.


EVERYBODY BREAKS, por Kai (TheWarriorKai) – Fanfic traduzida participante do

PROJETO PILOTOS GUNDAM WING: SEMANA WUFEI CHANG

.

Autora: Kai (TheWarriorKai).

Tradutora: Illy-chan HimuraWakai.

Gênero: Yaoi/BL.

Censura: lemons + LEMONS *_* + temas de Escravidão e BDSM

Casais: 1x2x5x3x4 –QUINTETOOOOOOOOO com WUFEI! AWWWWW!

Avisos: Angústia, situações adultas, escravidão e BDSM, pós Endless Waltz, POV de Wufei (no início) e depois, alternados, etc.

Retratações: a série de anime Gundam Wing e seus personagens às empresas japonesas Bandai, Sunrise e Sotsu Agency. Não sou dona deles e não ganho nem um centavo com eles – escrevo com os mesmos apenas para fins de diversão.

Concursos: fanfic participante do Contest 'Art of Bondage', da Shenlong, em 2005.

Notas da Autora: obrigados MUITO especiais a Ryouga, que passou por todo o processo de criação e passou noites a fio lutando contra meu inglês PAVOROSO e todos os meus xingamentos ^^ Por causa disso, esta fic é carinhosamente dedicada a ela e a uma outra querida amiga... Deb! [1] Muito obrigada por fazer esta competição [2] e me fazer escrever novamente no fandom! Se tivermos sorte, haverei de melhorar ^~

.


EVERYBODY BREAKS

Cedo ou Tarde, Todos Desmoronam

Por Kai (TheWarriorKai)

Tradução: Illy-chan HimuraWakai

.

Capítulo 01


.

Rotina; ele vivia uma simples e extremamente enfadonha, rotina... e a única vez que ela era alterada era quando estava em missão.

Acordava todos os dias às 05h30 da madrugada, sem o uso de um despertador; não era de surpreender, uma vez que vinha acordando àquela hora durante toda sua vida para fazer seus Katas e treinos com espada. Às 07h30 tomava uma ducha rápida, vestia seu uniforme e caminharia da Unidade Residencial dos Preventers - onde vivia - por dois quarteirões até o prédio dos escritórios, no QG Central, onde entraria para trabalhar pontualmente às 08:00h.

Uma vez em sua sala, escutaria os recados telefônicos e retornaria as chamadas para as pessoas que necessitassem de retornos, antes de conferir o e-mail e fazer exatamente o mesmo. Normalmente encontraria dois e-mails particulares, vindos um de Duo e Quatre e um segundo de Heero, este último também com um relatório bi-semanal regular de Trowa e sua vida.

Estes e-mails podiam ficar meio perdidos entre os relacionados ao trabalho, mas sempre os respondia. Fazia isso religiosamente - a menos que estivesse querendo receber uma visita inesperada de um ou mais deles, à procura de notícias... e considerando o que havia descoberto sobre seus próprios sentimentos, nos últimos tempos, ele sabia que aquilo seria uma péssima idéia. Por isso, ele sempre respondia.

Trabalharia então até as 12h, quando o almoço era entregue regularmente em sua sala, devido a um acordo feito com um restaurante a alguns blocos dali. Comeria em sua mesa, sozinho e continuaria trabalhando em seus relatórios e avaliações até as 14h30; então ele iria para o Campo de Treinamento para ajudar no treinamento de outros Agentes e dos novos recrutas, tanto em combates corpo-a-corpo, como também nos treinamento com armas.

Às 18h30 tomaria um banho rápido, trocaria de farda e então se dirigiria novamente à sua sala, onde Sally, Une, Noin, Zechs e Eric - o homem que enviava os Agentes de Campo em missões, Tabitha - sua secretária, ou então Alisa - a secretária de Sally, estariam esperando por ele para importuná-lo sobre ir jantar com eles em algum lugar. Eles pareciam estar em algum tipo de revezamento.

A maior parte das vezes conseguia evitar unir-se a eles; apesar de... nem sempre conseguir. Frequentemente vinha tendo a sensação de que, enquanto as vidas das pessoas continuavam indo em frente, a sua permanecia a mesma; imutável, devido ao controle rígido sob o qual tinha sido condicionado durante toda sua vida.

Se fosse jantar com eles, permanecia durante aproximadamente duas horas, antes de voltar ao seu apartamento minúsculo, escasso de móveis, às 21h15. Ele faria então um pouco mais dos Katas antes de sair para correr dez quilômetros ao redor do Centro de Treinamento. Antes das 23h, ele voltaria ao apartamento, faria algumas tarefas mundanas - se necessário, leria um capítulo de um livro ou talvez meditasse um pouco, antes de se recolher para dormir às 00:00... Apenas para repetir toda a rotina mais uma vez, no dia seguinte.

Pelo menos aquela era uma rotina a qual ele estava habituado; porém, o seu dia de hoje havia sido comprometido logo após ele ter chegado ao trabalho e começado a verificar seus e-mails. Como sempre, lidou com os emails relacionados ao trabalho primeiro, e depois de se livrar das prioridades, deparou-se com um e-mail de um domínio anônimo.

Depois de se assegurar que não trazia vírus algum, ele o abriu para então encontrar fotos; fotos que lhe trouxeram calor às suas faces e à sua virilha; fotos com imagens ele nunca tinha permitido sua mente imaginar... Mas que, com elas à sua frente, ele não conseguia encontrar força de vontade para estender a mão para o mouse, fechar a janela no computador... e esquecê-las.

Ele sabia, como quase todos aqueles que conheciam os Pilotos Gundam na terra e nas colônias, que Quatre e Trowa eram um casal praticamente desde quase o começo da Primeira Guerra... E que Duo e Heero haviam seguido-lhes o exemplo, assumindo-se como casal depois que a Segunda Guerra terminara.

O que ele nunca havia suspeitado era que os dois casais haviam decidido ficar juntos... E isso era explícito, a se constatar pelas imagens em sua tela. Ele nunca teria imaginado que ser acorrentado a uma cama seria excitante para Heero ou que Quatre ficaria tão pecaminosamente lindo com um chicote e com couro negro adornando cada curva do seu corpo.

Desesperadamente tentou tirar aqueles pensamentos da cabeça, mas seus olhos não conseguiam abandonar a tela... E ele descobriu que seu peito estava doendo e que era difícil respirar. Com uma mão trêmula, ele finalmente conseguiu clicar e sair de conta de e-mail.

Infelizmente, não foi o bastante para acalmar-lhe os pensamentos ou as emoções que pareciam estar rasgando por ele. Fazia quase um ano desde a última Guerra... Quase um ano, desde que vira qualquer um dos outros rapazes frente a frente.

Quase três, desde que tinha conseguido bloquear todos os pensamentos traiçoeiros... E dentro de apenas alguns segundos, tudo o que havia feito havia sido despedaçado em ruínas que queimavam sem fogo.

O tempo não pareceu passar tanto, mas logo havia uma Sally Po preocupada, ajoelhada ao seu lado, olhando-o, falando com ele...? E ele nem mesmo a havia notado entrar – assim como não havia notado a pequena multidão que se juntara frente a sua porta. Por incrível que pareça, ele não deu a mínima. Não conseguia.

Tudo que podia sentir era o furioso tornado emocional dentro de si: aquele do qual ele estava tentando desesperadamente não perder o controle... Porque o tornado o destruiria, se perdesse; seria queimado vivo.

Embora não pudesse deixar nada daquilo escapar, o tornado o dragou para as profundezas de sua alma, um lugar onde uma simples pergunta existia - onde ele mesmo a tinha enterrado há muito tempo:

Por que não eu?

.


.

Wufei

.

Abri meus olhos lentamente, já atento ao fato que não estava em meu apartamento e notei duas coisas quase que imediatamente: a primeira era que estava em um hospital; e a segunda, que eu estava inacreditavelmente cansado... e cada pedacinho de meu corpo parecia doer.

Tentei me lembrar do que tinha acontecido, mas minha memória parece borrada; não acho que eu estivesse em uma missão, ou eu teria me lembrado de algo... Uma vez que missões envolviam muitos preparos e ainda que a própria missão durasse apenas um dia, o tempo de preparação que requeria para isto era normalmente uma semana, graças às delícias da chamada Formalidade Burocrática. O que não entendi era: por que eu estava tão cansado? Eu já tinha passado cinco dias sem dormir em missões durante a primeira guerra e nunca me sentira tão cansado quanto me sentia agora. Aquilo era estranho porque eu estava em plena forma física - Sally tinha me dito isto a apenas quatro dias atrás em meu exame mensal, e não tinha nenhum ferimento: bem, nenhum que fosse registrado; e qualquer ferimento que eu tivesse, eu saberia, apesar dos analgésicos, porque conheço meu corpo muito bem.

Assim, o que diabos estava errado comigo?

— Finalmente você acordou, Wu.

Vagarosamente virei minha cabeça de forma que pudesse olhar para Duo, que estava sentado em uma cadeira de aparência incômoda, à minha esquerda. Eu devia ter notado que ele estava ali segundos atrás, então... por que não consegui? Abri minha boca para lhe perguntar o que estava acontecendo, mas quando meus lábios se moveram, nenhum som saiu. Tentei novamente, com os mesmos resultados, e o olhei com as sobrancelhas franzidas.

— Olhe, aguenta um segundo, vou chamar a Sally.

O que aconteceu em seguida realmente não posso explicar. Eu sabia o que eu estava fazendo e o que estava sentindo, quando reagi... eu só não sei o porquê. Ele começou a erguer-se e virar-se para sair e um pânico - um medo visceral - atravessou tão rapidamente por mim, que me esqueci de respirar. Minha cabeça explodiu e foram essas emoções desesperadas que fizeram minha mão envolver-se ao redor do pulso dele tão apertado, que os músculos e juntas de minha mão estavam tremendo com a tensão do movimento.

Eu não estava machucando-o, mas se ele quisesse se livrar de mim, teria que cortar minha mão, ou quebrar meus dedos.

Assustado, ele baixou o olhar para minha mão, antes de olhar para meu rosto - e quando o fez, eu soube que minha arrogância e bem-cultivado comportamento haviam me abandonado, pela expressão de preocupação que dançou por seu rosto. Ele estendeu a mão esquerda e delicadamente afastou o cabelo de cima de meus olhos com os dedos, acariciando meu rosto enquanto o fazia. Cuidadosamente, ele se sentou novamente e só então eu consegui enviar um bocado de ar a meus pulmões ardentes.

O que diabos estava errado comigo?

— Shhh... Tá tudo bem, Wu, não vou a lugar nenhum. Os outros estarão aqui daqui a uns cinco minutos e um deles pode chamar a Sally. Cara, você nos assustou, sabia? Sally disse foi chamada por sua secretária, Tabitha... acho que é esse o nome. Ela entrou na sua sala para te dar seu almoço e te encontrou sentado em sua cadeira como uma estátua, olhando para frente, sem ver nada. No início, Sally disse que foi uma reação de choque, mas agora está dizendo que você sofreu um colapso nervoso, na verdade, pois você dormiu por mais de 24 horas, sabe, entre outras coisas. Cara... Ela nos avisou assim que você estabilizou no hospital, então os rapazes e eu pulamos na primeira nave do Quatre que ficou pronta e chegamos aqui na Terra umas... vinte e uma horas atrás. Estamos nos revezando para ficar com você, mas Sally precisava nos mostrar alguma coisa, então eles foram com ela e eu fiquei... Lógico, tive que brigar com os outros, mas, como era minha vez de ficar com você, ganhei.

Ele sorriu e piscou para mim e eu o ouvi falar tudo o que ele disse, mas estava chocado à menção do tal 'colapso nervoso'. Minha mente estava muito ocupada tentando se lembrar o que poderia me ter feito sofrer algo como aquilo. Duo deve ter visto a preocupação estampada na minha cara, porque os dedos da mão esquerda dele começaram a desenhar padrões aleatórios no meu antebraço, tentando me distrair.

— Não fica preocupado com esse lance de 'colapso nervoso', Wu. Nós cinco somos os maiores candidatos do universo a ter um, você sabe, mas diferente do resto de nós, que sempre conversamos sobre nossos passados e as guerras, você nunca fez isso. Sinceramente, não acredito que você tenha, nem ao menos uma vez, na sua vida inteira, se aberto ou falado com alguém, sobre o que sente... e estas coisas tendem a ficar piores com o passar do tempo; aí, quando você menos espera, esse 'algo' vem com tudo e arrebenta de uma vez. Não é nada para ficar envergonhado, ouviu? Acontece com as pessoas mais vezes do que elas gostam de admitir. Uma pessoa comum teria sucumbido durante as guerras, mas você é mais forte do que eles, não é? Sempre tão orgulhoso e tão determinado a ser independente... Ah, vou logo avisando que Une te deu dois meses inteiros de licença médica. Ela disse que você trabalhou dois anos em um, e que você é muito valioso para te perder, então, assim que Sally te der alta, vamos te levar para L4 conosco. Sentimos muita falta de você, Wu, todos nós. Não é... não é a mesma coisa, sem você lá. Eu sei que você não quer nossa ajuda, mas por favor, só desta vez, nos deixe ajudar. Já perdemos tanto, não queremos perder você também.

Ele estava encarando fixamente minha mão, àquela altura, assim não percebeu que, se ele tivesse me pedido que declarasse para o mundo inteiro que eu era uma 'princesinha cor-de-rosa que dançava pelada à luz da lua' ali mesmo, no hospital, eu o teria feito... Embora tivesse acabado completamente com o resto da sanidade esmaecida que ainda tinha dentro de mim. Teria, porque eu sabia que era exatamente aquilo o que estava acontecendo. Eu podia não me lembrar exatamente do que havia 'rachado' minhas muralhas de proteção, mas sabia que elas tinham sido rachadas e que eu estava a ponto de quebrar... e não havia ninguém para apanhar os pedaços.

.


.

Apaguei e, quando acordei, Quatre e Heero tinham substituído Duo ao meu lado. Eles pareciam estar no meio de uma conversa bastante séria, quando Quatre notou que eu me movi, um par de segundos depois que eu acordei.

Sua empatia não lhe permitia saber, sempre, tudo o que uma pessoa sentia, mas às vezes era uma mão na roda.

— Wufei! Você acordou! Como você está sentindo?

Abri minha boca para lhe dizer que eu estava bem - o que era uma mentira, mas... velhos hábitos são difíceis de controlar. Infelizmente, mais uma vez nenhum som saiu de minha boca. Franzi a testa e lhes dei um olhar interrogativo.

Eu fiquei um pouco surpreso quando foi Heero, quem me respondeu. Seu rosto continuava impassível, como sempre, mas havia algo em seus olhos, quando ele olhou para mim, que eu não pude identificar, porque ninguém nunca tinha olhado para mim daquele jeito, antes.

— Duo nos avisou. Sally disse que às vezes um trauma pode roubar a habilidade de falar de uma pessoa, mesmo ela estando fisicamente bem.

Todos nós havíamos sido treinados para ler lábios, então eu li a palavra 'trauma' e senti minha testa franzir. Eu fora torturado durante as guerras, e aquilo logicamente poderia facilmente ser chamado de trauma, mas eu nunca perdera minha voz. Eu tinha visto meu Clã ser destruído e ficara com Meiran em meus braços enquanto ela morria, mas por mais traumáticos que esses eventos pudessem ser considerados, eu nunca havia perdido a habilidade de falar. Então, o que diabos eu havia visto que podia ser ainda pior que tudo aquilo? O que inferno havia acontecido de tão ruim, para que eu ficasse naquele estado que estava agora?

Eu estava observando Heero, enquanto ele lia meus lábios, assim não perdi o modo como seus olhos escureceram, como quando ele ficava irritado durante a primeira guerra – e de jeito algum eu poderia ter perdido o estremecimento que percorreu o corpo de Quatre. Eles sabiam de alguma coisa e não queriam me dizer... E se eles sabiam de algo, então com certeza, os outros também sabiam.

O que estava acontecendo?

Duo e Trowa passaram pela porta justo no exato momento em que eu estava a ponto de fazer a pergunta, e pude ver a culpa estampada no rosto de Maxwell, antes que ele a ocultasse com um sorriso que ia de orelha a orelha.

— BOM DIA, Fei! Ou eu deveria dizer boa tarde?

Dentro do curto espaço de cinco minutos eu já havia tido o suficiente. Movi-me para me sentar e sair da cama, mas não fazia idéia de quão fraco meu corpo estava. Retornei de imediato à posição de sentado, pois meus braços começaram a tremer. Posso ser muitas coisas, mas estúpido não é uma delas, então abortei minha missão anterior e me conformei com o fato de, ao menos, conseguir me sentar sozinho. Completei satisfatoriamente a missão, mas não pude deixar de notar a tensão dos outros, uma vez que cada um deles parecia pronto a dar um passo à frente e me amparar nos braços, antes que eu caísse. Quase franzi o cenho novamente, mas consegui me controlar. Eles estavam agindo de maneira estranha.

Eu sabia que haviam mudado, com o fim das guerras; diziam-me isto em seus e-mails, mas mesmo estes e-mails indicavam que as mudanças não eram tão drásticas. Seus pequenos relatos haviam indicado as diferenças no nível de interação entre eles em si, mas a interação deles comigo não parecia ter sido alterada em nada.

Então... que merda estava acontecendo aqui?

... Eles acham que eu sou fraco?

O mero pensamento fez com que ficasse difícil respirar e não percebi que estava hiperventilando até que subitamente Trowa tomou meu rosto entre as mãos, erguendo-o e eu pude ver seu rosto.

— Respire comigo, Wufei. Devagar, concentre-se. Respire... Inspire.

Seus olhos verdes me dragaram. Eles ainda eram calmos e sólidos, como eu me lembrava, e me senti em uma espécie de transe, conseguindo não apenas igualar minha respiração à sua, mas também emparelhando minhas batidas cardíacas com as batidas do seu coração... e todos os meus pensamentos, por um momento, desapareceram.

Trowa deu-me um pequeno sorriso, satisfeito.

— Tudo bem?

Eu deveria me sentir embaraçado, mas aquela era uma das coisas que gostava na meditação; a sensação de que você estava sozinho e calmo, mesmo que apenas por um curto momento. Assim, ao invés de fazer o que normalmente faria, eu sorri. Um sorriso verdadeiro; um sorriso que apenas Meiran havia visto... e mesmo assim, em apenas raras ocasiões. Um brilho inundou os olhos de Trowa, Quatre engasgou, Duo soltou um 'Uau!' baixinho e Heero ficou de queixo caído; afinal, o gesto era uma surpresa tanto para eles, quanto para mim.

Colocando uma mão no braço de Trowa, eu quebrei a estranha tensão que havia criado uma onda de eletricidade pelo quarto e movimentei meus lábios formando palavras, sabendo que ele iria entender. Ele inclinou sua cabeça para o lado e me olhou atentamente.

— Você quer ir embora?

Assentindo firmemente, não desviei nosso olhar. Se estava para receber alta a qualquer momento para ir para meu apartamento, eu queria ir para onde eu fosse ter mais privacidade do que tinha ali; e se eu iria realmente para L4 com todos os eles, então que assim fosse. Não sabia bem o que estava esperando, mas ter Heero subitamente ao meu lado e assentindo para mim como se tivesse acabado de receber uma missão não era algo que eu estivesse esperando.

— Vou mandar Sally dar entrada imediata nos papéis de sua alta.

Com isto, ele me deixou piscando, a porta fechando-se logo após sua saída. Mandar Sally? Ninguém convencia aquela onna teimosa a fazer algo que ela não quisesse! Sabia daquilo por experiência própria: já tentara tal coisa em várias ocasiões, uma vez que ela era uma das três únicas pessoas as quais eu tinha como parceiros nas missões: as outras duas eram Zechs e Noin. Meio que desejei estar forte o suficiente para poder segui-lo e ver o que iria acontecer. Se bem que, na verdade, Sally respeitava Heero e não o tratava como se fosse um 'irmãozinho mais novo', como ela fazia comigo.

Por que inferno ela me tratava daquele jeito, eu não fazia a mínima idéia.

Quatre limpou a garganta para chamar minha atenção e então sorriu, como que pedindo desculpas.

— Já fomos até seu apartamento; Sally nos autorizou. Organizamos tudo o que você poderia vir a precisar, ou querer. Trouxemos até mesmo a sua espada.

Havia uma pergunta escondida em seu rosto, alguma coisa que ele queria me perguntar, mas que não podia porque achava que não era o momento certo. Mesmo ele não me perguntando, eu já sabia o que era. Ele queria saber...

Por que eu dormia em um simples colchonete no chão, com apenas um reles travesseiro como apoio? Por que não havia comida alguma dentro dos armários e apenas água, na geladeira? Por que não havia nenhum toque pessoal, em todo o apartamento... exceto por uma foto de nós cinco juntos? Por que todos os meus pertences: três uniformes dos Preventers, dois pares de shorts, duas camisetas, cuecas, meias, gravatas, duas túnicas chinesas tradicionais, quatro livros e artigos de higiene... estavam colocados dentro de uma única mochila de nylon, próxima à minha espada? Por que não havia mais nada meu, dentro do apartamento? Por quê, por quê, por quê?

Fiquei agradecido por ele não me perguntar sobre nada daquilo ali... Eu não estava pronto para olhar tão profundamente dentro de mim mesmo ainda e aquela seria a única forma pela eu poderia lhe responder.

.


.

Eu ainda não estava bem para andar muito longe por minha própria conta no momento em que recebi alta oficialmente para deixar o hospital; de qualquer maneira, insisti em me vestir sozinho e saí da cama por minha própria conta da cama até onde Heero me esperava com a cadeira de rodas. Consegui chegar até ele, aos trancos - dando o melhor de mim para que não vissem que eu estava para cair de cara no chão, e eles dando o melhor de si para não me deixarem ver que eles estavam vendo. Às vezes uma ilusão é o melhor que você pode oferecer.

Fora do hospital dos Preventers, eles me ajudaram a entrar no carro, após Lady Une e Sally terem tido chance de se despedirem e pedirem desculpas em nome de algumas pessoas que não haviam podido comparecer por causa do trabalho – um total de cinco pessoas.

O percurso para o espaçoporto não era muito longo, mas devo ter adormecido, porque a próxima coisa a qual eu me dei conta, foi que eu estava sendo levado nos braços de alguém.

Por incrível que pareça, a inusitada situação não alarmou meus reflexos, como seria de se esperar. Talvez tenha sido porque eu reconheci as vozes perto de mim, ou talvez alguma outra coisa, mas eu soube, quase instintivamente, que eram os braços de Heero, que estavam ao meu redor... e eu me senti mais seguro do que já tinha me sentido em toda minha vida. Aquilo podia até ser um sonho, mas eu me encontrei aconchegando-me mais dentro daqueles braços de aço que me envolviam apertado, o calor do peito dele irradiando e fazendo-me adormecer mais uma vez sem pensar duas vezes.

.


.

Da próxima vez que acordei, encontrei a mim mesmo piscando para um par de olhos azuis-bebê. Meu foco expandiu-se um pouco mais para incluir um cabelo loiro suave, um nariz arrebitado e lábios rosados curvados em um sorriso. Como Duo, ele afastava meu cabelo – agora solto – para longe dos olhos, com todo carinho do mundo, enquanto acariciava meu rosto. Deveria ter notado, mais cedo, que meu elástico havia desaparecido, mas aquilo tinha me escapado por completo – o que era de se estranhar, pois, normalmente, eu ficava quase maluco de raiva quando o cabelo ficava solto daquele jeito; só que, naquele exato momento... eu não dava a mínima. Tudo bem, então.

Levei um minuto inteiro para que minha inusitada posição junto à Quatre fosse registrada, uma vez que ela era muito... incomum, para mim. Eu estava deitado em uma das poltronas do que parecia ser a nave particular de Quatre e com minha cabeça em seu colo. Aquilo era tão esquisitamente confortável e tão parecido com um sonho, que não me importava... ou talvez não importasse por causa do quão exausto, maldição, eu me sentia.

— Oi. — Isso foi tudo o que ele usou a voz para me dizer, mas o olhar que ele estava me dando dizia tantas coisas mais... ou pelo menos, era o que eu esperava que o que estava vendo, fosse. Não conseguia ter certeza, porque o que eu queria ver não era algo que já houvesse visto em outro lugar, antes... exceto nos rostos deles, quando olhavam uns para os outros.

Com um meio-sorriso, olhei para cima e para baixo ao redor da área reservada aos passageiros e ergui uma sobrancelha, confuso, quando não vi ninguém mais além de nós dois.

— Heero e Duo estão pilotando e Trowa está na parte de carga, procurando travesseiros e mantas extras. Ele estava preocupado achando que você pudesse ficar com frio, usando apenas esta camiseta e calças soltas; você está? Com frio, quero dizer?

Provavelmente não era uma coisa boa com a qual devesse perder tempo pensando, mas fiz, de qualquer maneira. Eu estava com um pouco de frio, mas não algo tão urgente, então apenas dei de ombros.

Pena que Quatre não achou que esta fosse uma resposta satisfatoriamente adequada.

— Wufei?

Eu olhei para ele e me achei preso em seu olhar... e subitamente eu me dei conta do corpo dele e minhas emoções surgiram novamente, explodindo, chocando-se contra meus controles mentais. Fechei meus olhos e tentei usar técnicas de meditação, mas meus pensamentos pareciam quebrar-se em milhões de pedaços e eu não conseguia encontrar a maneira certa para reuni-los e obter algum sentido. Eu não conseguia... respirar... Eu não conseguia respirar...! Senti algo atingir nitidamente meu rosto, mas antes que realmente conseguisse identificar o que era, a sensação sumiu e eu a perdi. Algo beliscou-me no braço... e eu fiquei agradecido quando os fragmentos de pensamentos desapareceram e eu fui deixado sozinho dentro da abençoada, sombria, inconsciência.

.


.

Meu corpo estava doendo como se eu tivesse corrido quarenta quilômetros sem parar e minha cabeça pulsava, como se estivesse ecoando o solo de bateria de uma das bandas de heavy metal favoritas de Duo. Eu estava firmemente envolto em uma manta e mesmo não tendo aberto meus olhos ainda, tinha certeza que eu estava, mais uma vez, nos braços de Heero. Eu provavelmente não tinha como adivinhar, mas conhecia os corpos deles tanto quanto o meu. Durante a Guerra, havia prestado muito mais então atenção a eles e aos seus corpos do que deveria. Eu só não conseguia entender como conseguia diferenciar, na prática, o que conhecia apenas na teoria – já que ser carregado nos braços por um deles tinha acontecido poucas vezes.

Ou talvez eu soubesse.

Eu havia sido carregado nos braços por cada um deles pelo menos uma vez, durante a guerra, devido a ferimentos e machucados, mas não tinha percebido que havia gravado e depois, enterrado - no mais profundo de minha mente - cada detalhe daqueles momentos.

Era Heero que estava me levando nos braços, por várias razões: o modo como eu me ajustava em seus braços, o cheiro dele, a rigidez perfeita de suas costas e o jeito como ele parecia querer me puxar mais perto dele - como se estar em seus braços pudesse me fazer, de alguma maneira, parte dele. Algo precioso.

Devo ter me mexido ou algo parecido, porque fui movido ligeiramente em seus braços, o suficiente para que meus olhos – agora abertos – pudessem encontrar os prussianos, que pareciam aliviados. Eu não me incomodei tentando dar uma olhada ao redor; a posição em que eu estava tornava isto quase impossível de se fazer, de qualquer maneira; tentei falar, mas não consegui - surpresa, surpresa! - mas não importou, porque ele leu meus lábios.

— Acabamos de chegar na mansão. Os outros foram organizar suas coisas e cuidar de fazer alguma coisa para você comer. Temos poucos criados aqui; ter toda aquela criadagem ao redor nos incomoda. Menos a Quatre, claro.

Era muito bom ter alguém que me conhecia bem o bastante para saber tanto meus movimentos em batalha, quanto as perguntas eu poderia fazer em certas situações, mas, de certo modo... Também era um pouco decepcionante saber que ninguém mais conhecia mais do que isso.

Incluindo eu mesmo.

Aquele foi um pensamento altamente depressivo. Braços de aço me puxaram mais apertado contra um tórax forte e tive que me forçar a focalizar novamente em Heero. Ele parecia chateado; algo que você conseguia ver em seus olhos:

Pare! O que quer que esteja pensando, pare de pensar agora mesmo!

Eu apenas o encarei, incrédulo. O maneira como a voz dele tinha soado... havia deixado transparecer o mesmo tipo de dor que a voz de Duo, no hospital; só que... mais controlada. Doeu ver que o estava magoando; doeu saber que duas, das quatro pessoas que significavam para mim mais do que a minha própria vida, estavam sofrendo por causa de minha fraqueza.

Seus braços apertaram-se com mais força ao meu redor e eu senti lábios firmes pressionarem-se suavemente contra minha testa. Pisquei, atordoado.

— Wufei, por favor, não se machuque mais. Você já aguentou tanto; por favor... deixe-nos ajudar ao menos uma vez. — Sua voz era tão suave, que mais parecia um sussurro, mas a força que trazia fez com a rachadura na muralha interior dentro de mim aumentar e crescer mais um pouco. Eu queria que ele me dissesse o que queria... Mas ele tinha pedido a única coisa que eu não sabia como lhe dar; igual ao que acontecera com Duo.

Durante muitos anos de minha breve vida, eu havia travado batalhas sem fim e nunca tinha fugido delas nem fugido ao meu dever, como eu fora ensinado a ser... mas desta vez... desta vez eu não sabia qual era o meu dever ou como levá-lo a cabo. Eu não sabia quem eram meus inimigos e nada do que eu imaginara ser verdade ao longo de minha vida inteira, parecia se ajustar àquela situação. Eu nunca havia feito algo que eu quisesse fazer; na maioria das vezes, eu nem mesmo sabia o que eu gostaria de fazer, porque isso nunca tinha... importado, antes. Desta vez, porém, sem nada mais para me guiar, eu fiz o que eu queria fazer... e enterrei meu rosto em seu ombro, agarrando firmemente um punhado da camisa dele e simplesmente me permitindo inalar seu cheiro.

Não havia lágrimas. Não havia choro.

Eu não me lembro de já ter chorado, alguma vez; algo não tão surpreendente assim, uma vez que 'chorar' era considerado algo fraco e inaceitável. Apesar das rachaduras em minha muralha, eu ainda estava intacto, ainda era forte, como eu sabia que tinha que ser... e não haveria lágrima alguma, ao menos até que eu quebrasse. E eu não podia permitir isto.

Heero pressionou sua face contra o topo de minha cabeça e recomeçou a caminhar, subindo a escada para um andar superior. Ele não disse mais nada e logo me encontrei no quarto o qual eu estaria morando durante algum tempo.

Apenas quando Heero relutantemente me colocou na cama, debaixo das cobertas, foi que eu dei uma olhada ao redor do quarto. O quarto em questão era maior que meu apartamento inteiro e estava enfeitado nas cores vermelho e ouro. Eu meio que quis saber se Quatre havia adivinhado que essas eram as cores de meu clã, mas sabia que aquilo não era bem verdade.

Nenhum deles sabia nada sobre Meiran, meu clã ou a posição que eu ocupava nele. Afinal de contas, como eles poderiam saber, se eu nunca havia lhes contado?

— Com fome?

Olhando para minha esquerda, vi Quatre parado de pé, próximo à cama, trazendo uma bandeja com um copo de água e um prato que parecia conter sopa. Levei um momento para considerar a pergunta, mas não pude encontrar uma resposta. Devia dizer algo, mas não consegui. Foi o olhar esperançoso em seus olhos que me fizeram assentir. Apenas um aceno... e de repente havia um sorriso tão bonito em seu rosto, que teria me pego de supresa e deixado zonzo... se eu já não tivesse me sentido daquele jeito.

Trowa me ajudou a sentar e antes de qualquer um outro inventar de fazê-lo, eu agarrei a colher - um pouco desajeitado, certo - e consegui levar quatro colheradas à minha própria boca, antes de minha mão estar tremendo tanto, que não conseguia segurá-la mais. A esta altura, Trowa assumiu, sem uma palavra - o que agradeci.

Consegui tomar três quartos do prato antes de sacudir levemente minha cabeça, dando por terminado e só consegui fazer isso por causa da atenção extasiada que os quatro estavam dando a mim. Nem uma única palavra havia sido dita por uma hora, tudo o que fizeram foi me ver comer. Eu não fazia idéia alguma do que fazer depois disso, mas felizmente não tive que me preocupar muito mais: minhas pálpebras tinham começado a pesar e todos os quatro estavam, em segundos, me ajeitando na cama, para dormir.

Era estranho... ninguém havia feito algo daquele tipo para mim, nem mesmo quando criança; pelo menos, não que eu pudesse me lembrar. Se meus pais haviam feito aquilo comigo antes de eles terem morrido, não conseguia me lembrar. Imagino que não existam tantas pessoas assim que consigam lembrar-se de suas vidas quando com um ano ou dois de idade.

.


.

Meus olhos abriram-se vagarosamente e mesmo não tendo olhado para o relógio na mesa-de-cabeceira, sabia que eram 05h30 da manhã. Eu também estava completamente consciente do que tinha acontecido nos últimos dias e onde estava.

A rotina ordenava que eu deveria me levantar e fazer meu Katas e treinos de espada - porém, o esgotamento que eu sentia ordenava-me exatamente o contrário. Assim, entrei em um acordo. Cuidadosamente, me sentei no colchão e coloquei minhas pernas para fora da cama. Testando um pouco a força de minhas pernas, consegui ficar de pé e fiquei parado até um pouco da vertigem passar. Então, colocando um pé na frente um do outro, peguei minha mochila e dirigi-me ao banheiro. Levei aproximadamente vinte minutos, com várias pausas de dois minutos, para levar a cabo a distância de meros trinta e cinco passos dentro do quarto. Não pude me controlar: eu tive que contar. Oh bem... pelo menos era um começo. Melhor que ter que lidar com um banho que poderia ter um possível envolvimento dos outros rapazes. Depois de ter escovado meus dentes e usado o sanitário, me sentei na borda da banheira, optando por uma chuveirada, em vez de um banho de imersão por não ter certeza de que poderia sair dela, depois ter conseguido me sentar dentro dela.

Levei quase meia hora tomando banho; a maioria desse tempo lavando meu cabelo, já que meus braços cansavam-se freqüentemente. Até que chegou uma hora em que eu estava limpo e seco. Usei o sanitário como uma cadeira e consegui me vestir sem cair de cara no chão.

De volta ao quarto, abri uma cortina e desabei, fraco, na cadeira estofada ao lado dela. O que estava acontecendo comigo era inaceitável por várias razões, mas eu estava absolutamente sem vontade, ou a fim, de procurar descobrir o que tinha causado aquilo. Alguma coisa devia ter causado minhas rachaduras, mas devia ter algo muito maior por trás desses acontecimentos, e com força e tanto poder para acabar comigo daquele jeito. O problema era que eu estava cansado de pensar e não tinha mais energias para forçar a mim mesmo a fazer uma revisão mental de tudo o que vinha acontecendo há muito tempo.

Perdi a noção de quanto tempo passei sentado lá, indiferente; não podia ter sido muito tempo - uma ou duas horas, no máximo.

— Você é a mula mais teimosa que eu já vi, Chang Wufei!

Erguendo a cabeça, dei de cara com um Duo Maxwell não muito feliz olhando para mim a poucos centímetros de distância... e não pude deixar de fechar a cara, em retorno. Eu falei - mas não foi surpresa alguma, ver que ainda estava sem voz. Fui recompensado pelos meus esforços em querer me comunicar, com ele revirando os olhos, exasperado.

— Eu sei que você não é um inválido, Fei. Todos nós sabemos disso, mas também sabemos que você é um ser humano! Mas que porra, eu só queria que você percebesse isto! — Novamente ele me deu as costas, como para se afastar de mim, intempestivo, igual ao que fizera no hospital. Entretanto, desta vez não fui rápido o bastante para agarrá-lo e impedi-lo de me deixar.

O pânico explodiu por meu corpo novamente, mas desta vez, algo agitou-se dentro mim:

— Eu percebo. — Minha voz estava rouca e um pouco áspera, mas era definitivamente a minha - e o mais importante: o fez parar, imediatamente. Eu engoli em seco, desesperado atrás de aliviar a secura em minha boca e garganta. — Eu... eu só... eu não consigo, não sei ser... — eu estava tremendo novamente, mas me forcei a continuar. Incapaz de olhar para ele, meu olhar caiu sobre meus punhos fechados. — Eu não devia ter sobrevivido tanto tempo. Eu sabia qual era meu dever para com meu clã; eu deveria conduzi-lo. Era isso que eu estava sendo treinado para fazer, mas a guerra... eles... — As palavras ficaram presas em minha garganta e eu podia sentir a tempestade dentro de mim se enfurecendo, forçando as rachaduras em minha muralha protetora a aumentarem ainda mais.

Eu tinha que escapar dali.

Num jorro de adrenalina, ergui-me da cadeira, cambaleando sobre meus pés e avancei, trôpego, para a porta - mas não consegui ir mais adiante. Braços incontáveis envolveram-me, e me encontrei mais uma vez na cama... mas desta vez, eu estava sentado e rodeado pelos outros.

Quatre gentilmente ergueu meu queixo.

— Faz bem desabafar, Wufei.

— Eu... não sei como. — Até mesmo para meus próprios ouvidos eu soei perdido, sozinho... e amedrontado.

Dois pares de braços – um forte e outro longo - passaram ao redor de minha cintura, vindos de ambos os lados e lábios pressionaram-se suavemente contra meus ouvidos, em harmonia.

— Nós ajudaremos — a voz de Trowa era apenas um sussurro, no esquerdo.

Heero ecoou o seu, no direito.

— Confie em nós.

Duo estava ajoelhado na minha frente, uma mão em meu joelho... direito, próximo a Quatre... e percebi que tinha começado a ceder, há muito tempo atrás. Agora, aqui estava eu, e sabia que não importava o que dissesse, já era tarde demais. Os únicos que poderiam ajudar não escolheriam desistir antes do fim, por causa do que eu diria. Aquele era o fim. Eu ia quebrar... e sem ninguém para me consertar, eu provavelmente seria jogado fora, como todas as coisas inúteis e quebradas. Devia a verdade a eles, antes que fosse tarde demais para lhes contar. E assim, comecei com a verdade mais simples que eu conhecia.

— Eu amo vocês. Todos vocês. Como poderia não amar, quando vocês são tudo o que eles tentaram conseguir que eu fosse...? Vocês são tudo o que eu precisava ser e muito mais… Vocês são minha vida...

Não faço ideia de quando comecei a chorar.

Pode ter acontecido quando eu mencionei a tropa de tutores destacados para mim, desde pequenino, ou a decisão dos Anciões de fazerem concentrar-me unicamente em meus estudos e aulas e remover qualquer distração desnecessária para crianças de minha idade - ou vínculos emocionais considerados impróprios. Pode ter sido quando eu lhes contei a morte de Meiran, ou a traição que meu Clã sofreu. Posso ter começado até mesmo quando eu mencionei meu treinamento para lutar com Nataku, ou o momento que eu descobri que havia perdido meu coração para eles... O que tenho certeza é que ainda estava chorando e tremendo, quando finalmente me lembrei o que havia feito tudo aquilo acontecer... aquelas fotos.

— Era fácil aceitar que vocês tinham virado casais, porque isso significava que vocês estavam felizes; eu aceitei prontamente, mas... mas descobrir que todos vocês estavam juntos, sem mim... Foi... foi... E então... eu quis saber… Por quê? Por que não eu? Por que eu nunca sou bom o bastante para ninguém? Por que vocês não poderiam me querer, também? Meu Clã precisou de mim, para conduzi-los à luta e então... me abandonaram. Os Preventers precisam de minha experiência e habilidade... ninguém realmente me vê... eu, nem mesmo eu consigo gostar de mim. Eu não me conheço.

Isso foi tudo o que eu consegui dizer antes de desmaiar, mas estava tudo bem, porque aquilo era tudo o que eu tinha dentro de mim... e eu logo seria mandado embora, sozinho, para recolher os fragmentos do que ainda restava de meu orgulho, de minha sanidade e colá-los o suficiente para poder voltar ao trabalho, pelo menos. Afinal, eu podia não ser querido, mas em meu trabalho... mas em meu trabalho eu era necessário – e cumprir meu dever era a única coisa que eu realmente sabia fazer.

.


.

Eu estava quentinho e confortável e não queria me mexer.

E mesmo querendo ficar onde estava, sabia que não podia. Forcei meus olhos a abrirem e senti meu queixo cair, quando vi Trowa e Duo dormindo próximos a mim. Duo tinha um braço ao redor de minha perna e Trowa – colado às suas costas – estava segurando meu braço. O jeito como eles estavam deitados, ambos quase sobre mim só poderia ser descrito como... possessivo. Com cuidado para não me mexer muito e acordá-los, eu olhei lentamente para meu outro lado... e encontrei Heero e Quatre dormindo do mesmo jeito. Lembrei do que tinha acontecido mais cedo e jamais imaginara de fato o que eles fariam quando soubessem de tudo... mas me usarem como um ursinho de pelúcia não me parecia uma escolha lógica.

Sabendo que não ia poder me mover durante algum tempo, relaxei. Depois de chorar e fazer papel de bobo, eu poderia esperar estar numa situação ainda pior do que a que estava antes, mas, surpreendentemente, o oposto parecia verdadeiro. Eu não conseguia me lembrar de me sentir tão relaxado quanto estava naquele momento. Ainda sentia-me cansado, mas era como se, antes, eu estivesse preso em uma gaiola de cimento e afundando aos poucos no oceano... e agora... eu estava flutuando na superfície da água, com o sol brilhando acima de mim.

Trowa mexeu-se e nossos olhos se encontraram. Algo aconteceu entre nós... e eu estava inclinando-me para frente, assim como ele, cuidadosamente, e então... nossos lábios se encontraram. Eu não tinha palavras para descrever como era sentir o toque dos lábios dele nos meus, ou como isso pareceu se tornar meu mundo. Quando nos afastamos um do outro, pude ver nos olhos dele que nada havia sido destruído, na verdade, o laço entre nós tornara-se mais forte. Em seus olhos, havia a mesma coisa que já tinha visto antes, quando ele olhava para Quatre.

Eu podia ser teimoso, mas relembrando os últimos dias, até mesmo eu tinha que perceber que havia perdido algo importante, ali:

— Aquelas fotos... Foi Duo que as mandou, não foi?

— Eu estava desesperado, Fei... eu não quis... — uma voz baixa e carregada de culpa se fez ouvir.

Deslizei meu braço pela perna abaixo, até que agarrei sua mão e suavemente a apertei.

— Não sinta. Estou feliz por você ter feito aquilo... Ou tudo poderia ter acontecido em um momento ainda pior.

— Mas magoou você.

Não, Duo. Não me magoou; o que você fez me salvou, me fazendo ver que o modo como eu estava vivendo era errado. Eu nem estava vivendo. Não tenho muita certeza do porque viver apenas em função do dever faz sentido para mim... talvez seja porque este tipo de vida é o único que eu realmente conheço... — Duo ajoelhou-se na cama em frente a mim de forma que pudesse vê-lo melhor.

— Fei, escute, tem algo que precisamos te contar...

Tudo então encaixou-se – cada coisa em seu devido lugar – naquele exato momento.

Eu podia ter sido tão perspicaz quanto uma mula com vendas nos olhos, mas não era estúpido. Eles vinham me demonstrando, desde a primeira vez que eu tinha acordado, ainda no hospital, o quanto me amavam. Se eu tivesse sido menos fechado no início, teria visto que eles vinham mostrando o quanto se preocupavam comigo... desde a primeira guerra. Eu simplesmente não reconhecera até que eles demonstrassem uns com os outros.

— Não precisa dizer nada... Eu já sei.

Ele sacudiu a cabeça.

— Não é a mesma coisa, Fei... e você sabe disso. Ao longo de toda sua vida, ninguém nunca lhe disse, nem ao menos uma vez, essas três palavrinhas, disseram?

Não pude negar, então não disse nada.

— Eu tive Solo, Padre Maxwell, a Irmã Helen, Howard e os Sweepers... e agora, os rapazes, para me dizerem. Quatre teve as irmãs dele, os Maganacs e agora, nós. Trowa teve Catherine, o pessoal do circo e nós... Heero teve Relena e com o tempo, ele ganhou todos nós, também. As pessoas têm que saber que são amadas... e eu sei que a Sally não lhe disse, porque eu perguntei a ela.

Eu tive que sorrir timidamente ao ouvir aquilo.

— Eu nunca dei uma chance a ela. Eu nunca dei uma chance a nenhum de vocês, na verdade.

— E nós simplesmente deixamos que seguisse assim.

Esta resposta veio de Heero.

Dando de ombros, voltei minha cabeça para ele, olhando-o no fundo dos olhos azul prussianos.

— Talvez, mas eu nunca aprendi a me expressar ou a viver e seguir o que meu coração me dizia; você também. Não foi fácil enfrentar a dor do que você conseguiu deixar para trás. Por que convida a dor novamente, quando já passou por tanto?

— Porque eu quero você. Porque todos nós o queremos... Wufei, nós amamos você, é por isso; e você nunca nos deu uma chance porque ninguém nunca lhe ensinou a se soltar. Ninguém nunca o deixou ser livre.

Quatre engatinhou para cima de meu corpo e acabou ajoelhando-se entre minhas pernas, ao lado de Duo.

— Mas nós podemos lhe mostrar como, se você confiar em nós.

Eu confiava neles? Com minha vida. Mas eu poderia confiar neles com meu coração...? Olhando nos olhos de Quatre, não tive mais nenhuma dúvida quanto a isto. Apoiando-me adiante, eu roçei meus lábios contra os seus.

— Sim.

Ele sorriu, mas era um sorriso mais sedutor do que doce:

— Maravilhoso. Começamos amanhã.

.


.

O resto do dia foi completamente contrário a qualquer outro em minha vida. Eu não ficava sozinho um único momento, a não ser quando ia ao banheiro. Nós assistimos a um filme juntos, comemos juntos, jogamos cartas juntos, escutamos uns aos outros contando piadas e... conversamos. Eles me davam espaço pessoal suficiente de forma que eu não me sentisse sufocado, mas permaneciam próximos o bastante de maneira que não tivesse dúvida alguma em acreditar que eles me queriam lá. Quando foi ficando tarde, e meus olhos não permaneceriam abertos mais, eles ficaram comigo e eu cheguei à conclusão que ser abraçado era algo que eu sentia muita falta em minha vida e eu nem mesmo tinha percebido isto.

.


.

No dia seguinte, acordei... e dei por mim vendado e amarrado à cama. Medo e incerteza me inundaram, mas diminuiram sensivelmente quando uma voz soou da escuridão ao meu redor.

— Está tudo bem, Wufei. Somos nós.

Eu me senti ficar de cara fechada.

— Podia me ter avisado que era isto que você queria, Quatre.

— E estragar a surpresa? Onde ficaria a diversão?

— Você tem uma veia sádica, Winner.

— Tenho sim... Mas posso garantir que irá gostar.

Por alguma razão, o modo como a voz dele soou fez um calafrio correr por minha espinha; em vez de responder, optei por mudar de assunto.

— Onde estão os outros?

— Aqui, Fei. Não acha que nós perderíamos a oportunidade de tê-lo à nossa mercê, acha?

Duo falou um pouco antes de um metal frio tocar a pele à base de minha garganta. Mesmo com os olhos vendados, eu sabia que era uma faca e senti meu corpo ficar rígido imediatamente. O metal frio deslizou um pouco mais para baixo e então o tecido de minha camiseta foi repuxado para cima de forma que ela colou ao meu redor. Mais dois segundos e ouvi o tecido ser rasgado, expondo meu tórax nu. O tecido foi arrancado de meu corpo sem cerimônia.

Algo morno e molhado lambeu minha orelha, antes que eu ouvisse a voz rouca de Heero.

— Muito bom.

Senti minhas faces queimarem.

— O-o que você está fazendo?

— Admirando o que os Deuses tiveram o bom senso de colocar neste mundo. — A voz de Duo soou francamente divertida e ligeiramente sensual.

A superfície fria da faca tocou a pele sobre meu abdomem e o cós de minhas calças foi puxado.

— Não! Pare, apenas pare... por favor... — A minha total falta de controle quanto à situação ficou alarmantemente real num repente.

Lábios roçaram nos meus.

— Shhh... Calma. Confie em nós, Wufei. Não faremos nada que não consiga suportar. Sabemos quão forte você é; não subestime seu próprio valor. Nós o amamos.

— Trowa... — Eles pararam, como se estivessem esperando por mim. Eu poderia fazer isso? Mais importante: não conseguiria? Se parasse aqui, agora, tudo voltaria a ser como era antes e eu não queria isso; e não queria com tanta força, mas tanta, que consegui engolir minha apreensão. — Eu confio em vocês.

Minha calça sofreram o mesmo destino que a camiseta. Não fazia frio no quarto, mas tremi novamente enquanto sentia quatro pares de olhos me examinando. Ninguém tinha visto tanto de meu corpo, assim, exposto, desde que eu era criança - nem mesmo Meiran - e eu me sentia horrivelmente vulnerável.

Meus outros sentidos começaram tentar compensar a falta de visão, assim pude sentir o perfume dos quatro e senti-los mudando de lugar no colchão enquanto se moviam. Parecia que haviam se passado horas, em silêncio, enquanto eu tentava entender o que estava acontecendo. Então senti um tapa rápido e agudo contra minha coxa interna, porém não vinha de uma mão - era fino demais para isso. Parecia mais um... chicote? Novamente me atingiu, desta vez ao longo da parte interna de minha outra coxa. Eu gemi.

— Wufei, Wufei... Você está pensando demais e não podemos permitir isso, podemos? — A voz de Quatre veio de cima de mim e soou muito sensual.

Algo gelado arrastou-se por cima de meu tórax; uma ponta de gelo, ou um picolé.

Devia ser um picolé, porque era pegajoso. O que eu não esperava era sentir uma língua quente seguindo seu rastro. O picolé moveu-se para cima e passou ao redor um de meus mamilos, antes de viajar para o outro. A língua seguiu-o, mas parou no mamilo para dar-lhe um pouco mais de atenção. A língua sorveu-o em uma boca úmida e lábios fecharam-se em cima dele, completando a sucção, mas foram os dentes - que arranharam-no asperamente - que me fizeram arquear frente ao toque, antes que eu pudesse suprimir a reação.

Ao ter, na mesma hora, o mesmo tratamento no outro mamilo, tive que morder meus lábios para me impedir de gritar. Perdi a noção de onde estava o maldito picolé por um momento, antes de senti-lo acariciando a parte interna de coxas - justo onde sentira a dor das chicotadas antes. Eu realmente não estava pronto para tudo aquilo, quando um nariz tilintou minha virilha enquanto lábios beijavam minhas coxas, uma língua deslizando agilmente de vez em quando para provar minha pele e provavelmente o sabor do picolé também. O nariz se enterrou em minha virilha, encostando de leve em meu pênis e não pude controlar o gemido que escapou de minha boca. Nunca ninguém tinha me tocado desse jeito.

— Gosta do que estão fazendo com você, Wufei? — Era Quatre quem falava e uma vez que as outras bocas ainda continuavam onde estavam antes, isso significava que aqueles lábios e línguas pertenciam a Heero, Trowa, e Duo. Aquele pensamento enviou fogo através de mim e eu gemi novamente quando dedos fortes deslizaram em cima de meus lábios. — O que você quer, Wufei?

O que eu queria? Ótima pergunta. Eu não queria que aquilo acabasse; eu não queria voltar para minha velha rotina; eu queria descobrir o que eu queria. Eu queria pertencer a alguém, mesmo que apenas por um momento.

Lábios tocaram os meus e uma língua deslizou por entre meus lábios e dançou dentro deles, arremessando-se ao redor de minha própria língua, sugando-me em sua boca, onde segui seu exemplo. Quando ela me abandonou, a voz de Quatre, ligeiramente ofegante, repetiu a pergunta.

O que você quer, Wufei?

Foi então que percebi que o controle no qual eu acreditava ter em todos os aspectos de minha vida, o controle que eu mantinha à força sobre mim mesmo, fora uma ilusão. Mas aqui, onde eu parecia justamente não ter nenhum, estava sendo ofertado com um.

Tudo o que eu tinha que fazer era me abandonar e aceitar.

Aceitar que eles estavam me oferecendo o amor deles e eles próprios. Talvez não pudessem me oferecer outra coisa, mas estavam dispostos a me dar mais do que qualquer outro ser humano já estivera disposto, antes. Eles estavam dispostos a me dar algo que eu queria... e tudo o que eu tinha que fazer era lhes dizer.

Mas as palavras ficaram presas em minha garganta e de repente eu me vi assustado: com medo de que houvesse perdido minha chance e não receberia outra... E assim, pela segunda vez em 24 horas, eu me encontrei chorando.

Dezessete anos sem derramar uma lágrima sequer... e de repente eu havia me tornado as Cataratas do Niágara.

— Wufei? Wufei, o que foi?

Senti alguém remover minha venda, mas eu mantive meus olhos fechados. Eu não queria que o que estava acontecendo acabasse.

— Não...! P-por favor, coloque de volta...

— Mas Fei... — Era Duo, e ele não parecia feliz.

— Eu estou bem, Duo.

— Fei...

— Vocês me pediram para confiar em vocês, e eu vou... mas vocês tem que confiar em mim, também. Foi... eu só... não estou acostumado a ser tocado e ninguém nunca me perguntou o que eu queria antes...

A venda foi gentilmente recolocada outra vez e a voz de Heero soou em meu ouvido:

— Eu entendo.

E eu sabia que ele entendia. Heero e eu éramos parecidos de muitas maneiras, mesmo onde éramos diferentes.

A voz de Quatre voltou a soar no silêncio súbito.

— Você ainda tem que nos dizer o que você quer, Wufei.

Engolindo em seco, eu consegui lhe responder, mas apenas em um sussurro.

— Eu quero que vocês continuem... não deixem de me tocar, por favor.

Como você quiser.

E simples assim, suas bocas estavam novamente em mim. O metal frio da faca tocou meu abdômen novamente e eu senti o tecido de minha cueca ser arrancado.

Vulnerabilidade era algo que sempre haviam me encorajado para esconder profundamente dentro de mim, mas eu gostava da ideia de ter meu ser exposto a eles. Desejei poder vê-los olhando para mim, mas uma parte ainda maior sabia que seria muito, muito cedo. O que estava acontecendo era real, mas a venda nos olhos dava-me sensação suficiente para soltar-me e deixar tudo acontecer. A maioria das pessoas não entenderia que se permitir gostar e aproveitar algo podiam ser as coisas mais difíceis que eu já havia feito na vida, mas era verdade - e a venda ajudava.

— Você é lindo, Wufei. — Aquela voz era, sem dúvida, de Trowa, e uma vez que a pessoa que tinha deitado lábios e dentes em meu mamilo tinha abandonado meu tórax enquanto ele falava, uma parte do mistério sobre 'quem estava aonde' fora resolvido. Segundos depois, ele estava lambendo meu pescoço, antes de pousar sua boca na curva entre meu pescoço e ombro, onde eu senti dentes mordiscando-me, excitantes.

Eu estava duro; com tudo o que estava acontecendo comigo, não era exatamente uma surpresa. Eu nunca havia tido qualquer coisa que pudesse ser classificado - mesmo que livremente - como um encontro sexual, antes... e já me sentia como fosse explodir. Para ser sincero, estava surpreso por aguentar tanto.

O chicote fez outra aparição. Deslizou lentamente por cima de meu pênis, fazendo ficar difícil respirar. Mas acabei ofegando bastante depressa, quando o picolé gelado substituiu o chicote. Eu teria pensado que a sensação de frio naquela região diminuiria o calor, mas... ao contrário - aumentou-a. Não percebi que estava arqueando meus quadris, até que senti mãos neles, me segurando, me trazendo de volta ao colchão. Eu estava perdendo as rédeas de tudo muito depressa, e Quatre falou comigo, dando-me algo no que focalizar.

— Eu quero provar você, Wufei; posso?

As mãos em meus quadris estavam deslizando dedos suavemente ao longo da parte interior de minhas coxas - próximos, mas não chegando a tocar onde eu realmente queria que tocassem.

— Sim. S-sim, p-por favor... P-por favor — era apenas um sussurro, mas era o mais perto que eu já chegara a implorar em minha vida - mesmo que não estivesse seguro a respeito do quê estava implorando, exatamente.

O que eu sabia era que não me machucaria.

Algo morno envolveu meu pênis... e qualquer coisa realmente coerente, no mundo, pareceu sumir. Eu fui sugado de maneira rápida, firme, como se estivesse tentando me engolir inteiro. Meu corpo estava resistindo, descontrolado, mas aquelas mãos em meus quadris estavam me mantendo firme, no lugar. Então, algo que vinha formando uma espiral cada vez maior e mais pulsante, dentro de mim libertou-se... e eu vi estrelas, enquanto a explosão de prazer que sentia tornava-se um formigamento gostoso ao longo de minha pele, antes que tudo desaparecesse em uma satisfatória escuridão.

.


.

Quando acordei, sabia que eram 05h30 da manhã e também sabia que eu estava na cama, nu, junto com os outros, também nus. Sair dali seria difícil e, para ser honesto, eu não queria realmente partir... mas me achava, surpreendentemente, ansiando por fazer meus Katas. Apesar de ter sido treinado para fazê-los durante toda minha vida, eles eram uma das poucas coisas de minha antiga vida que eu queria fazer, de fato. Não porque eu precisasse saber como lutar e me defender, mas porque eram desafiadores e eram algo no que eu era naturalmente bom, como desenhar.

Cuidadosamente, eu saí de cama e vesti, desapercebido, uma bermuda. Eu também não me surpreendi ao ver que os outros apenas se mexeram levemente, enquanto isso. Afinal de contas, tínhamos nos acostumado uns aos outros durante as guerras e provavelmente éramos os únicos seres vivos no universo que conseguiam passar a tal distância uns dos outros sem ativar nossos radares internos.

Eu ainda estava cansado, mas a exaustão obsessiva de antes, que me fazia sentir pesado e quase morto, parecia ter se dissipado. Andando vagarosamente, atravessei a mini mansão de Quatre, chegando ao terreno dos fundos dentro de uns trinta minutos.

Fazendo meu alongamento, decidi me concentrar nos exercícios mais fáceis. Eu me permiti me perder neles, mas depois de um certo tempo, me dei conta que tinha uma espécie de audiência e reduzi a velocidade aos poucos até parar.

Voltando-me, eu me achei sorrindo timidamente aos outros quatro.

— Espero não ter acordado vocês.

Duo riu, mas não do jeito que ele fazia, durante o período das guerras. Era uma risada que era gostosa e envolvente, uma que parecia tomar conta de seu corpo todo.

— Não, mas a falta de um Fei, nu, ao nosso lado, fez.

Eu fique vermelho e prendi uns fios soltos de meu cabelo atrás da orelha, enquanto baixava minha cabeça.

— Como está se sentindo?

Olhei para Heero e só então percebi que eles estavam apenas de shorts e boxers, da mesma maneira meio... nua, que eu estava. Não respondi à pergunta dele imediatamente, entretanto - eu apenas olhei para todos eles e deixei que me vissem... não só a parte que eles tinham conhecido durante as guerras, mas tudo de mim, e então dei um dos meus raros sorrisos...

— Livre.


.

CONTINUAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA! \o/

Notas da Tradutora - Illy-chan:

[1] À Deb = a Deb, a quem a Kai se refere nos agradecimentos no início da fic, é nada mais nada menos, que a maravilhosa Shenlong-Sama \o/

Sim, ela mesma – Shenlong, a autora de dezenas fics BELÍSSIMAS no fandom gringo e que também é a autora da fic "Chimaera", uma das mais LINDAS M-Pregs 1x2 já escritas e que teve seus primeiros capítulos traduzidos, anos atrás, pela Dhandara, no falecido XYZYaoi.

Ainda anos atrás, várias fanfics da Shenlong traduzidas pela Dee-chan e postadas no site – agora também off-line – do WingProject.

[2] ...por fazer esta competição... = A partir de 2004, a Shenlong começou a lançar um 'Contest', ou seja, um Desafio de Fics, no site dela, cada ano com um tema diferente.

A competição à qual a Kai se refere foi o 'Contest Art of Bondage – Ano 2005', no qual ela participou, com o cap 01 de Everybody Breaks. *_*

Alguns nomes dos Contests promovidos pela Shenlong: em 2004, foi o 'Sex Toys'; em 2005, o 'Art of Bondage', e em 2006, foi o 'Art of Seduction'. O último ano do Contest foi 2007, infelizmente...

Nossa, eram Contests muito badalados, pois muitas autoras phodas do fandom gringo de Gundam Wing na época participavam deles: Akuma, Fancy Figures, Asymphototropic, EvilKat, Atre, etc... e a Kai, lógico, hehehe

A Shenlong [ou Deb, para as amigas mais loucas] é, ainda hoje, uma das raras escritoras de fanfics Yaoi/BL de GW que, mesmo passados mais de 20 anos [GW é de 1995] não abandonaram o fandom – como bem podem imaginar, muita coisa mudou nestas duas décadas e as autoras, em sua maioria, migraram para outros fandons, viraram escritoras profissionais ou simplesmente sumiram, para nossa tristeza.

Mas a Shen diz que vai morrer escrevendo fics em que os G-Boys vão estar se pegando – AWWWW! Ela é das minhas! ADORO esta mulher!

Duvidam? Olhem aí como a Shen é uma das pouquíssimas que permanecem ativas: até hoje ela continua lançando fics, mantendo o site dela ativo [que é enoooorme e também hospeda fanfics de várias outras escritoras também!], participando de MLs [O quê? Acha que tudo na vida se resume ao Whatsapp, Instagram e Tumblr? Sabe de nada, inocente XD], e ajudando centenas de fãs a encontrarem ou acharem fanfics perdidas no meio internético! Sério! Se vocês entrarem na Comunidade gringa de GW aqui no ffnet, vai ver que 90% das respostas no tópico 'Alguém peloamordeSãoYaoi lembra dessa fic?' é respondida por ela.

A Shen é MARA, meu povo! Um altar para ela! *_*

Ah, para quem quiser conferir, é só procurar pelo site da Shenlong: o Deb's Dragon – Gundam Wing Diaries, e se deliciar, tanto com as fics dela, quanto com fics de outras dezenas de autoras que a Debs mantém salvas no site do Shenlong \o/\o/

.


PROJETO PILOTOS GUNDAM WING: SEMANA WUFEI CHANG

Você acabou de ler: Everybody Breaks (Kai - TheWarriorKai – Cap. 01 postado)


.

Acesse o perfil do Illy-chan e Grupo GW Traduções , acompanhe as postagens da SEMANA WUFEI CHANG e leia as fics a serem lançadas \o/

Dark Silences (Sunhawk – Caps. 01 ao 04 – Caps. 01 e 02 postados)

Memory Ghosts (Babaca – Caps. 01 ao 04 – Caps. 01 e 02 postados)

The Arrangement (Maldoror – Caps. 01 ao 03 – Cap. 01 postado)

Falling from Grace (InoFan – Cap. Único postado)

Blade (Kracken – Cap. Único postado)

Growing Up (Celina Fairy – Caps 01 ao 04 – Cap. 02 postado)

Butterfly Kisses (Celina Fairy – Cap. Único postado)

Everybody Breaks (TheWarriorKai – Cap. 01 ao 03 – Cap. 01 postado)

Perfection (Celina Fairy – Cap. Único)

Dialogues (Katsudon – Cap. Único)

Crawlspace (Hotaru – Cap. Único)

.

Acesse o perfil da Illy-chan H. Wakai, acompanhe as postagens da SEMANA WUFEI CHANG e leia a fic a ser lançada \o/

Fanfic Original

Ciclo de Memórias (Cap 02)

.

Acesse também o perfil da Aryam McAllyster, acompanhe as postagens da SEMANA WUFEI CHANG e leia as fics a serem lançadas \o/

Midnight Tea (Sunhawk – Cap. Único - postado)

Tough Love (Blue Soaring – Cap. Único - postado)

Bilhetes (Aryam – Caps. 01 ao 06 – Caps. 01 ao 03 postados)

Overthougth (Blue Soaring – Cap. Único postado)

Lawless Hearts (Kracken – Cap. 19 postado)

Gold Child (Sunhawk – Cap. 01 postado)

Kiss The Cook – Chef Chang (Kracken – Cap. Único postado)

Wild Little Wu-chan (Rhaine – Cap. Único postado)

Realizations (Keiran – Cap. Único postado)

Don't cry for me (Merula – Cap. Único postado)

Tácito (Aryam – Cap. Único postado)

Seven days of drunkenness (Merula – Cap. Único)

Rules of attraction (Keiran – Cap. Único)

E comentem, claro XD