Rostos familiares preenchiam os assentos da nossa mesa predileta do almoço. Eu me sentei entre Ginny e Finch. Os outros lugares foram ocupados por Harry e seus companheiros da Sigma Tau. Era difícil ouvir alguma coisa com o barulho que fazia no refeitório, e o ar-condicionado parecia ter pifado de novo. O ar estava denso com o cheiro de comida frita e peles suadas, mas, de alguma forma, todo mundo parecia mais elétrico que de costume.

— Oi, Brazil — disse Harry, cumprimentando o cara sentado à minha frente. A pele bronzeada e os olhos cor de chocolate contrastavam com o boné branco do time de futebol americano da Eastern enterrado na testa.

— Senti sua falta depois do jogo no sábado, Harry. Bebi uma cerveja ou seis por você — disse ele, com um sorriso amplo e branco.

—Valeu. Levei Ginny para jantar — ele respondeu, inclinando-se para beijar o topo dos longos e ruivos cabelos dela.

— Você está sentado na minha cadeira, Brazil.

Brazil se virou, viu Percy parado atrás dele, depois olhou surpreso para mim.

— Ah, ela é uma das suas garotas, Percy?

— Definitivamente não —eu disse, balançando negativamente a cabeça. Ele olhou para Percy, que o encarava, esperando. Brazil deu de ombros e então levou a bandeja até a ponta da mesa. Percy sorriu para mim enquanto se ajeitava na cadeira.

— E aí, Hime?

— O que é isso? — perguntei, sem conseguir desviar o olhar da bandeja dele. Aquela comida misteriosa parecia um pedaço de cera.

Percy deu risada e bebeu um pouco de água.

— A moça do refeitório me dá medo. Não vou criticar as habilidades culinárias dela.

Não deixei de notar o olhar inquisitivo dos que estavam sentados à mesa. O comportamento de Percy estimulava a curiosidade deles, e contive um sorriso por ser a única garota que eles já tinham visto Percy insistir em ter sentada perto dele.

— Ai... a prova de biologia é depois do almoço — resmungou Ginny.

— Você estudou? — perguntei.

— Ah, não. Passei a noite jurando para o meu namorado que você não vai dormir com o Percy.

Os jogadores de futebol americano sentados na ponta da nossa mesa interromperam suas risadas idiotas para nos ouvir com mais atenção, fazendo com que os outros alunos percebessem.

Olhei furiosa para Ginny, mas ela estava distraída, cutucando Harry com o ombro.

— Meu Deus, Harry. Você está mal, hein? — Percy exclamou, jogando um pacotinho de ketchup no primo. Percy não respondeu, sorri, agradecida por Percy ter conseguido desviar a

atenção.

Ginny esfregou as costas dele.

— Ele vai ficar bem. Só vai levar um tempinho para ele acreditar que Hermione consegue resistir ao seu poder de sedução.

— Não tentei seduzir Hermione. — Percy torceu o nariz, parecendo ofendido. — Ela é minha amiga.

Olhei para o Harry.

— Eu disse que você não tinha nada com que se preocupar.

Por fim Harry me encarou e, ao ver minha expressão sincera, os olhos dele ganharam um pouquinho de brilho.

— E você, estudou? — Percy me perguntou.

Franzi a testa.

— Não importa quanto eu estude. Biologia simplesmente não entra na minha cabeça.

Percy se levantou.

— Vem comigo.

— O quê?

— Vamos pegar o seu caderno. Vou te ajudar a estudar.

— Percy...

— Levante a bunda daí, Hime. Você vai gabaritar essa prova.

Puxei de leve uma das longas tranças ruivas de Ginny quando passei por ela.

— Vejo você na aula, Gi.

Ela sorriu.

— Vou guardar um lugar pra você. Vou precisar de toda ajuda possível.

Percy foi comigo até o meu quarto e peguei o livro de biologia, enquanto ele abria meu caderno. Ele me fazia perguntas sobre a matéria e depois esclarecia os pontos que eu não tinha entendido. Do jeito que ele explicava, os conceitos partiam do confuso para o óbvio.

— ... e as células somáticas usam a mitose para se reproduzir. Aí é que entram as fases, que formam um nome esquisito: Prometa Anatelo.

Dei risada.

— Prometa Anatelo?

— Prófase, metáfase, anáfase e telófase.

— Prometa Anatelo — repeti, assentindo.

Ele bateu no alto da minha cabeça com os papéis.

— Você entendeu. Você conhece esse livro de biologia de trás pra frente e de frente pra trás.

Soltei um suspiro.

— Bom... vamos ver.

— Vou andando com você até a classe e vou ficar lhe fazendo perguntas pelo caminho.

Tranquei a porta do quarto depois que saímos.

— Você não vai ficar bravo se eu for um fracasso total nessa prova, vai?

— Você não vai fracassar, Hime. Mas precisamos começar mais cedo da próxima vez — ele disse, mantendo o mesmo ritmo de caminhada que eu até o prédio de ciências.

— Como você vai ser meu tutor, fazer os trabalhos de faculdade, estudar e treinar para as lutas?

Percy deu uma risadinha abafada.

— Eu não treino para as lutas. O Adam me liga, me diz onde vai ser e eu vou.

Balancei a cabeça, incrédula, enquanto ele segurava o papel à sua frente para me fazer a primeira pergunta. Quase terminamos um segundo módulo do livro quando chegamos à sala de

aula.

— Manda ver! — ele sorriu e me entregou as anotações, apoiado no batente da porta.

— Ei, Percy.

Eu me virei e vi um cara alto, meio magricela, sorrir para Percy a caminho da classe.

— Parker — Travis cumprimentou-o com um aceno de cabeça.

Os olhos de Parker se iluminaram um pouquinho quando ele olhou para mim, sorrindo.

— Oi, Hermione.

— Oi — falei, surpresa por ele saber meu nome. Eu já o tinha visto na sala de aula, mas não tínhamos sido apresentados em momento algum.

Parker foi se sentar, fazendo piadas com quem estava ao lado.

— Quem é esse? — eu quis saber.

Percy deu de ombros, mas a pele em volta de seus olhos parecia mais tensa do que antes.

— Parker Hayes. É um dos meus companheiros da Sig Tau.

— Você faz parte de uma fraternidade? — perguntei, em tom de dúvida.

— Sigma Tau, a mesma que o Harry. Achei que você soubesse — disse ele, olhando para Parker atrás de mim.

— Bom... você não parece o tipo de cara que... participa de fraternidades — comentei.

Percy voltou à atenção para mim e abriu um sorriso.

— Meu pai se formou aqui, e meus irmãos todos foram da Sig Tau. É um lance de família.

— E eles esperavam que você entrasse para a fraternidade? — perguntei, cética.

— Na verdade, não. Eles só são bem-intencionados — Percy respondeu, dando um peteleco nos meus papéis. — É melhor você entrar na sala.

— Obrigada pela ajuda — eu disse, cutucando-o com o cotovelo.

Ginny passou pela gente e fui atrás dela até o nosso lugar.

— Como foi? — ela perguntou.

Dei de ombros.

— Ele é um bom tutor.

— Só um tutor?

— Ele é um bom amigo também.

Ela parecia decepcionada, e dei uma risadinha com a expressão de derrota em seu rosto. O sonho de Ginny sempre fora que namorássemos amigos, e primos que dividem o apartamento,

para ela, era como achar o pote de ouro no fim do arcoíris. Ela queria que dividíssemos um quarto quando decidimos vir para a Eastern, mas fui contra a ideia, na esperança de ter um

pouco de liberdade, de poder abrir um pouco as asas. Assim que ela parou de fazer bico, se concentrou em achar um amigo de Harry para me apresentar. O interesse saudável de Percy em

mim tinha ido além das expectativas dela.

Fiz a prova com a maior facilidade e me sentei nos degraus do prédio da faculdade, esperando por Ginny. Quando ela desabou ao meu lado, derrotada, esperei que ela falasse.

— Que prova foi aquela! — ela gritou.

— Você devia estudar com a gente. Percy sabe explicar a matéria muito bem.

Ginny soltou um resmungo e deitou a cabeça no meu ombro.

— Você não me ajudou em nada! Não podia ter feito um sinal com a cabeça ou algo do gênero?

Eu a abracei e fui caminhando com ela até o nosso dormitório.

Na semana seguinte, Percy me ajudou com o trabalho de história e foi meu tutor em biologia. Fomos juntos olhar o quadro de notas ao lado da sala do professor Campbell. Meu nome aparecia em terceiro lugar.

— A terceira nota mais alta da classe! Que legal, Hime! — ele disse, me abraçando.

Os olhos de Percy estavam brilhando de animação e orgulho, e uma sensação embaraçosa me fez recuar um passo.

— Valeu, Percy. Eu não teria conseguido sem você — falei, dando um puxão na camiseta dele.

Ele me jogou por cima do ombro, abrindo caminho em meio à multidão atrás de nós.

— Abram caminho, pessoal! Abram caminho para o cérebro gigantesco desta pobre mulher! Ela é um gênio!

Dei risada ao ver as expressões divertidas e curiosas dos meus colegas de classe. Conforme os dias foram se passando, tivemos que lidar com os persistentes rumores sobre um relacionamento. A reputação de Percy ajudou a calar as fofocas. Ele nunca fora conhecido por ficar com uma garota mais do que uma noite, então, quanto mais éramos vistos juntos, mais as pessoas entendiam que nosso relacionamento era platônico. Mesmo com as constantes perguntas sobre nosso envolvimento, Percy continuou recebendo a usual atenção das outras alunas. Ele continuou a se sentar ao meu lado nas aulas de história e a comer comigo na hora do almoço. Não demorei muito para perceber que estivera errada em relação a ele, me sentindo até propensa a defendê-lo daqueles que não o conheciam como eu.

No refeitório, Percy colocou uma lata de suco de laranja na minha frente.

— Você não precisava fazer isso. Eu ia pegar uma — falei, tirando a jaqueta.

— Bom, agora você não precisa mais — disse ele, fazendo aparecer à covinha da bochecha esquerda.

Brazil soltou uma risada de deboche.

— Ela transformou você em um empregadinho pessoal, Percy? Qual vai ser a próxima, abanar a menina com uma folha de palmeira, vestindo uma sunga?

Percy olhou para ele com ódio assassino, e me apressei a defendê-lo.

— Você não tem o suficiente nem para preencher uma sunga, Brazil...

— Pega leve, Hermione! Eu estava brincando. — Brazil respondeu, erguendo as mãos em sinal de paz.

— Só... não fale assim dele — retruquei, franzindo a testa.

A expressão do Percy era um misto de surpresa e gratidão.

— Agora eu vi de tudo na vida. Uma garota acabou de me defender — disse ele, se levantando. Antes de sair carregando a bandeja, ele lançou mais um olhar furioso para Brazil, depois se juntou a um pequeno grupo de fumantes do lado de fora do prédio.

Tentei não ficar olhando para Percy enquanto ele ria e conversava. Todas as garotas do grupo competiam de forma sutil pelo espaço ao lado dele, e Ginny me cutucou quando percebeu

que minha atenção estava em outro lugar.

— O que você está olhando, Hermione?

— Nada. Não estou olhando nada.

Ginny pôs o queixo na mão e balançou a cabeça.

— Elas são tão óbvias. Olhe aquela loira. Ela já passou as mãos no cabelo tantas vezes quantas já piscou. Fico me perguntando se o Percy não se cansa disso. Harry assentiu.

— Mas ele se cansa sim. Todo mundo acha que ele é um babaca, mas se soubessem a paciência que ele tem para lidar com cada uma dessas garotas que pensam que podem domá-lo... Ele não consegue ir pra nenhum lugar sem ter várias no pé. Acreditem em mim, ele é muito mais educado do que eu seria no lugar dele.

— Ah, como se você não fosse adorar essa bajulação! — Ginny exclamou, beijando o rosto de Harry.

Pery estava terminando de fumar do lado de fora do refeitório quando passei por ele.

— Espere aí, Hime, vou com você até a sala.

— Não precisa, Percy. Eu sei chegar lá sozinha.

Ele se distraiu com uma garota de longos cabelos negros e saia curta que passava e sorriu para ele. Ele a seguiu com os olhos e fez um aceno de cabeça na direção dela, jogando o cigarro

no chão.

— Depois a gente se fala, Hime.

— Tá — falei, revirando os olhos enquanto ele corria para alcançar a garota.

O lugar de Percy continuou vazio durante a aula, e fiquei irritada com ele por faltar à aula por causa de uma garota que ele nem conhecia. O professor Chaney nos dispensou mais cedo, e

atravessei o gramado correndo, pois tinha que me encontrar com Finch as três para lhe entregar as anotações de avaliação musical de Sherri Cassidy. Olhei para o relógio e acelerei o passo.

—Hermione!

Parker se apressou pelo gramado para caminhar ao meu lado.

— Acho que não fomos oficialmente apresentados — ele me disse, estendendo a mão. — Parker Hayes.

Cumprimentei-o e sorri.

— Hermione Granger.

— Eu estava atrás de você quando você viu sua nota na prova de biologia. Parabéns — ele sorriu, enfiando as mãos nos bolsos.

— Obrigada. O Percy me ajudou. Se ele não tivesse feito isso, com certeza meu nome estaria no fim da lista.

— Ah, vocês dois são...

— Amigos.

Parker assentiu e sorriu.

— Ele te falou sobre uma festa que vai ter na casa nesse fim de semana?

— Geralmente conversamos sobre biologia e comida.

Ele riu.

— Isso é a cara do Percy.

Na porta do Morgan Hall, Parker ficou analisando o meu rosto.

— Você devia ir à festa. Vai ser divertido.

— Vou falar com Ginny. Acho que não temos nenhum plano para o fim de semana.

— Vocês só saem em dupla?

— Fizemos um pacto nesse verão. Nada de ir a festas sozinhas.

— Decisão inteligente — ele assentiu em aprovação.

— Ela conheceu o Harry durante a orientação, então acabamos não saindo muito juntas. Essa vai ser a primeira vez que vou precisar chamar a Ginny pra sair, e tenho certeza que ela vai ficar feliz em ir.

Eu me contorci por dentro. Não só estava tagarelando como deixei claro que não costumava ser convidada para festas.

— Ótimo. Vejo você lá então — ele disse, abrindo um sorriso perfeito de modelo da Banana Republic, com o maxilar quadrado e a pele naturalmente bronzeada.

Depois se virou para cruzar o campus. Fiquei olhando enquanto ele ia embora; Parker era alto,

de barba feita, vestia uma camisa risca de giz bem passada e calça jeans. Os cabelos loiro-escuros e ondulados balançavam enquanto ele caminhava.

Mordi o lábio, lisonjeada com o convite.

— Ah, ele sim é mais a sua cara — disse Finch no meu ouvido.

— Ele é uma gracinha, né? — perguntei, sem conseguir parar de sorrir.

— Ô, se é! Uma gracinha bem naquela posição básica de papai e mamãe, isso sim!

— Finch! — gritei, dando um tapa no ombro dele.

— Você pegou as anotações da Sherri?

— Peguei — respondi, tirando-as da mochila.

Ele acendeu um cigarro, segurou-o entre os lábios e franziu os olhos para ver os papéis.

— Impressionante! — exclamou, dando uma olhada nas páginas. Depois as dobrou, enfiou no bolso e deu mais uma tragada no cigarro. — Que bom que as caldeiras do Morgan não estão funcionando. Você vai precisar mesmo de um banho frio depois do olhar provocante daquele pedaço de mau caminho.

— O dormitório está sem água quente? — reclamei.

—É o que estão dizendo — falou Finch, deslizando a mochila por sobre o ombro. — Estou indo pra aula de álgebra. Diz pra Gi que falei pra ela não esquecer de mim nesse fim de semana.

— Tá bom — resmunguei, olhando desanimada para as paredes de tijolo antigas do nosso dormitório.

Subi até o quarto pisando duro, empurrei a porta e entrei, deixando a mochila cair no chão.

— Não temos água quente — Kara murmurou da escrivaninha.

— Já me falaram.

Meu celular vibrou e o abri em um toque — era uma mensagem de texto de Ginny amaldiçoando as caldeiras. Alguns instantes depois, alguém batia à porta. Ginny entrou e se jogou na minha cama, de braços cruzados.

— Dá pra acreditar nessa merda? Pagamos uma fortuna e não podemos nem tomar um banho quente?

Kara soltou um suspiro.

— Pare de choramingar. Por que você não vai ficar com o seu namorado? Não é o que você tem feito mesmo?

Ginny voltou o olhar rapidamente na direção da minha colega de quarto.

— Boa ideia, Kara. O fato de você ser uma vaca vem a calhar às vezes.

Kara continuou olhando para o monitor do computador, sem se abalar com o ataque.

Ginny pegou o celular e digitou uma mensagem de texto com velocidade e precisão incríveis. O celular vibrou e ela sorriu para mim.

— Nós vamos ficar no apartamento do Harry e do Percy até consertarem as caldeiras.

— O quê? Eu não vou! — gritei.

— Ah, vai sim! Não tem por que você ficar presa aqui, congelando no chuveiro, quando eles têm dois banheiros no apê deles.

— Mas eu não fui convidada.

— Eu estou convidando você. O Harry já falou que tudo bem. Você pode dormir no sofá... se o Percy não for usar.

— E se ele for?

Ginny deu de ombros.

— Aí você pode dormir na cama dele.

— De jeito nenhum!

Ela revirou os olhos.

— Não seja infantil, Hermione. Vocês são amigos, certo? Se ele não tentou nada até agora, acho que não vai tentar.

As palavras dela me fizeram calar a boca na hora. Percy tinha ficado perto de mim de uma forma ou de outra todas as noites durante semanas. Estive tão ocupada me certificando de que todo mundo soubesse que éramos apenas amigos que não me ocorreu que ele realmente estava interessado somente em nossa amizade. Eu não sabia ao certo o motivo, mas me senti insultada.

Kara nos olhou com descrença.

— Percy Jackson não tentou levar você pra cama?

— Nós somos amigo! — falei em tom defensivo.

— Eu sei, mas ele nem tentou? Ele já transou com todo mundo...

— Menos com a gente — disse Ginny, olhando para ela.

— E com você.

Kara deu de ombros.

— Bom, nunca nem o conheci, só ouvi falar dele.

— Exatamente — retruquei. — Você nem conhece o Percy.

Kara voltou a olhar para o monitor, ignorando nossa presença. Soltei um suspiro.

— Tudo bem, Gi. Preciso arrumar uma mala.

— Coloque coisas para alguns dias. Vai saber quanto tempo vão levar para consertar as caldeiras — ela disse, completamente animada.

O medo tomou conta de mim, como se eu estivesse prestes a entrar sorrateiramente em território inimigo.

—Ai... tudo bem.

Ginny deu pulinhos e me abraçou.

— Isso vai ser tão divertido

Meia hora depois, colocamos nossas malas no Honda dela e nos dirigimos para o apartamento dos meninos. Ginny mal respirava entre suas divagações enquanto dirigia. Tocou a buzina

quando diminuiu a velocidade e parou no estacionamento, na vaga de sempre. Harry desceu apressado os degraus, pegou nossas malas e foi atrás de nós enquanto subíamos as escadas.

— A porta está aberta — disse ele, ofegante.

Ginny empurrou a porta e a segurou aberta. Harry resmungou quando largou nossa bagagem no chão.

— Nossa! Sua mala pesa uns dez quilos a mais que a da Hermione!

Ginny e eu ficamos paralisadas quando uma mulher saiu do banheiro, abotoando a blusa.

— Oi—disse ela, surpresa.

Os olhos manchados de rímel nos examinaram antes de pousarem na nossa bagagem. Eu a reconheci: era a morena de pernas longas que Percy tinha seguido do refeitório. Ginny lançou um olhar fulminante para Harry, que ergueu as mãos e disse:

— Ela está com o Percy!

Percy surgiu de cueca e bocejou. Ele olhou para sua convidada e lhe deu uma tapinha na bunda.

— Minhas amigas chegaram. É melhor você ir embora.

Ela sorriu e o abraçou, beijando-o no pescoço.

— Vou deixar o número do meu telefone na bancada da cozinha.

— Hum... não precisa — ele respondeu em tom casual.

— O quê? — ela perguntou, reclinando-se para olhar nos olhos dele.

— Toda vez é a mesma coisa! — Ginny disse e olhou para a mulher. — Como você pode ficar surpresa com isso? Ele é a droga do Percy Jackson! O cara é famoso exatamente por isso, e todas

às vezes vocês ficam surpresas! — disse ela, voltando-se para Harry, que a abraçou fazendo um gesto para que ela se acalmasse.

A garota franziu os olhos para Percy, pegou a bolsa e saiu tempestivamente, batendo a porta com força. Ele entrou na cozinha e abriu a geladeira, como se nada tivesse acontecido.

Ginny balançou a cabeça e seguiu pelo corredor. Harry foi atrás dela, fazendo um ângulo com o corpo para compensar o peso da mala dela enquanto seguia a namorada.

Eu me joguei na cadeira reclinável e suspirei, me perguntando se era maluca por concordar em vir. Não tinha me tocado que o apartamento do Harry tinha alta rotatividade de periguetes sem noção.

Percy estava sorrindo, parado atrás da bancada da cozinha, com os braços cruzados sobre o peito.

— Qual o problema, Hime? Dia ruim?

— Não, só estou completamente indignada.

— Comigo?

Ele sorria. Eu devia saber que ele estava esperando por essa conversa. Isso só me atiçou a falar.

— É, com você. Como você pode usar alguém assim, trata-la desse jeito?

— Como foi que eu a tratei? Ela quis me dar o número do telefone, eu não aceitei.

Meu queixo caiu com a ausência de remorso dele.

— Você pode transar com a garota, mas não pode pegar o número do telefone dela?

Percy apoiou os cotovelos na bancada.

— Por que eu ia querer o número dela se não vou ligar?

— Por que você foi pra cama com ela se não vai ligar?

— Não prometo nada pra ninguém, Hime. Ela não exigiu relacionamento sério antes de abrir as pernas no meu sofá.

Olhei com nojo para o sofá.

— Ela é filha de alguém, Percy. E se, no futuro, alguém tratar a sua filha desse jeito?

— É melhor a minha filha não sair por aí tirando a roupa pra qualquer idiota que ela acabou de conhecer.

Cruzei os braços com raiva, porque o que ele tinha dito fazia sentido.

— Então, além de admitir que você é um idiota, está dizendo que, por ela ter dormido com você, merece ser enxotada como um gato de rua?

— Estou dizendo que fui honesto com ela. Ela é adulta, foi consensual... E ela não hesitou nem por um segundo, se você quer saber. Você esta agindo como se eu tivesse cometido um

crime.

— Ela não parecia saber das suas intenções, Percy.

— As mulheres em geral justificam seus atos com coisas da cabeça delas. Ela não me disse logo de cara que esperava um relacionamento, assim como eu não disse a ela que esperava sexo casual. Qual é a diferença?

— Você é um canalha.

Percy deu de ombros.

— Já fui chamado de coisa pior.

Fiquei encarando o sofá, com as almofadas ainda fora de lugar e amontoadas por causa do uso recente. Eu me contorci só de pensar em quantas mulheres haviam se entregado a ele ali, sobre o tecido — que pinicava, além de tudo.

— Acho que vou dormir aqui na cadeira reclinável mesmo — murmurei.

— Por quê?

Fulminei Percy com o olhar, furiosa com sua expressão confusa.

— Não vou dormir naquela coisa! Só Deus sabe em cima do que eu estaria dormindo!

Ele ergueu minha bagagem do chão.

— Você não vai dormir aí na cadeira nem no sofá. Vai dormir na minha cama.

— Que deve ser ainda menos higiênica do que o sofá, com certeza.

— Nunca levei ninguém para a minha cama.

Revirei os olhos.

— Dá um tempo!

— Estou falando muito sério. Eu durmo com elas no sofá. Não deixo que entrem no meu quarto.

— Então por que eu posso ficar na sua cama?

Ele ergueu um canto da boca em um sorriso malicioso.

— Está planejando transar comigo hoje à noite?

— Não!

— Eis o porquê. Agora levante daí, vá tomar um banho quente e depois vamos estudar um pouco de biologia.

Olhei irritada para ele por um instante e então, relutante, fiz o que ele mandou. Fiquei embaixo do chuveiro por bastante tempo, deixando que a água levasse embora a minha raiva. Massageando o xampu no cabelo, soltei um suspiro pela sensação maravilhosa de estar em um banheiro não comunitário novamente — nada de chinelos e sacola com as coisas de banho,

apenas a mistura relaxante de vapor e água.

A porta se abriu e dei um pulo.

— Ginny?

— Não, sou eu — disse Percy.

Automaticamente envolvi com os braços as partes do corpo que não queria que ele visse.

—O que você está fazendo sai daqui!

— Você esqueceu de pegar a toalha, e eu trouxe suas roupas, sua escova de dente e um creme facial esquisito que achei na sua bolsa.

— Você mexeu nas minhas coisas? — perguntei, com um gritinho meio agudo.

Ele não respondeu. Em vez disso, ouvi Percy abrir a torneira e começar a escovar os dentes: Dei uma espiada pela cortina de plástico, mantendo-a junto ao peito.

— Vai embora, Percy.

Ele ergueu o olhar para mim, com os lábios cobertos de espuma da pasta de dentes.

— Não posso dormir sem escovar os dentes.

— Se você chegar a meio metro dessa cortina, vou arrancar seus olhos quando você estiver dormindo.

— Não vou espiar, Hime — disse ele, dando uma risadinha.

Fiquei esperando debaixo da água com os braços bem apertados em volta do peito. Ele cuspiu, bochechou, cuspiu de novo e depois a porta se fechou. Eu me enxaguei, me sequei o mais rápido possível, vesti a camiseta e o short, coloquei os óculos e penteei o cabelo. Vi o hidratante de uso noturno que Percy tinha levado até o banheiro e não consegui conter um sorriso. Ele era atencioso e quase gentil quando queria.

Percy abriu a porta de novo.

— Anda logo, Hime, vou apodrecer de tanto esperar aqui!

Joguei meu pente nele, mas ele conseguiu desviar, fechando a porta e rindo sozinho até chegar ao quarto. Escovei os dentes e fui arrastando os pés pelo corredor. No caminho, passei pelo quarto de Harry.

— Boa noite, Hermione — disse Ginny do escuro.

— Boa noite, Gi.

Hesitei antes de bater duas vezes, suavemente, na porta do quarto de Percy.

— Entra, Hime. Não precisa bater.

Ele abriu a porta e eu entrei. Vi a cama de ferro preta disposta paralelamente às janelas do outro lado do quarto. Nas paredes não havia nada além de um sombreiroacima da cabeceira da cama. Eu meio que esperava que o quarto dele estivesse repleto de pôsteres de mulheres peladas, mas não havia nem uma propaganda de cerveja. A cama era preta; o carpete, cinza, e tudo o mais no quarto era branco. Parecia que ele tinha acabado de se mudar.

— Gostei do pijama — disse Percy, a me ver com meu short xadrez amarelo e azul-marinho e a camiseta cinza da Eastern. Ele se sentou na cama e deu umas batidinhas no travesseiro a seu lado. — Bem, pode vir. Não vou te morder.

— Não tenho medo de você — falei, indo até a cama e largando o livro de biologia ao lado dele. — Você tem uma caneta?

Ele apontou com a cabeça para a mesa de cabeceira.

— Na gaveta de cima.

Eu me estendi até o outro lado da cama, abri a gaveta e achei três canetas, um lápis, um tubo de KY e um pote de vidro do qual transbordavam diferentes marcas de camisinha. Revoltada,

peguei a caneta e fechei a gaveta com força.

— Que foi? — ele quis saber, virando uma página do livro.

— Você assaltou um posto de saúde?

— Não, por quê?

Tirei a tampa da caneta, sem conseguir esconder a expressão indignada.

— Por causa do seu suprimento de camisinhas pra uma vida inteira.

— É melhor prevenir do que remediar, certo?

Revirei os olhos. Percy se voltou às páginas, e um sorriso zombeteiro surgiu em seus lábios. Ele leu as anotações para mim, ressaltando os pontos principais enquanto me fazia perguntas

e, com paciência, me explicava o que eu não entendia. Depois de uma hora, tirei os óculos e esfreguei os olhos.

— Estou acabada. Não consigo memorizar nem mais uma macromolécula.

Percy sorriu e fechou o livro.

— Tudo bem.

Parei um pouco, sem saber como dormiríamos. Percy saiu do quarto, cruzou o corredor e falou algo ininteligível para Harry no quarto dele antes de ligar o chuveiro. Virei às cobertas

e puxei-as até o pescoço, ouvindo o chiado agudo da água no encanamento.

Dez minutos depois, a água parou de correr e ouvi o assoalho ranger sob os passos de Percy. Ele entrou no quarto com uma toalha enrolada nos quadris. Fiquei de costas para Travis enquanto ele deixava a toalha cair na frente da cômoda e vestia a cueca. Depois desligou a luz e deitou na cama ao meu lado.

—Você vai dormir aqui também? — perguntei, me virando para olhar para ele.

A lua cheia refletia através da janela e lançava sombras no rosto dele.

— Bem, vou. Aqui é minha cama.

— Eu sei, mas eu...

Parei de falar por um instante. Minhas únicas opções eram o sofá ou a cadeira reclinável.

Percy abriu um sorriso e balançou a cabeça.

— Não confia em mim ainda? Juro que vou me comportar muito bem — disse, levantando os dedos de um modo que tenho certeza de que os escoteiros nunca consideraram usar para fazer

um juramento.

Não discuti, simplesmente me virei e descansei a cabeça no travesseiro, enfiando as cobertas atrás de mim a fim de criar uma barreira clara entre o corpo dele e o meu.

— Boa noite, Hime. — ele sussurrou no meu ouvido.

Eu podia sentir seu hálito de menta na minha face, o que fez cada centímetro do meu corpo arrepiar. Ainda bem que estava muito escuro e ele não pôde ver minha reação embaraçosa,

ou o rubor que tomou conta do meu rosto logo em seguida.

Parecia que eu tinha acabado de fechar os olhos quando ouvi o despertador estiquei-me para desligá-lo, mas puxei a mão de volta horrorizada ao sentir uma pele morna sob os dedos. Tentei

lembrar onde estava. Quando dei por mim, fiquei mortificada de que Percy pudesse pensar que eu tinha feito isso de propósito.

— Percy? O despertador. — sussurrei para ele, que não se mexia. —Percy! — repeti, cutucando-o.

Como ele ainda não se mexia, estiquei a mão por cima dele, tateando sob a iluminação fraca até sentir a parte de cima do despertador. Não sabendo ao certo como desligá-lo, bati no relógio até acertar o botão de soneca, depois caí bufando no travesseiro.

Percy deu uma risadinha.

— Você estava acordado?

— Prometi que ia me comportar. Não falei nada sobre deixar você se deitar em cima de mim.

— Eu não me deitei em cima de você — protestei. — Eu não conseguia alcançar o relógio. Esse deve ser o alarme mais irritante que já ouvi em toda minha vida! Parece o som de um animal

morrendo!

Ele estendeu a mão e apertou um botão.

— Quer tomar café?

Olhei irritada para ele e balancei a cabeça em negativa.

— Não estou com fome.

— Bom, eu estou. Por que você não vai comigo de moto até a cafeteria?

— Acho que eu não consigo lidar com a sua falta de habilidade na direção tão cedo pela manhã — respondi.

Girei os pés até a lateral da cama e os enfiei nos chinelos, arrastando-me até a porta.

— Aonde você vai? — ele quis saber.

— Vou me vestir e ir pra aula. Você precisa de um itinerário meu enquanto eu estiver aqui?

Percy se espreguiçou e então veio andando na minha direção, ainda de cueca.

— Você é sempre tão temperamental assim, ou isso vai parar quando você acreditar que eu não estou arquitetando nenhum plano para transar com você?

Então ele colocou as mãos em concha nos meus ombros e senti seus polegares acariciarem minha pele.

— Eu não sou temperamental.

Ele se inclinou mais próximo de mim e sussurrou ao meu ouvido:

— Não quero transar com você, Hime. Gosto demais de você para isso.

Então foi caminhando até o banheiro. Fiquei parada, perplexa. As palavras de Kara ficavam se repetindo na minha cabeça. Percy Jackson transava com qualquer uma; eu não conseguia

evitar a sensação de inferioridade ao saber que ele não tinha vontade nem de tentar transar comigo.

A porta se abriu de novo, e Ginny foi entrando.

— Acorda, dorminhoca! — disse ela, sorrindo e bocejando.

— Você está parecendo sua mãe, Ginny — resmunguei, revirando a mala.

— Aaah... alguém passou a noite em claro?

— Ele mal respirou na minha direção — falei, em tom azedo.

Um sorriso sagaz iluminou o rosto de Ginny.

—Ah.

— Ah, o quê?

— Nada — disse ela, voltando ao quarto de Percy.

Percy estava na cozinha, cantarolando uma música qualquer enquanto preparava ovos mexidos.

— Tem certeza que não quer um pouco? — ele me perguntou.

— Tenho sim. Mas obrigada.

Harry e Ginny entraram na cozinha, e Harry tirou dois pratos do armário, segurando-os enquanto Percy colocava uma pilha de ovos fumegantes em cada um. Percy pôs os pratos na bancada, e ele e Ginny se sentaram lá juntos, saciando outro tipo de apetite, já que muito provavelmente tinham se saciado em outros termos na noite anterior.

— Não me olhe assim, Harry. Sinto muito, eu só não quero ir - disse Ginny.

— Querida, a Casa dá uma festa de casais duas vezes por ano

— ele falou enquanto mastigava. — Falta um mês ainda. Você vai ter muito tempo para achar um vestido e fazer todas essas coisas de garotas.

— Eu iria, Harry... É muito fofo da sua parte... Mas não conheço ninguém lá.

— Um monte de garotas que vai na festa não conhece um monte de gente que vai estar lá — disse ele, surpreso com a rejeição dela.

Ginny desabou na cadeira.

— As vadiazinhas das irmandades são convidadas pra essas coisas. Todas elas se conhecem... Vai ser estranho.

— Ah, não, Ginny. Não quero ir sozinho nessa festa.

— Bom... talvez se você encontrasse alguém para levar a Hermione na festa — disse ela, olhando para mim e depois para o Percy.

Percy ergueu uma sobrancelha e Harry balançou a cabeça em negativa.

— Percy não vai em festa de casais. É o tipo de festa em que você leva à namorada... e o Percy não... você sabe.

Ginny deu de ombros.

— A gente podia arranjar alguém pra ir com ela.

Franzi os olhos para ela.

— Eu estou escutando, sabia?

Ginny fez a cara para a qual sabia que eu não conseguia dizer não.

— Por favor, Hermione. A gente vai achar um cara legal e divertido, e eu te garanto que vai ser um gato. Juro que você vai se divertir! Quem sabe você até fique com ele...

Percy jogou a frigideira na pia.

— Eu não disse que não vou levar Hermione na festa.

Revirei os olhos.

— Não me faça nenhum favor, Percy.

— Não foi isso que eu quis dizer, Hime. Festas de casais são para os caras com namorada, e todo mundo sabe que eu não namoro. Mas não vou ter que me preocupar com a possibilidade de você esperar um anel de noivado depois da festa.

Ginny fez biquinho.

— Por favor, por favor, Hermione!

— Não olhe pra mim desse jeito! — reclamei. — O Percy não quer ir, eu não quero ir... Não vamos nos divertir.

Percy cruzou os braços e se apoiou na pia.

— Eu não disse que não queria ir. Acho que seria divertido se nós quatro fôssemos — ele deu de ombros.

Todos me olharam, e me encolhi.

— Por que não ficamos por aqui?

Ginny fez biquinho e Harry se inclinou para frente.

— Porque eu tenho que ir, Hermione. Sou veterano. Tenho que garantir que tudo corra direitinho na festa, que todo mundo tenha uma cerveja na mão, coisas do tipo.

Percy cruzou a cozinha e envolveu meus ombros com o braço, me puxando para o lado dele.

— Vamos lá, Hime. Você vai comigo à festa?

Olhei para Ginny, depois para o Harry e, por fim, para o Percy.

— Vou — suspirei.

Ginny soltou um gritinho e me abraçou. Depois senti a mão do Harry nas minhas costas.

— Valeu, Hermione! — ele disse.