com o leque. Charlie franziu as sobrancelhas:

- O que houve Srta. Thompson, o seu mal-estar se intensificou?

- Oh não, Sr. Pace.- ela respondeu com um suspiro, dando uma olhadela discreta para a janela a fim de ver o Capitão. – Agora estou muito, muito melhor.

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Um assovio distante, vindo do cume das colinas cortou o silêncio do fim de tarde. Paulo Austen apurou os ouvidos e sorriu, arrumando a baladeira e o mosquete no cós do kilt de quadros azuis e listras amarelas. O cheiro da grama molhada devido à chuva passageira de verão encheu-lhe as narinas.

Caminhou alguns passos através da relva encharcada, suas botas de coturno negro reluzente mesclando-se à lama pegajosa. Parou após uma subida e assoviou de volta, um ruído suave e fino. Do outro lado do descampado, James Sawyer acenou, vestido em seu singelo traje de montanhês. Camisa branca de mangas compridas, botões semiabertos, kilt cinza e a manta quadriculada cinza com listras azuis sob os ombros. Os cabelos loiros e úmidos de suor, compridos até a altura dos ombros e a barba por fazer completavam o visual dando-lhe um ar de fora-da-lei.

Paulo correu até ele e apertou-lhe fortemente a mão.

- Meu caro amigo.- disse com um sorriso educado e sereno.

- Como vai?- saudou Sawyer. – Que bons ventos o trazem ao topo das Colinas Errantes? Veio cobrar o aluguel do Cisne?

Paulo franziu as sobrancelhas escuras que emolduravam o rosto moreno.

- Até parece!

Sawyer deu uma risada.

- Certo, então o motivo é o mesmo de sempre, não consegue esquivar-se de minha companhia, Austen.

- Lamento admitir que é verdade, a paixão que sinto por ti me consome deveras.

- Oras, deixe disso caro amigo.- falou Sawyer, debochado. – Venha, vamos tomar uns goles do bom e velho uísque da Sra. Murray lá no Cisne.

Paulo o seguiu até o velho castelo mal-assombrado onde Sawyer vivia sozinho desde que retornara à Escócia. A propriedade pertencia aos Austen, mas Paulo não fazia questão do lugar, há muito tempo fora abandonado e agora jazia em ruínas. Sawyer gostava de viver lá porque o mantinha afastado de tudo e de todos. Desde que retornara do exílio e descobrira que o governo inglês confiscara o Castelo de Butterfly pertencente ao seu clã, ficou tão revoltado que entrou para a causa rebelde e tornou-se um ermitão. Impediu a mãe de retornar ao país, dizendo a ela que continuasse na França e resolveu morar no Cisne, o castelo em ruínas no alto das Colinas Errantes.

A coisa que Sawyer mais almejava na vida, além de fazer com que o herdeiro perdido de Desmond I retomasse o trono da Escócia e expulsasse os ingleses era recuperar o Castelo de Butterfly e trazer a mãe de volta à sua terra natal, deixando o Conde Benjamin Linus na total ruína. Depois de conseguir esse intento, quem sabe ele poderia pensar em arranjar uma esposa e dar continuidade à linhagem de seu clã. Mas no momento isso lhe parecia algo distante e sem propósito.

Ao chegarem aos jardins do Cisne cobertos de mato e ervas-daninhas foram recebidos euforicamente pelos quatro huskies siberianos de Sawyer.

- Olá, rapazes! Saudou ele, acariciando as cabeças dos magníficos animais que não paravam de balançar o rabo, fazendo festa para seu dono.

Paulo também acariciou os animais, e disse a ele quando atravessaram o átrio que levava até o pátio principal do castelo, rumo à cozinha, um dos poucos cômodos do lugar que resistia bravamente ao desgaste da falta de manutenção e do tempo.

- Queres aparentar ser um ermitão sem posses, mas ostentas riqueza criando quatro huskies siberianos, uma vaca holandesa premiada e um garanhão negro, caro amigo.

- Garanto-lhe Austen que essas são as únicas extravagâncias a que me atrevo.

- E quanto às mulheres?- Paulo provocou.

- Mulheres são um luxo caro demais para mim, Austen.

- Pode até ser, mas não vai me dizer que consegue viver sem elas.

- Paulo, meu amigo, tu sabes mais do que ninguém como eu vivo e em que condições. Que mulher iria querer ser a senhora de um castelo em ruínas?

- Talvez a Srta. Thompson.- Paulo comentou com um sorriso malicioso. – Lembro-me da única vez em que esteve no Castelo de Isenwood, o jeito como ela olhou para ti...

- Oh sim, a bela e afortunada Srta. Thompson. Não, meu caro amigo, ela me seria como uma rosa perfumada colhida num jardim de inverno de luxo dizendo-me sim para tudo. Eu sou um aventureiro, muito mais me apraz a flor selvagem do campo, que nasce em qualquer lugar, aquela mulher selvagem que me diria não o tempo todo, mesmo que no fundo quisesse me dizer sim.

Paulo deu uma gargalhada.

- Então és um sádico? Deveria apresentar-te Kate.

- Sua irmã endiabrada? Oh sim, ela teria mais afinidades comigo do que a Srta. Thompson já que gosta de guerras e espadas como uma vez o dissestes. Quem sabe lutaríamos lado a lado contra o exército do General Locke?

Nesse momento, o aroma inconfundível de cozido de carneiro com verduras encheu-lhes as narinas e provocou água em suas bocas. Ambos se apressaram até a cozinha. A boa senhora Rose Murray mexia um caldeirão no velho fogo. A mesa estava servida com pão, manteiga, queijo e bolinhos de aveia.

- Boa tarde, senhores.- ela disse gentilmente. – O jantar está quase pronto.

- Oh, Sra. Murray, agradeço todos os dias ao bom Deus pelos seus dotes culinários.

- Bondade sua Lorde Sawyer. Creio que o senhor na condição de ermitão há de convir que qualquer prato de caldo lhe apraz.

Dessa vez foi Paulo quem riu.

- Estás vendo Sawyer, até a Sra. Murray concorda que és um ermitão.

Sawyer deu de ombros e puxou uma cadeira para sentar-se à mesa para jantar. Rose balançou a cabeça negativamente.

- Lorde Sawyer deveria lavar as mãos para o jantar.

- Obrigado pela lembrança, Sra. Murray.- respondeu ele se dirigindo à uma tina com água limpa em cima de um velho balcão onde lavou as mãos. – Mas por favor, já lhe disse para parar de me chamar de Lorde. Sou um nobre falido, ou melhor, roubado.

- Não importa, para mim o senhor é e sempre será um Lorde, o herdeiro de seu clã. Um dia suas propriedades hão de voltar para suas mãos.

Ela enxugou as mãos no avental e disse:

- Preciso ir, Bernard há de querer jantar também.

Rose já ia deixando a cozinha do castelo quando Paulo a chamou:

- Sra. Murray, obrigada por convencer o Sr. Murray a deixar Nikki acompanhar a Srta. Thompson até Paris para trazer Kate de volta.

- Ora, Lorde Austen, foi um prazer. Essa viagem foi uma oportunidade de ouro para que a minha menina pudesse conhecer um pouco do mundo antes de se casar com alguém e viver o resto de sua vida em nossas tão adoradas colinas. – ela olhou pela ampla janela da cozinha, já havia anoitecido. – Oh, como é tarde, preciso ir. Boa noite, senhores.

Assim que ela saiu, Sawyer comentou para ver a reação de Paulo:

- Eu seria capaz de me casar com a bela e doce flor do campo, a Srta. Murray.

- Paspalho!- bradou Paulo, fingindo irritação, pois o amigo sabia de sua paixão pela bela e jovem camponesa.

- Se eu sou um paspalho Austen tu és um tolo. Se a amas porque então não pedes a mão dela a Bernard? Ele tem a ti e tua família em grande conta, não negaria tal pedido. E bem sei que o fato de ela possuir um dote muito baixo não o incomoda, sua família não é materialista. Seu pai teria se casado com sua mãe, a cigana, se seu avô paterno não tivesse posto tantos empecilhos.

- Eu sei, mas tu bem sabes que antes de me casar-me há coisas mais importantes com as quais tenho que me preocupar como com o futuro de meu clã. Sabes que o Conde Linus emprestou-me dinheiro para reerguer o Castelo de Isenwood com a promessa de que eu daria a mão de minha irmã mais velha a ele.

- Sim, eu sei disso, embora lamente por ela, casar-se com o Conde Linus me parece um destino terrível para qualquer jovem. Que homem grotesco!

- È isso mesmo, amigo. Por essa e por outras razões devo livrar minha irmã de tal matrimônio. Tu sabes, estamos engajados na causa rebelde, se algo acontecer comigo e Ana-Lucia já estiver casada com o Conde Linus ele será imediatamente o novo chefe do clã Austen e nossa linhagem irá desaparecer. A família de Linus é muito rica, mas não possui um título como o nosso, ele precisa se casar com Ana-Lucia para conseguir isso.

- E o que pretendes fazer para que os planos dele não venham a se concretizar?

- Bem, estou juntando dinheiro para saldar a dívida, embora saiba que conseguir essa quantia nesse momento me é praticamente impossível. Por isso, pensei numa segunda opção caso algo venha a acontecer comigo.

- E no quê pensou?

- Casarei Analulu em segredo com outro homem.

Sawyer ergueu uma sobrancelha: - E quem seria esse homem?

- Tu, meu caro amigo Lorde James Sawyer.- Paulo respondeu sem pestanejar.

- Austen, por acaso enlouquecestes? E a conversa que acabamos de ter? Por acaso não sabes que não pretendo me casar enquanto não recuperar o que é meu por direito? Além disso, não conheço tua irmã, se tiver uma ou duas lembranças dela de quando éramos crianças é muito.

- Ora Sawyer, isso é só um mero detalhe. Uma vez dissestes para mim que faria qualquer coisa por nosso clã. Então não mantém tuas promessas?

- Mas é claro que mantenho Austen.

- Então? Prometa para mim agora mesmo que se algo acontecer comigo te casará com Ana-Lucia e impedirá que o Conde Linus se torne o chefe de meu clã.

- Sim, eu prometo.- respondeu Sawyer com seriedade e o pacto foi selado com uísque.

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Kate vislumbrou da janela do convento a carruagem com o brasão da família Austen e abriu um sorriso de puro contentamento. Erguendo as saias correu até a cozinha onde a irmã estava.

- Analulu! Analulu!

- Mas o que foi Kate? Controle-se menina, assim tu podes vir a ter uma indisposição.

Kate respirou fundo tentando conter a própria alegria.

- Nosso primo acabou de chegar ao convento.

Dessa vez foi Ana-Lucia quem não conseguiu se conter e tirando rapidamente o avental de cozinha correu com Kate para o jardim do convento onde Charlie, Libby e Nikki desembarcavam. Porém, antes que pudessem se aproximar do primo, a Madre Superiora do Convento apareceu e barrou as duas.

- Que modos são esses meninas? Esperem as duas aqui polidamente até que o cavalheiro e as damas se aproximem.

Muito a contra-gosto, Ana-Lucia e Kate esperaram que seu primo Charlie Pace se aproximasse junto com a Srta. Thompson e Nikki.

- Mas o que é isso, por que estão tão acanhadas, meninas?- disse Libby abraçando as duas ao mesmo tempo. Que saudades!

A Madre Superiora torceu o nariz para Libby, achando seus modos mal-educados e o traje que vestia extravagante, mas ela sequer notou entretida em abraçar suas amigas que não via há tempos.

- Oh Libby, estou tão feliz que esteja aqui!- disse Kate ignorando a Madre Superiora. – Charlie!

- Ora, se não é a pequena Kate En...- ele começou a dizer, mas Kate o cortou quando o abraçou.

- Por favor não diga essa palavra primo.

Charlie olhou para a Madre Superiora e a cumprimentou com uma reverência.

- Boa noite, Madre.

- Boa noite.- ela respondeu ríspida antes de dizer. – Fico feliz que tenham vindo visitar as garotas mas na verdade não temos acomodações suficientes para vocês, por isso...

- Oh, não se preocupe com isso Madre. Vamos ficar em uma boa estalagem e levaremos as meninas conosco com sua benção é claro?

- Sim.- respondeu a Madre amargamente sem ter escolha.

- Como a senhora já deve ter sido informada, Kate retornará conosco para a Escócia.- falou Charlie.

- Sim, eu fui informada, embora ainda tivesse esperanças de que Kate abraçaria a vida religiosa.

- A senhora sabe, Madre, que eu não tenho nenhuma vocação.- comentou Kate.

- Sim menina, mas que custa ter esperanças? Mas creio que com Ana-Lucia nem tudo está perdido ainda não é mesmo, criança?

Ana-Lucia deu um meio sorriso, sem saber o que responder, afinal tornar-se freira poderia livrá-la do destino terrível de se casar com o Conde Linus mas ela realmente esperava não ter que pensar nisso agora.

- Bem meninas, arrumem suas coisas porque temos muito a fazer e pouco tempo para isso.

- Do que está falando Libby?- indagou Ana-Lucia.

- Temos um baile para ir esta noite minhas queridas e não podemos nos atrasar. Será a entrada de vocês duas na sociedade.

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O Capitão Jack Shephard checou as horas no relógio de ouro preso a uma correntinha no bolso do elegante casaco de camurça. Mais umas duas horas enfadonhas pela frente pelo menos, pensou ele guardando o relógio de volta no casaco. Estava em mais um daqueles acontecimentos sociais que detestava ir, mas os quais era obrigado a comparecer já que possuía uma irmã em idade de se casar e precisava circular com ela pelas reuniões, saraus e bailes a fim de que ela encontrasse um marido decente, honesto e condizente com sua posição social. Seu pai, Sir Cristian Shephard era quem devia estar cuidando dessa tarefa, mas o velho homem era hipocondríaco e odiava sair de casa desde que a esposa morrera. Por isso só restava a ele acompanhar Juliet.

Estava sentado olhando para o belíssimo afresco do teto do salão de festas da Mansão dos Rosseau que mostrava uma deusa grega cercada por admiradores quando sentiu alguém bater em seu ombro.

- Hey, brother, o que está fazendo aí parado com cara de bobo?

- Ah, és tu primo?- disse Jack, um sorriso dançando nos lábios. – Não posso nada fazer quanto à minha cara de bobo, só tenho essa.

- Pois há mulheres que gostam disso brother, deveria aproveitar. Por que ainda não tirou alguma donzela para dançar?

- Tens razão, eu deveria fazer isso, mas Julie no entanto, está ocupada dançando com o Visconde Jarrah.

- Oh, quando disse que tu deverias convidar uma donzela para dançar não quis dizer sua irmã. O que te parece convidar a Srta. Rutherford, ela é muito bela.

- Nariz empinado, passo!

- E a Srta. Alexandra Rosseau? Tem belos olhos.

- Muito jovem.

- Hum, e a princesa Claire Littleton?

- A filha do Rei Jacob? Um pouco demais e se quer saber primo, estou muito bem aqui sentado vigiando minha irmã.

Nesse momento, o arauto da festa preparou-se para anunciar a entrada de mais convidados. Desmond tirou o relógio do bolso do casaco.

- Mais convidados a essa hora? Com certeza não devem ser ingleses.

O arauto começou:

- Sr. Charlie Pace da Escócia, acompanhando as senhoritas Elizabeth Thompson, Nicole Murray, Ana-Lucia Austen e Katherine Austen.

De repente Jack viu-se completamente incapaz de desviar seus olhos da entrada da Mansão. Um anjo luminoso vestido de branco, colo de alabastro e cabelos de uma ninfa grega tinha acabado de adentrar a enfadonha festa da família Rosseau.

Continua...