2. A Véspera

Mais um findar de tarde caía e eu ia a casa me preparar apenas para poder olhá-lo um pouco mais de perto do que o normal. Não consigo me lembrar da última vez que me perfumava, mas dessa vez resolvi usar uma boa fragrância. E, também, batom.

Ainda bem que o bom senso correu pra fazer um resgate de volta à "minha" realidade, e por pouco não me pego calçando um Jimmy Choo apenas pra ir até a praça.

É indescritível a maneira como a curiosidade nos tira do sério. Responda-me se for capaz: Como é possível que uma mulher normal, dentro da sua vidinha normal e num dia normal, possa ter a sua normalidade abalada simples e puramente por alguém que resolve cruzar seu caminho a ponto de ser altamente egoísta para capturar, apenas para si, a atenção?

Correção, isso não foi um dia normal. Foi um dia anormal.

E lá estava eu, caminhando de volta à praça, apenas para alimentar a fome dos olhos meus e dar um segundo passo.

Há de existir mil passos a serem seguidos, mas se perder meu tempo pensando nas mil e quinhentas probabilidades de erro e tentativa, é provável que me canse antes mesmo de começar. Foi então, que tomei a melhor das lições: Just do it (apenas o faça).

Passaram-se quinze minutos do tempo normal que ele levaria para estar sentado no mesmo lugar de sempre, e achei que não o veria hoje.

Foi uma conclusão simples e objetiva.

Mas...Quando se escuta dizer que não há nada tão ruim que não possa ficar pior, realmente, não é brincadeira.

Ele apareceu. E acompanhado.

Droga! Aonde é que eu tava com a cabeça quando dei asas à curiosidade? Teria sido mais fácil se eu tivesse ido ao Vaticano e pedisse uma penitência ao Santo Papa. Quem sabe se eu chorasse, talvez desabafasse aquilo o que não sei dizer ? No entanto, não tenho lágrimas. Resolvi dar tempo ao tempo e ver no que aquilo ia dar.

Confesso que me surpreendo cada vez mais com a força do pensamento, já que não precisei dar tanto tempo ao maldito tempo.

Em poucos instantes eles se despediam com um aperto de mãos. Nada mal. Confesso, também, que me surpreendo com a capacidade que as pessoas têm de me surpreender, pois, ou eu estava tendo alucinações ou poderia jurar que assim que ele sentou no mesmo lugar de sempre, soltou o rabo de cavalo e olhou ao redor como quem procura por algo.

E viva a santa curiosidade com a sua surpreendente multidão de devotos!

Com a barreira do silêncio vencida no dia anterior, resolvi ousar.

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- Oi – disse em quanto me sentava e abria o livro que levei.

- Você lê? – ele perguntou

- Não, apenas gosto ouvir as páginas de um bom livro, e você?- fui sincera

- Eu leio

- Um dia você também aprende a ouvir - deduzi eperançosa

- Para que?

- Porque quando você aprender a ouvir aquilo o que está escrito, não vai mais perder seu tempo lendo coisas- concluí

- E você se parece com a dona da verdade- pude notar uma nota de sarcasmo em sua afirmação

- É mesmo?

- Claro que não

- Então por que falou?

- Falta de assunto – ponto para ele

- Você fica bonito de cabelo solto

- O-obrigado...

- 1 x 0 pra mim! – na verdade, dez pontos para mim.

- Pelo que?

- Por ter te deixado sem graça!

- Hei! Por que essa cara? – falei enquanto ria da cara de inconformado que ele fazia – Aceite o fato de que foi muito fácil ganhar de você e ponto.

- Pra você – e me estendeu um chocolate

- Ah! Obrigada!

- De nada – respondeu um tanto carrancudo

- E você esperava que eu fosse ficar embaraçada apenas com um chocolate? Admito que sua atitude foi bonita, mas ainda ficamos no 1 x 0.

- Humpf...

- Afinal, é véspera de Páscoa e as pessoas vivem dando e ganhando chocolates nessa época do ano. Honestamente, não é algo que cause espanto - concluí

- Se você o diz...

- Conseguiu? – resolvi mudar o rumo da conversa

- O que?

- O controle daquilo que deixamos entrar pela janela

- Ainda não, quase.

- Tá escurecendo, vou indo embora. Boa noite! - e guardei o livro.

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Enquanto caminhava olhei paro alto e respirei aliviada, assim como alguém que ,supostamente, havia segurado a respiração por duas horas embaixo d'água. Felizmente, não tive tempo pra avaliar mentalmente os progressos do segundo passo.

Assim que todos os carros pararam de passar, coloquei o pé para fora da calçada na intenção de chegar ao outro lado da rua, mas fui interrompida por algo ou um, muito provável, alguém que, desesperadamente, me puxou.

Quando pensei em olhar para trás na inocência de quem tenta entender uma situação, seus lábios já haviam selados os meus, e como se a idéia do ruim e o pior não fossem suficientes, ainda existe a tal da ação e reação.

Sim, eu reagi.

E reagi de todas as possíveis e impossíveis maneiras encontradas naquele mar de sensações; retribuí seu beijo. Não passaram de minutos, tão bons que foram, que mais pareciam milésimos de segundos. Eu queria mais, afinal de contas, não foi preciso muito tempo para saber quem foi que me beijou.

Agora, com os lábios separados, enquanto usava uma das mãos para me acariciar o pescoço, ele apoiou sua testa na minha, e, por fim, sorriu de forma marota. Maldita inocência que não me deixou pensar nisso antes!

- 10 x 1 para Hyuuga Neji – ele disse

-... – perdi a fala

- Boa noite, te vejo amanhã - e se virou pra ir embora.

-... – perdi a fala pela segunda vez

E ele foi embora enquanto eu ficava ali, parada e esperando o tempo das minhas pernas pararem de tremer até eu conseguir dar o próximo passo, só que, dessa vez, o próximo passo seria usado pra atravessar a rua.

Maldito seja aquele que um dia disse que o feitiço vira contra o feiticeiro.


N.a.:

Oe oe!

Não preciso dizer que amei as reviews, certo?
Muito obrigada a todos! De coração mesmo!
Arigatou!

Espero que a fic esteja agradando e até o próximo capítulo!

Boa Páscoa,

Uchiha Yuuki