Capítulo 2
Luke. Luke, Luke, Luke.
Por mais que este nome se repetisse em sua mente, Annabeth não conseguia acreditar que ele estava ali, em carne e osso (bem, uma carne um tanto abatida) na sua frente. Fazia tanto tempo que ela não o via... Ele realmente não parecia bem. Instantaneamente, uma onda de preocupação lhe abateu, e a vontade de Annabeth era mandar Luke entrar e cuidar dele. Foi o que ela quase fez, por um décimo de segundo, até que ela se lembrou que se tratava de Luke. O Luke que traiu o acampamento. O Luke que quase os matou tantas vezes. O Luke que despedaçou seu coração. Era óbvio que aquilo não passava de uma armadilha montada por Cronos. Ele sabia tudo pelo que Annabeth e Luke haviam passado juntos e agora utilizaria isso contra ela. Mas ela não iria deixar. Assim que ela abriu a boca, pretendendo botá-lo para fora de sua casa, Luke disse, com uma voz rouca e cansada, com um certo resquício de medo:
- Annabeth, por favor me escute. Só quero cinco minutos do seu tempo. Eu preciso muito da sua ajuda.
Ela levantou uma de suas sombracelhas, desconfiada, enquanto tentava descobrir em seus olhos o traço que denunciasse a mentira por detrás de toda a sinceridade que parecia emanar de Luke. Depois de tantos episódios quase fatais, e principalmente depois do episódio no monte Tam, em que ele a usou para atrair Ártemis, Annabeth tinha aprendido a não confiar em Luke. Ele levantou os braços, inocente.
- Pode ver, Annabeth. Não estou nem armado. Tenho uma proposta... Não... Está mais para um pedido, pra te fazer.
Annabeth não moveu um músculo, mas algo em sua expressão modificou-se, agora havia certos traços de compaixão. Luke reparou e pareceu um pouco mais aliviado.
- Posso pelo menos entrar? – ele se moveu para o lado. – Não tem ninguém comigo. Nenhum monstro. Nenhum meio sangue. Nenhum refém.
Annabeth deu dois passos para trás, deixando-o entrar, mas apenas lhe dando espaço para entrar até o hall. Ela continuava fitando seus olhos, como se eles pudessem lhe contar toda a história. Luke torcia pra que isso fosse possível. Por mais que ele soubesse que Annabeth lhe entenderia e defenderia, havia ainda a mínima possibilidade de que aquele filho idiota de Poseidon tivesse mudado sua cabeça, e Luke tinha medo desta hipótese. Por isso, evitava pensar nela. Ele respirou fundo.
- Cronos planeja algo terrível para mim. Ele... Planeja pisar em mim como se eu fosse apenas uma pedra insignificante em seu caminho. Eu não vou sobreviver a isso. Eu serei usado, Annabeth. Usado para acabar com Percy Jackson e todas aquelas outras crianças do Acampamento.
- Assim como você usou a todos os outros que estavam a sua volta? Eu ainda tenho isto, Luke. – ela mostrou a mecha grisalha que estava escondida em meio a seus cabelos. – Não me esqueci. Garanto que muitos outros possuem marcas ainda mais profundas do que as minhas.
Algo em sua voz machucou Luke. Estava fria, insensível. Não era a Annabeth que ele conhecia.
- Por favor, só escute. – ele deu um passo à frente, mas Annabeth recuou mais dois passos. – Eu... Realmente não quero, não posso deixar que isso aconteça comigo. Sei que causei muito mal a você. E me arrependo. Eu juro que nunca pretendi te atingir com o que eu faria. E queria te sugerir para que fugisse comigo. Lembra? Como nos velhos tempos? Podemos nos esconder pelas ruas, lutar contra monstros com quem topamos no caminho e falar mal dos nossos pais do Olimpo! Eu sei que você sente falta disso...
Ele realmente pegou Annabeth de jeito. Ela agora tinha um dilema nas mãos. O dilema que Janus, o deus de duas caras previu que ela estaria diante. O dilema que ela vinha temendo desde o labirinto. Luke parecia tão amedrontado, tão abatido, tão indefeso. É claro que ela sentia falta daqueles tempos. Ela não precisava se preocupar com o que os deuses esperavam que ela fizesse. E Luke e Thalia sempre cuidavam dela, o que a deixava com uma deliciosa sensação de segurança que ela não tem mais. Sendo que as circunstancias mudaram e Annabeth não consegue mais olhar para Luke do mesmo jeito que antes. Eles já não poderiam fazer o que quisessem, com aquela guerra eminente. E será que ela conseguiria xingar e ridicularizar os deuses depois de saber tudo o que ela já sabe? Não, provavelmente não. E ainda havia Percy. Annabeth não seria capaz de deixar Percy para trás, deixar tudo para trás, para se esconder.
- Sinto muito, Luke. – ela disse, gaguejando um pouco. – Mas não acho que vá dar certo. As coisas nunca acontecem duas vezes da mesma forma. Nosso tempo de fugir juntos já passou.
- Como assim? Claro que vai dar certo. E não acontecerá da mesma forma porque agora somos lutadores bem mais experientes e não vamos cair em outra toca de um ciclope idiota. Pense direito. Não será bom deixar tudo para trás? Todas essas pessoas que são falsas com você.
- Desculpe. Mas... Não posso abandonar Percy, Quíron e todos os outros do Acampamento, a quem eu prometi que lutaria ao lado para o que desse e viesse. – Annabeth disse, mas parecia um tanto insegura.
O rosto de Luke se contorceu. Ele realmente não esperava esta resposta. Ainda menos o motivo desta resposta. Luke realmente não queria ferir ela, mas na hora da raiva as pessoas acabam não pensando, não é mesmo?
- Percy? Percy? Agora eu entendi. Você, Annabeth, acha que ele está ansioso para voltar para aquele Acampamento horroroso, não é? Que ele sente tanta falta sua durante o ano quanto você dele, não é? Que ele pensa, como você, que o Acampamento é o único lugar a qual ele sente que pertence. Pois as coisas não são assim...
Annabeth não entendia aonde ele queria chegar. Mas ele a estava deixando com medo. Tratando-se de Luke, o inesperado era exatamente o que se esperar.
- Como assim?
- Há quanto tempo você não fala com ele? Desde o último verão, eu presumo? Você não faz idéia do que ele faz para passar o tempo, não é? O Conto de Fadas acabou, princesa. É hora de você acordar.
Dizendo isto, Luke tirou um dracma do bolso e lançou no ar, que desapareceu e em seu lugar surgiu uma imagem. Um garoto, com cabelos pretos bagunçados jogado em uma poltrona de um quarto, quarto não, loft gigante, rindo bastante e conversando com uma garota de cabelos lisos e ruivos, que estava deitada na cama. O coração de Annabeth quase despencou. Era Percy. Com aquela idiota da Rachel Elizabeth Dare. No quarto dela. E rindo. Seus olhos se encheram de lágrimas. Tudo o que ela andou temendo durante todo o ano que passou estava desmoronando em cima dela. Luke tinha razão, o Conto de Fadas tinha acabado. Na verdade, nunca houve nenhum conto de fadas. Tudo sempre esteve mais para uma tragédia Shakespeariana. Tudo o que Luke dizia era verdade. Tudo o que ela prezava a ignorava, não necessariamente no sentido literal da palavra. Ela achava que entendia porque Luke fez tudo o que fez: porque talvez ele estivesse se sentindo da mesma maneira que ela.
Provavelmente, seria melhor ir com Luke. Que diferença faria para os outros? A casa iria continuar cheia, ela não iria fazer falta para seu pai. Seus irmãos por parte de mãe são tão geniais quanto ela, o Acampamento não seria prejudicado. E Percy tinha a Rachel. Pra que Annabeth ficaria rodeando-o como uma mosca irritante? Luke precisava de ajuda, não precisava?
Pensativa, Annabeth fitou a imagem de Percy e Rachel na mensagem de Íris. Ela reparou que a cena não era exatamente o que ela tinha percebido. Ela notou que o sorriso de Percy era um tanto forçado, pois não chegava aos seus olhos e ele não estava fazendo as covinhas que Annabeth adorava. O sorriso de Percy era uma de suas melhores qualidades. Quase sempre parece verdadeiro, por mais que ele estivesse fingindo, e depois de tanto tempo, poucas pessoas além dela conseguiam identificar isso. Notou que apenas Rachel falava, e falava e falava, olhando para o teto, como se estivesse metralhando Percy com palavras. Ela foi se devaneando com esses pensamentos até que lhe ocorreu algo: se aquela era uma mensagem de Íris, então Percy também poderia vê-la do outro lado também. Mal este pensamento lhe ocorreu, e o olhar de Percy foi parar justamente no ponto onde Annabeth se encontrava, na mensagem. Seu rosto se iluminou ao ver Annabeth, que tratou de passar as mãos na imagem para romper a conexão. Seria embaraçoso se Percy registrasse que ela mandou uma mensagem de Íris sem motivo aparente, além disso, exigiria muitas explicações incluindo sobre a visita de Luke, o que Annabeth não planejava contar para ninguém.
Mas ele sorriu ao vê-la. Sorriu de verdade, não como estava sorrindo para os comentários de Rachel. Annabeth sorriu para o nada, com uma expressão sonhadora no rosto, e Luke reparou, e não gostou nem um pouco. Em um momento, ele pensou que estava dando certo, e que ela estava a muito pouco de ajudá-lo, até que ela olhou para a mensagem de Íris novamente e acabou com a conexão. Luke não estava entendendo o que se passava na cabeça de Annabeth, mas sabia que ela estava pensando em outras coisas. E quando Annabeth se distrai, toda a sua decisão pode mudar. Era melhor parar com aquilo antes que ela resolvesse não ir com ele.
- Então, Annabeth. Vai vir comigo? E me ajudar com isso? Será mais seguro do que lutar contra Cronos, e mais ético do que se juntar a ele. Sei que você adorava fugir e lutar. E ainda adora, tenho certeza.
Mas Annabeth já tinha tomado sua decisão. O sorriso de Percy mudou tudo para ela.
- Eu não vou, Luke. As coisas mudam, e as pessoas também. Eu não passei naquela época por metade do que eu já passei até hoje. Tudo está diferente. Se Cronos planeja algo terrível contra você, Luke, eu realmente sinto muito, mas você colhe o que você semeia. Se eu pudesse mudar tudo, naquela época, eu juro que mudaria. Eu juro que tentaria fazer sua cabeça pra você não ter cometido todos os erros que cometeu, e talvez tudo fosse diferente. Mas eu não acho que muita coisa vá mudar se eu aceitar sua proposta. Se Cronos não for te usar, ele pode usar a qualquer outro. E se ele está mesmo planejando acabar com o Percy, eu quero estar lá para impedir, ou pelo menos, morrer tentando.
- Então você não vem? – disse ele com a voz cheia de mágoa. – Esta é sua resposta oficial.
Annabeth respirou fundo.
- É. Eu não vou poder te ajudar. Infelizmente.
Annabeth conseguiu, com esta simples frase estragar muita coisa. Além de arranjar um Luke completamente irado.
- Eu sempre soube, Chase, – gritou ele. – que não poderia confiar em você. Você é muito imatura e instável para ajudar a qualquer um. Você não deveria ter dito não pra mim. Agora, não só você, como seu precioso Acampamento vão pagar por isso. Quer saber? Eu não ligo mais se Cronos me usar! Assim eu posso me vingar da amizade falsa que eu sempre tive de todos vocês naquele maldito acampamento. Todos vocês! – ao dizer isto, Luke bateu no espelho que ficava pendurado no hall.
Estilhaços de vidro voaram por todos os lados, que apenas ricochetearam ao baterem em Luke, mas não em Annabeth. Os pedaços lhe fizeram cortes nos braços e um corte não muito fundo na bochecha. Annabeth ficou sem reação, olhando chocada para Luke. Ocorreu-lhe sacar sua adaga, mas ela não seria capaz de cravá-la em nele. Mesmo que Luke tivesse feito e dito coisas horríveis para ela, Annabeth jamais poderia matá-lo. Os olhos de Luke percorreram os cortes de Annabeth, e sem dizer mais nenhuma palavra, ele virou as costas e foi embora, vacilante.
Annabeth deixou as lágrimas que há muito estavam presas escorrerem, se misturando com o sangue que escorria da sua bochecha. Ela olhou em volta do hall. A bagunça não estava tão grande assim. Ela buscou uma vassoura e uma pá de lixo e juntou todos os cacos de vidro rapidamente, e depois jogou na cesta de lixo. Ela quase havia se esquecido de todos os cortes, que ainda sangravam um pouco. Ela foi até o banheiro de seu quarto e pegou um cubinho de ambrosia e o comeu para fazer os ferimentos pararem de sangrar e cicatrizassem mais rápido. Colocou curativos nos do braço e passou uma pomada milagrosa que Connor e Travis Stoll arranjaram para ela no ultimo verão. Como era uma pomada vinda do Olimpo, eles a advertiram para não usar em excesso, então ela optou por passar só no rosto, já que os cortes do braço poderiam ser mais facilmente escondidos. Depois de estar com os braços enfaixados como os de uma múmia (exagero!), ela saiu do banheiro e deitou na sua cama.
Então ela se lembrou de tudo o que tinha acontecido naquela tarde. E uma enxurrada de lágrimas varreu seu rosto. Uma tarde tão simples, na qual ela poderia estar andando calmamente de bicicleta, acabou num desastre daqueles. Ela ficou arrependida de não ter nem se esforçado para ajudar Luke. Ele realmente parecia estar fugindo de Cronos, e ela poderia ter feito diferente. Agora, ele iria ajudar Cronos em seu plano com certeza. Annabeth deveria avisar ao Acampamento...
O sono foi chagando e ela mudou de posição na cama para ficar mais confortável. Ela ouviu seu celular tocando em algum lugar do quarto, mas ficou com muita preguiça de atender. O celular parou de tocar. E começou a tocar de novo. E parou outra vez. E começou a tocar de novo. E parou de vez. Alguém queria muito falar com ela. Quem seria?...
De repente, ela estava na sala do trono no palácio do Olimpo. Ela constatou que estava sonhando. Em frente ao trono de sua mãe estava um homem, em roupas esportivas, falando ao celular. Falava coisas como: "Então a mande falar com o SAC..." ou "Eu apenas faço as entregas..." ou também "O prazo de entrega é de seis dias úteis, mas se parcelar em mais de três vezes, o frete é grátis...". Era Hermes. O deus dos viajantes, mensageiros, ladrões. O pai de Luke. Ele desligou o telefone após alguns minutos e olhou fixamente para o trono de Atena. Então falou, com uma voz sombria e magoada:
- Certas vezes, a desconfiança e a mania de pensar demais antes de agir das crianças de Atena não são uma virtude, e sim algo que prejudica aos amigos a sua volta. Você deveria ter ajudado o meu filho, Annabeth Chase. Agora, uma das maiores guerras da História está para começar, e a vida do meu filho estará em risco. E a culpa de tudo isso é sua!
N/A: Meldels, depois que eu postei o primeiro capítulo que eu reparei que escrevi um erro enorme! I'm sorry, o Luke não foi visitá-la entre A Batalha do Labirinto e O Ultimo Olimpiano, foi logo antes da Batalha do Labirinto. É que me veio a idéia tão de repente que eu tive que escrever logo, como escrevi rápido, postei logo e nem me liguei nisso. Mas como eu já estava com a história quase toda formada na minha cabeça, e eu não ia ficar bem até que eu escrevesse tudo, então vou terminar de escrever (do jeito errado mesmo) porque eu acho que vai ficar bom. Então, considerem a fic um pouquinho de nada UA, por uma autora muito desleixada.
Muuuuuito obrigada por todas as reviews. Quando eu vi no dia seguinte que já tinham três eu quase saí pulando pela casa...
