N'a Toca, Agosto de 1998

"Curar-se também é curar os que vivem a sua volta."

Y. Ono

'Não haverá mais manhãs como esta', o pensamento ecoou na cabeça de Hermione, que tentava se distrair preparando chá para si mesma, já que encontrava-se, mais uma vez, sozinha, com exceção de Errol, a coruja, que parecia feita de pó.

Sentou-se sozinha na enorme mesa de madeira dos Weasley, tateando a fumegante xícara de porcelana, procurando por alguma outra distração, agora que sua bebida estava pronta. Um raio de sol desajeitado iluminava o terreno de fora da moradia e uma brisa leve fazia as cortinas xadrez balançarem levemente. Apenas uma observadora como Hermione perceberia tantos detalhes.

Depois de beber alguns goles da bebida de ervas, perguntou-se mais uma vez o que havia de errado com aquele dia incomum: desde que acordara, há algumas horas atrás, quando o sol nascera, sua cabeça não doeu e nem foi necessário fazer nenhuma pausa momentânea.

Não se sentia assim desde antes da guerra, pelo amor de Deus, e não compreendia o porquê da estranha sensação de cura que passava pelo seu corpo. É claro que o agradável sentimento não era nada comparado ao que sentia em seus primeiros anos em Hogwarts, ou quando Rony a encarava com aquele olhar amoroso – um que ela tinha desprezado tantas vezes desde que a guerra acabara – mas pelo menos, era algo. Algo novo, algo que não doía.

Passaram-se alguns minutos. Errol espreguiçou-se, mas logo voltou a dormir ou degradar-se, seja lá o que diabos estivesse fazendo. Hermione espiou o relógio: não eram nem sete e meia da manhã, mas logo Molly apareceria na cozinha, preparando os ovos e torradas para alimentar a imensa família, sem contar os convidados como ela.

Refletindo por um instante, Hermione sentiu-se envergonhada ao pensar em se considerar família. Ela havia passado tanto tempo ali n'A Toca, noites incontáveis, meses, até. Harry era considerado um filho para o Senhor e a Sra. Weasley, então por que ela não seria? Cedo ou tarde, Harry estaria mais próximo da família do que nunca. Estava claro que ele e Gina, apesar de serem muito novos para pensar na possibilidade de se casarem, estavam perdidamente apaixonados – verdadeiros pombinhos, como Fred costumava dizer – e que não demoraria muito até que se unissem, e tivessem filhos ruivos com os olhos de Lily Potter.

Corou quando pensou numa outra possibilidade. Estaria ela há passos de unir-se aos Weasley também? Não, não, ela estava simplesmente sendo boba. Não havia motivo algum para pensar em casar-se com Rony, seja quando fosse, afinal, ela só tinha 17 anos, e pela maneira com que as coisas estavam andando – ou seja, ela mal conversava com Rony – logo ela teria que sair da Toca, ir até a Austrália, procurar por seus pais e voltar a viver com eles, quem sabe, viver como uma trouxa –

- Bom dia! – a voz animada de Molly chamou da escada quando entrou de supetão na cozinha, fazendo Hermione tremer em sua cadeira.

- Bom dia, Senhora Weasley – Hermione procurou sorrir, mas parecia forçado, já que não fazia isso há tempos.

- Que está fazendo acordada tão cedo? – Molly indagou, dando um rápido abraço em Hermione. – pode voltar para cama, se quiser. A menos que esteja com fome, é claro! Posso preparar ovos com bacon para você, ou quem sabe assar uns biscoitos. Que tal um suco de laranja? Mais chá?

O comportamento de Molly fez Hermione sentir um sorriso formando-se no canto dos lábios. Depois de todos aqueles anos, a sempre hospitaleira Molly não havia mudado. Se o mundo estivesse acabando, ela primeiro faria certeza de que ninguém estivesse com fome ou desidratado.

- Não, Senhora Weasley, obrigada. – Hermione respondeu. – estou sem sono, vou ajudar a preparar o café.

Antes que pudesse se levantar, Molly a interrompeu, as mãos na cintura fofa e o vestido cor-de-rosa com avental estufado.

- Nem pensar! Pode ficar sentadinha se quiser, adoro uma companhia. Mas nada de ajuda, por favor, não se incomode. – Molly acariciou os cabelos de Hermione docemente, e caminhou até os armários de canto, procurando pelos ingredientes que precisava. Enquanto segurava dúzias de torradas nos braços, murmurou. – E acho que você já pode me chamar de Molly.

- Ah, sim – Hermione respondeu, mas não fazia ideia do que Molly estava falando. A havia chamado de Sra. Weasley toda sua infância, e ela nunca havia repreendido-a, por sua vez. Porque mudar agora? Curiosa, resolveu arriscar. – Porque, Senhora Weasley?

Molly não se incomodou quando Hermione chamou-a de senhora novamente. Quebrou dois ovos na frigideira e apenas após alguns segundos de trabalho, respondeu.

- Por favor, querida. A julgar pela maneira com que o meu Rony olha pra você, acha que vou aceitar que me chame de Senhora Weasley para sempre? – Molly virou os ovos chiantes na frigideira, tentando esconder seu sorriso.

Hermione sentiu o rosto pegando fogo. Não respondeu, pois sabia que continuaria recebendo respostas carinhosas – e embaraçosas – de Molly; momentaneamente, inundou-se no que tinha falado, sobre a maneira que Rony olhava para ela, o que, aparentemente, fazia a sensação estranha de cura tomar seu corpo cada vez mais.

'Não haverá mais manhãs como esta' A garota pensou pelo que deveria ser a centésima vez enquanto o óleo borbulhava ao redor dos ovos, fazendo um barulho engraçado, ainda que familiar.


A noite caiu sorrateiramente sobre A Toca, fazendo os céus terem uma coloração anil e arroxeada, pequenas estrelas prateadas enfeitando o fim da tarde. Sentada sobre um velho toco de árvore, Hermione abraçava as pernas e observava as roupas penduradas no varal improvisado, o vento balançando-as ocasionalmente.

- Ei, você está bem? – ela virou a cabeça para trás quando ouviu a voz chamá-la, mas voltou a observar os céus quando viu de quem pertencia.

- Estou sim – vagueou enquanto Rony sentava-se ao seu lado sobre o toco de árvore.

Por alguns minutos, apenas observaram o cair da alvorada. Rony se perguntava se deveria abraçá-la ou limitar-se em perguntar se estava com frio, mas quem quebrou o silêncio, quando estavam tão próximos que seus joelhos quase se tocavam, foi a própria Hermione.

- Acho que estou pronta – ela disse firme.

- P-pronta para o quê? – gaguejou Rony, tentando acompanhar seu raciocínio.

- Para essa tal viagem que quer fazer – Hermione finalmente olhou para ele, e miraculosamente, estava sorrindo. – contanto que voltemos dentro de algumas semanas...

Uma alegria que Rony nem pensava que existia o inundou, afinal, Hermione estava sorrindo, realmente sorrindo para ele, e ela havia concordado, enfim, em tentar esquecer ou apagar parte do que havia acontecido nos últimos meses.

Como não queria envergonhar-se, deu uma resposta simples.

- Ah! – exclamou baixinho. – Isso... Isso é ótimo, Mione. Podemos voltar quando você quiser. Primeiro iremos para o Chalé das Conchas, e depois –

- O céu está tão bonito hoje, não é, Rony? – Hermione o interrompeu, sorrindo novamente.

- É – ele concordou, seguindo o olhar da garota, que observava as estrelas. – Está mesmo.

Mais uma vez, Rony encontrou-se em uma situação de hesitação: queria dizer a Hermione que ela era tão bonita quanto o céu naquele dia, e que seus olhos brilhavam tanto quanto os astros prateados que o enfeitavam; limitou-se a sorrir de volta para ela, seu rosto quente.

Logo, o único barulho era o canto das árvores, das folhas que roçavam uma nas outras, resultando no som agradável, ainda que repetitivo. Rony apenas esperava por mais palavras de Hermione, ou que ela expressasse qualquer reação de tristeza ou felicidade, mas lá estava ela, olhando para o nada.

Depois do que pareceram décadas, ela falou.

- Hoje, minha cabeça não doeu – disse. – Não me lembro de ter chorado, também, mas posso estar enganada.

A alegria que, minutos atrás, havia tomado Rony, havia sido multiplicada no mínimo umas dez mil vezes. Sempre soube que Hermione era sensível, mas vê-la vomitando lágrimas todos os dias, quase toda vez que seus olhares se encontravam, era desgastante; a sensação assemelhava-se a ter um pedaço de carne arrancado de si.

Sabendo que não ia machucá-la mais, ele deslizou um braço por trás dos ombros de Hermione, e ela aconchegou-se nele, o cheiro do Outono que estava prestes a chegar ameaçando em trazer ainda mais lembranças para os dois.


Quase vinte e quatro horas depois, Hermione olhou a paisagem pela janela do quarto de Gina, registrando o máximo de detalhes o possível. Sua bolsa de contas – ainda alterada pelo feitiço indetectável de extensão – descansava contra o seu peito, lotada de livros, roupas e qualquer outra coisa que fossem precisar nas próximas semanas.

Imaginava porque havia aceitado ir naquela viagem maluca, afinal, deveria estar com algum problema, talvez bem mais de um. Estava louca se pensava que Rony estava preparado para sair com ela aparatando pela Inglaterra, apesar de ter sido ideia do próprio: teria ela o direito de pedir isso dele? Afinal, tinha acabado de perder um irmão, e ela? Ela não tinha realmente perdido ninguém tão próximo, nenhum parente de sangue. Não sabia da metade da dor que os Weasleys passavam, e ainda assim, havia sido egoísta e aceitado...

Não havia tempo para voltar atrás. Era sua última tentativa de fazê-los enxergar que ela não precisava de ajuda, e que não era, nem de longe, a que estava sofrendo mais após a guerra.

Absorveu o ar da tarde e o aroma de bolinhos vindo da cozinha, perguntando-se se era realmente sua última chance de curar-se, ou quem sabe voltar a possuir metade da alma que tinha antes de tudo aquilo começar.


n/a: Oi!

Primeiramente, gostaria de agradecer pelos reviews até agora. Eles me motivaram a escrever esse capítulo o mais rápido possível, e vocês foram todas muito simpáticas e atenciosas!

Prosseguindo, peço desculpas pelo tamanho desse capítulo e do anterior. Ambos são pequenos, mas fiz de propósito, porque como disse, são flashbacks.

Deixem mais reviews, porque adoro ler cada um deles. Não demorarei a postar o próximo capítulo, e por falar nele, vai ser meio pesado, mas acho que vão gostar.