02: A fixação por lojas de conveniência
Sobre escolhas e ocasionalidade
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Lojas de conveniências eram uma constante nas nossas vidas. Tão normal quanto ensaios e viagens pelo Japão.
Mas eu já estava de saco cheio daquilo. Ou então mal humorado demais aquele dia pra ter paciência de ir com Ruki até ali e esperá-lo se decidir entre o doce com recheio de chocolate e amêndoas ou de chocolate com avelã.
- Por que você não leva os dois? – resmunguei, segurando o pacote com manjus do Aoi, esparadrapos do Kai e os pacotes de salgadinhos que e eu Uruha costumávamos comer.
- Eu não posso me dar ao luxo de engordar, sabe? – ele murmurou, ainda olhando os doces fixamente como se esperasse que um dos dois se pronunciasse e pedisse para ser escolhido.
Bufei pela milésima vez desde que entramos ali.
As vezes eu achava que Takanori se demorava demais em lojas de conveniência porque simplesmente gostava de lojas de conveniências. Fosse o cheiro, as pessoas que freqüentavam ou o ambiente que para mim era tão normal quanto qualquer outro.
Mas aquilo não fazia muito sentido e eu abandonava essa teoria sem demora.
- Hey, Aki... – ele desviou os olhos dos doces e me fitou, mordendo o canto do lábio inferior como se hesitasse em falar. – E se levássemos os dois, eu deixasse pra escolher um deles lá e você ficasse com o outro?
- Você sabe que eu não gosto de doces – disse franzindo o nariz, a perspectiva de comer chocolate com avelã ou amêndoas me fazendo enjoar por antecipação.
- Ah, mas eles são tão bonitinhos, Aki...
- Eles não são bichinhos de estimação, Ruki – comentei e até poderia rir do jeito que ele olhava os doces se não estivesse tão mal humorado.
- Ah, sabe... acho que vou escolher um daqueles bolinhos lá do outro lado.
Revirei os olhos, me perguntando como alguém podia ser tão indeciso e volúvel daquele jeito. Mesmo assim o segui até o canto da loja, perdendo-o de vista quando ele se enfiou entre as duas últimas prateleiras.
Quando o alcancei ele estava olhando fixamente os bolinhos, provavelmente escolhendo entre um dos três sabores. Aquilo ia ser longo...
- Nem precisaríamos estar aqui escolhendo algo pra comer se você não tivesse dito aquilo sobre a comida do Kai – resmungou e eu revirei os olhos mais uma vez. – E o pior é que você é o que mais come quando o Kai trás nosso almoço! Acho que você só reclama porque sabe que a comida dele é tão boa e tem medo de engordar por conta disso.
Permaneci calado antes que dissesse algum desaforo a ele que fizesse com que eu não passasse a noite na casa dele aquele dia.
- Mas bem que ele podia punir só você, nee... Dá pra acreditar que ele só trouxe almoço pra si mesmo hoje... francamente... e tudo culpa sua, Reita.
- Hai, hai... Já escolheu?
- Hm, não.
Kami-sama, me dê paciência...
Por que mesmo que eu tinha que ter vindo com Ruki comprar nossos almoços não tão almoços assim?
E nem éramos um casal...
Beijos ocasionais que levaram a transas ocasionais.
- Olha só, vou levar aquelas batatas fritas! – disse como se tivesse acabado de descobrir o mundo e esticou o braço pra pegar as batatas no alto da prateleira.
De bolinhos a batatas... E algo me dizia que os doces não tinham sido plenamente esquecidos.
- Pronto! Podemos ir pagar, Aki – ele disse sorrindo, sem resquícios dos resmungos sobre a minha pessoa. E se aproximou mais me fitando atentamente. - Você ainda está emburrado? Acho que isso é fome, hein? Tem certeza que só vai levar esses salgadinhos?
Assenti. Qualquer coisa eu poderia roubar um pouco da comida do Kai quando ele estivesse distraído.
- Então tá... – o pequeno deu de ombros, aquele sorriso ainda feliz porque tinha descoberto as batatas fritas.
E tão ocasional como de costume, ficou na ponta dos pés me dando um selinho nos lábios.
Nosso primeiro beijo quase em público.
Porque ainda estávamos a sós e protegidos pelas prateleiras. Mas eu não tenho certeza se tinha ou não alguma câmera de segurança por ali nos flagrando.
E ainda mais ocasionalmente ele se afastou, me deixando para trás, piscando os olhos bobamente enquanto processava o fato.
E era engraçado ver que o mau humor havia se dissipado tão rápido quanto o beijo.
Quando me dirigi ao caixa, ficando ao lado dele, notei que as batatas não estavam mais em suas mãos. Ao invés disse era um pacotinho transparente com os dois doces dentro.
- Eu sabia que você ia acabar levando os dois no final das contas – comentei meio divertido e ele me olhou fingindo não entender.
- Mas só vou comer um. O outro eu dou pra você.
- Taka, eu já disse que...
- Okay, Mr. Azedo, mesmo assim você vai comer!
