A Solidão.
-o-o-o-
Abrir a porta, passar, fechar a porta.
Atos mecânicos, feitos sem qualquer pensamento. Largar as chaves na primeira mesa pela qual passar. Sentar no sofá velho e rasgado. Sem pensar. Quem me dera não tivesse mais de pensar.
"Merda!" – minha voz sai tão fraca que eu quase não a reconheço – "Merda, merda, merda!" – repito na estúpida tentativa de com isso fazer as coisas terem algum sentido que eu possa acompanhar.
E aí ele vem, com a cabeça erguida – imponente – querendo atenção, ou então saber o que aconteceu, quem sabe? Cães são realmente criaturas fantásticas. Ele põe a cabeça no meu colo e me encara com aqueles olhos profundos de quem sabe tudo, de quem enxerga tudo.
Antes que eu me dê por mim já estou contando como tudo aconteceu. Desde a chamada, por causa do incêndio, e como isolamos a rua, a chegada dos bombeiros, a breve conversa com o Vince.
Minha voz trava na garganta. Chego a pensar que eu sou incapaz de continuar a falar, mas aquele par de olhos impiedosos a me olhar estão ávidos por mais. Eu estou ávido por contar.
"Ele entrou no prédio. Eu o segui com o olhar, sabe? E cheguei mesmo a acreditar que nada pudesse acontecer a ele ou a qualquer outro." – paro por um momento, repentinamente me sentindo um tolo por estar me confessando a um cachorro, mas basta um latido suave dele para me fazer falar.
"Eu não vi, não tinha como. Mas todos sentimos o chão tremer com o impacto. E o barulho." – sinto meu rosto se contrair numa careta involuntária que logo tento afastar, sem muito sucesso. – "Aí a movimentação dos bombeiros aumentou. Nós entreouvíamos coisas, sabe? Eles falando que ainda tinha gente deles lá dentro, e que talvez estivessem presos."
"Mas eu não conseguia captar todo o significado daquilo, entende? Nós nunca pensamos que pessoas que conhecemos podem ficar em uma situação dessas. Afinal é como se fôssemos heróis, e nada acontece com os mocinhos, não é?" – por algum motivo quase incompreensível, não consigo mais encarar os olhos dele. É como se ele fosse mil vezes mais sábio que eu, e essa súbita "sabedoria canina" me deixa desarmado.
"É Red, eu tava errado. Acontecem coisas ruins até com os 'caras' legais. Tiraram ele lá de dentro numa maca. Ele tava apagado e todo ensangüentado. Logo depois tiraram o parceiro dele e uma outra mulher, em estado ainda pior. Foram direto pras ambulâncias que saíram zunindo à toda velocidade." – ele finalmente abaixa os olhos, e quase chego a acreditar que ele se sente mal pelo que aconteceu.
"Eu não sei como ele tá, ainda não tinham liberado nenhuma informação sobre ele quando eu passei no hospital com a Tifa. Ela também tá preocupada com ele e com o parceiro, parece que eles se conheciam. Sei lá." – disse por fim, sem conseguir pensar em qualquer outra coisa. E ele parece entender o peso disso.
Ele levanta a cabeça grande – que, aliás, ainda está com os penachos que eu coloquei no Dia das Bruxas, só pra deixá-lo com uma aparência assustadora para as crianças, e ainda não tive vontade de tirar – e me olha com um ar duro, como se estivesse me ordenando algo. Começa a andar com seus passos leves e eu o sigo até o quarto, onde ele se despeja ao lado da minha cama, mantendo apenas a cabeça apoiada na borda da cama.
"Só você mesmo pra me entender Red!" – digo cansado enquanto me sento e me preparo para dormir – ou ao menos tentar...
Luzes estão acesas por todas as partes. O brilho me ofusca e atrai ao mesmo tempo. Algo parece estranho, mas não sei o que é. Talvez seja a coloração absurda de tudo, ou apenas o fato de todos os contornos – todos mesmo – estarem confusos e difusos.
"Cid."– Uma voz límpida me chama tão delicadamente que me parece melodia, tudo aliás parece se convergir em melodia. – "Cid"
Sigo a voz com interesse, desejando achar a fonte de tamanha beleza. – "C$#$£&¢!" – penso quando vejo surgir à minha frente o enorme cão castanho, com penachos na cabeça, brincos nas orelhas, cicatrizes e tatuagens espalhadas por todo corpo – Tem um XIII tatuado perto da pata dianteira – e chamas saindo pela ponta da cauda.
"Red!" – chamo-o pelo nome. Apesar da gritante diferença – meu cachorro não tem fogo saindo do rabo! – sei que é ele. Não tem como confundir esses olhos sábios. – "O que aconteceu com você?" – pergunto sabendo que ele não vai me responder, afinal cães não falam!
"Cid" – Ok. Isso é novidade. Desde quando o meu cachorro aprendeu a falar? – "Cid. É hora de acordar. O telefone está tocando, você precisa acordar!"
Levanto de um salto. Red – agora de volta ao normal – late para mim e coloca o celular na cama ao meu lado. Vejo três chamadas não atendidas no visor, todas da Tifa. Afago a cabeça do cachorro sinceramente aliviado por ele não falar, mas por algum motivo considero 'Red XIII' um nome mais divertido do que apenas 'Red'.
O relógio sobre a cômoda indica 3:40 da manhã. Levanto-me e lavo o rosto, para só então retornar a ligação. Um toque. Dois. – P! Pra que liga se não fica ao lado da merda do..."
"Pára de xingar, Cid!" – A voz dela sai pelo fone e logo percebo duas coisas. 1º: ela não tá nada bem. 2º: eu pisei na bola. E feio.
"Que houve? Cê tá legal? Tua voz tá estranha pacas! Cê dormiu alguma coisa?" – estouro num interrogatório ilógico.
"Ligaram do Hospital como eu tinha pedido. O Vincent saiu da sala de cirurgia. Parece que ele tá bem. Como ele não tem família, pediram que vá alguém até lá." – ufa. Isso realmente me permite respirar um pouco aliviado, mas algo me diz que não por muito tempo.
"Então por quê cê tá assim?"
"O parceiro dele, Cid" – ela faz uma pausa e eu quase desejo que a linha caia e ela não possa continuar a frase – "O Zack morreu." – ouço um soluço abafado no outro lado da ligação. – "Nós éramos amigos."
"Ok, Tifa. Eu tô aí em 15 minutos. Te acalma que eu já chego!"
Ela desliga o telefone e eu saio voando até o apê dela. Ela estava me esperando do lado de fora. Não posso deixar de reparar em como seus olhos estão inchados. Eu a abraço e sinto seus ombros tremerem levemente com um soluço.
"Eu quero ir ao Hospital." – ela diz depois de um tempo, e eu concordo com a cabeça.
Eu a levo até o meu carro, e saímos em direção ao hospital. No caminho o silêncio entre nós é mortal. Eu não sei o que dizer à ela, e acho que ela até entende isso, ela apenas olha pela janela, como se procurasse no horizonte sombrio algo que possa lhe dar forças.
O sinal fecha. Viro-me pra Tifa e, talvez pela primeira vez, reparo nos seus olhos grandes e da cor de âmbar, ou então no longo cabelo preso em um rabo-de-cavalo. Acho que o fato de ela estar em roupas civis realça sua aparência de um modo impressionante.
Eu acendo um cigarro e dou uma longa tragada. Ela olha pra mim, e eu vejo desaprovação em seu olhar. O sinal abre.
"P¢££$! O câncer é meu, saca? E, de qualquer jeito, fumar me relaxa." – digo apontando para o cigarro. Aproveito e dou mais uma tragada. Ela balança a cabeça negativamente.
"Você é capaz de achar qualquer motivo pra fumar, Cid." – E ela quase chega a sorrir por trás de toda a tristeza que encobre seu rosto. – "Eu vou direto ver o médico que atendeu o Zack. É melhor você ir até o Vincent."
"Cê tem certeza que não quer que eu vá contigo?" – pergunto já imaginando a resposta. Ela balança a cabeça dizendo não. – "Se você diz."
"Me passaram o nome do médico do Vincent, tá anotado aqui." – ela me passa um pedaço de papel, onde está escrito: 'Valentine, Vincent. Quarto 266. Dr. Hojo.'
Paro o carro no estacionamento do Hospital. Na recepção a balconista nos dá direções opostas. Subo dois lances de escada, e no balcão de informações do segundo andar peço para anunciarem o Dr. Hojo. Uma enfermeira me avisa que o Dr. infelizmente não pode me ver no momento, e se prontifica a chamar a enfermeira responsável para me dar as informações sobre o estado do Vince.
"Boa noite" – Uma voz doce vem por trás de mim, me surpreendendo. Viro-me e vejo uma enfermeira bonita, mas com uma aparência infeliz. Ela me olha com seus olhos muito verdes que parecem transbordar tristeza. – "Eu sou Aerith, a enfermeira-chefe desse andar. Me disseram que o senhor é amigo do Vincent." – Eu estranho essa intimidade, mas sigo calado enquanto ela me encaminha até o quarto. – "Ele era amigo do meu namorado." – ela diz explicando a intimidade.
"Eu não sabia que o Vince tinha muitos amigos por aqui, quer dizer, fora eu e o pessoal do batalhão dele." – digo e logo após já me sinto envergonhado pela minha falta de tato.
"Meu namorado se chamava Zack. Talvez o senhor o conhecesse." – Ela me diz, e eu sinto meu coração falhar uma batida.
"Sinto muito." – digo sem jeito, e ela balança a cabeça, triste.
"Queriam me dispensar, mas o hospital este cheio. Eu achei melhor terminar meu turno." – ela balançou os ombros. É de se admirar a força que ela tem para ainda continuar trabalhando. – "Bem, este é o quarto dele. A anestesia está prestes a passar. Em qualquer momento ele deve acordar, se o senhor quiser, pode esperá-lo acordar no quarto."
"Eu quero sim. Vai ser bom para ele se tiver alguém ali quando ele acordar." – digo e ela concorda com a cabeça.
"Bem, tem algumas coisas que o senhor precisa ficar sabendo." – ela diz e suspira. Meu coração acelera, algo me diz que é aquele tipo de informação que você deseja nunca ouvir. – "Um cano atravessou o braço esquerdo dele. Nós fizemos tudo o que era possível, mas o dano nos nervos foi muito grande." – ela faz uma pausa e me olha nos olhos. – "É possível que o Vincent não possa mais mover o braço esquerdo. Nunca mais."
