Capítulo 1 – Onde está Athena

Três figuras se movimentavam com uma velocidade tremenda, mal sendo possível distingui-las na paisagem. Os três homens pararam diante da caverna, observando o local.

- Shiryu, tem certeza de que este é o local certo? – perguntou Hyoga.

- Estou certo disso. O próprio Mestre indicou o caminho. – respondeu Shiryu.

- Mas não há nenhuma entrada por aqui. – continuou Hyoga.

- Pessoal, prestem atenção! – observou Shun. – Vejam o estado destas pedras! Parece até que houve um desabamento, e parece que foi recente.

- Sim, é verdade. – confirmou Shiryu. – Seja lá o que houve, teremos que encontrar outra forma de entrar na caverna.

- Mas por que será que houve um desabamento justamente no local onde vivem as Moiras? – indagou Hyoga.

- Seja como for, elas poderão nos responder. – respondeu Shun.

- Então vamos lá! – disse Hyoga.

Shun lançou suas correntes que começaram a procurar uma entrada para aquele lugar. A corrente afundou num buraco na parte de cima da montanha, o que chamou a atenção de Shun.

- Hyoga! Shiryu! Acho que encontrei alguma coisa! Parece que tem uma passagem escondida na parte de cima da caverna.

Os três subiram até o local em que Shun indicou. Era um buraco escuro, não dava para ver nada do que havia lá.

- Não temos como saber o que há lá embaixo. Se não tomarmos cuidado acabaremos morrendo na queda. – disse Shiryu. – Shun, será que poderia usar suas correntes para que possamos descer devagar?

- Sem problema!

Os três escalaram a corrente que começou a descer devagar. Conforme iam descendo, Hyoga percebeu que estavam próximos do chão.

- Pessoal, acho que não tem problema, podemos saltar daqui.

- Espere Hyoga, temos que ter cuidado. Não sabemos o que nos espera. – disse Shiryu.

- Eu vou na frente. – Hyoga pulou, e acabou caindo em cima de algo que parecia uma rede.

- Espere Hyoga! – Shiryu acabou caindo e ambos se enroscaram nos fios que estavam pendurados.

- Amigos! – gritou Shun, mas que permaneceu no lugar onde estava por precaução.

Os dois cavaleiros começaram a se debater, tentando se soltar.

- Parem agora mesmo! – disse uma voz feminina. Eles viram uma mulher de vestido cinza claro correr até o local. – Se vocês continuarem a se mexer desse jeito os fios irão se arrebentar, e as pessoas a quem pertencem esses fios irão morrer!

Ouvindo isso ambos pararam de se debater, ainda que se sentissem aflitos por estarem naquela situação.

- Agora, por favor, se acalmem, vou tirá-los daí num minuto. – disse Cloto tentando acalmá-los.

Cloto elevou seus braços e emanou seu cosmo, fazendo com que inúmeras roldanas presas no teto e nas paredes começassem a rodar. Dessa maneira os fios foram abaixando juntamente com os cavaleiros que estavam presos neles. Ao tocarem o chão eles ficaram de pé, mas continuaram imóveis, pois ainda havia fios presos nos ombros deles. Cloto se aproximou deles delicadamente e foi retirando com cuidado os fios que ainda estavam enroscados nos cavaleiros de bronze. Quando o último fio foi retirado ela os pegou com a mão e os alisou observando se havia algum dano.

Shiryu e Hyoga se entreolharam e Shun que tinha assistido tudo se juntou a eles, tomando cuidado para não pisar em nenhum fio.

- Pedimos desculpas por isso. Não tínhamos intenção de causar tanto problema.

- Está tudo bem, mas devem tomar mais cuidado. – disse Cloto ainda visivelmente preocupada. – Vamos, venham comigo, eu os levarei até as minhas irmãs.

- Irmãs? Então vocês são...? – perguntou Shun

- Sim. Nós somos as Moiras. – continuou andando, guiando-os para fora daquele lugar.

Cloto guiou-os até o aposento onde Láquesis trabalhava com o tear.

- Eu sou Cloto. – disse finalmente. – Esta é Láquesis.

Láquesis continuou o trabalho, mas olhou para os três e sorriu.

- Vocês são cavaleiros de Athena, não é mesmo?

- Como sabem disso? – perguntou Shiryu.

- Nós sabemos muitas coisas - respondeu Láquesis, que apesar de deixar o tear este continuava a trabalhar sozinho. – Não foi por isso que vieram nos procurar?

Os cavaleiros se entreolharam mais uma vez e sorriram confiantes.

- Eu sou Shiryu de Dragão, e sou um cavaleiro de Athena.

- Eu sou Shun de Andrômeda, um cavaleiro de Athena.

- Eu sou Hyoga de Cisne, um cavaleiro de Athena.

- Viemos até aqui para pedir a ajuda de vocês. – disse Shiryu – Athena está desaparecida já faz alguns dias. E não somente ela desapareceu, mas o nosso companheiro, o cavaleiro de Pegasus também desapareceu. Meu mestre, que era o cavaleiro Dohko de Libra, me disse uma vez que as Moiras tinham o conhecimento sobre muitas coisas, até mesmo sobre o passado, o presente e o futuro. Então gostaríamos de saber se vocês podem nos ajudar a encontrar Athena, ou pelo menos descobrir onde ela está.

- Nós o podemos. – disse Láquesis sem cerimônia. – Porém só podemos mostrar o caminho, já quanto a trazê-la de volta...

- Não nos importamos desde que possamos ter uma pista de onde podemos encontrá-los. – disse Shun.

- Cloto, por favor, peça a Átropos que junte-se a nós. – disse Láquesis.

Cloto se afastou indo por um dos corredores. Láquesis continuou a contemplar o tear que trabalhava sem parar.

- Obrigado por nos ajudar. – disse Shun

- Não nos agradeça ainda. – disse Láquesis. Ela olhou para eles e percebeu que também estavam intrigados com o tear.

- Eu lamento dizer, mas não posso mostrar o que está sendo costurado no tear. – sorriu – É muito perigoso mostrar uma peça que ainda não foi terminada, ainda mais quando essa peça mostra o futuro.

- Então este tear... – perguntou Hyoga

- Sim. É o tear do destino. Inúmeras vidas que se cruzam produzindo formas, cores e padrões únicos.

- O destino das pessoas é traçado por este tear? – perguntou Shun.

- O destino das pessoas é traçado somente pelas pessoas. – respondeu a moira. – Ainda que existam várias circunstâncias que possam interferir ou até mesmo direcionar uma pessoa a um determinado destino, no final são as escolhas que as pessoas fazem é que o definem de fato. Não podemos interferir no livre arbítrio dos humanos. Caso contrário, não seriam nada além de marionetes.

- Observando o modo com que você trabalha, senhorita moira, - disse Shun – eu sinto como se de certa forma você tivesse uma certa simpatia pelos seres humanos. Eu estou errado?

- Não, não está. – respondeu a moira – Todas nós temos uma grande simpatia pela humanidade. Ninguém observa os seres humanos tão de perto quanto nós, e não há nenhuma entidade no mundo tão fascinante quanto eles. É algo que infelizmente a maioria dos deuses não compreendem. – voltou a olhar para o tear.

- Láquesis. – disse Cloto. Láquesis olhou para ela e depois para os cavaleiros.

- Me acompanhem.

Eles andaram por um corredor, descendo uma escadaria. Tanto do lado esquerdo quanto do lado direito haviam várias armações onde as inúmeras tapeçarias estavam penduradas. A aparência do tecido, ainda que não pudesse ser visto em sua extensão ou tocado, era como se fosse seda ou algum tecido delicado e belo. No final da escadaria estava a terceira moira, Átropos. Sua expressão era bastante austera, ainda que fosse jovem e bela. Ela se juntou as três, Láquesis indo no meio a frente, as duas atrás e ao lado desta e os cavaleiros atrás delas.

Láquesis parou um segundo, refletindo sobre algo. Virou-se para os cavaleiros e lhes disse.

- Sabem de uma coisa? Acho que vou mostrar uma peça para vocês, mas peço que me perdoem pelas lágrimas. – virou-se para a esquerda entrando em outro corredor. Os cavaleiros se entreolharam. "Lágrimas?" Seguiram-na de perto curiosos.

Quando chegaram ao final do corredor, e puderam contemplar a tapeçaria a sua frente que cobria toda a parede, exposta como a um quadro pendurada pelas pontas, de fato não foi possível conter a emoção.

- Isto é... – tentou dizer Shun, mas se calou sem conseguir dizer mais nada.

- Sim. – respondeu Shiryu, abaixando a cabeça, lágrimas derramando de seu rosto.

A peça mostrava os doze cavaleiros de ouro reunidos em frente ao Muro das Lamentações. Parecia que um brilho dourado refletia em torno deles. A flecha de Aioros, tal como uma estrela cadente, acertava o muro, e mesmo na tapeçaria emanava um brilho forte como se fosse mesmo uma estrela dourada.

Hyoga ajoelhou-se no chão.

- Meu mestre Kamus. – disse com a cabeça abaixada. Lágrimas pingavam no chão.

- Saga... Kanon... – Shiryu percebeu esse detalhe. Por trás da figura do cavaleiro Saga de Gêmeos podia distinguir tal como uma sombra a imagem do cavaleiro Kanon.

O modo com a tapeçaria fora trançada era perfeito nos mínimos detalhes, como se fosse uma pintura. Havia uma aura de nobreza e beleza, algo de heróico e reverente que fazia com que lembrasse uma obra de arte antiga e valiosa como as pinturas da Capela Sistina.

As moiras estavam atrás dos três cavaleiros também observavam a tapeçaria em um silêncio respeitoso.

- Neste exato momento as almas dos cavaleiros de ouro estão aprisionadas, e eles não podem descansar. – disse Shun. – Será que não há nada que possamos fazer?

- Há ocasiões em que a história pode ser reescrita... – pronunciou Àtropos – mas quanto a este ponto não há nada que possamos fazer. Se fizéssemos algo para evitar sua morte vocês não estariam aqui neste momento.

Átropos observou os fios que atravessavam a tapeçaria, quase invisíveis, mas dourados conforme o ângulo em que eram vistos. 13 deles. Uniam-se em um único ponto, o local onde a ponta da flecha tocava o muro. Deixando esse ponto os fios formavam uma trança que era quase invisível, mas que deixando a tapeçaria tinham a aparência de fios que haviam sido petrificados. Átropos olhava para os fios petrificados com uma expressão séria e triste.

- Há leis até mesmo para o momento do descanso eterno, no entanto os deuses resolveram violar essas leis para que eles recebessem o castigo que estão tendo. – Voltou-se para trás.

- Vamos, não temos muito tempo.

Os cavaleiros voltaram-se para o corredor. Pararam uma única vez para olhar para trás e ver mais uma vez a tapeçaria. E em seguida continuaram.

Ambos atravessaram uma ponte de pedra. Quando Hyoga olhou para baixo viu que havia alguma coisa que se mexia. Ele se assustou.

- Mas o que...

Era uma figura humana, mas mais parecia um esqueleto enegrecido com pouco que lhe restava de pele, músculos e cabelo. Pode observar que haviam mais deles. Eles tinham as mãos juntas como se segurassem alguma coisa.

- Moiras, o que são essas pessoas que estão embaixo dessa ponte?

Átropos se virou para ele.

- São pessoas que descobriram uma maneira de não morrer e permaneceram desse jeito.

- Mas o que...?

Átropos olhou para eles por alguns segundos e voltou-se para ele.

- Da mesma maneira que os cavaleiros de ouro encontraram uma maneira de voltar a vida naquele momento, estas pessoas também puderam fazê-lo. No entanto estas pessoas se apegaram tanto a vida que tinham que acabaram desse jeito. – voltou-se para frente e continuou andando, seguida pelos cavaleiros. – Mesmo que seja possível voltar a viver em algumas raras ocasiões, nenhum ser humano está preparado para uma vida imortal. Mesmo que consiga voltar da morte, o corpo continua a envelhecer e a perecer. Estas pessoas voltaram da morte inúmeras vezes e a recusam. Mesmo o corpo estando em decomposição elas preferem continuar assim.

- Isso é terrível. – disse Shun.

Átropos parou por um instante. Observou que uma daquelas pessoas soltou o fio de suas mãos e pousou a cabeça sobre o peito, e em seguida levantou a cabeça e olhou em sua direção. Átropos consentiu com o queixo e tomando um fio que estava acima de sua cabeça, puxou-o até si. O fio estava cinzento, opaco e escuro. Ela segurou com a mão esquerda com delicadeza e levantando o dedo indicador da mão direita o desceu sobre o fio, cortando-o. No mesmo instante a figura desapareceu.

"Ela usa os dedos como tesoura para cortar os fios. – pensou Shiryu – Não é muito diferente da Excalibur que carrego em meu braço".

Enfim chegaram a um espaço amplo, onde havia um enorme lago no centro em forma de círculo. As três moiras se posicionaram em três pontos diferentes do lago. Levantaram seus braços e começaram a concentrar seus cosmos no lago de olhos fechados. A água do lago começou a se movimentar e a brilhar em cores diversas. Os cavaleiros observavam atentos o misterioso ritual. Também acabaram olhando para o teto e perceberam que havia algo enorme sobre eles que não podiam distinguir o que era. Era algo que parecia se movimentar lentamente, mas era escuro e não havia luz o suficiente para poder ver o que era. Voltaram-se para o lago e uma imagem começou a se formar.

- Seiya! – disseram Hyoga e Shiryu juntos.

- E a senhorita Saori! – disse Shun.

A imagem deles aparecia refletida no lago. Estavam vestindo roupas normais e pareciam bem.

- Moiras, onde eles estão?

- Estão na dimensão dos sonhos. – disseram as moiras em uníssono.

- Na luta que Seiya travou contra Apolo... – disse Cloto

- ... os deuses os enviaram para a dimensão dos sonhos... – disse Láquesis

- ... para que lá se perdessem e nunca mais pudessem retornar. – concluiu Átropos.

- Dimensão dos sonhos. Então esse lugar... – disse Shiryu

- Sim, é o mundo dos sonhos, uma espécie de realidade alternativa. No entanto nada que existe lá é real.

- Como poderemos ir até esse lugar, moiras? – perguntou Shun.

- Deste lugar onde estamos poderemos enviá-los até lá. – disse Átropos

- Mas há um risco enorme se vocês forem até lá. – disse Cloto

- Não temos o que temer. Arriscaremos nossas vidas se necessário. – disse Hyoga.

- Não são suas vidas que estão em jogo, mas sim o seu retorno. – disse Láquesis.

- Nosso retorno? – perguntou Shiryu

- Sim. O mundo dos sonhos onde Pegasus e Athena estão agora é uma espécie de utopia, um universo perfeito. Porém não é real, mas a possibilidade de se perder nele é grande. – disse Láquesis.

- Uma vez que estejam lá, pode ocorrer que se esqueçam momentaneamente do lugar de onde vieram. E acabem acreditando que este lugar é o mundo real. – disse Cloto

- Talvez fosse mais seguro que não fossem. – completou Átropos.

Os cavaleiros se entreolharam.

- Iremos assim mesmo. – disse Shiryu.

As moiras também se entreolharam preocupadas. Então Láquesis voltou-se para eles.

- Neste caso, mergulhem no lago, e serão levados direto para lá. Mas tomem muito cuidado. Jamais se esqueçam de sua missão, do contrário não conseguirão voltar.

- Sim. – responderam os cavaleiros. E em seguida pularam sobre o lago e desapareceram.

A moiras descansaram os braços e olharam para o centro do lago. Havia se tornado escuro outra vez.

- Eles não vão conseguir. – disse Cloto – Não devíamos ter deixado que eles fossem.

- Nós não interferimos, Cloto. – respondeu Átropos. – Eles tomaram sua decisão.

- A roda do destino dá outra volta, e qual será o destino que ela irá trazer? – concluiu Láquesis.

As três moiras se entreolharam mais uma vez com seriedade e olharam para o fundo do lago. Podiam ver uma imagem cinza e sinistra, mas indefinida.

- E se não formos capazes de evitar isso? – perguntou Cloto.