Nem mesmo silêncio há nas montanhas
Mas trovões estéreis e secos, sem chuva
Nem mesmo solidão há nas montanhas
Mas sombrias faces rubras, rosnantes e com ar de mofa,
Espreitam das portas de casas de lodo ressecado."
T. S. Eliot
A pequena cidade de Wit amanheceu reduzida a pó.
Situada no sudoeste do País de Gales, Wit estava isolada do restante do país pelas elevadas altitudes dos Montes Cambrianos. Era ligada a Swansea e Cardiff pelo trem que serpenteava pelo litoral por cinco horas às terças-feiras e sábados, trazendo os jovens que iam se divertir nas praias de águas geladas do Mar da Irlanda.
Contava novecentos e setenta e dois habitantes, todos descendentes de famílias que se refugiaram nas encostas durante a invasão romana, há quase mil e oitocentos anos. Algumas vieram depois, empurradas pelos saxões que invadiram a Bretanha com a queda do Império Romano.
O isolamento voluntário permitiu a manutenção de costumes peculiares, que tornava quem crescesse na região um tanto 'estranho' aos olhos das pessoas que descobriram a comunidade na década de vinte do século passado. Pensando ter encontrado o paraíso, moradores das cidades maiores construíram casas de veraneio para passar uma temporada 'longe de preocupações'.
Francamente, os recém-chegados espantavam-se com os pães e jarras de leite adoçado com mel deixados nas lareiras apagadas religiosamente às vésperas de primeiro de novembro ("São presentes para os mortos", era a resposta.). Ou maravilhavam-se com as celebrações dos solstícios e equinócios, quando fogueiras eram acesas no alto dos montes, estalando e iluminando a noite.
Os nativos ainda não haviam se acostumado com os estrangeiros e os recebiam com reserva, logo dissipada numa rodada de cerveja encorpada na única estalagem local, o 'Truta Espumante'. Mas, deve-se anotar esse fato, pouquíssimas crianças de Wit estudavam nas escolas de Swansea e nenhuma em Cardiff ou Gloucester.
Quando passavam dos dez anos, os meninos e meninas que nadavam nus no verão eram mandados estudar num internato de nome complicado no norte. Outros eram enviados para um mosteiro no sul. Voltavam misteriosos nas férias, afastavam-se dos filhos dos turistas, formando uma espécie de confraria exclusiva.
Naquela noite, um grupo particularmente alegre estivera festejando no 'Truta Espumante'. Eram rapazes de Bristol que, desafiados por colegas da vizinha Cardiff, haviam chegado a Wit pelo mar, perfazendo um tempo de dez horas, novo recorde. Tiveram que pernoitar na estalagem do velho Angus devido a uma repentina tempestade marítima.
Foi a maior tempestade registrada em Wit em mais de duzentos anos. Os trovões soavam tão altos que abafavam os sons das risadas trôpegas dos rapazes, provocando pequenos tremores. Os raios açoitavam o céu. O mar quebrava nas rochas, arrancando enormes blocos que eram arremessados longe pelo vento.
Os habitantes de Wit escondiam-se em casa, pouco se atrevendo a espiar pelas frestas das portas e janelas. Durante séculos puderam prever as mudanças no tempo, mas ninguém entendeu as nuvens que se formaram depois do anoitecer.
Os aventureiros de Bristol riram do temor do velho Angus, fechando todas as janelas e segurando firmemente um graveto nas mãos.
- Má noite. – ele murmurou para seu ajudante, um rapaz franzino de cabelos bastante loiros e olhos cinzentos de nome Gwydion (nome que os visitantes acharam interessantíssimo!).
- O senhor acha...?! – o garoto, em férias após sua terceira temporada no sul, olhou espantado para a porta fechada.
- Acho. – Angus cortou-o. – Você deveria ter uma também. – completou, mostrando o graveto.
- Vocês são divertidos! – um dos jovens gritou, entornando a décima sexta caneca de cerveja. – Guardam tão bem esses gravetos. Até os lustram! Veja, Kevin, você deveria fazer o mesmo com seu skate!! – e riu junto com os outros.
Os dois olharam-nos friamente.
- Não precisamos disso em Avalon. – Gwydion respondeu baixo, encarando o rosto marcado e carrancudo do patrão.
- Esta noite, garoto, não poderíamos estar mais distantes de Avalon. Fique perto deles. – fez um gesto vago em direção ao grupo. – E deixe um corvinal mostrar como se faz.
O garoto abriu a boca, mas seu protesto jamais foi proferido. Uma forte luz esverdeada atravessou os vãos da porta e gritos estridentes foram ouvidos. Gritos de desespero e agonia. Até os rapazes de Bristol pararam de conversar.
Subitamente, as janelas foram arrancadas por uma explosão, e os homens no interior da estalagem puderam ver um festival de luzes verdes e azuis subindo as encostas. As pessoas que moravam perto da praia corriam, escondendo-se nas sombras das casas, algumas se arrastavam, tentando atravessar o lamaçal com a ajuda das mãos quando as pernas não obedeciam. Tudo em vão. Os raios as atingiam pelas costas e elas tombavam na lama.
Angus e Gwydion correram para a porta. Atrás dos raios vinham dezenas, talvez centenas, de encapuzados subindo lentamente, esquadrinhando cada possível esconderijo de algum fugitivo.
No meio da confusão de gritos, lama, chuva e correria, o ajudante de Angus distinguiu um brilho vermelho junto a dois invasores em frente ao armazém.
- Lynn! – ele gritou, atirando-se encosta abaixo. – Lynn!
A jovem ruiva apontava seu graveto lustrado em direção aos oponentes. Ele notou que ela tremia e que os dois riam. Risadas impiedosas e cruéis.
Gwydion escorregou os últimos metros, parando ao lado dos homens. Lynn estava tão suja de lama e molhada quanto ele, mas os sujeitos pareciam não estar no meio de uma tempestade. Suas capas negras sequer estavam molhadas. Só então ele viu os corpos de duas crianças ruivas perto da garota.
"Magia Negra", foi o que o jovem pensou quando ergueu os olhos para os inimigos e viu vários crânios verdes reluzentes pairando sobre a cidade. Cobras saíam das bocas dos crânios.
- Estupefaça! – Lynn gritou e um jorro de luz vermelha saiu do graveto, mas não acertou os homens. Ela tremia, tentando não olhar para os lados.
Eles riram mais, achando engraçado o esforço da menina em detê-los. Assim que o loiro se aproximou, os dois o fitaram por um instante, parecendo reconhecer alguém. Gwydion podia senti-los analisando-o e levantou-se rápido, apressando-se a ficar ao lado da ruiva.
- Como a vida é engraçada, Crabble! – um deles exclamou, a voz áspera arranhando os ouvidos do garoto.
- Um loiro e uma ruiva... – o outro respondeu. – Agora podemos nos divertir, caro Goyle.
- Juntos?
- No três... Um... – eles ergueram as varinhas. – Dois... – apontaram para os garotos. – Três! Crucio!
- Avada Kedavra!
Gwydion viu a amiga ser engolfada pela luz verde que saiu da varinha do mais alto, levantando-a no ar. Então, uma dor sufocante o fez perder o equilíbrio. Ele rolou na lama, não mais ouvindo os gritos dos outros, só os seus próprios.
Em todos os anos em Avalon, os druidas nunca mencionaram que se poderia causar dor assim com um simples feitiço. Ele não estava preparado mas, mesmo que estivesse, a sensação de ter os olhos perfurados, a barriga aberta por uma lança, os nervos atirados ao fogo seria igual.
- Você deveria tê-lo matado! – resmungou a voz áspera.
- Deixe-o ver a amiguinha primeiro.
Quando notou Lynn caída, sua expressão era de pânico. Os olhos abertos, sem brilho, a boca mole não mais sorriria para ele.
- Agora, garoto, você vai ver. – o mais largo e baixo disse e o ergueu com um feitiço até que o loiro pairasse sobre a cidade.
Wit estava em chamas. Apesar da chuva, a cidade ardia num assustador fogo azul-metálico. Entre os prédios chamejantes, corpos desfigurados jaziam, caídos de qualquer forma pelas ruas. Algumas crianças choravam sobre os pais mortos e eram silenciadas por chutes e feitiços.
Horrorizado, Gwydion viu uma roda de bruxos cercando os aventureiros de Bristol e torturando-os. Seu estômago revirou ao ver um deles ter os olhos arrancados com uma adaga enquanto a cabeça de outro pendia do pescoço e os encapuzados os mantinham vivos.
Angus tombara, seu rosto tão irreconhecível por um corte profundo de espada que Gwydion o distinguiu apenas pelo cabelo branco e comprido. Ainda segurava a varinha de freixo e corda de coração de dragão.
De repente, ele caiu.
- E agora, seu amante de trouxas nojento, você vai morrer! – novamente a voz áspera. A última visão do aprendiz de druida, Gwydion Mac Airem, antes de ouvir um rumorejo, foi a luz verde piscar na ponta da varinha do inimigo.
Dois dias depois, a manchete do Profeta Diário informava: "Nenhum sobrevivente no segundo massacre este mês."
O mundo mágico enfrentava sua pior crise.
