Tudo o que aconteceu após o resultado parecia um borrão para Kageyama. Seguiu em piloto automático. Ouvia Daichi dizer algo a si, assim como Suga, quando se aproximou deles. Não absorveu nada do discurso de encerramento. Ao fim da cerimônia, sua mãe e padrasto os encontraram na praça e, apesar de ter respondido a tudo o que diziam, Tobio sequer se lembrava o que foi falado. Sua mente não estava processando nada até entrar em seu quarto e se olhar no espelho. As flores da coroa se destacando sobre seus fios negros. A realidade enfim se destacando dentro de si. Era um ômega.
Não estava com vergonha. Nem era medo, exatamente, o que sentia. Era só muito… estranho. Nunca tinha parado para pensar nessa possibilidade. Jamais se preparara para isso. Sabia que os homens ômegas eram aqueles que experenciavam mais mudanças. Teria que se esforçar mais para controlar seu cheiro - e sendo atleta, precisaria dedicar ainda mais atenção a isso. Quando o momento chegasse teria que se preocupar com os supressores e anticoncepcionais. E os cios. Céus, Kageyama jamais imaginara passar pelos cios. Claro que sabia que alphas tinham seus próprios instintos para lidar, mas ser um ômega significaria passar pelos calores e desejos a cada três meses. Desejos que só seriam saciados de uma forma muito específica, sobre a qual Tobio não tinha pensado até o momento. Mesmo estando sozinho sentiu a vergonha subir em forma de calor em suas bochechas.
Retirou a coroa de flores e a deixou sobre a cama enquanto ia tomar um banho. Passou vários minutos que pareceram horas embaixo d'água olhando para si mesmo. Nada havia mudado em si e mesmo assim tudo estava diferente. Dormiu encarando a coroa a seu lado e sonhou com as flores à sua volta.
Durante o fim de semana sua mãe lhe chamou para conversar. Contou que seu pai era um beta, um amor de verão de quem nunca tinha falado antes pelo constrangimento de ter sido inconsequente. Tobio não ligou realmente. Mesmo que seu pai fosse alpha, se ser ômega era seu destino nada mudaria isso. Também não julgava sua mãe e ouviu constrangido os conselhos que ela lhe deu para evitar que engravidasse sem planejamento.
Conforme os dias passavam Tobio se olhava no espelho com mais frequência do que nunca. Sabia que era irracional, não era como se seu segundo gênero fosse ficar estampado em sua testa ou algo assim. Mas não conseguia evitar. Também olhara diversas vezes para a coroa, cujas flores começavam a murchar. Eram belas. Tobio sabia que eram para representar a extraordinária beleza que ômegas costumavam ter. Foi inevitável se perguntar se poderia ser considerado alguém bonito.
Quando a segunda-feira chegou Tobio sentiu- se nervoso novamente com o retorno às aulas. Será que haveriam comentários? Sabia que a maioria achava que ele seria alpha, talvez beta. Estariam surpresos? Claro. Teriam coragem de demonstrar isso? Tobio não sabia. Não gostava de ter muitas atenções voltadas a si quando estava fora da quadra.
Não era seu costume mas dessa vez resolveu chegar na escola em cima da hora. Queria evitar perguntas e conversas logo no início do dia. E só quando se aproximava dos portões e viu a figura ruiva encostada no muro é que se lembrou que não era o único a estar numa situação inesperada.
Shouyou estava atordoado quando a cerimônia acabou. Queria ter se aproximado de Tobio, tudo em si pedia por isso. Mas Daichi e Suga estavam por perto e Shouyou não queria atrapalhar. E tinha medo. O olhar que Kageyama lhe direcionou tinha lhe deixado nervoso. O que ele estaria pensando?
Mas a verdade é que, tão logo encontrou seus pais na praça, Shouyou tirou o moreno da mente. Estava confuso. Como poderia ser alpha, sendo seus pais betas? Não fazia sentido. Foi então que sua mãe lhe explicou que sua parte na família costumava ter os genes alpha muito fortes, principalmente entre os homens. E que, por mais que fosse improvável, não era impossível que Shouyou tivesse um gene recessivo que se sobrepôs aos outros. O ruivo não sabia se tinha entendido a explicação, mas ficava a cada minuto mais consciente do fato ser um alpha.
Para as pessoas ao redor a surpresa devia parecer algo bom, algo a ser comemorado. Para Shouyou era um pouco assustador. Simplesmente nunca tinha flertado com essa possibilidade. Já havia pesquisado sobre betas e ômegas mas pouco se informara sobre o que significava ser um alpha. Mas sabia que, apesar de a sociedade já não esteriotipar as pessoas por seu segundo gênero tanto quanto antigamente, ainda havia uma certa expectativa posta sobre os alphas. Expectativa de que fossem inteligentes, fortes, bem sucedidos, líderes. Shouyou nunca tinha cogitado isso até então.
Se perguntava como seria. Será que quando seus instintos se manifestassem se tornaria territorialista? Teria um instinto protetor? Também se perguntava sobre a presença. Não que fosse alguém discreto mas a ideia de ter uma vibração, para além do cheiro, que o identificaria para quem se aproximasse era um tanto esquisita. A possibilidade de fazer alguma vontade sua valer com isso ainda mais.
Tinha medo que seus instintos manifestassem um lado agressivo de si. Era comum, certo? Que Alphas fossem mais violentos, menos pacientes, mais explosivos. Apesar de ter muita energia nunca fora alguém de pavio curto. E não gostaria de ser.
Foi impossível não pensar em ainda mais detalhes. Como seria ao ser afetado por cios? E se fizesse alguma besteira por não saber controlar os próprios instintos? Jamais se perdoaria. Não queria nem pensar nisso, então mudou o rumo de suas divagações. Teria um parceiro ou parceira? Marcaria ele ou ela? Sabia que era uma grande responsabilidade quando um alpha marcava alguém. Teria coragem para tal um dia?
No fim de semana se distraiu com Natsu mas na hora de dormir se via encarando a coroa trançada que tinha guardado na gaveta da cômoda. Sentia a aspereza do objeto e se perguntava se teria a firmeza e estabilidade que o caule representava.
Quando chegou o dia de voltar à escola, lembrou-se de Kageyama. Se para si estava sendo confuso, imagina para o ômega. Kageyama ômega. Nunca tinha imaginado isso. Será que a descoberta dos segundos gêneros mudaria algo na dinâmica que tinham? Desejava que não. Foi pensando nisso que resolveu chegar mais cedo do que de costume no colégio para conversar com o moreno. Conforme o tempo passava e Kageyama não chegava, Shouyou foi ficando nervoso. Ele não iria a aula? Teria acontecido alguma coisa? A preocupação o deixava inquieto e estava disposto a sequer entrar na escola e ir atrás do outro quando o viu surgir na esquina.
— Kageyama! Por que demorou tanto? Você sempre chega antes!
— E o que você tem a ver com isso, Hinata?
— Esqueceu de trocar a ferradura, cavalo? Credo. Eu estava preocupado.
Shouyou viu Kageyama virar o rosto deixando escapar um resmungo antes de responder.
— Não houve nada. Vem, vamos entrar que já está na hora.
Hinata queria conversar mas realmente não tinham mais tempo, então acompanhou o outro escola adentro. Não teria como conversarem na aula, então Shouyou esperou pelo intervalo. Mas Kageyama sumiu pouco antes do sino tocar e só apareceu de novo na volta para as aulas. "Tudo bem, tem o treino" o ruivo pensou. Mas a cada momento que tentava falar nos momentos de descanso o outro puxava um assunto aleatório primeiro, ou se afastava. "Na hora de ir embora ele não me escapa" o ruivo pensou. Mas Kageyama escapou. Saiu assim que o treino terminou; Hinata teria ido atrás, mas era seu dia de arrumar a quadra.
A situação se repetiu nos outros dois dias. Hinata já estava frustrado. Por que Tobio estava fugindo? Na quinta-feira não aguentou e pediu pra trocar de turno com Yamaguchi na arrumação da quadra, o que lhe daria alguns minutos a sós com Kageyama.
Quando o momento chegou Kageyama ainda tentou dar uma desculpa. Mas Daichi, percebendo a exasperação de Hinata, não a aceitou. Quando todo o time já tinha ido para o vestiário Kageyama logo começou a juntar as bolas. Hinata permaneceu parado no meio da quadra.
— Oe, Hinata boke, vai ficar aí parado?
— Aaah, agora tá falando comigo? Qual o seu problema, Kageyama?
— Eu falo com você o dia inteiro, Hinata. E problema nenhum.
— Fala mas ao mesmo tempo não fala nada. Pensa que eu não percebi você fugindo?
Kageyama jogou as bolas que tinha nos braços dentro do cesto e marchou para o meio da quadra, parando bem em frente à Shouyou com uma expressão ainda mais séria que o normal.
— O que você quer?
Hinata engoliu em seco. "Definitivamente ele consegue ser intimidante quando quer".
— Eu só quero falar sobre… você sabe…
— Sim, eu sei. - Tobio interrompeu. - Você quer falar como eu não tenho porquê me preocupar, que ser ômega não vai mudar nada, que eu não devo ter vergonha ou algo assim. Deixa eu facilitar as coisas: eu não tenho vergonha, mas também não aguento mais as pessoas dizendo que nada vai mudar porque vai, vai mudar muita coisa sim! Então não tô nem aí se você está comemorando a surpresa de ser alpha, mas eu ainda não consegui digerir muito bem a minha nova realidade, ok?! Eu só preciso de um tempo!
Kageyama parecia exasperado, as mãos fechadas em punho ao lado do corpo. Conforme as palavras começavam a fazer sentido na mente de Hinata a exasperação também se instalava no ruivo.
— Gwaaa Kageyama! Eu não ia falar nada disso, seu idiota!
— Não?!
— Não! Eu só queria… É… Queria te perguntar o que você sabe de ser alpha.
A voz de Hinata foi baixando o volume e Kageyama mudou a expressão da irritação para confusão. Shouyou então continuou:
— Eu não tô comemorando nada, tá legal? Na verdade eu tô é assustado! Eu nunca imaginei isso, eu sequer convivo com muitos alphas de perto. Eu tô confuso a beça!
Se fosse alguns meses atrás HInata jamais se mostraria confuso ou fraco para Kageyama. Mas nesse momento ele parecia ser a pessoa que mais o entenderia. Percebeu que a decisão de se abrir assim tinha sido acertada quando Tobio suavizou a expressão e se sentou no chão da quadra, convidando Hinata a fazer o mesmo.
Kageyama precisou de uns segundos a mais para entender o que Hinata estava dizendo. Então ele estava inseguro por ser um alpha? Isso era quase tão chocante quanto Kageyama ter se descoberto ômega. Quase. Mas estava visível na face do ruivo e na maneira como ele falava que era esse o caso. Então Tobio se sentou porque, pelo jeito, a conversa ia demorar.
— Hinata. Você sabe que está parecendo um doido, né?! Praticamente todo mundo quer ser alpha, homens principalmente. E você reclamando?
— Eu não tô reclamando! - o ruivo fez um bico exagerado. - Mas eu não me preparei pra isso. Primeiro porque eu nem sabia que era possível, já que meus pais são betas. Então eu achei que seria beta ou ômega. Como ser beta é mais tranquilo e mais comum eu pesquisei sobre ser ômega, eu estava preparado pra isso. Mas não pra ser alpha.
— Mas o que tem pra se preparar? Não é como se você ter que se preocupar em não engravidar, ou com seu cio ou…
— Mas e minhas reações? E se eu mudar? Se ficar mais bravo? E as expectativas que, querendo ou não, ainda se tem sobre quem é alpha?
— Eu ainda não tô entendendo. O que te assusta tanto? Não é como se você fosse virar outra pessoa.
— Mas… tenho medo.
— De que?
Hinata parecia constrangido.
— É que… Bom, você sabe… E se… ah, quer dizer…
— Desembucha, idiota!
— E se eu fizer besteira? Se não souber me controlar perto de algum ômega no cio ou algo assim?
Então Kageyama entendeu. Era um medo legítimo, afinal.
— Você não faria nada errado, Hinata.
— Como eu vou saber?
— Você… vai aprender. Tem técnicas, sabe? Que se sobrepõem ao instinto.
— É esse meu medo, Kageyama. Acho que nem preciso dizer que sou alguém mais movido a instintos que a técnicas.
Kageyama viu a testa de Hinata se vincar em preocupação e sentiu uma súbita vontade de confortá-lo ou acalmá-lo de alguma forma. Chegou a levantar a mão para tocar no ruivo, mas no meio do caminho desistiu e coçou a própria nuca ao dizer.
— Mas, sabe, isso não é muito comum. Que ômegas se exponham quando estão no cio, eu digo. É burrice se preocupar com possibilidades remotas. Eu, por outro lado, vou ter que lidar com as dores do cio de três em três meses e não tem nada que possa fazer contra isso.
— Mas é claro que tem, Kageyama!
— Se você for falar sobre supressores eu posso não saber muita coisa mas sei que eles prejudicam o desempenho de atletas.
— Esses eram os antigos! Já existem vários que diminuem o desconforto do cio sem esses efeitos colaterais!
— Sério?
Conforme falavam sentados no chão da quadra e o sol baixava do lado de fora, percebiam inconscientemente o quanto poderiam ajudar um ao outro. Até nisso pareciam formar uma bela dupla, afinal. O que veio a seguir, foi apenas natural. Os dois já eram próximos antes, mas passaram a ficar mais grudados que nunca.
Para muitas dúvidas sobre ser alpha que Hinata tinha, Kageyama dava uma boa resposta. Para as inseguranças sobre ser ômega de Tobio, Shouyou sempre sabia o que dizer. Certo dia conversavam sobre marcas de parceiros e Kageyama explicava que não, não era obrigatório.
— Hinata boke. Minha mãe é casada há 10 anos com o pai do Daichi e não tem marca. É uma decisão pessoal.
— Mas dizem que é algo intenso. Ao mesmo tempo que acho que gostaria de ter esse nível de conexão com alguém, dá um medo danado só de pensar.
— Alpha medroso. - Tobio caçoou, com a mão em frente à boca, recebendo um soco mais forte do que esperava em seu braço. Mas não ia reclamar, então apenas continuou o assunto. - Mas pra que pensar nisso agora? Temos dezesseis anos, não é como se você marcar alguém tão cedo.
— Temos uma ova. Eu tenho dezesseis anos. Você ainda fazer, Babyama.
Kageyama rolou os olhos.
— Falta só um mês!
Pensar em seu aniversário fez Tobio rir um pouco pela ironia. Tinha nascido no dia em que era comemorado o solstício de inverno, o dia que marcava o início da estação e trazia a noite mais longa do ano. E, segundo as tradições locais, o dia de apreciação aos alphas.
Hinata percebeu que Tobio tinha se distraído e o puxou pela mão para voltarem para a sala de aula. Só quando precisaram ir cada um até sua carteira é que separaram o toque. Kageyama viu o olhar zombeteiro de Tsukishima direcionado a si um momento antes de largar a mão de Hinata. Como se precisasse do loiro antipático para tomar consciência de que esses toques displicentes estavam cada dia mais comuns entre si e o ruivo.
Não sabia dizer exatamente quando passou a sempre esperar ter Hinata em seu campo de visão; mas tinha plena consciência de que essa nova intimidade tinha ganhado força após a conversa na quadra no mês anterior. Porém, por mais que aquela conversa e a aproximação cada vez maior tenha sido por causa de seus segundos gêneros, Tobio sabia que os sentimentos que floresciam em si cada vez que via o sorriso leve de Hinata se abrir para si, como acontecia neste exato momento, nada tinham a ver com detalhes como genes alphas ou ômegas.
