Disclaimer: I do not own Relic Hunter – Relic Hunter e seus personagens não me pertencem.
Sumário: Recém-casado, Nigel Bailey vai passar a lua de mel na ilha havaiana da qual sua esposa é dona. Ele logo descobre que, na verdade, Sydney procura vingança e fará isso lhe negando o amor que prometera, mantendo-o refém de um casamento de aparências.
Classificação e Gênero: T; Festival Harlequin - Casa de Ideas LJ; Relic Hunter, The Devil Drives; AU, FUSION; Sydgel; romance, angst; #marriage of convenience, #blackmail
Advertências: menção a ataque de pânico e estresse pós-traumático
N.A.: Esta fic foi publicada pela primeira vez em fev/2015. Esta é a segunda edição. Não modifiquei nada, só corrigi o que consegui encontrar. Fanart e mais informações no meu LiveJournal ;)
Livro Harlequin escolhido: Noite de núpcias "The devil drives", by Jane Arbor
"Ao chegar à ensolarada ilha de Erikona, na Grécia, Ulla se sentia a mais feliz das mulheres. Tinha acabado de se casar com Zante Diomed, o dono da ilha, e o amava apaixonadamente. Ali, sob aquele céu límpido e estrelado, ia passar sua noite de núpcias. Então, no momento de consumar seu amor, foi brutalmente rejeitada pelo marido. Era mentira que Zante a amava. Aquele casamento era apenas uma vingança, pois Zante achava que Ulla era a culpada pela morte de um primo dele. E, como castigo, ela ia ter de passar o resto da vida naquela ilha, mendigando um amor que ele jamais lhe daria…"
Inocência
Parte 2
Sydney viu a expressão de Nigel ao apanhar o carro e ir embora. Não era de raiva, ele tinha o olhar perdido, o rosto sujo parecia derrotado. Ela e Derek apanharam a picape do americano, estacionada do outro lado da cabine, e seguiram o inglês pela estrada de terra de volta até a cidade. Venceram a distância entre os dois carros quando Nigel estacionou perto do sítio de trabalho de Preston. A mulher esperou que os dois conversassem e arrumassem suas malas, partissem da ilha sem demora. Mas Nigel não falou com o irmão. Ele apenas observou o outro, então acenou e voltou para a estrada. Foi para a casa.
Derek parou diante do portão, e a havaiana desceu do carro. "Aproxime-se deles de novo, e acabo com você," ela disse ao moreno e bateu a porta.
Sydney entrou e subiu para o quarto. Ouviu o barulho do chuveiro e aguardou, escutando movimento dentro do banheiro. O homem demorou quase uma hora para fechar a água e saiu vestindo um roupão branco. Travou um instante ao ver Sydney escorada na cômoda, mas continuou enxugando o cabelo com a toalha e dirigiu-se para a cama.
"Você está bem?" ela perguntou, descruzando os braços.
Nigel sentou-se e suspirou. "Vou sobreviver." Deitou-se virado para o centro do leito, de costas para a mulher.
Sydney caminhou até o outro lado da cabeceira. "O que Derek fez com você?"
O inglês puxou o outro travesseiro e cobriu o rosto com ele. Não queria falar com a esposa. Não queria encará-la nesse estado. Fechou os olhos. Sentiu o movimento da mulher apoiando-se no colchão e não disse nada. Deixou a torpeza do sono envolvê-lo.
A havaiana, sentada na beirada da cama, observou o marido com o rosto escondido. Em pouco tempo ele pegou no sono, a respiração pausada e profunda. "Nigel," ela chamou uma vez. E mais uma. Balançou-o pela perna e ele sequer se moveu. Sydney se preocupou.
Levantou-se e começou a procurar. Encontrou um nécessaire aberto sobre a pia do banheiro. O conteúdo parecia inofensivo. Produtos de barbear, analgésicos, antissépticos, colírio e um frasco laranja com o nome de Nigel. Eram calmantes, a data de pouco antes do casamento. Sentiu alívio ao ver que estava praticamente completo.
Nigel nunca dissera que fazia tratamento. Ela devolveu o frasco e voltou para o quarto. Afastou o travesseiro do rosto dele, devagar. O inglês parecia bem, mas havia um pequeno corte no lábio inferior. Ela passou a mão pelos cabelos dele, procurando por contusões. Não encontrou nada.
Sydney puxou a colcha dos pés da cama e o cobriu. Saiu da suíte apanhando as chaves do jipe que o marido abandonara sobre o criado-mudo.
-X-
Preston acenou ao ver a cunhada adentrando o sítio. "Como foi a viagem? Encontrou pistas sobre a relíquia?"
Ela assentiu, então assumiu uma expressão séria. "Preciso saber de uma coisa. É sobre Nigel." O inglês preocupou-se, mas ela sinalizou que estava tudo bem, lembrando-se da condição de saúde dele. Devia ser delicada para abordar o assunto. "Não se preocupe. Eu só quero saber se ele faz algum tratamento… Encontrei remédios."
Preston juntou as sobrancelhas. "Bom, ele… não conversou com você sobre isso?"
Ela umedeceu os lábios e balançou a cabeça. Fitou-o nos olhos, pedindo em silêncio por uma explicação. Imaginava a resposta, pelos remédios e pelo que Derek contara, mas ela precisava confirmar.
O homem considerou por mais alguns segundos, então cedeu. "Quando nossos pais morreram no acidente, eu tinha dezessete anos e Nigel, onze… Choveu naquela noite, de alguma forma o carro perdeu o controle." Ele exalou o ar e fitou o nada. "Nós quatro estávamos no carro. Eu acordei no hospital alguns dias depois, mas Nigel…" Balançou a cabeça. "Ele ficou preso nas ferragens por oito horas ao lado do corpo da nossa mãe."
Sydney fechou os olhos e abaixou a cabeça.
"Ele faz acompanhamento, mas está bem. Quase não precisa mais de ajuda pra dormir." Preston sorriu. "Ele melhorou muito depois que conheceu você." A mulher encarou o inglês ao ouvir a declaração. "É verdade," ele assegurou.
A havaiana sentia-se desnorteada, mas agradeceu e deu as costas para o professor.
"Sydney," ele chamou antes que ela corresse para embarcar de volta no carro. "Não sei por que ele ainda não te contou isso. Tenho certeza que ele mencionou antes da viagem que ia te dizer tudo. Converse com ele."
Ela agradeceu novamente e saiu dali.
-X-
No quarto, Nigel continuava na mesma posição, dormindo profundamente. Já era passada a hora do jantar. Sydney não quis sair da suíte e estudava as centenas de fotografias que Preston entregara em um flash drive antes de se recolher.
Quando o inglês batera na porta para entregar o dispositivo, não fizera perguntas, informando apenas que Nigel pedira pelas fotos naquela manhã e oferecera boa-noite.
Sydney olhava para tela concluindo que, como o marido dissera, Claudia tinha fotos idênticas com praticamente todos os participantes da expedição. Mas devia ter algo ali, alguma pista, algum indício.
-X-
Nigel acordou no meio da noite. Ele avistou as paredes claras do quarto e o formato de alguém deitado ao seu lado. Assustou-se, mas focalizou o rosto de Sydney. Ela dormia com o abajur aceso.
O homem fechou os olhos e deixou a cabeça repousar sobre o travesseiro. Não havia barulho fora do quarto, e a cortina aberta da janela mostrava o céu estrelado da noite havaiana. Ele não estava mais com sono, apenas fatigado pelos resquícios do medicamento. Fez o cálculo ao estudar o relógio sobre o criado-mudo e constatou que dormira por mais de onze horas. Ele odiava usar aquele remédio, às vezes demorava a funcionar, e às vezes funcionava por tempo demais.
Levantou da cama, percebendo que estava coberto com a colcha, a mesma que Sydney usava. Espiou o rosto dela por um instante. Não parecia que a mulher iria acordar. Ele decidiu escovar os dentes. Seus braços e pernas ainda estavam bambos e doloridos, mas ele sabia que melhorariam se continuasse se movimentando e tomasse um café.
Nigel saiu do quarto sem se preocupar em trocar de roupa, não haveria ninguém acordado àquela hora. Ele pôs o ouvido sobre a porta de seu irmão, então abriu uma fresta. Preston dormia em silêncio. O Bailey mais velho estava bem, ele não suspeitava, e Nigel continuaria com aquele casamento até que Sydney encontrasse a prima ou o libertasse. Ou talvez ele descobrisse uma maneira de contar ao irmão e os dois tentariam escapar sem atiçar a ira de Sydney…
Não. Ela tinha razão quando dissera que poderia destruí-los. Sydney Fox tinha dinheiro e poder, Nigel não estava disposto a ver o estrago que ela causaria ao seu irmão. A única esperança que o inglês via naquela situação absurda era que Sydney estava enganada, então ele aguardaria. Com o tempo, a verdade surgiria diante dela. Com o tempo, ele não seria mais acusado injustamente e mantido refém naquela ilha.
Precisava das fotos. Faria sua própria investigação e descobriria quem fora o culpado pelo desaparecimento de Claudia. Ele mesmo provaria à esposa sua inocência.
Nigel desceu as escadas e caminhou pela casa escura até a cozinha. Para sua surpresa, a luz estava acesa e alguém revirava o conteúdo da geladeira.
"Oh! Que susto!" Christine reclamou, pondo uma das mãos sobre o coração e a outra sobre o peito de peru na ilha do centro da cozinha.
"Desculpe." O inglês pigarreou e pensou em dar meia-volta, mas a mulher apanhou a alface do refrigerador e bateu a porta usando os quadris.
"Chegou na hora certa…" ela começou, e observou o homem com preocupação. "Ora, o que aconteceu com o seu rosto? Sydney não quis dizer." Ela aproximou uma das mãos, afagando a bochecha dele.
"Eu…" Sydney não dissera nada a ninguém? Ele se retirara e dormira o dia inteiro, não se preocupara exatamente com o que os outros pensariam. E agora? "Eu… ahm, eu me assustei com uma cobra. Caí."
Ela balançou a cabeça juntando as sobrancelhas. "Querido, não há cobras nesta ilha."
"Agora eu sei." Ele sorriu, sentindo o rosto repuxar. Christine observou o corte no lábio dele e fez careta.
"Já vai sarar. Aqui, tome um copo de leite morno." Ela ofereceu o líquido e começou a organizar os ingredientes, cantarolando. Nigel apertou os lábios e sentou-se no banquinho que ficava diante do balcão onde a mulher trabalhava.
Ela serviu um dos pães recheados para ele e apanhou o prato que tinha mais três sanduíches. No mesmo braço a loira equilibrou outro copo de leite e deixou a cozinha passando a mão sobre o ombro do britânico.
Nigel suspirou, queria preparar café e olhou para trás para confirmar que Christine saía. O que viu foi a mulher dando um beijo no rosto de Sydney, que aguardava de braços cruzados na entrada da cozinha. A madrinha foi para o quarto, e a morena continuou no mesmo lugar.
Nigel levantou-se e foi até a cafeteira do outro lado do balcão.
"Como está se sentindo?" a havaiana perguntou.
"Preciso de café." Ele não respondeu de forma rude, mas sua voz estava desgastada pelos gritos e pelo choro daquela tarde, ou manhã? Quanto tempo ele passara com Derek?
Sydney aproximou-se e sentou-se num dos bancos. "O que ele fez com você?"
O inglês fechou os olhos e apertou os punhos. "Você viu."
"Quando eu cheguei você estava no chão. O que ele te fez, Nigel?"
O inglês largou o pote com o pó de café e virou-se para a esposa. "Por quê? Quer saber se ele fez tudo o que você mandou?"
Sydney inalou profundamente, sem deixar de encará-lo. "Eu não sabia que Derek faria aquilo. Ele me disse que pretendia ajudar a te… interrogar. Mas eu neguei. Quando liguei e fiquei sabendo por Preston que ele estava com você, voltei imediatamente à ilha."
"E você acredita em mim? Acredita que eu sou inocente?"
Sydney ajeitou as mãos cruzadas sobre o balcão. Baixou o olhar um segundo e voltou a observá-lo. "Me desculpe pelo que Derek fez."
Nigel soltou o ar. A mulher não acreditava nele. Observou o rosto honesto dela dizendo aquelas palavras e aguardando sua aceitação. Mas desde quando ela fora honesta? Quando se aproximara a primeira vez? Quando o beijara ao dizer "sim"? Quando sorrira para ele com escárnio na primeira noite naquela ilha?
"Você não acredita em mim. Talvez eu não consiga acreditar em você." Ele virou, de costas para ela. Queria chorar, sua garganta apertava. Mas aguentou. Apanhou o café e preparou a bebida. Esperou o líquido terminar de coar e serviu duas xícaras antes de olhar para a esposa. Entregou um dos recipientes para ela e apanhou o sanduíche que Christine preparara.
"Eu preciso dormir. Amanhã tenho que terminar a caçada que comecei," Sydney declarou. Levantou e saiu da cozinha, silenciosa.
O inglês observou a esposa caminhar e desaparecer na sombra da sala. Sobre o balcão, estava um flash drive.
-X-
Preston entrou na biblioteca às sete e vinte e cinco. Nigel não vira Sydney saindo, mas sabia que ela não estava em casa.
"E então, Podge? Teve um bom dia e noite de sono?" O inglês mais velho fez a volta na mesa, para ficar de frente para o irmão.
"Não me chame assim," Nigel reclamou, puxando as mangas do roupão para garantir que cobrissem os arranhões em seus antebraços e nas palmas das mãos.
"Nossa! O que vocês fizeram? Como foi que se machucou assim?" O outro estava com a boca aberta, vendo o corte no lábio do caçula.
Nigel revirou os olhos. "Ele me levou ao norte, pra caçar. Eu pensei que vi uma cobra." A voz ainda estava um pouco rouca. Ele bebeu mais um gole do chá de camomila ao seu lado, na mesa.
"Você odeia caçar."
"Eu odeio cobras."
"Certo. Christine e Al estão esperando pra tomar café. Você…" Preston espiou o irmão de canto. "Vai me acompanhar na escavação hoje?
O mais novo fitou entre o irmão e a tela do computador portátil, onde ainda folheava as fotos de Claudia na escavação. Estudara aquilo a noite inteira, mandara alguns emails, pretendia passar o dia fazendo ligações. "Não estou muito bem. O susto foi grande," respondeu.
"Tudo bem." Preston assentiu. "Vai tomar café com a gente?"
Christine faria perguntas, ela só não fizera pois estava entretida com o lanche da madrugada. Se ele aparecesse naquela sala, ela questionaria o passeio com Derek, e Preston testemunharia as mentiras do irmão e as questionaria depois. "Não. Acordei no meio da noite, preciso descansar."
O outro concordou e saiu da biblioteca.
Nigel voltou a olhar para a imagem na tela. Claudia sorria mostrando as ferramentas em suas mãos. Ela sorria daquela forma em quase todas as fotos. Ele se lembrava de vê-la o tempo todo no celular, de conversar com Preston e os outros profissionais, de reclamar do tempo, do trabalho, da falta de glamour e da demora em encontrarem peças de valor. Ela não parecia apegada especialmente a ninguém, gostava de tirar fotos e…
Ele observou o ângulo e passou para outras imagens. A maioria fora tirada pelo fotógrafo da expedição. O homem não aparecera em nenhuma delas, mas Nigel se lembrava dele, pois passava os dias rodeando os escavadores para documentar o trabalho com imagens. Ele não fora chamado para testemunhar no processo contra Claudia por que não estava no sítio durante aquela noite. Como ele se chamava? Giannini. Seu nome estava nos dados da escavação, Sydney o investigara? Ele era popular com as mulheres, um dos preferidos de Claudia e das demais estudantes, até mesmo da Doutora Nunez.
O inglês procurou entre os documentos e não encontrou o nome dele, mas sim de outro fotógrafo. Antonio Stefano. Estranho, ele participara apenas do final do trabalho, o nome de Giannini também deveria estar nos dados.
Nigel anotou a pista e espreguiçou-se. Mal percebera a claridade quando ela atravessara as vidraças da biblioteca na aurora. O cômodo era aconchegante e repleto de obras que ele adoraria ler. Quanto tempo mais ele viveria ali com Sydney? Teria tempo de ler alguns daqueles livros? Ele levantou e caminhou até a janela. O verde do gramado e das plantas do jardim parecia vibrar sob a luz do sol. Aquela ilha era linda. Quando ele chegara, pensou que era o adequado, pois uma pessoa com a beleza de Sydney só poderia ter vindo de um lugar assim. Mas agora, quando pensava nela, sabia que ela não o escolhera para amar. O que ela vira em Nigel? Um criminoso. Conselhos de seu irmão, à parte, a probabilidade de alguém como Sydney se apaixonar pela personalidade dele era mesmo nula. A confirmação disso lhe era demonstrada dia após dia. Mesmo negando participação no que Derek fizera, tudo o que Sydney queria era puni-lo. Ela não estava disposta a acreditar nele, ele não tinha nada, apenas a raiva e o ressentimento dela.
A felicidade que sonhava ter no casamento jamais aconteceria, o que lhe restava era aguentar até o inevitável fim e talvez provar que não tinha culpa.
-X-
"Nigel, vou passar mais um dia aqui. Está demorando mais que eu esperava," Sydney falou, do outro lado da linha.
"Tudo bem," ele respondeu, sentado na varanda da casa. A ausência dela o permitira limpar a cabeça durante o dia, talvez também funcionasse à noite. Ele sabia que teria pesadelos por um bom tempo depois do último episódio, dividir o quarto e a cama com alguém podia ser benéfico. Mas seria Sydney, então era provável que resultasse num desastre. Ele forneceria mais evidências de como era suscetível às ações daquela vingança.
"Avise Christine, por favor. Nos veremos amanhã." E ela desligou. A mulher usara com ele o mesmo tom neutro que ele adotara ao atender a ligação. Começara perguntando como ele estava, como se sentia; e ele não conseguia se livrar totalmente da agitação e do receio de que ela tivesse mandado Derek fazer o que fizera. Sydney estava naquela busca por alguém da família, e Nigel conseguia simpatizar em parte com isso, mas ele temia descobrir ainda mais frieza, descobrir crueldade na esposa.
O inglês acabava de tomar o chá da tarde, e avistou o irmão adentrando a propriedade. Enfiou o telefone no bolso e fechou a pasta de documentos que estava em seu colo. Conferiu também as mangas compridas da camisa. O dia tivera um vento particularmente fresco naquela altitude, e Nigel aproveitou-se disso, grato por esconder seus braços do irmão e dos outros.
Preston estava sendo o primeiro a chegar antes do anoitecer. Conforme se aproximou, Nigel notou sua palidez, embora o homem não estivesse menos animado.
"Tudo corre maravilhosamente!" Bailey respondeu ao irmão mais novo antes que Nigel pudesse dizer qualquer coisa. O caçula continuou com a mesma expressão, já conhecida por Preston, e o professor abanou uma das mãos para dispensar a preocupação do outro. "Eu estou bem. Vou me acostumar com a mudança na temperatura."
"Tem um hospital na ilha, talvez seja melhor…"
"Já disse que estou bem." O outro Bailey elevou um pouco a voz. "Não se preocupe comigo, cuide da sua vida aqui nesse paraíso com uma esposa linda e rica." Forçou o desdém na voz, tentando arrancar um sorriso de Nigel.
Não funcionou. "Talvez seja melhor tirar uma folga."
"A-hã. Não." Preston balançou a cabeça com os olhos fechados, imitando uma atitude infantil. "Vou terminar assim que possível, e voltarei pra Londres. E você…" Ergueu as sobrancelhas para o mais novo sentado. "Não use mais essa camisa. Ela é horrível e não quero que Sydney acabe devolvendo o marido." Deu uma piscadela e deixou a varanda.
Nigel suspirou. Deu um tapinha na pasta de documentos em seu colo e levantou.
Preston mal fechara a porta e Nigel avançou por ela, entrando no quarto do irmão. "Por que o nome de Giannini não aparece nos documentos daquela escavação?"
O inglês semicerrou os olhos para o caçula. "Por que está tão interessado naquela escavação?"
Nigel balançou a cabeça e enfiou as mãos nos bolsos, ou melhor, a mão livre, pois a outra segurava os arquivos que ele quase deixou cair na tentativa de não parecer suspeito. "Nada. Curiosidade."
O olhar fixo do outro durou por dois segundos, então ele relaxou. "Giannini…" Segurou o queixo, mordendo os lábios. "Ah, o fotógrafo conquistador. Se considerava um Casanova. Um dos patrocinadores do museu recebeu reclamações e ele foi substituído pelo colega nas últimas semanas do trabalho e em todas as demais expedições. Entrou na lista negra dos Terrence, não devia ter jogado charme pra Nunez."
"E você sabe onde ele está?"
"Nunca mais o vi. Ainda deve trabalhar com o primo, são da mesma agência."
"Antonio era primo dele?"
Preston concordou. "Sério. Por que quer saber tanto sobre essa expedição?"
Seria péssimo tentar mentir para o irmão. Ele podia fingir que estava tudo bem com o casamento, mas quando precisava formar frases inteiras, o mais velho o conhecia demais para deixar algo escapar. Nigel odiava ser um péssimo mentiroso. "Eu vi as fotos e fiquei com curiosidade."
A conversa ficou por ali. Os dois prometeram se reunir mais tarde para o jantar, e Nigel deixou o irmão descansar. Ele estava ainda mais certo que tinha encontrado uma pista. Ligara para a agência durante o dia e eles não tinham nenhuma informação sobre Giannini. Estranho, para uma empresa de família. Passaria este nome para Sydney. Ela teria mais recursos para investigar o paradeiro do italiano.
-X-
O frio e o escuro eram perigosos. Nigel não gostava daquele lugar, a insegurança aumentava em cada volta que dava, em cada caminho sem saída. Cada um mais afastado, mais sombrio e mais vazio. Um leve ruído como chuva ao fundo aumentava. Cheiro de gasolina, e ele teve a nítida sensação de que não estava sozinho. Sua nuca arrepiou-se, e ele enfrentou o receio e a antecipação de olhar para trás.
Alguém estava ali, atrás dele. Era…
Nigel saltou na cama. Ofegou e percebeu que ainda estava no quarto, com a luz do abajur ao seu redor. Alguém tocou em seu ombro, e ele assustou-se novamente.
"Você está bem?"
Era Sydney. Ela parecia preocupada, acordara com a agitação. Nigel assentiu e esfregou o rosto. Continuou sentado, e a esposa ao seu lado o soltou. "Que horas são?"
"Sete."
Havia claridade pela janela. "Que horas você chegou?"
"Há pouco. Peguei um voo noturno."
Ele relaxou, totalmente acordado. "Resgatou sua relíquia?" Ela concordou com a cabeça, e ele começou a levantar. "Então vai querer descansar."
Nigel não tentou conversar mais, foi se preparar para o dia. Pretendia passá-lo com seu irmão. Além de passar algumas horas longe da casa ocupado com outra coisa além de Sydney e Claudia, ele poderia ficar de olho em Preston. A aparência do mais velho não estava das melhores.
Quando saiu do banho, a esposa dormia. Nigel escreveu um bilhete com a informação do fotógrafo Giannini e o depositou junto com a pasta sobre a expedição aos pés da cama, para que a havaiana visse quando acordasse.
-X-
Depois de uma manhã atarefada onde Nigel ajudara com a documentação e conseguira se distrair, os irmãos almoçaram juntos num dos restaurantes do centro da cidade. Preston continuava pálido, e o caçula ainda mais preocupado, mas o professor insistiu em manter as atividades diárias inalteradas.
Foi durante o jantar a primeira vez que os cônjuges conversaram por mais do que alguns segundos desde o acontecido com Derek. A caçadora contou de sua breve viagem, e prometeu avisar Preston se ele pudesse ser útil em alguma outra. O irmão riu e celebrou, brindando ao casal e à felicidade dos dois, mencionando que eles poderiam caçar relíquias juntos, no futuro, e que Nigel teria muitas histórias para contar aos seus alunos.
O recém-casado agradeceu, recebendo o sorriso de todos, e considerou que a esposa conseguia encenar muito melhor que ele. Ela não parecia desgastada ao mentir sobre sua alegria, e seus sorrisos quase sempre chegavam aos olhos. Ao contrário do britânico, que quase reabrira a ferida em seu lábio ao tentar parecer autêntico na fotografia que Christine insistira em bater do casal.
A madrinha voltou a mencionar uma cerimônia para os amigos de Sydney antes de o casal ir para Boston. Nigel observou a expressão da mulher ao negar com delicadeza as sugestões de Christine e ficou quieto, concordando com a esposa em silêncio quando mencionado na conversa. O casamento havaiano não aconteceria, Sydney não pretendia fingir que amava o marido na frente de ainda mais entes queridos.
Ele sabia bem, preferiria manter Preston fora daquilo tudo, se tivesse a escolha. Sentia culpa por ajudar a iludir o irmão.
-X-
O celular de Nigel tocou no meio da noite. Ele viu o nome na tela e pulou da cama. Saiu do quarto e abriu a porta do outro lado do corredor. Seu irmão estava caído no chão, ao lado da cama, o telefone já fora de alcance, as mãos apertando o peito.
"Vamos levá-lo ao hospital," Sydney disse, e só nesse momento Nigel se deu conta de que ela o seguira até o outro quarto.
Em minutos, Preston aguardava no hospital da ilha para ser transferido de helicóptero para Honolulu. Nigel só deixou seu lado quando Sydney o carregou para o avião particular para que também fossem a Oahu.
-X-
Nigel não queria se afastar do irmão, mas o médico garantiu que Preston continuaria inconsciente por várias horas, e Sydney o convenceu a ir descansar no hotel.
Ele viu a riqueza e o brilho das instalações com olhos distraídos e o andar entorpecido enquanto a esposa o guiava para um quarto magnífico. O britânico sentou-se em uma das poltronas calculando quanto tempo deveria esperar antes de voltar para o hospital. Sydney pediu o jantar pelo serviço de quarto.
A esposa se sentou diante dele, no sofá claro e macio. "Tome um banho, descanse. O jantar já vai chegar."
Nigel continuou com o olhar baixo; sem perceber, ele girava a aliança no dedo anelar com a outra mão. "Ele… estava pálido. Eu devia ter insistido mais." Fechou os olhos, exalando o ar.
"Ele vai ficar bem."
O inglês procurou no rosto de Sydney a certeza que ela tentava transmitir. Levantou-se e saiu do aposento em direção ao banheiro.
Ao sair do banho, Nigel ouviu a voz da esposa conversando ao telefone.
"Eu só tenho o sobrenome," ela disse e passou a mão pelos cabelos, olhando a vista da sacada. "Não, eu não vou arrancar mais informações dele, Derek!" Ela bufou. "Certo, estou esperando." E desligou.
Nigel alcançou o carrinho que chegara com a comida e abriu a tampa dos pratos. Sentiu o vapor perfumado do alimento e não teve fome. A incerteza sobre a saúde de seu irmão, a recaída recente, a espera de um ataque de pânico a cada noite, a frustração de seu casamento; sua vida estava um caos e ele gostaria de poder abandonar tudo sem olhar para trás. Gostaria de simplesmente desaparecer.
Mas ele nunca abandonaria Preston. Sydney estava sendo compreensiva, arranjara o transporte e a internação no melhor hospital do Havaí, ela tinha interesse que o Bailey mais velho se recuperasse. Preston era o motivo de Nigel não ter deixado as ilhas desde o primeiro dia; ele e também a ingênua ideia de tentar ajudar Sydney a encontrar a prima, no começo. Agora, o britânico tentava não se deixar levar tanto pela educação e pela falsa hospitalidade da esposa. Qualquer coisa poderia lhe acontecer.
Ela dissera que não estava de acordo com o que Derek fizera, mas continuava tendo contato com o americano.
O inglês cobriu novamente o jantar e afastou-se do carrinho, jogando-se na cama. Ele riu de canto. Mas o que esperava? Que a esposa cortasse contato com um amigo de longa data só porque ele drogara, sequestrara e prendera Nigel numa casamata? Ela dissera, desde a primeira noite, que seu objetivo era fazê-lo sofrer. Seria melhor ele começar a acreditar e aceitar isso, parar de divagar e prestar atenção ao que era importante. Falhara com Preston, não podia deixar isso acontecer de novo por causa de sua incerteza e ingenuidade.
Isso. Podiam estar investigando a informação que ele fornecera, ou tramando algo. Se fosse a segunda opção, teriam a decência de esperar Preston se recuperar antes de iniciarem mais alguma sessão doentia de tortura para obter informações que Nigel não tinha?
"Você não come nada desde ontem. Precisa se alimentar," a mulher comentou, estudando os pratos do carrinho.
"Não estou com fome," Ele virou-se de bruços, enfiando os braços em baixo do travesseiro.
"Ficar doente não vai ajudar o seu irmão a melhorar."
Ela usava uma voz tão atenciosa, tão suave. "Eu como quando acordar." Ele fechou os olhos. Não queria conversar, não queria que ela usasse aquele tom quando no fundo achava que ele era um criminoso e prometera destruí-lo. Quando, no fundo, fazia-lhe o favor de ajudar o irmão apenas para mantê-lo preso a ela por mais tempo.
-X-
Os pesadelos o acordaram mais uma vez, suado e aflito, antes de o sol nascer. Sydney dormia ao seu lado, alheia aos momentos que Nigel usara para se acalmar. O homem precisou de outro banho antes de se trocar e descer até a recepção para pegar um táxi. Mandou uma mensagem de texto à esposa explicando onde estaria e resumiu o dia a ficar ao lado do leito do irmão.
Preston ainda não acordara, e às sete da manhã, Sydney respondeu a mensagem avisando que voltaria a Lanai por algumas horas antes de encontrar o marido de novo no hospital.
-X-
A mulher foi recebida na casa por Nelani, que esperava novidades sobre o inglês adoentado. Sydney foi para a suíte buscar os documentos que Nigel preparara sobre a expedição. Ela os entregaria a Derek, para ele ter mais que apenas um sobrenome como pista para localizar o fotógrafo. Ela também levaria seus arquivos e ferramentas de trabalho para Oahu. Não sabiam até quando Preston permaneceria internado, então continuaria em Honolulu com o marido pelo tempo que fosse.
Era triste ver a devastação em Nigel. Ela apoiaria e acompanharia o homem, nunca fora sua intenção realmente causar mal ao Bailey mais velho. O professor servira-lhe apenas para manter Nigel em cheque, mas ela se lembrava de como fora quando perdera os pais. O marido também passara por aquilo, sofrera durante o acidente muito mais do que ela poderia imaginar, e agora corria o risco de perder o que restava de sua família. Ela não queria que isso acontecesse. Acontecera com ela, perdera Claudia.
Forneceria todos os recursos que o cunhado precisasse, mas continuaria com a investigação. Tinha que descobrir a verdade, tinha que descobrir como o inglês das histórias da prima e o seu marido conseguiam ser pessoas totalmente diferentes.
Sydney despediu-se dos empregados depois de preparar uma mala para si e também para os irmãos e foi para a agência de correios verificar se os livros que encomendara haviam chegado. Levaria o máximo possível de sua atual pesquisa para não perder mais tempo voltando à ilha. Precisava do trabalho para se distrair, para se manter focada.
Havia outros moradores na agência, então Sydney apanhou o volume de sua caixa postal com rapidez e despediu-se.
"Mandaram a carta de novo!" uma mulher reclamou, conferindo seus envelopes.
"A sua prima imaginária?", a outra moradora brincou, recolhendo as próprias cartas. Aquilo chamou a atenção de Sydney.
"Eu tenho pena, ela parece tão feliz. Se ela dissesse o nome daria pra conferir se os parentes moram aqui em Lanai."
Sydney interrompeu a conversa. "Recebeu cartas por engano?"
A havaiana concordou e mostrou o envelope ainda fechado. "Alguém da Itália conta novidades a uma prima. Não descobrimos quem é o remetente, então ela continua enviando."
Fox apanhou o papel das mãos da outra mulher. "Há quanto tempo isso acontece?"
A outra fez uma careta. "Alguns meses. Perguntei por aí, mas ninguém reconheceu a letra. Deixei até uma delas aqui na agência pra ver se alguém se manifestava."
Sydney quase nunca ia ao correio quando estava na ilha, normalmente um dos empregados buscava a correspondência. "Eu posso abrir?" A outra mulher concordou, e Sydney rasgou o envelope. Perdeu o fôlego ao ver a caligrafia. "Você- você disse que recebeu outras além desta?"
A moradora abriu a boca, admirada, então buscou a carta que já estava há meses no balcão da agência. "Tenho o restante em casa. Não quis me desfazer caso o dono aparecesse. São pra você?"
Sydney evitou a resposta. "Eu vou encontrar o remetente. Pode me dar o restante?"
-X-
Derek aguardava no aeroporto, ele iria para Oahu no mesmo avião que Sydney. Assustou-se ao ver a seriedade no rosto da mulher quando ela se aproximou e começou a descarregar as malas do carro.
"Não me diga que o inglês morreu."
Sydney lançou-lhe um olhar impaciente, e os dois embarcaram na aeronave. Ela entregou a ele o maço de cartas.
"A letra é de Claudia. Mas ela não assinou e não pôs o endereço." Derek analisou os carimbos.
"Onde arranjou isso?"
"Foram enviados pra caixa postal errada há quase um ano. Aí ela diz que está bem, que está vivendo uma nova vida. Que nada do que disseram sobre ela era verdade e que se envolveu naqueles "problemas" porque teve que ajudar aquela pessoa." A mulher apoiou a cabeça nas mãos, com os cotovelos nos braços da poltrona.
"Nigel," ele completou. "Essa carta é do mês passado, Claudia está viva?"
"Ou alguém quer que pensemos isso."
- continua
