Capitulo I

Gina Prewett se assustou com o súbito barulho no escritório ao lado e olhou para a porta fechada que ligava as duas salas. Até onde sabia, seu colega, diretor da cadeia de hotéis pertencentes à sua família, estava no almoço. Os dedos de Gina pararam sobre o teclado do computador, enquanto esperava o próximo ruído. Seguiu-se o som distinto de algo grande, provavelmente a cesta para papéis, atingindo a parede. Um sorriso malicioso pouco a pouco surgiu em seu rosto. Ao que parecia, nem tudo correra bem. Aquilo não poderia ter acon tecido com um sujeito melhor, pensou.

Gina empurrou sua cadeira para trás, levantou-se e se dirigiu à porta fechada que dava para a sala momentaneamente silenciosa. Ela era alta, mesmo sem seus saltos de 7,5 cm. Magra, porém curvilínea, olhos castanhos brilhantes e a natureza tempestuosa que seus fartos cabelos ruivos indicavam. Contudo, a experiência lhe ensinara a mantê-la sob controle e agora, aos vinte e seis anos, apresentava ao mundo um comportamento frio e calmo.

Há pouco mais de um ano trabalhava ao lado de Harry Potter, desde que o avô dele, o dono da cadeia de hotéis, a contratara para coordenar a modernização e decoração das várias propriedades. Quando Harry fazia suas visitas regulares aos hotéis ela o acompa nhava para supervisionar toda re-decoração planejada. Eles tinham um relacionamento profissional surpreendentemente bom, levando-se em conta o fato de que, na verdade, não gostavam um do outro.

Eles levaram menos de um mês para se avaliar e determinar o que o outro queria. Assim, as linhas de combate foram traçadas e suas trocas de palavras se tornaram uma fonte de muito interesse e diver timento para a equipe. As escaramuças eram diárias, a não ser que um dos dois estivesse fora do escritório. Harry nunca perdia uma oportunidade de alfinetá-la e Gina, que nunca fora de recusar uma briga, saía-se o melhor que podia.

Gina sabia que Harry achava que ela não tinha sangue nas veias, mas gelo, e não saberia o que fazer com um homem de verdade. Via Simas, o namorado dela, com claro desdém, porque era tudo que ele próprio não era — leal, constante e não-exigente. Certamente, o relacionamento não era apaixonado, mas Gina já trilhara esse ca minho uma vez. Permitira-se ser governada pelas paixões, o que a levara ao desastre. Não pretendia trilhá-lo de novo. Simas era o que queria agora, e estava bastante certa de que logo a pediria em casa mento. Quando isso acontecesse, tinha a intenção de aceitar.

Se o estilo de vida de Gina era uma piada para seu co-diretor, o dele só merecia seu desprezo. Na opinião de Gina, Harry era pouco mais que um mulherengo sem princípios. Flertava com qualquer uma que estivesse ao seu alcance e até mesmo as mais fortes se derretiam quando as encarava com olhos brilhantes e um sorriso que as desar mava. Gina não se surpreenderia nem um pouco se ele fizesse uma marca na madeira da própria cama para cada mulher que seduzia.

Mas reconhecia que Harry era generoso e sabia tratar bem as mulheres, quando ainda estava interessado nelas. E, para ser justa, nunca se aproximava das casadas ou comprometidas. Tinha uma espécie de código. Só jogava com as mulheres que conheciam as regras do jogo, e nunca se envolveu com as que trabalhavam para ele. Havia duas áreas distintas na vida de Harry e uma só se misturava com a outra quando Gina tinha de consolar a última descartada.

Gina havia deixado sua desaprovação clara, mas, em vez de ficar ofendido, Harry achara graça. Ele a informara de que não seria repreendido por uma megera puritana. Foi assim que aquilo come çou, e essa era a situação entre eles agora, quando Gina chegou à porta. Uma mulher sábia poderia ter recuado, mas Gina reconhecia uma oportunidade quando se apresentava. De modo algum consegui ria continuar a trabalhar sem saber o que acontecera, por isso esten deu a mão para pegar a maçaneta.

Ao abrir a porta, precisou se abaixar rapidamente para se desviar de um objeto lançado em sua direção. Ela olhou para os lápis espa lhados no chão ao seu redor e depois para o homem agora imóvel ao lado da escrivaninha.

A honestidade a forçava a admitir que, sem dúvida, Harry era o homem mais bonito que já havia visto. Aos trinta e dois anos estava na plenitude da vida. Alto, magro e musculoso, ria com olhos verdes maliciosos, tinha fartos cabelos negros e uma boca que sabia dar um sorriso de tirar o fôlego. Mas neste exato minuto, Harry não sorria. Pelo contrário, sua expressão estava terrível, e fez os lábios dela se contraírem.

— O almoço foi bom? — perguntou Gina ironicamente, e viu os dedos de Harry se crisparem como se quisesse que estivessem ao redor do pescoço dela.

As narinas de Harry se alargaram quando ele respirou fundo.

— Não, não foi. Na verdade, foram as piores horas da minha vida!

— Não me diga que alguma desmiolada teve o bom senso de dizer não a você — falou Gina com ironia. Com uma súbita mudança de humor, Harry lhe deu um sorriso largo.

— Eu não saio com desmioladas, meu bem. Sabe que prefiro as mulheres inteligentes — replicou Harry, observando com um brilho nos olhos Gina se abaixar e começar a recolher os lápis. O processo fez a saia dela se erguer acima das coxas. — Belas pernas — murmurou ele em tom de aprovação. Quando ela lhe lançou um olhar furioso, mudou de tática. — Eu atingi você? — perguntou, e Gina bufou ao pegar o estojo e se levantar.

— Não, mas eu posso atingir você se não tirar os olhos de mim — avisou-o, colocando o estojo na estante mais próxima e cruzando os braços.

— A culpa é sua de estar tão à vista. Um homem simplesmente não pode evitar olhá-la — observou ironicamente.

Harry estava flertando com ela, uma tática que às vezes usava quando queria irritá-la mais do que de costume. Como sempre, Gina o ignorou.

— Bem, é melhor tentar — acrescentou ela.

Harry enfiou as mãos nos bolsos da calça de seu elegante terno de design italiano e balançou o corpo para trás, apoiado nos calca nhares.

— Você é uma mulher dura. Será que algo a atinge? Que sente paixão? Sabe o que é isso? E quanto ao Simas? O relacionamento funciona? Ele ao menos pode beijá-la, ou vai para casa frustrado todas as noites enquanto você dorme profundamente em sua cama virginal?

Gina se manteve calma e ergueu as sobrancelhas zombeteiramente.

— Você realmente esperava que eu respondesse a essas perguntas, só porque está de mau humor?

— Não, esperava que me desse um tapa no rosto. Por que não fez isso?

Ela lhe deu um olhar à moda antiga.

— Provavelmente porque era o que queria que eu fizesse — respondeu secamente, e ele riu.

— Está aprendendo, meu bem. Ainda há esperança para você — gracejou Harry, enquanto se dirigia à janela e olhava para a cidade abaixo deles.

— Eu não sou seu bem, Harry. Isso é algo que nunca desejaria ser — replicou Gina, embora não esperasse que suas palavras surtissem mais efeito do que suas tentativas anteriores de fazê-lo parar de chamá-la pelo afetuoso termo.

Harry olhou-a de relance por cima do ombro.

— Um homem poderia congelar tentando esquentar você. Simas tem toda a minha simpatia.

Gina cerrou os dentes em silêncio à insolência dele.

— Felizmente, Simas não precisa dela — observou, o que o fez sorrir.

— Não, ele próprio é bastante frio. Gina o olhou fixamente.

— Eu não o acho nem um pouco frio. Como afirma o ditado, não se deve julgar um livro pela capa.

— O que também poderia se aplicar a mim, meu bem — salientou Harry, mas Gina meneou a cabeça negativamente.

— Ah, não, você é um livro aberto, Harry. No que lhe diz respeito, todos conhecem a trama. Quem tem bom senso o deixa na prateleira — retorquiu com sarcasmo, ao que os olhos dele brilharam malicio samente.

— Talvez, mas quem não tem se diverte muito mais. Gina balançou a cabeça tristemente.

— Você é incorrigível, e tenho coisas mais importantes a fazer do que perder tempo discutindo — disse bruscamente fazendo menção de sair, mas Harry ergueu uma das mãos indicando que parasse.

— Elas podem esperar. Feche a porta e sente. Preciso conversar com você — ordenou. Suas palavras não apresentavam sinal da zombaria anterior, mas tinham um quê de desconforto. Gina fechou a porta.

— Achei que você não me considerava qualificada para ser sua confidente — observou, evitando pisar nos vários objetos que sofre ram pelo mau humor dele.

— Um dia desses você vai se cortar com essa sua língua afiada! — preveniu-a Harry. — Será que nada a faz parar?

— Se você deseja solidariedade, procurou a mulher errada — disse Gina. — Só porque uma única vez as coisas não saíram como esperava, não precisa destruir este lugar. Então, conheceu uma mu lher com um pingo de inteligência. Um dia isso ia acontecer.

— Sabe de uma coisa, Gina? Você tem fixação na minha vida amorosa. Quem disse que isto tem algo a ver com mulher? — retrucou Harry em tom de censura.

Gina ficou surpresa. Harry era como um ímã para as mulheres. Ela já ouvira as histórias das suas desventuras, e, geralmente, havia uma mulher no meio. Mas, aparentemente, não desta vez, se é que dava para acreditar nele.

— Não tem? — perguntou. Se havia sido injusta com ele, estava disposta a se desculpar, não importa o quanto isso fosse contra o seu feitio. Ia abrir a boca para fazê-lo, quando Harry desviou os olhos dos dela e esfregou uma das mãos irritadamente ao redor do próprio pescoço.

— Na verdade, tem a ver com uma mulher, mas não como você imagina — admitiu relutantemente.

Intrigada com os claros sinais do desconforto dele, Gina sentou-se de mansinho na cadeira mais próxima e cruzou as pernas, puxando decorosamente para baixo a saia cor de violeta. Já tirara o casaco, e usava uma blusa simples de seda creme sem manga para se sentir confortável no opressivo calor de verão.

— O que acha que eu estou imaginando? — provocou-o, seguindo-o com os olhos enquanto ele se dirigia à cadeira de couro e afundava nela com um profundo suspiro.

— O pior, como costuma fazer — retrucou Harry secamente. Gina estendeu as mãos em um gesto de desaprovação.

— Bem, você é o único culpado disso. Nunca teve de consolar suas ex. Só de pensar nas histórias que ouvi sinto arrepios. — Gina estremeceu de leve para enfatizar suas palavras.

— Não acredite em tudo que ouve. Não tenho culpa se as expec tativas delas eram altas. Nunca prometi que seria eterno — salientou Harry em sua própria defesa.

— Foi isso que eu disse a elas. Ele não é um homem de uma mulher só. E melhor você levantar a cabeça e procurar alguém mais constante.

Ele ergueu as sobrancelhas ao ouvir aquilo, e então riu.

— Acho que você está se referindo à parte da minha vida que eu, erradamente, considerava privada. Ninguém lhe disse que não deve interferir na vida amorosa do seu patrão?

— Sua vida amorosa deixa de ser privada quando você publica, porque quase todos os dias é fotografado e dados com uma mulher diferente! A esta altura sua caderneta de telefones de mulheres deveria estar rebentando de tão cheia.

Harry esticou os dedos e olhou para Gina por cima deles.

— Se eu tivesse uma, coisa que não tenho.

— Não tem? Não acredito! Homens do seu tipo sempre têm!

— E que tipo é esse?

Gina agitou levemente a mão.

— O que troca de mulher com a mesma freqüência com que troca de roupa.

— Adianta eu negar?

— E difícil acreditar quando já vi os resultados do seu trabalho. Harry esfregou um dos dedos na ponta do nariz e depois a olhou sarcasticamente.

— Você desaprova tudo em mim, não é?

— Nem tudo, apenas seu modo de tratar as mulheres.

— Você me faz parecer um playboy.

— Seus casos amorosos estão registrados na mídia — lembrou-o.

— A maioria das mulheres com quem sou fotografado são velhas amigas. Muitas vezes sou convidado para eventos em que preciso ir acompanhado, e prefiro levar uma mulher que conheço a me sentar perto de uma estranha. Nós passamos uma noite agradável juntos e depois eu a levo em casa. Fim da história — retrucou ele.

Gina pareceu cética.

— Não me diga que todos os seus encontros terminam tão ino centemente — ironizou, e ele deu um sorriso largo.

— De modo algum, mas isso é problema meu, não seu.

Gina não podia prosseguir com a discussão. Estava em uma corda bamba. Mas havia algo que a deixava curiosa.

— Você nunca pensou em encontrar uma mulher e se prender a ela? Nunca se apaixonou?

Harry deu uma risada de desdém.

— Não, e espero que isso nunca aconteça. Segundo a minha experiência, ser feliz para sempre é apenas um conto de fadas, meu bem — disse.

— Não acredita no amor?

— O que a maioria das pessoas sentem é desejo, embora elas prefiram lhe dar o nome de amor porque soa melhor. — Vendo a expressão carrancuda de Gina, Harry se inclinou por cima da escrivaninha. — Eu respeito as mulheres pelo que são. Gosto delas, mas não faço promessas que não posso cumprir, e me recuso a dizer que o relacionamento é algo mais do que é.

Gina achou que isso deveria depor a favor dele, mas era estranho ouvi-lo falar daquele modo sobre o amor. Apesar das suas próprias experiências, ela ainda acreditava no amor. Havia feito a escolha errada, isso era tudo. Desta vez não permitiria que a paixão a cegasse, fazendo-a achar que existia amor. Simas era tudo que queria em um homem e estava certa de que, com o correr do tempo, seu afeto por ele se transformaria em amor.

— Você pretende se casar e ter filhos? — não pôde evitar a perguntar.

Recostando-se de novo, Harry deu de ombros.

— Sim, um dia, mas o amor não tem nada a ver com isso.

— Sua mulher poderia discordar de você.

— A mulher com quem eu me casar saberá que tem meu respeito e minha lealdade. Se e quando eu fizer os votos, não deixarei de cumpri-los. Só pretendo me casar uma vez.

— Parece que você teve uma experiência desagradável. O que o fez ficar tão desiludido com o casamento?

— O excesso de familiaridade. Meu pai se casou quatro vezes e minha mãe está em seu terceiro marido. Em todas as vezes os dois juraram que era amor, mas quando a paixão acabou procuraram os tribunais de divórcio. Tenho irmãos e irmãs de seus vários casamen tos espalhados pelo mundo.

Os pais dele não eram exatamente bons modelos, concordou Gina.

— Não tem de ser assim com você. Harry encolheu os ombros.

— Não será. Pretendo cumprir meus votos, quando os fizer.

— Fico feliz em saber, mas já ouviu dizer que o caráter de uma pessoa não muda?

Harry sorriu.

— Sempre há uma exceção à regra, meu bem.

— É verdade, mas não tenho visto muitas mudanças ultimamente — zombou ela.

Harry lhe deu um longo olhar, ao que Gina sorriu docemente, e ele grunhiu:

— Eu deveria ter despedido você há meses. Só Deus sabe por que não fiz isso.

— Porque não tem poderes para fazer. Seu avô me contratou e só ele pode me despedir — disse ela confiantemente.

Harry deu fortes puxões no nó da sua gravata, afrouxou-o e abriu os botões da sua camisa.

— Está enganada, eu poderia ter despedido você num piscar de olhos. Mas é ótima no que faz. Tem bom olho para cores e estilos, e até agora seu trabalho só mereceu aplausos.

O elogio de Harry a fez sentir uma excitação interior, mas não deixou que ele percebesse.

— Não seria uma boa hora para pedir um aumento? — perguntou de modo malicioso, e ele sorriu.

— Provavelmente terá. Um bom funcionário está à altura do que ganha.

Gina não era ambiciosa. Tivera um aumento há pouco tempo. A empresa recompensava prontamente os esforços dos seus funcioná rios, e recebera a sua parte. Isso era suficiente para ela.

— Não se preocupe, não pretendo pedir um aumento. Então, o que fez a pobre cesta para provocar a sua raiva?

Lembrado do ocorrido, a expressão de Harry se tomou pesarosa.

— Sorriu para mim.

— Sorriu para você? — perguntou Gina, achando muita graça.

— Com conhecimento de causa — confirmou Harry.

— Ah — conhecia a sensação. — O almoço foi ruim. Ele deu um sorriso irônico.

— Para não dizer coisa pior. É por isso que preciso da sua ajuda. A mente de Gina estava confusa, cheia de perguntas. Ela as conteve.

— As coisas devem estar mesmo ruins para precisar da minha ajuda.

— Nem imagina como!

— Vai me contar o que está acontecendo, ou isso é um jogo de perguntas?

Harry respirou fundo e girou sua cadeira para ficar de frente para ela.

— Minha irmã vai se casar neste fim de semana.

Embora interessante, aquilo não era bem o que Gina esperava.

— Fico feliz por ela, mas o que isso tem a ver comigo? Os olhos de Harry chisparam à sua interrupção.

— Eu ia explicar. Fui convidado.

Ocorreu a Gina que ele não se sentia à vontade para lhe pedir alguma coisa, e isso era bem impróprio do confiante Harry Potter. Pasma, fez um sinal afirmativo com a cabeça.

— O.k., isso era de esperar, mas ainda não entendo o que tem a ver comigo.

Seguiu-se uma hesitação momentânea e então ele foi direto ao ponto.

— Preciso que vá comigo ao casamento de minha irmã... como minha namorada.

Aquilo lhe tirou o fôlego mais do que qualquer outra coisa.

— O quê? — perguntou com a voz entrecortada, certa de que ouvira mal.

Harry se recompôs rapidamente.

— Quero que vá ao casamento comigo — repetiu. Gina conhecia aquele papel, e era outro que desaprovava.

— Como sua namorada?

Harry ergueu rapidamente uma das mãos para evitar as objeções que sabia que ela estava prestes a fazer.

— Não é o que parece. Preciso que finja ser minha namorada. O que ele pedia estava fora de questão.

— E quanto à morena com quem está saindo... qual é mesmo o nome dela? Por que não lhe pede ajuda?

A pergunta o fez grunhir.

— Ela ia comigo, mas como não somos mais notícia, fiquei sem companhia.

Gina o olhou fixamente, percebendo que ele estava escondendo alguma coisa, mas se quisesse a sua ajuda teria de lhe contar.

— O que aconteceu?

Harry tamborilou irritadamente com os dedos na escrivaninha.

— No almoço, ela me avisou de que seus astros lhe diziam que o fim de semana não era um bom momento para viajar. Eu lhe disse que somente uma pessoa idiota acreditaria em tamanha bobagem.

Gina estremeceu.

— Um mau lance — solidarizou-se, e ele fez uma careta.

— Nem me diga! O resultado foi que ela se ofendeu.

— Por que não pede ajuda para as mulheres na caderneta de telefones que você não tem?

Gina teve uma idéia da seriedade da situação quando não obteve uma réplica inteligente ao seu comentário.

— Porque a maioria delas é conhecida da minha família, e preciso de uma total estranha. Meu avô não vai estar lá, e ele é a única pessoa que a conhece.

— Vai ter de me explicar isso — insistiu ela.

— É complicado. Há... complicações familiares. Complicações familiares encobriam vários pecados, como ela sabia muito bem. Como uma explicação, aquilo não bastava.

— Vai ter de me dar um motivo melhor para eu ajudar você. -Declarou ela e Harry a fuzilou com os olhos.

— Isso significa que vai me ajudar? — quis saber.

— Apenas me conte, Harry. Não importa o que disser e a minha decisão, nada sairá desta sala.

Harry a olhou por tanto tempo que Gina achou que se recusaria a falar, mas então ele assentiu com a cabeça.

— O.k., preste atenção. O nome da minha última madrasta é Jenna. Quando ela ainda era noiva do meu pai, achou que seria divertido conquistar pai e filho. Para ser claro, fez o possível para me seduzir. Ao contrário do que imagina, não durmo com todas as mulheres que conheço. E, acima de tudo, não me envolvo com as ligadas à minha própria família. Jenna não aceitou bem minha recusa em entrar em seu jogo, e foi correndo contar para o meu pai a história de que eu havia tentado estuprá-la. É claro que eu neguei, mas meu pai sempre teve ciúme das suas mulheres e preferiu acreditar nela. A conseqüência foi que se recusou a falar comigo durante quase três anos.

Gina se solidarizou com ele.

— Talvez agora, se você procurasse seu pai primeiro, ele reagisse de modo diferente — sugeriu, sem qualquer esperança real de que isso acontecesse. Sua experiência com seu próprio pai lhe ensinara que os pais não mudam tão facilmente.

Harry fez uma careta.

— Pensei nisso, mas não posso correr o risco. Concluí que minha melhor opção é chegar de braços dados com uma mulher. Assim Jenna terá de manter distância.

— E se ela não fizer isso, eu estarei lá para afastá-la? — murmu rou, seguindo facilmente a linha de raciocínio dele. Harry a olhou de forma penetrante.

— Você estará lá?

Gina olhou para as próprias mãos. Embora sem o saber, ele a convencera. Quando se tratava de família, ela tinha suas próprias vulnerabilidades, o que tornava praticamente impossível recusar-se a ajudar alguém.

— Devo estar maluca para ao menos pensar nisso — suspirou ela, erguendo a cabeça.

— Mas você vai? — insistiu ele esperançosamente, enquanto ela revirava os olhos.

— Sim. — confirmou Gina, e logo se encheu de dúvidas. Mas era tarde demais para voltar atrás. Desde que o homem em quem havia confiado a abandonara depois de fazer todos os tipos de promessa, ela jurara cumprir todas que fizesse.

— Obrigado Gina. Provavelmente não sabe o que fez, mas acabou de salvar meu relacionamento com meu pai.

Ela sabia melhor do que ele imaginava, mas isso era outra história.

— Só se lembre de que me deve uma. — Pouco à vontade, dispensou os agradecimentos. — Então, a que horas é o casamento, e como iremos para lá?

— Sábado à tarde, e, se pegarmos o vôo noturno de sexta-feira, teremos algum tempo antes da cerimônia para nos instalar — disse com gratidão Harry, enviando-lhe uma onda de choque.

— Voar? O que quer dizer com voar? — quis saber. — Onde é o casamento?

— Na Suíça. Para ser exato, Lago Constança. Na casa de verão da minha mãe. Vai gostar de lá.

Gina ignorou essa última parte e se concentrou na primeira.

— Suíça! Vá se danar, Harry Adams Potter, você não disse que o casamento era no exterior. Sabe muito bem que eu achava que era neste país!

Agora havia um brilho nos olhos de Harry quando ele sorriu.

— Achei que você se recusaria a ir se soubesse.

Bem que poderia ter se recusado, mas a sorte estava lançada.

— Você é um homem impossível. Não me deve só uma, mas muito — pronunciou, girando rapidamente nos calcanhares e se dirigindo à porta.

— Pode me pedir qualquer coisa — disse Harry às suas costas. Ela parou, sem se virar.

— Qualquer coisa?

— E só dizer.

Os lábios de Gina se curvaram em um sorriso furtivo.

— Muito bem, eu direi, quando decidir — concordou, fechando a porta atrás de si. Harry estava prestes a descobrir que sua ajuda custaria caro.