8 de setembro
Agora são exatamente 23:32.
Eu estou morrendo de sono.
Mas, dessa vez, resolvi escrever até o final.
Gostei dessa ideia de fazer um diário. Já disse isso. Só que, como eu já previa, o hábito que faria disso um "diário" não existe em mim.
Eu queria ser uma pessoa de hábitos. De vida regrada, de horários bem marcados, de ter uma rotina...
Não, não. Minto; eu não quero nada disso. Eu gosto de ter um horário flutuante, imprevisível, sempre mudando...
Nunca posso fazer planos demais para o futuro, porque nunca sei exatamente como vou estar, onde vou estar, o que vou estar fazendo...
Se bem que eu nem penso tanto no futuro. Meu lado imediatista impera.
Enfim. Gosto da minha vida como ela é.
O problema é que, às vezes, eu me esqueço de que gosto dela assim.
Ou, pelo menos... às vezes, eu entro em algum conflito comigo mesmo e me questiono se realmente gosto das coisas que digo gostar.
Estou rindo de mim mesmo. Aqui, sozinho, no meu apartamento...
Que situação deplorável, Ikki Amamiya.
Estou um pouco em crise. Deve ser porque estou doente.
Sempre que fico doente, acabo ficando fraco e impossibilitado de fazer tudo o que normalmente faço. Daí, começo a pensar demais.
A minha natureza já é de pensar demais. No estado em que me encontro agora, isso só piora.
Detesto essa condição.
Ao mesmo tempo, eu a acho interessante, porque me possibilita me questionar.
Que droga, acho que não estou fazendo muito sentido.
Mas quem se importa? Esse é o meu diário, não é mesmo? É só para mim mesmo, ninguém precisa ler, ninguém precisa compreender...
Aliás, além de ninguém precisar entender, esse diário não precisa ser diário mesmo...
A primeira vez em que escrevi aqui foi no dia 24 de agosto. Dia 29, eu tentei escrever também. Eu queria muito, mas estava tão cansado... escrevi algumas poucas linhas, talvez quase uma página, mas o sono me venceu.
E eu nem sabia direito o que escrever. Acho que só queria preencher o espaço em branco.
Minha vida, muitas vezes, é formada de espaços em branco. E eu sinto uma angústia tremenda para preencher essas lacunas que parecem me formar como uma pessoa que é mais cheia de vazios que de qualquer outra coisa...
No dia 31 de agosto, eu tentei de novo. Em vão, mais uma vez.
Até me lembro: cheguei a escrever sobre a necessidade de escrever. E coloquei, em linhas mal dispostas, que queria pôr em palavras alguma coisa, qualquer coisa, mas não me vinha nada.
Eu sou vazio, mesmo. Nem era capaz de encontrar algo sobre o que falar. Não encontrava qualquer sentimento para esboçar em algumas poucas palavras.
O pior é que eu sei bem que há sentimentos aqui. Mas tenho o costume de escondê-los tão bem que nem eu mesmo consigo encontrá-los quando resolvo buscar por eles.
No dia 31, desesperado por simplesmente escrever qualquer coisa, comecei a descrever o que estava fazendo. Coloquei que estava com fome, aí resolvi ver o que tinha para comer na geladeira... tinha uma pizza do dia anterior. Acabei comendo e, sei lá. Senti uma coisa meio estranha. Comi sozinho, pensando em tudo e nada ao mesmo tempo. Aí, sem maiores explicações, perdi a vontade de escrever.
Voltei hoje. E voltei com uma necessidade absurda de fazer as palavras me expressarem. O que eu quero expressar exatamente não sei, mas preciso das palavras hoje.
Para me fazer companhia.
Minhas palavras sempre me fizeram companhia.
Eu estou realmente com sono.
Mas ainda quero escrever... só mais um pouco.
Estive meio doente nos últimos dias. Um mal-estar chato, que foi crescendo.
Acho que é o clima. Umas alterações estranhas e abruptas...
É; pode ser isso.
Está muito quente, abafado, seco. Ora, eu tenho grande resistência a um clima desse tipo. É só considerar-se o local onde vivi por tanto tempo.
Mesmo assim... ou eu estou ficando velho, ou tem algo mais indo contra mim, para gerar esse mal-estar insuportável em que eu me vejo agora.
Eu odeio me sentir debilitado. Odeio me sentir fraco, odeio não estar na minha capacidade máxima, odeio sentir que não estou no meu ideal. Odeio; simples assim.
Terça-feira à tarde, eu fiquei muito mal. Fui acometido por uma dor de cabeça forte, me senti meio enjoado, zonzo...
O pior é que estava no meio de um trabalho! Tive de pedir desculpas ao cliente, que me pedira para fazer uma sessão de fotos para marketing de um produto e precisei me retirar por uns cinco minutos.
Se há algo que não perdoo é quando minha capacidade é testada. Mesmo que seja eu quem a esteja testando, não gosto nem um pouco de decepcionar a mim mesmo.
Como eu disse; odeio isso.
Ter de interromper um trabalho porque meu organismo não aguentou? Isso me tirou do sério... Ainda agora, só de lembrar... eu fico revoltado.
Nunca tive problemas com o clima quente e seco. Sempre me gabei dessa minha resistência.
E não acho que esteja tão quente assim.
Quero dizer, o clima definitivamente não é dos melhores, mas eu já suportei coisa pior.
Na terça, eu não vi as pessoas passando mal, como eu.
Aliás, mais um motivo para me deixar enfurecido comigo mesmo.
Desde quando fiquei tão fraco? Não sei quando foi que me transformei nesse cara, mas eu não estou gostando nada disso...
Estou ansiando por uma chuva.
Sempre gostei de chuva.
Mais ainda se for uma tempestade. Daquelas cinematográficas, em que o mundo parece que vai desabar.
Na Ilha da Rainha da Morte, não chovia. Nunca.
Rever a chuva quando pude voltar para junto do meu irmão e de meus antigos companheiros... Nem consigo dizer o quanto isso significou para mim.
Eu gosto da chuva. Eu sinto como se ela pudesse lavar a minha alma.
Eu me renovo.
Estou precisando me renovar. Faz tempo que não chove.
Aliás, estou ansioso para reencontrar a minha tríade perfeita.
Chuva, café e noite.
Não há nada melhor que uma boa caneca cheia de café fumegante, enquanto cai a maior tempestade, preenchendo a noite lá fora.
Quando isso acontece, eu abro a porta de vidro da varanda e permito que o ar da tempestade invada a sala e chegue até mim.
Às vezes, até mesmo apago as luzes e fico na mais completa escuridão, vendo como a chuva cai lá fora.
Adoro o barulho da chuva.
Adoro o cheiro da chuva.
Eu não estou me sentindo nada bem.
Estou com fome, mas não tenho nada de bom para comer aqui em casa.
Pensei em pedir algo por telefone, mas falta-me o ânimo.
Estou aqui, prostrado no meu sofá, escrevendo nesse notebook e curtindo meu mal-estar e minha fome...
Curtindo minha solidão também.
Hoje eu me senti muito só. Um pouco mais que o normal.
Depois do episódio do meu aniversário surpresa, acabei me isolando mais das pessoas.
Ah, é verdade. Não escrevi sobre como foi a minha conversa com meu irmão, quando ele veio aqui me dar uma bronca sobre meu desaparecimento no dia do meu aniversário surpresa...
O Shun estava muito chateado comigo. Aliás, bem mais do que eu esperava.
Por isso, ele conseguiu me convencer a fazer algo que eu, em qualquer outra situação, não teria aceitado fazer.
E foi, como eu já imaginava, uma droga.
Detesto ter de passar por situações que exigem das pessoas serem o que elas não são.
Sempre sobram constrangimentos para todo lado.
Não foi diferente dessa vez...
Vou contar a respeito, mas não agora. Minhas pálpebras estão começando a pesar.
O sono vai vencer a fome, pelo visto.
O Shun brigaria comigo até não poder mais, se me visse assim.
É por isso que ele nunca me vê assim.
Não posso deixar... ele exigiria que eu mudasse de vida na mesma hora.
Que eu tivesse horários fixos para dormir, para acordar, para trabalhar, para me alimentar...
Exigiria que minha alimentação tivesse melhor qualidade... exigiria que eu parasse com algo que faço com relativa frequência: Costumo, muitas vezes, trabalhar dois, três, quatro dias em um ritmo absurdamente frenético... aí, passado esse período, entro em uma fase meio reclusa, em que não faço nada. E depois, retomo o trabalho loucamente outra vez. Não é saudável, eu sei. Mas é como se eu não soubesse fazer de outro jeito.
Por um lado, uma parte minha está se perguntando se eu não gostaria mesmo de ter uma vida mais regrada, como sei que Shun diria ser o ideal para mim.
Porém, eu sei que só estou cogitando essa possibilidade por estar cansado e doente.
Esse mal-estar já está me deixando é com pensamentos que eu não teria de forma alguma, no meu estado normal.
Parte de mim gostaria de chamar o Shun para vir aqui.
Aliás, não só o Shun.
Eu queria um pouco de companhia agora.
Eu queria receber alguma visita. Queria que alguém aparecesse aqui.
Queria algum amigo que, independente do horário, viesse me ver agora. E, sem temer invadir o meu espaço, que tocasse a campainha do meu apartamento. E que, independente do meu rosto sério parecer dizer que não quero ver ninguém, que esse amigo ficasse.
Porque, sendo meu amigo, ele saberia que pode ficar. E que, no fundo, seria esse o meu desejo também.
Escutei passos no corredor lá fora enquanto escrevia isso.
Ridículo.
Por um instante, pensei que meus pensamentos estivessem se concretizando.
Será que estou com febre? Será que estou delirando?
Onde foi que deixei meu termômetro?
Nem me lembro a última vez que usei... na verdade, nem sei se tenho um aqui em casa.
Bom. Se estiver com febre, meu corpo vai ter que se virar para aguentar.
Ok, olhei de novo para a porta em alguma esperança idiota de que alguém venha me ver.
Por que alguém viria?
Ninguém sabe que estou doente.
Aliás, nem estou doente de verdade. Sei lá por que estou assim.
Ridículo, Ikki. Você está sendo ridículo.
E esperar que alguém viesse agora, depois do que ocorreu no sábado...
É, eu vou ter que contar essa parte do sábado depois. Não estou em um bom momento agora.
As palavras estão fluindo bem hoje.
Pena que eu esteja tão esgotado.
O sono está acabando comigo...
Ei, olha só.
Meu celular está tocando.
É o Shun.
Se eu atender, é bem possível que ele perceba que eu não estou bem. Minha voz não está tão firme como eu gostaria e, mesmo tentando, não vou conseguir disfarçar bem...
Até porque, estou me sentindo realmente fraco.
O que eu tenho, afinal? Que droga!
E, se o Shun perceber que estou fraco, vai me perguntar se estou bem. Não vou conseguir esconder dele. Nunca consigo esconder essas coisas do meu irmão.
Se eu atender o celular e ele notar tudo isso... Shun virá correndo para cá.
Muito provavelmente, ele vai trazer algo para eu comer.
Ou talvez venha para cá e cozinhe algo para mim aqui. Ele tem essa mania de querer me proteger cozinhando para mim sempre que pode...
Uma comida caseira cairia tão bem agora...
Talvez, quem sabe, ele até traga mais alguém. Seria mais gente, mais companhia.
Eu diria que não, que ele não deveria vir, muito menos que deveria trazer alguém consigo.
Mas Shun não me daria ouvidos e faria tudo isso, independente de eu dizer sim ou não.
Seria um fim de noite bom. Companhia, boa comida... talvez ver um filme...
Companhia...
O Shun está insistindo. O celular não para de tocar e ainda não atendi.
Ele sabe que sempre pode ligar para mim o quanto quiser.
Assim como ele sabe que, se eu quero ficar sozinho, naqueles momentos tão meus, tão cheios de solidão... eu não atendo e desligo o aparelho.
Mas, até eu fazer isso, ele insiste. E muito. Como está fazendo agora.
Companhia...
Seria bom, sim.
Mas não para mim. Não hoje.
Eu não posso. Não acho que devo.
Não mereço.
É melhor que ninguém venha até aqui.
Eles me veem como uma pessoa forte, independente.
Eles têm uma imagem formada de mim.
Uma imagem que, sinceramente, não corresponde tanto à realidade.
Mas, quando nem eu mesmo sei direito quem eu sou... tudo o que eu tenho, tudo a que posso me apegar é isso: a imagem que os outros fazem de mim.
Que comentário ridículo. Ridículo e fraco.
Eu estou sendo ridículo, fraco e covarde agora.
Minha vontade é de apagar o que acabei de escrever. Mas vou deixar; só para eu ler isso amanhã e me envergonhar de ter sido tão fraco.
Você é a ave Fênix, Ikki. Recomponha-se!
Eu não preciso de ninguém. Não estou precisando de nada.
É só mais uma noite, como tantas outras.
Ridículo.
Como estou sendo ridículo.
Só preciso dormir.
Uma boa noite de sono sempre resolveu tudo para mim.
Ridículo.
Amanhã, tenho muito trabalho a fazer.
Preciso me recuperar logo. E não vou conseguir enquanto ficar me lamentando aqui sei lá pelo quê.
Ridículo. Idiota. Fraco. Covarde.
Recomponha-se.
Recupere-se.
A ave Fênix foi feita para superar, então supere.
Já estou superando.
Desliguei meu celular. Shun agora vai entender o recado.
Não quero ver ninguém.
Não preciso de ninguém.
Eu estou bem sozinho.
Fico bem sozinho.
Fui feito para ficar sozinho.
Vou dormir.
É o que me basta.
Amanhã é um novo dia.
Ou melhor, hoje.
00:42.
Já é dia 9. Já é um novo dia.
Preciso descansar. Será um dia atribulado.
Já me sinto melhor. É tudo uma questão de controle mental.
É tudo psicológico.
Basta acreditar que eu estou bem.
E eu fico bem.
Eu estou bem.
Pronto.
Fique bem, Ikki.
Fique bem.
