CAPÍTULO II

Quem avistasse Draco Malfoy marchando por entre as fileiras do Exército Negro, são diria que ele acabara de ver a própria mãe morta, cheia de hematomas e sangue. Andava com a cabeça erguida, o porte aristocrático, aquela arrogância típica dos Malfoy. E seus olhos cinzentos estavam frios.

Mas por dentro, Draco estava aos pedaços. A imagem de Narcisa ensangüentada o atormentava há horas. Não conseguiu comer, de nojo, tristeza e raiva, embora os outros Comensais acreditassem que era a ansiedade que lhe tirara a fome. Não fazia diferença, desde que isto não chegasse aos ouvidos do Lord.

Ilusão, é claro. Draco sabia que o Lord sempre descobria tudo. Mas, por enquanto, Voldemort estava entusiasmado demais com a batalha para reparar em qualquer um de seus homens, de modo que o jovem Malfoy caminhava, vivo, com o resto do exército. Vivo, sim, mas por pouco tempo.

Draco não queria morrer, mas sabia estar marchando para a morte. Potter o mataria. Os Weasleys e Granger o matariam. Aliás, qualquer membro da Ordem da Fênix o mataria, ao ver seu uniforme preto, a Marca Negra em seu antebraço, o cabelo loiro e os olhos cinzentos que herdara de Narcisa e Lúcio, como um grande letreiro em néon, dizendo: "Olhem! Eu sou um Malfoy! Me matem!"...

Deixou escapar um longo suspiro. Haviam chegado aos portões de Hogwarts; Dumbledore e seu exército os aguardavam na entrada, e Harry Potter não estava a vista. É mesmo um covarde, Potter, pensou, por instinto. Depois, lembrou-se do que lera no Profeta Diário, e se sentiu muito idiota.

Potter estava à beira da morte. Fora atacado por inferi enquanto buscava as horcruxes de Voldemort (isso não estava no jornal, é claro. Mas era fácil de deduzir...); seu amigo escudeiro-Weasley fora morto, e Potter perdera o braço esquerdo ao salvar a amiga mestiça. Pateticamente previsível. E, agora, o veneno dos inferi devia estar se espalhando por seu corpo, o que certamente o impedia de se levantar da cama.

A guerra estaria ganha? Teria o Lord vencido sem ao menos ter iniciado a luta? Não importava. Draco não queria mesmo lutar... Não havia mais motivos para tomar partido naquela guerra, não havia por quê estar ao lado dos Comensais. Seria morto de qualquer maneira!

Draco olhou em volta. Os Comensais a seu redor era maiores, mais velhos e mais experientes que ele. Tinham expressões determinadas e um brilho insano nos olhos; empunhavam as varinhas como se fossem espadas, e as verdadeiras espadas estavam embainhadas e amarradas firmemente às suas cinturas. Draco também ganhara uma. Era uma bela peça, longa, fina e leve, com pedras verdes cravejadas no punho. O Lord em pessoa a entregara, após assistir à luta entre Draco e o comensal idiota que ensinava luta de espadas aos novatos, e ver que o jovem Malfoy o desarmara rápido e facilmente. Afinal, as "aulas" de esgrima que teve com Lúcio serviriam para alguma coisa...

-Não a subestime por ser uma espada trouxa, Malfoy –dissera o Lord, ao entregar-lhe o objeto e sentenciar que este pertencera a Tom Riddle. –É de um dos melhores fabricantes de espadas do mundo trouxa, e eu mesmo coloquei alguns feitiços, para a luta ficar mais interessante!...

Um destes feitiços, Draco tinha certeza, era um antitraidor. E outro, era um localizador, para o caso de o antitraidor falhar...

Paranóia era uma palavra fraca para descrever a relação entre o Lord e a traição de seus seguidores. O ano que Draco passou na Mansão Riddle foi o suficiente para descobrir que Voldemort era tão mestiço quanto Granger, e que mesmo assim ele era um dos maiores, se não o maior, bruxo de todos os tempos. Mas (pobre Lord...), a simples idéia de ser traído por seus seguidores, de ser descoberto e esquecido, ver sua ideologia perdida e seus feitos encobertos por quaisquer asneiras que um outro bruxo idiota fizesse, oh! Isso realmente o machucava...

Draco não entendia por que motivo um mestiço iria querer acabar com seus iguais, mas isso também não importava. A ideologia do Lord perdera toda a veracidade quando Voldemort contou-lhe a história de como sua mãe, descendente direta de Salazar Slytherin, foi seduzida por um trouxa, engravidou dele, e foi obrigada a fugir. Uma história melodramática demais, e demasiado estranha aos ouvidos de Draco (era mais fácil Mérope seduzir Riddle do que o contrário, não? Afinal, ela era a bruxa, ela podia fazer poções do amor!...). Mas enfim, se é isto que o Lord diz que aconteceu, é nisto que Draco deve acreditar. Ou pelo menos era, até Draco decidir que estava na guerra apenas para salvar Narcisa. Nada de idéias de purificação do sangue, Draco só lutava para manter sua mãe viva.

E esta razão também perdera o sentido naquela manhã. Narcisa estava morta. Morta... Ela aparentava ter sido espancada, sua cabeça havia afundado em um ponto, o que talvez significasse que o espancador batera sua cabeça com força contra a parede. Horrível...

Draco sacudiu a cabeça, os pensamentos indignos estavam voltando... Agora era o último Malfoy, já que Lúcio também morrera, após o Lord descobrir que seu "seguidor mais fiel" havia entregado uma de suas horcruxes (um diário que Draco não sabia muito bem do que se tratava) numa bandeja de prata para Harry Potter. E, como último Malfoy, Draco tinha uma reputação a zelar.

Para alegria de seu filho, Lúcio não zelou a sua como deveria: o corpo dele fora encontrado boiando no mar da Cornuália por –oh! Doce ironia! – um grupo de pescadores trouxas, confusos pelo fato de o cadáver não apresentar sintomas de afogamento, cortes, perfurações, queimaduras, nem nada que indicasse a causa de sua morte...

Lembrar da foto de Lúcio morto no Profeta Diário causava um alívio inexplicável em Draco. Nunca gostara de Lúcio. De fato, o odiava. E saber que ele estava morto era um grande conforto.

Já se flagrara várias vezes invejando os Weasleys, e todos os alunos que tinham pais amorosos, amigos confiáveis e nenhuma ideologia maluca que seriam obrigados a seguir... Às vezes fugia da Mansão Malfoy e se misturava ao mundo trouxa, apenas para ter o gostinho de se perder entre as pessoas normais e não ser reconhecido e apontado. Quando criança chegou a fazer alguns amigos, mas Lúcio descobrira, e dera um jeito de seus colegas trouxas "desaparecerem". Draco nunca o perdoou por isso. E odiou o pai ainda mais quando Narcisa, num raro ataque maternal, tentou defende-lo e foi violentamente surrada. Trancado em seu quarto por magia, e sem varinha ou conhecimentos suficientes para escapar de lá, o pequeno Draco nada pôde fazer além de ouvir os gritos e soluços da mãe, o barulho surdo dos socos, a risada de Lúcio...

Cerrou os dentes e os punhos, enquanto Bellatriz Lestrange falava com Dumbledore, numa tentativa inútil de negociação. Lembrar destas coisas não serviria de nada agora. Lúcio estava morto. Narcisa também. Nada podia fazer.

Ou podia? Ainda estava fora dos terrenos de Hogwarts, podia largar a espada de Riddle e aparatar para... Para onde? Haveria lugar no mundo onde poderia se esconder de Lord Voldemort?

-Muito bem, velhote! –esbravejou tia Bellatriz, alto, acordando Draco de seus devaneios. –Que seja feita a guerra!

Bella ergueu sua espada e brandiu-a no ar, gritando em sinal de que a batalha começara. As primeiras fileiras do Exército Negro acompanharam seus gritos, sacudindo suas varinhas, e correram até os primeiros grupos do Exército da Luz; feitiços diversos riscaram o ar de várias cores.

Draco, no meio da terceira fileira de Comensais, assistia a tudo como se fosse uma fotografia bruxa. Via rostos conhecidos lutando, jovens com quem estudara. Avistava Dumbledore, cercado pelos membros da Ordem da Fênix, e guiando seus soldados de longe. Podia reconhecer os Weasleys e seus cabelos ruivos, sua prima Tonks ao lado do lobisomem Lupin, e... Sirius Black! Mas ele não havia morrido? Ouviu um barulho forte de cascos, e ergueu a cabeça, assustado.

Centauros! Dúzias deles cavalgavam na direção de Draco, e só então o rapaz percebeu que estava, agora, na frente de todo o Exército, bem no centro da terceira fileira; as duas primeiras estavam lutando a muitos metros de distância. As pernas de Draco tremiam, mas ele permaneceu firme. Fora muito bem treinado.

Avistou um centauro grande e castanho preparando o arco em sua direção; com um olhar, fez o ser voar alguns metros, caindo com estrondo na grama, partindo seu arco e suas costelas em vários pedaços. Um aceno de mão, e mais um centauro cortava o ar, atingindo dois bruxos com força. Pôde ouvir seus ossos quebrando, seus gemidos de dor, os cascos dos outros centauros, que corriam em sua direção... Desembainhou a espada, se posicionando em modo de combate, indiferente aos gritos de incentivo e olhares assustados dos outros soldados negros. Se iria morrer, pelo menos morreria lutando.