Capítulo II
Kare
Uchiha Sasuke nunca se habituara a ser constantemente observado. Mesmo enquanto se dirigia para sua casa, longe do centro da cidade, eram várias as pessoas que apontavam para ele e murmuravam entre si. Isso irritava-o.
Umas imponentes escadas de pedra no meio dos prédios conduziam-no a uma porta maciça. Abriu-a com um gesto brusco e fechou-a atrás de si, entrando num espaço escuro, onde as cortinas estavam completamente corridas e os raios de luz eram filtrados pela poeira suspensa no ar. Uma voz ecoou pelo espaço poeirento.
"Tiveste um dia atribulado, pelo que me pareceu…"
Sasuke cerrou os punhos, enquanto subia as escadas para o andar superior da casa. O irmão estava na sala de estar, ainda mais escura, de onde saía fumo e um odor a tabaco.
"Devias ir praticar mais. Não te esqueças que para a semana vamos a Paris."
Sasuke teve vontade de correr escadas abaixo e agarrar o colarinho impecavelmente passado a ferro do irmão. No entanto, conteve-se e entrou numa das cinco portas existentes naquele andar. Contrariamente ao resto da casa, as cortinas estavam completamente abertas, deixando o pálido Sol entrar. Atirando o que restava do laço para cima da poltrona de pano, Sasuke fechou-as, acendendo um candeeiro em cima de uma pequena mesa circular. A sala parecia ser forrada a livros, uma vez que as estantes cobriam totalmente as paredes. No meio da sala, coberto com um xaile colorido, estava um piano de cauda, negro e brilhante, com um pequeno banco à sua frente. Ninguém ousava entrar naquela sala sem ser ele próprio, não só por ser só ele o dono de uma pequena chave que abria a porta, como também porque aquela sala, para pessoas "normais" chegava a ser aborrecida.
Atirou-se para a poltrona e fixou o tecto escuro. A Haruno estava na cidade… Aquilo iria, certamente, dificultar as coisas, sendo ela uma metediça nata… Suspirou, enquanto agarrava numa partitura, corrigida e cheia de gatafunhos. Se a Chiyo a tinha trazido para aquela cidade, era porque estava a tentar fazer a garota lucrar mais. Certamente que tentaria negociar com Jiraya, para que ele a aceitasse como bailarina.
Sorriu. Uma guerra entre directores de teatros seria algo perfeito. Orochimaru-sama já estava encurralado em dívidas o suficiente para não recusar uma troca de bailarina. Embora Haruno tivesse certamente um contracto com o teatro, Jiraya devia um favor a Chiyo e compraria a garota a Orochimaru. No entanto… Orochimaru não iria ficar por ali. O seu nome perderia reputação se se soubesse que ele tinha feito uma troca.
Colocou-se novamente de pé. De facto, pouco lhe interessava o destino de bailarinas e guerras entre teatros eram mais que frequentes. A única coisa que lhe interessava era de facto o seu papel no meio daquilo e qual a melhor forma de fazer com que aquela embrulhada o favorecesse. Pensou na figura enegrecida na sala em baixo, emersa no fumo, e o seu coração bateu com mais força. Em breve…
Sentou-se ao piano, compondo as partituras. Maquinalmente, os seus dedos deslizaram por todas as teclas, movendo-se com graciosidade. Enquanto tocava uma velha composição conhecida, Sasuke mantinha a mesma linha de pensamento. Tendo em conta o velho favor de Jiraya para com Chiyo, o director do Tokyo Theatre aceitaria certamente Haruno. A não ser que ela dançasse horrivelmente mal… Sem dúvida que a submeteria a um teste ou algo do género. Jiraya não era exigente e precisava de muitas bailarinas para os maiores números. O que lhe poderia vir a estragar os números seria precisamente a exigência de Orochimaru relativamente ao pagamento… Jiraya não seria parvo ao ponto de comprar uma bailarina medíocre.
O seu pé carregou suavemente num dos pedais, enquanto fazia uma escala. Quem faria o teste a Haruno seria Yuushi Kurenai. Se ele a conseguisse persuadir a ser mais branda com Haruno…
O seu polegar carregou com demasiada suavidade na última nota.
"Chikushou…"
Ele estava a ser idiota. Se Haruno viesse para o teatro, tanto melhor, haveria muito mais confusão. Mesmo que ela não viesse, ele levaria o plano adiante. Não havia necessidade de se preocupar demasiado.
Mudou a partitura e começou com uma das suas favoritas de Chopin. À medida que os seus dedos dedilhavam as teclas ao som de um ritmo lento e quase choroso, ele lembrava-se dos cabelos cor de pôr-do-sol de Haruno. Ela tinha ficado com o pente, afinal. Não mudara muito desde a última vez que a vira.
Entrou num crescendo. A última vez que a vira fora quando ele tinha dezasseis anos e resolvera visitar a cidade onde tinha crescido. Escapulira-se de casa e apanhara um táxi. Quando passou no cemitério, viu-a lá, em frente à campa dos pais, com as lágrimas a correrem-lhe em cascata pela sua face (seguiu-se um pianíssimo). Naquele instante, sentiu compaixão pela garota, tal como havida sentido no dia em que os pais dela tinham morrido. Naquele instante, quis pôr-lhe o braço à volta dos ombros e deixá-la chorar. Contudo, não se podia dar a esse luxo. Se ele fosse uma pessoa perfeitamente normal, tê-lo-ia feito. Limitou-se a andar e a esquecer os olhos verdes de Haruno, enquanto seguia para a sua antiga casa.
Parou de tocar. Aquele regresso a casa não lhe tinha servido de muito – tratara-se apenas de um impulso incontido de rebeldia. Não encontrara papéis incriminadores, testamentos esquecidos, nada. A casa tinha ar, pó e teias de aranha e nada mais. Não que ele realmente esperasse ver algo mais do que isso, mas havia uma mínima probabilidade de algum papel ter ficado esquecido. Algo que pudesse fundamentar a sua teoria. Os pais tinham sido encontrados mortos. O irmão ficara encarregue dele, obrigando-o a estudar piano incansavelmente com os melhores professores. Que era algo que os pais queriam ter feito. Que teria muito orgulho nele se ele tivesse sucesso. Durante anos, Sasuke acreditou vivamente nisso e lutou para ser o melhor. No entanto, o irmão nunca parecia estar satisfeito.
"Nii-chan, estou cansado!"
"Sasuke-kun… Queres mesmo que os pais fecham o seu filho como um fraco?"
"Mas eu tenho estudado todos os dias!"
"Não é o suficiente."
Sasuke olhou o irmão, encostado à parede. Os seus olhos negros pareciam mais mortos que habitual.
"'Tou-san e 'kaa-san ficariam tristes se me vissem cansado…" – Murmurou Sasuke, lembrando-se do ar gentil da mãe sempre que ele corria para ela.
"Otou-sama e Okaa-sama não estão aqui agora." – Itachi aproximava-se dele. – "Entende uma coisa Sasuke. Só existem duas maneiras de sobreviver nesta vida: uma delas é aproveitar-se dos outros. A outra é agarrar bem qualquer talento que tenhamos e ser o melhor."
Sasuke não gostava quando o irmão dizia aquilo. Levantou-se do banco e correu para o quarto.
Nos dias seguintes, Sasuke não saiu da sala do piano, onde tocava sem parar. Haveria de sobreviver… Para mostrar ao irmão que ele estava errado.
Uma noite, uma série de desconhecidos entraram em casa. O irmão conduziu-os à sala. Sasuke esgueirou-se do quarto para a porta da sala. Não gostara da maneira como eles tinham entrado em casa, no meio da noite. Esperou até que estivessem acomodados na sala e a falar. Quando se acocorou, perto da porta, a voz do irmão ergueu-se.
"Julguei que os assuntos entre nós tinham terminado."
Um homem corpulento virou-se para a lareira.
"Uchiha Itachi… Tantos anos de lealdade e tratas-nos assim?"
Os homens riram. Pela fresta da porta, Sasuke não conseguia ver o irmão, mas algo lhe dizia que ele não se estava a rir.
"Creio que confundes lealdade com dever. Nunca vos tive lealdade absolutamente nenhuma. Limitei-me a fazer aquilo que tinha a fazer."
Um homem, mais magro, fez sinal ao que falava.
"Já chega. Ele sabe perfeitamente o que temos a falar." – O seu tom de voz ficou mais baixo. – "Um de nós foi descoberto. Neste momento, estamos todos em risco de sermos expostos."
Sasuke conseguiu ouvir o irmão a abafar o riso.
"Nós?"
Os outros afastaram-se.
"Não existem provas que me liguem a vocês. Mesmo que tivesse trazido uma máquina fotográfica ou qualquer outra coisa que registasse este encontro… Eu nunca estaria ligado a vocês."
"Tu 'tás em desvantagem em relação a nós, sabes disso, não sabes?"- Rosnou o mais corpulento, novamente.
Itachi suspirou. Sasuke ouviu uma pistola a ser desbloqueada.
"Gostava de vos ver a tentar. Por alguma razão vieram ter comigo. Se é para vos salvar o coiro, podem bem sair por onde entraram. Não mexerei um dedo."
Um dos homens, de cabelo loiro, aproximou-se de Itachi.
"Sê razoável Itachi. Tu deves muito para com este grupo. Sem ele já terias sido morto. Olha para a tua posição agora!"
A voz do irmão voltou.
"Se não vos tivesse conhecido, as coisas seriam bem melhores. Não me arrependo de nada do que fiz, mas não me venham com tretas sobre o que vos devo ou não. Caso me perguntem algo, não falarei sobre vós. E não é para vos proteger – limito-me a preservar a minha honra."
Os homens afastaram-se. Sentindo os passos a aproximarem-se da porta, Sasuke correu de novo para o quarto, encostando a porta a tremer. Os seus pés estavam frios e as costas também, mas manteve-se quieto atrás da porta. Conseguiu ouvir os homens saírem e, durante alguns segundos, nada mais se ouviu sem ser o vento. Até que uma voz, diferente daquelas que tinha ouvido, se fez ouvir.
"Tu mataste os teus pais porque quiseste Itachi."
Durante segundos, o coração de Sasuke parecia ter deixado de bater. Deixou-se escorregar até ao chão, encharcado num suor frio. Por momentos, esqueceu-se de respirar e o peito começou-lhe a doer.
Não, não era possível.
Itachi era a pessoa mais íntegra e honesta que ele conhecia. A morte dos pais tinha-o mudado, mas até Sasuke mudara. Não era possível…
Tinha vontade de gritar, mas não ousava emitir um som. O seu corpo tornara-se pedra, à medida que a raiva e o desespero se apoderavam dele. Quem eram aqueles homens? O que queriam?
"Ni-chan, o que raios és tu…?"
Sasuke parou de tocar, fechando o tampo do piano com estrondo. Levantou-se, alargando o colarinho da sua camisa, e deixou-se cair no sofá vermelho, de olhos postos na enorme janela de à sua frente. A sua mão esquerda tacteou por baixo de uma das almofadas até encontrar uma superfície fria e metálica. Fez deslizar a cigarreira por entre os seus dedos e retirou um cigarro longo. Itachi, como homem de negócios, fumava cachimbo e charutos. Sasuke achava-o completamente antiquado e digno de uma história de terror. O tabaco era o seu único prazer privado, para além das músicas que compunha e que não mostrava a ninguém. Era o presente que dava a si mesmo depois de um longo dia de trabalho ou antes de uma noite particularmente difícil.
Curiosamente, a cigarreira andava frequentemente mais vazia.
Enquanto olhava para a estranha figura que tinha à sua frente, Sakura revia mentalmente as razões pelas quais ela não devia ser muito rude ou indelicada.
Primeira razão: estava num teatro. Fosse quem fosse o sujeito, tinha relações com o teatro e qualquer palavra mal dita podia significar perder o seu estatuto como bailarina.
Segunda razão: Chiyo, por muito má, rude, avarenta e azeda que fosse, tinha cuidado dela.
Terceira razão: Sasuke estava na cidade. Naquela cidade.
Por outro lado, Sakura não era conhecida por ser muito tímida ou apática. O seu orgulho, apesar de diminuir gradualmente ao longo dos anos, tinha-a feito entrar nas mais diversas discussões verbais e físicas. Não importava quem fosse o agredido ou o lesado – Sakura era incapaz de ver alguém ser maltratado à sua frente. Talvez tivesse sido essa a principal razão pela qual Ino a detestava tanto, mas Sakura mantinha-se completamente agarrada aos seus princípios.
Respirou fundo e, decidindo que iria tentar ser o mais simpática possível, amável, uma verdadeira senhora, avançou para o homem loiro que estava sentado numa gigantesca secretária e estendeu a sua mão.
"Hajimemashite Sakura desu!"
A sala em que Sakura tinha entrado era escura e cheirava a algo entre tabaco, sake e comida velha. Atrás da secretária do homem, duas cortinas fechadas tapavam as janelas de vidro e impediam a luz do dia de entrar. Contudo, por entre duas vagas frestas, a luz passava, revelando a poeira dispersa no ar. Com essa luz fraca, Sakura não tinha conseguido ver com clareza a cara do homem à entrada. Estando à sua frente, notava agora feições jovens, embelezadas por uma cabeleira loura que tapava parcialmente dois olhos azuis brilhantes. Vendo que a sua mão estava parada no ar há demasiado tempo, Sakura baixou-a e fitou o homem com uma expressão mais cerrada. Tentou estudá-lo: possivelmente seria o director, um filho bem-parecido de algum homem rico, que, por já ter muita idade, decidira delegar no filho a tarefa de cuidar do teatro. A avaliar pelo cheiro e pelo estado da sala, diria que o filho se limitava a esbanjar o dinheiro do pai em bebida, comida, tabaco… E sabe-se lá mais o quê.
Subitamente, um sorriso rasgou-se na cara do homem, que se levantou completamente e bateu com as mãos na secretária levantando mais pó.
"Masaka! O Jiraya disse-me que a protegida da Chiyo era gira, mas eu nunca pensei que fosse assim tanto!"
Sakura sentiu as suas faces a queimar. Depressa, pensa em alguma coisa decente para dizeres.
"A-Arigatou gozaimasu…"
O homem louro saltou por cima da secretária, fazendo Sakura recuar e emitir um grito surdo. Avançou para ela como um animal feroz a perseguir a presa e Sakura considerou que aquilo há muito que tinha transposto os níveis de decência. Cerrou os punhos e deixou-se ficar no mesmo sítio. Infelizmente, estava já encostada à parede.
"O que raios é que…" – Começou. O homem pegara-lhe no queixo e puxara-lhe a cara para cima. Antes que Sakura pudesse desferir um pontapé, uma luz abria-se por cima dela. O homem estava novamente a olhá-la nos olhos, com um ar mais doce, como se surpreendido como a luz que tinha ligado.
"Hai… Acho que nunca tinha visto uma bailarina tão bonita." – Sussurrou. Sakura sentiu as pernas a falharem-lhe. Subitamente, tinha consciência da proximidade do corpo quente daquele homem junto do seu, apenas coberto por um vestido e um casaco. A mão dele era estranhamente macia e não a magoava. Nunca tinha permitido que um homem se aproximasse tanto dela em tão pouco tempo e de maneira tão… Indecente! Empurrou-o com força para a frente e manteve os braços para cima, para prevenir qualquer tentativa de "ataque".
O homem olhava-a, com a boca ligeiramente aberta, num meio – sorriso perverso. Sakura recriminava-se mentalmente. O homem era um pervertido, como raios é que Chiyo a tinha enfiado lá dentro?
"Gomenasai… Fui um bocado inconveniente. Ossos do ofício acho." – o homem começara a falar, baixo, mudando a sua expressão para uma evidentemente embaraçada.
Ou isso ou ressaca da noite anterior…
Sakura era incapaz de baixar os braços e de deixar de estar contraída. O homem tinha avançado para ela de uma maneira definitivamente animalesca. Não fosse o facto de estar completamente dependente de Chiyo, já há muito que Sakura teria tornado a cara daquele louro insuportável um pouco mais… Feia?
Sem puder pensar novamente, o homem colocou-lhe os braços nos ombros.
"Hai! Gosto de si e tenho a certeza absoluta que deve ser uma excelente bailarina!" – Ele sorria de um modo terrivelmente infantil, como se tivesse a elogiar uma criança. Sakura manteve-se na mesma posição, como se presa ao próprio chão.
O homem largou-a finalmente e dirigiu-se para a sua gigantesca cadeira, do outro lado da secretária. Sacudiu os seus cabelos loiros por uns momentos e pegou numa caneta e num papel aparentemente abandonado na mesa. Sakura continuava a fitá-lo, incrédula. Já tinha conhecido muitos homens e mulheres com comportamento imprevisível e constrangedor, mas este era, de longe, o mais surpreendente de todos eles.
Os olhos do homem encontraram os dela, de novo.
"Não se quer sentar?"
Sakura abanou a cabeça e agarrou os braços. Aquela sala tornara-se subitamente húmida e inóspita. O cheiro a bebidas alcoólicas acentuara-se, recordando-a de que, no mundo do espectáculo, a loucura, a insensatez, as bebidas e a luxúria caminhavam de mãos dadas. Ela não era nenhuma criança – de vez em quando, murmurava-se sombriamente nos vestiários sobre uma ou outra bailarina que, para ganhar mais dinheiro ou mudar de teatro, usara mais dotes que não a dança para o conseguir. O facto de isso puder acontecer e de muitas bailarinas serem incitadas a fazê-lo era assustador - significava ficar à mercê de quem quer que tivesse ficado encantado e que tivesse pago pela transferência. Significava estar sujeita a qualquer tipo de compensação que o novo "dono" estivesse disposto a exigir. Alguém que conseguisse sair de um teatro medíocre para um bom teatro recorrendo apenas à dança era de facto uma heroína.
Contudo, aquele homem não lhe parecia minimamente interessado em vê-la dançar.
Como se lhe adivinhasse os pensamentos, o homem sorriu perversamente, voltando de seguida a rabiscar qualquer coisa no papel.
Sakura não entendia. Chiyo era a sua tutora. Tudo aquilo que fazia era, em primeiro lugar, por ela própria e por mais ninguém. Se a decisão das suas acções acabasse por beneficiar Sakura, tratava-se apenas de um bónus e nada mais. Se ela a tinha arrastado até àquele teatro, seria certamente para negociar uma troca. Mas, nesse caso, porque não teria ela tratado pessoalmente do assunto? Por que se mantinha ela lá fora?
A resposta caiu-lhe tão fulminante que teve de se conter para não soltar um suspiro de indignação. Era óbvia a razão pela qual Chiyo não tinha entrado – a arte de seduzir funciona entre um homem e uma mulher quando estes estão sozinhos e não com uma velha rabugenta a servir de pau-de-cabeleira.
É que nem morta!
"Eu… Eu deixei… Uma pessoa… Lá fora." – Sakura tentou sorrir, numa vã tentativa de parecer calma, mas o homem interrompeu-a.
"Sim, eu sei, mas por agora não quero que a obaa-chan entre." – Continuou a escrever no papel. Subitamente, olhou para Sakura, parecendo novamente arrependido. – "Não que tivesse mal que ela estivesse presente, mas ela tem tendência a ser um pouco…" – Fez uma pausa. – "Intrometida?"
Pousou a caneta e encostou-se à cadeira, parecendo pensativo. Sakura reparou que os olhos dele tinham ganho um tom azul extremamente brilhante, quase luminoso, contrastando com a luz amarelada e mortiça do candeeiro.
"Há quantos anos dança?"
Sakura engoliu em seco. O que era suposto fazer agora? Alinhar no jogo? Ou sair porta fora e pedir a Chiyo que entrasse?
Mas… Chiyo estava exactamente do outro lado da porta. Se ela quisesse entrar, já o teria feito.
"Danço desde os meus seis anos. Tinha dez quando Madame Chiyo me trouxe para o Greenstone Theatre."
"E é… Tsunade-sama quem lhe dá aulas, certo?"
O homem começara a tomar notas. Para um suposto filho de director, era estranhamente musculado. Não lhe parecia que aquele sujeito fosse obrigado a fazer qualquer tipo de trabalho pesado, por isso, Sakura imaginou que o louro tivesse feito o serviço militar e tivesse sido dispensado algum tempo depois.
"Sim, Tsunade-sama é quem coordena as actividades do teatro."
O homem ergueu as sobrancelhas, não levantando os olhos do papel.
"Pensei que esse papel estivesse confinado ao Director…"
Sakura mordeu a língua. Teria dito algo de errado? Inspirou fundo e tentou responder da maneira mais cortês possível.
"O Director controla os gastos e as despesas do teatro, assim como o pessoal contratado. Julgo que será também ele quem decide o tipo de espectáculos que são exibidos, o calendário e…"
O homem começou a rir. Ao contrário do que seria de esperar, não era um riso de desprezo ou sequer malicioso. Por momentos, Sakura pensou se teria dito alguma palavra ao contrário ou algo realmente engraçado, por que o riso do homem era francamente divertido.
"Pobre Sakura… " – Suspirou. Fez a sua caneta rodopiar na secretária, algo divertido. – "Tens uma noção um pouco ingénua do que é um teatro, não tens?"
De novo, Sakura teve de morder a sua língua para não soltar uma resposta certeira. Dizer àquele homem rico e com uma visão da vida certamente boémia e decadente que, para ela, o teatro era uma casa de família mal gerida, onde cada uma das bailarinas lutava para receber o seu quinhão ao fim do mês, era um esforço inútil. O teatro tinha brilho e sombra para os espectadores. Para ela, um intermédio entre bailarina e criada, o teatro tinha pó e ratos nos bastidores.
O homem exalou um suspiro que fez rodopiar o pó suspenso no ar.
"Disseste que o Director controla os gastos e as despesas, não é? Não, essa tarefa está entregue ao seu contabilista e gestor, que é, neste caso, Kabuto-sama." – Fez uma pausa, olhando Sakura nos olhos. – "O pessoal contratado, como professores, bailarinas e técnicos, é da responsabilidade do supervisor de cada departamento. Tecnicamente, o Director deve acompanhar cada contrato e é ele quem dá a autorização para a contratação. Em teatros maiores, ele toma esse tipo de decisões com os supervisores e com o director-adjunto. O tipo de espectáculos cabe também aos encenadores, que propõem as peças e os temas. O Director limita-se a concordar ou a discordar."
Sakura olhava incrédula para o novo homem que se apresentava à sua frente. Se há menos de cinco minutos este homem se lançara para ela, como uma criança que se lança a um brinquedo novo, a elogiara e se comportara como um adolescente sem controlo, então agora surgia como um perfeito homem de negócios, calmo e calculista. Um ser bipolar, sem dúvida.
"Certo…" – Murmurou. Não sabia até que ponto aquele homem estava por dentro das finanças e dos problemas do teatro. Se havia regras a aplicar a cada teatro, o de onde ela vinha certamente que escapava a uma boa meia dúzia delas. Na verdade, Orochimaru-sama não fazia mais do que assombrar o teatro. Era Kabuto-sama quem controlava tudo e apresentava diariamente relatórios. Visitava os vestiários, assustando as bailarinas mais novas, verificava se elas eram ou não "rentáveis", qual o material que iria ser necessário para as próximas encenações, se era ou não necessário requisitar mais músicos. Era um homem detestável e sombrio e era só isso que Sakura queria saber sobre ele. Todas as intrigas que se passavam pelos corredores eram-lhe forçosamente alheias – ela sabia que, no momento em que fizesse perguntas ou procurasse respostas, os problemas viriam ter com ela. E problemas já ela tinha.
"Ainda não me disse o seu nome…" – Fixou um ponto no chão, ignorando as regras da cortesia. A conversa tinha tomado um rumo que não lhe agradava e, ou muito se enganava, ou seria forçada a usar as mesmas artimanhas que usara anteriormente para se escapar a um casamento combinado.
"Uzumaki Naruto. Sou o Director do Tokyo Theatre." – Sorriu o homem, amavelmente.
Sakura mordeu o lábio, sentindo o coração a bater tão rápido dentro de si a ponto de magoar. Lambeu os lábios e eles souberam-lhe a café frio. Entendera a jogada de Chiyo, finalmente. Esperava que Uzumaki fosse alguém importante, mas nunca aceitara a hipótese de ele ser, de facto, o director. Se Chiyo a casasse com um director, não só ela como Sakura teriam a vida assegurada.
O problema é que isso significava o fim da sua carreira como bailarina.
Aproximou-se devagar da cadeira empoeirada que estava ao seu lado. Sentia por baixo de si o chão a ceder a cada passo que dava.
"Muito prazer em conhecê-lo, Uzumaki-sama."
"A Chiyo disse-me que tu eras uma bailarina particularmente talentosa." – Uzumaki estava novamente a olhar para o papel, com uma expressão calma. – "Estarias disposta a submeter-te a um teste? Ou preferes continuar no Greenstone Theatre?"
A pergunta atingiu-a com a força de uma pedra. Ele estava a pedir-lhe para ela fazer um teste de admissão? Ficar ali?
Ficar perto de Sasuke…
"Eu preciso de falar… com a minha…"
"Chiyo já sabe, obviamente. Ela não te disse para o que vinhas?" – Naruto fitou-a, obviamente espantado e até irritado. – "De qualquer forma, ela disse que não te oporias a um teste e que passarias com distinção. Certamente não esperava que eu te aceitasse sem ter provas que o que adquiria era… Adequado ao teatro."
Então não se tratava de um casamento. Era uma proposta de trabalho. Teria Chiyo esperado até que Uzumaki tomasse posse do teatro para lhe pedir uma audição? O Director tinha certamente uma relação estranha com Chiyo – era como se a desprezasse e temesse, em simultâneo. No entanto… Significava sair de Greenstone. Significava deixar de ser uma criada.
Era o seu passaporte para uma carreira de bailarina.
"Eu aceito, Uzumaki-sama…" – Murmurou Sakura, curvando ligeiramente o tronco, numa vénia educada. Tentou esconder a réstia de sorriso. Um milhar de pensamentos lhe atravessavam a cabeça, mas, naquele momento, decidiu ignorá-los. Aquela audição não era um pedido inocente. Ninguém no seu juízo perfeito aceitaria dar a oportunidade de actuar num grande teatro a uma bailarina de segunda categoria. No entanto, o destino parecia empurrá-la para aquele teatro, fosse por si própria ou por Sasuke.
E ela seria capaz de se defender. Quando Uzumaki Naruto se levantou e lhe apertou a mão, Sakura repetiu dentro da sua cabeça que, se fosse necessário, ela saberia sempre como se defender.
"Acha-la mesmo capaz?"
"Mesmo que não fosse capaz, acabaria por trazê-la. Se continuasse naquele antro, acabaria os seus dias como criada, usada e abusada por dois crápulas."
"Julguei que não tivesses qualquer tipo de afeição pela garota… Chiyo-sama."
Chiyo retirou o longo cigarro de dentro da sua boca, aspirando o gosto acre do tabaco. Deixou que o fumo lhe acariciasse as feições velhas e cansadas, volteando lentamente no ar como tinta negra numa bacia de água. Jiraya olhava-a com uma expressão carregada.
"O miúdo tomou posse do teatro há pouco tempo. Devias ter esperado por uma altura mais oportuna…"
"A altura não podia ser mais oportuna!" – Chiyo cortou-lhe a palavra com uma voz ríspida e seca. Aspirou novamente o fumo e, bufando para o ar, murmurou, como se divagasse. – "Estou a fazer uma proposta vantajosa. Dou-vos uma bailarina, vocês dão-me protecção e um lugar no teatro."
Jiraya sacudiu a sua espessa cabeleira, recostando-se na sua cadeira maciça. Encontravam-se na sala de reuniões, uma sala ampla e ricamente decorada. As paredes estavam forradas com armários de mogno, repletos de garrafas, livros e condecorações. As paredes, cobertas com um papel bege, eram rasgadas por tapeçarias imponentes e quadros românticos. O tecto terminava numa abóbada, de onde pendia um candeeiro retorcido. Possuía treze velas e uma delas estava apagada. O metal que se ligava às velas contorcia-se como uma planta e possuía tons vermelhos. Naquele momento, apesar de ser pleno dia, as janelas estavam tapadas pelos espessos cortinados castanhos, com estranhos brilhos dourados. Naruto dera ordens expressas para o teatro ficar na mais perfeita penumbra, até o primeiro espectáculo do mês, que celebrava a primeira série de espectáculos após o falecimento do último director.
Hiruzen Sarutobi tinha sido um director irrepreensível, exigente e severo. No entanto, não amava verdadeiramente as artes – gostava de entreter as pessoas, mas não compreendia o que era a paixão pela música ou pela dança. Não gostava de inovar e isso conduzira-o fatalmente ao declínio do seu teatro. Pouco antes de morrer assinara um testamento que deixava o teatro e a academia adjacente a Uzumaki Naruto, filho de Uzumaki Minato, o filho de um dos maiores maestros daquele teatro e o seu principal investidor. Minato morrera em circunstâncias duvidosas aquando do nascimento do filho e Sarutobi encarregara-se de cuidar da criança. O mais sensato seria certamente entregar o teatro a alguém que estivesse por dentro do negócio do espectáculo, mas Sarutobi, por compaixão ou para honrar o velho amigo, deixara tudo a Naruto.
Jiraya retirou outro cigarro de dentro do bolso. Sarutobi podia ter princípios, mas era fundamentalmente um homem de negócios. Nunca deixaria o teatro a Naruto sem ter um bom motivo. A chegada da velha Chiyo, reclamando dívidas, deixara-o ainda mais desconfiado e suspeitava que Naruto se sentisse também assim.
"Portanto, tu dás-nos uma bailarina e nós garantimos-te uma casa e dinheiro todos os meses… Isso seria vantajoso para nós se Haruno fosse talentosa." – Inclinou-se para a frente. – "Como é que uma criada pode ser uma bailarina talentosa? Ela treina mais do que as outras? Não. Sabes quantos pedidos de audições recebemos desde que o Director morreu?"
Chiyo tossiu, afastando o fumo em redor para o tecto. Compôs as suas roupas e levantou-se, mantendo uma expressão solene.
"A Haruno é a minha protegida. Sei perfeitamente das suas falhas e dos seus defeitos." – Sorriu malevolamente. – " Assim como sei que ela será melhor do que qualquer outra bailarina que tu tenhas aqui. A oferta é justa e tu estás em dívida para comigo, Jiraya-san."
Com uma curta vénia, Chiyo encaminhou-se para a porta, de cabeça erguida e um olhar de quem tinha ganho uma batalha importante. Ao pegar na maçaneta, Jiraya soltou uma leve questão, que ficou a pairar no ar como o fumo do tabaco de Chiyo.
"E o teu neto, como está?"
Chiyo cerrou a mão em redor da maçaneta. Algures dentro de si, um órgão vital doía-lhe. Sentiu um ligeiro travo amargo na boca, à medida que um ligeiro som de madeira a bater em madeira lhe ocupava os pensamentos.
"Diz… Ao teu neto que, caso ele queira apresentar o seu… Espectáculo de marionetas aqui no teatro, que teríamos todo o gosto em recebê-lo."
Chiyo abriu a porta e deixou-a bater atrás de si. Quando inspirou o ar viciado do corredor, apercebeu-se que as pernas lhe falhavam e teve de se agarrar a uma das paredes frias, deixando que o frio lhe penetrasse nas roupas. Já não era jovem e cada vez menos tinha a capacidade de se mostrar insensível face a determinados assuntos.
Fechou os olhos. Não era dor o que sentia, era uma mágoa estranha que lhe envolvia o coração num suave aperto e que lhe feria o orgulho, como uma fina agulha a raspar numa ferida aberta. A pergunta de Jiraya fora um aviso, um subtil empurrão. Um "não importa o quanto este teatro te devesse e o quanto eu te devia, agora és tu quem deves a alguém e não estás em posição de fazer exigências". Ele suspeitava dela, como era óbvio. Seria inútil esperar algo de Jiraya que não fosse suspeita.
Arrastou-se pelo corredor escuro. Haruno seria vista por Kurenai, que reconheceria imediatamente o treino de Tsunade. Talvez os movimentos de Tsunade tivessem algum reconhecimento aqui, ainda. E Haruno não seria parva ao ponto de deixar passar a oportunidade…
Suspirou pesadamente, compondo o seu cabelo. O novo Director não passava de um garoto. Haruno era obviamente uma das bailarinas mais bonitas do teatro. Caso não se revelasse útil como bailarina, talvez…
Tossiu novamente. Não valia a pena preparar novos planos antes de saber o que iria fazer naquela noite. Não gostara absolutamente nada do reencontro de Sakura com o garoto Uchiha. Era um relacionamento que só a poderia prejudicar.
Virou à esquerda no corredor e deparou-se com Sakura e o novo Director a conversarem à entrada da sala onde a tinha deixado. Como suspeitara, o Director não era mais que um garoto. A mesma expressão do pai, sem dúvida. Faria um bom trabalho, mas acreditaria demasiado nas pessoas.
Como o pai.
Avançou para os dois e, nos minutos que se seguiram ouviu atentamente as indicações de Uzumaki Naruto sobre a audição de Sakura e sobre o sigilo que deveriam manter durante os dois dias de testes.
Contudo, na sua cabeça, uma cabeleira ruiva agitava-se e o som da madeira tornava-se mais forte.
O espelho à sua frente mostrava-lhe uma jovem adulta de aspecto feroz e maduro. Os seus cabelos loiros, grossos e indomáveis, emolduravam-lhe o rosto, relembrando uma deusa grega.
Pegou na escova, colocada estrategicamente à direita no seu toucador. Escovou delicadamente cada mecha de cabelo, sentindo a dureza dos seus fios de cabelo. Tão duros como a sua alma e como os seus movimentos em palco.
Os seus dias como bailarina estavam contados. Antes da morte do Director encontrava-se no auge, mas, agora, não passava de uma bailarina que se tornara velha antes de tempo.
Fitou com o seu reflexo com dureza. Abriu uma das gavetas de madeira e retirou um estranho leque metálico que colocou diante dos seus olhos. Tinha sido aquele o rosto e os olhos que, um ano antes, tinham feito com que olhos se esbugalhassem de espanto e palmas enchessem o teatro. O olhar azul, frio como o gelo, trespassara corações até atingir uma pessoa em particular.
Shikamaru.
Inconscientemente, levou a mão até à sua barriga. Quantas semanas teria ela? Quatro? Cinco? Kurenai notara já a falta de equilíbrio, o cansaço estampado no seu rosto. Naquela tarde, murmura-lhe as regras universais.
"Não queremos mulheres casadas ou futuras mães aqui."
Não haveria nunca palavras doces ou de consolo para ela. Shikamaru era apenas um pobre detective preguiçoso que ajudava o irmão nas investigações ocasionais. Fugia da cidade sempre que podia e havia quem dissesse que ele resolvia casos no estrangeiro. Mas não passavam de mitos urbanos. Para ela, Temari, Shikamaru era um mistério na forma de homem. Era alguém que, por mais que olhasse, nunca conseguiria ler. Alguém de tal forma intrínseco e preso à sua própria mente que lhe parecera impenetrável. Alguém tão parecido com ela e, contudo, tão diferente. Ela, sempre pronta a revelar os seus sentimentos – orgulho, raiva, violência – apaixonara-se por um homem que tudo fazia para esconder os seus. A vida para ele era… Penosa. As pessoas eram complicadas e as questões humanas eram inúteis.
Por isso, Temari escondera dele a pessoa e a questão que mais a atormentava de momento.
O que iria fazer?
Esfregou novamente a barriga, sentindo um leve aperto desconfortável. O mais correcto seria falar com Shikamaru, pedindo-lhe o casamento honroso.
Sorriu, escarnecendo da sua própria ideia. Se Shikamaru se casasse com ela… Seria o mesmo que condenar uma águia a uma vida inteira dentro de uma gaiola. Eram coisas diferentes, a paixão e o amor. Paixão e fogo tinham-nos levado ao seu camarim naquela noite. Amor era o que a fazia esconder aquela criança do irmão. O erro tinha sido dela e não iria sujeitar o irmão à vergonha e à chacota de a ver casada com um pobre detective.
Assim que a sua barriga começasse a ser visível, o teatro chamá-la-ia. Seria dispensada, com uma soma avultada, e em breve se espalharia a notícia que Temari não possuía mais a arte de dançar. Uma mentira bem contada que funcionava na perfeição nas mentes retrógradas dos habitantes daquela cidade.
Ergueu o pescoço e olhou em redor. A janela mostrava-lhe a lua alta no céu, ligeiramente encoberta pela neblina. Algures em baixo, as luzes dos candeeiros dispersavam uma luz tímida, que fazia com que os prédios da frente parecessem ainda mais inóspitos.
Subitamente, Temari apercebeu-se de algo estranho na portada da sua janela. Levantou-se suavemente e sentiu uma guinada na sua barriga, que a fez torcer as feições com dor. Dirigiu-se à janela e fechou com força as portadas. Não se lembrava de as ter deixado abertas. Fixou o luar durante mais alguns segundos e voltou para o tocador, iluminado pela vela que deixara acesa.
O quarto estava escuro e frio. Atrás de si, a sua cama pareceu-lhe convidativa, mas uma súbita inércia impediu-a de se levantar novamente. Pegou no leque de metal e acariciou-o. O frio do toque do metal era igual àquele que ela sentia nas suas costas despidas. O contacto da sua pele com ar, apenas protegida por uma leve túnica, sufocava-a lentamente. Não ouvia nada sem ser a sua própria respiração, entrecortada pelo bruxulear da vela.
Ao acariciar o metal, pensou como seria a criança. Onde iria ela crescer. As perguntas que faria sobre o pai. Temari ousara pensar em livrar-se da criança durante uns dias, mas abandonara a ideia, chamando-se de cobarde. A culpa era dela e não de um inocente.
Teria de fugir, certamente. Para longe daquela cidade. Aproveitaria a feira da cidade para se escapar no meio da confusão. Levaria dinheiro e alguns haveres e começaria do zero.
E, quem sabe, um dia contaria a verdade a Shikamaru. Não por ela ou por ele, mas pela criança. Shikamaru teria sorte, afinal. Nunca seria responsabilizado.
Mordeu o seu lábio. Shikamaru não seria um mau pai. Ou sequer um mau esposo. Mas, para além de olhares desafiadores, breves conversas em casa dela e, finalmente, uma noite juntos, não havia nada mais que os unisse. Ela não sabia o que ele sentia por ela para além de paixão e luxúria. Nem ela própria tinha tido tempo para saber o que sentia por ele ao certo.
Pegou numa folha de papel e desenhou círculos até a sua mente não pensar em mais nada. Depois desenhou símbolos.
Shikamaru.
Gaara.
Gostaria de dar o nome do irmão ao filho.
De facto, havia muita coisa que Temari teria gostado. Teria gostado de viajar com o irmão, compensando-o pela infância que nenhum dos dois tinham tido. Teria gostado de dançar um pouco mais. Teria gostado de ter tempo para conhecer Shikamaru, que lhe parecera tão distante e tão impenetrável como o céu nocturno.
Muitas outras coisas poderiam ter, de facto, passado pela mente de Temari naquela noite de bruma e de frio. À medida que o quarto a envolvia num suave torpor e a luz da vela se extinguia, também os seus pensamentos se dispersavam, como a neblina pelo luar. Por momentos, jurou ouvir uma outra respiração para além da sua. Por momentos, pousou a sua mão na barriga e pensou que havia algo que a assustava e não era a gravidez.
As mãos e os pés de Temari ficaram lentamente roxos com o frio. Deixou cair a cabeça sobre o toucador e observou a chama hesitante da vela a apagar-se.
Quando a chama se apagou, finalmente, Temari continuava a fixar a vela. Um olhar fixo, absorto, perplexo.
Um olhar que nunca poderia ver o leque metálico manchado de sangue ou um vulto a correr na escuridão.
Um olhar morto.
