"STRONG TO LiVE"

Disclaimer:

Os personagens e elementos da CLAMP não me pertencem. Eu só escrevo essas lindas fanfic's para entretenimento próprio e de outros fãs,que assim como eu escrevem histórias com os maravilhosos personagens de xxxHOLiC.

Aviso:

Por conter alguns assuntos pesados aconselho essa fanfic para maiores de 14 anos. Mas, quem tiver menos e for uma pessoa de mente aberta podem ler à vontade. E a história também possui yaoi, ou BL, como preferirem. Portanto, se você é daquela pessoas que tem "nojinho" de ver dois garotos apaixonados um pelo outro, por favor saia daqui imediatamente!

Medo e Dor. Eram as únicas coisas que eu sentia além do bafo de cerveja que saia da boca daquele maldito homem. Como restante de forças que ainda me restavam empurrei-o para longe de mim. Ouvi quando seu corpo bateu pesadamente no chão, mas mesmo assim ele não acordou.

Subi minha calça e fechei o botão. Passei a mão na boca, tirando o sangue que escorria lentamente pelos meus lábios. Arrumei meus óculos no nariz e sai do quarto escuro.

Ela estava assistindo televisão quando entrei na sala. Me ignorou completamente. Percebi que ali já não era mais o meu lugar. Abri a porta e respirei o ar frio e cortante da noite antes de correr. Sem rumo, ou caminho a seguir… apenas com uma certeza em mente: voltar para lá nunca mais.

SEGUNDO – FAiLURE'S AND LiE'S

- Gostou do passeio?! – Doumeki me perguntou quando estávamos no caro, a caminho da casa da mãe de Tomoyo.

- Sim. – respondi com um sorriso.

Mesmo tentando esconder meus sentimentos dele eu não conseguia deixar de me sentir um pouco pressionado por tamanha bondade. Meu corpo tinha vontade de abraçá-lo com força, como a um irmão, mas minha mente ainda tinha mais controle e fazia com que eu colocasse minhas idéias nos lugares certos, porque afinal, eu mal o conhecia.

Estacionamos o carro em frente a um prédio muito elegante. Tomoyo saiu sozinha e me cumprimentou pela janela. Doumeki saiu do carro e levou a filha até a portaria, onde uma mulher de cabelos negros e cacheados o esperava impaciente.

- Pensei que você não viria mais! – exclamou ela zangada puxando a pequena Tomoyo das mãos de Doumeki. – Liguei pro seu celular mais de cinco vezes!

- É que tínhamos ido ao cinema e esqueci de ligar… desculpe. – respondeu ele desconcertado. – Como andam as coisas… Himawari?

- Muito melhores quando não preciso dar satisfação dela pra você.

Tomoyo abraçou o pai e entrou no prédio, deixando os dois a sós. Fiquei observando os dois conversarem, ou melhor, discutirem sobre algo como horários, até que Doumeki voltou para o carro com uma cara nada feliz.

- Ela me tira do sério! – bufou ele se jogando no banco do carro.

- Sua mulher?! – perguntei.

- Ex-mulher! – corrigiu ele rapidamente passando a mão no rosto. – Ainda bem que me livrei dela antes que pudesse sugar toda minha virilidade!

Não pude me conter e ri abertamente. Ele me olhou nos olhos e novamente senti como se estivesse deitando em uma cama coberta de gelo. Rapidamente arranjei uma maneira de mudar de assunto:

- O que vamos comer hoje?!

- Pensei que não iria voltar! – exclamou ele surpreso.

- Posso? – perguntei.

- Mas é claro que sim… Bom, vou ter que passar no supermercado pra pegar umas coisas que estão faltando, mas de lá iremos direto pra casa. Tudo bem pra você?

- Ótimo. – respondi sem pensar em nada.

Ele ligou o carro e juntos, sem trocar olhares ou palavras fomos até o supermercado. Doumeki comprou alguns vegetais e um pacote de macarrão instantâneo. Ajudei-o com o carrinho e na saída comemos cada um uma bola de sorvete.

- Senta aqui, melhor comer sorvete parado senão vira uma lambança que só Deus! – falou ele indicando um lugar ao lado dele.

Me sentei e comecei a comer meu sorvete de chocolate. Doumeki optou por um de morango. Quando estava quase terminando ele parou e disse:

- Está sujo…

- O quê?! – perguntei assustado, parando de chupar o sorvete.

- Sua boca. – e limpou o canto da minha boca com o guardanapo.

Corei furiosamente e virei o rosto pro outro lado. Percebendo minha timidez ele levantou e anunciou:

- Vou ir levando as compras pro carro. Termina de comer o seu sorvete…

Quando chegamos no prédio já havia anoitecido e as luzes estavam acesas. Doumeki, pelo que pude perceber era muito querido por todos, desde os funcionários aos moradores. Assim que entramos no elevador uma velha senhora perguntou se eu era seu namorado.

- Não! – respondi antes dele. – Sou apenas um amigo dele…

- É assim que começa meu filho. – ironizou ela quando o elevador parou no segundo andar. – No meu tempo já falávamos que vocês dois estavam de paquera. Uma boa noite pra vocês…

- Boa noite. – dissemos em uníssono.

Percebi que Doumeki gostou do que a senhora falou, mas eu não estava curtindo nada daquilo. Até parece que eu estava usando algo escrito: "SOMOS NAMORADOS, ALGUM PROBLEMA?". Acho que foi por isso que corri pro banheiro quando chegamos. Graças a Deus que não tinha nenhuma frase escrita no moletom que eu usava.

Entrei na cozinha e encontrei Doumeki usando um avental florido e tentando, inutilmente cortar os tomates. Os pedaços acabavam saindo desiguais e disformes.

- Pelo que eu estou vendo você não tem muita experiência na cozinha! – comentei postando-se ao seu lado e tomando a faca de suas mãos.

- Não tenho mesmo. Sempre que estou em casa peço comida pelo telefone! – respondeu ele cabisbaixo enxugando as mãos na toalha.

- E porque não pediu hoje?

- Queria te impressionar.

Senti minhas bochechas esquentarem e desviei o olhar das mãos perfeitas que ele tinha.

- Você não passa muito tempo em casa, não é mesmo?

- Sim. Quase sempre estou na clinica, e quando não estou aproveito para pegar Tomoyo na escola, ou passar um tempo com ela.

- Porque se separaram?

- Quem? Eu e Himawari?

- Sim.

Deu pra notar que ele não se sentia muito preparado para falar sobre aquilo. Pigarreei alto e terminei de picar os tomates.

- Onde posso colocar?

- Descobri que nossas idéias não batiam muito bem. – começou ele. – Sempre procurei alguém que precisasse de carinho e cuidado, mas Himawari não precisava de nada, ela era bonita, famosa e estava no ápice de sua carreira como modelo.

- Olha, não queria te forçar a relembrar isso e…

- Não. No dia em que Tomoyo nasceu ela me disse que sua carreira estava arruinada, e que, mesmo gostando muito da filha ela não a amava, porque foi por culpa dela que nunca mais ia pisar nas passarelas. Me senti na obrigação de proteger a Tomoyo, mas o juiz deu a tutela pra Himawari… por melhor condição de vida.

Me dei conta que ele estava chorando e inconsciente passei meu braço sobre seus ombros largos e firmes. Ele desabou sobre meus ombros e chorou silenciosamente. Depois de um tempo notei que ele tinha parado de chorar e me observava curiosamente.

- O que foi?! – perguntei inocentemente, me afastando dele.

- Eu te contei sobre minha vida, mas você… ainda não me explicou porque fugiu de casa!

Por um lado meu coração se acalmou. Imaginei que ele poderia querer se aproveitar de mim naquele momento, mas tudo que ele queria era saber… sobre mim. Disfarcei e olhei pela janela.

- Parece que vai chover esta noite…

- Não desconverse Watanuki! Me fala porque fugiu de casa e porque… porque sua roupa estava suja de sangue!

Quando meus olhos se fixaram nos orbes castanhos de Doumeki senti que aquele era o momento. Uma vontade de por pra fora todos os anos de sofrimento que passei despertou na minha mente. Não havia mais porque esconder aquilo. E eu tinha que me livrar daquele veneno, mesmo que doesse relembrar ele tinha o direito de saber. Afinal, ele havia sido a pessoa que mais tinha me ajudado durante todo esse tempo.

- Tudo bem. Mas é melhor você se sentar. O que vem pela frente não é nada muito bom de se ouvir… espero que você me entenda…

- Pode começar. – disse ele, desta vez me olhando com carinho e admiração.

"Minha mãe me criou sozinha desde meus cinco anos, pois meu pai morreu em um acidente de carro. Mesmo com todos os problemas e dificuldades nós vivíamos felizes, sempre contando um com o outro. Foi quando ela conheceu um homem chamado Lead Clow. Ele dizia que era um empresário de uma famosa rede de farmácias, e pela primeira vez desde a morte do papai eu vi minha mãe realmente feliz".

Minhas mãos estavam tremendo em cima da mesa, mas a mão fria e suave de Doumeki pousou em cima da minha com força e ele indicou para que mim prosseguisse.

"Só que tudo começou a desandar quando ele passou a morar lá em casa. Minha mãe perdeu o emprego e o Clow se mostrou como sendo um bandido da pior espécie. Seu comércio não tinha nenhuma relação com farmácias, ou algo do gênero, mas sim como líder de um comércio ilegal de drogas. Por conseqüência da demissão minha mãe começou a se drogar junto com ele. Todas as noites eu ia dormir sem jantar e no meio da noite escutava ela gritando…"

Meus olhos lacrimejaram e não pude conter as lágrimas. Mas minha voz ainda estava limpa e firme, por esse motivo eu continuei.

"Sempre tentava conversar com minha mãe, mas ela nunca me escutava. Nossa casa estava pendurada de dividas e eu tive que sair da escola particular, pois já fazia mais de três meses que a mensalidade não era paga. Foi quando ele cansou de bater na minha mãe e começou a descontar sua raiva e seus momentos de drogado em mim".

Senti a mão de Doumeki apertar as minhas com força. Ele não tinha nenhuma expressão no rosto.

"Mesmo assim minha mãe nunca pediu pra que ele parasse. E foi assim pelos últimos dois anos. No dia em que eu completei dezesseis anos não recebi nenhum presente ou comemoração, mas sim um soco que me impossibilitou de ir na escola por três dias seguidos. Mas foi anteontem, quando ele fez a pior de todas as coisas que eu decidi ir embora de casa".

- Se não quiser me contar… - disse Doumeki baixinho.

- Não. Quero continuar até o fim.

"Eu tinha acabado de chegar do emprego novo e coloquei meu pagamento diário em cima da mesa, enquanto preparava o jantar. Senti que ele tinha chegado pelo cheiro de cigarro. Como era típico dele tirou uma garrafa de cerveja da geladeira e virou-a em um gole só. Não me importei e continuei a preparar a comida até que ele me prendeu por trás e sussurrou no meu ouvido que queria fazer uma coisa especial comigo, já que minha mãe estava indisposta".

Sequei as lágrimas do meu rosto e respirei fundo antes de continuar.

"Ele me arrastou até o quarto de ferramentas e… me estuprou. Quando ele adormeceu ainda em cima de mim eu já não chorava ou gritava mais. Resolvi que não poderia mais viver daquele jeito. Fui até a cozinha pegar o dinheiro, mas a única coisa que tinha lá era mais duas garrafas de cerveja e uma caixa de cigarros. Minha mãe estava na sala assistindo a um programa de comédia e mal falou comigo quando atravessei a sala e corri rua afora".

- E então… quando realmente acordei estava aqui.

Doumeki correu até a geladeira e voltou com um copo de água. Bebi tudo de uma vez e em seguida senti meu corpo sendo acalentado por um corpo aconchegante e forte. Quando notei o que acontecia sorri. Ele tinha me abraçado e meu rosto estava entre seu pescoço e seu ombro. Senti seu cheiro doce invadir minhas narinas e meu corpo se rendeu totalmente.

Ele segurou meu queixo e levantou meu rosto na altura do seu. Nossos olhos se encontraram e eu senti a sensação estranha. Mas desta vez não voltei atrás ou desviei o olhar. Mantive o contato e então sem que eu esperasse nossos lábios se encostaram. Neste momento, porém o celular de Doumeki tocou e eu abri os olhos.

- Sim. – disse ele ainda me segurando em seus braços. – Impossível! Sim, eu estou indo o mais rápido que puder…

Desligou o aparelho e acariciou meu rosto. Eu sorri e disse:

- Eu termino o jantar pra gente…

- Não vou voltar hoje Watanuki, me desculpa. É uma emergência… parece que foi um engavetamento e tem muitas pessoas feridas.

Meu coração que até então tinha se manifestado alegremente murchou e eu disse em um tom falso de aceitação:

- Tudo bem. Eu te entendo. Posso dormir aqui novamente?

- Depois do que você me contou você pode até morar aqui! – falou ele preocupado. – Então, amanhã eu espero que você esteja acordado quando eu chegar…

- Pode ter certeza que sim.

- Certo.

Ele pegou as chaves do carro e me beijou na testa. Fiquei olhando até que ele saísse do apartamento. Fui até o banheiro e lavei meu rosto. Quando mirei-me no espelho notei que minhas feições tinham mudado. Era como se não existisse mais preocupação em minha mente, e eu finalmente estava livre. Sorri pra mim mesmo e fui até a cozinha preparar um sanduiche.

Comi o lanche assistindo televisão e assim que o programa acabou resolvi dormir. Mas eu resolvi fazer uma coisa ao mesmo tempo arriscada quanto boa. Continuei a caminhar e abri a porta do quarto de Doumeki. Nem pensei duas vezes e me joguei na cama. Deixando que o cheiro doce da pele dele me inebriasse os sentidos e me fizessem sonhar… sonhos eram uma das coisas que eu mais necessitava naquele momento…

Novamente acordei com os sons de pássaros e com a luz do sol a cegar meus olhos. Escondi meu rosto no travesseiro e fiquei imaginando se tudo que havia acontecido não tinha passado de um sonho bom. Mas o cheiro de Doumeki ainda estava ali, então a não ser que eu estivesse dormindo ainda não tinha sido apenas um sonho.

- Watanuki? – escutei a voz de Doumeki.

Levantei-me rapidamente e o encontrei sentado na cadeira da escrivaninha, mexendo no seu IMac. Bocejei infantilmente e perguntei:

- Que horas são?!

- Uma da tarde…

- Nossa! Acho que dormi demais.

- Sem dúvida. – ele respondeu.

Notei que havia algo estranho no seu tom de voz. Já não tinha mais aquele carinho e tranqüilidade, mas sim preocupação e medo. Meu estômago embrulhou e perguntei:

- Aconteceu alguma coisa Doumeki?!

- Sim. Minha paciente ontem… eu não consegui… ela… morreu em minhas mãos.

Me senti um pouco aliviado por não ser nada que me relacionasse. Mesmo assim levantei-me da cama e o abracei pelas costas, apoiando o queixo em seu ombro.

- Coisas assim acontecem… não foi culpa sua Doumeki… era a hora dela morrer, e não seria o melhor médico do mundo que mudaria isso!

- Obrigado pelo elogio, mas acho que você não vai ficar tão feliz quando souber quem era a mulher…

- Como assim?! – perguntei surpreso.

- Na bolsa que a mulher usava foram encontradas algumas coisas, entre elas os documentos e algumas fotos. Eu mesmo examinei o material e era você que aparecia nas fotos…

Meu coração gelou. Engoli em seco e soltei Doumeki. Ele virou a cadeira e me encarou nos olhos.

- Watanuki. Você conhece alguém chamada Yuuko Ichihara?!

O mundo desabou sobre meus pés. Meu corpo tremeu violentamente. Mesmo não tendo nada a ver com aquilo senti que meu nome estava envolvido na morte dela… na morte da minha mãe. Será mesmo que ela estava me procurando… talvez…

Eu queria tanto entender o porquê das pessoas fazerem coisas erradas. Isso nunca teve uma explicação lógica pra mim. Pelo menos até então. Mesmo sendo feliz eu nunca mais poderia sorrir e dizer:

- Eu amo minha mãe!

N/A: Yo

Mais um capítulo dark dessa fanfic. Tudo bem que eu não sou nenhuma maravilha escrevendo em primeira pessoa, mas achei que foi a primeira vez que não errei – muito – ao escrever nesse estilo. O sofrimento do Watanuki, e a dúvida dele em se abrir pro Doumeki foram realmente fabulosos…

Pros que acharam que foi muito fácil pros dois ficarem juntos prestem atenção: Doumeki procurava alguém pra dar carinho, pra cuidar. Quem melhor a não ser Watanuki, que convenhamos já estava caidinho por ele desde que acordou naquela linda manhã após ter sido salvo.

Como o próximo capítulo vai encerrar essa história eu vou tentar fazê-lo da melhor maneira possível. Todos já devem ter percebido o que vai acontecer agora que a "paciente" do Doumeki morreu.

Agradeço a todos que tiveram a boa vontade de ler e comentar essa fanfic, e espero que estejam curtindo ela até agora. Criticas também são aceitas…

Até semana que vem!